14.11.15

 

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 Une victime des terroristes à l'extérieur du Bataclan à Paris, le 13 novembre 2015.

(AP Photo/Jerome Delay)

 

 

 

 

Entre le tortionnaire et le corps qu'il déchire, la dissy­métrie est extrême. Le premier s'affirme délié de tout inter­dit. Le second doit se retrouver lié de partout. « Celui qui a, même une seule fois, exercé un pouvoir illimité sur le corps, le sang et l'âme de son semblable... celui-là devient incapable de maîtriser ses sensations. La tyrannie est une habitude douée d'extension... Le meilleur des hommes peut, grâce à l'habi­tude, s'endurcir jusqu'à devenir une bête féroce», écrit Dos­toïevski. La torture recèle in nuce, à l'état réduit et concentré, encore fruste et élémentaire, un style de rapport humain que seule la littérature russe ose scruter avec patience, avec sang-froid sous l'étiquette «nihiliste». Comme tous les articles en vogue sur le marché des biens et des idées, le mot eut tôt fait de se dévaluer. Ainsi crut-on démonétiser l'idée et exorciser cet inquiétant horizon de la modernité. Peine perdue. Dou­blement. D'une part, la réalité est têtue. Et Dostoïevski au retour de la maison des morts, Tchékhov visitant le bagne de Sakhaline, Soljénitsyne et Chalamov rescapés du goulag s'en­tendent à rappeler l'inhumanité de notre humanité. Par ailleurs, la littérature russe est obstinée et n'a de cesse qu'elle n'examine, tourne, retourne l'unique objet de sa méditation, une barbarie qu'elle a toujours refusé, depuis Pouchkine, d’ensevelir dans les lointains antérieurs des sociétés dites primitives ou des caractères taxés incultes. Et Dostoïevski d’insister: «D’où sont sortis les nihilistes ? mais de nulle part, ils ont toujours été avec nous, en nous, à nos côtés».

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan [4. Le cogito du nihiliste]  p. 125-126

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

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10.11.15

 

 

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Que répliquer à l'hégélianisme spontané qui gouverne la une des journaux ? Comment ne pas concéder que l'histoire du monde juge tout le monde et emporte tout un chacun (Weltgeschichte ist Weltgericht)? Ma réponse est brutale, je te l'expédie sous forme d'une injonction pragmatique et sai­gnante : redevenons classiques. Pas naïvement classiques, bien sûr. Casse-cou jusqu'au bout, je n'aurai de cesse avant que tu m'entendes: revenons à Racine. Oui, résiste à l'incoer­cible désir de normalité qui pousse à s'immerger dans ce qui semble le cours des choses. Oui, prête au journal télévisé l'attention détachée, mais imprescriptible, que suscite une représentation d'Athalie ou d'Andromaque. Sur la scène, à l'écran, l'éclair du définitif risque à tout moment d'accrocher ton regard. Accrocher à quoi? La question est bonne. Garde la tête hors de l'eau, redeviens « classique », et tu ne seras jamais l'homme d'une seule époque.

 

Le classique habite deux patries, la sienne et une autre. La Florence des Médicis et la Grèce, la Rome du quintocento et celle d'Auguste. Le Siècle d'or espagnol, l'Angleterre d' Élisabeth, la France du Roi-Soleil, au choix, mais jamais sans son ombre glorieuse et antique. Les classiques cultivent le sentiment paradoxal mais banal d'une plongée dans l'histoire qui les élève et les enlève hors histoire. Ils s'autorisent de l'expérience immobilisée du temps qui passe. Ces esprits à double nationalité recherchent le temps perdu plus frénétiquement que l'existence de Dieu, quitte à reconnaître, avec Proust que, perdu pour perdu, le temps est cette recherche même, dont on ne sort que mort. Il n'y a pas de train pour Cythère, mon ami. Afin de vaincre l'angoisse des quais de gare, grignote une madeleine.

 

 

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d'Allemagne et de France

© Éditions Robert Laffont, S. A., Paris, 1997

 

 

 

 

 

 

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27.9.15

 

 

 

 

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 Cristina de Carvalho Futscher Pereira

17 de Abril 1948 - 27 de Setembro 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ramo de Oiro

 

 

 

Estando eu à minha porta

Com três horas de serão

Vi passar Nossa Senhora

Com um ramo de oiro na mão.

 

 

Eu pedi-lhe uma folhinha

Ela disse-me que não;

Pedi, tornei-lhe a pedir,

Ela deu-me o seu cordão,

 

 

Que me dava sete voltas

À roda do coração.

Sete voltas não são nada

Ó Virgem da Conceição

 

 

Prendei vós esta alma toda

Prendei-ma com vossa mão

Que a metade inda é do mundo

Metade, que a outra não.

 

 

 

Plantai-me esse ramo de oiro

No meio do coração

Ficarei no vosso altar

Como vaso de eleição.

 

 

 

 

Romance popular incluído nos manuscritos garrettianos descobertos pela Cristina em 2004. O poema foi lido no seu funeral e editado numa pagela oferecida aos amigos.

 

 

 

Veja também os posts:

 

 

Efeméride

 

 

LFCL (desde 1952)

 

 

Carta a Garrett

 

 

Fado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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25.7.15

 

fotografias de João D' Korth

 

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Le cimetière militaire portugais de Richebourg regroupe les corps de 1.831 soldats tombés notamment lors de la bataille de la Lys. Il demeure le symbole de l’engagement du Portugal dans la Première Guerre mondiale.

 

 

 

 

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Sur près 56.500 hommes mobilisés, le Portugal doit déplorer en 1918 environ 2.100 morts, 5.200 blessés et 7.000 prisonniers.  

 

 

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Apesar da já existência nos E.U.A. de cemitérios militares, na Europa este fenómeno está inevitavelmente ligado à Grande Guerra. Pela primeira vez foi criada legislação para o tratamento dos soldados mortos – projecção e concepção de cemitérios militares. A França foi o primeiro país a fazê-lo, em Dezembro de 1915, sanciona o direito de cada indivíduo a um lugar único de repouso, ultrapassando soluções anteriores em que os soldados eram depostos em valas comuns. [...] Em Portugal, a primeira legislação para tratamento dos mortos de guerra portugueses na frente europeia surge em 1917. Procurou-se regulamentar esta situação com a estruturação de um serviço, futuramente denominado Comissão Portuguesa das Sepulturas de Guerra (CPSG), responsável pela identificação, concentração e inumação dos corpos. Face a uma limitação de recursos, exigiu-se da CPSG um esforço acrescido para concentrar os corpos espalhados pelo território da Flandres em cemitérios militares exclusivamente portugueses, criados para tal com a devida e necessária monumentalidade. Na verdade, durante o conflito, os esforços desta comissão debateram-se com as limitações sanitárias e espaciais impostas pelas autoridades francesas, levando a que os corpos ficassem espalhados por vários cemitérios (em 88 cemitérios da Alemanha, 23 da Bélgica; 2 da Espanha; 141 da França; 1 da Holanda e em 3 cemitérios da Inglaterra)*. Texto integral aqui

 

 

***

 

Monumento de La Couture, do escultor António Teixeira Lopes, inaugurado em 10 de Novembro de 1928.

 

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Nós usamos Soldado desconhecido; os franceses Nom inconnu. Os ingleses encontraram (Kipling encontrou) forma melhor: Known unto God.

 

 

Cemitério WWI 1933

 

 

 

Agradecimentos: Henrique D' Korth Brandão, José Cutileiro,  Chemins de Mémoire en Nord Pas de CalaisMemória Virtual.Defesa.pt,  Operacional , Jornal Público, Momentos de História,

 

 

Fotografias de João D'Korth no Flickr nos álbuns Vintage France e Exposição do Mundo Português

 

 

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14.1.15

 

 

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© Philippe Geluck

 

 

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Allons enfants de la Patrie

 

 

Qual foi a consequência principal da Revolução Francesa? Há meio século, Chu En Lai respondeu que era cedo demais para se saber. Talvez na semana passada a resposta tenha vindo, mesmo que outros sábios chineses objectem (Voltaire nunca teve fãs para as bandas de Pequim).

 

Começando no massacre de quarta-feira de manhã na redacção de Charlie Hebdo por dois jiadistas franceses e acabando na multidão afirmativa – eu sou Charlie, eu sou chui, eu sou judeu – marchando pelas ruas de Paris e de muitas outras cidades francesas no domingo à tarde, passando pelo assassinato de polícias e de quatro judeus, reféns numa loja de comida judia de terceiro jiadista francês, um enorme sobressalto sacudiu a França.

 

Tirou-a do torpor triste, desencantado e quezilento em que há anos a pouco e pouco se afundava (embora os franceses continuassem a fazer mais filhos por casal do que quaisquer outros europeus) recusando adaptar-se às exigências do mundo globalizado e digital. Desde 1995 fora assim: governo anunciava reformas, sindicatos opunham-se; Assembleia Nacional passava leis, povo saía à rua; após curto braço de ferro, o governo desistia. E em pano de fundo, apesar das iniquidades de Vichy, há em França mais judeus e, apesar de descolonização argelina calamitosa, mais árabes, do que em qualquer outro país da Europa – embora com milhares de uns a emigrarem para Israel e milhares dos outros a rumarem à jiad. No domingo à tarde era como se um sopro de liberdade tivesse levantado toda a gente do chão e a houvesse feito levitar.

 

Charlie Hebdo, que imprimira as caricaturas dinamarquesas de Maomé e publicara número “editado pelo Profeta”, vira a redacção incendiada e recebera ameaças (a protecção policial do director morreria com ele). As suas sátiras da extrema direita e dos monoteísmos eram, para muitos, de ferocidade ofensiva e de mau gosto. As vendas vinham a baixar. Mas a brutalidade dirigida da destruição – “Matámos Charlie Hebdo”; “Vingámos o Profeta” gritaram os assassinos – acordou os valores adormecidos da República. No peito de cada francês bateu de novo a liberdade contra os inimigos da revolução de 1789; a liberdade escrita por Éluard em toda a parte – Sur mes cahiers d’écolier Sur mon pupitre et les arbres Sur le sable sur la neige – contra a ocupação nazi de 1940-44.

 

A procissão só vai no adro (Charlie Hebdo troçaria da imagem): mais de 50 pequenos atentados de vizinhança antimuçulmanos foram praticados desde o dia 7 em França; em Dresden a manifestação semanal contra “a islamização da Europa” foi segunda-feira a mais concorrida de todas. Para profilaxia e tratamento da barbárie que tenta instalar-se é preciso mexer em muitas coisas, dos liceus às casernas. Mandar com cabeça fria, coração quente e pulso firme. Por muito tempo.

 

Entretanto, eu sou Charlie. Prefiro ser de um lugar onde cada um possa pensar o que queira e o possa dizer – a ser de um lugar onde seja obrigatório acreditar num Deus. É essa a escolha.

 

 

 

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18.10.14

 

Rita Barros regista desde 1987 a vida no Hotel Chelsea, em Nova Iorque, e vem registando a sua agonia desde que em 2011 o hotel foi vendido, encerrado ao turismo, esventrado por obras e os residentes de longa data se viram confrontados com muitas incertezas pessoais e a morte anunciada da sua casa comum.

 

Negação, zanga, negociação, depressão, aceitação — as etapas do luto são cinco, não necessariamente por esta ordem mas fica a ideia.

 

Embora centrada no trabalho de Rita Barros no Chelsea, a exposição comissariada por Jorge Calado dá a ver todo o universo da artista, dos seus primeiros trabalhos a preto e branco às suas imagens mais emblemáticas [o sapato e a chávena de café da série Presença na Ausência] e incluídos estão também outros temas [11 de Setembro] e uma bonita colecção dos seus photobooks artesanais. 

 

Nesta exposição um engenhoso biombo vermelho separa o antes do depois: à entrada somos naturalmente conduzidos para o Chelsea e os seus habitantes nos bons tempos [reunidos no livro Chelsea Hotel Fifteen Years] e para três auto-retratos de Rita Barros no seu apartamento, cuidadosamente encenados, coloridos, solares.

 

À saída, após as imagens fúnebres e irónicas [de Displacement] e uma deambulação melancólica pelos belíssimos interiores do Chelsea despovoado e semi destruído [a série mais recente] encerram o percurso, nas costas do biombo, duas imagens intimistas que convido o Leitor a descobrir . 

 

 

 

 

 Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia /UNLCampus da Caparica 

 

 

 

 

Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia /UNL

 

Campus da Caparica

 

2ª a 6ª feira | 09:00h - 20:00h

 

Sábados | 18 e 25 de Outubro, 15 Novembro | 15h - 18h

 

Imagem aqui

 

 

 

 

 

 

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23.7.14

 

 

 

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 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(Dmitry Lovetsky/Associated Press)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

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6.6.14

 

 

  1942-2014

 

 

 

Agora que a poeira começa a assentar sobre o desaparecimento de Vasco Graça Moura, sobre tudo o que se tem dito e escrito acerca desta personalidade, há duas ou três coisas que apetece remoer.

 

Ao amplo e merecido consenso público que em volta desta figura maior da cultura portuguesa se suscitou, num primeiro momento justificado pela óbvia proximidade da sua morte, sucederam-se as declarações, os artigos, as crónicas, os comentários de louvor póstumo. E foi aí que começaram a aparecer as frases condicionais e as conjunções adversativas. Os ses e os mas.

 

Um sortido rico de colunistas encartados tratou de vir a terreiro tirar o chapéu, que decerto não usa, e curvar-se em vénias de amplitude igualmente variada.

 

Mas, porém, contudo, todavia, no entanto, não obstante.

 

Uma grande figura apesar de não ser de esquerda. Incompreensível.

 

E essa incompreensão é já uma reticência, uma sombra, uma prevenção. Uma nódoa na iminência de alastrar.

 

Pior do que isso, alguns vieram ensinar às crianças e ao povo que o homem foi realmente uma grande figura, muito embora dado ao exagero. Veja-se o que defendeu em política. Veja-se esta coisa do acordo ortográfico. Fúria demasiado grande e sonorosa para assunto tão pouco merecedor. Se era razão para tanto empolamento. Uma vocação de cavaleiro andante perdida em damas de pouca categoria. Mas, claro, isso não tira que foi uma figura importante, então não, poeta e etecetera.

 

Irra!

 

A menorização deliberada da intervenção pública de VGM, quer na vertente da acção política, quer sobretudo na oposição ao acordo ortográfico, é um mau serviço prestado à memória do escritor.

 

Mau serviço porque em ambos os casos, VGM colocou empenhamento e seriedade no que apoiou e no que contrariou. E essas suas posições, ainda que por vezes conjunturais, esses seus combates, são parte inalienável do seu legado intelectual.

 

A desvalorização da questão do acordo ortográfico como questiúncula irrelevante, como caturrice contrária aos ventos da História e do Progresso, e até como toleima, é um «branqueamento» da sua natureza eminentemente política, e não linguística, e significa o triunfo — mais um — do novo-riquismo nonchalant, que se crê muito moderno e se supõe terrivelmente sofisticado.

 

Como queria, e cria, o escritor, jornalista e panfletário austríaco, Karl Kraus, talvez seja mesmo verdade que a decadência dos povos se evidencie em primeiro lugar no descaso da língua: nos seus usos, abusos e desusos. João de Araújo Correia, escritor menos obscuro do que muitos que por aí se pavoneiam, escreveu: «Sim, o povo é que faz as línguas. Mas quem as desfaz é a canalha». E, por isso, a resistência, porventura vã, de Vasco Graça Moura ganha um significado maior, político e cultural. Resistência, cuja derradeira linha de defesa é a sua própria obra poética, romanesca e ensaística que brota de amor ciente e paciente por esta tão desconsiderada língua — «no teu próprio país te contaminas/ e é dele essa miséria que te roça./ mas com o que te resta me iluminas».

 

 

Jorge Colaço

 

 

 

 

Nota:

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Conteúdos em Português e Retentiva. Sinto-me honrada e feliz pelo facto de ter escolhido publicar este texto aqui.

 

 

 

 

 

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10.5.14

 

 

 Julian Barnes

 

 

First Nietzsche, then Nadar. God is dead, and no longer there to see us. So we must see us. And Nadar gave us the distance, the height, to do so. He gave us Gods distance, the Gods-eye view. And where it ended (for the moment) was with Earthrise and those photographs taken from lunar orbit, in which our planet looks more or less like any other planet (except to an astronomer): silent, revolving, beautiful, dead, irrelevant. Which may have been how God saw us, and why He absented himself. Of course I don't believe in the Absenting God, but such a story makes a nice pattern.

 

When we killed — or exiled — God, we also killed ourselves. Did we notice that sufficiently at the time? No God, no afterlife, no us. We were right to kill Him, of course, this long-standing imaginary friend of ours. And we weren't going to get an afterlife anyway. But we sawed off the branch we were sitting on. And the view from there, from that height — even if it was only the illusion of a view wasn't so bad.

 

We have lost God's height, and gained Nadar's; but we have also lost depth. Once, a long time ago, we could go down into the Underworld, where the dead still lived. Now, that metaphor is lost to us, and we can only go down literally: potholing, drilling for minerals, and so on. Instead of the Underworld, the Underground. Some of us will go down into the earth at the end of it all. Not very far, just six feet down; except that the scale of depth is lost as you stand there and throw flowers down on to a coffin lid, whose brass nameplate winks back at you. Then, it looks and feels a long way down, six feet.

 

 

Julian Barnes

in Levels of Life

Jonathan Cape 2013

© Julian Barnes

 

*

 

 

 

Primeiro Nietzsche, depois Nadar. Deus morreu e já não está lá a ver-nos. Por isso temos nós de nos ver. E Nadar deu-nos a distância, a altitude para o fazermos. Deu-nos a distância de Deus, a visão do olhar de Deus. E onde chegou (até agora) foi ao Nascer da Terra e àque­las fotografias tiradas da órbita lunar, nas quais o nosso planeta parece praticamente igual a outro planeta qual­quer (exceto para um astrónomo): silencioso, rotativo, lindo, morto, irrelevante. Que pode ter sido como Deus nos viu e a razão pela qual se ausentou. E claro que não acredito no Deus Ausente, mas uma história assim é um belo paradigma.

 

Quando matámos (ou exilámos) Deus, matámo-nos também. Demos realmente por isso, na altura? Nem Deus, nem vida depois da morte, nem nós. Fizemos bem em matá-lo, é claro, ao nosso amigo imaginário de longa data. Também não íamos ter vida nenhuma depois da morte. Mas serrámos o ramo onde estávamos sentados. E a vista de lá, daquela altura — ainda que fosse uma vis­ta ilusória — não era assim tão má.

 

Perdemos a altitude de Deus e ganhámos a de Na­dar; mas também perdemos profundidade. Outrora, há muito tempo, podíamos descer ao Submundo, onde os mortos continuavam a viver. Hoje, para nós, essa metá­fora perdeu-se e só podemos descer literalmente: espe­leologia, extração de minério e assim por diante. Em vez do Submundo, o Metropolitano. Alguns de nós des­cem à terra, quando tudo acaba. Não é muito, só um me­tro e tal; mas a escala de profundidade perde-se, quando estamos ali de pé a atirar flores lá para baixo, para a tampa de um caixão, e o nome na placa de latão nos res­ponde com um piscar de olho. Então parece-nos e senti­mos que é muito fundo, um metro e tal.

 

 

Julian Barnes

in Os Níveis da Vida

© 2013 Quetzal Editores/ Julian Barnes

 

tradução de Helena Cardoso

 

 

 

 

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27.4.14

 

 

variação

 

                                                                            obscurent eum tenebrae et umbra mortis;

                                                                            occupet eum caligo,

                                                                            et involvatur amaritudine.

 

                                                                                                                       Job, I, 5

 

 

um verso envolto de amargura, "eclipse

nesse passo o sol padeça".

nas suas aliterações surdamente torturadas,

na sua imprecação contra o destino: à voz

 

 

das desventuras já pouco tempo resta no

ofício das trevas ciciado.

obscuramente a morte está na alma

do mundo. cinzas, cinzas

 

 

para a inquietação da vida, para o pardo avesso do tempo

medido a velas de cera, cinzas para a desolação,

silêncio para os silêncios. a terra erma

 

 

e dissonante, lá, onde a luz cala e a memória

se apaga, fulgor negro, adversidade, eclipse

nesse passo o sol padeça.

 

 

 

Vasco Graça Moura

in laocoonte

Poesia 2001-2005

Quetzal Editores/Bertrand Editora Lda, 2006

 

 

 

 

 

 

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18.10.13

 

Quarta Semana:

 

Esta semana chegou finalmente a oportunidade de assistir a um discurso do presidente. Full treatment.

Presidente feliz com lágrimas, de acordo com o Público. De 2a a 5a decorrreu na “Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação” a primeira audiência pública sobre a guerra civil de 75 em que andaram todos a matar-se uns aos outros. Para quem não leu o Adelino Gomes, já várias vezes tinha sido marcada e outras tantas adiada. É um assunto do mais sensível já que muitos responsáveis políticos de hoje (tanto governo como oposição) foram responsáveis por grandes matanças na época. Desta vez fez-se mesmo. Era aguardado com enorme expectativa e durante as sessões Dili andou colada aos rádios para ouvir os depoimentos; os motoristas aqui do PNUD não saíam dos carros o dia inteiro, sintonizados na Rádio Timor-Leste, e quando saíam era para se juntarem em volta dum transistor. 

 

Note-se bem que isto na altura era Portugal. As nossas maravilhosas RTP, RDP e Lusa têm correspondentes em Dili. Adivinha quantos jornalistas portugueses estavam nas audiências? Quantos passaram por lá, nem que seja 5 minutos? Resposta – Um. Quem? Adelino Gomes que veio de propósito de Lisboa (no voo mais barato que encontrou e pagando do bolso dele as despesas em Dili...). Timor não é notícia. Como não estão a matar ninguém, não interessa para nada. Foram mortos uns milhares em 75 e nunca se falou disso? As feridas são fundas e a gente também teve responsabilidade. Mas o que é que isso interessa agora? Os jornalistas portugueses em Dili foram para a praia.

 

 

 

 

Aconselho vivamente a leitura dos artigos do Adelino Gomes, não posso acrescentar nada. Resta-me a minha própria comoção ao ver toda a gente a chorar com o discurso do Xanana (a começar pelo próprio, voz quebrada, olhos e nariz vermelhos, assoando-se, limpando a cara com o lenço, no meio das suas longas pausas habituais, desta vez mais longas ainda). Nem as moscas (abundantes) se ouviam.

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Foto de Pedro Martins

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui 

 

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27.7.13


Le ciel ne voyage pas, mais les pensées parcourent des distances incroyables. Riches en vaticinatons, elles se servent des visions ailées qui ne se posent que de rares fois.

Il arrive qu'elles stagnent dans les cerveaux humains. Quand elles s'élaborent dans la matière grise, l'enceinte où elles gravitent se dessèche et les empêche de se projeter dans le rêve. Alors les pensées ne libèrent pas leurs facultés créatrices; elles restent inanimées et privées de magie. En revanche, le vol que produit le rêve ne sait pas ce que veut dire la mort.

 

Silvia Baron Supervielle

in Lettres à des photographies (Lettre 74)

© Éditions Gallimard, 2013




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27.3.13

 

 

 

Another Happy Day#1

© Rita Barros, até 15 de Abril 2013 em Lisboa* 

 

 

Displacement 2 é o diário de um luto. Em 2011 o Chelsea Hotel em Nova Iorque, catedral da cena underground dos anos 60, e onde Rita Barros vive desde 1984, foi vendido e fechado ao público. O edifício está em obras. Os residentes de longo prazo estão a ser alvo de acções de despejo e assistem impotentes ao desmoronamento gradual do seu quadro de vida, um quadro de boémia artística e de relacionamentos privilegiados porventura condenado à extinção nos tempos que vivemos hoje. A globalização tornou as grandes metrópoles mais parecidas umas com as outras e cidades como Nova Iorque e Londres tornaram-se muito caras. Deixou de haver lugar para a improvisação. Displacement 2 poderia chamar-se The Party is Over. Nunca mais o Chelsea Hotel  será a casa que Rita Barros retratou em 1999, no livro Quinze Anos: Chelsea Hotel.

 

Desde 2011 Rita Barros regista a "remodelação" do Chelsea e com ela a dissolução de todo o seu universo mais íntimo, através de pequenas acções dramatúrgicas que ela própria concebeu e interpreta, fiel ao espírito de liberdade artística e irreverência que presidiu ao mítico hotel. Nesta segunda série de fotografias, iniciada no verão de 2012, os tijolos do jardim do telhado, entretanto destruído, adquirem o estatuto metafórico da representação dos sólidos alicerces da casa então construída e agora transformados em desperdício, mas transformados também em arma de arremesso contra a dor da perda, pessoal e colectiva. 

 

 

 

 

*Até 30 de Abril 2013 
Loja da Atalaia 
Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Loja 1, Cais da Pedra a S. Apolónia

1950 -­‐ 376 Lisboa

 

 

 

Notas:

 

Post adaptado de texto de António Calpi, na íntegra aqui

 

Uma fotografia do livro Quinze Anos: Chelsea Hotel neste blog aqui 

 

Entrevistas de Rita Barros aqui e aqui

 

in English here

 

 

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26.1.12

 

 

 
 

António Júdice Bustorff Silva (de pé), Lisboa c. 1950

 

 

 

 

Obituário de The Times,  3 de Janeiro de 1980:

 

The distinguished lawyer, Dr Antonio Judice Bustorff Silva, who died in Lisbon on Dec­ember 17, aged 84, will be affec­tionately remembered by many of the older generation of British entrepreneurs in Portu­gal.

 

He was at one time or another chairman, director or legal adviser of many important British enterprises, including the Tramways of Lisbon and the Telephones of Lisbon and Oporto, both of which until a few years ago were operated by British Concessionary Com­panies.

 

Born in 1895 on the island of Sao Tome, where his father had big plantations, Dr Bustorff, as he was always known, took his law degree at Coimbra Uni­versity. His youth was spent in the turbulent times of the end of the monarchy and the birth of the First Republic. He was an ardent monarchist, and it must have been with a sense of relief that he saw the Generals take over in 1926, after a suc­cession of more than 40 Repub­lican Governments in 16 years.

 

Bustorff was the legal repre­sentative of the Royal Family, and when the Generals called in Dr Salazar (himself a crypto-monarchist) it was in dealing with the affairs of the Royal Family that the friendship and confidence between the two men began and later became of such value to his clients, Portu­guese or foreign.

 

Bustorff was a steadfast admirer of Salazar and his general policies, but he was never a toady and his advice to the Prime Minister, on behalf of his clients, was invariably what he thought to be compat­ible with the interests of the client and of the Portuguese State.

 

One of the most important services rendered by Bustorff to his own country and to the Allied cause during the Second World War concerned the ex­ploitation of uranium. The Portuguese Government was approached by Britain, and Salazar decided that Bustorff would represent the Portuguese Government in the company which was to carry out the work.

 

He was also legal adviser to the British-owned Panasqueira Mines, the largest source of wolfram available to the West and a constant source of dispute between the economic warriors of each side. After the war Bustorff was made honorary CBE, a decoration of which he was immensely proud.

 

A man of enormous energy Bustorff frequently represented Portugal at international con­ferences. He had great devotion to his Church and a true sense of humour. His Germanic name is from a Swiss ancestor who came to Portugal in the 17th century to escape the persecu­tion of Roman Catholics.

 

He spoke several languages fluently but, in his bubbling enthusiasm, not always cor­rectly. «Come and see my Charolais veals», he would say to an English guest at his estate near Setubal, «they are beau­ties". He entertained lavishly and the food and wines were always Portuguese and usually produced by him.

 

The passion of his leisure time was building, especially restoring old houses. He built or restored one for each of his five children and for each pair of his 24 grandchildren.

 

When the Second Republic came in 1974 Bustorff was already virtually retired, but he was summoned to Brazil, where more legal work awaited him and he went in 1975, aged 80. He suffered a stroke there and was brought home. Lucid and able to speak, he struggled bravely for two years, as presi­dent of the Bragança Founda­tion and supervising proper­ties which had not been seques­trated.

 

It can be postulated that the «Blue Monkey» Marques de Soveral, of Edward Vll's time, and Bustorff Silva, were the most steadfast and most influ­ential Portuguese friends of Britain in the 20th century.

 

 

 

Sir Peter Norton-Griffiths

in "The Times"  3 January 1980

 

 

Notas:

 

 

António Júdice Bustorff Silva formou-se em Direito em Lisboa e não em Coimbra como afirma o autor do artigo.

 

 

Foto e perfil do Marquês de Soveral aqui 

 

 

 

 

 

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20.10.11

 

 

I like to hole up in hotel suites. I like to turn off the lights and crank the AC. I like temperature-controlled and contained environments. I like to sit in the dark and let my mind race. I was set to meet Bill Stoner the next morning. I ordered a room-service dinner and a big pot of coffee. I turned out the lights and let the redhead take me places.


I knew things about us. I sensed other things. Her death corrupted my imagination and gave me exploitable gifts. She taught me self-sufficiency by negative example. I possessed a self-preserving streak at the height of my self-destruction. My mother gave me the gift and the curse of obsession. It began as curiosity in lieu of childish grief. It flourished as a quest for dark knowledge and mutated into a horrible thirst for sexual and mental stimulation. Obsessive drives almost killed me. A rage to turn my obsessions into something good and useful saved me. I outlived the curse. The gift assumed its final form in language.

 

 

James Ellroy

in My Dark Places, An L.A. Crime Memoir  p.206

© 1996 James Ellroy

 

 

 

 

 

 

Leia este excerto em português no

blog Traduçõesaqui

 

 


27.9.11

 

 

Ma sœur la vie, ma sœur mon amie. Sœur à jamais jeune et enjouée, sœur lunatique, amie fougueuse, imprévisible, tantôt prodigue, tantôt avare. Sœur frondeuse, amie fugueuse. Mais la mort, elle, comment la qualifier? Quelle sœur est-ce là, quelle amie effarante ?

Elle n'a pas d’âge, celle-là, et aucune saute d'humeur; elle n’est ni avare ni prodigue, et jamais elle ne fugue, Elle marche dans les pas de la vie, depuis le tout premier. Pas à pas, avec grande minutie, et une totale discrétion. Et un jour, à un instant donné que nul ne peut prévoir, elle accomplit un brusque saut, elle prend la place de proue — elle prend toute la place. Le rapt qu'elle commet est radical, irrévocable. Irréparable.


 

 

Sylvie Germain

in Le monde sans vous  p. 31

© Éditions Albin Michel, 2011



11.9.11

  

Depuis des temps immémoriaux, l’homme distingue peur et angoisse: «En présence de ce qui est hostile on a peur, en présence des ténèbres on éprouve l’angoisse» (Hermann Broch). La peur est distincte, définie, provoquée par une chose précise, elle blesse un intérêt non moins précis : je crains la foudre, un microbe, une taloche, le grand méchant loup. Et je crains pour... ma vie, mon portefeuille, ma réputation. L’angoisse, en revanche, touche à tout. Elle taraude mon rapport au monde en général. Elle fait vaciller projets et repères. Elle trouble l’image des autres et de moi-même. Experts, politiques et psychologues ont beau s’évertuer à combattre les craintes croissantes par des précautions multiples et souvent vaines, ils peinent à contenir une impalpable angoisse. Quel démenti apporter au sentiment diffus de n'être plus sûr de rien ? Quelle garantie faire valoir à une humanité qui se découvre, se redécouvre soudain sans garantie? Même si les criminels ou leurs complices sont arrêtés et leurs réseaux éradiqués, ils suscitent des concurrents, des adeptes et des admirateurs, pas seulement des indignés. Une page est tournée. Nous vivrons et nos enfants survivront dans une histoire où l’explosion des tours redessine la carte de géographie et trace l'horizon indépassable d’un crépuscule terroriste de l’humanité. Le 11 septembre 2001 aura toujours lieu. C'est à l’échelle de son horreur médiatique et planétaire qu'il faut apprendre à mesurer nos émotions et nos décisions.

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan  p. 15-16

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

O artigo de André Glucksmann "Ben Laden est mort, mais la haine survit", publicado esta semana no Le Monde, aqui 

 

 

Outro excerto do livro, neste blog, aqui 

 

 

 


  In Remembrance of 9/11

Elizabeth Blackwell Elementary aqui

 

 

 

 

 

 


5.9.11

 

 

Mais tout vivant basculant dans l’inconnu de la mort ne devient-il pas un enfant ? Non pas qu'il le devienne, la mort n'est pas un retour à un état antérieur, mais, comme le nouveau-né passe d'un monde clos à un espace immensément ouvert, le nouveau-mort passe d'un monde limité, aussi vaste et intense soit-il, à un infini ; il y a expulsion hors d'une intimité vers un inconnu radical. Et l'un et l'autre sont hors langage, infans, privés de parole.

Le nouveau-né, encore si démuni, on peut le prendre dans ses bras, on le lave, le nourrit, on le berce, on lui parle doucement, on le caresse; on l’accueille en notre monde qui d'emblée se fait sien, on reçoit un nouveau vivant parmi nous, les vivants de tous âges. Il est notre contemporain, minuscule et porteur de mille possibles. Il est une promesse, une histoire inédite qui surgit, dont on ignore encore tout et qui d'entrée de jeu éveille notre intérêt, et engage aussi notre responsabilité.

Le nouveau-mort, lui, se trouve d'un coup et absolument démuni. Sitôt inhumé ou incinéré, son corps nous échappe à jamais. Et le lien de contemporanéité se brise irrévocablement. Son histoire est parachevée, plus une virgule, plus un iota ne pourront y être ajoutés ou retranchés. Un vivant s'en va, et on ne sait pas où.

Nulle part, quelque part ? Va-t-il se dissoudre dans le néant ou s'aventure-t-il en un ailleurs insoupçonné ? Est-il voué à revenir sur cette terre au terme d'un jugement karmique ? Certains ont un avis tranché sur ces questions, les athées et les croyants déclarés, et parmi ces derniers, la représentation de l’Ailleurs où vont les défunts varie selon la religion où leur foi s'enracine. Beaucoup ont un avis flottant et une imagination fantasque - qui n'en est pas moins bien piètre souvent, et finalement fort peu imaginative.

 

Plus de présence physique, plus de paroles, plus de partage, et une mise à l’arrêt du savoir. Comment le souci pour les nouveau-morts peut-il dans ces conditions se traduire en actes, se manifester en soins à leur intention ?

 

 

Sylvie Germain

in Le monde sans vous  p.125-126

© Éditions Albin Michel, 2011

 

 

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17.8.11

 

 

Le premier homme qui a vu la première photo (si l'on excepte Niépce, qui l’avait faite) a dû croire que c'était une peinture : même cadre, même perspective. La Photographie a été, est encore tourmentée par le fantôme de la Peinture (Mapplethorpe représente une branche d’iris comme aurait pu le faire un peintre oriental); elle en a fait, à travers ses copies et ses contestations, la Référence absolue, paternelle, comme si elle était née du Tableau (c'est vrai, techniquement, mais seulement en partie : car la camera obscura des peintres n'est que l’une des causes de la Photographie; l'essentiel, peut-être, fut la découverte chimique). Rien ne distingue, eidétiquement, à ce point de ma recherche, une photographie, si réaliste soit-elle, d’une peinture. Le « pictorialisme » n'est qu'une exagération de ce que la Photo pense d'elle-même.

Ce n'est pourtant pas (me semble-t-il) par la Peinture que la Photographie touche a l’art, c'est par le Théâtre. A l'origine de la Photo, on place toujours Niépce et Daguerre (même si le second a quelque peu usurpé la place du premier): or Daguerre. lorsqu'il s'est emparé de l’invention de Niépce, exploitait place du Château (à la République) un théâtre de panoramas animés par des mouvements et des jeux de lumière. La camera obscura en somme, a donné à la fois le tableau perspectif, la Photographie et le Diorama, qui sont tous les trois des arts de la scène ; mais si la Photo me paraît plus proche du Théâtre, c'est à travers un relais singulier (peut-être suis-je le seul à le voir) : la Mort. On connaît le rapport originel du théâtre et du culte des Morts : les premiers acteurs se détachaient de la communauté en jouant le rôle des Morts : se grimer, c'était se désigner comme un corps à la fois vivant et mort: buste blanchi du théâtre totémique, homme au visage peint du théâtre chinois, maquillage à base de pâte de riz du Katha Kali indien, masque du Nô japonais. Or c'est ce même rapport que je trouve dans la Photo : si vivante qu'on s'efforce de la concevoir (et cette rage à « faire vivant » ne peut être que la dénégation mythique d'un malaise de mort), la Photo est comme un théâtre primitif, comme un Tableau Vivant, la figuration de la face immobile et fardée sous laquelle nous voyons les morts.

 

 

Roland Barthes

in La chambre claire – Note sur la photographie (13)

Cahiers du Cinéma-Gallimard-Seuil

© Éditions de l’Étoile, Gallimard, le Seuil, 1980

 

 

 

Imagem: Chambre de la découverte © musée Nicéphore Niépce aqui

outro excerto da mesma obra aqui

 

 

 


6.8.11


Encore aujourd'hui, toute une vie plus tard, il suffit d'un instant de rêverie éveillée, n'importe où, n'importe quand, ou d'un instant de distraction délibérée afin de m'évader d'une conversation oiseuse, d'un récit mal fagoté, d'un spectacle médiocre, pour que brusquement, sans rapport apparent avec les préoccupations ou les désirs circonstanciels, se déploie dans ma mémoire un envol d'éclatante blancheur d'images au ralenti. Ailes de mouette, à l'aube, derrière les baies vitrées d'une chambre d'hôtel, en Bretagne ? Focs des voiliers sous la lumière d'étain de la baie de Formentor ? Brouillards laiteux, effilochés par les vents tournoyant dans le détroit d'Eggemogging ?


Il m'arrive de ne pas identifier ces images. Je reste alors au seuil de leur lisibilité, remué par une émotion indéfinissable : quelque chose de fort et de vrai demeure caché, m'échappe et se dérobe. Quelque chose se défait, sitôt surgi, comme un désir inassouvi. Mais il arrive aussi qu'elles se précisent, qu'elles cessent d'être floues, de me flouer.


Je reconnais le long couloir de l'appartement de la rue Alfonso-XI, à Madrid, résonnant du bruit de nos courses, des portes ouvertes à la volée. Je reconnais dans la pénombre d'un soir de la fin de l'été les meubles précieux recouverts de housses blanches. Et c'est alors que réapparaissent, liés au souvenir enfantin, étrangement gouvernés par lui, tous les autres : un envol de pigeons, place de la Cybèle ; les mouettes de Bretagne ; les voiles de Formentor ; les brouillards de Little Deer Isle. Et le souvenir d'Odile, voltigeant à travers un salon parisien, arrachant joyeusement les linceuls éclatants des fauteuils et des canapés, les transformant en oriflammes du plaisir annoncé, tout en chantant à tue-tête l'air du toréador de Bizet.


Au « Petit Schubert », boulevard du Montparnasse, quelques jours après mon arrivée à Paris, j'avais eu Odile M. dans mes bras. Je me suis demandé si quelqu'un n'allait pas subitement surgir pour me l'enlever. À Eisenach, dans le vieil hôtel où les Américains avaient installé un centre de rapatriement, l'officier français des commandos m'avait enlevé Martine. Mais au « Petit Schubert » le temps a passé, il ne se passait rien. Rien d'autre que la lumière allumée dans les yeux d'Odile, la présence accrue de son corps. Elle était toujours dans mes bras. Elle ne semblait appartenir à personne. Personne ne semblait avoir sur cette jeune femme droit de préemption ou de cuissage. Elle allait être à moi.


Les jours ont passé, les semaines: elle était à moi. Mais sans doute faut-il renverser ce rapport d'appartenance. C'est moi qui lui appartenais, plutôt, puisqu'elle était la vie et que je voulais appartenir à la vie, pleinement. Elle a réinventé pour moi, avec moi, les gestes de la vie. Elle a réinventé mon corps, un usage de mon corps, du moins, qui n'était plus strictement celui d'une économie de survivance, qui était celui du don, du gaspillage amoureux.


Pourtant, malgré elle, malgré moi, malgré l'exubérance de cet été du retour, la mémoire de la mort, son ombre sournoise, me rattrapait parfois. Au milieu de la nuit, de préférence.

 

Jorge Semprún

in  L’Écriture ou la Vie    p.200-201

© Éditions Gallimard 1994

 

Para Isabel Feijó (4 Janeiro 1959 - 5 de Agosto 2011) 

 



22.4.11

 

 

«Je vous appelle amis»: cette sublime amitié passe par le creuset de l’angoisse, comme le Christ lui-même s'y est soumis à Gethsémani. « II commença à ressentir tristesse et angoisse. Alors il leur dit: "Mon âme est triste à en mourir, demeurez ici et veillez avec moi." Etant allé un peu plus loin, il tomba face contre terre en faisant cette prière: "Mon Père, s'il est possible, que cette coupe passe loin de moi! Cependant, non pas comme je veux, mais comme tu veux." Il vient vers ses disciples et les trouve en train de dormir » (Mt 26,38-40). « Entré en agonie, il priait de façon plus instante, et sa sueur devint de grosses gouttes de sang qui tombaient à terre » (Lc 22,44).


C'est ce «je» là, follement désapproprié de lui-même et en même temps intensément présent à l’heure, tant redoutée, vers laquelle toute sa vie a tendu, qui parle d'amitié. Un «je» dépouillé à l'extrême pour mieux assumer la mission dont il a accepté la charge. Un «je» qui pense et veut en dehors de lui-même, aux confins de lui-même, au plus profond de soi.


Un «je» absolument incarné, fait de chair et de nerfs et de sang, et dont tout le corps se révulse à l’approche du supplice, s'épouvante et se révolte devant la mort. Un «je» fou d'amour pour les siens, pour son Père, pour la vie, mais qui ne se dérobe pas à la mort.

 

«Je vous appelle amis»: une telle amitié ne s'accommode ni de puérilité et de sentimentalité, ni de crainte servile et d'habile prudence; elle les rejette, elle vomit toute tiédeur, comme l'a puissamment exprimé Péguy : «Si on n'était pas abruti, mon enfant, si vous n'étiez pas abrutis, ankylosés par des générations entières de catéchisme, d'habitude catéchistique, mon enfant, qui ne serait saisi, qui ne serait épouvanté de ces lignes [du récit du Mont des Oliviers], de ces lignes atroces, de ces paroles effrayantes, de cette effrayante prière. [...] Si nous prenions les textes sacrés comme il faut prendre tous les grands textes, et comme nous ne les prenons pas, si nous prenions les textes sacrés comme il faut prendre (aussi) les textes classiques, dans leur plein, dans leur large, dans toute leur crudité, dans tout ce qu'ils ont saisi, dans tout ce qu'ils rapportent de la réalité même, si nous ne laissions pas, si nous n'admettions pas qu'il y ait entre eux et nous l'interception de l'habitude, nous serions, mon ami, nous serions épouvantés de ce texte.»(1)


L'appellation ici en jeu n'est pas qu'une dénomination, elle est aussi une convocation, un appel, une apostrophe. Le maître se tient à hauteur de ses disciples dont il vient de laver les pieds ; Dieu se tient à hauteur d'homme pour lequel il va se livrer. « C'était un homme qui parlait à des hommes,  martèle Péguy. Ce n'était point un enseignement, ex cathedra. Ce n'était point même un enseignement de Dieu de la chaire du ciel. C'était une communion, une révélation d'homme à homme, d'un pauvre être à un pauvre être. » (2)


Et il appelle l'homme - son ami, son frère, son fils, son héritier - à se hisser à cette hauteur nouvelle, mouvante, si fragile ; à s'y agenouiller, en fait, puisque cette hauteur s'inverse et s'évase en abîme. Etrange hauteur qui s'effondre sous le poids de l'angoisse, jusqu'à tomber « face contre terre », et qui, dans sa détresse, en appelle à la présence, au réconfort de ses amis. Mais ils dorment, épuisés. Ils ne sont pas encore prêts à assumer «dans son plein, dans son large, dans toute sa crudité» la vocation d'amis qui vient de leur être donnée.

 

 

Sylvie Germain

in  Quatre actes de présence   p.96-98

© Desclée de Brouwer, 2011

 

Notas:

1. C. Péguy, Gethsémani, Desclée de Brouwer, 1995, p.34-35 et 57-58, coll. «Les Carnets».

2 :Ibid.,p.47

 

 

 

aqui

 

 

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18.4.11

 

Foto: Gustave Le Gray (França,1856) 

aqui

 

 

Au lever du soleil, dans un autre cimetière, celui du Montparnasse à Paris, un curieux paroissien parcourait jadis les allées désertes, c'était un Suédois qui avait répudié le théâtre pour les sciences surnaturelles. A l'imitation des prospecteurs d'or du Tanganyka, il s'était mis à chasser les âmes. Il prétendait capter le fluide des corps dématérialisés dont les émanations purement chimiques devaient sans nul doute être rejetées à l'aube par les fleurs des couronnes, par les tilleuls et les cyprès. On aurait pu le voir qui brandissait une fiole d'acétate de plomb liquide, en train de courir parmi les chapelles et les tombeaux vers la fin de l'avant-dernier siècle (1).

L'étranger ne rapportera dans son pays aucune preuve, aucun trophée. Il consacrera le plus clair de son temps à photographier ensuite la forme des nuages, à la façon de ceux qui utilisaient la photographie en guise d'instrument de divination pour capturer l'invisible.

Des médecins, physiologistes et neurologues, voulurent enregistrer avec l'apparence des humains l'aura de leurs passions et de leurs pulsions. L'un d'entre eux qui pensait que l'on pourrait, scientifiquement, réveiller les morts, avait bien conçu, et tout aussi sérieusement, l’«optogramme». C'était l'instrument irrécusable, estimait-il vers la même époque, pour confondre les criminels. En analysant de très près la photographie de la rétine des victimes de mort violente, ne devait-on pas parvenir à restituer la dernière image qui s'y était imprimée, l'instant fatal ?

Des écrivains très sérieux, des auteurs de romans policiers, des poètes imaginèrent sans s'être concertés que l'on pourrait stocker les ondes du passé, les ondes sonores comme les ondes visuelles. Grâce à ces ondes, on effectuerait des prélèvements de durée, on conserverait des reliques de présent.  Bientôt viendrait le temps où l'on allait pouvoir assister, par-delà les âges, aux nuits de  la Terreur  ou à la destruction de Pompéi le 24 août 79.

S'il est vrai que les grands événements restent imprimés, déposés dans l'espace, cela ne doit-il pas l'être d'avantage pour les êtres humains dont, en principe, la durée de vie est bien plus longue? Si leurs traces subsistent, c'est simplement parce qu'elles s'impressionnent plus fortement, plus profondément dans la matière invisible. Les corps amoureux n'émettent-ils pas une chaleur, un rayonnement qui les attirent et les attachent? Pourquoi ces rayons ne subsisteraient-ils pas?

 

 

Jérôme Prieur

in  Rendez-vous dans une autre vie  (La boutique de fantômes) p. 106,107

© Éditions du Seuil, mars 2010 aqui


 

 

Nota : August Strindberg, Inferno, Mercure de France, 1966, p.74 sq.

 

  

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7.2.11

 

 

 

 

Praça Duque de Saldanha, Lisboa, anos 60

 

 

 

Deixar Lisboa em 1967 foi uma lufada de ar fresco. Ia fazer catorze anos.

 

O tempo que aqui vivera, marcado por um 'luto' e circunstâncias familiares agravantes, tinha sido difícil. Acabara por me habituar à vida em Portugal, à casa dos meus avós, às ausências dos meus pais, ao liceu francês, mas não me tinha conformado, o que associo a uma série de doenças que me afligiram ao longo desse período, e por fim a um acidente – por distracção, à saída da escola – no qual podia ter morrido.

Na escola,  precisamente, nem tudo corria bem. Findo o ciclo franco-português e passado o exame da quarta-classe, obrigatório para os alunos portugueses, seguira para a sixième (primeiro ano da “secção francesa” do liceu) e entrara novamente em derrapagem. Dispersa e indisciplinada, ao contrário dos meus irmãos que eram bons alunos, as comparações inevitaveis pesavam-me.

Eu gostava do liceu francês mas não conhecia a França. As roupas de pronto-a-vestir que admirava todas as semanas na “Elle”, e outros acessórios muito cobiçados, que as francesas do liceu apresentavam no início do ano lectivo, ao regressar de férias, estavam fora do meu alcance. As minhas amigas eram uma americana e uma portuguesa, tão estrangeiras ali como eu. A minha irmã tinha deixado Portugal em 1965.

No meu meio social, de classe média (funcionários públicos) ocasionalmente em contacto com a classe média-alta (parentes e amigos ricos), também nem tudo corria bem. Apesar da amizade que tinha por alguns primos e filhos de amigas da minha mãe, e da amizade que eles tinham por mim, o convívio, por intermédio deles, com os adolescentes privilegiados do Estoril e de Cascais era geralmente mais sufocante do que outra coisa.

 

Parti para Madrid sem saudades e com alguma expectativa.

 

 

Se é a primeira vez que visita leia também aqui

 



1.11.10

 

 

 

 

A Ilha dos Mortos (1880)

Arnold Böcklin

 

 

Il n'est pas prouvé, mais peu m'importe, qu'Arnold Böcklin se soit inspiré de l'île San Michele pour peindre sa fameuse île des morts dont il a donné, tant elle eut rapidement de succès, cinq versions (entre 1880 et 1886). Freud en avait une reproduction dans son bureau, Clemenceau aussi, ai-je lu quelque part, et Lénine dans sa chambre à Zurich. Il semble bien qu’Hitler ait acheté une de ces versions, ce qui m'ennuie fort, tant ce tableau depuis longtemps me fascine. Ses longs cyprès, ses deux volumineux blocs de pierre où résident peut-être les gardiens des morts prisonniers et cette barque qui s'approche lentement du débarcadère pour y livrer son chargement ; un personnage vu de dos, sans visage, revêtu d'un suaire blanc. Le batelier, lui, s'apprête déjà à effectuer la traversée dans l'autre sens.


Qu’avaient-ils en commun, ceux que je viens de citer, pour subir ainsi la force d'attraction du tableau de Böcklin ? Qu' y voyaient-ils ? La figuration de leur propre mort ? de celle des autres ? Quel vœu était le leur ? Expédier à tout jamais dans l'île des morts ceux qu'ils haïssaient ou y débarquer eux- mêmes pour enfin y connaître la paix des cimetières ? Je crois plutôt qu'ils cherchaient ainsi à se séparer de la mort sans pourtant méconnaître son inéluctable survenue.


L'île San Michele - quelques centaines de mètres suffisent - est séparée par la lagune de la cité des vivants. L'île est là, à portée de regard, mais de l'autre côté de ce quai où je marche au soleil, à bonne distance de l'ombre des cyprès et des redoutables falaises de pierre.


J'ignore si Böcklin, adulé de son vivant, puis déprécié avant d'être redécouvert il y a quelque temps, est ce qu'on appelle un grand peintre. Mais je lui suis reconnaissant d'avoir su donner à la mort informe la forme d'un tableau et de nous permettre de croire que ce n'est pas la vie mais la mort qui est un songe.

 

 

J.-B. Pontalis

in Le Dormeur éveillé

© Mercure de France 2004



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2.10.10

 

 

 

 


 

 

 

 

Par où s'est-il approché le triste, le long, l'interminable orage de la fin des années soixante ? Si amer et si confus qu'on ne sait s'il dure toujours ou s'il s'aggrave encore. Est-ce par ici, le long des couloirs de cet hôpital où mourut l'ami le plus cher, celui auquel je pense chaque jour depuis que nous nous sommes laissés seuls, il y a vingt ans, vingt-cinq ans, je ne me rappelle jamais la date ? Ou est-ce par là, juste un peu plus tard, quand on parlerait d'une chambre en désordre, d'un téléphone, d'une couverture avec dessous la plus belle fille du monde ? Ou est-ce par là encore, lorsque les salles obscures s'abandonnèrent au soleil noir venu du Nord que dispensait une lanterna magica aux éclats de voix mystérieux et rauques, et qu'on sentit, soudain, la beauté sourde de sa lumière cruelle.

 

 

 

Frédéric Mitterrand

in Tous Désirs Confondus

© RAPHO/TOP - ACTES SUD, 1988

 

 

 

outros excertos da mesma obra aquiaqui

 

 

Imagem: Capa da revista "Paris Match", 8 de Agosto de 1962


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27.9.10

 

 

 

 

 

Lisboa, 1962

 

 

 

 

 

De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.

 

 

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

 

 

São loucas! São loucas!

 

 

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.

 

 

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

 

 

Letra de David Mourão Ferreira

 

 

 

 

Barco Negro - Amália Rodrigues live in Cannes [1962] aqui

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21.9.10

 

J'essaie de vous parler d'un gouffre de tristesse, douleur incommunicable qui nous absorbe parfois, et souvent durablement, jusqu'à nous faire perdre le goût de toute parole, de tout acte, le goût même de la vie. Ce désespoir n'est pas un dégoût qui supposerait que je sois capable de désir et de création, négatifs certes, mais existants. Dans la dépression, si mon existence est prête à basculer, son non-sens n'est pas tragique: il m'apparaît évident, éclatant et inéluctable.

D’où vient ce soleil noir ? De quelle galaxie insensée ses rayons invisibles et pesants me clouent-ils au sol, au lit, au mutisme, au renoncement?

La blessure que je viens de subir, tel échec sentimental ou professionnel, telle peine ou tel deuil qui affectent mes relations avec mes proches sont souvent le déclic, facilement repérable, de mon désespoir. Une trahison, une maladie fatale, tel accident ou handicap qui m'arrachent brusquement à cette catégorie qui me semblait normale des gens normaux ou qui s'abattent avec le même effet radical sur un être cher, ou encore... que sais je... ? La liste est infinie des malheurs qui nous accablent tous les jours... Tout ceci me donne brusquement une autre vie. Une vie invivable, chargée de peines quotidiennes, de larmes avalées ou versées, de désespoir sans partage, parfois brûlant, parfois incolore et vide. Une existence dévitalisée, en somme, qui, quoique parfois exaltée par l'effort que je fais pour la continuer, est prête à basculer à chaque instant dans la mort. Mort vengeance ou mort délivrance, elle est désormais le seuil interne de mon accablement, le sens impossible de cette vie dont le fardeau me paraît à chaque instant intenable, hormis les moments où je me mobilise pour faire face au désastre. Je vis une mort vivante, chair coupée, saignante, cadavérisée, rythme ralenti ou suspendu, temps effacé ou boursouflé, résorbé dans la peine…Absente du sens des autres, étrangère, accidentelle au bonheur naïf, je tiens de ma déprime une lucidité suprême, métaphysique. Aux frontières de la vie et de la mort, j'ai parfois le sentiment orgueilleux d'être le témoin du non-sens de l'Être, de révéler l'absurdité des liens et des êtres.

[…]

Cependant, la puissance des événements qui suscitent ma dépression est souvent disproportionnée par rapport au désastre qui, brusquement, me submerge. Plus encore, le désenchantement, fût-il cruel, que je subis ici et maintenant semble entrer en résonance, à l'examen, avec des traumas anciens dont je m'aperçois que je n'ai jamais su faire le deuil. Je peux trouver ainsi des antécédents de mon effondrement actuel dans une perte, une mort ou un deuil, de quelqu'un ou de quelque chose, que j'ai jadis aimés. La disparition de cet être indispensable continue de me priver de la part la plus valable de moi-même: je la vis comme une blessure ou une privation, pour découvrir, toutefois, que ma peine n’est que l’ajournement de la haine ou du désir d'emprise que je nourris pour celui ou pour celle qui m'ont trahie ou abandonnée. Ma dépression me signale que je ne sais pas perdre: peut-être n’ai je pas su trouver une contrepartie valable à la perte ?

 

 


Cette tristesse inconsolable cache souvent une véritable prédisposition au désespoir. Elle est peut être en partie biologique: la trop grande rapidité ou le trop grand ralentissement de la circulation des flux nerveux dépendent incontestablement de certaines substances chimiques diversement possédées par les individus.


 

 

Julia Kristeva

in Soleil Noir - Dépression et mélancolie pp.13-14 e 45

© Éditions Gallimard, 1987

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro post neste blog sobre o mesmo tema aqui

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16.9.10

 

 

 

 

com o meu tio Frederico, em Lisboa, 1962.

 

 

 

 

Chegámos a Lisboa no verão de 1961. A princípio, a novidade e a redescoberta de uma família calorosa atenuaram o desgosto da perda, abrupta e definitiva, da nossa vida anterior; mas para mim e para Cristina, Lisboa revelou-se aos poucos uma cidade triste e provinciana, cheia de mendigos e de homens ordinários.

Chegado o Outono, a entrada no Liceu Francês agravou a nossa desorientação, perante um ensino mais exigente em português e francês, línguas que não dominávamos convenientemente.

Em casa, um apartamento na rua Rodrigo da Fonseca onde acabaríamos por estar pouco mais de um ano, a minha mãe começou a não sair do quarto. Lembro-me de ficar parada a olhar para aquela porta fechada.

Em Setembro de 1962, o meu pai partiu para o Paquistão. Cristina, Bernardo e eu fomos com minha mãe e a Zulmira viver para casa dos nossos avós maternos. A adaptação foi penosa para todos. Os meus avós impunham uma cerimónia a que não estávamos habituados. Tinham aceite corajosamente aquela ‘invasão’ mas sentiam-se desamparados perante o desespero da filha, um desespero que desafiava a compreensão.

 

 

 

Vera Futscher Pereira

in Retrovisor, um Álbum de Família

© RCP edições, 2009

 

 

O regresso a Portugal inaugurou um tratamento de choque ao longo do qual eu perderia, aos poucos, quase todas as minhas referências habituais. É o único período relatado na primeira pessoa em “Retrovisor, um Álbum de Família”. Foi uma tentativa de reduzir por um momento a distância, dirigindo-me ao leitor num tom mais confessional, na minha própria voz. Não sei se produz efeito, e tenho algumas dúvidas, já que apenas uma pessoa me comentou o facto, e foi para me perguntar porquê.

 



20.4.10

 

 

Vieux dépliants touristiques, magazines démodés, notes de téléphone obsolètes, je fourrais allègrement tout ce qui me tombait sous la main dans de grands sacs-poubelle. C’était un jour faste. Aucune peine, nulle culpabilité n’entravait mon action. Les rayonnages du grenier se vidaient enfin. J’éprouvais une joie sans mélange. Une grande boîte aux motifs rouge et vert suspendit mon enthousiasme. J’y découvris soigneusement entreposées des dizaines de serviettes en papier venues de cafés et de restaurants du monde entier. Je voulus les jeter tout aussitôt, hésitai un instant puis les examinai plus attentivement. Au bas de chacune d’elles, la fine écriture de ma mère, ferme et déliée, se détachait clairement, imprimant à ces papiers anodins une émotion inattendue, véritable, légère et persistante. Vacillante, enfermée dans le petit grenier obscur, alors qu’un soleil éblouissant rayonnait à l'extérieur, je me représentai l’étrangeté de cette collection, l’absurdité de ma situation. Par quelles puissances infernales étais-je retenue comme Perséphone sous terre, à l'écart de toute vie, de toute lumière ? C’est à cet instant que l’idée d'écrire ces pages m’est venue.

 

 

Lydia Flem

in  Comment j’ai vidé la maison de mes parents pp. 128-129

© Éditions du Seuil, 2004

 

 


 

 

 

 


2.4.10

 

 

 

 

 

  

Lenda S.15

 

 

ROMANCE DOS PADRES NO LIMBO

 

 

Vozes davam prisioneiros,

Longo tempo estão chorando,

Em triste cárcere escuro

Padecendo e suspirando,

Com palavras dolorosas

Suas prisões quebrantando:

 

-"Que é de ti ó Virgem mãe?

A ti estamos clamando,

Desperta o senhor do mundo,

Não estamos mais penando ?"

 

Ouvindo estas vozes tristes

A Virgem estava orando,

Quando veio a embaixada

Pelo Anjo, saudando

Avé rosa gracia-plena

Sua prenhez anunciando.

 

"Solta os encarcerados

Que por ti estão suspirando,

Pela morte de teu Filho

Ao Padre estão rogando:

 

Cresça o menino glorioso

Que a cruz está esperando:

Sua morte será cutelo

A tua alma trespassando

Sofre a sua morte, senhora

Nossa vida desejando!"

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Imagem: Giotto -   Descida de Cristo ao limbo aqui

 

um artigo sobre a "geografia do além" no Ocidente medieval aqui

 

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