4.5.16

 

 

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 o avião de Henri Guillaumet

 

 

 

 

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Mar Morto e cavalinhos

 

 

 

Começo a escrever ao meio-dia da Quinta-Feira 28 de Abril. Quando a leitora me ler, a Vera, minha senhoria e decoradora de interiores na net (com o bloco aninhado no seu blog, as ilustrações são propostas por ela), terá saído da Portela na madrugada de Sábado para estar ao fim do dia na Jordânia, mais precisamente numa margem do Mar Morto, a interpretar em conferência de ONG dedicada a crianças e famílias, ficando por lá até ao próximo Sábado. Poderia, mesmo assim, ter posto o bloco no blog no começo da semana mas havia preferido que eu lhe mandasse o texto antes de partir porque, technologically challenged fora de casa, só com a malinha dos pertences, talvez não conseguisse encontrar boneco apropriado. Respondi-lhe que sem horas de fecho estritas me era muito mais difícil escrever para qualquer publicação, que o desafio me agradava e que ela poderia contar comigo.

 

Pensei na tarefa e prefigurei a táctica. Decidi antecipar trabalho no morto a publicar no Expresso de Sábado e, com efeito, acabei de o escrever ontem e mandei-o esta manhã (28) com mais de 24 horas de avanço sobre a deadline afim de ficar à vontade ao redigir o bloco. Lembrei-me de Guillaumet, aviador colega e amigo de Saint-Exupéry, cujo avião-correio caíra nos Andes deixando-o ileso mas sozinho na neve, sem comunicações. Cá em baixo deram-no por perdido mas três dias depois encontrou gente e foi salvo, para grande alegria de todos, exausto mas feliz. “Ce que j’ai fait, je te le dis, jamais aucune bête ne l’aurait fait!” declarou. Sabia que se parasse para descansar se deixaria dormir na neve e nunca mais acordaria; por isso não parara de andar. Era homem novo, os pilotos têm treino físico muito exigente mas, francês de nascimento e formação, fora o que entendia ser um triunfo do espírito sobre a matéria que lhe deslumbrara a mente. N’est pas français qui veut. Sendo o homosapiens o único animal com capacidade cerebral para o cálculo que Guillaumet fizera no cimo dos Andes, tinha provavelmente razão. Como eu tive ao avançar esta semana para Quarta-Feira a escrita do In Memoriam.

 

Un soneto me manda hacer Violante começou famosamente Lope de Vega, enfiando considerações sobre a arte do soneto em geral e o método da feitura daquele soneto em particular para rematar no 14º verso: contad si son catorce, y está hecho! mas eu estou ainda em 2.310 batidas – com espaços - faltando-me por isso 690 e não me parece que seja por aqui que o gato irá às filhoses. Mas uns versos puxam por outros e com o estado em que a Europa se apresenta agora, a rebolar para o fascismo, vem-me à cabeça Manuel Bandeira, no Jockey Club do Rio de Janeiro, em 1936:

 

Os cavalinhos correndo,                                                                                                          

E nós, cavalões, comendo.                                                                                                        

A Itália falando grosso,                                                                                                          

A Europa se avacalhando.

 

Cavalinhos, cavalões, o refrão vai-se repetindo, a beleza de Esmeralda faz esquecer Mussolini e outros males do mundo, enlouquecendo o poeta, tudo como deve ser, porque Manuel Bandeira sofria daquilo que o António Alçada achava ser também maleita minha: a mania de viver em epopeia amorosa.

 

Por razões técnicas longas de explicar a contagem de batidas neste texto não é evidente mas palpita-me estar pelas 3.000. Até Quarta-Feira que vem.

 

 

 

 

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17.2.16

 

 

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 O busto devolvido de Winston Churchill

©afp/getty

 

 

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Dia Santo na loja?

 

 

 

 

O poeta mexicano Octávio Paz escreveu, famosamente: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”.

 

Vivi em Maputo entre 1981 e 1983, anos de grande penúria e muita gente a passar fome. Logo a seguir à independência, quase todos os portugueses tinham tido de se ir embora ficando a economia em muito mau estado e a autoridade dos chefes tradicionais era desrespeitada pelo triunfalismo dos quadros da Frelimo. A retórica do poder, anti-ocidental, anti-americana e disparatada proclamava que, guiado pelo marxismo, o país sairia do sub-desenvolvimento em quinze anos. Nas lojas faltava quase tudo. Num grande supermercado da Baixa da cidade com todas as prateleiras vazias salvo uma no meio da sala, cheia de pensos higiénicos para senhoras, lembrei-me de Octávio Paz. “Pobre Moçambique” ocorreu-me. “Tão longe de Deus e tão longe dos Estados Unidos”.

 

Passando para a Europa agora. Acabado o perigo que a União Soviética representava para os Estados Unidos, estes distraíram-se – haverá ainda quem se lembre do “fim da História”? – e, cereja em cima do bolo, em Janeiro de 2009 tomou posse em Washington presidente filho de pai queniano preto e mãe americana branca, nascido no Havai, jurista eloquente cujo hobby era a organização comunitária, avesso a guerras (o seu predecessor metera a América em duas, estúpidas e caras), que devolveu logo ao governo de Sua Majestade Britânica busto de Churchill oferecido a Bush filho (que o pusera na Sala Oval) e, para a celebração dos vinte anos da queda do muro, em vez de ir pessoalmente a Berlim mandou vídeo com discurso seu.

 

O afastamento da Europa não foi só obra sua: houve sempre em Washington políticos isolacionistas e desconfiados dos europeus mas a mistura desses sentimentos antigos com alheamento à Europa inédito em inquilino da Casa Branca não ajuda europeus (e americanos) convictos de que primazia norte americana no mundo, em entendimento forte com a Europa, seria a melhor garantia de paz, liberdade e decência pública imaginável no nosso tempo.

 

Ainda por cima, numa espécie de acerto de contas depois da derrota na Guerra Fria, Putin parece chegar e sobrar para Obama: está a ganhar perigosamente no tabuleiro da Síria devido à inépcia do outro. (Disse-se de Franklin Roosevelt que tinha uma inteligência de segunda mas um temperamento de primeira. Com Obama é o contrário).

 

Os Estados Unidos não se darem ao respeito é muito mau para a Europa. A União Europeia e, antes, a OTAN construíram-se porque Estaline nos aterrorizava e porque os Estados Unidos queriam barbacãs. Putin incomoda os europeus mas não os aterroriza e hoje os americanos não precisam de muralhas dessas – até dos Açores se livram. Ora, sem os americanos, os europeus não se saberão defender de quem os atacar - e mesmo sem ataques não sabem pôr-se na bicha quando é preciso fazê-lo (como se está desgraçadamente a ver quanto aos refugiados). O patrão está fora mas na loja o dia não é Santo – é maldito.

 

 

 

 

 

 

 

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27.1.16

 

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Execução de Giordano Bruno 

 

 

 

 

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Velhice do velho continente

 

 

 

Nunca houve tanta gente quanta a que há agora. Somos hoje mais do que a soma de todos os homens e mulheres que viveram e morreram no planeta, desde que o Homo sapiens apareceu até ao fim do século XIX.

 

A maioria da população da Terra é gente nova mas, quando se vai por continentes há uma excepção: a nossa. Há hoje na Europa mais gente velha do que gente nova; diz quem percebe destas coisas que a tendência vai reforçar-se no futuro previsível. A nossa gente nova sobrevive, às aranhas, desanimada, eviscerada por desemprego altíssimo (embora haja casos a contrapelo, até em Portugal: conta The Economist da semana passada, num estudo especial sobre a juventude no mundo, que cá vive e trabalha uma rapariga, génio da informática, que criou empresa inovadora sua e tem clientes por toda a parte do mundo). A Europa, cujos dirigentes políticos passaram gerações a dá-la como exemplo de maneira de viver às outras nações, esquecendo que o milagre europeu assentava, por um lado, em medo salutar de Estaline e dos seus sucessores enquanto a União Soviética durou, medo que aconselhava as pessoas a terem juizinho em casa não fosse o caldo entornar-se (quem se lembre ou conte com quem lho saiba contar, traga à mente três datas emblemáticas lusitanas do século XX - 25 de Abril, 11de Março, 25 de Novembro - e medite sobre o bom-senso) e assentava também, por outro lado, na apólice do seguro de vida garantido pela aliança militar com os Estados Unidos chamada vulgarmente NATO, contra eventuais agressores exteriores, isto é, a dita União Soviética, seguro que dissuadiu o Kremlin de tais maus pensamentos, sendo a Guerra Fria ganha sem ter de se dar um tiro.

 

Tudo isso já lá vai. Em 2008 a doença financeira trouxe para tratamento a austeridade. Emenda pior do que o soneto mas é pior ainda quando xicos-espertos, animados pelo grego da moto, bancam num jeitinho a dar que eles saberão explicar aos alemães. Dessa, nós por cá ainda não estamos livres.

 

Entretanto inépcia do poder americano e cobardia dos confortos europeus deixaram à solta a atrocidade síria cujos fugitivos estão a escavacar pretensões morais europeias, acordando o pior em muitos corações: da brutalidade da Hungria à hipocrisia da Dinamarca. Quando Angela Merkel abriu a porta aos infelizes que não se tivessem afogado pelo caminho, esqueceu-se que a alma das pessoas de bem é um horror.

 

Há pior, por toda a parte. A grande ilusão comunista foi remédio que falhou. A julgar pelos feitos do Estado Islâmico, pelos budistas a irem ao pelo aos muçulmanos na Birmânia, pelo apoio dos evangélicos americanos a Donald Trump, a fé religiosa não nos tirará de apuros.

 

Montesquieu, Voltaire, a razão? Tem-se tentado, sem ela não teríamos chegado a separar a igreja do estado, ingrediente sine qua non de decência de vida. Está a ser agora muito atacada (exactamente por causa disso). Talvez gente nova, europeia ou outra, entre robots e inteligência artificial, encontre outra vez rumo.

 

 

 

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16.12.15

 

Trudeau aeroporto.jpgO Primeiro Ministro Justin Trudeau acolhe os primeiros refugiados sírios no aeroporto de Toronto

 

 

 

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Sem anestesia

 

 

 

A feminista marroquina Fatima Mernissi, dada a aforismos e com jeito para os inventar, escreveu um dia que o pessimismo era o luxo dos poderosos. Lembrei-me deste aforismo dela – mulher bonita que envelheceu bem, ao contrário de tantas velhas e velhos que ninguém atura a não ser a literatura e outros velhos (Alexandre O’Neill dixit) – neste tempo em que os europeus, por um lado, estão a acabar de perder o poder que dantes tinham no mundo, sendo os últimos talhes da amputação sofridos sem anestesia e, provavelmente por isso mesmo, por outro lado, são pessimistas quanto ao futuro, isto é, acharia a grande dama marroquina, alardeiam – alardeamos – ainda por cima dessa maneira manias de grandeza acima das nossas posses.

 

Li que sondagens mostram haver hoje muitas mulheres e homens convencidos de que as suas filhas e os seus filhos pequenos terão em crescidos vidas piores do que aquelas que eles próprios tiveram e estão agora a deixar de ter. Por piores presumo que se queira dizer mais pobres e não com teores mais baixos no sangue de substâncias geradas pelo nosso próprio organismo que nos façam sentir felizes, quer chova ou quer bata o sol. Porque, embora a Sabedoria das Nações apregoe que o dinheiro não dá felicidade (e muitos o recordem logo, acenando que sim com a cabeça, sempre que alguém o lembre quando se saiba de rico apanhado na tenra idade pela Grande Ceifeira), outra máquina eficaz de criar aforismos, George Bernard Shaw, ensinou-nos que o dinheiro não dá felicidade mas dá uma coisa tão parecida que só um perito é que é capaz de distinguir. (Há mais ou menos três quartos de século, romancista italiano medíocre, Pittigrili, popular em Portugal e no Brasil – ou pelo menos os exemplares dos seus livros que os meus tios maternos tinham eram naquele impressos e publicados - criara fórmula menos subtil do que a de Shaw mas perfeitamente satisfatória para as necessidades estilísticas de leitores nos Aquém e Além Mar de Gago Coutinho e Sacadura Cabral: “O dinheiro não dá felicidade, principalmente quando é pouco”.

 

Austeridade – teimosia em aplicar às nossas economias receita de alemães, por alemães e para alemães não nos deixa passar da cepa torta. Refugiados – incapacidade de entender que a Europa precisa de muito mais mão-de-obra ainda do que aquela que as guerras na Síria, no Afeganistão e alhures lhe estão a meter pelas portas dentro envenena tudo (os nossos primeiros ministros deveriam ter feito como o canadiano Justin Trudeau que foi esperar os primeiros refugiados que lhe couberam ao aeroporto de chegada). Terrorismo – desleixo de décadas em defesa e segurança e agora incitações populistas à xenofobia por chefes de governo ou de oposição fazem muito mal, especialmente a prevenção e combate ao terrorismo. (Uma política externa digna desse nome também teria ajudado – mas seria pedir muito).

 

Teimosia, incapacidade, desleixo. Sem progresso neste tripé não haverá Europa nem – ipso facto – Portugal que se segure.

 

 

 

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30.9.15

 

 

 

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Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

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O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

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9.9.15

 

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O bom e o bonito

 

 

 

Amigo entendido em política e em Europa mandou-me dizer que, sem desculpar o egoísmo de alguns governos europeus, “convém lembrar as declarações xenófobas e racistas do leader das sondagens do partido republicano na grande democracia norte americana (o “nosso” Orban nunca disse dos refugiados ou dos ciganos o que aquele palhaço diz dos mexicanos…) ou as valas comuns para onde na Malásia foram atirados e escondidos os imigrantes ilegais que ao chegarem a terra firme foram sumariamente assassinados. Como diria o outro: as coisas são o que são. Mas isso não é desculpa para que não tentemos mudá-las”.

 

De acordo mas, antes de lá voltar, a Malásia lembrou-me a Birmânia (agora Myanmar onde resiste, hoje em liberdade, a Senhora Aung San Suu Kyi, comparada a Mandela como símbolo de resistência democrática) onde a maioria budista atormenta pequena minoria muçulmana, maltratada e impedida de emigrar, vítima de constantes sevícias, infligidas por gente que nos habituamos de pequenos a ouvir descrever como pacífica e serena, numa espécie de superioridade espiritual que o budismo daria. Para aprenderem a ser bons, hippies europeus e americanos iam passar temporadas por essas bandas. Tempo foi. Vinte e cinco anos depois do fim da Guerra Fria, talvez tenhamos percebido que, logo a seguir ao bom senso, a maldade é a coisa mais bem partilhada do mundo.

 

Na Europa, há sobressalto geral perante, por um lado, a fotografia do menino curdo morto que deu à costa na Turquia, publicada nas primeiras páginas da imprensa europeia (mas em França, entre os grandes jornais, só em Le Monde – a maioria dos franceses acha que os refugiados não precisam de mais ajuda) e a decisão de Angela Merkel de exercer a chefia que se lhe pedia, com coração e cabeça melhores do que muitos julgavam que ela tivesse – e, por outro lado, o escandaloso tratamento dado aos refugiados na Hungria, onde, entre outras gentilezas, o governo de Vitor Orban os impede de apanhar comboios para a Alemanha. Alguns políticos europeus querem ostracizar a Hungria; outros não.

 

Europeus e norte-americanos têm enorme culpa desta desgraça. O grosso da tragédia vem da Síria onde o Ocidente, há anos incapaz quer de derrubar Assad quer de negociar com ele, deixou o Estado Islâmico medrar, prometeu ajudas e faltou, deu o dito por não dito, perdeu a face, suspendeu ajuda humanitária. Antes, com pretexto mentiroso que enganara muita gente e execução de incompetência abissal, lançara desordem mortífera no Iraque cujas consequências duram. E atacou a Líbia que, sem Khadafi, se transformou num entreposto de emigração clandestina.

 

Há quem se assuste por o Estado Islâmico ir metendo gente na Europa. O problema é mais grave. Sunismo salafita promovido e apoiado pela Arábia Saudita torna entendimento entre muçulmanos e o resto muito difícil em estados laicos como os nossos que ofendem intolerância islâmica. (Até na monarquia britânica, onde a Rainha é também chefe da Igreja Anglicana). 

 

 

   

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2.9.15

 

 

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Angela Merkel (Getty)

 

 

 

 

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Deutschland über Alles (a bem)

 

  

 

Na Islândia - país com pouco mais de 300.000 habitantes que já quis candidatar-se à União Europeia e depois mudou de ideias - o governo anunciara estar pronto a receber 50 migrantes, dos milhares que este verão demandam a Europa, mas onda de indignação generosa organizou o povo on line enquanto o Diabo esfrega um olho e há lá agora 10.000 ofertas de acolhimento. Há também muitas da Noruega e, dentro da União, a Suécia, apesar de renitência vistosa da sua nova direita, vem logo a seguir à Alemanha em disponibilidade – a grande distância, devido à escala: a Alemanha é o país mais populoso da Europa; os suecos são menos do que os portugueses.

 

No fundo da tabela da solidariedade estão alguns dos países dantes do lado da lá da Cortina de Ferro, dando a Hungria, proverbialmente xenófoba, mais nas vistas do que os outros por ter erguido muro de arame farpado na fronteira com a Sérvia e ter vedado nos últimos dias o acesso à estação central de caminho de ferro de Budapeste. Um mar de migrantes, famílias inteiras que, uma vez na Hungria, se preparavam para apanhar comboio para a Alemanha, pronta a receber quase um milhão e a não os devolver ao país pelo qual tenham entrado na União Europeia, confrontou a polícia na praça em frente da estação. Quando escrevo (terça-feira) por lá estão ainda. Imagens fortes nas televisões de todo o mundo, espelhando o egoísmo escandaloso dos europeus (Mauriac, mais uma vez: “Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a das pessoas sérias e é um horror”), egoísmo confortado pelos que sustentam, pimpões, que os europeus não têm obrigação de tratar de todos os males do mundo. (Creio que o primeiro a dizê-lo foi Michel Rocard). Também acho que não mas o problema não é esse. O problema é que a União Europeia não é, nem deveria ser, uma O.N.G. caritativa – é, ou deveria ser, um poder político.

 

Entretanto, o silêncio de Angela Merkel começava a ser ensurdecedor (pediam-lhe que mandasse na Europa mas como mandar, a seguir ao castigo da Grécia, sem evocar passo de ganso, cruzes gamadas, saudação nazi? Como ser Führer sem ser Hitler? Pediam-lhe também que mandasse nos seus mas era preciso sentir muito bem o vento para saber navegar com ele ou bolinar). Finalmente a Senhora decidiu-se, com bom coração e com boa cabeça - para além do que pareceria possível, deu à Europa a noção de que havia nesta um chefe. À evocação dos valores europeus - que explicita ou implicitamente incluem estado de direito, direitos do homem, decência cívica, solidariedade – juntou lembrança dos benefícios materiais trazidos pelos imigrantes aos países onde chegam (no caso do Velho Continente, mão de obra jovem que permita pagar pensões aos reformados).

 

É projecto político sine qua non para a Europa prosperar no mundo globalizado, meter respeito à Rússia, derrotar o Estado Islâmico e a sua insidiosa quinta coluna.

 

E para tornar a meter Montesquieu na calha. Ou Antero: “Razão, irmã do amor e da justiça”.

 

 

 

 

 

 

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15.7.15

 

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 George Frost Kennan

Desenho de Mary Bundy

 

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Isto do Sul

 

 

«Porque é que Vocês gostavam tanto de Salazar?»

 

«Porque ele não era corrupto» respondeu-me Kennan que começara a transaccionar com o Presidente do Conselho de Ministros português a cedência das Lajes aos americanos durante a guerra de 39/45, quando era encarregado de negócios da embaixada americana em Lisboa entre dois embaixadores (e também algumas vezes ainda sob o primeiro, homem de negócios bonacheirão que achava Salazar esperto demais para ele e arranjava desculpas que justificassem mandar Kennan em seu lugar).

 

«Robespierre também não», quase me saiu da boca mas contive-me. Acabava de conhecer George F. Kennan, 97 anos, monumento vivo da diplomacia e da história diplomática americanas que me recebia em casa dele em Princeton, fora eu convidado para me candidatar à cátedra que leva o seu nome no Institute for Advanced Study, onde estive de 2001 a 2004. Começara por me dizer quanto tinha gostado de Portugal.

 

Ainda bem que me contive porque, primeiro, Kennan não tinha vestígio do zelo escuteiro que tantas vezes torna ridículos (ou, excepcionalmente, admiráveis) compatriotas seus do corpo diplomático e porque, segundo, a ausência de corrupção faz um chefe ser respeitado por aqueles em quem mande, mesmo que tenha a mão pesada.

 

Está a acontecer agora no Califado, ou Estado Islâmico. É constituido por cidades e campos de que se apossou na Síria e no Iraque, países inventados a seguir à guerra de 14/18, talhados no que fora o Império Otomano pela França e o Reino Unido, e corruptos desde a sua criação. É propósito das relações públicas do Califado aterrorizar toda a gente, a começar pela sua. Inimigos são massacrados com crueldade. Espectadores distantes, como os europeus, são mimoseados na televisão com execuções atrozes que deixámos de praticar entre nós de há algum tempo a esta parte. No Califado, porém, é diferente: a lei é dura mas é a lei. Infieis e apóstatas são decapitados; ladrões, cortam-lhes a mão; adúlteras e adúlteros lapidam-nos (apedrejam-nos até à morte) – mas, dizem-me entendidos, a corrupção acabou: já não é preciso dar dinheiro indevido a toda a gente ligada ao estado, para tudo e por toda a parte. Passados excessos da conquista, quem acate as leis e cumpra as regras é menos incomodado pelo poder do que no tempo do Iraque e da Síria.

 

Se for sunita e dos bons. Gente doutras crenças ou com fantasias do género as mulheres devem saber ler terá de se pôr ao fresco se quiser salvar a pele. E o Rolex do Califa Al Baghdadi sugere luxos escondidos. A Utopia não foi desta mas para o camponês, o pequeno comerciante, o mestre d’obras de aldeia, está-se melhor do que sob as prepotências anteriores. Comer e calar.

 

Salazar era incorrupto mas a pobreza ajudava. O país antigo tinha esmoído as modernices do liberalismo. Por 1960 começou a haver mais dinheiro e as coisas mudaram. O 25 de Abril trouxe liberdade; a União Europeia despejou dinheiro fresco a rodos; o euro foi o fim da picada. Muito sizo temos nós tido.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

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24.6.15

 

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A asneira da austeridade

 

 

Em tempo de vacas gordas, haver ricos conforta os pobres e vive tudo na paz do Senhor. Em tempo de vacas magras, o Diabo põe-se à coca e faz das suas. De entrada, a esperança teima: para o ano vai ser melhor, pensam muitos (e depois pensam poucos). Quando anos passam e quase nada melhora, o azedume rói as almas. O mau viver instala-se a pouco-e-pouco; cava-se um fosso entre o mundo cada vez mais pequeno dos ricos e o mundo cada vez mais vasto dos pobres e acaba por se estragar tudo — mesmo em lugar tão cordato e tão pouco dado a excessos quanto Portugal.

 

Estamos a chegar aí – tal como vários outros países europeus – graças a política de austeridade que de há quase cinco anos a esta parte os países que têm o euro como moeda resolveram adoptar. Em lugares do Sul animados por tradições de guerra civil, como a Espanha e a Grécia, a violência formiga à flor da pele. Mais acima no Continente, os países decisores ou por falta de visão (tais aqueles jogadores de futebol que olham para a bola em vez de olharem para o campo) ou por ignorância de história (a qual lhes diria que, em 1953, a Alemanha Ocidental ter um superavid primário foi crucial para a decisão de lhe reduzir drasticamente a dívida) estão a minar a segurança e o bem-estar dos europeus. É certo que em 1953 os europeus ocidentais tinham pavor salutar da URSS. Mas hoje a Europa inteira deveria ter medo geral profilático: da Rússia; da concorrência desregrada dos outros BRICS; do descalabro sanguinário do Próximo Oriente. Somos uma jangada de paz e decência em mar alto onde borbulham monstros.

 

E nem é hoje a Alemanha que nos empurra para o abismo. Finlândia, Holanda, Eslováquia, Eslovénia falam mais grosso ainda. Mas com chefe à altura de Adenauer, que puxou os seus do fundo do opróbio; ou de Churchill que salvou a Democracia das garras de Hitler e Estaline; ou de De Gaulle que, em 1945, fez da França vencida França vencedora – tudo iria ao sítio. Mesmo sem eles, talvez vá se Angela Merkel tiver unhas para essa guitarra. Talvez as tenha.

 

Escrevo da Nova Iorque dos pobres, onde houve festa da música no Solstício de Verão. No bistrot da esquina, com mesas cá fora, quarteto francês de jazz (The Blues Syndicate, amadores cinquentões) veio dar acompanhamento ao aperitivo e, depois de jantar, ao serão. “Perdemos Waterloo mas ganhámos os blues” disse o guitarrista entre duas peças. Quinta-Feira, à reconstituição comemorativa dos 200 anos da batalha tinham vindo o Rei dos Belgas, o Príncipe Carlos, descendentes de Napoleão, de Wellington, de Blücher, outros estadistas europeus. Os franceses têm mau perder e mandaram só o embaixador em Bruxelas. Os alemães fizeram o mesmo mas porque, desde a atrocidade nazi, ganhar dá-lhes amargos de boca — por muito antigo que o ganho haja sido.

 

Isso deveríamos todos aprender com eles. Na minha experiência, a Alemanha era o único grande país europeu que se portava decentemente com os pequenos e dizem-me que continua a sê-lo.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

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22.4.15

 

 

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Oh Senhor, é bom ser burro mas não tanto…

 

 

Assim desabafava, antes de nos dar zero, o major David dos Santos que tinha feito a Guerra de 14 na Flandres e nos ensinava matemática na Valsassina quando um de nós, chamado ao quadro, era incapaz de resolver o problema posto.

 

Gostava de ser um major David dos Santos gigante que tivesse por alunos os chefes políticos europeus de hoje e os chamasse ao quadro. Os problemas por resolver começam a ser demais e é incómodo em democracia que, como somos nós a escolher ou não quem manda em nós, ao fim de anos de mais do mesmo, a culpa é nossa também.

 

Deixo para o fim os naufragados do Mediterrâneo e começo pelo menos desculpável dos desmandos da turma de irresponsáveis: a austeridade, aplicada aos povos do sul da Europa (e aos irlandeses, sulistas deshonorários) depois da crise financeira de 2008. No clima de desregulação herdado de Reagan e de Thatcher, ganância financeira - desculpabilizada de vez pelo fim de medo da União Soviética - fez estalar a crise nos Estados Unidos, causando lá estragos inéditos desde 1929 pelo nome de crise das subprimes, e passou depois à Europa cujos governos, sob égide incontestada da Alemanha, a trataram com inépcia tal que passou a ser crise de dívidas soberanas. Inspirados por estudos entretanto desqualificados, contra teoria económica e bom-senso político elementar, julgaram que cortar salários e aumentar impostos iria estimular a economia. A história dessa austeridade é nossa conhecida: dívida maior agora do que antes do tratamento, crescimento nulo ou mínimo, desemprego desmoralizante, fim provável do projecto de União que reforçaria prosperidade e segurança europeias (foi bilhete de ida e volta…). Os Estados Unidos reagiram ao contrário e saíram da crise, nós persistimos no erro, com o ministro das finanças alemão a reger a banda, como se vivêssemos no melhor dos mundos possíveis sem ninguém dizer que o rei vai nu, enquanto demónios antigos regressam a galope - os do Sul não trabalham; os alemães são nazis; estrangeiros é má gente que nos rouba empregos e nos viola as filhas. (Certo: o paraíso não é deste mundo – por exemplo, nas últimas semanas moçambicanos foram assassinados na África do Sul, só por não serem de lá. Mas, para quem se pretende modelo social e pilar da protecção dos direitos humanos, é duro).

 

Como se não bastasse, a Europa, embora com força para pôr Google em tribunal (o que não tem qualquer dos estados que a constituem) não seria capaz de se defender sem ajuda dos Estados Unidos de quem a atacasse militarmente e não tem, até hoje, política externa que metesse respeito ao mundo e tornasse tal ataque menos provável.

 

E os mortos no Mediterrâneo – agora à razão de centenas por dia? Khadafi tinha-nos prevenido: sem ele a Líbia seria o caos - mas Sarkozy e Cameron quiseram dar uma de homem e deixaram-no linchar. E agora? Abrir os portos europeus a toda a gente? Invadir a Líbia e fechar os portos?

 

Há de vir o Diabo e de escolher.

 

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11.3.15

 

 

 

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 Bentiu, UNMISS camp

 

 

 

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Em terras do Preste João

 

 

Sexta-feira passada, em Adis Abeba, sede da União Africana, capital da Etiópia (onde há muitos séculos reinou Preste João, rei cristão que os nossos navegadores esperaram em vão encontrar) conversações de paz entre governo e rebeldes do Sudão do Sul, o mais jovem país independente do mundo, acabaram sem acordo, apesar de terem sido prorrogadas de um dia – declarou num comunicado o primeiro-ministro etíope, Hailemariam Desalegn, lamentando não ter sido possível tirar as duas partes do desentendimento onde se tinham metido quanto a: justiça durante a transição, partilha do poder e segurança. Três dias antes, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptara por unanimidade resolução impondo sanções a qualquer das partes que prejudicasse esforços de restauração da paz no Sudão do Sul mas não fora ao ponto de proibir compra de armas pelas facções em guerra: a tribo Dinka, leal ao presidente Salva Kir e a tribo Nuer, fiel ao antigo vice-presidente Riek Machar, que juntas fazem mais de 50% da população do país. (Percebe-se que o Conselho de Segurança não tenha tocado no comércio de armas: os seus cinco membros permanentes – China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – são grandes exportadores de armamento e já têm razões de sobra para se desentenderem).

 

Muito antes das achegas tecnológicas e cosmopolitas – armas automáticas; assento na Assembleia Geral das Nações Unidas – Dinkas e Nuers, andavam nus, não sabiam ler, pastoreavam bois e batiam-se muitas vezes uns contra aos outros à lançada. Assim os encontraram os ingleses que trouxeram administradores, negociantes, missionários e mais espingardas (as primeiras tinham chegado com os árabes); continuaram a bater-se sob governo de Cartum no Sudão independente e agora, que o feitiço do petróleo e teimosia metafísica cristã ou animista levaram o sul à independência, depois de mais de 20 anos de guerra civil – o Sudão “do norte” é muçulmano – à bulha permanecem. Até agora colonização e globalização não tocaram muito em valores e crenças (a religião Nuer, de resto, não fica atrás dos Evangelhos e dos doutores da Igreja em profundidade e sofisticação) mas morre muito mais gente dum lado e doutro. E há milhares e milhares refugiados.

 

O Sudão do Sul é longe da Europa mas pelo meio não há muitos oásis de paz. Não é só porque da paz não veem notícias. Se se pintarem num mapa lugares de conflito aberto ver-se-á como estes abundam e persistem ou, quando acabam, deixam chagas ruins de sarar (para eles não há, como houve para a Europa ocidental a seguir a 1945, nem Plano Marshall nem OTAN, a seguir a resultado indiscutível).

 

Alguns são perto demais para ficarmos no nosso conforto irresponsável (Ucrânia malferida por Putin; atrocidades do Califado no Médio Oriente). Os europeus têm de passar a gastar mais em defesa, de se reforçar na OTAN e, até terem uma política de defesa comum, de reestabelecerem, todos eles, serviço militar obrigatório. Para começar.

 

 

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25.2.15

 

 

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L'inverno (1569), Giuseppe Arcimboldo

 

 

 

 

 

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O fim da picada?

 

 

Angela Merkel, levando à ilharga François Hollande – o eixo franco-alemão redime Berlim de crimes imperdoáveis – viu as coisas mais de cima do que os seus contabilistas, pôs a mão por baixo de Tsipras, a Grécia não saiu do euro e ainda não foi agora que a construção europeia se desmoronou.

 

Por um triz. Nacionalismos antigos estalaram o verniz fresco da Casa Europeia. Para os alemães, a Grécia reduziu-se a dois séculos de aldrabices (em meados do século XIX desconfiava-se na Europa do teor de moedas de ouro cunhadas por Atenas); para os gregos, a Alemanha reduziu-se ao horror nazi (na Primavera de 1944, escritor berlinense foi denunciado, julgado e decapitado por ‘propósitos derrotistas’ e a viúva recebeu conta de 585 marcos para pagamento das despesas). Agora, inexperiência, má criação e má-fé do novo governo grego, e inabalável curteza de vistas dos burocratas financeiros alemães (recusando-se a perceber que a dívida grega explodiu devido a medidas mal pensadas impostas pela troika; que sem o fim da austeridade não haverá recuperação – para sair de um buraco a primeira coisa a fazer é parar de cavar – e que a dívida grega deverá ipso facto ser revista) animam falso combate entre Norte virtuoso e Sul pecador da Europa. Esperemos que nos próximos meses a obstinação insensata alemã se atenue e os gregos provem que passaram a ser de fiar.

 

Infelizmente esta bulha não é confortada por qualquer visão estratégica da União, porque tal visão não existe. A vontade de defender a Pátria e os orçamentos de defesa mirram de ano para ano. A Sudeste, as barbaridades do Califado – ou estado islâmico do Iraque e da Síria – alarmam os europeus por medo de terrorismo praticado por cá, levam a alguma coordenação policial mas não a medidas de uma Europa que quisesse e soubesse defender os seus interesses e gerir zangas internas sem se enfraquecer.

 

E a Leste é pior ainda. Desde o fim da União Soviética, o Ocidente esqueceu-se da Rússia, esperando que os russos quisessem vir a ser como nós – estado de direito, direitos humanos, respeito pelos vizinhos. Não o quiseram e hoje, sob a égide ávida de grandeza Imperial de Putin (que alguns entre nós admiram) a Rússia ameaça a nossa segurança. A Ucrânia está ser despedaçada: o eixo franco-alemão insiste em Minsk que só pode haver solução política e entretanto a Rússia estabelece militarmente as partes dessa solução que lhe convêm. Em 2008, Geórgia; no ano passado, Crimeia; uma vez o resto da Ucrânia fatiado sem que ninguém lhe trave o passo, talvez a Rússia se vire contra um dos bálticos (a pretexto de proteger minoria russa), apostada em que a OTAN não lhe bata de volta. Os Aliados, com Washington, Londres, Paris, Berlim e Varsóvia à frente, deveriam lembrar ao Kremlin que o artigo 5 do Tratado de Washington (ataque a um é ataque a todos) não foi abrogado.

 

Havia mais sagacidade nos antigos do que na nossa correcção política bem pensante. Se queres paz, prepara guerra, diziam.

 

 

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18.2.15

 

 

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 Foto Sonda Cassini

 

 

 

 

 

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Agora e na hora da nossa morte

 

 

António Alçada Baptista travou-me o braço e disse-me enquanto atravessávamos o foyer do teatro Maria Matos onde nessa tarde havia uma recepção: “Estou a escrever um livro porreirinho sobre Deus”. Eu chegara de Oxford uma hora antes para meia dúzia de dias na Pátria, não nos víamos há meses e assim recebi anúncio da Peregrinação Interior. Da boca do cavalo, dir-se-ia em inglês.

 

Tempo mais simples do que o nosso de hoje. Três séculos intensos de zaragatas europeias tinham acabado em muitos lugares por separar a Igreja do Estado; blasfémia era pecado mas deixara de ser crime. A fé de cada um - como os gostos de cada um - não se discutia. O nazismo fora derrotado e destruído; o comunismo estava cantonado até que o seu próprio peso o fizesse desmoronar. Na Europa Ocidental vingavam decência entre governantes e governados e comedimento na partilha do latifúndio, inéditos na história.

 

O Portugal de O Tempo e o Modo esperava pelo 25 de Abril e o Deus do António era o Deus hebraico de Abraão, Isaac e Jacob, mais tarde também de Jesus Cristo e, mais tarde ainda, de Abu Al Cassem Ben Abdalá Ben Al Mutalibe (Maomé significaria O Glorificado). Os estragos feitos ao longo da história pelo monoteísmo começavam a ser esquecidos em ambiente que André Malraux apreendera bem: “Somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem”.

 

Éramos. Talvez ainda se escrevam livros porreirinhos sobre Deus, nos quais a leitora encontre apreciação da vida, benevolência e tolerância, longe de polémicas teológicas – longe, na aparência, de qualquer teologia. Mas onde hoje mais ouvimos falar de Deus, é nos feitos do Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou de Boko Haram na Nigéria, um Deus antropomórfico, primitivo, cruel, sangrento, cujos fiéis oferecem à outra gente conversão ou morte – ou começam matando, se mais jeito der. Nova Iorque, Washington, Londres, Madrid, Paris, Copenhague – a procissão ainda vai no adro. E, em partes da cristandade – por exemplo, na Rússia – igrejas opressivas recuperam poder temporal.

 

Entretanto, a ciência vai mudando o conhecimento do mundo de maneiras tão inesperadas e com tal rapidez que o presente – e não apenas o passado – às vezes é como se fosse país estrangeiro, com língua e hábitos diferentes dos nossos. Mudanças de paradigma sucedem-se em cascata. E a passagem de novas teorias, intuições, palpites, de mentes científicas para entusiasmos leigos faz-se num momento e sem filtro, devido à panóplia de meios de comunicação hoje ao dispor de cada um.

 

Nesta mistura adúltera de tudo, diz-me amigo entendido em coisas americanas, lá quase todos os movimentos feministas debatem o género da divindade, ao ponto de usarem o feminino nas orações. E que Deus seja um robot, nem macho nem fêmea, dados os progressos em inteligência artificial, etc., será decerto sugerido um dia destes. Separando de uma penada o físico do moral; o que é do que deveria ser. Até à guinada seguinte…

 

 

 

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26.11.14

 

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 Nuba, 1962-77 © Leni Riefensthal

 

 

 

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Contas às vidas

 

 

Leitora atenta acha que reflexão sobre os ricos e os pobres tem muito que se lhe diga e é bastante complicada aos seus olhos. “É que para mim os ricos somos nós todos aqui no Ocidente, brancos, a quem não falta água quente para tomar banho e comidinha no prato, assediados por aqueles que se metem em barcaças e morrem à média de 5 por dia para tentar cá chegar (números de 2007, hoje devem ser mais). Assim, aos meus olhos, é tudo relativo em termos de desigualdade aqui por estas nossas bandas”.

 

Nem de propósito. Estudo apresentado quinta-feira passada por um grande banco suíço e uma agência de conselho a afortunados mostra que os cerca de 211.000 “ultra-ricos” deste mundo continuaram a prosperar em 2014 e detêm hoje 13% da riqueza mundial. O seu número aumentou de 6% e o seu património de 7%, chegando ao equivalente do dobro do PIB dos EUA. Estes ricos-ricos — patrimónios superiores a 30 milhões de dólares por bico — representam só 0,004% da população adulta mundial e compraram 19% dos produtos de luxo vendidos o ano passado. Enriqueceram ainda mais graças à boa saúde das bolsas — apesar de conflitos geo-políticos, tensões sócio-económicas, volatilidade dos mercados financeiros. Embora na Ásia vivam 46.635 deles — e tenham este ano aumentado em África mais do que noutra partes do mundo — concentram-se nos Estados Unidos (74.865) e na Europa (61.820).

 

Como, graças ao Estado providência, o fosso entre pobres e ricos na Europa é e será por muito tempo muito menos fundo do que noutros continentes, a minha amiga parece ter razão e os europeus deveriam ter vergonha e deixarem de se lamuriar.

 

Só que, como ela diz, a reflexão é complicada. Há quase 50 anos, tinha Portugal um Império Colonial e a Guerra Fria pautava o mundo, já a destruição criadora fazia das suas ao ponto do Luís Monteiro se gabar de ser um “nouveau-pauvre”. (Se estava convencido disso ou não, não sei. O Luís - de “Um homem não chora” e de “Felizmente há luar” - era mitómano, o que emaranhava a conversa: “A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo a ver se ainda queima, e ainda”). Seja como for, riqueza e pobreza extremas assustam à primeira vista mas depois a gente habitua-se; números como os que vão acima são difíceis de entender, como seriam os da fome e do analfabetismo — não é da leitura de estatísticas que bem estar ou mal estar vem. Os termos de comparação são o ano passado e o vizinho do lado. Os europeus veem que os seus vizinhos estão todos tão mal ou pior do que eles e percebem que — pela primeira vez há um par de séculos — os filhos vão passar pior do que os pais (sem sequer, ao contrário do que acontece noutros cantos do Mundo, fé descabelada em Deus que lhes engane a fome).

 

Uma achega mais à complicada reflexão. Enquanto, desde 2008-10, a Europa se atasca, roçando agora a deflação, milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro passaram a comer todos os dias e para elas o século XXI é cornucópia de abundância.

 

 

 

 

   

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3.9.14

 

 

 França, 2014

 

 

 

 

 

 

Si t’es pas bi, t’as rien compris

 

 

Se não és bissexual não percebeste nada, dizia frase tirada do texto e posta em relevo, a meio de artigo sobre bissexualidade que parece agora estar na moda entre adolescentes franceses, numa revista para senhoras, também francesa, com fotografias a preto e branco de miúdas e miúdos a beijarem-se na boca, rapaz a rapaz, rapariga a rapariga. Nenhuma intenção pornográfica, só diligência informativa. Aprender até morrer.

 

Sempre, indo para velha, a gente mudava. O que é novo, de há menos de três séculos para cá, é que o mundo parece mudar mais depressa do que nós, e nos últimos tempos, muito mais depressa ainda. Desconfiança das vantagens da Revolução Francesa começou logo com ela e teve, desde então, protagonistas convictos. O meu amigo Chico Quevedo, por exemplo, quando ainda ia de automóvel de Bruxelas para Lisboa acrescentava mais de uma centena de quilómetros de estrada para evitar Paris. A Revolução Industrial também teve logo detractores – o poeta William Blake fulminou “the dark, Satanic mills” — e continua a apoquentar ecologistas mas sai-se muito melhor do que “Liberté, Égalitè, Fraternité” sempre que a gente toma um comprimido de Aspirina e a dor passa.

 

No meu tempo de liceu, de bissexualidade quase não se falava e, de qualquer maneira, tínhamos, por assim dizer, mais ralações do que relações sexuais. Nessas coisas a mudança foi e, pelos vistos, continua ser, enorme — e ainda bem. Como ainda bem também as mudanças em governação: internacional (onde não existe mas se tenta compensar e, com sorte, talvez se preveja melhor do que em 1914) e nacional (onde as pessoas podem cada vez mais dar palavra) mas o desinteresse pela coisa pública e a desconfiança dos políticos alastra assustadoramente. O húngaro Victor Orban, admirador de Putin, foi ao ponto de declarar que a democracia é um mau sistema de governo porque enfraquece os povos e os regimes autoritários são preferíveis porque os reforçam. Tentações assim pulsam cada vez mais pela Europa fora.

 

Europa que, com islamitas do Califado no Iraque e na Síria, por um lado, o Czar Vladimiro, por outro e — cereja no bolo — um banana indeciso na Casa Branca, começa sombriamente a convencer-se de que se não for capaz de se defender de quem lhe queira mal, ninguém o fará por ela. A reconversão urgente e penosa de recursos e de ideias necessária à nossa sobrevivência será aproveitada pelos inimigos da liberdade — desde protectores de interesses corporativos em agricultura, comércio, indústria, serviços até almas ofendidas com a variedade de práticas sexuais aceites. Toda essa gente tem de perceber que onde as suas preferências de ordem e de respeito pelo passado imperam e onde o chefe quer, pode e manda, são, perto de nós, o Califado do Iraque e da Síria, ou, em versão light cristã, a Ucrânia oriental.

 

(Lembrete: os soldados com maior reputação de bravura de toda a antiguidade clássica vinham de Esparta, onde a bissexualidade era de rigueur.)

   

   

  

 

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27.8.14

 

 

 

Brasão da Cidade de Évora

 

 

 

 

 

 

Decapitações

 

 

O brasão da minha cidade natal representa guerreiro a cavalo que levanta na mão direita um montante e segura na esquerda as cabeças, cortadas de fresco e agarradas pelos cabelos, de um homem e de uma mulher. É Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que para recair nas boas graças do rei D. Afonso Henriques que o banira da corte lhe ofereceu a tomada de Évora aos mouros. Para isso meteu-se a namorar a filha do vigia que, de uma torre fora de portas, indicava à noite, por sinais de fogo, se hostes que se aproximassem da cidade eram amigas ou inimigas. Ganha a confiança de ambos, organizou bando de gente sua, um serão degolou pai e filha, assinalou à cidade chegada de amigos, o bando cavalgou pela porta escancarada da muralha, matou os defensores num Credo e — Real, Real por El-Rey de Portugal! — Évora passou a ser nossa. Foi um dos momentos altos da reconquista cristã da Península.

 

Consta-me haver agora em Évora quem queira mandar o Sem Pavor para o caixote do lixo da História e inventar brasão que não ofenda correcção política. Espero que tal nunca aconteça. A correcção política liofiliza ditos e feitos de cada um, no afã de transformar a hipocrisia em virtude, e em Portugal agora o efeito é muito pior ainda do que em lugares que não tenham escolhido, como nós, a mediocridade para ambição e a subalternidade como regra de vida. Em anos passados, menos rasteiros, a despedida do trabalho ouvida a uma mulher a dias — “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe” —  já me parecera às vezes lema plausível para a política externa portuguesa. Desde então as coisas só têm vindo a piorar, incluindo a nossa aquiescência à adesão da Guiné Equatorial à CPLP que alia incongruência linguística e ganâncias despudoradas a incómodo moral, escusado para quem se proclamou democracia em 1976 e aderiu à Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Há quem goste de dizer que democracias são invenções ocidentais e que há outras maneiras de governantes e governados viverem a contento de todos. Mas a questão não é essa. É que, inter alia, o presidente fundador da Guiné Equatorial, país paupérrimo até à descoberta do petróleo, matou ou forçou ao exílio um terço da população, tendo crucificado adversários políticos dos dois lados de estrada que leva a Malabo e o sobrinho igualmente meio louco que o mandou assassinar e lhe sucedeu, além de manter a opressão brutal não se livra da fama de ter comido (literalmente) opositor exilado em Madrid que resolvera, insensatamente, voltar à pátria. Eu sei que tivemos o casal Ceaucescu em Queluz - mas que Diabo…

 

Voltando a decapitações. Lamentavelmente, as reacções dos Estados Unidos e da Europa às façanhas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria e do seu Califa de Rolex no punho têm sido sobretudo retóricas, o que é erro perigoso. Os americanos começaram bombardeamentos; esperemos que os continuem; que aliados aptos a fazê-lo se lhes juntem e que deixem por fim o EIIS como Roma deixou Cartago – arrasada e sem ninguém. 

 

 

 

Imagem aqui 

 

 

 


30.7.14

 

 

 

Barack+Obama+Barack+Obama+Golf+Mid+Pacific+9s6H4jz

 

 Barack Obama       foto: Bauer Griffin 

 

 

 

 

 

 

“Patrão fora…

 

 

…dia santo na loja!” Quando o dizer foi inventado os dias santos eram os únicos feriados que havia. Sem vigilância do patrão, cada um portava-se como lhe dava na real gana. (Na escola também, quando faltava o professor. Lembro-me, no pátio da Valsassina, de intervalo das 11 que nunca mais acabava, até que um voltou da secretaria eufórico: “É pá, não há aula! Morreu a mãe do gajo!”). Se a loja do mundo tem patrão, é Obama e, de há uns tempos para cá, anda tão distraído que há quem julgue que ele esteja fora.

 

De entrada quase ninguém deu por isso. O mundo estava farto de George W. Bush, a querer impor democracia aos outros, sem dor ou com dor, como charlatães de feira dantes arrancavam dentes; da sucessão de desastres militares que lhe couberam por causa disso; da sua fala de pobre de espírito – tornara-se caricatura de presidente americano, desenhada por estudante marxista burro. Em Janeiro de 2009, Obama era alívio que chegava, elegante, sereno, prometendo paz e decência. Discursava bem, com mais jeito para falar à gente do que qualquer dos seus predecessores de que alguém se lembrasse. “É um enlevo ouvi-lo” dizia-me admirador do tempo da primeira campanha eleitoral.

 

Depois de 5 anos de desilusão crescente, o ex-admirador diz agora: “Teria sido “speech-writer” ideal de presidente com jeito para mandar nos seus”. Nos seus e nos outros, acrescento eu, assustado por Putin em Moscovo, Xi na China, feixe de pimpões no Médio Oriente e mais malfeitores a granel, em confrontação com Obama em Washington e com Merkel no ramalhete pusilânime e indeciso dos europeus de que ela é a flor principal. “Lá vamos, cantando e rindo” cantava-se na Mocidade Portuguesa do meu tempo. Salvo jiadistas nas Arábias e entusiastas do Tea Party nas profundezas dos Estados Unidos, não ouço ninguém cantar assim agora.

 

Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos no começo da ascendência destes, fixou a regra de comportamento: “Falar baixinho e andar com um grande cacete”. Passado mais de um século, depois de duas guerras mundiais que aumentaram poder e persuasão dos Estados Unidos no mundo, e da guerra fria cujo resultado vindicou definitivamente a superioridade do capitalismo sobre o comunismo como criador de riqueza e de liberdade, e deixou os Estados Unidos a Hiperpotência, estamos a entrar em terra ignota: Obama na Casa Branca com béu-béu de pirolito e sem querer usar cacete.

 

A China acordou, outros espreguiçam-se. Milénios a fio poderes mudaram e a questão não é essa. A questão é que o alheamento de Obama, a falta de mão firme ao leme, desacredita o poder do Ocidente, garantia de relações entre governantes e governados e entre homens e mulheres muito mais humanas e decentes do que as que escapem à sua influência. Meninas infibuladas, prisioneiros de guerra decapitados, funcionários corruptos abatidos por balas na nuca — com a autoridade de Washington a sumir-se, faltas de respeito e provocações multiplicam-se por esse mundo fora.

 

 

 

 

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23.7.14

 

 

 

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 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(Dmitry Lovetsky/Associated Press)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

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16.7.14

 

 

 

 Gustave Doré

 

 

 

 

Terra Santa

 

 

As coisas vão de mal a pior do lado de Bethlehem, a Belém original onde nasceu Jesus Cristo, sagrada para os três grandes monoteísmos do mundo, agarrados ao mesmo Deus. Apesar – ou por causa – disso o lugar não é pacífico. Há anos, amiga minha que passou o Natal em casa de belenenses, no sossego relativo de entre-duas-intifadas, logo no primeiro serão assustou-se com sirenes de ambulância na praça da Igreja da Natividade, mas o anfitrião disse-lhe para não ligar. “São os coptas e os ortodoxos”, explicou. “Estão sempre à briga. Não se matam mas partem cabeças”.

 

Sem a importância, o renome e os rastos de desgraça de xiitas e sunitas (nos nossos dias só partem cabeças), cada um insiste não só em que Deus há só um mas também que só a sua maneira de O amar é boa: todos os outros cristãos são hereges. Talvez, mas na Europa e nos demais Continentes já muito raramente cristãos partem cabeças uns dos outros por isso. (Falta de fé? Progresso moral?). Quantos aos monoteístas detentores da patente original, séculos de diáspora, de pogrons, de autos de fé, de antissemitismo, culminando na eficácia germânica do Holocausto e a criação de Estado próprio, mal aceite pela vizinhança, ensinaram-nos a defenderem-se primeiro de terceiros. (Embora não haja país com debates sectários mais vibrantes do que Israel).

 

É entre os mais novos da turma, os maometanos, que pendências internas fazem hoje mais estragos. O conflito ente xiitas e sunitas começou logo a seguir à morte de Profeta, no século VII da nossa era e, ao longo da História, teve altos e baixos de importância, segundo peripécias da força de outros poderes. A partir do século XIII o Islão viveu uma “contra-Renascença” que, a arrepio das suas melhores tradições, o afastou do progresso científico e do esclarecimento humanista que triunfaram na Europa. Colonizados por europeus e pelo Império Otomano, os povos do Norte de África e da Arábia viram-se distribuídos por novos estados, delineados por um francês e um inglês a seguir à Guerra de 14-18. O arranjo manteve-se até ao estabelecimento de “Califado” sunita, que rouba terra a Iraque e Síria, e renovadas aspirações curdas de independência. Em 1948, estabelecera-se o Estado de Israel, facilitado por culpa europeia e norte-americana, que expulsou populações. Israel foi bode expiatório para os potentados xiita (Irão) e sunita (Arábia Saudita) e seus vassalos, que içavam perante o mundo a bandeira do sofrimento palestino.

 

Está tudo a mudar. Riade e Teerão temem-se mais um ao outro do que temem Telavive. Os dois abominam o Califado, cuja crueldade consegue ofender padrões locais. A extrema-direita israelita é insuportável mas o Cairo espera ferventemente que Israel destrua o Hamas (compinchas dos seus Irmãos Muçulmanos). Salvo na Tunísia, as Primaveras Árabes acabaram. Vista de Telavive, a Europa é um vasto cemitério. Os EUA de Obama metem pouco respeito.

 

Em Bethlehem, brigas de ortodoxos e coptas continuarão a ser oásis num deserto ardente.

 

 

 

 

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link do postPor VF, às 09:22  comentar

2.7.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A decadência do Ocidente? A sério, desta vez?

 

 

“Voltei para Genève ontem à noite de Basel. A Suíça alemã é a distopia que nos faz medo. Mas é um proverbial relógio a funcionar… tudo impecável, limpo, a horas e sobretudo reliable!!! Um pesadelo, enfim” — desabafou amigo em viagem. E é esse o padrão a que Berlim nos quer obrigar, como réguas de metro ou cilindros de quilo a aferir no Museu dos Pesos e Medidas. Entre Norte e Sul, os europeus nunca se desentenderam tanto.

 

Bons tempos, quando Helmut Kohl dizia que o Chanceler alemão, antes de falar com o Presidente francês, devia fazer três reverências — porque era sinal de que ainda havia França. E bons tempos, também, quando Jean-François Revel escrevia “o anti-americanismo é o socialismo dos imbecis”. Porque ainda havia socialismo, não para governar a seu gosto mas para meter respeito a capitalistas gananciosos que, uma vez largados em roda livre, ajudaram a cavar o lindo buraco onde estamos. E porque ainda havia Estados Unidos da América a libertarem e policiarem o mundo em vez de se fecharem em copas, entre Tea Party descerebrado e presidente tão cerebral que, por querer sempre ver os dois lados de cada questão, acaba por não ver nenhum e ficar quieto. 8 anos das simplicidades da cabeça de Bush, mais 8 anos das complexidades da cabeça de Obama arriscam-se a virar o Novo Mundo para dentro e deixar os europeus ó tio, ó tio.

 

Grave para nós e para toda a gente. Decência entre governantes e governados e tratamento das mulheres como seres humanos e não como bichos de espécie zoológica inferior, começaram nesta parte do mundo, a que chamamos Ocidente, e daí têm tentado medrar in partibus infidelium. Mas exigem atenção constante porque, como tudo, desaprendem-se depressa quando não são praticados. E a obra está sempre inacabada. Desde o século de Péricles, evocado como berço da democracia, aos sistemas políticos das monarquias do noroeste da Europa, considerados os mais user friendly do mundo de hoje, houve progresso. Na realidade, o lugar onde vivi politicamente mais parecido com a democracia ateniense do século V a.C. era a Africa do Sul do apartheid, com uma diferença a favor desta: as mulheres (se fossem brancas) podiam votar e ser eleitas.

 

Se, europeus e norte-americanos, continuarmos a perder o respeito que o resto do mundo fora ganhando por nós entre o século XVI e a segunda metade do século XX – mesmo que muitas vezes de mau modo, de má fé ou sob coacção — e estando reduzido a caricaturas grotescas como a Coreia do Norte ou Cuba o que sobrou da falência da grande ilusão inventada por Marx e afinada por Lenine, Estaline e Mao-Tse-Tung, a hora é dos gladiadores, dos leigos de todas as fés — e dos fanáticos de cismas do Islão que aliam destreza em tecnologias de ponta a zelo pelas tradições mais sanguinárias dos monoteísmos da Terra Santa.

 

Todo o cuidado é pouco.

 

 

 

 

     

                                                                                                              

 

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28.5.14

 

 

 

 Soldados alemães encaminhando judeus para a morte, 1943

 

 

 

 

 

Antissemitismo

 

 

Sábado passado, um casal israelita, uma senhora francesa e um rapaz belga foram assassinados a tiro de kalashnikov no átrio do Museu Judeu de Bruxelas; o assassino e cúmplice que lá o levara sumiram-se de automóvel. No mesmo dia, à saída da sinagoga de Créteil, perto de Paris, dois irmãos judeus ortodoxos foram brutalmente sovados. Ataques físicos a judeus estão a aumentar na Europa desde há três anos. Tinham sido precedidos por anos de ataques verbais em panfletos, espectáculos e intervenções de um ou outro político.

 

O antissemitismo é uma das culpas pesadas da história da Europa: pogroms  na Rússia e na Europa Oriental a partir do século XIII; a Inquisição, expulsões e opressão de cristãos-novos em Portugal e em Espanha, do século XV ao liberalismo; em toda a parte menoridade cívica a que só a Revolução Francesa pôs cobro; nos anos 30 do século XX e durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler e o extermínio dos judeus, praticado na Alemanha nazi e em países por esta ocupada (crueldade inaudita na Roménia; zelo burocrático inexcedível nos Países Baixos). Depois do fim da guerra, dos julgamentos de Nuremberga, da criação de Israel, da definição de genocídio como crime contra a humanidade, o antissemitismo deixou de vigorar como norma ou costume aceitável em países europeus mas não foi completamente extirpado, continua lá, dormente ou, sobretudo à esquerda, metamorfoseado em oposição à acção — quando não à própria existência — do estado de Israel.

 

É difícil de extirpar por uma razão simples: aquilo que condenamos hoje por antissemitismo era a maneira habitual de tratar os judeus em toda a cristandade. E quando, a pretexto de defender interesses e direitos dos palestinos, gente protesta contra Israel e os sionistas, fá-lo muitas vezes recorrendo a mentiras inventadas pela polícia secreta do Czar Nicolau II, compiladas no chamado (e apócrifo) Protocolo dos Sábios do Sião, de que Hitler se serviu para convencer os seus compatriotas da existência de uma conspiração judaica que queria tomar o comando económico do mundo. As televisões dos países árabes — mesmo do Egipto e da Jordânia que reconhecem Israel — estão cheias de telenovelas que atribuem aos judeus esse propósito (e propósitos piores, como o rapto de crianças árabes para lhes beber o sangue). Em muita escola da região, o Estado de Israel não consta dos mapas. A opinião pública é sistematicamente alimentada por mentiras que impeçam ambiente propício à solução política do problema israelo-palestino. E a Europa vai pagando.

 

O antissemitismo europeu é mais subtil. Por exemplo, evoca o Muro de Berlim (que impedia alemães de Leste de fugirem do estado policial onde viviam) a propósito do muro que Israel constrói à sua volta (para impedir que terroristas lá venham assassinar homens, mulheres e crianças).

                

Austeridade, erradamente aplicada para tentar debelar a crise, faz vir à tona os nossos demónios. Vamos levar tempo a metê-los outra vez no fundo.

 

 

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link do postPor VF, às 09:37  comentar

26.2.14

 

 

 

 

 

 

 

 

A peste homofóbica

 

 

(Mas, antes dela, noto que a Islândia, vítima há anos de colapso bancário ruinoso, anunciou desistir de candidatura à União Europeia. Saiu da crise ajudada pelo FMI, com flexibilidade que impediu o país de endividar gerações vindouras. No Sul da Europa tivemos menos sorte. A Alemanha, que queria salvar os seus bancos, impôs-nos austeridade com as consequências conhecidas. Moral da história: teria sido perfeitamente possível sair da crise sem pôr o futuro no prego. Faltou visão a Berlim e coragem a todos).

 

Voltando ao título. Como erradicar a peste homofóbica que grassa hoje na África e na Rússia contra mais de um século de progresso social e de decência promovidos na Europa Ocidental e nos Estados Unidos? A maior e mais maltratada das minorias, em todo o mundo, são as mulheres (demograficamente em maioria como os pretos na África do Sul do apartheid) que gozam hoje, na teoria e na prática europeias e norte-americanas, quase dos mesmos direitos e deveres que os homens. Homossexuais, minoria mais pequena, deixaram de ser discriminados, como se sabe, nas leis desses estados. Em cada vez maior número deles, podem casar e adoptar. Nessas sociedades vibram ainda focos de oposição religiosa e de deferência pelos costumes mas liberdade e tolerância têm levado a melhor no debate que continua.

 

Em contraste vivo, o Parlamento da Rússia de Putin, a pretexto de proteger as crianças de riscos de pedofilia, passou legislação que na prática criminaliza a homossexualidade e deixa homossexuais à mercê de arbitrariedades da administração e do público.

 

O que se passa em África é mais alarmante ainda. De 54 estados do continente, 38 criminalizam a homossexualidade (3 —  Sudão, Mauritânia, Somália — e o norte da Nigéria, que adoptam a charia, preveem pena de morte). Nigéria e Uganda endureceram há pouco as suas leis. Mesmo na África do Sul, apesar de ocidentalizada pelo humanismo de Mandela, existe ambiente homofóbico (lésbicas submetidas a violações colectivas, “para as curar”). Uma declaração do Presidente da Gâmbia ilustra o quadro africano: “A homossexualidade nunca será tolerada e poderá incorrer a pena máxima pois quer levar a humanidade a extinção inglória. Combateremos essa bicharia, os chamados homossexuais ou gays como combatemos os mosquitos da malária ou com mais vigor ainda. No que me diz respeito, LGBT só pode significar Lepra, Gonorreia, Bactéria, Tuberculose; coisas nocivas. Esclareço também que a Gâmbia não poupará nenhum homossexual e portanto a imunidade diplomática não será respeitada no caso de diplomatas homossexuais”.

 

David Cameron disse que queria “exportar o casamento homossexual” para o mundo inteiro. Foi logo acusado de neocolonialismo. Tiranetes cruéis encontraram mais desculpas para o mal que faziam. Não sou fanático do progresso; é prudente respeitar tradições mas, neste caso, norte-americanos e europeus têm razão e quem se lhes opõe faz subir marés de fel no sinistro mar da dor humana.

 

 

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