23.3.16

 

 

Eanes Machel 2

Samora Machel e Ramalho Eanes

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Nobre povo

 

 

 

Quando o Presidente Ramalho Eanes visitou Moçambique em 1981 a expectativa local era imensa. Pela primeira vez desde a independência, que tinha sido só há seis anos, um presidente português visitava o país, havia espíritos claros e espíritos baralhados e houve ajustes de última hora a fazer. Do nosso lado, por exemplo, para o banquete oferecido por Eanes, em retribuição do banquete de boas vindas que Samora Machel, Presidente de Moçambique, lhe oferecera, o Protocolo do Estado em Lisboa fizera imprimir cartões de convite na boa cartolina do costume com espaço em branco onde os nomes dos convidados fossem depois escritos à mão na embaixada em Maputo: O Presidente da República/ tem a honra de convidar (espaço em branco), etc.. Os cartões chegaram felizmente alguns dias antes e, de entrada, o Protocolo não percebia ser preciso corrigir a asneira: então não era o Presidente que convidava? Era com certeza, mas não estava em Portugal e seria por isso preciso precisar que era o Presidente da República Portuguesa. Em Moçambique, “O Presidente da República”, sem mais nada, significaria Samora Machel ou, pior, daria a entender que Portugal não se dera ainda bem conta da volta dada pelo mundo.

 

Do lado moçambicano o equívoco foi muito diferente e muito maior. Chovia a potes no dia em que Eanes chegou a Moçambique e em Moçambique chuva dá sorte. Animado, o povo saiu à rua sem necessidade do enquadramento e dos cantes da Frelimo, correntes à época para louvor de causas que o regime achasse nobres – “Vamos para a Tanzania/Agradecer ao Presidente Nyerere”, etc. -, aplaudindo e provavelmente esperançado que depois da chegada do presidente português chegasse outra vez comida. Não chegou mas, apesar disso, toda a gente, dum lado e doutro, achou a visita um sucesso. As relações entre Lisboa e Maputo nunca se estragaram e o actual Presidente de Moçambique foi o único chefe de estado dos PALOP convidado e presente na cerimónia de tomada de posse do novo presidente português.

 

Não sei se entendimento entre os povos nos está na massa do sangue ou não mas imprensa estrangeira especializada na coisa europeia, distante do ‘peito ilustre Lusitano’ e por isso mais ‘objectiva’, como os comunistas gostavam de dizer, tem, nos últimos dias, feito notar que, em contraste flagrante com os seus colegas da União, o nosso primeiro-ministro acha que não nos mandaram refugiados a mais mas sim a menos e pede que venha mais gente. Atitude de nobreza rara nesta tragédia dos fugitivos da guerra na Síria, quando tantos dos seus pares se levantaram contra Angela Merkel num espectáculo de falência moral equivalente à dos entusiastas de Donald Trump nos Estados Unidos. Contra a corrente, entendo que se vai chegar a alguma decência europeia porque amor do próximo lá levará. E não fará mal lembrar que entre os “retornados” havia muitos que nunca tinham estado em Portugal, muitos que não eram brancos, e muitos que eram muçulmanos e hindus. Nação valente e imortal.

 

 

 

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17.2.16

 

 

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 O busto devolvido de Winston Churchill

©afp/getty

 

 

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Dia Santo na loja?

 

 

 

 

O poeta mexicano Octávio Paz escreveu, famosamente: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”.

 

Vivi em Maputo entre 1981 e 1983, anos de grande penúria e muita gente a passar fome. Logo a seguir à independência, quase todos os portugueses tinham tido de se ir embora ficando a economia em muito mau estado e a autoridade dos chefes tradicionais era desrespeitada pelo triunfalismo dos quadros da Frelimo. A retórica do poder, anti-ocidental, anti-americana e disparatada proclamava que, guiado pelo marxismo, o país sairia do sub-desenvolvimento em quinze anos. Nas lojas faltava quase tudo. Num grande supermercado da Baixa da cidade com todas as prateleiras vazias salvo uma no meio da sala, cheia de pensos higiénicos para senhoras, lembrei-me de Octávio Paz. “Pobre Moçambique” ocorreu-me. “Tão longe de Deus e tão longe dos Estados Unidos”.

 

Passando para a Europa agora. Acabado o perigo que a União Soviética representava para os Estados Unidos, estes distraíram-se – haverá ainda quem se lembre do “fim da História”? – e, cereja em cima do bolo, em Janeiro de 2009 tomou posse em Washington presidente filho de pai queniano preto e mãe americana branca, nascido no Havai, jurista eloquente cujo hobby era a organização comunitária, avesso a guerras (o seu predecessor metera a América em duas, estúpidas e caras), que devolveu logo ao governo de Sua Majestade Britânica busto de Churchill oferecido a Bush filho (que o pusera na Sala Oval) e, para a celebração dos vinte anos da queda do muro, em vez de ir pessoalmente a Berlim mandou vídeo com discurso seu.

 

O afastamento da Europa não foi só obra sua: houve sempre em Washington políticos isolacionistas e desconfiados dos europeus mas a mistura desses sentimentos antigos com alheamento à Europa inédito em inquilino da Casa Branca não ajuda europeus (e americanos) convictos de que primazia norte americana no mundo, em entendimento forte com a Europa, seria a melhor garantia de paz, liberdade e decência pública imaginável no nosso tempo.

 

Ainda por cima, numa espécie de acerto de contas depois da derrota na Guerra Fria, Putin parece chegar e sobrar para Obama: está a ganhar perigosamente no tabuleiro da Síria devido à inépcia do outro. (Disse-se de Franklin Roosevelt que tinha uma inteligência de segunda mas um temperamento de primeira. Com Obama é o contrário).

 

Os Estados Unidos não se darem ao respeito é muito mau para a Europa. A União Europeia e, antes, a OTAN construíram-se porque Estaline nos aterrorizava e porque os Estados Unidos queriam barbacãs. Putin incomoda os europeus mas não os aterroriza e hoje os americanos não precisam de muralhas dessas – até dos Açores se livram. Ora, sem os americanos, os europeus não se saberão defender de quem os atacar - e mesmo sem ataques não sabem pôr-se na bicha quando é preciso fazê-lo (como se está desgraçadamente a ver quanto aos refugiados). O patrão está fora mas na loja o dia não é Santo – é maldito.

 

 

 

 

 

 

 

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6.1.16

 

 

Museu Nacional Arte Antiga.jpg

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Vontade nacional

 

 

 

“… parecer-me-ia muito interessante que escrevesse sobre um dos mais difíceis factores mensuráveis (?) do poder de um Estado - a vontade nacional. Onde está a nossa vontade nacional? Existe? Para onde caminha? O que se espera da nação? Ainda somos um estado-nação?”

 

Bom conselho de politóloga, se nos quisermos pôr a pau perante o que são Mundo, Europa, euro, democracia, desemprego, temperaturas, Maomé, Cristo, Buda, terroristas, velhos, refugiados, mulheres veladas e sem véu, passado, futuro. Embora eu olhe para o assunto de outro jeito por achar que a ciência política não ajuda muito a entendê-lo (nem a entendermo-nos a nós por via dele). Já a História ajuda, se for bem contada como foi, por exemplo, a da guerra do Peloponeso; histórias ajudam também, tal a de Anna Karenina ou as de outras infelicidades; versos; frescos; estátuas; música – e fica um ror sem fim por entender. Não é só coisa de hoje e de aqui. “Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução” escreveu o brasileiro Carlos Drummond de Andrade no dia de Natal de 1928.

 

Seremos ainda um estado-nação? Duas vezes na vida julguei entender do que é que essa questão trata. Primeira. Quando fui embaixador em Moçambique, cinco anos depois da independência, tinha na residência três criados moçambicanos. Lourenço, Jacinto e Salomão garantiam-me o serviço da casa; eu mantinha-os livres da sua liberdade. Um estado fizera reverência à boca de cena e retirara-se para deixar outro estado tomar conta do palco. Uma nação esboroara-se. Mas, quanto a nós os quatro, o ritual que nos regia continuava a ordenar o nosso mundo. (But to the four of us the center/ Holds escrevi eu então, a rematar versos de circunstância).

 

Segunda. O massacre islamita de 13 de Novembro passado, em Paris, foi planeado ao pormenor por residentes, alguns deles franco-árabes, do bairro bruxelense de Molenbeeck, lugar com tradição jiadista antiga – de lá saíram os assassinos do comandante Massoud do Afeganistão em 2001 – e ruas onde a polícia há décadas não põe pé. As polícias secretas europeias passam constantemente informações umas às outras e a investigação do massacre de Novembro mostrou que as autoridades belgas não tinham usado, ou tinham usado pateticamente mal, informação recebida; bem aproveitada poderia provavelmente ter impedido o massacre. Porque não há na Bélgica vontade nacional: flamengos e valões detestam-se; de alto abaixo, múltiplos níveis de decisão comunicam pouco e mal entre si; a disfunção do estado é permanente.

 

Em Maputo percebi que, em transições, anseio de ordem protegida encontrará maneira de se satisfazer, mesmo à custa de incongruências, porque de dentro para fora - do lugar onde dói – estas contam pouco.

 

Em Bruxelas percebi que boa-vai-ela tolerante de antijacobinos como eu não sabe defender-se de quem queira dar cabo dela. Caricatura premonitória de Europa sem estados-nação?

 

Entretanto, e como dantes, nós por cá todos bem.

 

 

 

 

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5.1.14

 

 

 

Sport Lisboa e Benfica 1966/1967

 

 

Postal reproduzido no livro Retrovisor, um Álbum de Família. Texto e outra foto neste blog aqui.

 

A crónica de Ferreira Fernandes Nunca passei por ele sem dizer "obrigado" aqui

 

O ensaio de Nuno Domingos As lutas pela memória de Eusébio aqui

 

Alexandre O'Neill sobre Eusébio aqui

 

Perfil de Eusébio aqui

 

 

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11.7.13

 

 

 

 

Um enorme jacaré de 4,5 m de comprido morto em 1910 pelo 2º tenente Almeida Pinheiro, imediato da canhoneira chaimite e por um sargento do mesmo navio em frente da praia da catembe (Lourenço Marques)*.

 

 

 

 

 

*Legenda manuscrita no verso da fotografia, gentilmente cedida por Laura Castro Caldas, a quem muito agradeço.
 
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2.5.13

 

Num conjunto muito variado de textos, Eduardo Côrte-Real discorre com simplicidade e humor sobre a descoberta doutras paisagens, povos e mentalidades à luz dos seus autores de cabeceira e da sua história pessoal de filho do Império: 

 

"nesta parte do mundo [Macau], os portugueses fizeram-se à vida sozinhos, verdade que nem sempre se conta, só isso já dá a dimensão da aventura de quem vai para a China, para a civilização mais antiga de todas, agora um gigantesco casino, com Moulin Rouge e tudo" ... "Em Moçambique o apartheid era uma realidade, nunca tive um colega de escola preto e fiz lá o liceu todo. Naquele tempo, entretido a crescer, não me parecia estranho. Os únicos pretos com quem falávamos eram os nossos criados — sete."

 

O Médio Oriente, a Rússia e a China registados pelo autor nos finais do século XX também já não são hoje exactamente os mesmos, e nesse subtil desfasamento reside outro dos interesses deste livro. 

 

 

 

 

 índice de capítulos aqui

 

 

Tive a sorte de viver, longamente, em três continentes - África, Ásia e Europa. O persa de Homero, esse ainda desconhecido dos eu­ropeus e, no entanto, a viver ao nosso lado, foi o meu best friend nesses idos. Também gosto imenso da América, tanto do norte como de al­guns países do sul, daqueles onde não mora o pecado como no Brasil, a glória portuguesa. Gosto de árabes — o que é raro nos europeus — uma matriz complicadíssima porque política e religião são do mesmo grupo de conceitos neles. [...] Não há lares de terceira idade na China, o filho mais velho toma conta dos pais até eles morrerem. É assim. Praticar o Li (o bom caminho) não é muito diferente das éticas gerais, religiosas ou ateias. Individuo versus Universo é a questão do confucionismo chinês. O Ocidente individualista deusificou a Humanidade - mais interessante para filosofar — que a abstração dessa alma coletiva chinesa, nunca individual. No confucionismo não há salvação isolada, egoísta, nem alminhas. O historiador, o antropólogo, o humanista ocidental europeu, o jornalista, levo-os a todos como se fosse a escova de dentes, se possível sem eurocentrismos que são só excesso de peso. Não é só fazer a mala. É saber ao que vamos.

 

Eduardo Côrte Real

in Vagamente à procura de Pasárgada (Introdução)

© RCP Edições 2012 

 

Leia o poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira aqui

 

 

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23.2.13

 

 

 

Elisa Silva Santos, Alice Ribeiro, Eduardo Silva Santos e Estolano Dias Ribeiro

Anos 20 do séc. XX

 

 

Vivi sempre com o desgosto de não ter conhecido este avô (nem o outro),e contavam-me pessoas que com ele privaram que era uma pessoa irresistivelmente encantadora. [...] Muito jovem foi trabalhar para Moçambique. Terá sido aí que estabeleceu uma amizade muito forte com Estolano Ribeiro, e trabalhado com ele, na Companhia do Boror de que também viria a ser accionista. A amizade com Estolano Ribeiro esteve na origem de uma relação de uma enorme familiaridade, madrinhas e afilhados para cá e para lá, e que ao fim de três gerações se mantém viva. Os dois amigos e as suas mulheres formaram um eixo que sustentou e relacionou afectos, entreajudas, o afirmar de um certo estilo/ espírito, mitologias – de que eu próprio fui herdeiro, como se fosse possível comungar de património genético por afinidade. [...]

 

 

Update 001

Não tropecei propriamente no registo de nascimento do meu avô. Andei laboriosamente à procura dele. Sabia que era escorpião, e a partir do registo de nascimento da minha mãe, que refere a idade dele, e da minha avó, determinei que ele tinha muito provavelmente nascido entre Outubro e Novembro de 1879. E ela em 9 de Setembro de 1894. Ouf! Seguiu-se uma segunda ida para a Torre do Tombo. A Torre do Tombo é uma experiência. A escala, os materiais, o silêncio. A função. Alguém na portaria dirigiu-se a mim como Sr. Investigador Shiii! Durante duas horas literalmente "lambi" não papel mas microfilme, dando à manivela nos registos paroquiais da Freguesia do Santíssimo Coração de Jesus. Rolo 1.538. Nada. Rolo 2.642. Outras freguesias. Rezei o responso a São Tomás de Vila Nova. E mesmo, mesmo, no fim dos registos, próximo da "data extrema", na margem do livro aparece um simples Eduardo. A próxima coisa em que os meus olhos pousaram, curiosamente, foi o nome Rozebel. Invadiu-me um sentimento de calma enorme, e de exaltação também. Agradeci ao Altíssimo ter-me finalmente levado aos meus.[…]

Preciso do casamento, e já agora do óbito. Seguiram-se 24 horas de alta voltagem. Estas descobertas deixam-me num estado quase febril, é o encontro com a verdade, os registos contam-me a verdadeira história, muito mais nítida e útil do que as minhas memórias e a tradição oral que carregava comigo há anos.

Logo de manhã: Conservatória. De uma assentada a transcrição do registo que já tinha visto, e logo a seguir o de casamento e o de óbito. Um manancial de informação e muitos recantos da minha história - e da deles - iluminados.

 

Joaquim Martinho

in 1912 um superalbum

Edição Súbita, Associação de Desenho e Cinema

©2012 Joaquim Martinho

aqui

 

 

 

Este livro dedicado a um neto, para um dia ele “saber de onde vem este avô”, reúne cerca de trinta membros da família do autor num mosaico de histórias dos últimos cem anos em Portugal. Alguns retratos e paisagens recordaram-me pessoas e ambientes do meu próprio passado e, a par do importante trabalho de transmissão às gerações seguintes, é neste reconhecimento que reside a meu ver o grande encanto dos álbuns de família dos outros*. Neste "superalbum" também apreciei particularmente o modo como o autor vai partilhando o seu work in progress e as reflexões que o mesmo lhe vai suscitando. 

 

 

* Mais sobre a fotografia vernacular aqui

 

 

 

 

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17.12.12

 

 

 

Quatro panorâmicas e figuras aguareladas de usos e costumes das cidades ou regiões representadas:

1a Panorâmica—Configuração da Entrada da Barra de Goa; 2/1 Panorâmica—Perspectiva da Praça de Dio vista do mar; 3ª Panorâmica—A entrada do Rio de Janeiro; 4ª Panorâmica—Vista da Ilha de Moçambique, tirada do seu porto. Séc. XVIII.

 

in Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

 

 

Nota:

Documento apresentado em exposição no Museu Militar de Lisboa integrada nas comemorações do V Centenário da Morte do Infante Dom Henrique, 1960.

 

 

  

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