12.8.15

 

jogo da glória.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Passado; futuro

 

 

 

“Os ricos são como os ciganos. São todos primos uns dos outros” pontificava há cinquenta anos Senhora do Alentejo nem cigana nem rica. O Minho era diferente – ciganos quase não havia; disparidades entre ricos e pobres eram de menor monta - e diferente continuou a ser. Há 41 anos, em conversa fora de Portugal, Senhor minhoto - que também já lá vai - explicava “Nós, na Ribeira Lima, temos duas coisas em comum: sumos todos fidalgos e sumos todos parentes”.

 

Salpicos do que inspirou Orlando Ribeiro a descobrir Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico? Com certeza - mas há bem mais do que isso. Por muito mal que os melhores de entre nós às vezes deem por ela, que a suponham nas vascas da agonia (“Pátria para sempre passada; memória quase perdida”, acabou Eça de Queiroz O Crime do Padre Amaro, em 1875), a besta teima em não morrer. Mesmo debaixo de vergonhas que a façam sofrer, de varas no cachaço a ver se lhe baixam a cabeça para dar melhor lide a quem a queira desfeitear (novo Acordo Ortográfico; admissão da Guiné Equatorial na CPLP) não lhe receio fim à vista. Mas está a chegar a terra ignota ou, se preferirmos o arrimo do mastro da epopeia, a entrar outra vez por mares nunca dantes navegados.

 

À balbúrdia sanguinolenta seguira-se a noite negra do fascismo - para usar chavões predilectos dos inimigos jurados de uma e de outra porque ao longo das décadas gente menos intensa, isto é, a maioria, estava perto do poeta Alberto de Monsaraz que dizia viver em país ocupado mas ter boas relações com o ocupante. Íamos seguindo canones estabelecidos nas metrópoles europeias: a certa altura, devido à preeminência da França, a República esteve na moda - e vá República! Depois com Hitler (Olimpíadas de Berlim e tudo), Mussolini a marchar sobre Roma, veio a moda do fascismo (mais no sul da Europa, mas também na Finlândia e, sem poder mas com estardalhaço, mesmo em Inglaterra), os militares do 28 de Maio entusiasmaram-se – e vá Fascismo! (Na versão portuguesa, Estado Novo, que nunca esteve à altura, até porque o país era agrícola e não industrial e Salazar gostaria que ele assim ficasse: “Entre o comércio, a indústria e a agricultura prefiro a agricultura”). Quando chegou a vez dos capitães de Abril, a moda na Europa era a da Democracia (como Mário Soares percebeu e Álvaro Cunhal e Henry Kissinger não) – e vá Democracia!

 

Hoje não há apetites de mudança de regime mas é outro mundo. A República jacobina desacreditara a esquerda; o Estado Novo fascizante desacreditara a direita. A Democracia vingou sobre o segundo descrédito – o partido mais à direita chamou-se, Orwelianamente, Centro Democrático Social – entretanto URSS e comunismo foram ao ar, Tony Blair arrumou o socialismo, a virtude bem-pensante perdeu poleiro. Quem será levado a sério? Quem irá dar à besta ganas de ganhar às outras feras? O comunismo não era doença: era remédio que falhou. O capitalismo, menos mau, precisa conserto grande. Onde dorme e se exila o futuro vigor?

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:27  comentar

22.12.14

 

Presépio Popular de Barcelos .jpg

 

Presépio popular de Barcelos

Panorama nº 24 - III Série - Dezembro de 1961

 

 

 

 

Associação Portugal à Mão aqui 

 

 

link do postPor VF, às 14:27  comentar

19.7.14

 

 

 

Praia de Cabedelo? Portugal c. 1930

 

 

Fotografia do espólio de Rui Feijó, gentilmente cedida por Luísa Feijó a quem muito agradeço

 

 

 

 

link do postPor VF, às 16:20  comentar

25.4.14

 

 

 

Foto: Eduardo Gageiro

 

 

 

 

 

 

Aurora Clara de Abril

 

 

Assim chamaram à menina recém-nascida encontrada na roda dos expostos da Vila de Monsaraz por homens saídos para o trabalho em madrugada luminosa desse mês, em ano do terceiro quartel do século XIX — não me lembro qual. Nem o ano nem o dia, mencionado na acta duma sessão da Câmara. Há uma probabilidade em trinta de ser 25 e como quando li a acta não reparei (faltava ainda essa achega à nossa leitura do passado), pode ser que tenha sido mesmo.

 

Tal coincidência daria alegria à elevada percentagem de portugueses que acha o 25 de Abril a data mais importante da nossa história e que, como quase toda a gente, é supersticiosa. Eu não sei remontar tanto e na celebração do dia fico-me por três vinhetas, com as suas luzes próprias. Cada uma vale o que vale.

 

Por ordem cronológica.

 

Em 1975, poucos dias antes das eleições para a Assembleia Constituinte, amigo meu, minhoto, estava de passagem na casa de Ponte da Barca quando três criadas velhas da mãe — tão velhas que ainda eram naturalmente analfabetas e, por isso, mais sagazes e reflectidas do que muito doutor moderno — lhe vieram falar. Queriam perguntar ao Menino: “Como é que se vota na lei antiga?”.

 

Na Primavera de 1978, eu era primeiro representante permanente português no Conselho da Europa em Estrasburgo – lá chegado no ano anterior porque antes de viver em democracia Portugal não podia ser admitido (durante o regime dos Coronéis, a Grécia tivera de sair) — Victor Cunha Rego era nosso embaixador em Madrid, falávamos ao telefone e eu disse-lhe que tinha aprendido do pai que Portugal era um país maravilhoso, habitado por uma maioria de gente boa e generosa, do qual uma minoria de gente má e mal formada tomara conta, chefiada pelo pior deles todos, o ditador Salazar. “Pois é” respondeu o Victor. “Eu também fui educado por um pai assim. E é grave, aos 50 anos, um homem descobrir que o pai era parvo”. Com o 25 de Abril, Victor e eu tínhamos passado de vítimas a cúmplices; da oposição ilegal à máquina do novo poder. E quem tivesse a mão na massa começava a descobrir que Salazar não era só causa dos nossos males; era também, e sobretudo, sua consequência.

 

Em 2008, Sofia Pinto Coelho convidou-me para programa de televisão dela que, de cada vez, tinha o mesmo fio condutor. A Sofia pegava numa pessoa e confrontava-a com passagem do seu passado. A mim coube-me ser levado a vila alentejana onde há quase 40 anos trabalhara como antropólogo e a que chamara Vila Velha em livro que publiquei. Fui filmado a falar com pessoas amigas que não via há muito tempo, entre elas a Ema, analfabeta e ainda muito bonita. A Sofia pediu-me para eu lhe perguntar se a vida agora era melhor ou pior do que quando eu lá estivera. A Ema olhou-me espantada e respondeu: “Não passamos fome!”

 

As velhas de Ponte da Barca, o Victor e a Ema já morreram. Não me cabe adjudicar mas, quando começa a haver outra vez gente com fome em Portugal, talvez a resposta da Ema capture o mais importante do 25 de Abril.

 

 

 


15.9.12

 

 

O acaso atirava-me para uma das regiões que iria exercer influência profunda na minha vida, tanto de homem, como de escritor. Dava-se no meu espírito o segundo fenómeno de osmose. O primeiro fora a vivência desmedida do Campo Alegre, o absorver diário da natureza física através do lado sentimental da vida; ao Porto eu ficaria ligado para sempre, como seria o caso de Londres anos mais tarde, teiaranhado pelo amor, pela transferência permanente de um eu que se desdobra e oferece a outra pessoa. Agora aparecia-me o Alto Minho, eldorado onde ancorava todo o bojo que não soçobrara na débacle sentimental. A terra, o mar, o rio, a montanha, as aldeias, o povo, a arte, um todo que me agarrou no imediato, no transe da paixão, debaixo ainda do estado de choque. Abria-se um mundo novo, cosmo-físico para onde eu podia olhar, onde podia mergulhar, penetrando na Natureza sem pedir licença. Às vezes, nos imprevistos da vida, nas esquinas da sorte, nós esbarramos com um habitat que está desde a criação do mundo à nossa espera. Ali, intacto, permanente, rico, silencioso. Eu sentia uma grandeza frente a meus olhos, imensidão que estava a par da grandeza do amor, não a substituía, menos ainda distracção para pacóvio, ou paliativo de doença; sim, mundo de pormenores alcantilados, de versos ditos ao fim de tarde, de banhos cheios de algas, mergulhos na amostra de eternidade que se apalpa com os dedos. Tão forte este binómio Amor-Natureza, impacto de sismo, eu certo de que mais cedo ou mais tarde havia de ter consequências. E, na inconsciência do consciente, às vezes reparava no segundo de tempo em que teria de, um dia, comunicar a outros o choque brutal que estava recebendo. Eu seria o médio que coa, filtra, decanta, o que paira sem rumo na Natureza, fosse o reino do Amor, quer o próprio caudal do telúrico. Fruta verde em mim, nada estava amadurecido, o período de gestação seria longo, rebentaria na cabeça com a necessidade urgente de recriar esse estado emocional.

 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura , Autobiografia III  pp. 81-82

© Assírio & Alvim e Herdeiros de Ruben A.  (1994)



  

link do postPor VF, às 17:24  comentar

4.9.12

 

... No virar do século XIX para o XX é numerosa a família que habita a casa da Carreira. Além do casal, Maria Luiza e Bento, e seus seis filhos, nela vivem também: Severiana, tia de Maria Luiza; Joana que, enviuvando, se recolhe com quatro filhos a casa da irmã; Angelina que, solteira, é chamada a viver com o irmão Bento.

A miss, a costureira, a cozinheira, as criadas de dentro, o cocheiro e os criados do quintal são os outros habitantes da casa. Todos os cómodos eram poucos para acolher tanta gente e frequentemente se tinha que arranjar quartos para acomodar os novos casais com filhos...

Conhecida a partir dos meados do século XIX por Casa da Carreira — quando o seu proprietário, Diogo Gomes de Abreu e Lima, recebeu o título de Visconde da Carreira — é hoje erradamente chamada Palácio dos Távoras, pois sem­pre foi uma casa familiar sem estrutura de palácio. Durante quatrocentos e quarenta e quatro anos esteve nas mãos da mesma família, sem lutas entre irmãos pela sua posse, acatado o direito do morgado de decidir dos seus destinos, tendo sido sempre enriquecida e melhorada por todas as gerações. Tal como na primeira geração, é ao longo dos tempos que pelos casamentos das filhas herdeiras entram na família apelidos nobres: Abreu, Castro, Pereira, Távora, Faria da Costa e Pita Malheiro. Com estes, mercês, vínculos e casas — Mosteiro em Vitorino das Donas; Outeiro, Agrela, Boavista e Covelas em Ponte da Barca; Lapela, Rodas e Pedra em Monção.

Os apelidos não servem para deles tirarmos proveito, mas como elo de ligação que nos assegura sermos a conti­nuação de várias pessoas, Catarina, Inês, Arcângela, Luiz, Diogo; «são sempre algo mais do que um nome, e é por esse algo que somos verdadeiramente filhos dos nossos pais»1.

 

 

Maria Teresa Távora 

in Um Passeio pela Casa da Carreira  pg. 16-18


NEC DOMUS DOMINUS,

SED DOMINO DOMUS

HONESTANDA EST*


© M. Teresa Távora, Braga, 1999


 

1   Gonzalo T. Ballester, «Os Prazeres e as Sombras, I - Vem aí o Senhor». pg. 46.

 


* NÃO É O DONO QUE DEVE SER HONRADO PELA CASA, MAS A CASA PELO DONO



 

 

Maria Luiza e Bento,  4ºs Viscondes da Carreira


 

 

os seus 6 filhos circa 1900:

 Luís António, Augusta, Maria da Luz e Luísa

no chão: João e Maria José




 

 Os 4ºs Viscondes da Carreira, no pátio da Casa da Carreira, com os seus seis filhos, genros e netos, no baptizado de um destes, Joaquim, primogénito de Maria Augusta e Joaquim Lobo de Miranda.1ªa fila: Casimiro Sacchetti (filho de Maria da Luz e Casimiro Sacchetti, assim como todas as outras crianças que estão de pé); Maria de Jesus (mulher de Luís António) com o filho de ambos, Luís; Viscondes da Carreira tendo entre eles a neta Maria das Dores Sacchetti; José Sacchetti; Angelina Rosa (irmã do Visconde); Augusta com o filho Joaquim; António Sacchetti.Em pé: Luís António; Luísa; Casimiro Sacchetti e sua mulher Maria da Luz; João; Maria José; Joaquim Lobo de Miranda.



 

 


Um Passeio pela Casa da Carreira*, memória reconstruída por uma descendente da família que possuiu a casa, com base no arquivo familiar e nos testemunhos de primos que na infância ali viveram ou passaram férias, e das histórias que sua avó materna, Maria José, lhe contava em pequena, é um contributo exemplar para a História da família e das casas senhoriais em Portugal.

 

A forma (aparentemente) simples como Maria Teresa Távora nos faz visitar cada uma das dependências da Casa da Carreira enquanto nos vai descrevendo episódios da sua história e da vida dos seus ocupantes ao longo dos séculos — dos mais ilustres aos mais modestos, sem esquecer ninguém — não é só um modelo inspirador para trabalhos de investigação histórica e de transmissão da tradição oral como uma reflexão inspirada sobre a passagem do tempo e o significado da palavra nobreza.

 

 

Nota:

A Casa da Carreira é uma das duas casas, ligadas interiormente, em que se encontra hoje instalada a Câmara Municipal de Viana do Castelo. O conjunto imponente é consensualmente considerado um dos mais bonitos Paços do Concelho do país.

 

 


 


26.8.12

 



 

Traje de Meia Senhora*

Viana do Castelo, Portugal, c. 1950 

 





NÃO QUEIRAS SAIA DE CHITA,

QUE TE HÃO DE CHAMAR SENHORA;

ANTES SAIA DE ESTAMENHA,

QUE É TRAJE DE LAVRADORA.




A forma e composição do vestuário relacionam a inteligência do homem com a qualidade e variedade insistentes do trabalho predominante e dos trabalhos afins ou contribuintes dele. As cores, ou enfeites, os adereços e os complementos, mais ou menos acidentais, sempre todavia decorativos, revelam o sentimento artístico, a elegância de imaginação, a estética utilitária de quem os aplica. Não pode esquecer o que no traje impõem os determinantes de ordem moral, cuja influência colabora fortemente na sua elaboração.[...] O traje é, assim, o vértice de convergência de actividades mentais, concorrentes no mesmo objectivo; exterioriza-as em manifestações concordantes, que fazem dele o panorama psicológico da população, revestida no seu todo orgânico. Deve ainda acrescentar-se aos mencionados elementos da feição do traje a influência sugestiva das modas vagueantes das classes superiores, ricas e desnaturadas. Isto é: a acção reflexa, que o traje popular sofre do traje culto. Têm aspectos funcionais diferentes os dois trajes: estável, contínuo, natural e espontâneo, o popular; instável, descontínuo, artificial e estudado, o traje erudito. A estabilidade do traje popular corresponde à mutabilidade excessiva do outro. Até, quando no todo ou em parte o traje das classes de cima passa para o povo com adaptação correspondente, mantém neste a duração, que além não teve. Não quer dizer que o traje popular seja inerte e imutável, nem que o não popular, em suas metamorfoses, tenha falta de traços comuns, melhor ou pior conservados. Somente, à maior persistência do excitante espiritual corresponde maior permanência de efeitos, e entre eles a fisionomia do traje. Como  na  vida  rural a continuidade é regra, o traje rural evoluciona lentamente, ao passo que o traje urbano ou citadino sofre maiores sugestões do usado pela gente do mundo elegante, internacionalizado e aparatoso. A desigualdade económica, sobretudo, entre o campo agrícola e os centros industriais ou comerciais, prova fundas diferenciações não só em superfície como em profundidade. A quadra popular, posta como abertura desta nota etnográfica, evidencia o confronto de trajes, consoante as condições económicas e sociais.

 

Luís Chaves

in Vida e Arte do Povo Português p. 7

Secretariado da Propaganda Nacional, Edição da Secção de Propaganda e Recepção da Comissão Nacional dos Centenários, Lisboa, 1940


 

 

 


SPN Lisboa 1940



Foto: Maria Manuela Couto Viana com o traje de Meia Senhora, ao lado de Luísa Cerqueira com traje de Mordoma, na Festa do Traje. (Anos 50)


Maria Manuela Couto Viana aqui e aqui

link do postPor VF, às 11:38  comentar

24.8.12

 

 

 

desenho de Paulo Ferreira



[...] No traje português actual reconhecem-se caracteres primitivos em que a influência geográfica dominou, e verificam-se também, dentro de certos limites e com justificada interpretação, variedades e diferenciações em estádios sucessivos ou meras sobreposições. O homem do mar, sempre com a mesma faina e sempre nas ondas, exige o traje que lhe não tolha os movimentos, a um tempo leve e agasalhador, e facilmente substituído. O mesmo princípio se aplica a todas as mulheres, que trabalham no mar, na praia e nas lides relacionadas com o mar.  O pastor, na planície alentejana ou por vales e lameiras, pastagens das serras, tanto nas verandas — as "brandas" — como nas inverneiras, do Centro e Norte de Portugal, tem vestuário protector das intempéries e dos acidentes do solo. As partes, que o constituem, obedecem a especial adaptação, e têm por matéria prima fundamental a pele e a lã dos rebanhos.  Na planície do Ribatejo, estendida a um e outro lado do Tejo, larga, uniforme, colorida, o campino a cavalo percorre as lezírias e os salgados, persegue ou atrai o gado bravio em correrias repetidas; é o que Fialho de Almeida chamou "emanação da paisagem" (1). O traje apropria-se ao movimento, violento e livre, do cavaleiro ágil nos gestos e nas atitudes. É leve, articulado, solto: jaqueta curta, colete, faixa à cinta, calção e meia com sapato de espora, carapuça na cabeça; ordinariamente em mangas de camisa, equilibra no ombro a jaqueta. Se o traje deste centauro é simbólico, por certo não o é menos o "pampilho", que, empunhado na carreira, lhe marca sinal heráldico de cavaleiro armado nas regras da cavalaria. A cor, onde os olhos poisam e vai embelezar-se de sensações excitantes a alma do habitante de uma região, reflecte no traje o carácter dominante da sua psicologia. As lãs dos picotes, riscadilhos, xergas ou burelas, buréis, estamenhas, saragoças, churras ou tingidas, dão tons de monótona grandeza aos trajes serranos. Quando misturam fios de lã, e os tingem para atavio do traje ou da casa, fazem-no em combinações vibrantes de cor. À medida que se desce para a planície, a cor alegra os trajes, que manifestam a pouco e pouco a subida para a policromia rica. Assim, as mulheres policromizam e complicam o vestuário, quanto mais se aproximam das baixas e sobretudo mais se achegam do mar. Aí as matizações são perfeitas, vivas no colorido e movimentadas no jogo dos tons. A mulher da zona litoral é a mais colorida e a de maior composição indumentária. E de entre todas a mais rica é a do recanto de Noroeste, na região de Viana-do-Castelo. Esta gradação do traje, das alturas para as baixas, e do interior para a orla marítima, condiz com as outras manifestações espirituais e utilitárias do homem na mesma direcção.[...]

 

Luís Chaves

in Vida e Arte do Povo Português p. 8

Secretariado da Propaganda Nacional, Edição da Secção de Propaganda e Recepção da Comissão Nacional dos Centenários, Lisboa, 1940


 

 

 

 

Nota:  Fialho de Almeida, O Paiz das Uvas, 3ª ed. Lisboa, 1915, pág. 37




Veja também aqui e aqui

link do postPor VF, às 13:30  comentar

20.8.12

 

 

  

Portugal, c. 1915

 

Foto: Ricardo Santos & Filho - Évora

 

 

Mais uma fotografia curiosa de meu tio-avô paterno António Correia Caldeira Coelho (1888-1977). Que festa terá sido esta? Ele é o homem de bigode e chapéu de aba redonda, sentado no centro do grupo. A fotografia é colada sobre cartolinaiVeja uma fotografia dele em 1907, aqui, e em 1910, aqui

 

 

link do postPor VF, às 23:52  comentar

13.8.12

 

 

 

 

 

Mordoma de Vila Franca do Lima com o cesto de promessa para as Festas da Senhora da Agonia


Viana do Castelo, Portugal, c. 1970

 

 

 

Museu do Traje de Viana do Castelo aqui 

Mais trajes aqui

link do postPor VF, às 12:35  comentar

9.8.12

 

 

Maria Alice Matos Carneiro (1896-1935) à frente do carro de bois. 

 

 

 Maria Alice Carneiro, sentada ao centro, em quarto lugar a contar da esquerda


 

O mesmo grupo. Maria Alice Carneiro de pé em terceiro lugar a contar da esquerda.



Fotografias gentilmente cedidas por Maria Augusta Carneiro Bustorff Burnay.

 

 

Museu do Traje de Viana do Castelo está a fazer uma recolha de imagens de trajes (anteriores a 1960) para poder constituir uma Base de Dados de apoio a estudos sobre a utilização do Traje Popular Vianense. Os álbuns de fotografias de família são uma das fontes mais importantes, onde se encontram muitas vezes imagens com enorme valor documental.

Colabore: reveja os seus álbuns de família. Se encontrar alguma imagem digitalize-a ou empreste-a ao Museu, onde será digitalizada e imediatamente devolvida.

Os responsáveis pela recolha estão igualmente a preparar a edição de um livro dedicado ao tema.

 

Bisavós minhotas ou longínquas tias mascaradas, por favor encaminhem-nas para António Medeiros e João Alpuim, Museu do Traje de Viana do Castelo.


Nota: texto encontrado aqui 

link do postPor VF, às 16:30  comentar

17.2.12

 

 

Garrett é mais do que Garrett. Quer dizer que a sua obra, por admirável que seja no teatro, no romance, na poesia, em títulos como Frei Luís de Sousa, Viagens na Minha Terra, Folhas Caídas, não é uma obra fechada, mas uma obra aberta. Obra aberta porque não se encerrando na sua acabada perfeição como um fim em si mesma, rasgou uma estrada na literatura portuguesa. Há na história literária como na história política fundadores de dinastia. E na literatura portuguesa é, sem dúvida, Garrett um desses fundadores. Depois de Garrett há toda uma literatura que dele deriva - uma literatura que por isso mesmo se chama neogarrettiana ou neogarretista (e, se designou também, mas com menor fortuna, por novilusista).[...]

 

Àquela “geração de 90” pertenciam, entre outros, Trindade Coelho (1861-1908) e Manuel da Silva Gaio (1860-1934), nomes representativos do neogarrettismo ou do nacionalismo literário. No artigo de apresentação da Revista Nova (Nov. de 1893)  —  e novo não seria só o título da publicação como o seu espírito — , Trindade Coelho aponta em Garrett um exemplo de banho lustral, qual é o de mergulhar “no fecundo veio” da província portuguesa e das tradições populares.[...]

 

Na peugada de Ramalho, que explorou aquele “fecundo veio” aberto por Garrett, outros vieram que viajando pelo vasto mundo, regressavam sempre ao ninho. É o caso desse espectador cosmopolita, de clara prosa e poder evocativo, que foi Augusto de Castro (1883-1970), homem do mundo que gostava também de viajar no seu jardim. É o caso ainda de António Ferro (1895-1956), igualmente grande jornalista, mas de prosa mais dinâmica (ou não fosse ele um protagonista da aventura futurista), e homem de acção – um poeta de acção, diria, por esse toque estético que punha em todas as suas realizações. Uma vida sem beleza, toda material e vazia de alma, é uma vida que não vale a pena viver. Uma equilibrada dosagem de inovação e tradição, de europeísmo e de nacionalismo, de alta cultura e de cultura popular, determina a acção de António Ferro, para quem vale o que disse Afonso Lopes Vieira de Garrett: mais notável ainda “pelo que descobriu e indicou do que pelo que realizou”
[...] escritor da família garrettiana é ainda Luís Forjaz Trigueiros (1915-2000) por esse espírito liberal sem demagogia, por essa curiosidade cosmopolita sem divórcio das raízes. Das “paisagens portuguesas” – título de uma sua colectânea de páginas de geografia literária, aquelas que parece exercerem maior fascínio sobre Luís Forjaz Trigueiros são as do Minho (1) , “campos elísios” também para este moderno autor de viagens na nossa terra.

 

 

João Bigotte Chorão

in “Garrett, Clássico do Romantismo”

Revista “O Tripeiro” 7ª série – Ano XVIII – Nº 2, Fevereiro de 1999. aqui

 

 

Notas:

1. Leia neste blog o texto A Écloga e a Epopeia de Luís Forjaz Trigueiros aqui e aqui

2. Este post é retirado do texto publicado no blog O Divino (28 de Março de 2005) aqui

 

 


19.12.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

— «Linda pastorinha, que fazeis aqui ?»

— «Procuro o meu gado que por aí perdi.»

— «Tão gentil senhora a guardar o gado!»

— «Senhor, já nascemos para esse fado.»

— «Por estas montanhas em tão grande p'rigo!»

Diga-me, ó menina, se quer vir comigo.»

— «Um senhor tão guapo dar tão mau conselho (1)

Querer que se perca o gado alheio!»

— «Não tenha esse medo que o gado se perca (2)

Por aqui passarmos uma hora de sesta.»

— «Tal razão como essa não na ouvirei (3):

Já dirão meus amos que de mais tardei,»

— «Diga-lhe, menina, que se demorou

Co'esta nuvem de água que tudo molhou.»

— «Falarei verdade, que mentir não sei:

À volta do gado eu me descuidei.»

— «Pastorinha, escute, que oiço balar gado...»

— «Serão as ovelhas que me têm faltado.»

— «Eu lhas vou buscar já muito depressa,

Mas que me espedace por essa charneca.»

— «Ai como vai grave de meias de seda!

Olhe não as rompa por essa resteva (4).»

— «Meias e sapatos (5), tudo romperei (6)

Só por lhe dar gosto, minha alma, meu bem.»

— «Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.»

— «Meu destino foi ser vosso criado.»

— «Senhor, vá-se embora, não me dê mais pena,

— «Que há-de vir meu amo trazer-me a merenda.»

— «Se vier seu amo, venha muito embora;

Diremos, menina, que cheguei agora.»

— «Senhor, vá-se, vá-se, não me dê tormento:

Já não quero vê-lo nem por pensamento.»

— «Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora!

Fica-te, eu me vou pela serra fora (7).»

— «Venha cá, Senhor, torne atrás correndo...

Que o amor é cego, já me está rendendo.»

Sentaram-se à sombra... tudo estava ardendo... (8)

Quando elas não querem, então 'stão querendo.

 

 

variantes:

(1) Não deve ser nobre quem dá tal conselho — Minho e Beira Baixa.

(2) Eu não digo isso, que o gado se perca,

Mas que descansemos uma hora de sesta.—Beira Alta e Estremadura.

(3) Que dirão meus amos em que me ocupei.—Beira Alta.

(4) Por essas estevas—Alentejo.

(5) Meias e vestido—Ribatejo.

(6) Romperem — Coimbra.

(7) Vai guardar teu gado pela serra fora.— Beira Alta.

(8) Senta-te a esta sombra que está o mundo ardendo.

— «Eu bem não queria, mas estou querendo.»

— «Cala-te, pastora, não digas mais nada,

que a aposta que eu fiz já está ganhada.»

— «Senhor, vou sentar-me não por má tenção.

Pois sabe a verdade, que sou teu irmão.—Beira Alta.

«Sente-se a esta sombra, passemos a sesta,

Já pouco me importa que o gado se perca.»

Ó gente da casa, acudi ao gado,

Que foge a pastora c'o seu namorado.—Minho.

 

 

 

[...] O lugarejo é bem conhecido de nome e fama, chama-se Linda-a-Pastora. Porquê? Não sei. Têm-me jurado antiquários de «meia tigela» que o seu nome verdadeiro é Niña a Pastora. Mas enquanto não achar algum de «tigela inteira» que me saiba dar a razão por que se havia de chamar assim, meio em português meio em castelhano, um aldeote de ao pé de Lisboa — hei-de chamar-lhe eu, como os seus habitantes, e toda a gente diz: Linda-a-Pastora.

Namorei-me do sítio por modo que ali passei o verão todo; e dali fiz deliciosas excursões pelas vizinhanças, que todas são bonitas. Foi neste próprio e apropriado sítio que a Sr.ª Francisca, lavadeira bem conhecida do lugar, me deu a última e, ao parecer, mais correcta lição que do presente romance tinha obtido. Em outras partes do reino traz ele o título de Pastorinha; aqui era justo e natural que se lhe desse o de Linda-a-Pastora, que assentei conservar-lhe.

Na forma é um romance em endeixas, mas o fundo é de uma verdadeira pastorela do género provençal; nem a fariam mais graciosa Giraud Riquier ou Giraud de Borneill.

Tem muitas variantes, porque todo o reino a sabe e canta. Eu noto somente as principais.

 

 

Almeida Garret

in Romanceiro (III)

Edição revista e prefaciada por Fernando de Castro Pires de Lima

Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho/Gabinete de Etnografia, 1963

Leia um excerto do prefácio aqui



 

Imagem:

Desenho de Paulo Ferreira (detalhe)

in Quelques Images de l' Art Populaire Portugais aqui

S.P.N. 1937


link do postPor VF, às 19:29  comentar

17.12.10

 

Bordado em protesto contra a decisão da tutela de transferir o espólio do Museu de Arte Popular para o Museu Nacional de Etnologia e adaptar o edifício do antigo MAP para acolher o futuro Museu da Língua Portuguesa.

 


Lenço de namorados do Minho, 2009

 

 


O caminho do Museu de Arte Popular, em Lisboa, tem sido feito de avanços e recuos. Fechou em 2003 e esteve para não reabrir. Um movimento cívico deu-lhe nova vida. (A.D.C.)


reportagem do Público aqui

As bordadeiras  aqui


 

artigo sobre a exposição patente no MAP aqui



link do postPor VF, às 10:39  comentar

14.12.10

 

"Foi  uma boa batalha política. Ganha. Contra amigos políticos e pessoais, com outros amigos. Esperemos que venha a ser uma guerra ganha. Para já é um começo, um recomeço." (A.P.)

 

 

 

 

Revista Panorama, nº 4 - ano 1- 1941 (detalhe da capa)

desenho de Alberto Cardoso

 

 

 

O Museu de Arte Popular reabriu ontem, com a Exposição "Os Construtores do MAP-Museu em Construção". Parabéns a todos os que por ele se bateram.

 

Leia mais aqui e aqui e também no link "museu de arte popular" na coluna direita deste blog.

 

MAP e Loja do Museu na Av. de Brasília 1400-038 Lisboa



10.8.10

 

 

 

 

 

Cristina com traje do Minho

São Francisco, 1960

 

 


5.8.10

 

 

 

 

Arizona, 1959

 

 

 

 

É uma pena terem perdido a cor e eu não poder restaurá-las. Das cerca de 250 fotografias do livro, apenas uma vintena são a cores, em parte por causa disto. Mostrarei em próximos posts algumas das "excluídas". O seu estado de conservação é variável, mas todas perderam cor.

 

 

 

 

 

 

Exposição de produtos portugueses c.1959

(foto reproduzida em Retrovisor um Álbum de Família)

 

 

 

 


Esta está perfeitamente conservada, uma raridade na minha colecção. É assim a única fotografia a cores que incluí no capítulo sobre a California, descontando as reproduções de materiais impressos.


O tempo de vida de provas cromogéneas em papel Kodak varia entre os 16 e os 76 anos, segundo a tabela que consta do livro "Conservação de Colecções de Fotografia", da autoria de Luís Pavão, aqui.

 

 

link do postPor VF, às 12:10  comentar

3.6.10

 

 

 

 

 

Freixo de Baixo, Amarante, 1939

 

 

Nunca me canso destas fotografias de grupo, tão bem enquadradas, que mostram os retratados de corpo inteiro e nos permitem apreciar plenamente a moda da época. Esta foi tirada na Casa de Alvellos, vizinha da Casa de Freitas.

 

Pedro de Alvellos, ao centro, entre Stella e Margarida, viria a tornar-se numa das figuras carismáticas da região. Foi autor de mais de uma dezena de livros, e uma das suas peças de teatro, "À Lareira do Pecado", foi representada no Teatro Nacional D. Maria II.

 

Fervoroso coleccionador da obra de Camilo Castelo Branco, reuniu uma importante biblioteca camiliana, que legaria ao Município de Amarante.

 

A ele se deve a criação da Região de Turismo da Serra do Marão e muito do trabalho de promoção do Museu de Amarante.

 

 

 


1.6.10

 

 

 

Rio Lima, c. 1945

 

 

 

A minha mãe está sentada no chão, à esquerda, ao lado de Marila Portela, uma das suas maiores amigas de toda a vida. Margarida era amiga de infância de Marila e da sua família, que passava o verão no Minho, nesta casa:

 

 

 

 

 

 

Paço do Cardido

Viana do Castelo, Ponte de Lima

 

 

 

uma descrição pormenorizada da casa e mais fotos aqui



29.5.10

 

 

Lousada, c.1936

 


 

da esquerda para a direita:

Stella, Margarida e Frederico

com os primos António Duarte, João Manuel e Mariazinha (Maria do Carmo) Rebelo de Carvalho,

filhos de Alzira Pereira de Carvalho, irmã mais nova de meu avô materno.

 

 

 

Aos apreciadores de fotografias que não acompanham o blog desde o princípio sugiro a leitura do post "a fotografia vernacular" aqui

 

 

 

 


27.5.10

 


 

 

Margarida de Barros Pereira de Carvalho (1892-1968)

Baía, Brasil, c. 1896

 

 

 

Descubra o álbum que contém esta fotografia no post "O álbum do Brasil" aqui, e outras fotografias do mesmo álbum clicando na tag "brasil".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Casa da Mogada, no Concelho de Guimarães, de onde era natural a minha bisavó Maria do Carmo de Barros de Faria e Castro , pertencia a esta antes do seu casamento com Guilherme Pereira de Carvalho. Coube em herança a Margarida de Barros Pereira de Carvalho, a terceira dos sete filhos do casal.

 

 

 

 

 

 

Maria do Carmo de Barros de Faria e Castro (1868-1926)

e Guilherme Pereira de Carvalho (1864-1927)

(fotografia reproduzida no livro Retrovisor, um Álbum de Família)

 

 

 

link do postPor VF, às 10:15  comentar

25.5.10

 

 

Caldas das Taipas

 

 

 

Pela “Mogada”, como por “Freitas”, passaram várias gerações da minha família materna. A Casa da Mogada, no Concelho de Guimarães, que foi cenário de muitas fotografias da infância e adolescência de minha mãe, pertencia a sua tia homónima Guida - Margarida Pereira de Carvalho Crato - irmã de meu avô materno. De entre as numerosas fotografias que guardo desta casa opto mais uma vez por esta, a escolhida para o livro Retrovisor, um Álbum de Família, pois permite situar o local onde este grupo foi fotografado:

 

 

 

 

 

Mogada c. 1930

Margarida, ao centro, à frente dos seus tios Guida

e Eduardo de Carvalho Crato, ao fundo, de pé.

 

 

 

 

A minha mãe está sentada no chão entre os seus irmãos, Stella e Frederico. Atrás de Frederico está sentada minha avó materna, Maria do Carmo Belmarço Pereira de Carvalho.

 

 

 

 

 

 

Margarida Pereira de Carvalho Crato (1892-1968)

e Eduardo de Carvalho Crato (1877-1947)

 

 



 

 

link do postPor VF, às 11:48  comentar

23.5.10

 

 

 

 

 

Vista de Amarante, data desconhecida

 

 

 

 

 

 

da esquerda para a direita:

O poeta Teixeira de Pascoaes

Frederico e Guilherme Pereira de Carvalho,

no jardim da Casa de Freitas (c. 1927).

 

 

 

Descobri estas fotografias no site da "Associação Amarante Automóveis Antigos" aqui. Foi curioso encontrar mais uma fotografia de Teixeira de Pascoaes na Casa de Freitas, tirada na mesma ocasião da que aqui publiquei no ano passado, como confirmam os trajes do poeta e de Frederico.

 

 

link do postPor VF, às 19:58  comentar

14.5.10

 

 

 

Carta de Teixeira de Pascoaes a Vasco Futscher Pereira

 

 

 

23 de Novembro de 1946

Amarante


Muito querido amigo e jovem confrade

Felicito-o e felicito-me pela entrevista, que está uma perfeição! Mas também desejo agradecer-lhe as suas amabilíssimas palavras, que eu, decerto, não mereço. Recebi uma carta da Estrelinha, que me deixou deslumbrado! Não lhe respondi, nem respondo. Responder a uma estrela um poeta da minha idade! É um impossível quasi metafísico!

Envio todos os meus respeitos a sua queridíssima esposa; e um imenso abraço ao seu muito querido sogro, que eu conto entre o pequenino número dos meus autênticos amigos.

Seu velho confrade muito grato e dedicado



Teixeira de Pascoaes

 


 

 

 

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

 

 


 

O poeta e escritor Teixeira de Pascoaes, pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, e o meu avô, Guilherme Pereira de Carvalho (1891-1966), eram amigos de longa data e as suas famílias conviveram muito. Teixeira de Pascoaes viveu toda a vida em Gatão, nos arredores de Amarante, não longe da Casa de Freitas, em pano de fundo deste blog. Veja outra fotografia do poeta, vinte anos antes, aquiQuanto a "Estrelinha",  veja uma foto dela aqui.



12.5.10

 

 

Não se pode ir lá de avião. Não há aeródromos nas imediações; é na serra, perto do Marão, que o poeta cantou em Versos imortais, a umas poucas milhas de Amarante. Vai-se por um caminho ladeado de sobreiros já antigos e frondosos que é mais caminho de carro de cavalos do que de automóveis, até a um pequeno terreiro onde há laranjeiras plenas de frutos ainda verdes. Do terreiro, por um largo portão brazonado, entra-se no pátio da casa onde vive o poeta. É uma casa solarenga, do século XVI ou XVII, remodelada depois, que guarda ainda o seu ar vetusto de velha casa senhorial e a nobreza clássica das suas linhas simples, austeras.

Nesse pátio já talvez um autogiro ou um helicóptero pudessem descer. Mas não aconselho o leitor - mesmo que ele tenha sido companheiro de La Cierva - a que tente a arriscada aventura.

Teixeira de Pascoaes ouviu o ruído do carro em que fomos e veio receber-nos à porta. É um homem baixo e magro, um pouco curvado, com uma cabeça já grisalha, revolta, a face angulosa e uns olhos profundos, penetrantes, cheios de riqueza e de vida. A sua austeridade é a de um monge , como é de monge a sua simplicidade e o encanto com que nos recebe na bela casa da sua família, mais velha ainda porventura do que esta, e onde vive como num convento que nos mostra tal como um bom frade desligado dos prazeres e interesses deste mundo.

Tentar apresentar a leitores, sejam eles portugueses ou estrangeiros, este homem, poderá quási parecer uma liberdade de que usa o jornalista, para, através do escritor, se apresentar ele próprio.

É que Teixeira de Pascoaes é bem o Patriarca da literatura portuguesa contemporânea - um patriarca amado dos fiéis e sobre cuja dignidade não há discussões. Os seus livros estão traduzidos para francês, alemão, espanhol, holandês, húngaro, tcheco, italiano.

O "Grande de Espanha" D.Miguel de Unamuno contou-o no número dos seus grandes amigos e o pensador russo, universalmente conhecido, Nicolau Berdiaeff considerou-o um dos mais notáveis autores do nosso tempo.

Isto é bastante, não é verdade, leitor?... Por isso mesmo o entrevistador se esconde sob um pseudónimo.

Nicolau Berdiaeff classificou um dia Pascoaes de "Poeta místico com temática religiosa"... Ora eu venho fazer-lhe uma entrevista sobre aviação... É pois natural que hesite antes de atacar o tema principal da nossa conversa.

Fala-se primeiro de poesia. Depois do que Unamuno chamou "o sentimento trágico da vida". Depois da morte e do existencialismo". Não! - Decididamente é perigoso ouvir este homem encantador falar do que lhe interessa; temo que a ouvi-lo, me esqueça do tema da entrevista, e depois que seja já impossível sair do beco onde estamos. Beco, está claro, porque não vejo a saída para o campo da aviação.

Por isso pergunto de chofre:

— Que pensa da Aviação?

Pascoaes sorri e responde:

— Penso que outrora os homens criavam os anjos e hoje.... os macaqueiam.

Há um silêncio. Não vou, evidentemente, perguntar a este homem se ele voou. Há em toda a sua obra uma altura que nenhum avião do mundo jamais atingirá. Mas insisto:

— Crê que a conquista do ar pela moderna aviação poderá trazer algo de novo a "visão do mundo" dos poetas ?...

A expressão de Pascoaes tornou-se agora vagamente irónica:

— Penso que a visão do mundo depende da altura a que se está."Nos aviões modernos, como se voa muito, muito alto, a "visão do mundo"...deve tornar-se tão vaga, tão imprecisa,que me arrisco a dizer que desaparece...

Uma criada trouxe-nos café e os maravilhosos doces de ovos de Amarante. Pascoaes, sorrindo, explica:

— Nunca percebi como Vergílio foi capaz de escrever a "Eneida", sem ter tomado uma chícara de café e sem fumar um cigarro.

Há neste homem profundamente triste, por mais paradoxal que isto pareça, um bom humor sadio. Um bom humor sem amargura ou ironia – que tem frescura e juventude.

O bom humor com que responde, já a finalizar a entrevista, quando lhe pergunto o que pensa do papel a desempenhar pela aviação no futuro:

— Não penso nada, ou melhor, não digo o que penso. Ainda não consegui limar a vaidade até o ponto de me não importar com o que pensarão de mim os que me lerem daqui a alguns anos - isto, bem entendido, se daqui a alguns anos ainda alguém me ler. Ora eu não quero que me aconteça o mesmo que aconteceu a Thiers quando, num momento de muito fraca inspiração, se lembrou de dizer do "caminho de ferro" que era uma invenção absurda e irritante que apenas servia a meia dúzia de loucos possuídos da mania das velocidades...

 

 

 

A entrevista foi realizada por Vasco Futscher Pereira para a Lisbon Courier, revista de turismo aéreo criada pelo meu avô materno, Guilherme Pereira de Carvalho, em 1946. Não sei dizer ao Leitor que pseudónimo terá usado o meu pai ... Da Lisbon Courier, possuo apenas este exemplar, que fica para outro dia e outro post.

 

 



 

 

link do postPor VF, às 09:58  comentar

10.6.09

 

est essentiellement poétique. Comment en serait-il autrement, dans un pays dont la poésie est la plus marquante expression de sa vie spirituelle? La langue portugaise elle-même, depuis ses origines, a épousé, suivant une syntaxe souple et une phonétique richement nuancée, le rythme et la cadence du vers — la forme qui exprime, mieux que toute autre, les subtilités de l'âme. La poésie au Portugal est, à son tour, profondément lyrique. Il est vrai que Camoens, son plus haut poète, resplendit toujours et surtout comme un des plus grands épiques de l'Humanité, car on le considère à travers le poème qui l'a immortalisé: «Les Lusiades». Mais les connaisseurs savent trop bien qu'il occupe dans l’histoire littéraire du Portugal le sommet jamais atteint de la poésie lyrique. Et tous les Portugais, qui gardent sa renommée aussi jalousement que si c'était la leur propre, ne s'enivrent pas moins de ses chansons, de ses sonnets ou de ses vilancetes, que des puissants accents épiques de son poème tant célébré. L'art populaire portugais reflète donc, en tout, ce caractère lyrique. De même que la poétique populaire se complait généralement à créer — le plus souvent par improvisation—des quatrains qui sont de véritables petits poèmes lyriques, de même l'art populaire joue des formes et des couleurs, suivant les lois d'une même simplicité spontanée. C'est ce qui le rend sensible et émouvant. C'est ce qui le rend, surtout, spirituel. Car on dirait bien que c'est également pour chanter ce que le coeur leur dicte que tous ces artisans ignorés moulent la terre glaise, pour en extraire le galbe élégant des poteries; qu’ils couvrent d’ornements précieux les objets votifs ou simplement d’usage domestique; qu’ils tressent et enchevêtrent des dessins de merveille avec des fibres de sparte ou des brins d’osier; qu’ils dessinent avec du fil et de la soie, leurs dentelles et leurs broderies; qu’ils construisent, avec des filaments d’or et d’argent, les filigranes en arabesques; qu’ils dressent des arcs verdoyants aux jours de pèlerinage ou de pardon; ou que,finalement, ils prennent les pinceaux pour exprimer leurs caprices de coloristes. En chacun de ces ouvrages, en y regardant bien, vous trouverez toujours les traces de l’attachement affectif de l’artisan au terroir ou à la personne aimée. Dans la plupart de ces travaux, le mot AMOR apparaît fréquemment. En suivant la ligne gracieuse de leurs guirlandes, les quatre lettres expressives surgissent, inattendues—quand ce n'est pas un nom de femme: — Maria — ou celui du bien-aimé: — Manuel. Ou bien, une phrase discrète, une date qui rappelle un souvenir heureux, ou, tout simplement, un coeur stylisé — l’offrande suprême! Et aujourd'hui comme hier, ces motifs se répètent, immuables, tels que les vers d'un quatrain chanté jadis et que l’on entend toujours, car il est une expression heureuse du sentiment lyrique de chacun. De même, par le truchement de ces minuscules poèmes plastiques innombrables, sont dites et redites, de génération en génération, les lois obscures du langage des formes artistiques du peuple portugais.

 

António Ferro

in Quelques Images de l' Art Populaire Portugais

S.P.N. 1937

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de Paulo Ferreira (1937)

 

link do postPor VF, às 11:23  comentar

7.6.09

 

 

Desenho de Paulo Ferreira (1937)

 

 

fechado em Belém mas aberto aqui

 

Imagem:  da obra Quelques Images de l'Art Populaire Portugais, design gráfico e ilustrações de Paulo Ferreira

S.P.N. 1937

 



2.4.09

 

 

 

 

 

Maria do Carmo de Barros Pereira de Carvalho

(Mariêta)

Baía, Brasil, c. 1897

 

 

A camélia desbotada que Unamuno encontrou no Santuário do Bom Jesus do Monte, seca, espalmada contra o vidro duma tosca moldura, guarda muito do segredo da emigração minhota: "Em 14 de Março de 1874, retirei do Senhor do Bom Jesus do Monte uma camélia com a promessa de lha restituir, caso ele permitisse que eu voltasse um dia a esta terra, da minha volta ao Minho. E como ele o permitiu, nesta data lhe devolvo como prova de fé e de religião... Braga, Junho de 1895, Maria Emília Santos Mayor."

 

Não leva o minhoto consigo, como o inglês, hábitos de vida que na simplicidade do seu quotidiano difícil mal teve tempo de criar. Mas permaneceram com ele os costumes, os modos e a paisagem que lhe deram carácter. O caldo verde tem tanta importância como o trajo típico que manda ir da cidade ou da aldeia natal para a sua filha, lá no Brasil, assim que pode. Depois, na criança que nasce, no aniversário de família, no casamento longe, o fotógrafo lá está para fixar em postal a cores a pose lusíada que por vezes pode guardar um pequeno coração que só conhece Portugal de ouvir dizer.

 

Qual o segredo deste patriotismo entranhado, que não exclui, no entanto, a rápida capacidade de adaptação do minhoto à terra que procura? A paisagem, às vezes, responde-nos. Tenho na minha frente, materializada nessa branda policromia que é uma das suas características, os campos silenciosos do Minho à hora discreta do entardecer. Até à fímbria do horizonte sobe, aqui e além, o fumo dos casais. Findou o trabalho rural — e é a hora em que outro se inicia o do lume amigo onde se prepara a ceia. Esta paisagem, tímida na sua alegria amena, dá ao minhoto certo sentido das proporções que o acompanha sempre — e envolve uma população cada vez mais densa, que talvez não desejasse senão viver e morrer aqui, entregue à terra ou a um artesanato agrário, tradicional. Mas a industrialização da época é contrária às calmas recompensas dessas antigas ocupações, cujo valor económico era também moral. Por isso, o minhoto emigra e, se é preciso, em conjunto, como já, no século XVI, Campo Tourinho fazia, levando de Viana para Porto Seguro,de que era donatário, dizem os livros, "mulher, filhos e outros moradores casados, como parentes e muita outra gente". Ao emigrar, o minhoto transmite a sua confiança ao solo onde chega e oferece-lhe, além da força do seu braço e do seu ímpeto, a madura perspicácia da sua intuição. E tenho para mim que, talvez contraditoriamente, também deve estas qualidades à paisagem, que, longe de adormecê-lo, o estimula, não lhe fechando o sonho nos limites da terra, por demasiado estreita. Quando lhe foge, sublima-se.

 

Afinal, a écloga não é incompatível com a epopeia.

 

 

 

 

 

Luís Forjaz Trigueiros (1956)

in Paisagens Portuguesas, Uma viagem literária

© Guimarães Editores Lda (1993)

 

Leia mais sobre o autor aqui

link do postPor VF, às 12:27  comentar

31.3.09

 

Minho c. 1967

Fotografia de Robert Thuiller

 

O infante D. Henrique nasceu no Porto em 1394 e será ao Entre-Douro-e-Minho que ele irá buscar senão os chefes, o escol, pelo menos o grande material vivo para as jornadas do mar. É dos flancos e dos estaleiros litorâneos do Norte que vai sair o melhor contingente das armadas portuguesas. Para a conquista de Ceuta sabe-se que no Minho o recrutamento abrangeu toda a província. As frotas do Porto partem, sucessivamente, na segunda metade do século XV, para o Norte da África e os armadores de Viana, Ponte de Lima e Vila do Conde, fortes do seu prestígio, impõem condições ao trono nas Cortes de 1436. No reinado de D. João II, Álvaro de Caminha lança os fundamentos de S. Tomé e João Afonso de Aveiro traz da Guiné a primeira pimenta. São ambos homens do Norte. Do Minho eram Pedro e Álvaro de Braga, que acompanham Vasco da Gama ao Oriente. E o cronista do descobrimento do Brasil — Pêro Vaz de Caminha — querendo assinalar a benignidade do clima da terra descoberta não encontra outro ponto de comparação mais expressivo: " muito bons ares, assim frios e temperados como os de entre Douro e Minho." De Viana do Castelo era o descobridor da Terra Nova, João Álvares Fagundes. O génio aventureiro do homem minhoto encontrou, primeiro nos Descobrimentos, e depois no povoamento do Brasil, na permanência das rotas portuguesas para a Índia, sob a ocupação castelhana, no comércio com a França, Flandres, Inglaterra e Alemanha, uma forma activa de realização. E se no século XVII já o alemão Link poderia escrever que os camponeses minhotos eram "os melhores do reino", um cientista nosso contemporâneo, o Prof. Mendes Correia escreve: "verificámos ser a província de Entre Douro e Minho mais rica em homens ilustres, proporcionalmente à população, do que Trás-os-Montes e o Algarve, aproximando-se do centro litoral, das Beiras e das ilhas, desde que se não entre em conta com as influências culturais de Lisboa, Porto e Coimbra."

Energias étnicas, assim apuradas no decurso dos séculos, contrariam a tese dum possível paralelismo entre o enfaixe duma terra já de si estreita e, para mais, compartimentada, e as fronteiras do horizonte individual do minhoto. Decerto a densidade da população cria problemas económicos aos quais a natureza do solo não dá solução. Mas a divisão normal da propriedade em leiras bem aproveitadas tem nos nossos dias vantagens sociais evidentes que se traduzem, por um lado, na permanência dum sentido de propriedade que contenta a todos e a ninguém agrava e, por outro, numa instintiva fixação sentimental ao terrunho, que se transmite de pais a filhos.

E há, ainda, outra forma de afirmação duma personalidade forte, que é a da emigração. O minhoto emigra. Não o contenta a paisagem apertada em que mal cabe o seu sonho. Emigra e em geral, na terra, no balcão, na oficina ou no escritório, dá boa conta dessa emigração. O minhoto emigra, como o beirão ou o transmontano. E esta emigração dá ao minhoto de regresso uma «altura» imediata na visão das coisas que no entanto não lhe dificulta a adaptação. Um dos meus prazeres, aqui, pelo Verão, é ouvir falar esses emigrantes que, de longe, continuaram a sentir em português e admirar-lhes uma fidelidade interior de que talvez nem se apercebam.

 

© Luís Forjaz Trigueiros

in Paisagens Portuguesas, Uma viagem literária

Guimarães Editores Lda (1993)

 

Veja neste blog uma fotografia de Luís Forjaz Trigueiros aqui

 

Imagem do livro Portugal Familier,

Yves Gandon e Robert Thuiller

© Librairie Hachette, 1967

 

link do postPor VF, às 12:31  comentar

28.3.09

 

 

 

 

Casa de Freitas  c. 1930

 Concelho de Amarante  

 

Aproveito o facto de ter evocado o meu bisavô Guilherme Pereira de Carvalho, no post anterior, para satisfazer a curiosidade de um amigo que, um dia destes, me perguntou com intuição certeira “que casa mágica é esta que serve de pano de fundo ao blog". Situada na região de Entre Douro e Minho, a 'Casa de Freitas' acolheu sucessivas gerações da minha família materna. Nos anos cinquenta foi inteiramente reconstruída, após um grande incêndio que só deixou de pé a fachada, mas o seu aspecto actual é praticamente idêntico.

 

Foram muitas as fotografias de família e amigos tiradas nesta casa ao longo do século XX e eu estava à espera de um momento oportuno para apresentá-la ao Leitor, desde que, logo no primeiro dia, abri com esta vista uma excepção à regra de não mostrar no blog imagens do livro Retrovisor, um Álbum de Família (a sair em breve). 

 

 

A Casa de Freitas terá sido mandada construir por António Pereira de Carvalho, nome a que correspondem supostamente as iniciais “APC” que encimam o portão do jardim. Sei que a propriedade foi comprada pelo meu bisavô a Joaquim Leite de Carvalho. Guilherme Pereira de Carvalho (1854-1927) — a não confundir com o meu avô, do mesmo nome — e Joaquim Leite de Carvalho eram naturais do Lugar de Freitas, na Freguesia de Telões, e ambos comerciantes estabelecidos no estado brasileiro da Baía. Uniam-nos laços de parentesco. Descobri recentemente esta fotografia de Joaquim Leite de Carvalho num álbum de família muito antigo que pertenceu a meu tio-avô António Guilherme Pereira de Carvalho:

 

 

Joaquim Leite de Carvalho

c.1900

 

Por morte de meu bisavô, a propriedade coube em herança a sua filha mais velha, Maria do Carmo (Mariêta), que por sua vez a deixou aos sobrinhos.

 

Hoje a Casa de Freitas pertence a um bisneto de Guilherme Pereira de Carvalho.

 

 

O álbum de António Pereira de Carvalho está aqui 

 

 



pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
contador sapo