31.5.17

 

Jean-Michel-Basquiat-50-cent-Piece.-1983

 Jean-Michel Basquiat, 1983 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Não há de ser nada

 

 

Leitora querida, duas gerações abaixo da minha, jurista – o que ainda me impressiona sempre, é uma espécie de microtraumatismo para a minha mente moldada em fôrma alentejana anarquista na qual o pai proíbe o filho de em crescido ser padre, soldado ou advogado - metida num desses programas europeus para a educação superior que vão sob o nome geral de Erasmo, levam gente nova de um lado para o outro a encontrar outra gente e, logo por isso, não teriam desagradado ao sábio de Roterdão do Elogio da Loucura, mandou-me dizer o seguinte:

 

A marcha da tecnologia é um problema bicudo, mas não há de ser o fim do mundo. Admito que me irrita um pouco a jovialidade com que os jornais gostam de proclamar semana sim, semana não, o antecipado fim da profissão X ou Y (às vezes incluindo o da minha-a-partir-do-ano-que-vem-com-sorte). Mas se nos conseguimos – mais ao menos e depois de muita tareia – adaptar às mudanças da revolução industrial, não vejo porque estas serão diferentes. O ritmo assusta, é certo, e não digo que nos esperam rosas, mas alguma coisa se haverá de arranjar.”

 

That’s the spirit!” teria eu reagido, nos meus anos ingleses, tão diferentes dos anos de hoje em Inglaterra ou seja onde for. O ritmo realmente assusta. Em A Cidade e as Serras, Zé Fernandes, vê fita de papel sair de máquina em casa do seu amigo Jacinto (que tinha nascido com cento e nove contos de renda em fartas terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival – e cento e nove contos no fim do século XIX eram muitíssimo dinheiro) no número 202 dos Campos Elísios, fita onde está escrito que a fragata russa Azoff entrara no porto de Marselha com avaria e pergunta a Jacinto porque é que aquilo lhe interessa. “É uma notícia” responde o anfitrião e hoje estamos todos como ele. Smartphones, tablets, computadores, emails, twitts, Facebook, Skipe, WhatsApp, etc., etc., etc., deixam-nos ao fim de cada dia – que a rotação da terra, tirando ou pondo um minuto por século, essa ainda é a mesma - com milhares de fragatas russas avariadas em centenas de portos dentro da cabeça. Eu sei que o saber não ocupa lugar (houve a certa altura colecção de livros de divulgação chamada assim) mas o que entra todos os dias parece incomensurável - e, de qualquer maneira, serão precisos instrumentos inéditos de medição no bravo mundo novo da post-verdade.

 

Cada homem é uma ilha, escreveu o poeta. Em 1968, em Oxford, ainda assim parecia ser. M.S. Lourenço e eu inventámos poeta escocês romântico esquecido, redescoberto e analisado pelos filólogos oxonianos Marks, judeu, e Spencer, goyim, de cujo nome já me não lembro mas de quem sei ainda de cor a tradução – feita por nós do original inglês – de um verso: “Já do teu sentimento conhecimento não tinha.” Graças à mania inveterada de fazer partidas de M. S. estivemos quase a mandar curto artigo sobre ele a uma das nossas revistas literárias, seguros de que os nomes dos filólogos não poriam de fora o rabo do gato. Bons tempos.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 12:48  comentar

30.8.16

 

 

Untitled-1.jpgFernando Guedes (1929-2016)

 

 

 

 

Ignoro se têm sido muito ou pouco estudadas eventuais afinidades do nosso modernismo com o dos Britânicos, para além da comum recusa do sentimentalismo (mas talvez não a procura radical da despersonalização e do distanciamento, que quase só encontramos em Pessoa; a estética imagista só terá verdadeira expressão portuguesa com Alberto de Lacerda, mas esta poderá ser uma opinião controversa), mas não resisto a chamar a vossa atenção para os conselhos que William Carlos Williams, um outro americano que foi figura de proa do Imagismo, dava à poeta inglesa Denise Levertov, em 1954, repercutindo ainda nesse momento, de forma bastante fiel, o ideário imagista de Pound e Eliot em 1914. Dizia ele: «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer».

 

O crítico britânico Harold Monro, num livro intitulado Some Contemporary Poets, publicado em 1920, conta a história de um jovem poeta americano recém-chegado dos Estados Unidos que procurou Eliot a fim de lhe mostrar os seus trabalhos. Este, ponderou longamente em silêncio um poema e, erguendo finalmente os olhos, terá dito: «Precisou de 97 palavras para o fazer; eu acho que poderia tê-lo feito em 56». Mas nada disto era novo e os próprios imagistas não se cansavam de o afirmar: «Estes princípios não são uma novidade; caíram em desuso. Eles são o essencial de toda a grande poesia».

 

É claro que estamos no plano estilístico da precisão. Mas creio que poderíamos articular isto, independentemente dos particulares relativos à diferença de contextos, com o que António Ferro — fundador e referência desta Casa — escrevia, em 1919, em Leviana (publicado em 1921):

 

«O excesso de pormenores embrulha a concepção, a intenção. Já que não podemos simplificar a vida, simplifiquemos a literatura. A literatura, como a vida, está atravancada. Há que descongestioná-la: um só quadro numa parede, dois ou três móveis em cada sala. Simplifiquemos! Simplifiquemos! A falta de espaço é cada vez maior. Há que fazer peças com poucas personagens, romances com poucas páginas, telas com poucas tintas. Seleccionar! Seleccionar! Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem».

 

Como é sabido, The Waste Land, o poema de Eliot que Fernando Guedes considera o mais visionário do século xx, foi drasticamente reduzido na sua dimensão pela mão de Pound, que na dedicatória de Eliot é justamente designado como il miglior fabbro.

 

***

 

Há muito que Fernando Guedes se interessa por estes dois autores, Eliot e Pound. Poeta, ligado à Távola Redonda, nessas «folhas de poesia», cuja publicação se iniciou em Janeiro de 1950, apresentou e traduziu ambos (possivelmente pela primeira vez entre nós, como ele próprio notou na sessão de apresentação do livro). Eliot fora distinguido com o Nobel em 1948; Pound, internado num hospital psiquiátrico, recebera o Prémio Bollingen, em 1949. Posteriormente, no final da década, Fernando Guedes haveria de dirigir uma outra revista que logo no título – Tempo Presente – evocava Eliot (O tempo presente e o tempo passado/ São ambos presentes talvez no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tempo passado) e que no segundo número apresentava traduções de Pound e saudava a sua libertação, ocorrida no ano anterior.

 

Deste modo, o que Fernando Guedes faz nestas quatro comunicações é arrumar de forma condensada o seu próprio percurso de leitor de Eliot e Pound ao longo de décadas e apresentar a sua visão sobre o lugar de cada um deles na poesia do século xx. Partindo de uma perspectiva, que foi antes de mais geracional, de reavaliação da modernidade face à tradição, de indagação estética (o tal percurso partilhado em fraterna amizade com Fernando Lanhas), mas também ideológica na marcação das suas distâncias, Fernando Guedes engloba no seu interesse por estes poetas a dinâmica concisa e complexa da estética imagista, a relação com as artes plásticas, e, muito particularmente, a sua ressonância mítica e religiosa.

 

 

Jorge Colaço

 

Excerto de um texto lido no Círculo Eça de Queirós no dia 4 de Setembro de 2014 a propósito do livro de Fernando Guedes T. S. Eliot e Ezra Pound – uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras, publicado nesse mesmo ano.

 

 

O artigo de Jorge Colaço  Na morte de Fernando Guedes (1929-2016)  aqui.

 

Algumas obras de Fernando Guedes disponíveis na Wook aqui

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 15:24  comentar

21.8.16

 

 

Penguin-1248 Salinger Catcher on the Rye-rc.jpg

 

 

 

Seymour'd told me to shine my shoes just as I was going out the door with Waker. I was furious. The studio audience were all morons, the announcer was a moron, the sponsors were morons, and I just damn well wasn't going to shine my shoes for them, I told Seymour. I said they couldn't see them anyway, where we sat. He said to shine them anyway. He said to shine them for the Fat Lady. I didn't know what the hell he was talking about, but he had a very Seymour look on his face, and so I did it. He never did tell me who the Fat Lady was, but I shined my shoes for the Fat Lady every time I ever went on the air again — all the years you and I were on the program together, if you remember. I don't think I missed more than just a couple of times. This terribly clear, clear picture of the Fat Lady formed in my mind. I had her sitting on this porch all day, swatting flies, with her radio going full-blast from morning till night. I figured the heat was terrible, and she probably had cancer, and — I don't know. Anyway, it seemed goddam clear why Seymour wanted me to shine my shoes when I went on the air. It made sense.

 

J.D. Salinger in Zooey (1957)

 

 

*

 

 

What stays to me the most from your books is the Fat Lady from Franny and Zooey. I remember Seymour telling his siblings to polish their shoes for the fat lady [...] I remember Zooey explaining years later to Franny that there wasn’t really a Fat Lady, that the Fat Lady is God, or that faceless unknown person in the audience for whom a performer must always do his or her best, even when we don’t feel like it, or when we’re confronted with a cold, unresponsive, audience.

 

Stephen Collins in Letters to J.D. Salinger, edited by Chris Kubica, Will Hochman

 

 

 

Letters to J.D.S..jpeg

 

 

 

 

 Leia também neste blog o post Everyone is the Fat Lady 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:35  comentar

14.5.16

 

 

letter-o-cherubs cooking soup.jpg

 

 

 

omnívoro
om.ní-vo.ro/a
adjectivo
(do latim omnivorus)

 

 

 

Que come de tudo e não que come tudo, como os vampiros da balada. No primeiro caso estamos perante um sinal de liberalidade, no segundo, de mera glutonaria. O animal omnívoro distingue-se, assim, das grandes famílias dos carnívoros e dos herbívoros, cuja dieta alimentar é mais exclusiva. O organismo do animal omnívoro está adaptado a essa circunstância, o que não significa que seja um devorador exaustivo. Ou até à exaustão, que é coisa um pouco diferente. Mas é quase sempre um predador. Por analogia, podemos falar, por exemplo, de leitores omnívoros – sobretudo na idade em que tudo o que vem à rede é peixe –, mas o termo é usado demasiadas vezes como elogio. Ora, o leitor omnívoro é um leitor que lê de tudo. E, fora do âmbito democrático e da idade própria, o leitor que lê de tudo (ou ouve de tudo, ou vê de tudo) ainda não se decidiu em matéria de gosto, o que não é em si grande louvor. Já os leitores que são exaustivos e lêem tudo de certo autor ou sobre um determinado assunto podem ser altamente estimáveis. Se a analogia for feita no plano sexual, a criatura omnívora será aquela que come de tudo, satisfazendo plenamente o requisito semântico do termo, e não tanto a figura rapace que come tudo – por exemplo – que tenha saias, ou pegue touros, para referir dietas clássicas, assaz restritas nos tempos que correm.

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

15.4.15

 

MapasNCondeJoanina.jpg

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Fofocas

 

 

 

Na semana passada a Vera tinha-me prevenido – “Aqui ninguém pensa em guerra; têm medo de outras coisas mas guerra não lhes passa pela cabeça” – e eu modificara o texto mandado antes, procurando colocar o público em terreno que me conviesse.

 

Êxito mitigado. Leitora entre as happy few a quem eu mando o Bloco já paginado - escusam de o ir buscar elas (e eles) ao web, assim como dantes se faziam de livros pequenas tiragens fora do comércio, com exemplares numerados e impressos em melhor papel – pilar de discernimento na minha vida, foi a primeira a disparar: “Acho que estás a precisar de apanhar um bocadinho de sol, de ver o Guincho… ” Leitor com a cabeça mais bem arrumada que encontrei fora de grandes universidades inglesas e norte-americanas surgiu a seguir: “Almocei umas iscas de leitão muito simpáticas e estava bastante contente da vida, quando quiçá por praga rogada pela mãe do reco, me chega este murro do real para dificultar a pacífica digestão. Irra lá terei de chupar uma Rennie, para tentar recolocar-me no paraíso artificial.”

 

A leitora já foi sobrinha por afinidade do leitor - e também minha por, digamos, contra-afinidade. A família de pai, mãe, filhos, filhas, cognaticamente alargada, apesar das muitas bordoadas levadas desde que a minha geração chegou à idade de descasar, continua a ser o núcleo indestrutível e indispensável da vida dos portugueses (como verificou elegantemente num pequeno estudo empírico a Dra. Isabel Marçano, que não conheço nem sei se lê estes Bloco-Notas).

 

Em Portugal, a seguir à família, talvez o mais importante corrimão de escada seja o lugar de onde se venha, aquilo a que o emigrante Alves – conheci-o em Maputo mas a diáspora começara em França – chamava “a minha parvónia”, no meu caso Évora, Alto Alentejo. Deste, na semana passada, disseram também de sua justiça patrício e patrícia do meu mundo de correspondentes. Ele percebia o “desânimo que te provoca a cultura de mercearia europeia que não tem um só motivo para que qualquer jovem (e os respectivos progenitores) aceitasse morrer por ela”. Ela foi sucinta : “Que grande texto!” – tinha gostado da substância e da forma. Devo acrescentar que, já antes destes encómios, se eu tivesse de organizar duas bichas alentejanas, uma de homens e outra de mulheres, pô-los-ia à cabeça de cada uma delas.

 

Como os do Tejo para cima não têm no meu coração canto menos acolhedor do que os transtaganos (ou os algarvios), perguntei se teria sido pessimista a estrangeira que conhece o direito e o avesso da Europa comunitária e conhece Portugal sem a ternura difusa dos residentes estrangeiros (ricos) nem a raiva uns aos outros dos indígenas (ricos e pobres). Achou que eu não fora pessimista mas fora brutal. “Brutal como Al Capone ou como o Sermão da Montanha?” inqueri . “Como o Sermão da Montanha.”

 

Fiquei todo babado pois o mesmo me palpita que na altura tenha dito ao Filho Nossa Senhora, acrescentando à parte para Santa Ana: “Ai este rapaz, este rapaz…”

 

 

Imagem aqui

 

 

link do postPor VF, às 10:17  comentar

17.9.14

 

 

 

 

 Cosimo de Medici 

 

 

 

 

 

Progresso?

 

 

“Quem saiba a língua sabe a cultura e quem saiba a cultura entende as pessoas” dizia o professor de antropologia social em Oxford. Por estudar gente do meu país —  e da minha província natal — em vez de estudar gente de fala, lugar, manhas e fé diferentes das minhas, eu tinha meio caminho andado. Sobre isso, para Evans-Pritchard  (EP como a gente lhe chamava), não havia a menor dúvida. Concordei.

 

Hoje não concordaria. A conversa foi há cinquenta anos e cinquenta anos agora não são o que eram cinquenta anos há cinquenta anos. As diferenças entre passado e presente são maiores do que alguma vez haviam sido desde o Big Bang, ou, para tentar entender, desde que a consciência humana inventou e mediu espaço e tempo. Mais perto de nós, longe dos mistérios do tempo cósmico e dos buracos de traça do tempo histórico, no tempo pessoal de cada um, a velocidade da mudança acelerou como nunca acontecera. A língua falada pelos netos afasta-se da língua falada pelos avós e o confronto entre as duas roça a incompreensão. A escrita, desde os tijolos gravados da Caldeia ao processador de palavras que estou a usar, passando pela Bíblia de Gutenberg, o Dicionário de Moraes, a cartilha de João de Deus, fora acompanhando e resistindo, guardando e deitando fora, mantendo-se viva ao contrário do latim e do grego clássico. Hoje é diferente.

 

“[O] blog está a perder fluidez: trazes muitos temas colaterais à colação. A net exige uma escrita mais linear, frases mais curtas e menos ornamentos de erudição sobre o assunto principal” escreveu-me leitor fiel a quem Verão dantesco revelou que amigos do peito eram, afinal, amigos de Peniche, afastando-o algumas semanas de rotinas que incluíam a leitura destes Bloco-Notas. “Eu não sou especialista mas estive a vê-lo com os meus filhos [que o são] e aquilo que observo foi deles que o ouvi”.

 

Devem ter razão mas a pressa competitiva, inventando maneiras cada vez mais curtas e rápidas de dar recados para espalhar notícias antes da concorrência ou ganhar milhões em fracções de segundo, está a afunilar a língua, reduzindo ou conseguindo mesmo eliminar ambiguidades, preferindo certezas a dúvidas, acção a reflexão, usando, para referir maneiras de agir ou reagir, metáforas que reflectem métodos financeiros, investigação económica, práticas comerciais e se afastam cada vez mais do ciclo das estações, tal como no supermercado se encontra sempre agora fruta que não é da época. (A popularidade de Twitter, que restringe comunicações a 142 caracteres, atesta gosto pela brevidade mas não era bem disso que Tchekov falava quando dizia: “escrever bem é escrever com concisão”).

 

O banqueiro Cosimo de Medici, dono da melhor biblioteca de Florença e o mais sábio dos irmãos, detestava a invenção de Gutenberg. Os livros não se comparavam em qualidade com os seus incunábulos. A cultura acabara.

 

Enganava-se mas quem saiba a língua hoje não sabe por isso a cultura nem entenderá melhor as pessoas. Como fazem agora os antropólogos?

 

 

 

 

 

  

link do postPor VF, às 08:47  comentar

13.8.14

 

 

 

 Paula Rego - A dança

 

 

 

 

 

Quem sabe, sabe.

 

 

Entre as duas guerras (a de 1914-1918 e a de 1939-1945, lembro às leitoras mais novas), a propósito da explosão de exibicionismos que borbulhavam nas années folles, André Gide (francês e Prémio Nobel da literatura em 1947, lembro às leitoras menos dadas a leituras) dizia ver à sua volta mais artistas do que obras de arte. Nessa altura não havia nem internet nem twitter nem facebook nem blogs e, com o que hoje se chamam plataformas a coisa mais parecida seria o cinema, que Meliès e os manos Lumière tinham solto em Paris e vingara na Europa e nos Estados Unidos como a prole de um casal de coelhos na Austrália — mas hedonismo, egotismo e narcisismo são antigos e para lhes dar asas cada uma sempre usou o que tivesse à volta (ensimesmada: quando perguntaram às águas do lago se Narciso era mesmo belo, estas responderam que não sabiam porque quando ele vinha olhar-se nelas, elas aproveitavam para se olharem a si próprias nos olhos dele — ou, pelo menos, foi o que Oscar Wilde contou, não sei se antes se depois de ter conhecido Gide em Paris, onde viria a morrer. O mundo é pequeno).

 

De artistas e de obras de arte pouco ou nada sei mas há mais de dez anos virei comentador e, de silêncios aconchegados, longe da balbúrdia pátria, vou mandando bocas. Agora, chegado no começo do mês de Bruxelas, lendo os jornais e olhando para o que Conchita Cintrón chamava la pantalla chiquitita, suspeito que neste maravilhoso país que tão generosamente acolhia Freddy Kotter no seu seio a algazarra dos comentadores cobre de uma espécie de smog as coisas a comentar. Não é que estas faltem — desde o esforço vão do governo para transformar os portugueses em alemães (por via fiscal, ainda por cima) com Herr Gaspar, primeiro, e Frau Albuquerque, depois, a encaminharem-nos com um vasculho, como dantes os vendedores de perus pelas ruas de Lisboa, até à sanha súbita contra várias gerações da família Espírito Santo, reminiscente do azar dos Távoras — mas, bombardeadas pela cacofonia pátria, essas coisas e outras de menor porte deformam-se como as nossas caras na galeria de espelhos de uma feira de diversões.

 

Disse à Vera, dona do blog, que estava a pensar deixar de escrever o Bloco-Notas mas ela disse-me que eu não podia fazê-lo e que o mundo agora era assim, que todos podiam deitar palavra e que havia leitoras para tudo quanto se escrevesse. É, com efeito, um pouco tarde para protestar contra o ensino obrigatório, contra enciclopédias que anunciam à cabeça não garantirem que a informação que nos dão seja verdadeira e contra o ulular desafinado dos comentários de nós todos. Mas eu sou um pequeno-burguês de Évora e às vezes sinto-me como patrício meu, sentado sobre tábuas pousadas em tripés na primeira fila de um circo de província. A gaiola dos leões desconjuntou-se, o público saltou para fugir, e o meu patrício com as partes pudendas entaladas entre duas tábuas, sem se poder levantar, gritou: “Sentem-se, caralho, que os leanitos nã fazem mal”!  

 


9.12.13

 

 

Ultimamente tenho abrandado o ritmo de posts, às vezes por falta de tempo para dedicar ao blog e outras vezes por falta de material e de inspiração. Gostaria de ter chegado aos 500 nestes cinco anos mas o meu espólio familiar tem naturalmente limites e, de momento, não tenho novas colecções em mãos. As minhas leituras também se têm prestado menos, nos últimos tempos, à composição de vinhetas politico-literarias.

 

Serendipity:

 

Estava eu nesta dificuldade quando José Cutileiro me telefona a propor — muito cerimoniosamente, o que ainda me faz sorrir — alojar a sua crónica “Bloco-Notas” no Retrovisor. Nesta blogosfera recheada de espaços tão apetecíveis, anuncia-me que, of all places, gostava de estrear-se neste cantinho. Terá sido o chamamento de gente como Cinatti, O’Neill, Nemésio ou Garrett?

 

Preciso de explicar que José Cutileiro é o meu Perfect Reader, o leitor ideal, o leitor a que aspira todo aquele que escreve, o leitor exigente que leu o que escrevemos de fio a pavio, percebeu tudo e gostou do que viu. Neste caso, não só gostou como se deu ao trabalho de redigir e publicar na revista do MNE uma resenha elogiosa de Retrovisor, um Álbum de Família, ultrapassando largamente tudo o que eu poderia esperar em termos de reconhecimento de um trabalho tão circunscrito. Nem sequer nos conhecíamos pessoalmente em 2009, foi o meu irmão que lhe deu o livro.

 

Desta feita, o meu leitor ideal dá-me a enorme alegria de vir arejar este "cabinet de curiosités", que andava muito precisado, e abrir-lhe as portas a novos leitores, a quem dou desde já as boas vindas. 

 

 

Stay tuned, o Bloco-Notas de José Cutileiro começa a 11 de Dezembro. Sai à quarta-feira.

 


6.12.13

 

 

 

Anonyme; Cabinet de curiosités; (fin XVIIe siècle)

Huile sur toile; Florence; Opificio delle Pietre Dure. aqui

 

 

Tenho celebrado um ou outro aniversário do blog com um breve balanço e queria tê-lo feito neste quinto aniversário, mas atrasei-me. Quero antes de mais agradecer os comentários deixados no post de 15 de Novembro. As palavras de incentivo de tão ilustres colegas da blogosfera animam-me particularmente. Assinalei a data com um cartoon que divide a blogosfera entre “histórias sobre ninharias que alguém cozinhou, tricotou ou coseu”, “auto-promoção” e “teorias da conspiração”. Está bem visto, em versão mais soft seria o facebook, os blogs pessoais e os blogs políticos.

 

Em poucas palavras, para quem me visita pela primeira vez, este blog divide-se entre histórias do meu álbum de família (fotos, recordações e curiosidades do espólio familiar), histórias dos álbuns dos outros (fotografias e curiosidades dos espólios de outras famílias) e, last but not least, textos bastante variados de Autores, sobretudo excertos de obras de história, jornalismo, ensaio e alguma literatura. 

 

Os textos que eu própria escrevo (em minoria) tratam normalmente de espólios familiares, álbuns e recordações, enquanto as citações de Autor e os textos doutras pessoas surgem geralmente a propósito da actualidade e/ou do calendário. Quanto às imagens tenho procurado apresentar um máximo de material inédito, inicialmente com base no meu arquivo familiar e, progressivamente, a partir de colecções particulares que parentes e amigos têm posto generosamente à minha disposição.

 

O blog recebe actualmente em média 50 visitas por dia e poucos comentários (cerca de 300 até hoje em 480 posts). O propósito continua a ser o mesmo: partilhar a minha exploração da fotografia vernacular e reflexões de Autores favoritos, além de contribuir, mesmo que modestamente, para o universo dos conteúdos em português, com imagens, perfis e textos algo esquecidos*.

 

Queridos Leitores e visitantes em geral, continuarei a esforçar-me por merecer a vossa visita. 

 

 

 

 

* Notas:

 

Cabinet de curiosités 1 in English 

 

Neste contexto veja o blog Restos de Colecção aqui e o projecto Conteúdos em Português aqui  

 

Neste blog, um texto sobre a Fotografia Vernacular aqui , um perfil  aqui e um texto de Autor ilustrado com uma foto aqui

 

link do postPor VF, às 07:55  comentar

15.11.12

 

 

 

Foto: © Martin Parr / Magnum Photos

Fashion shoot (1999)

 

 



O blog faz hoje 4 anos. Aproveito este aniversário para agradecer especialmente aos leitores e amigos que ao longo destes quatro anos puseram à minha disposição fotografias e textos, deixaram comentários no blog, divulgaram nos seus próprios blogs o meu, e também aos que simplesmente espreitam com regularidade o Retrovisor. O número de visitas tem vindo sempre a subir, o que me anima a prosseguir viagem na vossa companhia.

 

 

Mais sobre este blog aqui e aqui



 


17.10.12

 

A tradicional Journée Portes Ouvertes do Liceu Francês inclui este ano uma exposição literária, e um encontro com antigos alunos que escreveram livros. Alguns desses antigos-alunos-escritores estarão no próximo Sábado à tarde no liceu para uma troca informal com os visitantes da exposição.  


Filipe Jarro, o organizador* deste encontro, tranquilizou-me desde logo na sua gentil carta-convite: "A minha escolha é abrangente (1 ano no liceu ou 15, 1 livro ou 15, 15 prémios ou nenhum, famoso/a ou não...) e todos contam". 


Pela minha parte, sinto-me feliz de participar com "Retrovisor" nas comemorações do 60º aniversário do LFCL e feliz também pela oportunidade de revisitar o liceu em clima de festa. As festas do LFCL são de boa memória e o LFCL tem muito para festejar. 




Notas:


Vão estar presentes Jean-Yves Mercury - Maria Antónia Palla - Carlos Domingos -Jaime Teixeira Mendes - Leonor Xavier - José Manuel de Morais Anes - Maria Helena Torrado - Filomena Marona Beja - Esther Mucznik - Raúl Mesquita - Lúcia Mucznik - Irene Flunser Pimentel - Isabel Alçada - Vera Futscher Pereira - Pedro Paixão - Clara Pinto Correia - Filipe Jarro - Sofia Marrecas Ferreira - Paulo Miguel Gérault Marrecas Ferreira -Teresa Lopes Vieira


 

Os livros expostos estarão à venda graças à participação da Nouvelle Librairie Francaise e os que se encontram esgotados estarão expostos em vitrines emprestadas pela Fundação Gulbenkian.



*Hoje poder-se-ia dizer "Curator", que opina o leitor?

 


 


13.3.12

 

 

 

 
 

Yorick and the Grisette

Gilbert Stuart Newton (1797-1835) 

 

 

«Estou, com o meu Yorick, o ajuizadíssimo bobo de el-rei da Dinamarca, o que alguns anos depois ressuscitou em Sterne com tão elegante pena, estou sim. ‘Toda a minha vida’ – diz ele – ‘tenho andado apaixonado já por esta já por aquela princesa, e assim hei-de ir, espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca há-de ser senão no intervalo de uma paixão à outra: nesses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez réis que dar a um pobre... por isso fujo às carreiras de semelhante estado; e mal me sinto aceso de novo, sou todo generosidade e benevolência outra vez.’

 Yorick tem razão, tinha muito mais razão e juízo que seu augusto amo, el-rei de Dinamarca. Por pouco que se generalize o princípio, fica indisputável, inexcepcionável para sempre e para tudo. O coração humano é como o estômago humano, não pode estar vazio, precisa de alimento sempre: são e generoso só as afeições lho podem dar; o ódio, a inveja e toda a outra paixão má é estímulo que só irrita mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster destas paixões, se as quimeras filosóficas, ou outras, nos vedarem aquelas, que alimento dareis ao coração, que há-de ele fazer? Gastar-se sobre si mesmo, consumir-se... Altera-se a vida, apressa-se a dissolução moral da existência, a saúde da alma é impossível.

 O que pode viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada. 

Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus nos livre dele.

 Sobretudo que não escreva: há-de ser um maçador terrível. (...)»



Garrett, Viagens na Minha Terra

 

Duas razões me levam a pôr em evidência o trecho original citado em tradução por Garrett.
 Em primeiro lugar, deixar aqui sublinhada a importância de Sterne na obra narrativa de Garrett. As Viagens de Garrett estabelecem relações, visíveis e invisíveis, quer com A Sentimental Journey quer com Tristram Shandy, da estrutura digressiva às referências ao Quixote. 
Em segundo lugar, para chamar a atenção para a tradução do nosso Autor, capaz de transpor escorreitamente o inglês de Sterne para o bom português garrettiano, de modo simultaneamente fiel e criador.

 

«...having been in love, with one princess or other, almost all my life, and I hope I shall go on till I die, being firmly persuaded, that if I ever do a mean action, it must be in some interval betwixt one passion and another: whilst this interregnum lasts, I always perceive my heart locked up -- I can scarce find in it to give Misery a six-pence; and therefore I always get out of it as fast as I can, and the moment I am rekindled, I am all generosity and good-will again;...»

Laurence Sterne, A Sentimental Journey through France and Italy by Mr. Yorick (1768)

 

 

Jorge Colaço

blog o divino (2005)

 

 

 

Jorge Colaço escreve aqui 

  

link do postPor VF, às 16:11  comentar

3.3.12

 

 

 

 

Ninguém (a partir de Frei Luís de Sousa)*

Teatro da Trindade, Lisboa 1978-79

 

Foto (Detalhe): António Lagarto 

 

 

De onde vem o meu interesse por Garrett? Sempre foi, em primeiro lugar, literário. As coisas não começaram bem. A primeira recordação que tenho é a de ter lido o Frei Luís de Sousa no liceu. Sou do tempo dos liceus. Nessa altura, tive um professor de português que me disse que o FLS era uma «lufada de ar fresco no teatro português». A peça não era uma novidade, já tinha visto várias produções televisivas que, nessa época, eram ciclicamente transmitidas. Umas melhores, outras piores, eram geralmente medíocres. Do alto da minha insolência adolescente decidi que o FLS era exactamente o contrário: uma coisa doentia.

 

O tempo que mediou entre esse momento e a descoberta de que o tal professor estava coberto de razão constituiu verdadeiramente o meu percurso de descoberta de Garrett. O meu deslumbramento seria total.

 

O teatro português é pobre e só tem dois autores grandes (perdoe-se-me o radicalismo): Gil Vicente e Garrett. O resto são inexistências, miudezas, tentativas, ou obras avulsas. Apesar de muito conhecida, não se tem sublinhado suficientemente a natureza da concepção trágica enunciada por Garrett na Memória ao Conservatório Real. Talvez um dia possamos abordar isso aqui. Além do mais, o FLS podia ter dado, se tivéssemos tradição musical, uma grande ópera. A grande ópera portuguesa.

 

Nesse caminho de descoberta e conversão, as Viagens constituem um momento fundamental. Primeiro, em leitura desconcertada. Mais tarde, ajustadas as peças do puzzle, penetrei o seu mundo e amei-as até hoje. Elas permitiram a descoberta de toda uma família literária e espiritual, a que julgo, modestamente, pertencer.

 

Para ler as Viagens (percebi-o ainda mais perfeitamente quando as ensinei) é preciso – toda a leitura é assim – «acertar» primeiro com o tom em que devem ser lidas. Depois, é preciso saber mover-se na infinidade de referências de que é feita. Isso é também parte da sua modernidade.

 

É preciso ter aprendido a ler uma página de um livro apenas pelo prazer da sua leitura. É preciso também ter passado por muitos outros autores e muitos outros livros. É preciso descobrir a sua desenvoltura e compreender a sua novidade.

 

Por tudo isso, as Viagens acumularam gerações de equívocos e inimizades feitas na escola: é uma obra que precisa de um certo grau de maturidade para ser bem lida. Para ser saboreada. Eis outro tema que, por si só, mereceria reflexão.

 

Um outro momento fulcral foi o texto admirável de David Mourão-Ferreira (que falta faz David) sobre As Folhas Caídas (primeiro publicado num opúsculo da Seara Nova, depois incluído na colectânea Hospital das Letras). Por aí se podem descobrir proximidades e distâncias entre a vida vivida e a vida escrita, entre o impulso confessional e os caminhos do engenho, entre os sobressaltos reais e o artifício literário.

 

Fui também descobrindo, como é evidente, outras coisas sobre o homem e as suas circunstâncias, as suas contradições, os seus dilemas.

 

Garrett: o soldado liberal capaz de apontar os vícios do liberalismo. O romântico (como hoje o entendemos) que, romanticamente, recusava o romantismo (como então se entendia). O escritor cuja glória literária não fez apagar o drama pessoal. O homem de espírito. O pesquisador das raízes do nosso imaginário poético. O autor cujo nacionalismo não era provinciano e tinha, sem paradoxo, um cunho europeu. E também o realizador, o homem de acção. O congregador de vontades. O político, o orador. O crítico impiedoso da negligência portuguesa. E também o civilizado, o mundano, o autor de O Toucador, jornal para damas, o dandy, o elegante cheio de souci de soi, o sedutor. O visconde.

 

E, claro, de novo o infinito sabor da sua prosa, o donaire, para usar a expressão de outro tempo, tão deliciosa, que o meu querido amigo João Bigotte Chorão gosta de usar a propósito da escrita garrettiana (cf. o prefácio à edição das Viagens da Lello).

 

Porque a admiração pela obra também se faz da descoberta dos outros admiradores de Garrett, o escritor que tantos escritores bem diferentes admiraram sem reservas, desde logo Camilo e Eça. E ainda há uma pequena mas sólida «confraria» garrettiana que reúne gente muito diferente entre si, irmanada nessa admiração.

 

Jorge Colaço

in blog o divino** , 9 Janeiro de 2005

 

Jorge Colaço escreve aqui 

 

 

 

 

 aqui

 

 

 

 

 

 

 

* Ninguém (Frei Luís de Sousa):

Encenação de Ricardo Pais

Texto de Almeida Garrett, Maria Velho da Costa, Alexandre O'Neill

Música de Carlos Zíngaro

veja o cartaz do espectáculo aqui

 

** O blog garrettiano o divino foi recentemente desactivado no blogs.sapo.pt

 

 

link do postPor VF, às 00:04  comentar

23.2.12

 

Em 1838, Almeida Garrett escreve, ensaia e produz Um Auto de Gil Vicente, drama histórico em torno da partida da infanta e da representação de Cortes de Júpiter, o auto a que o título se refere. O drama foi escrito entre 11 de Junho e 10 de Julho.

estreado 15.08.1838.

Edição romântica de Hamburgo. Por ela, em 1838, Garrett faz Um Auto de Gil Vicente.

 

A estreia, no Teatro da Rua dos Condes na noite de 15 de Agosto, num espectáculo ensaiado por Emile Doux, com cenários de Palluci, é o primeiro acto público do romantismo em Portugal. [...] 

É a primeira vez, depois de séculos de interrupção, que palavras compostas por Gil Vicente são ditas no teatro. O projecto de fazer de novo representar Gil Vicente só tem continuidade sessenta anos depois (1898), final do século XIX, à aproximação do IV Centenário (1902).

 

Grande parte dos versos de Cortes de Júpiter é incluída no texto de Um Auto de Gil Vicente, com novos recortes e nova montagem, muito diferentes da sequência original. Garrett parece intuir que fazer ressurgir Vicente não é trabalho fácil, que não pode haver a veleidade mecanicista de querer representar tal e qual aqueles autos, como se fossem peças de repertório.

 

 

A ficção de Garrett implica mostrar o auto a ser ensaiado (Actos I e II) e a fazer-se (Acto II).

A representação é acidentada e incompleta: Bernardim Ribeiro, apaixonado infeliz da infanta, que tem de o abandonar pelas razões de estado e partir, executa, sem ensaio, a figura da moura Tais, para se aproximar de Beatriz, dizer outros versos e lhe meter no dedo um anel devolvido. Gil Vicente e sua filha Paula representam Júpiter e a Providência.

 

eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro 


Representar representação é um jeito que Almeida Garrett já tinha ensaiado em 1821 n'O Impromptu de Sintra. Nos anos 30, o teatro no teatro é modernidade romântica.


 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas * 

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” [3] pp.271-272

© José Camões e Quimera Editores 

 

 

 

 

 aqui


 

 

* da Nota Editorial:

[de teatro e outras escritas] reúne uma centena de textos escritos e quase todos publicados entre 1971 e 1995. [...] Gil Vicente é objecto de eleição e, sem dúvida, a contribuição mais fértil do trabalho crítico de Osório Mateus. Os estudos sobre os autos são hoje incontornáveis e realizam, na segunda metade do século XX, uma proposta de restauro das condições primeiras da sua existência teatral. Esta perspectiva preside, aliás, desde cedo ao modo de entender o estudo dos textos a que chamamos dramáticos, e muitos dos ensaios apresentam-se hoje como lugar de teorização sobre o teatro nas suas múltiplas formas. [...] A seu modo, cada um deles consegue ser um certeiro gesto para uma história do teatro por fazer, tornando visíveis lugares-comuns ou inexac­tidões que importa identificar, abrindo outros lugares de interrogação, convocando os instrumentos adequados para o trabalho imenso que espe­ra por ser feito.



 

 

 

 

link do postPor VF, às 17:31  comentar

22.2.12



Almeida Garrett, a figura mais avançada de entre os artistas românticos de raiz burguesa e liberal, é dos primeiros leitores modernos de Gil Vicente. Aos 23 anos, em O Toucador (periódico sem política, dedicado às senhoras portuguesas, 1822), apresenta um resumo e fragmentos de Mofina Mendes. Em 1822, em Portugal, Gil Vicente é um autor caído no esquecimento, ou conhecido de muito poucos. As duas últimas edições completas dos textos datam do século XVI (1562 e 1586) e já não há muitos exemplares de nenhuma delas.[...]

 

1826, no prefácio do Parnaso Lusitano, Garrett escreve: 

O próprio Gil Vicente não deixa de ter seu cómico sal, e entre muita extravagância muita coisa boa; Bouterwek e Sismondi parece que escolheram o pior para citar; muito melhores coisas tem, particularmente nos autos, superiores sem comparação às comédias. A soltura da frase e a falta de gosto são os defeitos do século: o engenho que daí transparece é do homem grande e de todas as épocas. Em nota, acrescenta: Reservo-me para uma edição que pretendo publicar do nosso Plauto, fruto de longo e penoso trabalho, para examinar melhor este ponto e demonstrar o que aqui enuncio. Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa

Paris: Aillaud (VII-XVI:XIII).


Não realizou o seu projecto, mas é possível que seja ele o instigador da edição de Hamburgo.

A edição romântica que inaugura a época moderna de Gil Vicente e o torna o primeiro autor clássico do século de ouro.

 

 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” (1 e 2) pp.269-270

© José Camões e Quimera Editores

 


 

 

 


link do postPor VF, às 11:12  comentar

15.11.11

 

 

 

Anonymous (17th Century)

 

 

 

  

Dear Readers,

 

Today we celebrate the blog's third anniversary. Having reached an average of 30 daily hits, I keep an eye on the stats to get a sense of what my visitors are looking for. Most visitors from Portugal seem to be looking for people, places and curiosities from the past, some of which are half forgotten but still deserving of an extra fifteen minutes. After all, there’s not such a great deal of Portuguese material on the web.

 

Many visitors, and perhaps the majority of those who come from abroad, reach Retrovisor via a google search. Some reach it via a few other blogs, which I take this opportunity to thank. I’m also proud to announce that Retrovisor was recently nominated for a “Versatile Blogger Award" (details here). My sponsor describes it as “a blog which has morphed from an antique photo blog into a collection of literary quotes from different sources”. As for me, I see it as a “cabinet de curiosités”. I strive to keep it versatile within the remit of its main themes, which are visible in the tag cloud on your right.

 

Thank you for your visit!

 

 

 

Image:  Cabinet de curiosités  here

 

 


30.4.11

 

 


Gaby Photo, Léopoldville, 1954*


  

 

Comemoro hoje o segundo aniversário da publicação de "Retrovisor, um Álbum de Família" com a resenha de Clóvis Brigagão, amigo de longa data, que acompanhou de perto o meu projecto e, pelo caminho, me deu bons conselhos. O texto não chegou a sair no jornal mas aqui não podia faltar, passe a imodéstia. 
 

 

 

RETROVISOR – Um Álbum de Família

Vera  Futscher  Pereira

Lisboa,  Rui Costa Pinto Edições, 2009

 

 

 

Nessa encantadora e elegante obra de arte literária, Vera Futscher Pereira revela-nos o âmago de um álbum familiar. Ali estão as origens remotas da família e de seus negócios, alguns deles exercidos em Salvador da Bahia e no Rio de Janeiro, de um Brasil ainda bucólico. Ali estão também os caminhos pacientemente construídos no presente e, finalmente, a oferta generosa do futuro à nova prole.  Mais além do legado fotobiográfico, o que apreciamos é a tecedura criativa, muito bem elaborada, através de uma trama 'a descoberto' ... Retrovisor é totalmente aberto às aventuras e desventuras que o leitor, intruso?, quer saborear a cada página.  

À sua arte se junta, sem descontinuidade, o delicado e sensível ofício, tenaz e reluzente, que adquire sentido como ato de amor declarado a tecer, fio a fio, palavra a palavra, o retrato privado da família Futscher Pereira: a lusofonia cosmopolita. Essa ilustrada fotografia familiar ganha sabor e notável dimensão ao incorporar na narrativa o rico contexto histórico com variados comentários do desenrolar sociológico, político, cultural e, porque não, psicológico desses dois tempos, o privado e o público. É pura prosa poética, sob a bela e brilhante composição gráfica, que a autora presenteia ao público, sem pieguice ou maneirismos.

Ao lado da estória da vida dos avós, dos parentes próximos, principalmente dos pais, Vasco e Margarida, de si mesma e dos dois irmãos Cristina e Bernardo, a navegar pelo mundo afora, a autora abre suas páginas aos acontecimentos do dia-a-dia – através de textos tanto seus como de vários comentaristas. Cabe aqui um parêntese sobre o significado dos textos. Primeiro os da própria escritora, alinhavados com graça e sensibilidade, como « ... a tentativa de reagrupar pessoas e lugares dispersos pelas rupturas da vida - e pela própria passagem do tempo ». Narra, de forma concisamente confortável, como andavam as coisas da família, da política portuguesa e do mundo, dos movimentos culturais, artísticos e literários, criados pela geração nascida nos anos 20 do século passado, mas que ainda ressoa aqui e agora, a desvendar as várias circunstâncias que percorrem as páginas, sem perder o fio da meada, num português refinado e claro. Anoto outras contribuições textuais: notas, telegramas, cartas e registros diplomáticos do embaixador Vasco Futscher Pereira, sempre impecáveis, em múltiplos sentidos e em especial notas, artigos e recortes de jornais sobre seu tempo como Embaixador em Brasília (75-77). Os poemas extraídos dos dois livros de Margarida Futscher Pereira: Lugar Comum e Bens Adquiridos, portuguesmente poéticos, como este: « temos que trilhar/piso difícil/para aprender/a saudade sem mácula» (p. 165). O artigo de Bernardo Futscher Pereira publicado em O Jornal (21/05/1982) “Reagan e Brejnev Trocam Galhardetes”, análise política intocável sobre a pressão da opinião pública nos estertores da Guerra Fria. Além de vários outros textos sempre muito bem contextualizados, destaco os diretos, firmes e literariamente muito bem escritos, de Maria Filomena Mónica de seu livro A Evolução dos Costumes em Portugal, 1961-1991.       

Como forma de ilustração da estória familiar, que une geração e vida cultural – onde o mundo entra e participa dessa saga - a autora concebe, com gracioso apuro, uma obra que frui livre, a extrair toda a riqueza e vantagens literárias e estéticas de seu Retrovisor. Além de ser obra de leitura muito cativante e prazerosa, ela é recomendada para os estudos de sociologia e antropologia familiar, para cursos de artes gráficas, letras e jornalismo e até mesmo para os que gostam, estudam e pesquisam épocas e interações das relações humanas. Do abrir ao fechar as páginas de Retrovisor, o espelho recompõe todas as figurações, os textos, as imagens e, principalmente, as pessoas que de forma comovente, humana e precisa, Vera Futscher Pereira consagra em suas essencialidades.

 

 

Clóvis Brigagão

cientista político e escritor, brasileiro, viveu em Lisboa entre 1975-1979.

 


*Foto de capa de "Retrovisor" (Cristina, 1954)
 


14.2.11

 

 

 

 

 

 

 

 

neste terceiro ano de actividade bloguística talvez valha a pena fazer um balanço. Começo por explicar aos visitantes recém-chegados que me lancei nisto para anunciar um livro que tinha acabado de escrever e ia publicar daí a uns meses, em edição de autor (saiu em Maio de 2009). Não podendo contar com grande visibilidade nem distribuição, a oportunidade de usar uma montra gratuita e interactiva era bastante tentadora. Também desejava mobilar o "vazio", quase inevitavel após a finalização de um projecto que me ocupava há muito tempo.

 

 

Um blog, além de servir para mostrar imagens e curiosidades que tinham ficado na gaveta, permitia seguir com os mesmos temas - recordações, álbuns de família, fotografias, curiosidades - e explorá-los mais livremente, sem as mesmas preocupações de coerência, cronologia, fio narrativo, ou o que fosse. Com a ajuda de autores favoritos, fui assim construindo este 'arquivo', procurando casar o álbum de família com as minhas leituras e os assuntos que me interessam.

 

Valeu a pena: julgo que este Retrovisor contribuiu para criar interesse no outro, cuja edição impressa (500 exemplares) se encontra quase esgotada. Volta e meia sinto a satisfação de 'acrescentar um conteúdo'  que ficará guardado na net. Tive a alegria inesperada de reencontrar amigos que perdera de vista e fiz novos contactos na blogosfera.

 

 

Ultimamente este blog recebia 20 a 30 visitas por dia, o que, não sabendo se é muito se é pouco, me contentava. Há dias o Retrovisor mereceu um destaque dos "blogs do sapo", que fez disparar o número de visitas, uma agradável surpresa, veremos se muda alguma coisa. A média de comentários é que é baixa, menos de um por post. Gostava de receber mais feedback, em particular dos visitantes regulares, que sei que há alguns, pelo menos em Portugal, França, Bélgica, Brasil e Estados Unidos. Aos leitores que se têm manifestado, por comentário ou e-mail, nunca agradeço o suficiente.

 

 

Muito obrigada a todos pela visita!

 

 

Imagem: cartão de Dia dos Namorados, E.U.A., anos 50

 

mais sobre este blog e o livro na tag "retrovisor"

 


12.12.10

 

 

 

Albert Camus (1913-1960)

 

 

 

Great writers are either husbands or lovers. Some writers supply the solid virtues of a husband: reliability, intelligibility, generosity, decency. There are other writers in whom one prizes the gifts of a lover, gifts of temperament rather than of moral goodness. Notoriously, women tolerate qualities in a lover — moodiness, selfishness, unreliability, brutality — that they would never countenance in a husband, in return for excitement, an infusion of intense feeling. In the same way, readers put up with unintelligibility, obsessiveness, painful truths, lies, bad grammar — if, in compensation, the writer allows them to savor rare emotions and dangerous sensations. And, as in life, so in art both are necessary, husbands and lovers. It's a great pity when one is forced to choose between them.

Again, as in life, so in art: the lover usually has to take second place. In the great periods of literature, husbands have been more numerous than lovers; in all the great periods of literature, that is, except our own. Perversity is the muse of modern literature. Today the house of fiction is full of mad lovers, gleeful rapists, castrated sons — but very few husbands. The husbands have a bad conscience, they would all like to be lovers. Even so husbandly and solid a writer as Thomas Mann was tormented by an ambivalence toward virtue, and was forever carrying on about it in the guise of a conflict between the bourgeois and the artist. But most modern writers don't even acknowledge Mann's problem. Each writer, each literary movement vies with its predecessor in a great display of temperament, obsession, singularity. Modern literature is oversupplied with madmen of genius. No wonder, then, that when an immensely gifted writer, whose talents certainly fall short of genius, arises who boldly assumes the responsibilities of sanity, he should be acclaimed beyond his purely literary merits.

I mean, of course, Albert Camus, the ideal husband of contemporary letters. Being a contemporary, he had to traffic in the madmen's themes: suicide, affectlessness, guilt, absolute terror. But he does so with such an air of reasonableness, mesure, effortlessness, gracious impersonality, as to place him apart from the others. Starting from the premises of a popular nihilism, he moves the reader — solely by the power of his own tranquil voice and tone — to humanist and humanitarian conclusions in no way entailed by his premises. This illogical leaping of the abyss of nihilism is the gift for which readers are grateful to Camus. This is why he evoked feelings of real affection on the part of his readers. Kafka arouses pity and terror, Joyce admiration, Proust and Gide respect, but no modern writer that I can think of, except Camus, has aroused love. His death in 1960 was felt as a personal loss by the whole literate world.

Whenever Camus is spoken of there is a mingling of personal, moral, and literary judgment. No discussion of Camus fails to include, or at least suggest, a tribute to his goodness and attractiveness as a man. To write about Camus is thus to consider what occurs between the image of a writer and his work, which is tantamount to the relation between morality and literature.

 

Susan Sontag

in Against Interpretation and Other Essays (Camus' Notebooks) pp.52-53

© Susan Sontag, 1961, 1962, 1963, 1964 , 1965, 1966

 

 

 

 



aqui

 

 

Leia também aqui

 

Fotografia de Albert Camus encontrada aqui

 

Camus na Wikipédia aqui

 

Nota:

Aos leitores que não lêem inglês recomendo a ferramenta de tradução, disponível neste blog na coluna da direita .

 


link do postPor VF, às 16:07  comentar

16.9.10

 

 

 

 

com o meu tio Frederico, em Lisboa, 1962.

 

 

 

 

Chegámos a Lisboa no verão de 1961. A princípio, a novidade e a redescoberta de uma família calorosa atenuaram o desgosto da perda, abrupta e definitiva, da nossa vida anterior; mas para mim e para Cristina, Lisboa revelou-se aos poucos uma cidade triste e provinciana, cheia de mendigos e de homens ordinários.

Chegado o Outono, a entrada no Liceu Francês agravou a nossa desorientação, perante um ensino mais exigente em português e francês, línguas que não dominávamos convenientemente.

Em casa, um apartamento na rua Rodrigo da Fonseca onde acabaríamos por estar pouco mais de um ano, a minha mãe começou a não sair do quarto. Lembro-me de ficar parada a olhar para aquela porta fechada.

Em Setembro de 1962, o meu pai partiu para o Paquistão. Cristina, Bernardo e eu fomos com minha mãe e a Zulmira viver para casa dos nossos avós maternos. A adaptação foi penosa para todos. Os meus avós impunham uma cerimónia a que não estávamos habituados. Tinham aceite corajosamente aquela ‘invasão’ mas sentiam-se desamparados perante o desespero da filha, um desespero que desafiava a compreensão.

 

 

 

Vera Futscher Pereira

in Retrovisor, um Álbum de Família

© RCP edições, 2009

 

 

O regresso a Portugal inaugurou um tratamento de choque ao longo do qual eu perderia, aos poucos, quase todas as minhas referências habituais. É o único período relatado na primeira pessoa em “Retrovisor, um Álbum de Família”. Foi uma tentativa de reduzir por um momento a distância, dirigindo-me ao leitor num tom mais confessional, na minha própria voz. Não sei se produz efeito, e tenho algumas dúvidas, já que apenas uma pessoa me comentou o facto, e foi para me perguntar porquê.

 



31.8.10

 

 

No meu livro usei uma fotografia de Elizabeth Taylor, de quem gosto muito, para fechar o capítulo americano em “elipse”. Com a fotografia do casal desavindo de Cat on a hot tin roof, ao lado de um texto sobre Portugal que começa com a frase “Eram dias felizes...”  pretendi introduzir, de forma subtil, uma mudança de atmosfera.

 

Naquela época, as loiras queriam parecer-se com Marylin Monroe e as morenas com Elizabeth Taylor. A minha mãe queria, e nota-se nas fotografias dela dessa época. Tinha uns olhos lindos, como Taylor, e era do mesmo signo astrológico: Peixes.

 

Nesta altura Elizabeth Taylor atravessava um dos momentos mais emblemáticos da sua carreira e um dos mais dramáticos da sua vida atribulada: 1958 foi o ano de Cat, pelo qual seria nomeada para o Óscar de melhor actriz, e o ano em que perdeu Mike Todd, em Março, num desastre de avião.

 

 

 

 

 

 

A elipse é o processo narrativo que se caracteriza pela supressão de elementos da acção para realçar outros e tem no cinema, meio que se rege pela economia e necessidade de síntese, um campo de aplicação privilegiado. A montagem, dividindo o tempo e o espaço narrativos em diversas partes (planos), veio facilitar essa operação e quanto mais elíptico for um filme, mais longe estará de uma estética literária ou teatral. O cinema está repleto de exemplos memoráveis de elipses. O que há de tão apetecível e sedutor nelas é a sua implicação do espectador: as elipses são lacunas, espaços vazios, pequenas ilhotas de liberdade semiótica que solicitam uma pluralidade de leituras. O realizador já não afirma, apenas sugere; não mostra a totalidade das coisas, mas apenas a sua parte mais significativa; e, finalmente, cria espaços de indeterminação, ambiguidade e criatividade que o seu público poderá explorar.

 

post de Flávio no blog A Bomba aqui

 

 

Se é a primeira vez que visita este blog leia mais sobre o álbum de família aqui

link do postPor VF, às 10:37  comentar

29.4.10

 

Em finais de Abril de 2009 saiu o livro “Retrovisor, um álbum de família” e nesse momento mudei de assunto neste blog, admitindo regressar mais tarde ao arquivo familiar para partilhar mais algumas curiosidades. Aos leitores interessados que não acompanham o blog desde o princípio sugiro a leitura dos posts “Um álbum de família” aqui e “Kill all your darlings” aqui.

 

 

Regresso pois ao livro “Retrovisor” neste aniversário, com a apresentação da resenha de José Cutileiro, que me honra e faz sentir feliz com a(s) história(s) que conta.

 

 

 

 

 

 

 

 

Serra do Marão, 1946

 

 

 

 

 

 

A thing of love is a joy forever

 

 

 

 

RETROVISOR

UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

de Vera Futscher Pereira

Editora: Rui Costa Pinto Edições

Lisboa, 2009

 

 

 

 

 

 

O QUE SENTI quando acabei de ler e ver "Retrovisor" chegou-me numa paráfrase do primeiro verso do Endymion de Keats (1), de que me sirvo agora para dar nome a esta resenha do livro. Da capa à contracapa é amor de filha, de irmã, de neta, de tia, de sobrinha, de viajante em vários mundos, que dá coração à aventura em que a autora se meteu, ajudada por legados de Pai e Mãe, escravos desde pequenos do tão certo secretário com quem a pena desafogavam e meticulosos na guarda de escritos assim feitos e de mais papelada.

 

Sobre esse espólio muito variado — de poesia lírica intimista a telegramas diplomáticos, passando por 'O livro do bebé' —, um acervo de fotografias e mais documentos coevos, o livro acompanha por algumas gerações uma família burguesa de Lisboa -, ou melhor, porque o nosso sistema de parentesco é cognático, várias famílias vindas do século XIX que em duas gerações afunilam até ao casal Margarida-Vasco e alargam depois noutras duas chegando às novas famílias dos seus filhos e netos. Margarida e Vasco são por assim dizer o epicentro, os heróis principais do livro, mas este demora-se também em mais gente que com eles teve a ver, da família chegada a amigos de passagem, em Portugal, no Brasil e noutras partidas do mundo. A autora entremeia na narrativa informações sintéticas datadas que nos recordam o que se ia entretanto passando, em paz ou em guerra, na história de Portugal e do mundo.

 

O livro está muito bem escrito, é graficamente bem-sucedido, folheia-se com gosto e como acontece com fotobiografias, a cujo género pertence, presta-se a ser lido de várias maneiras, desde ir olhando para os bonecos como se de um 'coffee table book' se tratasse — assim comecei eu — a escrutínio atento de fio a pavio, que me entreteve um serão em seus enredos romanescos. Embora me pareça que, para quem goste de História e de histórias bem contadas, o livro possa interessar mesmo quem não tenha conhecido qualquer dos seus personagens, enriquece com certeza a leitura ter privado com alguns deles, sobretudo com os principais. Por mim, não conheci Margarida, pessoa quasi inteiramente privada, de quem Ruy Cinatti me falou às vezes com grande ternura e cujos versos só agora li mas conheci um pouco Vasco, de quem fui colega, que em 1982 e 1983 foi meu ministro e que é de longe a figura pública mais importante entre as capas do volume (outra é o pai de Margarida, colaborador chegado de António Ferro quando este dirigia o Secretariado de Propaganda Nacional).

 

Encontramo-nos pela primeira vez num almoço al fresco na Gôndola, organizado para o efeito pelo Vasco Valente e o Fernando Andresen, estava eu em posto em Estrasburgo e Futscher em Nova Iorque. Chegou atrasado, como era seu costume, e contou-nos que na véspera à noite não conseguira falar ao telefone com a Malu, que ficara em Manhattan, devido a impossibilidade da Marconi estabelecer a ligação. Nas conversas que pela noite fora, em sucessivas tentativas, tivera com a operadora — de quem fora fazendo amiga e aliada - julgara identificar problemas de pessoal e de organização que levavam à insuficiência de serviço de que fora vítima. A seguir ao último ensaio vão de atingir Nova Iorque, metera pena ao tinteiro (era assim que gostava de escrever) e passara o resto da madrugada e a manhã a compor uma carta sugerindo soluções ao director da Marconi, que acabara de ir entregar na sede da companhia, já não me lembro em que rua da Baixa pombalina. Era um português transitivo.

 

A esse primeiro encontro seguiram-se outros, ao acaso de circunstâncias. Vindo do Conselho de Segurança, ficou em minha casa em Estrasburgo numa visita ao Conselho da Europa. E, ministro dos estrangeiros quando Francisco Balsemão era Primeiro-Ministro veio com ele numa viagem oficial a Maputo ao fim da qual negociou com Chissano, seu homólogo moçambicano, o comunicado de imprensa. Eu participara antes na negociação de outro comunicado de visita oficial a Moçambique, dessa vez do Presidente da República, sempre com Chissano do lado de lá, mas com outro ministro dos estrangeiros do nosso lado. Ambas as sessões foram correctas e eficazes mas na segunda, mal se sentara à mesa e haviam sido trocadas as cortesias de circunstância, Chissano tinha já, por assim dizer, absorvido dois valiums que o charme de Vasco infiltrara nele e passamos todos a seguir uma hora feliz.

 

Esse charme legendário, ao serviço de considerável intelecto e de uma curiosidade voraz, ajudou muitas vezes Vasco Futscher a levar a água ao seu moinho mas havia quem lhe fosse insensível. Nessas ocasiões o meu amigo ficava, como o desertor do poema de Desnos, a parlamentar com sentinelas que não compreendiam o que ele lhes queria dizer. Mas, do começo ao fim da vida, tal aconteceu-lhe muito raramente. Quando ele morreu dei por mim, que sou ateu tal como ele era, a imaginar a conversa com S. Pedro em que o Santo, seduzido, lhe abria as portas do céu.

 

Comunicações diplomáticas suas em momentos complexos da história portuguesa, páginas do seu diário, testemunhos de colegas e amigos nutrem a narrativa, recordando o diplomata excepcional que ele foi (e pondo muito justamente em relevo ter sido ele quem, em ocasião crítica, mantivera viva a causa de Timor-Leste nas Nações Unidas, tornando assim possível a independência negociada do país anos depois). Toda a gente que com ele - ou contra ele - trabalhou sentiu o cunho da sua personalidade invulgar na aplicação das regras intemporais da arte diplomática. O poder de uma pequena potência pode ser aumentado pelo talento eficaz de quem a represente e o exemplo de Vasco Futscher afinou a minha capacidade de avaliar o desempenho dos diplomatas. Desde então tenho para mim que um embaixador mau não representa o seu país, que um embaixador razoável representa o seu país – e que um embaixador bom disfarça o seu país.

 

O encanto e interesse de "Retrovisor" não se esgotam no que nos diz ou sugere sobre os dois personagens principais. Amor filial não impede a autora de contar feitos e mostrar caras de muitas outras pessoas, situando nos seus lugares e no seu tempo os múltiplos actores e actrizes desta saga, desde os que já morreram há muito tempo aos que agora começam as suas vidas. E aprendem-se coisas. Eu, por exemplo, não sabia que o Bernardo, meu antigo chefe de gabinete na União da Europa Ocidental, tinha sido campeão nacional de florete dos menos de 20 anos - e descobri que o primeiro Futscher chegado a Portugal, no século XIX, fora um austero suíço alemão protestante - e não, como eu imaginara do convívio com Vasco, um judeu céptico e bon vivant do Império Austro-Húngaro.

 

 

 

José Cutileiro*

in Negócios Estrangeiros . Nº 15 - Dezembro de 2009.  pp. 179-181

 

 

1. A thing of beauty is a joy forever.

 

* Embaixador

 

 

 

Na fotografia, da direita para a esquerda:

Vasco Futscher Pereira, Mª Helena Brion Pinto, Mª Madalena Brion de Vasconcelos, Margarida Futscher Pereira, Amândio Pinto, António Teixeira de Vasconcelos, Maria do Carmo Brion Sanches.

 

 

 


15.8.09

 

 

Querida Vera,

 

serve o presente para te dizer o quanto aprecio o trabalho de investigação e de (re)criação a que te entregaste. Sem querer cair na vulgata psicanalítica, o resultado deste teu "investimento" pessoal e afectivo é um exemplo feliz de "sublimação" ou não fosse a vida uma alquimia onde calcinamos as frustrações e o sofrimento no fito de chegarmos ao ouro do "conhecimento"  de nós próprios e dos demais.

(J.A.S.)

 

 

O comentário foi deixado aqui pelo meu amigo Jorge, antes mesmo de ter folheado o meu livro ou lido a sua epígrafe, que retirei de Uma Infelicidade Maravilhosa, ensaio dedicado aos processos de cicatrização das feridas do passado.

 

Revisitar o passado para o (re)criar, como tão bem diz o Jorge, corresponde quase sempre à necessidade de conferir um sentido ao sofrimento. No lançamento de Retrovisor, não abriu o meu irmão o seu discurso de apresentação interrogando-se sobre as razões que levam a escrever um livro deste tipo? Para logo citar famosa frase (de Tolstoi, em Anna Karenina): "As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira".

 

 

Que diz Cyrulnik?

 

Tal como a felicidade, a infelicidade nunca é pura. Mas, assim que construímos a sua história, conferimos um sentido aos nossos sofrimentos e compreendemos, muito tempo depois, como pudemos transformar um infortúnio em algo de maravilhoso, pois qualquer homem agredido é obrigado a metamorfosear-se.

 

A leitura de Uma Infelicidade Maravilhosa foi esclarecedora porque sendo embora impensável comparar os meus infortúnios com as provações suportadas pelos homens e mulheres de que este livro nos fala — permitiu-me compreender melhor certos aspectos da minha história pessoal. Confortaram-me, ainda, a confiança e o optimismo que o autor transmite, ao debrucar-se não tanto sobre os danos provocados pelo trauma mas antes sobre os processos de reparação:

 

O que é interessante para o nosso tema é o facto de todos os que conseguiram ultrapassar as suas dificuldades terem elaborado, muito cedo, uma “teoria da vida”, que associava o sonho e a intelectualização. Quase todas as crianças resilientes tiveram de responder a duas questões. A primeira, «porque tenho de sofrer tanto?», levou-as a um processo de intelectualização. A outra, «apesar disso, como farei para ser feliz?», incitou-as a sonhar.

 

 

 

 

Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira

Editora Âmbar

© Éditions Odile Jacob, 1999

 

link do postPor VF, às 13:27  comentar

4.8.09

 

 

Museu do Chiado, 4 de Maio de 2009

Fotografia de Vladimir Castro Rodas


 

Passados três meses sobre o lançamento de Retrovisor, um Álbum de Família, recebi já uma série de comentários de leitores, a quem dedico este 'post', com a minha sincera gratidão. Num país em que o silêncio é por vezes ‘ensurdecedor', as reacções dos meus leitores encorajam-me a partilhar aqui algumas das suas observações.Será mais uma pista da exploração que me propus fazer, neste espaço, e na sua companhia, Caro Leitor, quando inaugurei este blog em torno do meu livro e dos temas que aflora.

Palavras de leitores:

No dia em que lançaste o livro vim para casa e comecei a ler, foi tipo devorar. E tem andado aqui em cima da minha mesa de trabalho.

J.M.

Recebi hoje de manhã o teu 'Retrovisor' e passei a tarde a lê-lo.

M.N.F.

 

Muito lhe agradeço o envio do livro sobre a vossa família que li num só “trago”.

P.L.M.

Depois de várias aberturas e leituras gostosas aqui e além no livro, li ontem à noite 'Retrovisor' de fio a pavio…

J.C.

Li finalmente o teu livro, ontem à tarde, de uma assentada.

Bastará isto para que vejas que gostei.

R.C.D.

 

Com efeito, nada me poderia dar maior satisfação. Julgo que qualquer autor sente o mesmo.

 

Pus um grande cuidado na fluidez do texto, ou, melhor dizendo, na sequência dos vários e diferentes textos de que o livro é composto, e foi essa a minha maior preocupação na ‘costura’ final dos capítulos. Creio que foi a ler e, talvez mais ainda, a ver filmes, que compreendi toda a importância do ritmo da narração, de manter o espectador informado, e do cuidado a ter com o “raccord” entre cenas, para evitar incoerências, por mais pequenas que sejam, susceptíveis de o confundirem. Ao longo da paginação do livro, no atelier de Patrícia Proença, muitas fotografias e páginas foram mudando de lugar até me certificar de que as respectivas legendas e outros conteúdos não interferiam no fio narrativo.

 

Imaginei o meu álbum de família como um “filme”, e do cinema e suas metáforas me tenho socorrido por mais de uma vez. Hoje, graças aos amigos (e alguns, poucos, desconhecidos) que leram Retrovisor e tiveram a generosidade de mo comentar, declaro-me satisfeita com a "montagem".

Sobre este tema, recomendo um livro que li quando comecei a escrever o meu:

 

Folheie o livro aqui

 

 

 

Imagem:  No lançamento de Retrovisor, na Cafetaria do Museu do Chiado em Lisboa.

 

introdução de Retrovisor, um álbum de família está aqui

 

Para saber mais sobre a feitura do livro clique na tag “retrovisor”.

 

link do postPor VF, às 14:18  comentar

15.11.08

 

 

 

 

 

 

Em 2002 decidi-me a arrumar as fotografias e os papéis de família, mais de vinte anos após o desaparecimento dos meus pais. Era uma grande quantidade de documentos e, antes de fechar tudo em caixas, senti o desejo de transmitir aos meus sobrinhos alguma coisa da vida e do mundo destes seus avós, cuja história é também a de um percurso ao serviço de Portugal, antes e depois do 25 de Abril.

 

Com as imagens que tinha à minha disposição era possível pensar numa fotobiografia da minha família. Devo confessar que só comecei a escrever depois de a designer gráfica me perguntar pelo texto, na nossa primeira entrevista. À medida que fui avançando, foram-se juntando à minha narrativa outras vozes: as dos protagonistas, através dos seus escritos, e as de autores de que me socorri para melhor descrever determinados contextos e personalidades.

 

Agora que o álbum de família de Margarida e Vasco Luís Futscher Pereira está praticamente fechado, abro este blog para anunciar a conclusão próxima do meu projecto aos familiares e amigos que por ele se interessaram e me ajudaram a concretizá-lo. Daqui para a frente, é na companhia deles, e também na sua, Caro Leitor, que gostaria de explorar um pouco mais os mesmos temas neste espaço interactivo.

 

 

 

 

 

 

 



pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo