14.9.16

 

 

 

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@ Percy Jackson 

 

 

 

 

 

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Deuses

 

 

 

 

Em igreja desafectada num lugarejo da Beira profunda, pedindo-se a vizinha chave para a abrir, amigos dos Pais descobriram estatueta magnífica de S. Sebastião do século XVII. Um ano depois, estando por perto, pediram outra vez à vizinha para lhes abrir a igreja – e não viram o S. Sebastião. Perguntaram se alguém o teria levado (passava-se isto há uns 80 anos e começara já a compra por dez reis de mel coado de obras de arte achadas na província portuguesa por citadinos astutos - pilhagem comparável às das Invasões Francesas do começo do século XIX, com a vantagem de as obras assim preservadas terem ficado em Portugal) mas nada da igreja fora entretanto vendido. De entrada, a vizinha nem percebia bem de que é que eles estavam a falar até, de repente, se fazer luz no seu espírito: “A gente capemo-lo e fizemos uma Santa Teresinha!”

 

O catolicismo cultivou os Santos e as Santas, alguns plasmados de anteriores figuras pagãs, amortecendo assim o choque brutal do monoteísmo - a invenção mais traumática e funesta da humanidade - na vida de cada um (e cada uma) de nós que com ele tivesse de lidar. Santos e Santas são cortesãos celestes, com acesso directo a Deus menos ou mais facilitado, desde Santos e Santas modernas sem cultos enraizados nas mentes dos fiéis às hipóstases mais celebradas da Senhora sua Mãe. Beatas (e beatos) estabelecem as suas intimidades. Uma de Reguengos, a quem mãe aflita com doença de filho viera pedir intervenção de Nossa Senhora de Fátima (de que a beata possuía imagem a que rezava), respondeu-lhe: “Deixa estar filha que eu, em chegando a casa, caio-me lá com a minha Periquita!”. Às vezes, como entre humanos, as coisas dão para o torto: o meu amigo Fernando viu numa igreja de Luanda mulher de pé em cima de um banco insultando em kiluanda imagem de Nossa Senhora do Carmo, por esta não ter cumprido a sua parte de um acordo.

 

As coisas passavam-se assim com Deuses e Deusas quando toda a gente tinha vários. Era o caso - para escolher sociedade evoluída - da civilização romana com quem os cristãos tiveram problemas, não por terem Deus diferente, tal não aquecia nem arrefecia os romanos, mas por não admitirem existência de Deuses dos outros. A intolerância não foi inventada pelos monoteístas mas foi dotada por eles de superioridade moral. Desde as origens no Próximo Oriente as chacinas não pararam. Mas salvo em casos especiais – judeus ortodoxos, Tea Partiers americanos, waabistas - as três grandes religiões reveladas parecem hoje menos viradas para o proselitismo, mormente a Hebraica quiçá por ter sido mais maltratada do que as outras duas. A Cristã chega a roçar o agnosticismo. Mais novo, o Islão dá fiéis cheios de sangue na guelra. Se algum dos seus entusiastas, fanático do chamado Estado Islâmico, nos perguntar o que fizemos do Deus a quem chamam Alá, em cujo nome matam e esfolam, devemos responder que o capámos e fizemos um Nosso Senhor Jesus Cristo, user-friendly para crentes e descrentes.

 

 

 


9.3.16

 

 

 

Alentejo Prometido capa.jpg

 

edição FFMS 2016

 

 

Quando as notícias deram conta, a propósito do livro de Henrique Raposo, das manifestações daquela «vocação do energúmeno» de que Nemésio fala no seu belíssimo prefácio a um livro sobre Polémicas Portuguesas[1], desta vez sob a forma de auto-de-fé, senti que talvez tivesse de contrariar a minha aversão a meter o nariz onde não sou chamado. Ou admitir que havia chamamento, afinal.

 

É que de imediato reconheci o espírito – ou, melhor, a falta dele – que estava por detrás das ditas manifestações, e quase por instinto decidi que queria estar na apresentação pública do livro (e na altura nem sabia que Rentes de Carvalho usaria da palavra!). A minha vivência alentejana difere, no tempo, no espaço e na duração, da experiência de Henrique Raposo: é mais antiga, mais interior (em sentido duplo), mais longa e abrangente. Mas talvez igualmente distanciada e crítica.

 

Estimo a ousadia de Henrique Raposo, que não conheço pessoalmente, e creio que ele dá corpo a algumas intuições certeiras. Estimo igualmente a genica com que procura um paradigma diferente na abordagem do Alentejo e das suas mitologias. Mas também penso que é por vezes demasiado ligeiro, até abusivo, nas generalizações, e, malgré lui, dominado por um certo romantismo.

 

A minha ideia de ir à apresentação era, em primeiro lugar, marcar presença (coisa que só para mim contaria), aliás logo justificada ao notar a presença façanhuda e pesporrente de algumas personagens entre a assistência. Conheço bem o género. Depois, chegar à fala com o autor e dizer-lhe: parabéns pelo seu livro, que li com interesse, também eu sou alentejano, não há como ver-me livre disso e lido bem com a coisa, e gostaria um dia de trocar impressões sobre um certo número de ideias, factos e memórias.

 

Fiquei-me pela presença. O resto fica aqui dito.

 

Jorge Colaço

 

[1] Direcção de Artur Anselmo, 2 vols., Verbo, 1964 e 1967.

 

 

 

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