8.3.17

 

José Cutileiro

 

 

Na caixa do supermercado

 

 

No sábado à tarde, quando, com a minha mulher, empurrando num carrinho o que ia comprar, cheguei junto das caixas só estava aberta a última das três – a do velho pequeno, calvo, irritadiço e rabugento. Chamo-lhe velho, embora ele tenha com certeza mais de vinte c cinco anos menos do que eu, assim como posso chamar a antigo condiscípulo na Valsassina um rapaz da minha idade: manhas de sobrevivência que querem dar vestígio de doçura à vida e não se inventam por mal. Chamo-lhe rabugento porque, entre o ano saia o ano, faça chuva ou faça sol, no calor dos verões bons ou no frio dos invernos maus, foi sempre assim que o vi, agastado por a máquina se recusar a ler etiquetas de preço, por frutos não terem sido pesados, por não ter chegado ainda à caixa outro empregado que tivesse chamado pelo telefone, por causas de mim desconhecidas que o levem a murmurar sombriamente consigo mesmo palavras indistintas. Funambulista das relações humanas, nunca cai: não chega a ser malcriado com a clientela e nem tampouco a ser acolhedor.

 

La Grande Épicerie onde passamos depois do golf da Myriam antes de seguirmos para casa é a última escala contra mundo dos rituais da semana e quando vejo o velho na sua caixa, sempre a mesma, procuro se possível sair por uma das outras, onde as mesmas raparigas belgas, magrebinas ou ucranianas, que vão variando com as semanas, se ocupam de nós sem imposição lúgubre de personalidade. Neste sábado tal não foi possível e ainda bem porque aconteceu, inesperadamente coisa extraordinária. Enquanto passávamos as compras do carrinho para o tabuleiro rolante que vai dar à caixa o velho que falava com o cliente anterior, já despachado, deu uma gargalhada e, não me tinha eu refeito do espanto, porque não fora sequer sarcástica, mais outra e outra ainda, de riso aberto e generoso. O cliente ria também, contente, em frente dele e saiu a seguir para o parque de estacionamento. O velho voltou-se para nós e eu disse-lhe:

 

 

“O Senhor vai desculpar-me o que eu lhe vou dizer mas nunca o vi tão feliz”.

 

 

“Devo tomar as suas palavras como um cumprimento?”

 

“Com certeza.”

 

 

“É que nunca estive tão feliz. Nem julguei que me pudesse alguma vez acontecer. Mas aconteceu, há umas semanas. E na minha idade. Encontrei a mulher dos meus sonhos” (falávamos na sua língua, o francês da Walónia, e o que ele disse foi J’ai trouvé la perle rare que é uma das imagens conhecidas da língua francesa para referir momento assim) “Nunca pensei que me aconteceria a mim” repetiu e ria, olhando-me nos olhos, contente de estar feliz.

 

Paguei, pusemos os sacos no carrinho e saímos para o parque de estacionamento. Tinha parado de chover e pensei que se eu acreditasse em espíritos e mesas de pé de galo procuraria quem pudesse conjurar Maupassant ou Tchecov ou O. Henry para eu lhe contar a história e ele fazer dela o que quisesse. Assim, pensei que só é pessimista quem quer. E que – longe vá o agoiro – é capaz de haver Deus.

 

 

 

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1.3.17

 

 

José Cutileiro

 

Duas na ferradura

 

Ia começar a escrever mais este Bloco (chamo-lhes Bloco-Notas e a Vera consente-me tal liberdade poética por ter um grande coração; ao se referir a eles ela própria chama-lhes Blocos de Notas que é como se deve dizer) quando tive o meu filho ao telefone que, entre outras coisas, me contou haver recebido de presente a História da Segunda Guerra Mundial de Winston Churchill (versão abreviada, só com cerca de mil páginas) e estar a antecipar o gosto de a ler. Churchill dizia que a História o iria certamente tratar bem porque tencionava ser ele a escrevê-la e assim foi; embora ajudantes eminentes, eles próprios historiadores, tenham molhado a sopa como também era inevitável e costumeiro noutras artes – Miguel Ângelo não deu todas as pinceladas precisas para acabar o teto da Capela Sistina, nem tampouco foi Wolfgang Amadeus a lançar no papel todas as notas das suas partituras. O Zézinho – a graça do meu filho é José, como é a minha e como fora a do meu Pai; o nosso sistema de parentesco é cognático com forte pendor patrilinear mesmo depois da extinção dos morgadios; o diminutivo resulta de inclinação linguística portuguesa e senioridade nas famílias – é, como o pai, grande apreciador de Churchill e perguntou-me se eu sabia o que é que Winston considerava o mais forte argumento contra a democracia? Não. Eu só conhecia o mais forte a favor (o pior sistema de governo tirando todos os outros). O mais forte argumento contra era conversa de dez minutos com um eleitor médio. Em qualquer dos nossos países.

 

O que durante as décadas a seguir a guerra (1939-1945) cujo resultado permitira a sobrevivência das democracias parlamentares ocidentais (e, como moda nova, também em outras partes do mundo) fora tomado por graça elitista travessa de que a gente se ria e de que se esquecia a seguir, dói agora até ao osso…. depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e da escolha dos cidadãos do Reino Unido de saírem da União Europeia, no ano passado; da desfaçatez de Geert Wilders nos Países Baixos e de Marine Le Pen em França, um e outra à beira de eleições nos seus países e aparecendo muito altos nas preferências dos eleitores em sondagens de opinião – espuma fumegante sobre caldo a ferver de ódio a estrangeiros, de preferência da força sobre a razão para dirimir questões com outra gente – Trump a querer estar sempre à frente na corrida aos armamentos o que é prudente mas não devia ser badalado assim e a cortar dinheiro que faria baixar tensões e tornar guerras menos prováveis; para não falar de países de Leste na Europa em que demãos apressadas de democracia estão a estalar depressa e a deixarem à vista indecências de poder e de vida que eram o pão nosso de cada dia nas sociedades criadas e sustentadas pela União Soviética.

 

As duas na ferradura? É que o ferreiro não acerta: para lá do que vemos não percebemos nada. Sabemos que os remédios populistas receitados fazem a emenda pior do que o soneto, mas qual é o bom caminho? 

 

 

 

 

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22.2.17

 

 

José Cutileiro

 

 

Uma Europa alemã?

 

 

 

Os Deuses estão outra vez zangados connosco, pensariam Reis e Pontífices olhando à volta e talvez mandassem sacrificar vacas ou virgens se os tempos fossem para tais estratagemas. Mas não são: já não é por aí que o gato vai às filhoses. Na Europa, o Vaticano resistiu enquanto pôde mas Angelo Roncalli, mais conhecido por João XXIII, a cuja memória Pasolini dedicou o filme O Evangelho segundo S. Mateus, convocou o Concílio Vaticano II e começou uma grande mudança, tão grande que sobreviveu aos rigores do Papa polaco e ganha ânimo novo com as larguezas do papa Francisco. O meu chorado Nuno Bragança, católico progressista como se dizia na altura mas entusiasta lúcido desse progresso, achava que se João XXIII houvesse vivido mais dez anos “tinha dado cabo de tudo”.

 

Mas o Vaticano não é membro da União Europeia e é por causa do estado desta que tanta gente hoje dorme mal. Ataques a “união cada vez mais chegada” dos europeus, prometida fará sessenta anos no mês que vem no preâmbulo de tratado assinado em Roma, têm sido bem-sucedidos e outros estão na calha. Primeiro, o chamado Brexit, em que aldrabões sem vergonha convenceram populações inglesas ignorantes e (pela primeira vez há um século) mais pobres do que os pais tinham sido, de que seriam mais ricas e poderosas fora da União Europeia do que dentro dela. Mentira patética mas, com determinação de manada de bisontes trotando para se afogar no mar, políticos e burocratas meteram mãos à obra e não se vê marcha atrás. Segundo, o chamado Presidente Trump, maluco com mau fundo, que baixou para abismos inéditos os níveis - moral e intelectual - exigidos pela função sem que tal pareça ofender a sua base eleitoral, considera a Alemanha perigo maior do que a Rússia, e está constitucionalmente ao abrigo de junta médico-psiquiátrica. Terceiro, no futuro próximo, eleição provável de populistas na Europa. Em Março o partido de Geert Wilders deverá vir à cabeça na Holanda. Como a hipocrisia holandesa – que deveria ser património cultural distinguido pela UNESCO – não o deixará governar, coligação de outros se encarregará de ir aplicando o seu programa à socapa. A seguir em França Marine Le Pen poderá ser Presidente e, querendo proteger a produção nacional e sair do Euro, fará o descabello do touro europeu, malferido pela estocada do Brexit.

 

A esperança está na Alemanha onde há eleições em Setembro. A insistência desta na manutenção indevida de enorme superavit e a sua cegueira luterana diante das dívidas que a austeridade, em lugar de aliviar, vai aumentando não deveriam animar ninguém a vê-la como base de sustentação do que restar da Europa. Mas quer Merkel quer Schulz são europeístas convictos e Senhora que ousou abrir os braços a todos os desgraçados do Médio Oriente saberá explicar aos seus que poderão deixar reestruturar a dívida grega sem sequer darem por isso.

 

Ao princípio a ideia fora europeizar a Alemanha. À vista está a germanização do que resta da Europa. É a vida.

 

 

 

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15.2.17

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Dores de cotovelo

 

 

Quando eu era novo, dor de cotovelo queria dizer dor de corno mas de maneira bem-educada. Se noivo ou namorado (ou noiva ou namorada) de repente suspeitava ou confirmava suspeita de traição da bem-amada (ou do bem-amado) o incómodo moral e físico que tal provocava: um sei bem quê que nasce sei bem onde, vem sei bem como e doe sei bem porquê (viro do avesso farrapo de Camões, em vez de procurar palavras minhas, porque o tempo não está para extravagâncias e, se não pouparmos em tudo, os guardas alemães e holandeses, gabarolas do superavit, que há meia dúzia de anos nos obrigam a fingirmos que somos como eles mais ainda se darão ao gosto de nos atormentar. Há quase um século e quase ao fundo do Hemisfério Sul, apanhado em apuros quejandos, o chileno Pablo Neruda escreveu “De outro, será de otro, como antes de mis besos/ Su voz, su cuerpo claro, sus ojos infinitos.” Pablito, chamavam lhe as criadas de casa dos pais, não estava obrigado por critérios de Maastricht e, antes de se meter a compor Odes compridas e apatetadas ao camarada Estaline, tinha talento a rodos. “Ya no la quiero es cierto pero talvez la quiero/Es tan corto el amor y es tan largo el olvido.”

 

Dores de cotovelo. Não sei se o termo ainda se usa no português falado pela gente nova: não vivo cá e o meu neto é holandês. Sem ser por mal, dou por mim agora a passar mais tempo com gente velha e aí descobri rudimentos de nova forma de correcção política. Parece que, para velhas e velhos se sentirem ainda integrados, se lhes deva falar – e falar deles – como se faz com as crianças, mas adaptando. “Ai, está a mirrar tão bem! Um dia destes está mais baixo que a avó.” “Então já lhe caíram mais dentinhos?” “Desde o Natal anda a esquecer-se de quase dez palavras por dia”, etc.  Adiante – se é esta a palavra indicada – e voltemos ao cotovelo.

 

Alentejano arguto, há muito amigo do coração – e, ao contrário de tantos conterrâneos seus, despachado, viajado e poliglota – embrenhado agora em vida de Cristo bem narrada por erudito sábio, encontra paralelos entre a Jerusalém que os romanos acabariam por arrasar e onde Jesus foi executado (para aclamação dos seus compatriotas que preferiram salvar Barrabás a salvá-lo a ele) e os sobressaltos violentas do nosso tempo, a chocarem fascismos. (Cesário Verde percebera: “A dor humana busca amplos horizontes/E tem maré de fel como um sinistro mar”). Segundo o meu amigo, e eu estou de acordo com ele, quando nós eramos novos – eu sou mais velho uma década e picos mas nessa altura a diferença parecia muito mais pequena do que parece agora: daí a dez anos o mais novo seria como o mais velho. A vida abria-se diante nós, estrada direita até onde a vista alcançasse. Agora, daqui a dez anos o mais novo será como nada que se já conheça hoje. Fecha-se diante de nós um cotovelo que, até lá chegarmos, não percebemos para onde se irá abrir.

 

Uma broncalina do camandro, diria o meu chorado António Garcia. Ou então: uma Bernardette do caboz.  

 

 

 

 

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8.2.17

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José Cutileiro

 

 

 

Guerras dos Balcãs

 

 

 

Agosto de 1992 no bar do White’s. Peter Carrington fizera as apresentações. “Lord King: British Airways. José Cutileiro: ele e eu destruímos a Jugoslávia juntos”. King mediu-nos de sobrolho carregado e respondeu: “Tiveram alguma ajuda.” Muitos anos antes, outro inglês inventara fórmula lapidar, evidente nos tumultos e confrontações do nosso tempo naquela parte do mundo que Lord Carrington fora mandatado pelas Comunidades Europeias a resolver (encarregando-me a mim da Bósnia). Escrevera Churchill: os Balcãs produzem mais História do que aquela que são capazes de consumir. A ocasião mais célebre, assassinato em Sarajevo do herdeiro do Império Austro-Húngaro por estudante sérvio em Junho de 1914 levara à primeira guerra mundial – a Grande Guerra.

 

Em 1991 Mitterrand dissera a próximos seus que, se as Comunidades Europeias não existissem, as tensões com a Alemanha teriam sido ingeríveis – mas a gestão foi mais questão de maneiras do que de equilíbrio de interesses. A Alemanha impôs reconhecimento prematuro da Croácia aos franceses e aos outros parceiros (em 1945, a Croácia rendera-se aos aliados uma semana depois de Berlim), tirando força à Conferência Carrington. Depois disso, porém, salvo alguma ajuda dada aos kosovares (inimigos dos sérvios meus amigos são) portou-se outra vez com decência rara em grandes países.

 

Depois da morte de Tito em 1981 a Federação Jugoslava era construção frágil. Dominada por ele que, saído do lado vencedor da guerra, soltando-se do jugo de Estaline e sendo ajudado em troca pelas potências ocidentais declarou ter inventado regime novo, uma espécie de ‘terceira via’. Na realidade, era como se meretriz num bordel tivesse decidido sair, estabelecer-se por contra própria e chamar à nova empresa colégio de freiras. Sobreviveu à morte do fundador mas, dez anos depois, não resistiu ao fim da Guerra Fria. As guerras que se seguiram, na Croácia, na Bósnia, no Kosovo atingiram cumes de crueldade semelhantes aos das Guerras Balcânicas de 1912 e 13 – muito distantes da papelada moralista emitida por Nações Unidas e União Europeia. 

 

Já no século XX, à beira de extinção, Império Otomano e Império Austro-Húngaro digladiaram-se nos Balcãs; medram por lá memórias de ambos e uma Sérvia independente tão marcada pelas peripécias da História que o lugar mais sagrado do seu território é no Kosovo, onde a grande batalha patriótica – a Aljubarrota deles, também travada no século XIV – foi uma batalha perdida. E nhurros como touros enquerençados.

 

Consumidores de História a mais pairam constantemente, como abutres. Os Estados Unidos de Bill Clinton viram em Sarajevo governo muçulmano que lhes convinha ajudar, fizeram durar a guerra e os seus desastres mais três anos do que preciso, e inventaram depois paz que só presença militar estrangeira garante. Fortalecendo de caminho tradição criada no Afeganistão de ajudar e armar inimigos jurados do seu país e do Ocidente em geral.

 

Amiga queria saber dos Balcãs. Chegará?

 

 

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1.2.17

 

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José Cutileiro

 

Casa Branca, Nau Preta, felicidade na Austrália…

 

 

Coitada da Casa Branca. Álvaro de Campos faria troça dela mas ninguém ligava, sobretudo porque pouquíssima gente lia o estimável engenheiro ou sabia que ele era heterónimo do tradutor-correspondente Fernando Pessoa, namorado de Ofélia Queiroz, freguês do tinto do Martinho da Arcada e, dessa gente, alguma poderia perguntar-se se seria a Casa Branca de Washington (construída por escravos, incendiada pela tropa inglesa em 1812; as voltas que o Mundo dá…) ou quiçá a que dera o nome a entroncamento ferroviário da linha do Sul e Sueste, depois de Pinhal Novo, já no Alentejo, saída de ramal que ia a Évora e deitava a Reguengos de Monsaraz, enquanto as carruagens do comboio principal continuavam para Sul passando por Beja e acabando no Algarve de aquém mar.

 

Na Casa Branca do começo do Alentejo estive quando era pequeno, indo às vezes, no Verão, comprar bilhas de água à plataforma da estação; na de Washington, D.C. só uma. Jantei lá em 1999 quando o Tratado de Washington – fundamento legal da O.T.A.N. – celebrou 50 anos e, havendo a O.T.A.N acudido à Bósnia-Herzegovina depois do acordo de Dayton de 1995 em que os americanos meteram paz pelas goelas abaixo de sérvios, croatas e muçulmanos, que a engoliram com a pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino (tal como Jacinto, em Paris, a preparar-se para Tormes) já a maioria dos proponentes da extinção da Aliança Atlântica tinham metido a viola no saco. Que nos sirva de lição que sem as sangrentas desavenças balcânicas – e com a Rússia tentando ajeitar-se mal aos instintos democráticos do bom Boris Nicolaevitch em vez de se submeter contente aos instintos autocráticos do pérfido Vladimir Vladimirovich - talvez os proponentes entusiásticos da paz perpétua Kantiana, crentes no fim da História, houvessem levado a sua avante e agora nem O.T.A.N tivéssemos.

 

Mas temo-la e, com sorte, irá resistir aos tumultos do 45° presidente dos Estados Unidos a quem a mudança da possidoneira dourada em estilo Luís XVI da penthouse de Trump Tower, na 5ª Avenida de Manhattan, instalada a seu mando e gosto, para o n° 1600 de Pennsylvania Avenue, Washington, deverá ter feito enorme confusão. Vindo daquele pastiche despropositado de monarquia absoluta, bem calhado com a sua maneira de ser - quer no pastiche quer no absolutismo - talvez nalgum pesadelo haja perguntado a si próprio se passara de cavalo para burro. Comparada com os palácios de Buckingham e do Eliseu para não falar do Kremlin, a Casa Branca quase faz ternura de tão provinciana e despretensiosa, assim uma espécie de solar de senhor local, homem de palavra – mulher ainda não houve - respeitado pelos criados, estimado na vizinhança, e seguro de ser quem é. Quando Jack Kennedy convidou duas dúzias de prémios Nobel disse-lhes que debaixo daquele tecto nunca estivera tanto talento, com a possível excepção das noites em que Thomas Jefferson lá jantara sozinho. Agora são outros tempos. Coitada da Casa Branca.

 

 

 

 

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25.1.17

 

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José Cutileiro

 

Um caso clínico

 

 

 

 

A seguir à vitória de Trump as bolsas subiram, o FMI disse que com ele a economia cresceria mais, as associações industriais, sobretudo as PME dentro destas, rejubilaram, comentadores de direita acharam menos pecados em Trump do que nos esquerdistas que o atacam agora por toda a parte. Com efeito, os excessos do pato-bravo bilionário de Brooklyn convidam a escrutínio igualmente exigente do folclore oposto, bem à vista na Europa nas primárias socialista de França para escolher candidato à presidência da República: o vencedor da primeira volta – e deverá vencer a segunda – ganhou popularidade que lhe deu o triunfo por propor que cada francês/a passasse a ter à nascença subsídio para a vida (em 2012, o que provavelmente fez Hollande ganhar a Sarkozy foi anunciar, a meio da campanha, 75% de imposto a rendimentos anuais superiores a 1 milhão de Euros). Os franceses – os europeus ocidentais em geral – habituaram-se a viver com room service incluído mas continuam a achar que não deveria haver gente muito mais rica do que eles.

 

Nos Estados Unidos, o Partido Democrático, cuja incompetência contribuiu tanto ou mais para a eleição do grande narcisista do que inépcia do Partido Republicano – são as elites, gargarejam quase engasgados de contentamento os populistas – entrou em movimentação frenética, uma espécie de Tea Party liberal (dizem eles lá; aqui nós diríamos esquerdista) para encontrar rumo e tento antes de 2020 e não apanharem 8 anos do pato-bravo. Vai ser animado e é impossível prever se Trump será presidente de um mandato – Carter, Bush pai – ou de dois mandatos – Reagan, Clinton, Bush filho, Obama. E aí não há politólogo que nos valha mas talvez um alienista, como chamavam dantes aos psiquiatras.

 

Porque a questão da presidência de Donald J. Trump não é do foro político. A sua tomada de medidas prometidas na campanha logo nos primeiros dias de mandato, feita embora com espalhafato próprio, está na tradição (por exemplo, democratas facilitam o aborto; republicanos dificultam o aborto), podem ser mais ou menos sensatas (por exemplo. acabar com “Obama care” antes de instalado sistema equivalente irá lesar milhões de pessoas que, na maioria, votou Trump), podem levantar objecções fundadas e criar problemas futuros (por exemplo, sair de acordo comercial com países do Pacífico) mas política com alternância no poder foi, é e será sempre assim.

 

O que é novo, a não ser em monarquias hereditárias, é pôr no topo do poder do Estado alguém egocêntrico, infantil, incapaz de reflexão prolongada, patologicamente susceptível e aí baralhando pessoa e cargo, vaidoso, vingativo (segundo biógrafos seus, nas insónias não medita: pensa em dinheiro, sexo, comida ou vinganças que estejam por cumprir). Somos todos Narcisos (as águas do lago não sabiam se ele era belo ou não porque só tinham olhado para si próprias nos seus olhos) mas ser tanto e em tão alto lugar, cola ao mundo aviso igual aos de estações elétricas: Perigo de Morte.   

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18.1.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

 

Lembranças do Verão Quente

 

 

 

 

Quando eu era pequeno e o Avô dizia ter estado com “um rapaz do meu tempo” eu achava que o Avô era parvo porque era velhíssimo, o seu contemporâneo sê-lo-ia também e rapazes começávamos a ser nós, os do meu tempo, de calças à golf, já com olho nas calças compridas. (O Avô veio a morrer bem mais novo do que eu sou hoje mas essa é outra história).

 

Na Escola de Belas Artes de Lisboa, vindo da Brasileira e metendo pela Rua Ivens, no Largo de S. Francisco, sendo lá porteiro o Sr. Cruz, com farda de contínuo e boné de pala azuis escuros, fazendo do vestíbulo rito de passagem entre os perigos do mundo exterior e as bem-aventuranças do seu território (“As Belas Artes é aqui?” perguntavam-lhe às vezes. “Bem”, respondia, “aqui há duas repartições. Há a Escola de Belas Artes e há a Academia de Belas Artes. Se vem para a Escola de Belas Artes é aqui. Se vem para a Academia de Belas Artes também é aqui”, seguindo-se conversa longa até indicação precisa da porta seguinte a que a visita devesse bater), as coisas refinaram. Havia movimentos artísticos e pulsões políticas. O Vasco Croft um dia disse-me, à saída de exposição de alguém do nosso tempo, meio trocista: “Brinca, brincando o tempo passa - e qualquer dia somos uma geração”.

 

Lembrei-me dessa sentença, devido às lufadas de 25 de Abril, às vezes polémicas, trazidas pelo desaparecimento de Mário Soares no dia 7 deste mês. (Disparate repete-se: Soares seria o responsável de “descolonização vergonhosa”. Ora a descolonização foi como foi porque a colonização, sobretudo nas últimas décadas, tinha sido como tinha sido – e porque a partir de 26 de Abril a tropa portuguesa se recusou a dar mais um tiro ou sequer a fingir que o poderia dar). Mas há já várias gerações para quem o 25 de Abril foi sempre no passado; o que li e ouvi neste par de semanas é diferente para os que se lembram como eu e para quem tenha uma vaga ideia dos pais lhe terem contado. E ocorrem-me coisas de que já nem me lembrava e apetece-me registá-las para que não se percam de vez. No verão de 1975, o chamado “verão quente” ardiam de vez em quando sedes do PC no Norte de Portugal, em Londres à hora do almoço o telefone começava a tocar na central e depois de posto em posto até alguém atender e nesse dia chegou ao meu gabinete. Eu era Conselheiro Cultural. Estava um sol luminoso, mais lisboeta do que londrino. Senhora de boa sociedade disse-me que tinha marcado há meses férias em Portugal mas estava assustada com o que via na televisão e nos jornais e perguntava à embaixada se era seguro ir. Respondi-lhe que era com certeza seguro. Insistiu, duvidosa. Repeti com mais pormenor e mais convicção ainda o meu louvor da hospitalidade portuguesa. Tornou a insistir. Perdi a paciência.

 

“Are you a Communist?”

 

“I beg your pardon!” abespinhou-se a minha interlocutora.

 

“If you are not a Communist you have nothing to worry about down there.”

 

“O” - e depois de um silêncio, secamente: “Thank you very much.” E desligou.

 

 

 

 

 

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11.1.17

 

 

 

Mário Soares

 

Mário Soares

1924-2017 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O bey de Tunis

 

 

 

O bey de Tunis entrou na literatura portuguesa na manhã em que Eça de Queiroz se serviu dele para acudir a um writer’s block. Prometera na véspera ao director do jornal que teria o artigo pronto para ele no dia seguinte. O moço da tipografia que viera buscá-lo esperava no pátio, andando de um lado para o outro com botas que rangiam. Mas a noite passara, a inspiração não chegara e agora, entre a espada e a parede, Eça, sem outro tema que lhe passasse pela cabeça, resolvera atacar o bey de Tunis – com má consciência, porque o que sabia do bei dava este como homem perfeitamente estimável e, ainda por cima, julgava ter visto algures que ele tinha morrido. Pouco importava. “Em Tunis há sempre um bey” decretou – e deu cabo dele.

 

Ou pelo menos assim resolveu dizer aos seus leitores e ao também escritor Pinheiro Chagas a quem treplicava. Eça escrevera em artigo publicado numa revista duas passagens cujos conteúdos haviam indignado Pinheiro Chagas: que a nossa colonização no Oriente fora um monumento de ignomínia e que no começo do século XIX Portugal fora uma colónia do Brazil. Num artigo de jornal Pinheiro Chagas replicara, com argumentos recheados de erudição (num deles evoca as Molucas, levando Eça a perguntar-lhe na sua tréplica: “Pois todas as Molucas, Pinheiro Chagas?) e condenara Eça pela insuficiência do seu conhecimento e a sua falta de patriotismo. Agora Eça, com talento polémico e leveza de prosa muito superiores aos do outro, considera Pinheiro Chagas um brigadeiro da campanha do Roussilhão que “sabiam deitar fundilhos numas calças e estavam convencidos de que Deus era padre” e diz-lhe por fim “Você, meu caro Pinheiro Chagas, não ama a Pátria, namora-a”. Pretendendo fazê-lo para desculpar Chagas dos disparates que contra ele dissera, inventa sardonicamente a história do bey de Tunis explicando que sabia bem quanto a falta de inspiração era razão de tantos disparates que se publicam nos jornais. (Ou diz isto por palavras suas, melhores do que as minhas, porque cito de memória e não vale a pena contar outra vez à leitora quanto a memória é traiçoeira: tanto ou mais do que as mulheres garantiu-me há anos, sem estar bêbado, um marialva desmemoriado).

 

Os tempos não são bons. Estamos a poucos dias de Trump dispor dos códigos secretos, isto é mais perto do que alguma vez estivemos de uma guerra nuclear – e de muitas outras arrelias convencionais. E Mário Soares deixou-nos. Entre Setembro de 1974 e Novembro de 1975, sempre que vinha de Londres a Lisboa tentava ir ver, antes de quaisquer outros, o mais pessimista e o mais optimista dos meus amigos, traçava a bissetriz entre o que cada um deles me dizia e sabia em que Portugal estava. Mais tarde, com a Pátria outra vez pacata, quando Victor Cunha Rego se foi embora procurei tentar substituir o pessimismo dele pelo meu. Não foi fácil mas não foi impossível. Mas o optimismo de Mário Soares não o encontro em mim e fiquei agora sem saber em quem o possa encontrar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


4.1.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

Ano Novo, vida nova

 

 

Pelo menos desde a passagem de ano de 1986 a 1987 – isto é, a primeira já com Portugal membro das Comunidades Europeias – tal exortação exprimia ‘pensamento desejudo’ - assim o meu chorado Gérard traduzia ‘wishful thinking’ - e não previsão sensata dos dozes meses que se seguiriam, partindo evidentemente do princípio que a contagem não fosse interrompida por girândola nuclear, deliberada ou acidental, sempre possível quando a segurança de cada um dos dois lados é garantida pela convicção mútua de que quem sair a matar mata mesmo mas será morto também. Tão convencidos estávamos todos disso que, como o leitor “tenebroso e cruel e tonto e traste” que comprara sonetos garantidos por dois anos ao meu chorado Alexandre, críamos nos marcianos mas não víamos a bomba. Não víamos nem vemos. (Alexandre; Gérard: com a idade, os mortos vão-se metendo mais e mais nas conversas. Lembram-se de coisas de que nós já não nos lembramos).

 

Falo no réveillon de 1986 a 1987 porque o quarto quartel do século XX começou em Portugal de maneira mais animada que a dos nossos vizinhos da Europa Ocidental. Estes, engordados e anafados em casulo formado no abrigo do confronto Leste-Oeste, estavam tão iludidos pelo seu próprio bem-estar que se persuadiram de que viviam em paz por terem passado a ser bons, por terem deixado de querer matar os outros, sem perceberem que a paz lhes era imposta por russos e americanos, a quem zaragata aqui não conviria (salvo evidentemente se um dos dois tivesse previsto nela estratagema para enfraquecer fatalmente o outro, o que não aconteceu). A Rússia perdeu a Guerra Fria de dentro para fora (costuma dizer-se a URSS mas tal exactidão formal torna as coisas mais confusas em vez de as tornar mais claras) porque o seu sistema político se desagregou por si, tal como George Kennan, diplomata-historiador, previra em 1946 quando estava encarregado de negócios dos Estados Unidos da América em Moscovo, onde Estaline viria a declará-lo persona non grata.

 

Portugal era diferente. Em parte para fugirem à tropa em África, milhares de migrantes portugueses em França, Alemanha, e outros países europeus beneficiaram das trente glorieuses – ganhava-se sempre mais do que se tinha ganho no ano anterior – mas, nas parvónias de onde diziam que vinham, a melhoria tinha sido pouca. No começo de 1974 os portugueses não esperavam vida nova. Até que, de repente, veio o sobressalto de trocar África pela Europa, de passar de patrão dos pretos a criado dos brancos. De anacronismo serôdio a modelo do futuro, para alguns entusiastas - para gente sensata, menos pobreza e mais liberdade. E, passados uns anos de turbulência, tornou a ser ano novo, vida velha mas num patamar mais alto.

 

Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más.

 

 

 

 

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28.12.16

 

 

Institute for Advanced Study

 Institute for Advanced Study, Princeton

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Os professores e o pessoal menor 

 

 

 

 

Quando eu nasci, todos os livros escritos para salvar o mundo já tinham sido escritos. Só faltava uma coisa: salvar o mundo. Assim escreveu Almada Negreiros no começo de A Invenção do Dia Claro - ou usou quase as mesmas palavras, que eu estou a citar de memória e a memória é má conselheira. Habituei-me a ela em pequeno por ter muita, tanta que uma vez pensei que, se tivesse nascido pobrezinho e os meus pais não pudessem continuar a mandar-me à escola, encontraria com certeza circo onde poderia ganhar a vida. Enganos da infância: mesmo sem ter tido de passar por essa prova, cedo me dei conta de que a memória, em vez de ajudar o pensamento a exercitar-se, o desimagina da acção e o torna preguiçoso – sendo que a passagem do tempo piora as coisas.

 

Desde o primeiro ano do liceu vivi em Lisboa, onde os clubes de futebol mais importantes eram o Sporting, o Benfica e o Belenenses, aprendendo eu naturalmente de cor as linhas de cada um deles: Azevedo, Cardoso e Manuel Marques; Canário, Barrosa e Veríssimo, etc. por aí fora. No Verão passado, em conversa com amigo inglês que não percebia porque é no coração de um dos bairros residenciais mais caros e exclusivos de Lisboa – o Restelo – estava enxertado um estádio de futebol moderno, com as grandes invasões populares periódicas e as perturbações permanentes de privacidade que tal acarreta, tive de lhe explicar que o bairro era anterior ao estádio mas que as licenças de toda a ordem precisas para poder construir este (não eram tantas quantas seriam agora mas já faziam um pacote) tinham não obstante sido obtidas porque o habitante mais importante do bairro, onde tinha a sua residência privada, se opôs às razões de peso evocadas por todos os seus vizinhos, apoiou do princípio ao fim a pretensão dos Belenenses, clube de que era adepto ferrenho e, sendo também à época Presidente da República, exerceu a sua influência junto da Câmara de Lisboa e de outras entidades relevantes.

 

O meu amigo, sem perceber nada (coitado, não é de cá) perguntou-me se Os Belenenses tinham sido o clube do Estado Novo. Respondi que achava que não porque, mais ou menos por essa época, reformado muito digno sentado ao meu lado num banco de eléctrico lia no jornal do Belenenses artigo intitulado a azul “Amor clubista: sentimento maravilhoso e inexplicável” da autoria de Miguel Urbano Rodrigues, comunista que se exilara e, depois do 25 de Abril, dirigira durante anos o Avante.

 

Entretanto passou-me pela cabeça a linha do Belenenses: faltava o interior direito; só 5 dias depois apareceu. Coisas assim acontecem cada vez mais.

 

Quanto à salvação do mundo. O Instituto de Estudos Avançados em Princeton é um templo de saber e progresso onde cheguei seis dias depois do Nine/Eleven. Passadas duas semanas, carpinteiro da casa perguntou-me como é que se distinguiam os carros deles dos dos professores. “Os professores não colam a bandeira nacional aos vidros”. Por estas e por outras é que Trump ganhou.

 

 

 

 

 

 

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21.12.16

 

 

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Waterloo e por aí fora

 

 

 

A batalha de Waterloo a 18 de Junho de 1815 do ar do dia ao cair da noite quando o corso Napoleão Bonaparte percebeu que estava perdido e fugiu para depois ser preso e desterrado na ilha de Santa Helena, possessão do Império Britânico no Oceano Atlântico ao largo da África Meridional onde viria a morrer, talvez envenenado com arsénico, acabou com a primeira tentativa moderna de estabelecer uma União Europeia. A segunda tentativa, destruída com Berlim em 1945, deveu-se ao austríaco Adolfo Hitler que se suicidou, havendo muitos dos grandes do seu regime que não se suicidaram sido julgados e enforcados em Nuremberga como criminosos de guerra. Essas duas tentativas foram liquidadas a ferro e fogo porque a ferro e fogo tinham começado, a primeira levando guerra a quase toda a Europa e a segunda a quase todo o mundo.

 

A terceira tentativa de União Europeia é a nossa, pacífica em parte porque os seus fundadores, depois de duas guerras mundiais, não podiam com uma gata pelo rabo e em parte porque o confronto entre União Soviética e Estados Unidos, entre comunismo e capitalismo, ambos armados até aos dentes, deixou os europeus ocidentais, confortados pelo Plano Marshall e pela OTAN, viajarem para o futuro em primeira classe pagando só bilhetes de classe turística. Les trente glorieuses chamam a esses anos em França (que o génio do general De Gaulle transformou de país vencido em país vencedor). Entretanto a União Soviética implodiu, o comunismo perdeu o crédito e os europeus ficaram sem o inimigo que os unia (o primeiro propósito da OTAN era defender-nos da União Soviética; o segundo é defender-nos uns dos outros). Como perigos menos apocalípticos se perfilam – o desagradável Putin; o Estado Islâmico – foi-se mantendo o que havia.

 

Mas este Outono, quando os Estados Unidos, em eleições livres e limpas mas sabotadas ciberneticamente pelo Kremlin, escolheram para presidente um charlatão demagogo, ignorante e instável, cujas prioridades de governo quanto a mudança climática, saúde pública, trabalho, relações internacionais, incluindo comércio internacional, etc., etc., e designação de futuros ministros nos deixam com o Credo na boca perante o futuro dos Estados Unidos e da humanidade em geral, o que há a fazer? Se a OTAN for posta em causa pelo seu sócio maioritário, como é que é? Pior ainda: neste tempo em que tudo se sabe assim que acontece (em 1815, a notícia da vitória em Waterloo levou 4 dias a chegar Londres) e toda a gente conta contos, aumenta pontos, esfuma por querer ou sem querer diferenças entre verdade e mentira; em duas democracias respeitadas os votantes escolheram Brexit e Trump (este, é certo, com Colégio Eleitoral de permeio), em que se sente corte radical entre o mundo da politica e o mundo das pessoas, alguém conhece que alma tem? Quem é que gosta de quê? Paz e direitos humanos estarão a passar de moda na Europa? O inferno são os outros? Será guerra que faz falta, para animar a malta?

 

 

 

 

 

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14.12.16

 

Trump-Tower-Lobby-Atrium-NYC.jpgTrump Tower

 

 

 

 

 

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Sangue na guelra

 

 

 

Trump, a sua rapaziada e alguma raparigada também, a começar com as brasas da família – e essas são importantes: amigo comunista, português de gema, disse-me que não se pode olhar só para Trump, deve-se olhar para Trump e para a mulher, porque é logo outra coisa, até um comunista fica bem disposto e se esquece do governo de generais – todos, deve dizer-se, de primeira ordem salvo um, paranoide, que vai ser Consultor para Segurança Nacional - e bilionários – todos leitores fieis de Ayn Rand, judia russa ateia, desde os anos 40 maître à penser de homens de negócios americanos que queiram julgar-se super-homens, apologista de egoísmo feroz e de desprezo pelos pobres (uma espécie de Calvino desembolado – e sem Deus..), governo que está a ser inexoravelmente tricotado como uma telenovela concebida, pormenorizada e redigida por comunistas primários ignorantes para mostrarem bem aos telespectadores os horrores do capitalismo norte-americano. Vão chegar ao poder em Washington daqui a cinco semanas, cheios de sangue na guelra.

 

Há quase dois anos, quando o homem anunciou que ia às primárias republicanas muita gente se riu, em parte por achar ambição tonta que depressa seria posta no seu lugar, de que os seus rivais no Grand Old Party se descartariam logo nos primeiros embates e em parte por esperar que, entretanto, nos fôssemos divertir todos porque, na sua ordinarice egocêntrica de possidónio de luxo, o homem às vezes até era engraçado e perspicaz. Quão perspicaz, porém, nenhum dos seus rivais, republicano ou democrata, tinha sequer sonhado.

 

Com método rigoroso, conhecimento intuitivo dos eleitores, dos gostos e das fobias deles, sobretudo dos que nem o curso dos liceus tinham acabado e que a globalização atirara para o desemprego (que nos Estados Unidos dói muito mais do que na União Europeia porque subsídios de desemprego não há e de saúde, até ao Obama care, o Estado não tratava e, com o governo que se anuncia, vai provavelmente deixar de tratar outra vez), gente ululante nos comícios de Trump, facilmente aliciada para pregões de agressividade inédita como os que exigiam a prisão imediata de Hillary Clinton – “Lock her up” gritavam em uníssono - agressividade de resto que se estendia a toda a campanha e polarizou a sociedade americana – até porque os agressores se sentiram reconhecidos e recompensados pela vitória nas urnas poucas semanas depois da candidata democrata, num desabafo captado por microfone que deveria ter estado desligado, os descrevera com desprezo altivo acabando por lhes chamar um bando de “deploráveis”.

 

O governo que sairá disto tudo assustará muitos americanos e quase todos os europeus cada vez mais convencidos estes de terem nascido com direito a room service desde o berço até à cova desde que não metam cá emigrantes. “Oh Maria, tira o puto da rua que vai haver merda” largou uma da Madragoa que estava a ouvir falar de coisas destas na telefonia e julgara que os desmandos iam ser à sua porta.

 

 

 

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7.12.16

 

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 Nelson Mandela em Robben Island

 

 

 

 

 

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Menos pessimismo

 

 

 

Leitora fiel e correspondente escreveu-me o seguinte: “Para além de ser provável que sejamos naturalmente maus as pessoas só ouvem o que querem e os algoritmos aproveitam-se disso. Espero, com todas as forças, que o próximo Bloco-Notas seja menos pessimista”. Outra amiga disse-me do seu casal de filhos que ele é um miúdo generoso, sensível, bom, e que ela, mais pequena ainda, é torta. Mãe galinha, adora os dois por igual; cabeça fina como um coral, sabe o que tem em casa – fôssemos todos assim. A espécie é como é e cabe a cada um de nós encontrar maneiras da maldade ingénita fazer por fim o menor mal possível, ao próprio e aos outros. Mães, amando os filhos; toda a gente, tentando instalar dentro de si uma espécie de sexto sentido de amar o próximo como a nós mesmos (haverá técnicas novas, digitais?). Desmond Tutu – que, arcebispo da cidade quando eu o conheci, assinava Desmond Cape Town – disse-me que a fé era coisa complicada e incerta de que nunca se estava seguro mas “se V. sentir que o seu pior inimigo está destinado a vida eterna, à mão direita de Deus, tudo estará bem”. Calou-se um momento e acrescentou: “É claro que a gente só sente essas coisas muito, mas muito raramente”.

 

Eram dias felizes para Tutu e para muito mais gente. Nelson Mandela ia ser libertado daí a uma semana para negociar com Frederik De Klerk o fim do apartheid. Pousado na terra esse marco do bem, o mundo tem tido altos e baixos. A África do Sul é um pântano de corrupção. A muitos europeus e a mais de metade dos eleitores dos Estados Unidos da América parece agora que rebolamos atabalhoadamente rampa abaixo. Para lá do mal de cada um toda essa gente sente mal maior geral muito perigoso: a tomada de posse próxima de Donald Trump em Washington. Insónias aumentam. Desespera-se do futuro. Grande Eleitor (Republicano do Texas) sentiu que tinha de explicar, no New York Times, porque é que não daria o seu voto a Trump no dia 19. Cita os requisitos formulados por um dos pais fundadores da República (qualificações para o cargo, ausência de demagogia, independência de influências estrangeiras) enumera comportamentos de Trump desde a eleição popular que não passam essas fasquias e espera convencer mais grandes eleitores a escolherem outro republicano (o que parece quixotescamente vão). Amigo português que viveu em Nova Iorque e Washington e conhece bem políticos de lá indignou-se, alarmado. Democratas e republicanos detestam-se como nunca, a exasperação está à flor da pele, tal iniciativa levada por diante poderia acabar em guerra civil.

 

O bom e o bonito? Talvez não. Na África do Sul o presidente Zuma deverá ser corrido por corrupção. Quando Nixon, no fim, bebia muito, mais paranoide ainda, militares perto dos botões nucleares foram instruídos a não cumprirem eventuais ordens suas sem as verificarem. E para esperança, Churchill: os americanos encontravam sempre a solução certa de um problema - depois de terem experimentado todas as outras.

 

 

 

 

 

 

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30.11.16

 

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Adeus Gutenberg

 

 

 

 

Sempre houve ricos e pobres, suspirava a avó Berta, católica apostólica romana (padre afilhado de missa do avô almoçava às vezes lá em casa), quando eu a vinha atanazar com horrores de injustiça social de cortar o coração que controleiro do PC ou entusiasta do MUD Juvenil ou sensibilidade própria agredida no liceu - educação primária caseira dera-me ilusões idílicas sobre o mundo – me houvesse trazido à atenção.

 

Era um mundo ainda em ordem. Contava ela que antes de começar a Guerra de 14 governava bem a casa com cinco tostões por dia e já no meu tempo de neto lia todos os dias às criadas o folhetim que saía na última página do Notícias de Évora, cuja complicada e ramificada intriga levava sempre mais do que um ano a fiar. Lembro-me do nome de um - A Toutinegra do Moinho - escrito por francês de nome afidalgado, salvo se fosse estratagema comercial para abrir ainda mais o apetite às leitoras porque, desde o Clube de Golf do Porto ao mais proletário sindicato do barlavento algarvio, passando pela feira da Malveira e pelo Grémio Literário, temos entusiasmo parolo por tudo quanto venha de fora. Numa das minhas voltas a Lisboa fui à loja de electrodomésticos do bairro e disse ao homem que queria um esquentador Junker. “Leve antes um Vaillant” respondeu-me ele. “Os Junkers já são feitos cá”.

 

Feito cá, feito lá; autores, jornais; tudo isto começa a soar um pouco anacrónico. Há dias o meu amigo Tom Friedman dizia no New York Times que a vida se complicara – e modernizara muito mais a ritmo inédito – em 2007, um ano antes da falência de Lehman Brothers e da magna crise que ainda está connosco quando progressos enormes em diversas áreas técnicas modernas cavaram mais – palavras minhas - a separação entre o mundo que nos criou e o mundo que crie quem nasceu depois da mudança de século. Em 2007 Steve Jobs lançou o primeiro IPhone, Facebook abriu-se a quem quer que tivesse endereço e-mail, invadindo o mundo, Twitter arrancou mesmo, os primórdios de cloud computing apareceram, Kindle pôs no mercado o livro electrónico, IBM produziu o computador cognitivo Watson que faz diagnósticos precisos e sugere tratamentos correctos, etc., etc.

 

E para além de tudo isto uma certa hierarquia de conhecimentos e a vigilância do respeito deles, garantidas pela invenção de Gutenberg e graças a ela largamente difundidas e validadas durante 5 séculos, tem vido a ser sacudida, às vezes mesmo obliterada, quando computadores e internet se oferecem à difusão equivalente de mentiras e verdades. O centro não aguenta as diabruras da periferia; mais: muita gente deixou de saber onde é o centro. Sentimentos de desenraizamento e desconfiança pululam; buscam-se valores seguros na família, na tribo, na nação, na pátria a qualquer preço moral: Brexit, Trump, Duterte nas Filipinas porque, contam o Pecado Original e outras mitologias, somos naturalmente maus. E como reza provérbio islandês: “Não há homem que não goste do cheiro dos seus próprios peidos”.

 

 

 

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23.11.16

 

 

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 França, 1794

 

 

 

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Mudam-se os tempos

 

 

Escrevo a 21 de Novembro, dia dos anos do Vasco Pulido Valente. De manhã lembrei-me dele quando tinha 14 anos ter dito ao pai, burguês de bem, inteligente, culto e informado (explicou-me como é que os romanos faziam a barba), engenheiro, opositor corajoso e coerente do regime salazarista, muito mais alto do que o filho que só deitou corpo no fim da adolescência. “Ah Pai, se eu tivesse a tua idade sabendo o que eu sei…” Na altura em que isto me vinha à cabeça, voz saída da telefonia do carro anunciou-me que era o dia dos anos de Voltaire.

 

O Vasco e Voltaire ao começo da semana – nada mau para antídoto de tanta patetice ignorante nos tempos que correm, disse com os meus botões. Devo-me ter distraído anos a fio e, pelas conversas que agora tenho tido e pelos jornais que agora tenho lido e pelos programas de televisão por que tenho saltitado, devemos ter andado (quase) todos distraídos porque recebemos com surpresa desagradável notícias sobre coisas acontecidas entre nós ou muito perto de nós de que (quase) ninguém estava à espera - nem bandarilheiros, nem apoderados, nem curiosos na tourada da política.

 

Vai-se um homem deitar à noite convencido de que os ingleses querem ficar na União Europeia e acorda de manhã para saber que afinal querem sair. Vai-se uma mulher deitar convencida de que o 45º Presidente dos Estados Unidos vai ser finalmente, à segunda tentativa, uma mulher sabichona e teimosa chamada Hillary Clinton, e acorda de manhã para saber que afinal quem ganhou foi um aldrabão inculto, novato em política e malcriado que entendia muito melhor os eleitores americanos do que a sua experiente rival e, ao contrário dela, lhes sabia falar ao coração – de tal maneira que eram capazes de esperar por ele 3 horas para um comício, ao frio, até à uma da manhã, sem arredarem pé. Ontem, na véspera dos anos do Vasco e do Voltaire, franceses da direita e do centro, à procura de alguém que pudesse bater Marine Le Pen, protofascista da Frente Nacional, na segunda volta da eleição presidencial do ano que vem – que ela irá à segunda volta é convicção geral – numa primária aberta da direita e do centro escolheram antigo PM de Sarkozy que as sondagens punham em terceiro lugar, beato metediço na vida dos outros, liberal à la Thatcher em economia (coisa rara no sentimento francês, cujo primeiro reflexo à vista de criança descalça na rua é achar que a culpa é dos Rothschild, em vez de achar, como Thatcher, que a culpa é da criança), com um fraco por - e muitas visitas à - Rússia de Putin. Se o propósito é encontrar quem junte o resto da França para derrotar a extrema-direita (como Jacques Chirac derrotou Jean-Marie, pai de Marine, noutra segunda volta, em 2002) parece-me má ideia: Alain Juppé teria sido melhor escolha mas é claro que há ainda, no Domingo, a segunda volta da final da primária.

 

Em cada francês vivem, enlaçados em coluna salomónica, um ci-devant et um sans culottes. Têm de pensar em tudo pelo menos duas vezes.

 

 

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16.11.16

 

 

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Lord Ismay, primeiro Secretário-Geral da OTAN, entendia que esta servia 

"to keep the Americans in, the Russians out and the Germans down."

 

 

 

 

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A partilha do fardo

 

 

 

         

A eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos da América foi tomada por muitas europeias e muitos europeus como uma ofensa e uma má criação. Nesse espírito, algumas administrações nacionais tão alapardadas ficaram (não se fazem coisas assim aos amigos!) que, por sugestão do alemão, vinte e cinco ministros dos negócios estrangeiros de países da União Europeia bem como a Alta Representante (vice-presidente da Comissão que põe outro chapéu para presidir às reuniões dos MNEs do clube: na União Europeia, diria Oscar Wilde, as coisas nunca são puras e raramente são simples) tiveram jantar de trabalho em Bruxelas para primeira troca de impressões sobre esse importante evento transatlântico (o inglês dissera que não deviam estar bons da cabeça, o francês lamentara educadamente ter obrigações mais importantes em Paris, o húngaro metera os pés pelas mãos com desculpas de mau pagador para disfarçar a euforia pro-Trump de Vitor Orban, primeiro ministro húngaro, e os três fizeram gazeta – o que, se nos lembrarmos que o Reino Unido e a França são os dois únicos estados-membros da União com forças armadas capazes de meterem respeito seja a quem for, mostra a aparente frivolidade do exercício).

 

Mas não há com efeito razão para grande tranquilidade europeia quanto à nossa defesa e à defesa dos nossos interesses. A OTAN, estabelecida em 1952, chama-se por extenso Organização do Tratado do Atlântico Norte e o Tratado do Atlântico Norte fora assinado em Washington em 1949 pelos Estados Unidos da América, o Canadá e uma dúzia de países da Europa Ocidental. Outros se foram juntando: quando Guerra Fria acabou havia 16 Aliados, depois foi um vê se te avias com todos os ex de Leste a quererem-se profilaticamente proteger da eventual sanha do Kremlin (já não existia U.R.S.S. mas a Mãe Rússia mete medo igual aos vizinhos; os que dizem que isso é mentira e que foram os Estados Unidos e seus aliados ocidentais que quiseram cercar a Rússia de perto, devem ser lembrados que os três países bálticos e a Polónia, vizinhos da Rússia e aliados na OTAN não foram por ela atacados militarmente desde o fim da Guerra Fria mas a Geórgia e a Ucrânia, também vizinhos dela mas fora da OTAN, o foram tendo além disso a Rússia anexado a Crimeia). Desde o começo que os Estados Unidos gastaram mais na defesa de todos do que os outros em absoluto e per capita. “Burden sharing” – a partilha do fardo – passou a ser pomo de discórdia mais vivo desde que a Guerra Fria acabou, tendo havido muitas discussões sobre o assunto, embora Clinton, Bush e Obama nunca tenham feito ameaças como Trump agora fez e nunca Bush e Obama tenham admirado Putin como Trump agora admira.

 

 

 

Nota Bene Portugal não foi dos primeiros assinantes do Tratado de Roma porque não era uma democracia e só entrou para as Comunidades Europeias depois de o passar a ser. Mas, sem o ser, assinou o Tratado de Washington e foi membro fundador da Aliança. Com coisas sérias não se brinca.

 

 

 

 

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9.11.16

 

 

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 @ The Washington Post (em actualização)

 

 

 

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O povo é quem mais ordena

 

 

 

Ah é? Ora toma lá que já almoçaste! Até as criadas ficaram consternadas: Ai a Dona Hilária, coitadinha, tão boa Senhora, depois de tudo quanto aturou ao marido apanhar com mais esta. O povo é quem mais ordena. O fazedor de TV- Realidade sabe que para se ser herói é preciso ser-se mau e meteu-se à obra, com veia de actor consumado. Fez troça de aleijados. Tratou as mulheres como no Antigo Testamento mas em calão de agora (calando fundo em almas evangélicas americanas: muitas mulheres votaram nele). Prometeu acabar com Obama-care, isto é deixar os pobres sem qualquer assistência médica, como estavam antes que só lhes faz bem em vez de viverem à custa dos outros. Rever os tratados comerciais de maneira a proteger o operário americano, isto é, decretar proteccionismo sempre que achar que for preciso para ser amado pelo povo (como nos anos trinta da Europa a caminho de fascismos e guerra). Tornar a pôr a tortura de suspeitos de terrorismo nas práticas de interrogatório militares e da CIA (waterboarding e “muito pior”). Aquecimento global é conspiração chinesa. Contra imigração clandestina, levantar muralha na fronteira com o México com o México pagar por ela. Tudo descrito em promessas eleitorais, porque o povo é quem mais ordena e ao povo não se mente mais do que ao clero ou à nobreza. (Há espíritos mal intencionados e já foram contadas quarenta mentiras por discurso em dias de inspiração, mas o povo gosta e o povo é quem mais ordena – em dias de menos inspiração, anda por vinte. Mentir, para o homem dos golfes e dos casinos, é um estado natural.

 

O efeito em nós, europeus, começa por medo de deixar de haver disposição americana para nos defender: há mais de meio século que contamos com ela e o susto faz frio na espinha. Além disso tudo quanto seja homófobo, misógino, racista, reacionário genérico (como nos medicamentos) animou imenso com a brutalidade tosca exibida por Trump e vai tornar mais difícil dia-a-dia de decência. O povo é quem mais ordena. Porque é que, quando a chamada classe política perde o fio à meada e tribunos populistas capturam o poder (às vezes, como Hitler, em eleições livres e limpas) e se instalam, estes são, invariavelmente, velhacos? De mesmo antes do nosso tempo: Lenine, Estaline, Hitler, Mussolini, Mao Tse Tung, Pol Pot… Não há um que se aproveite (os que agora parecem estar na forja - Putin, Erdogan, Orban - tampouco prometem virtude). De maneira que embora a democracia canse e pareça às vezes estar em risco tem-se acabado por voltar a ela à la Churchill. O povo é quem mais ordena. Mas quiçá isso mude. A democracia parlamentar talvez se tenha dado particularmente bem com a imprensa de Gutenberg e atribuições afins. Nas redes sociais de agora e do futuro previsível, onde sapiência e responsabilidade se diluem até ao desaparecimento, palpita-me que tudo possa ser diferente. Entretanto o povo é quem mais ordena - e um americano em cada quatro julga que o sol anda à roda da terra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2.11.16

 

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 Hillary Clinton

 

 

 

 

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A 7 dias de Broncalina do camandro?

 

 

 

Ou de Bernardette do caboz? Ou uma ou outra, tanto faz. Na segunda terça-feira de Novembro, próximo dia 8, os americanos dos Estados Unidos vão às urnas decidir o seu destino político – e o nosso. Toda a política é política local, disse famosamente Tip O’Neill, antigo presidente da Câmara dos Representantes em Washington, de origem tão irlandesa que em quase cinco décadas de serviço em altas instâncias do Partido Democrata nunca pôs os pés na Embaixada Britânica, porque os ingleses tinham sido os opressores coloniais, os responsáveis pelas terríveis fomes dos séculos XVIII e XIX no seu país, o Diabo na terra, e Tip não queria ser visto pelos outros irlando-americanos a comer o seu pão e a beber o seu vinho, tu cá tu lá com eles. Manteve essa ficção até ao fim, embora se desse com os ingleses como Deus com os anjos e os ajudasse quando tal fosse preciso.

 

Mas, para voltar ao aforismo de Tip, os grandes países têm vantagens sobre os pequenos (é certo que, neste ano da Graça de 2016, a pequena Valónia que nem chega a ser um país atrasou de vários dias a assinatura de acordo comercial muito importante entre a União Europeia e o Canadá e, como nos nossos dias o comércio externo é a única coisa pela qual a Europa ainda tem peso no mundo e se pode dar a algum respeito, houve gente que se assustou mas tudo foi depressa ao sítio assim que a questão de política interna belga que fizera a Valónia portar-se mal foi apaziguada – se eu fosse embaixador no activo acrescentaria nesta altura, entre parêntesis, ver meu 153). E há uma prática bizarra nalgumas organizações internacionais – parar o relógio da sala a poucos minutos da hora para a qual se programara o fim de uma reunião e só o deixar trabalhar outra vez quando se tiver chegado ao acordo pretendido, passadas horas, dias ou mesmo meses, podendo-se então olhar para o relógio e pretender que se acabou no dia e hora devidos. Começou isto quando Don Mintoff, zaragateiro marxista e populista, era primeiro ministro de Malta e inventava maneiras de tornar o seu país importante pela incomodidade que causasse aos outros. Por fim, para lidar com ele, teve de se inventar o conceito de “Consenso Menos Um”.

 

Entreténs de ricos para acudir a males menores. O que poderá estar à nossa espera na madrugada da próxima quarta-feira será um tsunami geopolítico de dimensões inéditas desde 1945, maior – para nós – do que o fim da União Soviética. A política local dos Estados Unidos, os interesses dos seus brancos pobres e dos seus fundamentalistas evangélicos, apostados uns em proteccionismo que os fechasse num casulo imune à globalização e os outros em Supremo Tribunal que recriminalisasse o aborto, poderá ganhar. A Senhora fez o que pôde mas, confessa, falta-lhe o jeito do marido ou de Obama, muitos não gostam dela e não se pode excluir que perca a eleição. Se tal acontecesse a ordem internacional sofreria sobressalto de consequências imprevisíveis para a Europa.

 

 

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19.10.16

 

 

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Barrabás

 

 

 

Os povos portam-se mal, mesmo povos que toda a gente aprendeu na escola serem viveiros de democracia. (Embora haja progresso: se, em vez de passar os dedos pelo teclado do computador para compor estas linhas no ano da Graça de 2016 eu estivesse a passar aparo de caneta de tinta permanente sobre papel almaço no ano em que nasci, quisesse ser rigoroso e ficar bem com a minha consciência, teria tido de escrever “que toda a gente que foi à escola aprendeu” porque à escola no Portugal dessa altura pouquíssima gente ia, sendo o remanescente maioritário das crianças portuguesas grupo a que o aparachique e ficcionista Soeiro Pereira Gomes chamou “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, dedicando-lhes o romance Esteiros de que gostei, sendo o único romance neorrealista que me agradou porque os outros sofriam todos de pecha, comum também às pinturas dessa escola, que professor numa universidade de Londres explicava bem: “No impressionismo pinta-se o que se vê; no expressionismo pinta-se o que sente; no realismo social pinta-se o que se ouve”. Pinta-se e escreve-se).

 

Os ingleses, herdeiros da Magna Carta com que gostavam de vez em quando de apoucar os outros, graças a Primeiro Ministro conservador cuja paciência para os eurocépticos do seu partido se esgotara e resolvera pôr a questão da Europa a referendo e cuja inépcia o fizera depois perdê-lo (expediente político favorito dos populistas, o referendo foi ganho por demagogos desonestos e irresponsáveis) votaram por sair da Europa sem entenderem bem do se tratava, sobretudo por estarem fartos dos “políticos de Londres” e de um sistema que cria 1% de ricos cada vez mais ricos e 99% de uma mistura de pobres cada vez mais pobres e de classe média a resvalar para a pobreza. Com a poeira a assentar está a descobrir-se que o país vai ficar mais fraco do que era e que a mudança lhes vai custar os olhos da cara.

 

Os norte-americanos que gostam tanto ou mais do que os ingleses de se pavonearem com evocações da Magna Carta (mais as sua próprias Declaração de Independência, Constituição e Alocução de Gettysburg), a seguir a mais de um ano de berrarias e impropérios que se chamaram eleições primárias em cada um dos dois grandes partidos e agora campanhas mesmo para a presidência do país, entre uma senhora competente (sem jeito para a política mas competente) e, pelos padrões da sua terra, do seu tempo e da sua profissão, decente, e um mitómano sociopata, desonesto e ordinário, indecente por quaisquer padrões. Milhões de americanos parecem achar que deveria ser ele o novo inquilino da Casa Branca. Dia 8 de Novembro se saberá mas muito mal já foi feito - para ficar.

 

Toda a gente gosta de lembrar Churchill: a democracia é o pior sistema de governo tirando todos os outros. É verdade mas é verdade também que o povo tem dias: a história moderna está cheia de maus exemplos – e não só ela. Convém nunca esquecer que o povo escolheu Barrabás (e terem sido os judeus já não serve de desculpa).

 

 

 

 

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5.10.16

 

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Família

 

 

 

 

A família faz-nos amar pessoas de quem nunca gostaríamos se as tivéssemos conhecido de outra maneira. Assim, não gostamos delas mas amamo-las. Treino inestimável para a vida, de que nem nos damos conta: aprende-se sem ter de ser ensinado.

 

Família como é em Portugal. No centro está o próprio, com pai e mãe, irmãos, irmãs, avós paternos e maternos, tios, tias, primos, primas, a certa altura quase sempre também mulher ou marido, filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas (e sogros, sogras, genros, noras). O parentesco traça-se igualmente pelo lado do pai e pelo lado da mãe; este sistema de parentesco, existente na Europa toda e, hoje em dia, em muitas outras partes do mundo, chama-se cognático. Há outras variedades. Se o parentesco se traça só pelo lado do pai o sistema chama-se patrilinear. Se se traça só pelo lado da mãe chama-se matrilinear - o que não quer dizer mulheres a mandar; quem manda são sempre os homens (‘matriarcados’ são ficções mitológicas). O que varia é a transmissão de bens, obrigações, honras de uma geração para outra. No sistema cognático estes são transmitidos pelos dois lados, no patrilinear eu herdo através do meu pai e o meu filho herda através de mim. No matrilinear eu herdo através do irmão da minha mãe e o filho da minha irmã herda através de mim. No primeiro caso não tenho parentes do lado da mãe; no segundo, é do lado do pai que não os tenho. Nalgumas sociedades tradicionais, como as dos aborígenes australianos, há regras de casamento complicadíssimas. Os europeus que as descobriram em finais do século XIX só vieram a entendê-las devidamente com ajuda de modelos matemáticos, enquanto os aborígenes, analfabetos e ignorantes de álgebra, as dominavam tão completamente que sabiam sempre com quem poderiam casar ou não (antes de instrução e envangelização obrigatórias lhes terem começado a embotar a broca do entendimento).

 

Seja como for, a família –no começo disto tudo, à bulha com outras famílias - é o primeiro grupo a que se pertence. Quer para quem acredite, com Jean-Jacques Rousseau, que o homem é naturalmente bom e é a sociedade que depois o estraga, quer para quem acredite, com Thomas Hobbes, que a maldade nos vem da matriz e só a sociedade poderá minorá-la. Desde que há homo sapiens até hoje – um ápice na história do universo – outros grupos foram tirando comando e controle à família até se chegar à visão de superestado que a União Europeia ambiciona ser. Mas quando as coisas dão para o torto como, de há 8 anos para cá, estão a dar na Europa e nos Estados Unidos – “A malta agora é mais pobre do que eram os pais da malta” - a família sai do pano de fundo e volta à boca de cena, nem sempre para maior bem-estar de todos nós. Com ela reforçam-se, em ordem descendente de mal fazer, máfias, nepotismo, corrupção, compadrios. Perde-se respeito pela coisa pública - a res publica, a República – e pelos que enriquecem à custa dela e nossa. A hora é dos gladiadores. Não se irá ao sítio a bem.

 

 

 

 

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28.9.16

 

 

 

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Fábrica de armamentos em Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial 

 

 

 

 

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Pátrias

 

 

 

“O patriotismo é o último refúgio do bandalho” proclamou o Dr. Samuel Johnson, lexicógrafo inglês do século XVIII - na Europa, pátrias começavam a ganhar mais importância do que fés e dinastias - cujo humor cáustico continua a ser apreciado. Reforçadas por revoluções europeias de meados do século XIX, pátrias mostrariam a sua força crescente contra outras lealdades na Primeira Guerra Mundial: as classes operárias alemã e francesa, marimbando-se para exortações a que proletários de todo o mundo se unissem, mataram-se zelosamente uma à outra nas trincheiras da Flandres. “Patriotismo é amor dos nossos; nacionalismo é ódio aos outros” lembrou por seu lado Roman Gary, nascido judeu polaco, morto – por suicídio – cidadão francês, cuja origem estrangeira levara a baixarem-lhe a Note d’amour na academia aeronáutica, se juntara aos aviadores da França Livre de De Gaulle e foi, até hoje, o único escritor a ganhar o Prémio Goncourt duas vezes – a segunda sob pseudónimo, a mangar com o júri - publicando também romances em inglês e casado algum tempo com Jean Seberg de quem se separou e que se suicidou antes dele. Na sua vida e à sua volta desenrolaram-se muitas das barbaridades do fim da primeira metade do século XX no centro da Europa.

 

Nós portugueses, a irmos para nove séculos de história dentro das mesmas fronteiras – que os Amigos de Olivença me perdoem a pequena inexactidão – oito se quisermos contar com Tavira, não damos valor ao sossego ontológico desta periferia com vista para o mar. Devíamos dar. Javier Solana contou-me ter conhecido em Bratislava senhor muito velho que ao longo da vida mudara sete vezes de nacionalidade sem nunca ter mudado de casa. A mim explicou-me há meio século proprietário alentejano, para me contar da vida sob a Primeira República (1910-1926): “Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há”. Para nós, as leis mudaram poucas vezes e, sobretudo, nunca nos mandaram dizer que eramos outros. Logo a seguir aos anos do fim do Império, anos em que tinham realmente querido dar-nos cabo do juízo (diante de mim, no Clube de Évora, um deputado à Assembleia Nacional e dois grandes lavradores do distrito disseram a jornalista francês de Le Monde, vindo por haver ‘eleições’: “Portugal é uno do Minho a Timor” em uníssono sem sombra de ironia na voz), amigo meu que ensinava em Genebra recebia compatriotas incessantemente preocupados com a “identidade nacional” - o que o deixava perplexo porque, dizia, não havia país mais idêntico que Portugal.

 

Talvez por isso, cá o Dr. Johnson não vigore: os bandalhos terão de encontrar outro refúgio. Lá fora, estão ultimamente na maior: patrioteiros como Marine Le Pen em França, Trump nos E.U.A., Putin na Rússia, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, etc., etc. trazem à superfície o pior na sua gente, voltam-na contra outras gentes e aceleram o mundo para novo desastre.

 

As luzes que em 1914 se apagaram na Europa apagam-se agora pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

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21.9.16

 

 

 

 

 

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Defesa europeia, Brexit e bom senso

 

 

 

 

Alguns entusiastas vêm na saída anunciada do Reino Unido da União Europeia não um desastre mas uma oportunidade. O seu argumento é que, ao longo dos anos, o Reino Unido várias vezes impediu com o seu veto projectos de defesa europeia propostos por outros estados membros (na União Europeia, questões de defesa são decididas por unanimidade) como, por exemplo, a criação em Bruxelas de um quartel-general europeu. Deixando os ingleses a União, outros poderão levar os seus projectos avante, aumentando assim, segundo eles, a capacidade defensiva da União Europeia.

 

Hão de poder, com certeza. Mas espero que o bom senso prevaleça e isso não venha a acontecer. Os vetos dos ingleses a tais iniciativas não eram birras, eram resultado de duas condições necessárias para que defesa europeia eficaz possa existir: uma, que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (vulgo NATO) esteja pronta a intervir 24 horas por dia, 365 dias (6 em anos bissextos) por ano em caso de ataque a qualquer membro da Aliança (não aconteceu até agora e só esteve para acontecer uma vez: a 12 de Setembro de 2001, evocando o Artigo V do Tratado, todos os outros Aliados se disponibilizaram para ajudarem os Estados Unidos mas estes agradeceram e recusaram); outra, que os países Aliados elaborem os seus orçamentos nacionais de maneira a poderem arcar com as despesas que lhes caibam na partilha do fardo fiscal colectivo da defesa da Europa, em que os Estados Unidos também participam.

 

Enquanto a União Soviética existiu, medo saudável dela ajudou a arrumar as ideias nas cabeças de ministros, parlamentares e contribuintes na Europa Ocidental, e foram feitos esforços sérios de cumprimento das metas orçamentais acordadas para cada Aliado. Depois do colapso da União Soviética e do fim da Guerra Fria as coisas mudaram. Nenhum Aliado europeu gasta o que devia – e como devia - em defesa, sendo, de longe, o Reino Unido e a França os que mais se aproximam do cumprimento dessas obrigações. Juntamente com dimensão, arsenal nuclear e história (incluindo assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU), tal faz deles os únicos Aliados membros da União que são potências militares mundiais.

 

Na área da defesa, a saída do Reino Unido em nada enfraquece a União Europeia nem prejudica iniciativas Franco-Britânicas. Por uma razão: a defesa dos países membros da União Europeia contra eventuais ataques de terceiros cabe, não à União, mas à OTAN (directamente, para a maioria porque são também Aliados; indirectamente - tradição vinda da Guerra Fria -, para Irlanda, Áustria, Finlândia e Suécia que o não são).

 

O risco de “iniciativas europeias” (bem intencionadas ou/e antiamericanas), por exemplo, a de um quartel-general em Bruxelas seria, por um lado, prejudicarem unidade ocidental, condição sine qua non de bom funcionamento da defesa europeia e, por outro, competirem irracionalmente por fundos escassíssimos dando azo a ainda mais desculpas de mau pagador.

 

 

 

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14.9.16

 

 

 

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@ Percy Jackson 

 

 

 

 

 

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Deuses

 

 

 

 

Em igreja desafectada num lugarejo da Beira profunda, pedindo-se a vizinha chave para a abrir, amigos dos Pais descobriram estatueta magnífica de S. Sebastião do século XVII. Um ano depois, estando por perto, pediram outra vez à vizinha para lhes abrir a igreja – e não viram o S. Sebastião. Perguntaram se alguém o teria levado (passava-se isto há uns 80 anos e começara já a compra por dez reis de mel coado de obras de arte achadas na província portuguesa por citadinos astutos - pilhagem comparável às das Invasões Francesas do começo do século XIX, com a vantagem de as obras assim preservadas terem ficado em Portugal) mas nada da igreja fora entretanto vendido. De entrada, a vizinha nem percebia bem de que é que eles estavam a falar até, de repente, se fazer luz no seu espírito: “A gente capemo-lo e fizemos uma Santa Teresinha!”

 

O catolicismo cultivou os Santos e as Santas, alguns plasmados de anteriores figuras pagãs, amortecendo assim o choque brutal do monoteísmo - a invenção mais traumática e funesta da humanidade - na vida de cada um (e cada uma) de nós que com ele tivesse de lidar. Santos e Santas são cortesãos celestes, com acesso directo a Deus menos ou mais facilitado, desde Santos e Santas modernas sem cultos enraizados nas mentes dos fiéis às hipóstases mais celebradas da Senhora sua Mãe. Beatas (e beatos) estabelecem as suas intimidades. Uma de Reguengos, a quem mãe aflita com doença de filho viera pedir intervenção de Nossa Senhora de Fátima (de que a beata possuía imagem a que rezava), respondeu-lhe: “Deixa estar filha que eu, em chegando a casa, caio-me lá com a minha Periquita!”. Às vezes, como entre humanos, as coisas dão para o torto: o meu amigo Fernando viu numa igreja de Luanda mulher de pé em cima de um banco insultando em kiluanda imagem de Nossa Senhora do Carmo, por esta não ter cumprido a sua parte de um acordo.

 

As coisas passavam-se assim com Deuses e Deusas quando toda a gente tinha vários. Era o caso - para escolher sociedade evoluída - da civilização romana com quem os cristãos tiveram problemas, não por terem Deus diferente, tal não aquecia nem arrefecia os romanos, mas por não admitirem existência de Deuses dos outros. A intolerância não foi inventada pelos monoteístas mas foi dotada por eles de superioridade moral. Desde as origens no Próximo Oriente as chacinas não pararam. Mas salvo em casos especiais – judeus ortodoxos, Tea Partiers americanos, waabistas - as três grandes religiões reveladas parecem hoje menos viradas para o proselitismo, mormente a Hebraica quiçá por ter sido mais maltratada do que as outras duas. A Cristã chega a roçar o agnosticismo. Mais novo, o Islão dá fiéis cheios de sangue na guelra. Se algum dos seus entusiastas, fanático do chamado Estado Islâmico, nos perguntar o que fizemos do Deus a quem chamam Alá, em cujo nome matam e esfolam, devemos responder que o capámos e fizemos um Nosso Senhor Jesus Cristo, user-friendly para crentes e descrentes.

 

 

 


7.9.16

 

 

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Angela Merkel

 

 

 

 

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A questão alemã

 

 

 

 

 

No Domingo passado - a leitora terá dado por isso - partido da extrema-direita alemã passou à frente da CDU, vindo com 21% dos votos em segundo lugar, a seguir aos 30% dos Sociais Democratas vencedores e relegando para terceiro lugar, com 19%, o partido da Senhora Merkel, em eleições regionais no mais pequeno dos Länder, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, entalado entre o resto da Alemanha a Polónia e o Mar Báltico, que não conta mais do que 2% do eleitorado do país, fazia parte da República Democrática Alemã antes de reunificação e é o Land onde a Chanceler vota e é eleita. Esta coincidência, a seguir a três desempenhos notáveis em eleições regionais na Primavera da Alternativa para a Alemanha (24,3% em Saxe-Anhalt; 15,1% em Bade-Wurtemberg; 12,6% em Renânia-Palatinado) levou Frauke Petry, porta-voz do partido, a cantar “vitória” e a declarar que “os cidadãos perderam a confiança nos velhos partidos” (que, para ela, são todos menos a Alternativa).

 

Até às reacções hostis de muitos alemães à generosidade voluntarista e unilateral de Angela Merkel no acolhimento de imigrantes do próximo Oriente, sobretudo de imigrantes fugidos do horror sírio, a Alemanha fora, desde as grandes crises começadas em 2010 - a crise das dívidas soberanas e, mais tarde, a crise da imigração – ou, melhor ainda, desde o fim da segunda guerra mundial em 1945, o país europeu menos provável para berço de novo regime fascista, depois do surto triunfalista dos antigos na década de 30 e do seu esmagamento implacável na de 40, do século passado. Mais do que isso. Entre a derrota de 1945 e a reunificação de 1991 a Alemanha Ocidental, primeiro de rastos e depois, a pouco e pouco, levantando-se do chão por determinação tenaz (com ajudas de fora: estar proibida de se meter em grandes despesas militares; ver perdoado o grosso das dívidas de guerra incorridas na paz de Versailles de 1919 e a seguir à rendição incondicional de 1945 porque Washington, Londres e Paris precisavam dela forte contra a Rússia Soviética) tornara-se, de longe, a grande potência que melhor tratava potências médias e pequenas.

 

E era também a nação europeia que levava mais a sério a Europa (primeiro as Comunidades Europeias e, mesmo depois da reunificação lhe devolver Pátria própria, a União Europeia).

 

Helmut Kohl avisava: “Quem vier a seguir a nós [governar a Alemanha] não se lembrará da guerra”. Felizmente apareceu Merkel, que se lembrava da Alemanha de Leste. Mas a sua austeridade pôs a economia europeia na cauda do crescimento económico do mundo (e mostrou urbi et orbi que a dívida afinal ainda não estava paga).

 

A Alternativa assusta mas é cereja para bolo que não foi cozido. Julgo que o enxerto democrático continue a vingar no tronco teutónico. Que quanto a imigração a Alemanha ajude a civilizar os países do Leste europeu em vez de ceder à barbaridade destes. Que os alemães se convençam de que meio século sem lhes darem ouvidos não lhes dá direito a não ouvirem os outros.

 

 

 

 

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31.8.16

 

 

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Gemeinschaft

 

 

 

 

Quando eu era novo, Gemeinschaft era bom. Lembrava o tempo em que palavra de homem valia mais do que papelada oficial de burocratas sem cara e sem alma. Em que costumes seculares de aldeia, validados por gerações seguidas de analfabetos norteados por curas, prevaleciam sobre códigos escritos alheios, impostos pelo estado moderno, que os roubava para seu sustento e lhes levava os filhos para a guerra. Um tempo que provavelmente já não se vivia em parte nenhuma e que a saudade da gente imaginava. Mas o passado não pára de mudar e agora, segundo aprendi num ensaio de Henrique Raposo na revista do Expresso que trazia os Duques de Windsor na capa (“The Windsors were here alright. The bed is still cold”), Gemeinschaft afinal é mau e as nossas saudades dele também. Isto por razões longas de enumerar mas de que se pode dar o tom numa penada: se nesse tempo se falava com respeito de palavra de homem não se falava nunca de palavra de mulher. Era, aparentemente, coisa que não existia ou, se existia, não contava. Só fidalgas ricas, viúvas de jure ou de facto, se podiam dar a tal luxo, como D. Felipa de Vilhena armando os filhos cavaleiros.

 

Marx, sempre a puxar a brasa à sua sardinha, escreveu que não havia uma moral dos senhores e uma moral dos escravos: havia uma moral feita pelos senhores para os escravos. Julian Pitt-Rivers, antropólogo inglês que morreu há quinze anos, entre as três mulheres com quem foi casado contou uma duquesa espanhola, viveu uns tempos numa vilória do sul do país e observou-a bem (“The town begins and ends as abruptly as the Spanish day”) explicava que, em Espanha, os muito pobres – e nessa altura havia muitos - não tinham meios que chegassem para se poderem portar bem, os muito ricos, incluindo então muitas Grandezas de Espanha, tinham meios demais para precisarem de se portar bem, e eram as vastas classes médias que passavam por este mundo permanentemente atormentadas por rosário de penas que temor a Deus ou falatório de vizinhos lhes quisessem causar.

 

Voltando às mulheres, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) que comandara a pacificação de Évora depois da revolta do Manuelinho em 1637 fora claro numa passagem capital da sua Carta de Guia de Casados: “Que o marido sofra da mulher tudo menos ofensas e a mulher ofensas e tudo”. Lido hoje, tal não se enquadra bem no espírito do tempo.

 

Assim nos vamos entretendo por Lisboa, capital do Porto, enquanto a Europa (ou melhor, a União Europeia, invenção política que tem dado aos europeus de hoje peso e força no mundo, isto é, seguro de vida) se vai destricotando em protecionismos protofascistas. Cercada por um mundo onde os valores do Iluminismo e da Democracia Representativa são arvorados em inimigos do povo. Onde Putin, Erdogan, teocratas sauditas e teocratas iranianos praticam com desenvoltura guerras pequenas, preparando-se para grandes guerras. Onde Trump quer privar a OTAN do arsenal nuclear americano e se arrisca a ser eleito em Novembro.

 

 

 

 

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24.8.16

 

 

 

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Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

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Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

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17.8.16

 

 

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Aniki-Bóbó, 1942

 

 

 

 

 

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Contas do Porto

 

 

 

A primeira vez que fui ao Porto estranhei que me aceitassem o dinheiro. Ia em trabalho e ao fim de meio dia na cidade parecia-me evidente que um escudo de Famalicão ou de Ponte da Barca incorporava muito mais capital e trabalho do que um escudo de Almodôvar ou de Vendas Novas. Eu tinha quase trinta anos, isto é, foi há muito tempo: antes da adopção do euro como moeda nacional ter atirado os escudos para museus de numismática onde já se mostravam réis e cruzados e maravedis; antes de, a seguir ao 25 de Abril, se terem mudado nomes às coisas pensando-se que assim se mudava a natureza destas (mas a Ponte 25 de Abril é a mesmíssima ponte que a Ponte Salazar e o país que adiante e atrás dela se vê não pertence nem mais nem menos ao povo do que pertencia no dia 24 de Abril de 1974); antes da morte do Doutor Salazar por mor de ter caído da cadeira de lona onde gostava de se sentar no forte de Santo António do Estoril - por ordem cronológica invertida destes acontecimentos.

 

Mais atrás ainda. Eu era elitista, sulista e arrogante. Aos 15 anos fora aprender a pintar no atelier de António Pedro, em Campo de Ourique, onde pintores do primeiro grupo surrealista português, a que ele pertencia, elaboravam um cadavre exquis (quadro colectivo de que cada autor só ia vendo a sua parte). Pedro era sábio: não me meteu em cavalarias tão altas; mandou-me fazer retrato a óleo de um boi de loiça das Caldas. Passados meses desisti de vir a ser pintor; depois Pedro foi para o Porto onde fundou e dirigiu durante anos o Teatro Experimental. Num fim de tarde de inverno chuviscoso encalhámos os dois um no outro numa paragem de autocarro na Praça dos Restauradores, em Lisboa. Depois de saudações efusivas, “Mestre” perguntei-lhe eu “Como é que se pode viver no Porto?”. António Pedro era alto, de traços finos, óculos e barbicha bem aparada. Lá de cima respondeu-me com bonomia: “Oh filho: o Porto é uma cidade de província da Europa. E Lisboa não é nada”.

 

Depois de longa ausência, entrecortada por visitas curtas com fito certo, passei o último fim da semana a flanar no Porto e o efeito desta vez foi fulgurante. Lança autoestradas para fora como os polvos lançam tentáculos, por cada uma delas se entra na cidade e se deita até à Ribeira, sem léguas de subúrbios pelo meio. E a actividade permanente que já há mais de meio século me parecera de outro mundo, acentuou-se ainda mais e varia nas muitas novas coisas que se vão fazendo. Estamos, diz-se agora, todos ligados pela internet mas haverá lugares mais intensos na ligação do que outros. O dinheiro, a moeda, hoje não me dá problemas, porque já nem é deles nem é nossa. Mas há outra coisa, mais funda. O Porto, pensei, é Portugal acordado. E que o tripeiro ainda ature o alfacinha talvez devesse espantar muita gente (escrevo à vontade por não ser nem um nem outro).

 

Mário Cesariny de Vasconcelos pôs o dedo na ferida de maneira incómoda: “Lisboa, capital do Porto”. Injusto? Talvez mas por aqui me fico.

 

 

 

 

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10.8.16

 

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 Inauguração do Estádio Nacional, 1944

Fotos: João D'Korth

 

 

 

 

 

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Vergonha na cara

 

 

 

 

Nuno Bragança tinha tido uma nanny de maneira que quando foi a Londres pela primeira vez, já com mais de trinta anos, os nativos com quem falava não percebiam que ele era estrangeiro. Passou lá um mês; a jantarmos na véspera de se ir embora perguntei-lhe o que achara. “Levaria muito tempo a habituar-me a viver aqui mas a Portugal sei que nunca hei de me habituar.”

 

Com efeito assim foi e o problema não era só do Nuno; o sentimento também assalta muitos que não acabam matando-se. Para Alexandre O’Neill era uma moinha permanente: “Portugal, questão que tenho comigo mesmo”. No meu caso, o incómodo deve vir do Pai que tive. Nos meus primeiros anos de liceu, era director do Centro de Saúde de Lisboa; todas as manhãs um automóvel o vinha buscar, que o trazia à noite (e muitos dias também para almoço que nessa altura comia-se mais em casa do que hoje). A Escola Valsassina, onde o João e eu andávamos, era a caminho do Centro mas nunca pusemos o rabo naquele carro porque um carro de serviço não servia para levar meninos ao liceu. O civismo ia mais longe. A CUF convidou o Pai para dirigir a parte de saúde pública dos seus serviços médicos. Era um lugar novo e aliciante mas havia uma condição: que ele prescindisse de intervenções políticas (não tinham passado da assinatura de alguns abaixo assinados contra o regime; nem sequer era comunista). Quando ele recusou, o médico que lhe transmitira o convite tentou demovê-lo, perguntando-lhe se ele não se lembrava de que tinha filhos. “É exactamente por me lembrar de que tenho filhos” respondeu o Pai.

 

Só comecei a dar-me conta daquilo a que alguns gostam de chamar o “país real” e outros o “Portugal profundo” já na universidade, alguns anos depois do Pai ter morrido. Mandara fazer um sobretudo e o alfaiate teve de mudar a data de uma prova para ir ao Minho testemunhar num julgamento. Contou-me depois: “O Senhor Doutor está a ver, o Juiz queria que eu dissesse a verdade mas eu…”.

 

Outros anos passaram. Virei antropólogo, veio o 25 de Abril, o PREC, a descolonização mas um ano depois disso tudo já se tinha percebido que o país mais parecido com Portugal antes do 25 de Abril era Portugal depois do 25 de Abril. Um dia disse ao Vitor Cunha Rego que meu pai me ensinara serem os portugueses um povo maravilhoso, oprimido por uma cáfila na qual o bandido-mor era Salazar. “Pois é” respondeu o Vitor “eu também tive um pai assim. E é grave um homem aos cinquenta anos descobrir que o pai era parvo”.

 

A identidade entre o país da Exposição do Mundo Português e o país da CPLP parece hoje quase completa. Pelo menos do ponto de vista moral. Em 1944, quando foi inaugurado o Estádio Nacional, avionette lançou sobre o público milhares de panfletos dizendo “O que nós queremos é futebol!” e explicando porquê.

 

Havia censura prévia e a imprensa – jornais e rádio – não podia contar de viagens duvidosas de secretários de estado. Agora pode e conta mas ganhamos as mesmas. Já ninguém terá vergonha na cara?

 

 

 

 

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20.7.16

 

 

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 Donald Trump e Nigel Farage

 

 

 

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Mundo novo

 

 

 


Pedro Pires de Miranda, com quem tive a honra de trabalhar quando ele era ministro dos negócios estrangeiros (“A política externa é óptima: só se tem inimigos!” disse-me uma vez - e outra vez, quando eu o informava que com três pessoas não conseguiria levar a cabo tarefa de que me encarregara, perguntou-me “Já experimentou com duas?”) pediu-me ao jantar em que o conheci que eu lhe pusesse, para o dia seguinte, em meia página, as diferenças entre as posições da OTAN e do Pacto de Varsóvia na Conferência Europeia de Segurança, em Estocolmo, onde ele viera acompanhar Mário Soares, Presidente da República, ao funeral de Olaf Palme (primeiro ministro sueco assassinado) e onde eu vivia, chefiando a delegação portuguesa à Conferência. No papel que lhe entreguei quando ele ia apanhar o avião escrevera meia dúzia de frases. A primeira, em inglês (língua franca da diplomacia, onde eu estava, e dos negócios, donde ele vinha), tocava no nó do problema: “We are right and they are wrong” (Nós temos razão e eles não). O mundo era menos complicado do que é agora.


Pedro foi-se embora há pouco tempo, eu ainda por cá ando mas nos trinta anos desde esse enterro nórdico especial (o assassino de Palme andava a monte, não se sabia quem era nem se havia cúmplices, desabaram sobre a cidade num fim de semana chefes políticos do mundo inteiro e, para preocupação suplementar dos serviços de segurança suecos, Shimon Peres, PM de Israel, no sábado, em vez de ir como os outros em carros mais ou menos blindados, foi a pé aos lugares onde tinha de se ir) desde esse enterro, dizia, os que tínhamos razão, ganhámos a guerra fria – e a Rússia perdeu-a - sem termos de dar um tiro. Éramos os melhores, os mais fortes, os mais ricos e ainda por cima, para algumas almas optimistas a História tinha acabado. Só que, como escreveu Nelson Mandela, quando se chega ao cimo da montanha que se está a subir descobre-se que há outra montanha que tem de se subir também, depois dessa mais outra ainda e por aí fora.


Ora para as montanhas que se seguiram e para a cordilheira que se vislumbra até onde a vista alcança nem nós nem os americanos - Atenas e Roma do mundo de hoje, houve quem gostasse de pensar - temos mostrado grande jeito. Perante a decadência do Ocidente (será finalmente desta?) avultam novos poderes – China, Índia; menos grandes mas incomodamente perto, a Rússia de Putin, segunda potência nuclear do mundo, batoteira das Olímpiadas, invasora de vizinhos e a Turquia, onde o islamista Erdogan venceu golpe militar pondo o povo na rua pelo FaceTime do seu iPhone – mas o podre vem de dentro.


Na pátria da Magna Carta, políticos encartados mentiram escandalosamente a eleitores que mostraram ignorância abissal e fartura sem remédio das “elites” - como se chama agora a quem saiba ler e escrever e tenha onde cair morto. Do outro lado do Atlântico, “Nós, o povo” reduziu a duas as pessoas entre quem escolher para suceder a Barack Obama e uma delas é Donald Trump. 

 

 

 

   

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