29.6.15

 

 

 

La vida es un sueño y los sueños sueños son. Calderón cut a play's title out of that old Spanish proverb. Life is a Dream. The rest translates: 'Dreams are dreams.'

 

On the fifth of March 1933, the banks of the nation closed. Led more by a nose for drama than by the concern proper to a son, I hustled uptown to see how the 'old man' was weathering the crisis; my curiosity was not altogether sympathetic.

 

His business was located at 295 Fifth Avenue, the Textile Building, a hive of importers, wholesalers like himself, dark-complexioned men, immigrants all, most of them Armenians but some Anatolian Greeks, as well as a few Persians, Syrians and Egyptians. These men had come overseas from the East, propelled by a dream: that here their throats would not be cut. Working in the dust of carpets, living alone in dark back rooms, depriving themselves of pleasures, they'd put the dollars together, year after year, obeying the voice in the air of America; to accumulate money; that was safety, that was happiness. They married late, unromantically, going back to their native lands, as my father had, to find a proper woman out of their own tradition, ten, fifteen, twenty years younger, then made children as quickly as possible in half-paid-for homes while dutifully continuing to feed their accounts in banks whose doors, that morning, had remained locked.

 

Generally these men entered my father's store only when they had a customer whose needs they weren't able to meet from their own stock. They'd escort this buyer to Father's place and there pick up, in place of a profit, a commission. These encounters were rare since they were a last resort. My father's competitors paid each other no casual visits. But when I walked in that morning, there they were, a dozen or more, sitting cross-legged on piles of three-by-five Sarouk or Hamadan 'mats', clumped together in static postures, like hens roosting. Motionless, inanimate, they seemed to be waiting – but for what? Occasionally a few mournful words would be mumbled, a puzzled complaint. No response was expected, none offered.

 

Skirting the motionless figures, I circled back to the small desk where I was supposed to tend the accounts-due books. With business as bad as it had been, there'd been little to do that summer. I'd typed a few letters: 'Your immediate check would be sincerely appreciated' or 'We will regretfully be forced to place your account in the hands of our lawyers.' But most of the time I'd tilted up the large stock of our book and hidden The Brothers Karamazov behind it. This had been noticed, of course, and reinforced the general opinion that I was a young man without a future.

 

On this morning I sat idle, like the others, studying the assembly of merchants, men whose skins had once been a rich olive and were now pale from worry and the cold light that concrete walls shed. They're like shipwrecked sailors, I thought, thrown up on a desert and waiting for someone to rescue them.

 

Actually my father's business had gone 'kaput' - his word — three years before, in 1929, when the market collapsed. He'd put the yield of a life's labour into a stock issued by the National City Bank. Bought at just over 300, climbing as millions cheered past 600, it then rumpled with all the others down the mountain of high finance, like the boulders of an avalanche, to 23. At that time, he'd thought of his disaster as something for which he was in some way responsible; he must have done something wrong, made some awful mistake. Had he been outsmarted? Had he been cheated?

 

But now, in 1933, on the day the banks closed, surrounded as he was by men who shared the catastrophe — no one smarter, no one luckier, he knew them all to be as ordinary as he was - Father must have begun to accept that what had happened was more serious than any mistake he could have made. The men around him were all bleeding from the same invisible lesions. In a few years many of them would be out of business. They all shared a dread of what was coming.

 

 

Elia Kazan

in  A Life   p.102-103

© Elia Kazan 1988

 

 

Elia Kazan.jpg

 

 

On board the Keiser Wilhelm which brought us to America (1913)



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20.8.14

 

 

 

 

Vasco Luís Futscher Pereira

3 de Fevereiro de 1922 — 20 de Agosto de 1984

 

 

 

Brasília, 10 de Agosto [1974]

 

Almoço com o Vasco Futscher no Clube Naval.

 

Rosto glabro e redondo e olhar de sapo por detrás duns óculos onde palpita viva e ágil a retina bombeada do míope. Grande falador de riso fácil e de uma extrema simpatia natural. Tudo lhe desperta curiosidade.

 

Ostenta um instintivo gosto pela vida alimentado, ao contrário de muitos, pela cultura e a inteligência. Uma ponta de obesidade confere-lhe uma certa inteireza física acentuando-lhe a espontânea jovialidade. Quando sorri, e sorri com frequência, as bochechas sobressaem à maneira dum boneco animado, arredondando-lhe a face e a expressão reboluda do olhar.

 

A primeira impressão é a de que não poderia ter havido melhor escolha. Calhado para o Brasil, como outros o são para a Finlândia ou a Indonésia. O Brasil, que não conhece, surge-lhe como uma experiência inteiramente nova que ainda o anima e seduz, pois é homem, se não me engano, de entusiasmos repentinos.

 

Diz-me, no entanto, ter ficado horrorizado com o que lhe contou o Castelinho1, com quem jantou há dias, acerca da intensidade e polivalência aqui da repressão política a cargo simultaneamente de diversos organismos, que agem por conta própria, cada um dis­pondo de sua gente e actuando por sua iniciativa.

 

[...]

 

Voltando ao Brasil, falei-lhe da relação essencialmente freudiana que ainda hoje liga - ou separa? - o Brasil e Portugal. Quem teimar em encarar este país com o olhar peregrino do portuga, e não perceber a ambiguidade de sentimentos que o brasileiro nutre para connosco, arrisca-se a cometer grossa asneira e a nada entender desta terra e desta gente.

 

Na verdade, nada mais ilusório do que partir do princípio de que a matriz lusíada, por si só, será suficiente para preservar os laços da tão apregoada comunidade luso-brasileira.

 

[...]

 

O embaixador limitou-se a ouvir-me e apenas citou, como prova do contrário, dois exemplos: o caso do Estado de São Pauloe a proliferação de clubes Eça de Queirós disseminados por todo o Brasil. «Veja só o imenso capital de simpatia que isso representa para connosco se o soubermos aproveitar com um mínimo de in­teligência.»

 

Levantou-se — já não sei que horas eram... e quantos cafés ha­víamos ingurgitado — e com um sorriso paternal, pousando-me a mão no ombro: «Deixe lá, homem, não se preocupe, não seja tão pessimista, ainda há por aí muito caturra que gosta de nós.»

 

 

Marcello Duarte Mathias

in Os Dias e Os Anos

© D. Quixote 2010

 

 

1.Carlos Castelo Branco, mais conhecido por Castelinho, ao tempo influente editorialista do Jornal do Brasil.

 

2. Nessa altura, o Estado de São Paulo um dos jornais mais prestigiados, inseria em substi­tuição das partes censuradas, consoante a maior ou menor extensão das mesmas, extrac­tos de Os Lusíadas, assinalando assim os cortes de que era objecto.

 

 

Foto: Francisco Silva Fernandes

 

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18.5.14

 

 

  Alix de Saint-André

 

La puerta se abre a todos,

enfermos y sanos

no sólo a católicos,

sino aun a paganos, a judíos, herejes,

ociosos y vanos;

y más brevemente, a buenos y profanos.

 

                                                     Poema del siglo XIII

 

 

 

On peut se croiser, mais on n'habite plus dans le même monde que les automobilistes. Pendant qu'on tournicote sans fin sur nos sentiers, de village en village, ils foncent tout droit d'une ville à l'autre. Si j'avais voulu ne pas me perdre et gagner du temps, j'aurais pu aussi longer les routes nationales. Il y en a toujours une pas loin, les panneaux sont sans mystère, cela va plus vite et c'est plus court. Mais le raccourci se paye cher: on s'explose les articulations et les pieds à marcher sur la chaussée, on respire le parfum des pots d'échappement, et l'on passe à côté de l'essentiel. Des lieux et des gens. Le chemin n'est pas fait pour aller vite d'un point A à un point B, il est fait pour se perdre, et perdre du temps.  Ou prendre  son  temps,  si l'on veut. Retrouver un monde à taille humaine et ses humains habitants. Ses animaux et ses végétaux. Chaque nouvelle erreur est une nouvelle ren­contre, chaque pas sur un sentier en creuse davantage l'existence sur la croûte terrestre, et l'on zigzague autour de la modernité à quatre kilomètres à l'heure. A la vitesse (si l'on peut dire!) du pas humain. Dans un autre espace-temps.

 

Le chemin nous fait vivre dans un monde parallèle. A la fois tout près des villes, et au milieu de nulle part. Un monde de petits sen­tiers et de hameaux qui festonne les grandes routes. Un monde de maisons d'hôtes et de gîtes ruraux, où évolue aussi une population paral­lèle, qui a plaisir à être là où elle est. A vous montrer combien c'est beau chez elle. Et qu'il n'y a rien de meilleur que sa cuisine... Car si le chemin ne pousse pas au mysticisme, il ne passe pas davantage par l'ascèse, Dieu merci! Jésus a commencé sa carrière miraculeuse en changeant l'eau en vin aux noces de Cana. Et non seule­ment sa mère était là, mais c'est elle qui l'y a poussé... L'avantage parfois douloureux de redé­couvrir la faim et la soif donne aussi l'occasion de se mettre à table chaque fois avec grand appétit, et sans aucun souci de régime : un vrai miracle!

 

Alix de Saint-André

in  En avant, route!

©Éditions Gallimard, 2010

 

 

 

 

 

 

 

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5.5.14

 

 

O partido exigia não apenas todo o nosso tempo, como sentia que a nossa entrega só era total se também puséssemos à sua disposição os nossos bens. «É forçoso dizer que grande numero de camaradas (...) procuram modos de vida cómodos; estabelecem por vezes para a sua vida privada padrões de existência abastada e não se importam, nalguns casos, de esbanjar dinheiro inutilmente», escrevia-se numa resolução do comité central. Pior, pecado maior: «alguns camaradas não prescindem e até esperam ansiosamente as férias, não se preocupando com o cumprimento das suas tarefas partidárias e revolucionárias» algo inaceitável, pois «a luta de classes e a revolução jamais poderão ir de férias». A simples ideia de ter férias tinha assim «natureza burguesa e não proletária» e o seu efeito seria semelhante «ao causado pela introdução de droga, ou pela corrupção moral num exército em guerra». Era pois necessário ser muito rigoroso, em nome da «robustez revolucionária», com coisas como «as esquisitices com a comida e com o dormir» ou o «vício de viajar comodamente». Tudo porque «ser comunista não é só um comprometimento, é, antes e acima de tudo, uma transformação real e constante». Ser comunista também implicava «montar a sua vida de acordo com os interesses do Partido e da Revolução», subordinar «incondicional­mente os interesses individuais aos superiores interesses do Partido» de forma a realizar a «condição de fiel ser­vidor do povo pobre». Ser comunista é «sê-lo em todos os momentos, em todas as tarefas e para a vida inteira». Por isso, «o egoísmo pessoal, a vida privada, o tempo li­vre, o aconchego familiar são umas vezes obstáculos, ou­tras vezes desculpas para não se dar ao partido aquilo de que precisa».

 

Exigia-se assim uma espécie de renúncia absoluta ao mundo exterior, uma renúncia que não era imposta pe­las condições concretas da luta política — em ditadura, quando era necessário passar à clandestinidade para fu­gir à perseguição da polícia, a renúncia à vida normal era inevitável —, mas por opção tomada para a vida. Entre­tanto, reforçavam-se os mecanismos destinados a impor o «centralismo democrático» com um objectivo que seria assumido por alturas do II Congresso, em 1977: «conse­guir a homogeneização das ideias e práticas proletário-revolucionárias, marxistas-leninistas», e «romper com resistências que subsistem na aplicação da linha táctica». Ou seja, para uniformizar o pensamento dos militantes, calando todas as vozes internas dissonantes.

 

 

*

 

Ainda hoje, quando olho para a forma muitas vezes arrogante como a esquerda jacobina olha para todos os demais, quando sinto como no debate público todos os que não se filiam, de uma maneira ou doutra, na tradição estatista e dirigista da esquerda sofrem uma espécie de capitis deminutio por, supostamente, não se preocuparem também com o bem da sociedade, recordo a lógica mistificadora da "superioridade moral".

 

 

José Manuel Fernandes

in Era uma vez...a revolução

© 2012 José Manuel Fernandes e Alêtheia Edições

 

 

 

 

 

 

 

 

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22.12.13

 

 

 

   João Bénard da Costa

 

 

 

[...] Naquele tempo, as crianças como eu não recebiam os presentes na noite da véspera. Os adultos escondiam cuidadosamente da nossa vista o que tinham comprado em nome do Menino Jesus (Pai Natal não existia ainda). Deitavam-nos, prevenindo que noite, muito noite, o Menino desceria pela chaminé da lareira da sala, para pôr as prendas nos sapatinhos que lá tínhamos deixado, antes de ir para a cama. Só as podíamos ver de manhã. E — não fosse o diabo tecê-las — avisavam-nos que ai de nós se quiséssemos entrar lá, antes de eles lá nos levarem, de manhã e nunca muito de manhãzinha, pois que pais deitam-se tarde e não se levantam cedo.

 

Pela calada da nossa noite, enfeitavam a sala e distribuíam por oito sapatos (éramos quatro, nessa altura) as compras do Menino. Depois, a casa levantava a âncora para a travessia da noite, como me lembro de ter lido em Gide.

 

Mas a excitação fazia-me (fazia-nos) acordar muito cedo. Logo que via o Outão diante de mim, percebia que a hora era próxima. Os minutos pareciam horas. Sombreados e luzeiros fixavam-se — como numa pintura — e não os via moverem-se. Se o Menino não tivesse vindo? Se não acontecesse nada? Terrível era a tentação de me levantar e ir espreitar, mas o medo da desobediência e do tabu, tolhia-me. Houvesse uma Eurídice por perto, não sei se teria resistido. Mas, como já disse, não havia.

 

Até que a porta se abria e me chamavam, com inconfundível alegria. Na sala, rompíamos os quatro ao mesmo tempo e, por mais esperado que fosse, o milagre era, de ano em ano, maior. Tudo aquilo, tudo aquilo só para mim. E era tão forte que um ano houve em que perguntei à minha Mãe como é que havia gente que não acreditava em Deus. A prova, irrefutável, era aquele maná caído do céu nos meus sapatos, coincidindo quase exactamente com tudo quanto eu tinha pedido.

 

Depois, muito depois, chegou o tempo de eu fazer de Menino Jesus para os meus filhos e depois, muito depois, o tempo de. obrigado pelo tempo deles, fazer de Pai Natal para os meus netos. Mas sempre que vejo as crianças precipitarem-se para o monte de embrulhos, maravilhosos e maravilhados, repete-se-me a antiquíssima questão e a antiquíssima certeza. A manhã de Natal de outrora, a noite de Natal de hoje é a prova da existência de Deus.

 

A mais absurda das provas? Obviamente, não vou argumentar. Mas já me apeteceria discutir se será mais absurda que as chamadas «provas racionais», nomeadamente as do santo de Aquino. Sosseguem que não vou por aí.

 

Apetece-me continuar em registo mágico, que é o registo destes musgos e destes presépios, destas palhinhas e destes reis. Sophia contou-me (Os Três Reis do Oriente) que Gaspar. Belchior e Baltazar viram a estrela que «mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria». E reconheceram-na logo «porque ela não podia ser de outra maneira». Quem reconhece a alegria das crianças, como quem vê a «carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência», não pode reconhecer estas coisas sem Te ver. «Como poderei suportar o que vi se não te vir?». É o oposto e é o mesmo.[...]

 

 

João Bénard da Costa

In Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 1º volume pp.386-387 

[crónica Uma frincha na janela, 26-12-2003] 

© Assírio & Alvim

 

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3.2.13

 

 François Mauriac



Ce qui longtemps m'a surtout frappé dans une vie, c'est le divertissement, tel que Pascal l'a défini: ce que nous inventons pour ne pas penser à nous-même et à l'horreur de notre condition, depuis la balle qui se pousse du pied jusqu'au lièvre que nous forçons, depuis les peuples qu'il faut asservir, si nous sommes César, jusqu'aux êtres qu'il faut posséder, si nous sommes Don Juan.

Aujourd'hui, ayant observé tant de destins, à travers les confidences et les livres, ou parce que j'y suis moi-même intervenu, je vois mieux que beaucoup parmi nous ne se divertissent que pour donner le change, qu'ils gardent au contraire les yeux sans cesse ouverts sur leur sort, celui de toute créature qui, même comblée, est mena­cée de partout à la fois: dans sa chair où la mort, bien longtemps avant de frapper, a planté ses petits drapeaux, dans son appartenance à une espèce très proche de celle des poissons et qui s'entre-dévore, « s'entre-torture » — et non pas seulement, comme dans les autres espèces, autour des femelles ou parce que l'animal est carnassier et a faim, mais parce qu'il est né assassin et bourreau de ses frères.

Non, pour la plupart, nous ne cherchons pas à nous divertir, nous nous interdisons de détourner notre regard, même quand nous feignons de jouer. Un seul moment d'inattention et la bête féroce peut d'un bond être sur nous.

Je connais mes défenses. Il m'arrive de m'interroger sur celles des autres — celles des vieillards surtout. La jeunesse trouve son refuge dans son propre tumulte. L'amour, l'ambition, ce qui s'appelle le plaisir, y entre­tiennent des remous qui se détruisent l'un l'autre. Non que l'angoisse ne soit là déjà. Elle était là dès l'enfance: nos yeux grands ouverts dans la chambre sans lumière, lorsqu'il nous semblait entendre un pas furtif dans l'esca­lier, une respiration derrière la porte, exprimaient sans doute le même effroi que nous avons appris plus tard à dissimuler, que nous avons dominé mais non détruit. Ou plutôt ce qui n'était qu'instinct est devenu raison. Les pas dans l'escalier, c'est en nous-mêmes que nous avons appris à les entendre et non dans un seul escalier: combien débouchent de partout sur une seule vie ! Il en est qui montent des profondeurs de la race et de notre propre chair, et d'autres d'une créature aimée. La condi­tion humaine, ce titre de Malraux, pose l'unique question et il y faut répondre, non par une nécessité logique, mais pour notre propre défense. Comment font les autres? Qu'y a-t-il au secret de ces vies?



François Mauriac

in Mémoires intérieurs

© Flammarion, 1959



 

 

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29.1.13

 

 

 

 27 May 1977 -French writers Bernard-Henri Lévy and André Glucksmann

converse on the set of the television show Apostrophes

Photo: © Sophie Bassouls/Sygma/Corbis



J'ai, pour commencer, été qualifié de philosophe à mon corps défendant. J'avais certes parcouru la suc­cession d'examens et de concours qui vous sacrent professeur de ladite discipline. Je n'estimais pas que les palmes du « philosophe » pussent pour autant être déposées sur mon front. Je croyais que les détenteurs de ce titre prestigieux se comptaient sur les doigts de la main : Platon, Aristote, Descartes, Kant, Hegel. Peut-être Heidegger l'avait-il mérité du temps de sa jeunesse mais il compromit son titre en appelant étu­diants et collègues à suivre le Führer. Pis encore, cha­cun ayant droit à l'erreur, il avait, après la capitulation du Reich, tenté, trente longues années, comme un gros chat, d'enterrer ses déjections dans le sable de sa théorie. Du moins me semble-t-il après lecture attentive. Passons.


Si, jeune homme, je plaçais la barre de la « grande philosophie »  très haut, trop  haut  pour moi, mes contemporains au contraire la situaient très bas, plus bas que terre, car la prétention à la «sagesse» était passée de mode. Ils se voulaient alors savants et objec­tifs; ils s'affichaient sociologues, structuralistes, lin­guistes, économistes, dépositaires de savoirs plutôt qu'animés du désir de savoir. Le marxisme-léninisme, version École normale supérieure, régnait. Le vent tourna, dans les années 75-80, quand beaucoup de mes semblables se mirent à signer «psychanalyste et philo­sophe», «mathématicien et philosophe», biologiste et... historien et... écrivain et philosophe. La 2 CV Citroën se vit sacrer dans les gazettes «voiture philo­sophique». Que s'était-il passé? En déboulonnant les idoles du marxisme hégémonique dans l'intelligentsia parisienne, peut-être ai-je contribué à ce renverse­ment. Lorsque de bonnes plumes rejoignirent mes blasphèmes, Bernard-Henri Lévy et les médias bapti­sèrent un peu abruptement cette cohorte provisoire et volatile  «nouvelle  philosophie».  Si la science du matérialisme historique pliait sous les coups, force était de conclure que la volée de bois vert administrée, au nom de la philosophie, sur les adeptes de la dicta­ture du prolétariat n'était pas aussi  frivole  qu'on aimait à le dire.


Je ne laissai pas d'être surpris du retentissement de mon essai intitulé La Cuisinière et le Mangeur d'hommes sous-titré insolemment : «Essai sur le marxisme, l'Etat et les camps de concentration». Le voisinage des termes sonna comme un coup de carabine dans un ciel serein. Mon éditeur avait laissé dormir le manus­crit dans son tiroir pendant plus de six mois, anticipant la diffusion médiocre d'un texte qui heurtait ses convictions de gauche. Sorti le 15 juillet 1975, sans intervention télé, un seul passage radio sur Europe dans la folie des départs en vacances, mais soutenu par un bouche-à-oreille flatteur et imprévu, porté par quelques articles spontanés et enthousiastes de gens que je ne connaissais pas ou mal (1) , il tourna très vite au best-seller.


Des dizaines de milliers d'exemplaires s'arrachèrent dans les librairies et s'échangeaient sur les plages. C'était drôle, curieux, inattendu. J'avais écrit dans l'isolement le plus extrême, sans souci du public, juste pour exprimer la rage et le désir que je partageais avec quelques amis de «ne pas mourir idiot». Le brûlot véhiculait une révolte à fleur de peau contre le plus grand mensonge du siècle : le communisme. Il était rédigé par quelqu'un qui y avait goûté dans son enfance et que le Tout-Paris estimait «de gauche». Je jouissais d'une «bonne réputation». ... 



André Glucksmann

in Une rage d'enfant

[Chapitre 8. A quoi sert la philosophie ? * pp. 172-174]

Hachette Littératures

© Plon, 2006

 

1. Remerciements à Maurice Clavel, Jean Daniel et Bernard-Henry Lévy.

 

* Où il est suggéré que se connaître soi-même, c'est connaître Typhon en nous. D'où l'utilité des infos de 20 heures et l'examen des liaisons dangereuses: Freud et Junon, Alcibiade et Socrate, le prince Potemkine et le neveu de Rameau, Poutine et moi.

 


aqui

 

 

 

 

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24.1.13




Paris, Mai 1968:

 Photo: © Serge Hambourg


[...] Depuis trois jours, les étudiants parisiens manifestent violemment. Le jour, ils entre­prennent de dépaver le boulevard Saint-Michel. La nuit, ils font la fête. Puisque la police occupe la Sorbonne, Daniel Cohn-Bendit tient salon sur la place, un millier d'étudiants l'entourent, assis sagement en tail­leur sur le basalte, disposés à résister si les forces de l'ordre tentent de nettoyer les lieux. Un sondage conforte leur optimisme, paru dans la presse du matin: la population de Paris trouve les protestataires plutôt sympathiques, quoi que dise le gouvernement, malgré le boss du parti communiste qui dénonce «l'anarchiste allemand » fauteur de troubles, donc le complot de l'étranger et la CIA.


Le «rouquin sublime» tient le mégaphone lorsqu'un vieil homme très digne, très droit, une cape noire jetée élégamment sur l'épaule, fend la foule. Il vient, dit-il, «saluer» les révoltés. Il tient à désavouer publiquement son parti. Mazette! Une gloire natio­nale s'avance. Son nom circule comme une traînée de poudre, «Aragon!». Les étudiants sont médusés, « le » poète de la Résistance française, l'étoile du sur­réalisme et l'ancien porte-drapeau des intellectuels staliniens a sauté le pas. Il sourit à la foule, salue, pro­nonce quelques paroles bienveillantes et, tel un dieu vivant, savoure par avance l'ovation.


Dany interrompt le début de messe, reprend sans ménagement le mégaphone, et, avec la gouaille qui lui colle à la peau, lance au grand écrivain stupéfait « Très bien! tu es avec nous, mais, avant que nous ne soyons avec toi, réponds de ton passé ! Tu as chanté "Hourrah l'Oural" quand des millions et des millions de Soviétiques étaient déportés, exterminés par le NKVD. Explique tes élégies à la gloire de Staline ! Tu n'as pas le droit de tromper à nouveau.» Et le jeune «mal élevé», qui eût tant plu à l'Aragon surréaliste, enchaîne sans pitié : «Aragon! tu as du sang sur tes cheveux blancs.» Le prince des poètes, livide, s'est figé. Pas un son ne sort de sa bouche, une grimace vient tordre son beau visage. Il tourne les talons et repart penaud. Courbé sous le poids de ses men­songes? La magie de l'insolence venait d'assener une belle leçon d'histoire. De celles qui permettent de comprendre, trente-cinq ans après, la jeunesse orange d'Ukraine et les roses de Géorgie. De quoi moins s'étonner quand Tbilissi ovationne Bush contre Poutine.


Ne voyez pas là un négligeable incident de parcours. L'originalité et l'éclat du Mai français tenaient à sa rupture, encore balbutiante et souvent inconsciente, avec l'idéologie communiste. Ailleurs, en Europe, il en allait tout autrement.[...]

 


André Glucksmann

in Une rage d'enfant

[Chapitre 6. La tentation de Combray * pp.130,131]

Hachette Littératures

© Plon, 2006


Où l'on rencontre Mai 68, Jean-Paul Sartre et Tante Léonie. Qui donne congé à l'Histoire touche à une éternité pas belle à voir. Comment en soixante ans, Paris a zappé du discours de la victoire au discours de la défaite. Dans une Europe degré zéro, les guerres des mémoires tiennent lieu d'aphrodisiaque. 




Image: Student leader Daniel Cohn-Bendit raises his arm for silence to allow poet Louis Aragon to talk to students on a megaphone.Courtesy of Serge Hambourg ici  

 





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11.1.13

 

 

 

 Milan Kundera

 

 

Après 1948, pendant les années de la révolution communiste dans mon pays natal, j'ai compris le rôle éminent que joue l'aveuglement lyrique au temps de la Terreur qui, pour moi, était l'époque où «le poète régnait avec le bourreau» (La vie est ailleurs). J'ai pensé alors à Maïakovski; pour la révo­lution russe, son génie avait été aussi indispensable que la police de Dzerjinski. Lyrisme, lyrisation, dis­cours lyrique, enthousiasme lyrique font partie inté­grante de ce qu'on appelle le monde totalitaire; ce monde, ce n'est pas le goulag, c'est le goulag dont les murs extérieurs sont tapissés de vers et devant lesquels on danse.


Plus que la Terreur, la lyrisation de la Terreur fut pour moi un traumatisme. À jamais, j'ai été vac­ciné contre toutes les tentations lyriques. La seule chose que je désirais alors profondément, avide­ment, c'était un regard lucide et désabusé. Je l'ai trouvé enfin dans l'art du roman. C'est pourquoi être romancier fut pour moi plus que pratiquer un «genre littéraire» parmi d'autres; ce fut une attitude, une sagesse, une position; une position excluant toute identification à une politique, à une religion, à une idéologie, à une morale, à une collec­tivité; une non-identification consciente, opiniâtre, enragée, conçue non pas comme évasion ou pas­sivité, mais comme résistance, défi, révolte. J'ai fini par avoir ces dialogues étranges: «Vous êtes communiste, monsieur Kundera ? — Non, je suis romancier.» «Vous êtes dissident? — Non, je suis romancier. » «Vous êtes de gauche ou de droite? — Ni l'un ni l'autre. Je suis romancier. »


Dès ma première jeunesse, j'ai été amoureux de l'art moderne, de sa peinture, de sa musique, de sa poésie. Mais l'art moderne était marqué par son «esprit lyrique», par ses illusions de progrès, par son idéologie de la double révolution, esthétique et poli­tique, et tout cela, peu à peu, je le pris en grippe. Mon scepticisme à l'égard de l'esprit d'avant-garde ne pouvait pourtant rien changer à mon amour pour les œuvres d'art moderne. Je les aimais et je les aimais d'autant plus qu'elles étaient les premières victimes de la persécution stalinienne; Cenek, de La Plaisanterie, fut envoyé dans un régiment dis­ciplinaire parce qu'il aimait la peinture cubiste; c'était ainsi, alors: la Révolution avait décidé que l'art moderne était son ennemi idéologique numéro un même si les pauvres modernistes ne désiraient que la chanter et la célébrer ; je n'oublierai jamais Konstantin Biebl : un poète exquis (ah, combien j'ai connu de ses vers par cœur!) qui, communiste enthousiaste, s'est mis, après 1948, à écrire de la poésie de propagande d'une médiocrité aussi consternante que déchirante; un peu plus tard, il se jeta d'une fenêtre sur le pavé de Prague et se tua; dans sa personne subtile, j'ai vu l'art moderne trompé, cocufié, martyrisé, assassiné, suicidé.


Ma fidélité à l'art moderne était donc aussi pas­sionnelle que mon attachement à l'antilyrisme du roman. Les valeurs poétiques chères à Breton, chères à tout l'art moderne (intensité, densité, ima­gination délivrée, mépris pour «les moments nuls de la vie»), je les ai cherchées exclusivement sur le ter­ritoire romanesque désenchanté. Mais elles m'im­portaient d'autant plus. Ce qui explique, peut-être, pourquoi j'ai été particulièrement allergique à cette sorte d'ennui qui irritait Debussy lorsqu'il écou­tait des symphonies de Brahms ou de Tchaïkovski; allergique au bruissement des laborieuses araignées. Ce qui explique, peut-être, pourquoi je suis resté longtemps sourd à l'art de Balzac et pourquoi le romancier que j'ai particulièrement adoré fut Rabelais.



Milan Kundera

in Les testaments trahis

[sixième partie Oeuvres et Araignées [# 7,  pp. 185-187]

© Milan Kundera / Editions Gallimard 1993



 

 


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9.1.13

 

 

 

 Danilo Kis



FIDÈLE À RABELAIS

ET AUX SURRÉALISTES

QUI FOUILLAIENT LES RÊVES




Je feuillette le livre de Danilo Kis, son vieux livre de réflexions, et j'ai l'impression de me retrouver dans un bistro près du Trocadéro, assis en face de lui qui me parle de sa voix forte et rude comme s'il m'engueulait. De tous les grands écrivains de sa génération, français ou étrangers, qui dans les années quatre-vingt habitaient Paris, il était le plus invisible. La déesse appelée Actualité n'avait aucune raison de braquer ses lumières sur lui. «Je ne suis pas un dissident», écrit-il. Il n'était même pas un émigré. Il voyageait librement entre Belgrade et Paris. Il n'était qu'un «écrivain bâtard venu du monde englouti de l'Europe centrale». Quoique englouti, ce monde avait été, pendant la vie de Danilo (mort en 1989), la condensation du drame européen. La Yougoslavie: une longue guerre sanglante (et victorieuse) contre les nazis; l'Holocauste qui assassinait surtout les Juifs de l'Eu­rope centrale (parmi eux, son père); la révolu­tion communiste, immédiatement suivie par la rupture dramatique (elle aussi victorieuse) avec Staline et le stalinisme. Si marqué qu'il ait été par ce drame historique, il n'a jamais sacrifié ses romans à la politique. Ainsi a-t-il pu saisir le plus déchirant: les destins oubliés dès leur nais­sance; les tragédies privées de cordes vocales. Il était d'accord avec les idées d'Orwell, mais com­ment aurait-il pu aimer 1984, le roman où ce pourfendeur du totalitarisme a réduit la vie humaine à sa seule dimension politique exactement comme le faisaient tous les Mao du monde? Contre cet aplatissement de l'exis­tence, il appelait au secours Rabelais, ses drôle­ries, les surréalistes qui «fouillaient l'inconscient, les rêves». Je feuillette son vieux livre et j'en­tends sa voix forte et rude: «Malheureusement, ce ton majeur de la littérature française qui a commencé avec Villon a disparu.» Dès qu'il l'eut compris, il a été encore plus fidèle à Rabelais, aux surréalistes qui «fouillaient les rêves» et à la Yougoslavie qui, les yeux bandés, avançait déjà, elle aussi, vers la disparition.


Milan Kundera

in Une rencontre* p.160-161

© Milan Kundera 2009 - Éditions Gallimard 2009                                                

 

 

 

* ... rencontre de mes reflexions et de mes souvenirs; de mes vieux thèmes (existentiels et esthétiques) et mes vieux amours (Rabelais, Janacek, Fellini, Malaparte...)...






Mais sobre este  livro aqui

 

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4.1.13



 

 

 

Ruy Cinatti (1915-1986)




Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes", leu o escriturário por detrás do balcão do consulado de Portugal em Londres. Mui­to novo, era poeta ainda por publicar: acometeu-o uma aura de deslumbramen­to. Levantou os olhos do pas­saporte e fitou o homem do outro lado.

"O senhor é o Ruy Ci­natti?"

"Sou, sou" respondeu o outro. "Não é por mal..."

Nada foi por mal, na vida do Ruy. Havia rigores desa­piedados: "Eu, com o Antigo Testamento entendo-me. Mas depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló — estragou tudo!" Esta dureza mais do que calvinista atravessava sem confrontos mortais a ti­bieza moral dos nossos costu­mes por vir entrecortada pe­las interjeições onomatopaicas e outras idiossincracias verbais que faziam parte per­manente da fala do Ruy. Quem tratava com ele apren­dia a dar-lhes sentido (para o Senhor Moreira, há meio sé­culo dentro do quiosque do Príncipe Real, entra o ano sai o ano, do nascer do sol à meia noite, "glú-glú e fló-fló" queria sempre e somente di­zer "um maço de Porto e uma carteira de fósforos"). Impediam que ele degeneras­se de moral em moralista e agasalhavam numa capa de pudor a sua carência afectiva essencial.

Em "O Livro do Nómada meu Amigo" lê-se este verso:

"Quem não me deu amor não me deu nada."

A poesia é uma coisa, a vida outra: entre a palavra escrita e a conversa desconjunta-se um universo; além disso, mais ainda do que em outros grandes poetas, a maneira do Ruy falar de si era muito diferente da sua maneira de escrever. O sentimento que levara ao verso acima, poderia, de viva voz, chegar-nos assim:

"Gadulha, eu quero ir ao cinema..."

Ditos deste — e o jeito de os dizer — irritavam de sobremaneira muita gente que os tomava por exibição oportunista e ridícula de mimo. Mas não irritava quem encontrara em Ruy Cinatti qualquer coi­sa de inefável, um milagre fugaz e inter­mitente que nos fora dado testemunhar. Por dentro do casulo de maneirismos lu­zia um cristal indestrutível. No nosso mundo relativo vingara uma exigência de absoluto.

Nos últimos anos, deambulava pelas ruas de Lisboa, distribuindo fotocópias de poemas seus sobre Timor, espécie de Catitinha literário, figura de escárnio e com­paixão. A tragédia de Timor, onde fora agrónomo e etnógrafo, tornara-se para ele uma obsessão moral mas os poderes que havia não o compreendiam nem o consi­deravam. A esquerda republicana — ma­çónica e machista — sempre o achara um diletante efemi­nado. Com os comunistas, em 1974, talvez se pudesse ter entendido mas, do lado de lá de um nevoeiro filosófico, eles eram, afinal de contas, tão brutais como os ocupan­tes indonésios da terra que ele amara sobre todas as ou­tras. Os amigos de direita ti­nham desaparecido da políti­ca no 25 de Abril e a nova di­reita desconfiava do seu pen­dor igualitário. Da nova es­querda estava longe: "Eu fui criado à direita mas foge-me o corpo para a esquerda — e o que vejo por aí é o contrá­rio". Isto no tempo da expan­são marcelista, quando ga­nhar muito dinheiro passara a ser 'de rigueur' para o escol da gente nova, mesmo daque­la que fizera nome no anti­fascismo universitário.

Uma das últimas vezes que estivemos juntos contou da sua ida ao Ballet Gulben­kian perguntar se o aceita­vam (aos sessenta e cinco anos). Pôs um disco no gra­mofone e demonstrou. De­pois dele sair, minha mu­lher, que é coreógrafa, disse-me que nunca vira nada as­sim: quem tenta dançar bal­let sem ser bailarino procura sempre imitar a maneira de dançar dos bailari­nos. Ruy Cinatti não imitara ninguém: entrara inteiro na música e, sem técni­ca, dançara com expressão lírica inultra­passável. Foi-se embora tarde, muito bêbedo e esqueceu-se lá em casa da bo­quilha que nunca cheguei a devolver-lhe. Guardo-a agora como uma relíquia. Nasceu no exílio em Londres em 1915 e morreu no exílio em Lisboa em 1986. 

 

José Cutileiro 

in Publico 9.6.1991

 

Imagem (e cinco poemas): aqui


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3.1.13

 

 

 

 

 

© Roz Chast / The New Yorker 2012

 

 

 

 


15.9.12

 

 

O acaso atirava-me para uma das regiões que iria exercer influência profunda na minha vida, tanto de homem, como de escritor. Dava-se no meu espírito o segundo fenómeno de osmose. O primeiro fora a vivência desmedida do Campo Alegre, o absorver diário da natureza física através do lado sentimental da vida; ao Porto eu ficaria ligado para sempre, como seria o caso de Londres anos mais tarde, teiaranhado pelo amor, pela transferência permanente de um eu que se desdobra e oferece a outra pessoa. Agora aparecia-me o Alto Minho, eldorado onde ancorava todo o bojo que não soçobrara na débacle sentimental. A terra, o mar, o rio, a montanha, as aldeias, o povo, a arte, um todo que me agarrou no imediato, no transe da paixão, debaixo ainda do estado de choque. Abria-se um mundo novo, cosmo-físico para onde eu podia olhar, onde podia mergulhar, penetrando na Natureza sem pedir licença. Às vezes, nos imprevistos da vida, nas esquinas da sorte, nós esbarramos com um habitat que está desde a criação do mundo à nossa espera. Ali, intacto, permanente, rico, silencioso. Eu sentia uma grandeza frente a meus olhos, imensidão que estava a par da grandeza do amor, não a substituía, menos ainda distracção para pacóvio, ou paliativo de doença; sim, mundo de pormenores alcantilados, de versos ditos ao fim de tarde, de banhos cheios de algas, mergulhos na amostra de eternidade que se apalpa com os dedos. Tão forte este binómio Amor-Natureza, impacto de sismo, eu certo de que mais cedo ou mais tarde havia de ter consequências. E, na inconsciência do consciente, às vezes reparava no segundo de tempo em que teria de, um dia, comunicar a outros o choque brutal que estava recebendo. Eu seria o médio que coa, filtra, decanta, o que paira sem rumo na Natureza, fosse o reino do Amor, quer o próprio caudal do telúrico. Fruta verde em mim, nada estava amadurecido, o período de gestação seria longo, rebentaria na cabeça com a necessidade urgente de recriar esse estado emocional.

 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura , Autobiografia III  pp. 81-82

© Assírio & Alvim e Herdeiros de Ruben A.  (1994)



  

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14.2.12

 

 

C'est à Londres, en 1822, que fut écrite, d'un seul jet et à la suite, la plus longue partie de ce qui sera plus tard les Mémoires d'outre-tombe. Le voyage en Amérique, le retour en France, le mariage, le passage à Paris, l'émigration, la guerre dans l'armée des princes, le séjour en Angleterre et les sept années terribles de 1793 à 1800, avec l'intermède lumineux et tragique de Charlotte à Bungay, furent rédigés sous les ors du somptueux hôtel de Portland Place qui faisait un contraste romanesque et enchanteur avec les récits des temps obscurs.


Peut-être est-il temps de dire ici, avec les mots les plus simples, que les Mémoires d'outre-tombe constituent un des cinq ou six monuments majeurs de la littérature française. Si notre langue est ce qu'elle est, les Mémoires d'outre-tombe y sont pour quelque chose.  Ils  se  situent quelque part,  en beaucoup plus amusant, entre l'Iliade et l'Odyssée, la Divine Comédie, Don Quichotte de la Manche, le Paradis perdu, les Souffrances du jeune Werther et Guerre et Paix de Tolstoï. Dans la prodigieuse lignée qui va de la Chanson de Roland, des quatre grands chroniqueurs, de Rabelais et Montaigne jusqu'à Hugo, Balzac et Proust, en passant par Saint-Simon et Jean-Jacques Rousseau, Chateaubriand tient sa place d'abord parce qu'il a écrit les Mémoires d'outre-tombe. Rien de ce qui est raconté dans ces pages sur ses amours infidèles n'aurait le moindre intérêt si tous ces visages de femmes n'étaient, à la fois, dissimulés et révélés par les Mémoires d'outre-tombe.


On aurait tort de s'imaginer que la vie des grands hommes offre quelque modèle que ce soit à ceux qui les admirent. Il ne suffit pas de boire comme Verlaine, de faire la révolution comme Malraux, d'être homosexuel comme Proust,  ou couvert de femmes, monarchiste et chrétien comme René de Chateaubriand pour avoir du génie. Il faut d'abord avoir du génie; ensuite, on se débrouille comme on peut avec une vie quotidienne dont rien ne demeure négligeable à partir du moment où tout y est soutenu par le talent et la passion. Alors, le moindre détail se révèle incomparable; le moindre secret, irrésistible. C'est quand il y a quelque chose au-dessus de la vie que la vie devient belle.

 

 

Jean D'Ormesson

in Mon Dernier Rêve Sera pour Vous.

Une biographie sentimentale de Chateaubriand

© 1982, Éditions Jean Claude-Lattès

 

 

 

 

 

 

 

 

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31.10.11

 

 

You don't even know what sophisticatedmeans!

My mother turned on me sharply. I should repeat that she was twenty-one when I was born. I have never been much younger than her and she has never been much older than me. Another school run: Swansea, in the late Fifties.

— Ooh I do know what sophisticated means!

No you don't. Not what it really means.

— Yes I do.

— Go on then. What does it mean?

I now see my mother's profiled face, lightly frowning in concentration as she listed some of the more attractive attributes that went hand in hand with being sophisticated - all of them worth the aspiration of a bashful country-girl from Berkshire. I said,

— That's not what it really means.

— All right then. What does it really mean?

Corrupt.

My mother was innocent. Then experience came, and she experienced it. And then she got her innocence back again. I have always wondered how she did that.

 

Martin Amis

in Experience  p.106

Vintage Books, London

© Martin Amis  2000

 

 

 

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27.10.11

 

I remember one day long ago driving down Park Avenue on the way to Penn Station with a sheaf of notes for a Harvard lecture in the right-hand pocket of my raincoat, and in the left, a celluloid packet containing twelve photographs, with accompanying text, of one girl model spanking another on her bare bottom with a hairbrush. Given a choice, I would far rather have jettisoned the contents of the right-hand pocket: with this dichotomy I have spent my life. (Note the fearless candour of this amazing revelation.) (And note, too, the self-deprecating irony — 'fearless candour', 'amazing revelation' — with which I have phrased it, thereby showing what a self-critical person I am.) (And if you think that sounds self-congratulatory, let me answer you that I am well aware of my faults, which are numerous.) (And if that implies too much self- knowledge, may I add that, in fact etc. etc. etc.) Such is the art of autobiography.

 

Kenneth Tynan

in The diaries of Kenneth Tynan edited by John Lahr 

Bloomsbury Publishing, Plc, London

©2001 by Tracy Tynan

 

 

 

 

 

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20.10.11

 

 

I like to hole up in hotel suites. I like to turn off the lights and crank the AC. I like temperature-controlled and contained environments. I like to sit in the dark and let my mind race. I was set to meet Bill Stoner the next morning. I ordered a room-service dinner and a big pot of coffee. I turned out the lights and let the redhead take me places.


I knew things about us. I sensed other things. Her death corrupted my imagination and gave me exploitable gifts. She taught me self-sufficiency by negative example. I possessed a self-preserving streak at the height of my self-destruction. My mother gave me the gift and the curse of obsession. It began as curiosity in lieu of childish grief. It flourished as a quest for dark knowledge and mutated into a horrible thirst for sexual and mental stimulation. Obsessive drives almost killed me. A rage to turn my obsessions into something good and useful saved me. I outlived the curse. The gift assumed its final form in language.

 

 

James Ellroy

in My Dark Places, An L.A. Crime Memoir  p.206

© 1996 James Ellroy

 

 

 

 

 

 

Leia este excerto em português no

blog Traduçõesaqui

 

 


13.10.11

 

Every night when I was a boy, I sat and read in our living room, listening to my father writing letters. He wrote on his lap in longhand, with the letter paper backed by one of his long yellow legal pads, and the scratch and swirl of his black Waterman pen across the page sounded like the scrabblings of a creature in the underbrush. There were no pauses or crossings out, and in time I realized that I could even identify the swoosh of a below-the-line “g” leaping diagonally upward into an “h” and the crossing double zag of an ensuing “t,” and, soon after, the blip of a period. When he reached the bottom of the page, the sheet was turned over and smoothed down in a single, back-of-the-hand gesture, and the rush of writing and pages went on, while I waited for the declarative final “E” or “Ernest”— the loudest sound of all — that told me the letter was done. When the envelope had been addressed, licked, and sealed with a postmasterish thump of his fist, he would pluck a Lucky Strike out of its green pack and whack it violently four times against his thumbnail, like a man hammering a spike, then damply tongue the other end before lighting up. By the time the first deep drag appeared as a pale upward jet of smoke, another letter was in progress. I went back to my book. Sooner or later, the letters would be over, and he would be ready to read aloud to me. “Finished,” he would announce, picking up “Oliver Twist.” “Now, where were we?”

 

 

Roger Angell

in The King of the Forest

 

The New Yorker, Fevereiro de 2000 (The King of the Forest na íntegra aqui )

e em Let Me Finish © 2006 by Roger Angell

 

 

 



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1.10.11

 

 

My mother would have liked to go to art school, but on Bankbottom nobody had heard of such a thing. She applied for a clerical job by competitive exam, but it went to a girl called Muriel; poor Muriel, she got all the questions wrong, my mother said, but you see her uncles had pull. Thwarted, unhappy, she stayed in the mill and earned, she said, a wage as good as a man's. The work was hard and took a painful toll on immature muscle and bone. It would be many years before the effects showed; then, with energy to spare, she danced and sang through her evenings, in amateur shows and pantomimes. Cinderella was her favourite part. Her favourite scene: the Transformation. She asked herself, could she really be the child of her parents? Or some changeling princess, dropped into Bankbottom by accident?

For the whole of my childhood I worried about the glass slipper. It is such a treacherous object to wear: splintering, and cutting the curved, tender sole of the dancing foot. The writer Emily Prager once said that she had rewritten, as a child, the second half of the story; Cinderella gets to the ball and breaks her leg. My own feelings were similar; the whole situation was too precarious, you were too dependent on irresponsible agents like pumpkins and mice, and always there was midnight, approaching, tick-tock, the minutes shaving away, the minutes before you were reduced to ashes and rags. I was relieved, as an adult, when I learned that the slipper was not of verre, but of vair, which is to say, ermine. The prince and his agents were ranging the kingdom with a tiny female organ in hand — his ideal bride, represented by her pudendum. Never mind her face: he had not raised his eyes so far. All he knew was that the fit was tight.

 

Hilary Mantel

in Giving up the ghost, a memoir  p.50-51

© Hilary Mantel 2003 

 

 

 

 

 

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6.8.11


Encore aujourd'hui, toute une vie plus tard, il suffit d'un instant de rêverie éveillée, n'importe où, n'importe quand, ou d'un instant de distraction délibérée afin de m'évader d'une conversation oiseuse, d'un récit mal fagoté, d'un spectacle médiocre, pour que brusquement, sans rapport apparent avec les préoccupations ou les désirs circonstanciels, se déploie dans ma mémoire un envol d'éclatante blancheur d'images au ralenti. Ailes de mouette, à l'aube, derrière les baies vitrées d'une chambre d'hôtel, en Bretagne ? Focs des voiliers sous la lumière d'étain de la baie de Formentor ? Brouillards laiteux, effilochés par les vents tournoyant dans le détroit d'Eggemogging ?


Il m'arrive de ne pas identifier ces images. Je reste alors au seuil de leur lisibilité, remué par une émotion indéfinissable : quelque chose de fort et de vrai demeure caché, m'échappe et se dérobe. Quelque chose se défait, sitôt surgi, comme un désir inassouvi. Mais il arrive aussi qu'elles se précisent, qu'elles cessent d'être floues, de me flouer.


Je reconnais le long couloir de l'appartement de la rue Alfonso-XI, à Madrid, résonnant du bruit de nos courses, des portes ouvertes à la volée. Je reconnais dans la pénombre d'un soir de la fin de l'été les meubles précieux recouverts de housses blanches. Et c'est alors que réapparaissent, liés au souvenir enfantin, étrangement gouvernés par lui, tous les autres : un envol de pigeons, place de la Cybèle ; les mouettes de Bretagne ; les voiles de Formentor ; les brouillards de Little Deer Isle. Et le souvenir d'Odile, voltigeant à travers un salon parisien, arrachant joyeusement les linceuls éclatants des fauteuils et des canapés, les transformant en oriflammes du plaisir annoncé, tout en chantant à tue-tête l'air du toréador de Bizet.


Au « Petit Schubert », boulevard du Montparnasse, quelques jours après mon arrivée à Paris, j'avais eu Odile M. dans mes bras. Je me suis demandé si quelqu'un n'allait pas subitement surgir pour me l'enlever. À Eisenach, dans le vieil hôtel où les Américains avaient installé un centre de rapatriement, l'officier français des commandos m'avait enlevé Martine. Mais au « Petit Schubert » le temps a passé, il ne se passait rien. Rien d'autre que la lumière allumée dans les yeux d'Odile, la présence accrue de son corps. Elle était toujours dans mes bras. Elle ne semblait appartenir à personne. Personne ne semblait avoir sur cette jeune femme droit de préemption ou de cuissage. Elle allait être à moi.


Les jours ont passé, les semaines: elle était à moi. Mais sans doute faut-il renverser ce rapport d'appartenance. C'est moi qui lui appartenais, plutôt, puisqu'elle était la vie et que je voulais appartenir à la vie, pleinement. Elle a réinventé pour moi, avec moi, les gestes de la vie. Elle a réinventé mon corps, un usage de mon corps, du moins, qui n'était plus strictement celui d'une économie de survivance, qui était celui du don, du gaspillage amoureux.


Pourtant, malgré elle, malgré moi, malgré l'exubérance de cet été du retour, la mémoire de la mort, son ombre sournoise, me rattrapait parfois. Au milieu de la nuit, de préférence.

 

Jorge Semprún

in  L’Écriture ou la Vie    p.200-201

© Éditions Gallimard 1994

 

Para Isabel Feijó (4 Janeiro 1959 - 5 de Agosto 2011) 

 



19.6.11

 

 

 

 

 

netsuke

aqui

 

 

 

 

It could write itself, I think, this kind of story. A few stitched-together wistful anecdotes, more about the Orient-Express, of course, a bit of wandering round Prague or somewhere equally photogenic, some clippings from Google on ballrooms in the Belle Epoque. It would come out as nostalgic. And thin.

And I'm not entitled to nostalgia about all that lost wealth and glamour from a century ago. And I am not interested in thin. I want to know what the relationship has been between this wooden object that I am rolling between my fingers — hard and tricky and Japanese - and where it has been. I want to be able to reach to the handle of the door and turn it and feel it open. I want to walk into each room where this object has lived, to feel the volume of the space, to know what pictures were on the walls, how the light fell from the windows. And I want to know whose hands it has been in, and what they felt about it and thought about it - if they thought about it. I want to know what it has witnessed.

Melancholy, I think, is a sort of default vagueness, a get-out clause, a smothering lack of focus. And this netsuke is a small, tough explosion of exactitude. It deserves this kind of exactitude in return.

 

 

Edmund De Waal

in  The Hare with Amber Eyes - A Hidden Inheritance  (prefácio)

© Edmund de Waal 2010

 

 

 

 

 

 

aqui

 

 

 

 

 

 

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12.6.11

 

 

 

 São Cosme e São Damião. Objetos de devoção popular.

 


O caso é que, antigamente, o sagrado andava misturado com o profano através da nossa vida quotidiana e tínhamos notícias constantes de um mundo que, em rigor, era habitado por Deus e os santos, os anjos e os demónios, as almas dos eleitos e dos condenados.

 

A relação com os santos era uma espécie de panteísmo. Na imensa policlínica das almas, só Deus Nosso Senhor era de clínica geral e os santos tinham especialidades e, de tal modo que, se você perdia uma libra, era melhor pedir o seu achamento a Santo António do que ao próprio Deus, Nosso Senhor. Este politeísmo assegurava a presença do sagrado: o ateísmo — fiquem sabendo — começa com a teoria e a prática do Deus único.

 

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

Imagem: Madeira recortada e policromada; sec. XIX; Diamantina (Minas Gerais) - 76 x 35,5 cm.

in Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

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11.6.11

 

 

 

 

 Rui Chafes, O teu coração está a dormir, não o acordes demasiado cedo*  (2008)

 

 

 

[...] Tenho consciência de que, em idênticos cruzamentos da história, os abismos são muitos e de que algumas gerações que nos precederam, a pretexto de largar para grandes voos, caíram em grandes precipícios. Trata-se duma espécie de «Patologia das Sociedades Civilizadas», título que parece do Dr. Segismundo Freud, se é que não será mesmo dele. Algumas vezes, a rebelião contra as incomodidades sociais exprime-se, inesperadamente, pela sua identificação com as ideologias racionais. Quando, na Alemanha dos fins dos anos 20, princípios dos anos 30, a situação económica se deteriorou, muitos marxistas esfregaram as mãos de contentes porque as profecias de Karl Marx se iriam cumprir. O que aconteceu foi o que se viu: a ânsia duma mudança urgente, as aspirações unicamente dirigidas para o bem-estar material não se ligaram aos desejos de liberdade mas ao fenómeno inverso; ao medo da liberdade; as pessoas identificaram-se com uma forma de dependência duma atitude existencial que trocava a liberdade pelo paternalismo e pela protecção. Elas estavam sensíveis aos apelos feitos ao seu lado emocionalmente irracional, místico e infantil, porque esses apelos vinham reforçar a necessidade de se apegarem a figuras de autoridade que prometiam uma «nova vida».

 

Isto é só para dizer que, ao lado desses abismos, há uma forma sadia de encarar o romantismo, atitude a que, se fosse possível, eu chamaria «ingenuidade controlada», o que equivale a dizer que, muitas coisas em que a gente acreditava estão certas, só que mais ninguém acredita nelas e elas, em certa medida, viviam dessa crença. O Diabo, as almas do outro mundo e todos os fantasmas em geral, habitam um espaço de que eles não são os representantes maiores: esse espaço constituído pelo misterioso e pelo irracional vive da nossa própria crença e não estão dispostos a conviver com quem os recusa. Isto faz parte duma questão maior que é a de uma longa e não sei se eterna contradança entre a natureza e a cultura, nomeadamente quando ela incorporou uma excessiva dose de Razão. Não podemos dispensar a culturização do mundo, mas a verdade é que, desde que a Razão se apoderou dela, a cultura está prestes a destruir-nos, porque não há maior barbárie do que a da loucura da Razão. É então que a natureza reúne as suas forças e dá um grito. Neste mundo, racionalizado e politizado até à exaustão, o romantismo é capaz de ser esse grito que visa um «para além» do político. Hoje, não necessitamos de nenhum discurso político nem que seja o da «desconstrução» do conceito hegeliano do Estado. Necessitamos, isso sim, de um clima de interrogação onde seja possível analisar a metamorfose das condições interiores da alma. Eu sei: a gente diz «alma» e vocês riem-se mas, o que temos mais para enfrentar a barbárie?

 

 


António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

* peça fotografada por LMD, 2010 (aqui); no âmbito da exposição KHORA, Fundação Carmona e Costa

 

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10.6.11

 

 

 

 

 

 

José Pedro Croft, sem título (1988)

ferro, 11x 57 x 57*

 

 

 


[...] A Pátria, sobretudo para aqueles que vivem dentro dela, é uma realidade que nem sempre é fácil consciencializar. Sou daqueles que recuperam com facilidade as fatalidades da fortuna e, talvez por isso, fico muito grato a todos os acasos que fizeram de mim o que sou. A verdade é que não desgosto de mim assim e arranjei comigo próprio uma tal cumplicidade que nunca me zango comigo. Sem vaidade, acho que o acaso nos dá o primeiro verso e que nos cabe a nós fazer o poema.

 

Por isso, gosto de ter nascido na Covilhã, acontecimento que se deu sem me terem pedido opinião. Gosto de Portugal e da língua portuguesa e de tudo aquilo que nos diziam quando éramos pequeninos e nunca ninguém me ouvirá um queixume por ter nascido português.

 

No entanto, nem sempre fui assim: no tempo do antigo regime vivi com alguma ansiedade a condição de ser português. Não tínhamos liberdade e aguentámos uma guerra colonial que era para mim uma vergonha. O Governo tinha tomado conta de todos os valores patrióticos e religiosos e por isso era com muita dificuldade que eu conseguia ter orgulho do meu país. A tentação queirosiana é muito grande e demoramos um pouco a descobrir o que tem de provinciano isto, de gostar de Paris. Como noutro lugar direi, devo ao Brasil as pazes que fiz com a minha Pátria.

 

Hoje, não tenho dúvida que a nossa relação com uma terra e com um povo molda decisivamente aquilo que somos e constitui até uma das poucas barreiras que nos restam para opor à massificação inevitável. Esta relação não é um folclore, nem um anacronismo piegas, nem o tique do tal optimista que vai creditando a seu favor tudo o que lhe vai acontecendo. O que sucede é que a nossa ligação à terra é capaz de ser uma descoberta tardia, nomeadamente para aqueles que, como eu, acreditaram sofregamente nas «luzes» e, por isso, durante algum tempo, tiveram a veleidade de apresentar a sua candidatura a «cidadãos do mundo».

 

Aquilo a que as selectas da instrução primária chamavam «a nossa terra», que os mestres-escola impunham como tema de redacção, é afinal uma realidade que se impõe com veemência e denodo. Não quero esconder que muitos intelectuais que prezo e admiro — o exemplo que me ocorre é o de Krishnamurti — consideravam a Pátria como factor de impedimento à solidariedade humana que deve caracterizar o processo do futuro. O que acontece, é que a sua ideia de Pátria, que, aliás, estava conforme ao entendimento geral da sua época, não tem nada que ver com a Pátria que hoje nos interessa. Naquele tempo, a Pátria tinha dentro de si um fundo belicista que, a partir da defesa da fronteira, pretendia a expansão e o domínio de outros povos. Ora, hoje, a Pátria não pode ser nada disso, mas ao contrário é a consciencialização e o desenvolvimento de uma cultura específica — quase diria de uma «maneira de ser» — que é necessário pôr em diálogo com os outros povos e culturas para a realização do universal. Assim, não é fácil definir a Pátria. Diria que é um tecido de sentimentos, emoções e ideias que cada vez está mais ligado à nossa sobrevivência «cultural» se, com esse nome, quisermos designar a própria sobrevivência do «ser» expresso através daquilo que nos distingue dos outros. Como é que isto se vai resolver num futuro bastante próximo, não sei, porque a identidade de um homem como a identidade de um povo são fenómenos que julgo incompatíveis com a massificação. 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias   p.154-155

© Editorial Presença aqui

 

 

 

* Fotografia de Laura Castro Caldas

Catálogo Arte na Colecção Contemporânea da Fundação Luso-Americana, CAM-FCG, Lisboa 1992

 



4.6.11

 

 

 

 

 

Sei que era uma segunda-feira e que, na sexta-feira anterior, tinha caído o primeiro Governo constitucional. Era de manhã e eu seguia pacatamente pela Rua Alexandre Herculano, quando parou um grande carro preto ao meu lado. Era o Mário Soares:

— Ó Alçada, onde é que vai?

— Vou ali à Buchholz...

— Então venha que preciso de falar consigo.

Meti-me no carro e fui para São Bento, para o seu gabinete.

— Você é que podia falar aos seus amigos do CDS para formarmos Governo juntos...

— Se quiser eu falo.

Telefonei para casa do Diogo Freitas do Amaral e ele estava.

— Estou aqui no Gabinete do Primeiro-Ministro e tenho um recado para si. Posso ir aí?

Fui já no carro do Estado, em missão.

Tive sorte porque estava lá reunida a cúpula do CDS para analisar a crise: o Adelino Amaro da Costa, o Victor Sá Machado, o Basílio Horta, pelo menos. Disse-lhes que o Mário Soares queria fazer Governo com eles. Mostraram-me um jornal onde, na primeira página, vinha uma frase do Mário Soares, num comício do Alentejo: «O fascismo avança sob a capa da democracia.» E diziam-me:

— Mas isto é para nós...

E eu:

— Não, está-se mesmo a ver que é para o Kaúlza... Olhem: ele disse-me isto. Se vocês quiserem ao menos conversar ponham-se em contacto com ele.

Assim se fez o segundo Governo constitucional.

Passado tempo, não sei se li num jornal se me disseram que aquele Governo tinha sido feito em Paris por acordo entre a Maçonaria e o Opus Dei...

 

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias

© Editorial Presença aqui

 

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30.5.11

 

Não só eram os diplomatas brasileiros parecidos entre si, como éramos também parecidos com todos os diplomatas do mundo – mas um mundo que consistia em uns quarenta países, dentre os quais talvez uma dúzia ou pouco mais que de fato contassem. Integrávamos uma elite, uma comunidade global que compartilhava estilos e práticas. Essa crème de la crème internacional se entendia em francês, a língua diplomática par excellence. Compreende-se esse tribalismo elitista. Era prático que agissem todos sob um mesmo código e que, literal e metaforicamente, falassem a mesma língua.

[...]
Havia, no culto geral ao formalismo e na exigência de que a liturgia das relações entre Estados fosse estritamente cumprida, a preocupação de não permitir que o Brasil, que em muitas dimensões contava pouco, pudesse ser menoscabado. Para eles, o representante e o representado se confundiam. Os vultos itamaratianos eram cosmopolitas que retinham uma brasilidade essencial; eram cidadãos do mundo e patriotas à flor da pele.

[...]

O Itamaraty era um reduto de personalidades – e excentricidades. Como nas grandes famílias, o comportamento esdrúxulo, quando não biruta, era considerado parte inescapável da variedade da espécie e a sua tolerância como um imperativo do convívio social. Só a extrema desagradabilidade no trato e a improbidade com a coisa pública eram tidas como inaceitáveis. As peculiaridades das opções sexuais, os excessos com a bebida, um comportamento boêmio ou errático, tudo o mais era visto com indulgência civilizada.

[...]

O Itamaraty não foi logo para Brasília. A cumplicidade entre o corpo diplomático estrangeiro, que não queria ir, e a diplomacia brasileira, que em sua maioria preferia ficar, fez com que se passassem mais de dez anos. Só no verão de 1970 que uma série de caravanas de caminhões e funcionários empreendeu, finalmente, sua marcha para o oeste.

 

O casarão da Rua Larga ficou com muitos de seus móveis e objetos, que não combinariam com a estética da nova sede. Ficaram os arquivos, a biblioteca e a mapoteca. O edifício passou depois por um longo período de vacas magérrimas. Não por desamor, talvez, mas

pela razão oposta: a necessidade de quebrar os laços afetivos entre os lugares, as coisas e as pessoas. Era preciso, pela rejeição do que tinha sido, estabelecer as bases de uma nova fidelidade.

 

O velho nome do palácio, contudo, não foi abandonado. Não há um Palácio do Catete em Brasília, nem um das Laranjeiras, menos ainda um da Guanabara. O nome Itamaraty não foi descartado – como que para dizer que a trajetória de nosso relacionamento com o mundo é um rio ininterrupto; e que, mesmo em circunstâncias inteiramente diversas, a nossa continua, estamos no mesmo endereço.

 

 

Marcos de Azambuja

in Casa bem assombrada,  o Itamaraty antes da sua ida para Goiás

Revista Piauí, março de 2011

 

o texto na íntegra no blog Diplomatizzando aqui

 

  

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29.5.11

 

 

 

Palácio do Itamaraty, Rio de Janeiro

 

 

 

[...] Com a sua fachada neoclássica, a Casa continua virtualmente sem mudanças há mais de 150 anos. Só variou o matiz de sua pintura externa, que ao longo dos anos viajou de um rosa pálido até um siena intenso. Dá ainda para a rua sem recuo, mas tinha, naqueles tempos, o mais democrático dos acessos. Posteriormente, a sua guarda ficou, e perdura até hoje, a cargo dos Fuzileiros Navais – corporações ambas, a deles e a nossa, criadas quando da chegada providencial de dom João VI a estas praias. Não havia, ou não se percebia, ou não ameaçava a gente de boa paz, a violência urbana. Naquele tempo, no Rio, só me assaltavam dúvidas.

 

Ainda se entra, a pé, pela mesma e longa galeria flanqueada pelos bustos dos heróis da independência das Américas, e os de alguns penetras de outras safras e procedências. Existe outra entrada, só usada em dias de gala. Ela leva ao saguão que se abre para a bela escadaria e conduz ao andar superior. Por ela subiu o Império para comemorar, dançando, o fim da Guerra do Paraguai, na noite em que a princesa Isabel e o conde d’Eu receberam para um grande baile os oficiais que, vitoriosos, voltavam à Corte.

 

Havia, e há, uma terceira entrada. É a exclusiva para automóveis, que contorna o edifício e leva à garagem, ao estacionamento e aos demais prédios que integram o nosso quadrilátero diplomático. Mas naquele tempo havia pouquíssimos automóveis. Chegávamos quase todos a pé.

Fiz longa essa descrição da Casa e do seu entorno porque acho que uma parte da cultura do Itamaraty derivava de nossa situação na cidade e de nossa planta. Em Brasília, mais tarde, os espaços e as vistas iriam permitir sonhar e antever um novo Brasil. No Rio, estávamos ancorados no âmago mesmo da cidade, e não era possível escapar do que, de fato, éramos e tínhamos sido. A história e o presente, mais do que o futuro, nos definiam. Em Brasília, havia aspirações.


 

Ser diplomata não é uma vocação primária. Nunca encontrei criança que quisesse ser diplomata ao crescer. Também não é emprego fácil de definir. David Silveira da Mota, colega que foi um grande profissional, contava que sua filha, no colégio, uma vez foi perguntada sobre o que fazia seu pai. A professora ia repetindo a pergunta a todos os alunos e recebia respostas simples e claras. Quando chegou a vez da menina, ela, hesitante, confessou: “Meu pai é diplomata. Faz discursos em francês.” Era o mais perto que ela conseguia chegar dos mistérios da profissão. Chega-se a ela mais por exclusão de alternativas e por avaliação de conveniências do que por uma irresistível convocação.

 

 

 

 

Marcos de Azambuja

in Casa bem assombrada,  o Itamaraty antes da sua ida para Goiás

 

in Revista Piauí, março de 2011

 


Leia o texto na íntegra no blog Diplomatizzando aqui

Revista Piauí aqui


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17.5.11

 

 

 

aqui

 


O Cláudio Abramo era um grande jornalista brasileiro e um querido amigo meu. De uma delicadeza, de uma inteligência, de uma argúcia raras. Ele era um aristocrata anarquista, mas tinha a mania que era de esquerda e de esquerda revolucionaríssima. Mas a sua figura, a sua educação e os seus modos não davam para tanto.

Ele tinha um lugar de chefia na Folha de São Paulo. Não me posso esquecer do dia em que fui ter com ele ao jornal e pediu a uma menina servente dois cafés. A menina trouxe os dois cafés numa bandeja, mas tropeçou logo à entrada e espalhou os cafés por cima da mesa. Coitadinha, de atrapalhada, pôs-se a chorar. O Cláudio levantou-se e tentou consolá-la com uma ternura e uma delicadeza que nunca mais esquecerei:

— Ó filhinha, isto não tem importância. Nós é que te pedimos desculpa de te fazer vir aqui com os cafés...

A pequena lá ficou menos nervosa, veio limpar a mesa e trouxe outros cafés. A delicadeza desta cena do «revolucionário» com a menina dos cafés nunca mais me saiu da cabeça e é essa a memória que me ficou do Cláudio.

Quando veio o 25 de Abril, o primeiro telefonema que recebi foi dele. Queria que eu fosse trabalhar para a Folha, em São Paulo, pois estava preocupado com a minha sorte em Portugal. Tranquilizei-o. Disse-lhe que ficaria por aqui, que finalmente íamos ter liberdade mas se, por um acaso, viesse uma «democracia popular», que aí sim. Que já não tinha idade nem condição social para viver numa coisa dessas e que não me esqueceria da sua oferta.

Mas o Cláudio não ficou tranquilo. Como o Victor Cunha Rego tinha trabalhado com ele na Folha, resolveu telefonar ao Victor. Disse-lhe:

— Ó Victor, por favor, vocês não matem o António Alçada!...

O Victor respondeu-lhe:

— Vamos lá agora matar o António Alçada! Era o que faltava. A gente não vai matar ninguém...

Então, veio a revolução ao cimo daquele aristocrata nato e disse de lá meio agastado:

— Não matam ninguém! Então que raio de revolução é essa que não vai matar ninguém...

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias

© Editorial Presença aqui

 

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6.5.11

 

É um dos escritores que cito no meu livro, a propósito da criação do Círculo Eça de Queiroz. As suas memórias são incontornáveis para quem se interesse pela história dos nossos costumes no século XX. Esta sua bela carta a Marcello Caetano, que faz parte do IV volume de Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo, editado postumamente, tem obviamente um significado especial para mim. 

 

 

 

Salvador, Bahia, 15 de Outubro 1976

 

 

Meu querido Marcello

 

Tem sido minha sina escrever-lhe, principalmente nos últimos anos, os da sua Presidência, em parte talvez por propensão minha a expor as ideias mais facilmente por escrito do que de viva voz, em parte também pela dificuldade do diálogo. O que até há dois anos nunca supus foi que teria de lhe escrever para o exílio, como de Lisboa algumas vezes já fiz e como hoje volto a fazer desta doce terra da Bahia, que nos recorda dolorosamente a nossa grandeza passada e perdida. Não por qualquer sentimento nostálgico de já não sermos hoje, como há dois séculos, senhores da Bahia. Mas pela tristeza de meditarmos na civilização tão idêntica que estávamos a erguer nas terras de África e que criminosamente destruímos.

 

Tem hoje esta carta dois propósitos. O primeiro dizer-lhe quanto me comoveu voltar a vê-lo depois deste intervalo longo e tão fundo. Longo de trinta meses. Tão fundo que nele tombou sem remédio tudo que nas nossas vidas ficou para trás.

 

O segundo propósito é o de o esclarecer sobre a posição que Você se atribuiu e que ditou a sua atitude de não comparência à minha posse na Academia Brasileira de Letras e à minha conferência no Gabinete Português de Leitura. Manteve-se Você ausente duma e doutra cerimónia por considerar que, aceitando eu as atenções ou homenagens do Embaixador e dos cônsules de Portugal, pactuava com o regime que domina Portugal e era (tenho ideia que foram até aí as suas palavras) de qualquer maneira representante dele. As minhas palavras de repúdio de tal interpretação devem ser completadas, para que o equivoco não se mantenha a ensombrar uma amizade que qualquer diferença de critérios não deve prejudicar.

 

Vim ao Brasil a título inteiramente particular, sem qualquer auxílio ou intervenção do Estado Português, como escritor independente que sempre fui e continuo a ser. Essa independência não me trouxe quaisquer prémios no regime anterior e manteve-me inteiramente isolado enquanto passava a procissão dos aderentes no triste Carnaval, no trágico cortejo fúnebre da vida portuguesa dos dois últimos anos.

 

Mas se no Brasil o Embaixador e os cônsules de Portugal quiserem homenagear em mim o escritor independente que sou, entendi que seria grosseiro da minha parte repelir esses gestos de estima, vindos alguns da parte de amigos meus do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Fui vinte e cinco anos funcionário desse Ministério e nunca me considerei representante do regime — o qual, aliás, servi com independência que não excluiu a maior lealdade — mas representante do meu país, como na actual conjuntura considerei aqueles funcionários não representantes exclusivos dum determinado regime, o actual, cujas culpas não lhes cabem, mas representantes de Portugal.

 

Olhando para trás, para estes dois anos e meio decorridos, para o que sofri - e nesse rol contam-se alguns insultos —, para o que perdi, a fortuna honradamente amealhada ao longo de meio século de trabalho, a posição na TZR, que com tanta dedicação servi ao longo de trinta anos — e disso tudo nada me ficou, nem uma pensão de reforma —, olhando para trás sinto que tenho alguma autoridade para calar no Estrangeiro as minhas queixas, para não rasgar mais as feridas que despedaçaram a nossa pátria e dentro de nós tudo que nela amávamos, e manter com isenção e serenidade, neste Brasil que nos observa, uma certa esperança, débil que seja, em que Portugal, ferido quasi de morte, ainda encontrará condições de sobrevivência. E servindo como escritor o espírito português, eu sirvo Portugal.

           

De resto, considerando, sem qualquer equívoco, traidores à Pátria os militares que tinham por missão defendê-la e de 25 de Abril de 74 a final do ano passado procederam com desígnio implacável à sua destruição, não posso envolver nesse apodo os civis que no exercício hoje duma actividade política legítima procuram, melhor uns do que outros, servir o país no plano da governação. Portugal tem de ter quem o sirva, mesmo a braços com esta situação angustiosa que Você próprio não soube ou não pôde evitar-lhe.

 

Traidor, não posso considerar de forma alguma o seu cunhado, o Prof. Henrique de Barros, membro destacado do actual governo. E quando, antes de partir para os Estados Unidos, o meu filho João Filipe exerceu durante uns meses, já este ano, as funções de adjunto do secretário de Estado da Emigração, Sérvulo Correia, ele serviu o nosso país e não o bando de traidores que o apunhalaram.

Portugal precisa de todos os seus bons filhos. Infelizmente ainda se movimentam muitas ovelhas ranhosas no rebanho. Mas isso levar-nos-ia muito longe e transcende o objectivo desta carta, esclarecimento devido à sua amizade, que tanto prezo.

 

Lembre-nos a sua Irmã, com muita estima, e com as lembranças da Graça e minhas, abraça-o o velho, grato e dedicado amigo

 

 

Joaquim

 

 

 

Joaquim Paço d'Arcos

in  Correspondência e textos dispersos 1942-1979  aqui  

 

Selecção, organização e notas de João Filipe Paço d’Arcos e Maria do Carmo Paço d’Arcos

© Publicações Dom Quixote, 2008

© 2008, Joaquim Paço d’Arcos

 

 

Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo aqui

 

 

 

 


  

 

Jornal "Voz de Portugal"

 

 

 

JOAQUIM BELFORD CORRÊA DA SILVA (PAÇO D'ARCOS) nasceu em Lisboa, a 14 de Junho de 1908. Na sua infância e juventude acompanhou seu pai, oficial da Marinha, em diversos governos no Ultramar: em 1912, em Angola; em 1919, com 11 anos, atravessando os EUA para Macau, onde reside cerca de três anos, passando temporadas em Hong-Kong e visitando o Sul da China; anos mais tarde, secretário do Governo da Companhia de Moçambique, na Beira (1925-1927). Com 20 anos foi para São Paulo, no Brasil, como antiquário, exercendo também o jornalismo. Em França, em 1931, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Em Lisboa, foi empregado bancário, trabalhou na Companhia Nacional de Navegação e, em 1936, vai dirigir os serviços de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mantém-se nesse posto até 1960 e, ao longo desse quarto de século, entrecortado por inúmeras viagens aos mais variados pontos do globo, e por dramáticos acontecimentos mundiais, foi erguendo a sua abundante e vigorosa obra literária, com 50 títulos publicados, como romancista - donde se destacam os seis volumes de Crónica da Vida Lisboeta -, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, poeta. Os seus livros de memórias ficaram interrompidos no final do terceiro volume por ter falecido a 10 de Junho de 1979, em Lisboa. Este livro corresponde, afinal, a um IV volume de Memórias da Minha Vida e do meu Tempo, editado postumamente. 

 

 

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26.2.11

 

 

 

 

Warsaw Pact invasion of Czechoslovakia in August of 1968

Photo: Ladislav Bielik  aqui

 

 

 

At Wenceslas Square at the center of Prague, below the bullet-scarred facade of the National Museum, tens of thousands of people with transistors to their ears milled around in streets filled with crushed automobiles and pieces of masonry that had been shot down from the surrounding buildings. Walls were covered with painted slogans. Trucks draped with Czechoslovak flags rammed into the Russian tanks and the air rang with the sound of intermittent gunfire.


Standing in the crowd, I felt that this was the supreme moment of our lives. During the night of the invasion, when we lost everything, we found something that people in our world hardly dare to hope for: ourselves and each other. In all those faces, in all those eyes, I saw that we all thought and felt alike, that we all strove for the same things.


Prague resisted in every way it could. Street signs disappeared or were turned around so that the invaders were unable to find their way through the city. License plate numbers of Soviet Security cars were painted in large digits on the walls. Radio and, later, television broadcasts were transmitted from makeshift facilities that were moved from place to place, eluding the Russians. At the same time, the train carrying Russian radio station-detector equipment was lost on its way to Prague. For days it was shunted from siding to siding by Czechoslovak railwaymen. And throughout the city, hungry Russian soldiers who could not get a crumb of food or glass of water from the population wandered through streets where all the traffic signs pointed in one direction: back to Moscow.

 

 

Heda Margolius Kovály

in  Under a Cruel Star – A Life in Prague 1941-1968

Translated from the Czech by Franci Epstein and Helen Epstein with the autor

Holmes & Meier, New York

© Heda Margolius Kovály, 1986

 

 

 

 

 

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