17.1.18

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Las Vegas 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Patos bravos

 

 

 

As mesmas palavras dizem coisas diferentes segundo os lugares. Em norueguês, “pato bravo” traz logo à cabeça peça de teatro de Ibsen (e em inglês também, em certas circunstâncias: vi uma tarde em Nairobi cartaz de representação teatral nessa noite e noites seguintes, por actrizes e actores negros do Quénia, alguns dos quais lá estavam figurados, de The Wild Duck de Hendrik Ibsen). E poderia ter visto cartaz equivalente, escrito em dinamarquês, numa rua de Copenhaga, porque a língua em que Ibsen escreveu os seus dramas era o dinamarquês, embora Ibsen ele próprio fosse norueguês - não é bem o mesmo que Luís Bernardo Honwana, sendo moçambicano, escrever em português, mas tampouco é completamente diferente porque a Noruega, se não estou em erro, a certa altura foi colónia ou coisa parecida da Dinamarca - e como o disparate não poupa ninguém, nem os escandinavos, quase sempre tão certinhos em tudo, há agora na Noruega espíritos desembaraçados que retrovertem Ibsen para norueguês moderno, oferecendo a públicos de representações teatrais e a leitoras de livros o que eles entendem ser como Ibsen teria escrito agora. Disse-me entendida um dia que o dito norueguês moderno soava feio e tosco, enquanto o Ibsen original soava bonito e subtil, mas essa minha amiga era um alma sensível e considerava que o punhado de homens e mulheres, instruídos obrigatoriamente, que julgavam estar assim a fazer justiça ao verdadeiro espírito do dramaturgo, estavam na realidade a caricaturá-lo, ainda por cima com mau gosto.

 

Já as três palavras Le Canard Sauvage, lidas em parede de uma rua de Bruxelas, só depois de muitas voltas lembrariam o mister – ou arte, ou engenho – de Racine, Goethe ou Shakespeare ou, porque não, do próprio Ibsen (tenho dias em que não consigo impedir-me de complicar as coisas…) mas antes, prosaica e gulosamente, sugeriria restaurante mais ou menos pretensioso. Em Bruxelas, ou em Estrasburgo, ou em Mulhouse, ou em Basileia, ou em qualquer outro vestígio do Reino Lotaríngio, tudo isto em grande parte depois Ducado de Borgonha, e hoje, Suíça, França, Luxemburgo, Bélgica Valónica, um dos ramalhetes de lugares no mundo onde há séculos se come e se bebe muito bem.

 

Em Lisboa, isto é, na Lisboa do meu tempo - não sei se hoje se falará por lá assim – o significado de ‘pato bravo’ era outro ainda. Um pato bravo era um construtor civil que fizera fortuna e passara a novo rico, nem sempre com honestidade pegada à sua reputação, pelo contrário, mas com jeito para escapar a complicações. Muitas vezes, não sei porquê, vindo de Tomar. Nesse Portugal, o equivalente de Trump seria um pato bravo ordinário. Mas o caso de Trump é mais complicado: os patos bravos de Nova Iorque escapam melhor à troça dos ricos-ricos se forem de Manhattan do que se forem de Brooklyn. E Trump é um pato bravo de Brooklyn. São complexos de inferioridade, uns dentro dos outros como bonecas russas, e o homem sempre a achar que não lhe estão a dar o valor devido.

 

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10.1.18

 

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Toile de Jouy

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A Ordem Natural

 

 

 

“Venha aqui falar a este Senhor que era muito amigo do seu bisavô!” A menina obedeceu à mãe e parou a trotinete ao pé de nós, virando de repente o guiador de maneira que quase a fez cair e espalhou terra do jardim à volta.

 

É bom ir pondo as crianças diante daquilo que a gente entenda ser a Ordem Natural do Mundo com parentes, amigos e inimigos devidamente colocados no espaço e no tempo, às distâncias certas, para elas não desaguarem na vida real, directas de Facebook e quejandos. E é bom porque, para além de fantasias modernas entretidas que tiram horas sem fim às vinte e quatro que cada dia tem, petizes e petizas levam agora mais tempo a perceberem como as coisas são do que levávamos quando era a nossa vez de sermos pequenos. Não sou filósofo mas oiço muitas vezes telefonia no carro e, uma manhã, voz de mulher parisiense encheu o habitáculo assim que carreguei no botão: “Comme disait Lacan, le réel c’est quand on se cogne!”. Antes de figurar o ‘maître à penser’, por uma única vez, pareceu-me a mim, autor de verdade como um punho, que tanta influência teve – e tem – em gerações seguidas de intelectuais e candidatos a intelectuais do país de Edith Piaf e Marcel Cerdan (e tão pouca marca deixa se se tenta traduzi-lo: quando o meu amigo David Callagher trabalhava para o Times Literary Supplement quiseram dedicar um número à vida intelectual francesa da época e pediram artigos a autores na moda – Lévi-Strauss, Derrida, Leroy Gouraind, Merleau-Ponty, etc., incluindo Lacan – os artigos chegaram, foram traduzidos, tirando o de Lacan que o staff do TLS não conseguiu verter para inglês e foi posto a circular pelos melhores departamentos de francês das universidades britânicas mas sem resultado tangível, enquanto Lacan telefonava insistentemente a David - “Alors, Monsieur Callagher: mon article?” – as repostas sucediam-se, idênticas, implacáveis: It doesn’t make sense in English), antes pois de Lacan figurar no meu espírito, veio François Villon, cinco séculos mais velho, a louvar a fala das parisienses do seu tempo: “Il n’est bom bec que de Paris!” A galanteria francesa arranja sempre maneira de se sobrepor nos nossos espíritos a aspectos menos agradáveis dos costumes e do temperamento gauleses. Os jornais – ou melhor, o que no nosso tempo tecnológico por eles passa na net – informam que Catherine Deneuve e mais noventa e nove mulheres vieram manifestar-se contra o que acham excessos de puritanismo anglo-saxónico do movimento “me.too”. Violação é violação, mas insistência, mesmo desajeitada, em sedução não o é; o que se tem passado e está a passar-se nos Estados Unidos (e noutros recantos protestantes do mundo) nestas matérias e matérias afins, é patético e perigoso. (Cínicos provocadores talvez publiquem Grab my pussy the French way; mas, no geral, Deneuve & Co trazem bom senso e bom gosto a estados de alma que perderam ambos).

 

Velhice é outra questão. Ser muito amigo do seu bisavô põe pontos pesados demais nos is.

 

 

 

 

 

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3.1.18

 

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George Orwell

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

 

Ano Novo. Vida Nova ?

 

 

 

 

Sou velho demais para acreditar no automatismo de mudanças assim mas há o que a Natureza nos traz e nos tira; quer queiramos quer não. A seguir ao solstício de Dezembro (a 21 do mês; dia de anos, a propósito, do presidente francês Emmanuel Macron, cuja eleição foi, de longe, a melhor novidade política a animar a Europa desde a nefasta eleição de Trump e, antes disso, da escolha imbecil dos ingleses de se separarem da União Europeia) os dias vão roubando cada vez mais tempo às noites até ao solstício a 21 de Junho, a partir do qual as horas de luz do dia vão passar a mirrar em vez de se expandirem como fora o caso durante os seis meses anteriores, até chegarem ao seu mínimo no próximo dia de anos de Emmanuel Macron.

 

Antes que me esqueça: leitora do meu último Bloco-Notas, escreveu-me a dizer que não sabia que os jornais ingleses dantes dedicavam a sua primeira página a anúncios. Ainda conheci nesse apuro o último a fazê-lo, The Times, de Londres, que nessa altura era um jornal sério, e cujos anúncios me davam leitura obrigatória juntamente com os obituários e as cartas dos leitores. Havia, evidentemente, uma ordem no arranjo dos anúncios que nós leitores lá liamos ou lá púnhamos para outros lerem. Coisas para vender; precisão de comprar coisas; procura de casas; ofertas de casas; procura de emprego; ofertas de emprego; assuntos mais pessoais; busca de pessoas, parentes ou não, há muito desaparecidas do convívio dos anunciantes; mensagens amorosas mais ou menos crípticas – em suma, um manancial de informação sobre a vida e os costumes dos leitores do Times de Londres desse tempo, quase todos vindos das fatias mais altas da sociedade – não há na Europa estratificação mais minuciosa que a inglesa mas, ao mesmo tempo, com capacidade única de capilaridade social (“Não é o lado da moda” comenta Lady Bracknell quando o pretendente à mão da filha lhe diz o número da porta de sua casa em Belgrave Square “mas isso pode mudar-se”. “O quê? A moda ou o lado?” pergunta ele. “Ambos, se preciso for!” fulmina ela, peremptória). Era entretém fascinante e dos milhares de anúncios que ao longo dos anos li nessa primeira página do Times, houve um, nesse dia à cabeça da coluna das Vendas de que nunca mais me esqueci: “Parrot. Unsuitable for vicarage. Any offers?”

 

Mas, entre uma coisa e outra, não creio que o ano novo vá trazer vida nova. Trump irá provavelmente cumprir dois mandatos: embora os grandes beneficiários do orçamento agora aprovado estejam na fina camada de cima dos bilionários mais ricos, toda a gente vai ver um pouco mais de dinheiro nos bolsos, pelo menos nos anos mais próximos – e como dizia Bill Clinton na primeira campanha para a Casa Branca: It’s the economy, stupid!. Isto, por um lado. Por outro lado, como George Orwell, na sua fala única, disse de maneira lapidar, o homem às vezes precisa de mal, apetece-lhe o mal. Trump satisfaz anelos desses e, por todo o mundo, estamos numa de desconfiar uns dos outros.

 

 

 

 

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27.12.17

 

 

 

Reis Magos Marva

Cartão de Boas Festas (1965)

desenhado por Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984) e vendido nas Papelarias Progresso e da Moda.

 

 

 

 

José Cutileiro

 

Ano Novo Feliz

 

 

 

Se, como acontecia quando fui viver para Inglaterra, o jornal The Times de Londres ainda tivesse a sua primeira página só com anúncios postos pelos leitores para vender fosse o que fosse, comprar fosse o que fosse, oferecer empregos, pedir empregos, anunciar acontecimentos privados, procurar notícias pessoais, dar notícias pessoais, eu teria há semanas posto nela a comunicação seguinte: “Mr. and Mrs. José Cutileiro [ou talvez Mr. José Cutileiro and Ms. Myriam Sochacki] of Rue Darwin, Brussels, wil not be sending Christmas cards this year” de maneira a que quem desse pela falta dos ditos cartões de Boas Festas no que carteiro lhe houvesse deixado durante a Quadra não julgasse que nos tinha acontecido qualquer coisa inibitória – morte, grava doença súbita, divórcio, fuga – e ficasse indevidamente preocupado com isso ou que nos tínhamos pura e simplesmente esquecido deles (ou decidido deliberadamente ignorá-los).

 

É a primeira vez que não mando cartões de Boas Festas mas o mundo já não é tão simples quanto era entre 1963, quando fui viver para Oxford e 1977, quando deixei definitivamente de viver em Londres. Logo em 1966 o Times - último jornal a fazê-lo, aguentando-se sozinho durante décadas - deixou de ter a sua primeira página dedicada a anúncios pessoais e passou, como os outros jornais do mundo inteiro, a pôr nela o que, em cada dia, pareça ter mais importância urbi et orbi. Alguns anos depois apareceu a internet que mudou os hábitos de comunicação letrada das pessoas. Antes de tudo isso, no começo do século XX quando o uso do telefone fixo não estava ainda disseminado, chegara a haver em Londres quatro distribuições de correio por dia – nessa altura namorados houve que se escreveram e responderam duas vezes, diariamente, durante as passagens mais intensas dos seus amores. O telégrafo fizera a primeira mossa, mas pequena. O telefone, quando se tornou corrente, fora mais grave. Mas os estragos causados pela internet são incomparavelmente maiores e em todos os países europeus se assiste à derrocada dos correios, sendo as suas instalações convertidas para outros fins. (Em Portugal, em meados do século XIX, a extinção das ordens religiosas libertou imenso casario, rapidamente ocupado pela introdução do serviço militar obrigatório. Nada se perde e nada se cria).

 

Juntamente com mudanças técnicas houve mudanças nas almas: na Europa há menos cristãos praticantes do que havia. Mas continuam a contar-se muitos adeptos fervorosos dos festejos de Natal, até entre ateus. Os cartões de Boas Festas, em cartolina mesmo (não imitações, às vezes com música, confinadas a écrans de televisão, fora do ambiente de uma casa) alinhando-se em lintéis de lareiras e diante de livros nas estantes, são ainda hoje parte indispensável da decoração. Mas certezas antigas acabaram: quem só receba meia dúzia de cartões, como se desembaraçará?

 

Comecei a escrever para desejar Bom Ano à leitora e acabo decidido a tornar a mandar cartões em 2018.

 

 

 

 

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20.12.17

 

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 José Rodrigues Miguéis

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Bananas e sacanas

 

 

 

José Rodrigues Miguéis (1901 - 1980), autor de romances aborrecidos e de uma novela genial (Páscoa feliz), homem de esquerda, militando na oposição ao regime dirigido minuciosamente pelo Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar (que, nos primeiros anos, quando queria reorganizar o Estado, chegava a decidir ele próprio processos de acumulação de funções de pequenos funcionários públicos), viveu muito tempo em Nova Iorque e dizia que Portugal era um país de bananas governado por sacanas. Na minha juventude, quando as estupidezes e as maldades do governo do dia me lesavam e me indispunham cada vez mais com o ditador e os seus cúmplices – e quando não tinha percebido ainda que o Dr. Salazar, mais do que ser causa dos nossos males era, sobretudo, consequência deles – eu achava a formulação de Rodrigues Miguéis admirável e justa. (Só mais tarde me apercebi que qualquer nova-iorquino acharia qualquer português um banana, antes, durante ou depois do Estado Novo. Exemplo: em compêndios de clínica médica norte-americanos, entre os sinais gerais de doença – fadiga, falta de apetite, febre, etc. – figura, para sobrolho franzido de qualquer português bem-formado da minha geração, “falta de ambição”).

 

Com a longevidade da Democracia a aproximar-se da longevidade do Estado Novo - e tendo deixado muito para trás a República que, coitada, nem à maioridade chegou - passei por fase em que me apeteceu virar a formulação de pernas para o ar e dizer que Portugal era um país de sacanas governado por bananas, porque muitos dos nossos políticos vinham ainda da oposição ao regime anterior, e viviam na ilusão de estarem a libertar a bondade do chamado povo, enquanto o chamado povo, por seu lado, não estava tão desenvolto como entretanto ficou e não se tinha apercebido ainda de que ser livre não era passar a sentir o que os doutores do reviralho achavam que ele devia sentir mas sim sentir o que lhe desse na real gana, doesse aos doutores a quem doesse. (Digo o “chamado povo” e não o povo, com vénia ao meu amigo João Carlos Espada que prefere dizer “população” em vez de “povo”. Não sou cientista dessas coisas mas percebi porque é que ele o faz ao lembrar-me de conversa sobre democracia directa com Maria de Lourdes Pintasilgo - Deus lhe tenha a alma em descanso - então primeiro-ministro, em que ela me perguntou o que é que eu achava que o povo pensava. “Oh Maria de Lourdes, o povo sou eu” respondi-lhe. Para “povo” não vejo outra volta a dar-lhe, desde a abolição dos três estados. Para “população”, vá estatísticas).

 

A democracia destapou os portugueses e pôs tudo bem à vista. Temos sacanas e bananas sortidos entre quem governa e entre quem é governado. Sem ditadura o baralho baralha-se mais. Escândalos recentes mostram torpezas tão más na mó de baixo como na mó de cima. Vai custar muito pôr tudo no são. Mas, para país de fundo católico, sobretudo no Norte, e de costumes mouros, sobretudo no Sul, podia ser pior.

 

 

 

 

 

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13.12.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

Decência e Bom Senso

 

 

 

O bom senso era a coisa mais bem partilhada no mundo em que Descartes vivia ou pelo menos o bom filósofo estava convencido disso. Olhando à roda no mundo em que vivemos hoje, seja o seu centro Nova Iorque, Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, Évora ou Ponte da Barca, não se fica com a certeza de que ainda seja assim mas talvez nos enganemos. Debaixo da espuma insensata dos dias vigora porventura bom senso resistente – quem aguentou desde o organismo monocelular original até ao Homo Deus do sábio professor israelita, aguenta tudo. Forte do seu passado, esse bom senso dá garantias ao futuro. E, de caminho, vai corrigindo contradições, imprecisões e a arrogância de certezas falsas próprias do senso comum que tanto mal nos têm feito. (Quando o senso comum derrota o bom senso e a malta gosta, convencida de que a verdade derrotou o erro, está o caldo entornado. Exemplo: o ensino do criacionismo como alternativa plausível à teoria da evolução nalgumas universidades americanas).

 

O outro cão de cerâmica policromada de Staffordshire, assente sobre os quartos traseiros no lintel da nossa lareira, chama-se decência e é garantia, juntamente com o bom senso, de não querermos entregar o mundo a quem vier depois em pior estado do que aquele em que nos foi entregue a nós. Bom senso e decência constituem par precioso, sempre em risco de que um - ou os dois - seja partido, risco que tem variado ao longo da História e atravessa agora passagem perigosa. Políticos, burocratas, intelectuais, clérigos, banqueiros, industriais, bilionários, comentadores, donas de casa que ainda haja, eleitores de qualquer idade ou sexo – todos nós – assistem agora a coisas muito parecidas com aquelas que, entre as duas guerras mundiais do século XX, levaram ao florescimento brutal do fascismo e do nazismo na Europa. (Na Rússia e na China foi pior). As predileções e fobias de alguns tribunos de hoje - e também daqueles e daquelas que neles sentem o chefe que lhes falta - mostram semelhanças inquietantes com as dos cultos de personalidade fomentados e praticados na Europa no intervalo entre as duas Grandes Guerras. Apesar de vidas cada vez mais longas permitidas pelo progresso da ciência cada vez menos pessoas se lembram desse tempo mas o progresso trouxe também fotografia e cinema. Pode ver-se, ler-se, saber-se muito do que se passou. Ao engano só vai quem quer.

 

Se o bom senso corrige o senso comum, a decência assiste as leis e a aplicação delas. Como no juramento hipocrático, a sua preocupação é não fazer mal. Dos casos maiores aos mais pequenos respeita a pessoa que há em cada um de nós, esperando que esta respeite também as que há nos outros. É moderada em tudo salvo na exigência de moderação. Procura que justiça seja feita com rigor mas sem pieguice nem sanha: mais vale ter dez culpados à solta do que um inocente preso. Viceja quando governantes e governados têm confiança uns nos outros.

 

Nada disto é utópico. Existe nalguns lugares do mundo.

 

 

 

 

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6.12.17

 

D Pedro

 Infante D. Pedro

 

 

 

José Cutileiro

 

 

De burro para cavalo?

 

 

 

Em tempo normal (se tal se puder ainda dizer nos nossos dias, vendo os filhos desobedecerem aos pais, as mulheres aos maridos, os novos aos velhos, os pobres aos ricos, os pretos aos brancos, os malcriados aos bem educados – tudo coisas que não eram costume quando eu era pequeno neste país que tão generosamente viria a acolher no seu seio o meu chorado amigo Freddy; as poucas que aconteciam, aconteciam à socapa - e quase toda a gente a achar bem que assim seja ou então a achar que não tem nada a ver com isso e a querer que a deixem em paz, o que é diferente - contrário mesmo - a querer que haja paz) o lema que não existia, nem existe, da diplomacia portuguesa que eu conheci por dentro, a do Estado depois do 25 de Abril, isto é, depois do fim da Ilusão Colonial e antes do Tratado de Lisboa, isto é, do renascer aqui e além da Ilusão Federal - mas deixando pela primeira vez porta de saída que Londres, sem gosto pelo contorcionismo comunitário, está agora desajeitadamente a abrir - deveria ter sido as palavras de despedida ao fim do dia de trabalho, que ouvi uma tarde e nunca mais esqueci, a mulher-a-dias da minha Mãe: “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe”. A visão do saguão e o instinto da porta de serviço, por um lado e, por outro lado, o reflexo contrário ao do Infante Dom Pedro a finar-se em Alfarrobeira: “Fartai, vilanagem!” (Avec ses quatre dromadaires/ Don Pedro d’Alfarrobeira/Couru le monde et l’admira./Il a fait ce que je voudrais faire/Si j’avais quatre dromadaires escreveu Wilhelm Kostrovicki, conhecido por Guillaume Apollinaire, que sobreviveu á Grande Guerra – Ah que la guerre est jolie/Avec ses canons et ses cris! – mas foi levado logo a seguir pela Gripe Espanhola, aos 39 anos. Como é que o polaco terá sabido do português?) Mas, desde que nos sentamos à mesa dos crescidos, tem sido um vê se te avias. Qualquer dia há de estranhar-se o Papa não ser português.

 

Releio as linhas acima e desagrada-me a propensão para parágrafos quase tão compridos quanto os do divino asmático mas enquanto este enchia os seus de palavras tão bem escolhidas que a gente chegava ao fim de cada uma dessas ladainhas com a alma consolada e com água na boca para a ladainha seguinte, eu só recebo de volta irritações das leitoras, apostadas às vezes em descobrir erros de concordância, ou predicados sem complemento directo, ou indicativos onde deveriam perfilar-se conjuntivos – que a portuguesa poderá ter muitos defeitos e insuficiências mas, tal como o português, tem um mérito certo: deitar ao desprezo quem julgue esteja a armar ao pingarelho, ou esteja a armar em carapau de corrida, expressões que o Senhor J. Fonseca me disse um dia serem quase mas não serem bem a mesma coisa, sem conseguir explicar-me a diferença de maneira que eu a entendesse. No Negage a gente topava, acrescentou.

 

Infelizmente palpita-me que a minha mania de escrever parágrafos muito compridos seja vista como uma dessas armações por muito boa leitora.

 

 

 

 

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29.11.17

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Fotografias de vítimas do massacre de Srebrenica expostas à porta do Tribunal de Haia

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Guerra, Paz, Bem, Mal

 

 

O general sérvio Ratko Mladic, conhecido na parte muçulmana da Bósnia e Herzegovina e nalguns meios cosmopolitas dados ao proselitismo moral por “O Carrasco de Srebrenica” mas considerado um herói nacional na parte sérvia da Bósnia e Herzegovina e, com algumas nuances, na própria Sérvia, foi este mês condenado à pena de prisão perpétua pelo tribunal na Haia que há mais de vinte anos se ocupa de crimes de guerra, contra a humanidade, etc. cometidos durante as guerras que assolaram a Jugoslávia, na sua transição para ex-Jugoslávia, no começo dos anos noventa do século passado. (Tal como, oitenta anos antes, no começo do segundo decénio do século XX outras guerras tinham assolado a região no seu caminho de pré-Jugoslávia a Jugoslávia). O general, para além de outros crimes menos vistosos, foi considerado culpado pelo assassínio de cerca de 8.000 homens e rapazes muçulmanos, separados de mulheres e crianças e encaminhados à parte pela tropa sérvia a quem guardiões da paz das Nações Unidas - os capacetes azuis - no caso vertente, oficiais e soldados holandeses, mandatados para garantirem que Srebrenica fosse um “porto seguro”, isto é, inexpugnável perante atacantes, os entregaram sem resistência nem objecção no verão de 1995. (Para se chegar lá foram precisas incúria e hipocrisia irresponsáveis dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que ofereceram às populações civis garantias que sabiam ser incapazes de assegurar).

 

O massacre foi o maior cometido até agora na Europa desde o fim da guerra de 1939-1945 e não resta dúvida de que ocorreu sob o comando do general. Depois de anos de negação, a “narrativa” sérvia passou a ser a seguinte. Durante muito tempo, da população muçulmana de Srebernica confinada no burgo durante o dia, saiam à noite pequenos grupos armados que iam matar camponeses sérvios (com efeito, o campo à roda é quase todo sérvio e houve muitos ataques assim). Um conhecido malfeitor/patriota (segundo o lado em que se estiver) organizava e comandava essas sortidas – e fugiu nas vésperas da queda da cidade. Quando a tropa de Mladic tomou conta, a sede de vingança era muita, a identificação de culpados problemática e o princípio da cruzada contra os albigenses terá prevalecido: “Tuez les tous. Dieu reconnaitra les siens”. Os sérvios lembram a seguir que tempo de guerra não é como tempo de paz (“quem mata primeiro, ganha” dizia o meu motorista Vasco dos townships de Cape Town); se a conversa animar, podem lembrar Dresden.

 

O caso de Mladic foi o último do Tribunal para a Jugoslávia; adjudicará ainda alguns recursos e depois fecha. A meu ver, nunca deveria ter aberto. A sua maneira de promover paz futura é absurda; promove, sim, vendetas antigas e cria vendetas novas. Até agora, em casos assim, com nações apanhadas em grande remoinho, a maneira mais sábia de tentar prevenir que a horrores se sigam horrores, é a criação de comissões de verdade e reconciliação, como fez a África do Sul.

 

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22.11.17

 

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José Cutileiro

 

 

 

Já mesmo na mó de baixo? Ou só a querer chegar lá?

 

 

 

“Isto está preto. E não chove.” Assim amiga muito querida se associou à minha indignação pela incúria com que Presidente, governo, parlamento, jornais, televisões, telefonias, Facebook & quejandos, parecem nem dar pelo estado das nossas defesa e segurança. Incúria antiga, que seria injusto atribuir à “geringonça” ou até, indo mais atrás, à Democracia que vigora desde 1976, ou ao Estado Novo chegado em 1926 ou à Primeira República instalada em1910. Ou sequer à Monarquia Liberal.

 

Algures na história da Europa, entre um Pacheco fortíssimo e os temidos Almeidas por quem sempre o Tejo chora, Albuquerque terríbil, Castro forte e outros em quem poder não teve a morte, e a fuga de D. João VI e da corte para o Brasil, deixando os marechais do corso a tomar conta da gente e a roubar-nos património, aquela mayonnaise firme de vontade, de coragem e de lucidez que nos fizera passar ainda além da Taprobana, talhou dentro das nossa almas e nunca mais fomos os mesmos. Tal mayonnaise talhada - caruncho, osteoporose, reumatismo - foi-nos esfarelando por dentro. A pouco e pouco, fomos perdendo o hábito de ganhar e fomos ganhando o hábito de perder. Em tudo, de todas as maneiras, de forma explícita ou implícita, de entrada talvez com algum incómodo, depois quase já sem nos apoquentarmos com isso e, por fim, como se tal pertencesse à ordem natural e inquestionável das coisas.

 

Quando eu era pequeno ouvia-se cantiga muito espalhada que não sei quando, nem onde, nem por quem fora composta, presumo que já no século XX mas talvez antes e talvez também, na direcção oposta, tendo deitado até ao tempo da leitora que porventura se lembrará dela. Começava assim:

 

Lá em cima está o tiro-liro-liro,                                                                                              

Cá em baixo está o tiro-liro-ló.

 

Anos a fio, de vez em quando a ouvi, de vez em quando a cantarolei, sem nada achar de esquisito. Até que um dia me ocorreu, de repente, como uma revelação, que não poderia ter sido cantada por um inglês ou por um chinês, ou por alguém que, viesse donde viesse, tivesse gosto e orgulho em ser de lá. Quem quer que fosse senhor do seu nariz, que fosse de um só parecer, um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer, cantaria outra cantiga que pareceria quase igual à primeira mas seria, na realidade, o oposto dela:

 

Cá em cima está o tiro-liro-liro,                                                                                              

Lá em baixo está o tiro-liro-ló.

 

Porque não lhe passaria pela cabeça dizer o contrário. Porque não traria consigo a visão do saguão e o instinto da porta de serviço que parecem terem passado a ser apanágio de nós todos.

 

Assim vamos vivendo do lado de cá do Atlântico, longe da inteligência artificial dos engenhocas de Silicone Valley, onde robots vão mandar na gente, e da estupidez natural da cintura bíblica do Alabama, onde o Mundo começa circa 5.500 a.C.

 

 

 

 

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15.11.17

 

soldado-na-bandeira-da-união-europeia

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Incompetência a mais

 

 

 

23 dos 27 países que constituirão a União Europeia depois da saída do Reino Unido lançaram no dia 13 uma Cooperação Estruturada Permanente em Defesa. Esta iniciativa crucial, em estudo há vários meses, abre novas formas de os europeus reforçarem a sua segurança. Todas as capitais europeias sabem que num mundo muito perigoso, com inimigos a Leste (a Rússia de Putin) e a Sul (o terrorismo islâmico) e com aliado a Oeste que parece ter deixado de ser incondicional (os Estados Unidos de Trump), a nossa segurança poderá não ser garantida apenas pelos meios de que dispomos hoje, nomeadamente as forças de cada um e as capacidades da OTAN a que 22 de nós pertencemos. A Irlanda, no mesmo dia, anunciou ir em breve juntar-se aos outros.

 

Ficaram de fora, como já se esperava, a Dinamarca que, quando aderira às Comunidades Europeias em 1973 declarara que nunca participaria em iniciativas militares no quadro desta (a ideia, nessa altura, era não se associar a qualquer eventual enfraquecimento da OTAN, risco que já há anos deixou de existir) e Malta que não é membro da OTAN e é signatária de documentos do seu tempo de país “não-alinhado”. Surpreendentemente, por decisão nossa, ficou também de fora Portugal, signatário em 1949 do Tratado do Atlântico Norte de Washington e, por isso, membro fundador da Organização deste, vulgo NATO.

 

Quando na segunda-feira a notícia me chegou pelo écran do meu computador, dei – literalmente – um salto na cadeira. A leitora que não entenda a vivacidade dessa reacção, conto porquê. Pertencer à NATO é a trave mestra da defesa nacional, isto é, da segurança do nosso país, desde muito antes do 25 de Abril. Embora só depois de passarmos a ser uma democracia, em 1976, tenhamos sido admitidos como candidatos às Comunidades Europeias (hoje, União Europeia), às quais aderimos, ao mesmo tempo que a Espanha, em 1986, necessidades estratégicas nossas e do Ocidente em geral fizeram pôr de parte esse requisito quanto a defesa e segurança, no nosso caso. (A Espanha só pôde entrar na NATO depois de ser uma democracia).

 

Apesar de ocasionais expressões francesas de antiamericanismo o primado da NATO nunca foi posto em causa. Depois do fim da Guerra Fria, porém, certas coisas mudaram. Por um lado, a reunificação alemã fez a França perceber que precisava mais dos Estados Unidos do que julgava; por outro lado, a passagem da Rússia de potência mundial a potência regional levou os Estados Unidos a entenderem que os europeus deveriam pagar mais pela sua própria defesa (pagamos escandalosamente pouco). E aqui entra a necessidade urgente e vital de desenvolver as capacidades potenciais de defesa da União Europeia.

 

Que Portugal não se meta nisso, logo à cabeça, é muito mau sinal. Dada a matéria, precisar do apoio comunista deixa o governo em apneia patriótica mas atacar Costa nesta altura faz a oposição parecer desmiolada e pouco patriótica também. Já não há 5 de Outubro, 28 de Maio ou 25 de Abril. Como ganhar ânimo?

 

O autor foi Secretário-Geral da União da Europa Ocidental, à época a única organização europeia de defesa, de 1994 a 1999.

 

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8.11.17

 

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G.K. Chesterton

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

“Pajens de um morto mito/

 

 

 

Tão líricos, tão sós./ Não têm na voz um grito,/ Mal têm a própria voz/ E ignora-os o infinito/ Que nos ignora a nós”. Assim, Fernando Pessoa exprimia classicismo comedido – o coração geométrico de Ricardo Reis temperado pelo jeito tanto-me-faz de Pessoa Ele Próprio – tudo ao abrigo de relação contrabandista com o outro mundo. Alexandre O’Neill, sempre atirado para a frente – outro mundo tinha deixado de haver - já não ia nessas: “Quem? O Infinito?/ Diz-lhe que entre./ Faz bem ao Infinito/ Estar entre gente”; ou melhor ainda “Sonetos garantidos por dois anos/ E é muito já, leitor que mos compraste/ À procura da alma que trocaste/Por rádios, frigoríficos, enganos”. Por mim, molhei a sopa de outra maneira: “A hora é dos gladiadores./Dos leigos de todas as fés,/Do imperador futuro que dorme/Em quem eu sou, em quem tu és.”

 

Mas havia (ainda) ordem: bem e mal, verdade e erro eram os mesmos em todas as boas casas, fosse qual fosse a indumentária que vestissem. E a razão, irmã do amor e da justiça, parecia, a pouco e pouco, ir escutando preces de almas livres, só a si submissas (embora com bombas atómicas no Japão e holocausto de meia dúzia de milhões de judeus pelo meio). É preciso dar crédito e autoridade á razão para que o acaso se não constitua soberano, escrevera o Cavaleiro de Oliveira que havia sido colocado como diplomata no estrangeiro e fora queimado, em efígie, num auto de fé por ter escrito que o terramoto de 1755 fora castigo de Deus por Lisboa ser demasiado católica. Ele e um jesuíta italiano, o Reverendo Malagrida (queimado em carne e osso) que achara, pelo contrário, que o terramoto fora castigo de Deus por Lisboa não ser suficientemente católica. O Marquês de Pombal era um espírito forte e achava que o terramoto tivera causas naturais. (Havia desmancha-prazeres. Por exemplo, o católico inglês G.K. Chesterton, quase nosso contemporâneo, escreveu que os loucos eram pessoas que tinham perdido tudo menos a razão).

 

Ao Cavaleiro de Oliveira ou quejandos aplicou-se o nome de “estrangeirado”, usado como termo de opróbrio pelos que os tinham feito fugir e por quem ache que é preciso “estar bem com a lei que há” mas empregue com admiração e inveja por muitos outros portugueses sempre desconfiados da Pátria. Lembro-me de há 30 anos em Lisboa precisar de um esquentador e o lojista me dizer: “Não compre Junker que já são feitos cá”. (Virá esta pecha do Tratado de Methwen? Ou desde a fundação da nacionalidade? Não sei, mas vai levar muitas start ups a sacudi-la do capote).

 

Bem e mal. Verdade e erro. Razão e falta dela. Com tudo a chegar-nos hoje in real time e sem anestesia fica-se sem distância no tempo e no espaço para medir bem seja o que for. Dantes, multidões analfabetas à trela de clérigos, depois de doutores, e Gutenberg a ajudar uns e outros. Hoje, Facebook, Twitter & Cia dispensam filtros de quem saiba e deixam que gladiadores domem o acaso e se constituam soberanos. Não há de ser nada? Oxalá.

 

 

 

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1.11.17

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 Miguel de Unamuno

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Hommage to Catatonia

 

 

 

George Orwell publicou um livro célebre sobre a guerra civil espanhola – a Guerra de Espanha de 1936-1939, tantas vezes lembrada ultimamente – a que chamou Homenagem à Catalunha, Hommage to Catalonia no original inglês. Na manhã de 31de Outubro em que este bloco escrevo, quando a tragicomédia das últimas semanas que parecia opor Madrid e Barcelona, ameaçando aqui e além caminhar para tragédia mesmo, se começou de repente a desfazer em farsa, em opera buffa, levando toda a gente, salvo os independentistas mais aguerridos, a dar grande suspiro de alívio, Orwell nosso contemporâneo deveria começar a escrever livro sobre a dita tragicomédia, a que chamasse Hommage to Catatonia – Homenagem à Catatonia.

 

Mas deixemos o manicómio e suspiremos de alívio. Quando o homem que, por iniciativa própria, decidira declarar e incarnar a Republica independente da Catalunha, e apoiado por almas igualmente determinadas, dar a cara contra Madrid, a União Europeia, Washington, por fim contra mundo (salvo a Ossécia do Sul, pequeno fantoche caucasiano manobrado pelo Kremlin, porque Putin não perde um oportunidade para tentar prejudicar ou irritar a Europa, e, não sei porque razões mas hão de ser frescas, a Gâmbia), a cara dada, depois de circular na televisão como se estivesse no seu posto – mas era manha; tinha filmada noutro dia – foi às escondidas por terra até Marselha, com alguns dos seus ministros, e lá apanhara avião de linha para Bruxelas onde agora está e haverá de falar aos seus. Saída de sendeiro, diz-se em casos destes.

 

É claro que foi infinitamente melhor assim. Se a confrontação continuasse e a certa altura houvesse sangue, teria havido depois mais sangue, e todos os ódios passados subjacentes viriam a seguir ao de cima. Tal tem acontecido em outras partes do mundo - e em Espanha muitas das feridas não têm ainda um século. Graças a políticos como Adolfo Suarez e Filipe Gonzalez, ao rei D. Juan Carlos, e, sobretudo, ao povo espanhol – castelhano, catalão, basco, galego, andaluz, todos – a construção democrática é sólida. Como se está a ver agora.

 

E foi um longo caminho. É célebre a troca de palavras entre Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca e o general fascista que numa sessão solene em 1936, governava Franco de Burgos (e os Republicanos de Madrid), gritou: “Muera la inteligência! Viva la muerte!”. Unamuno respondeu: “Este es el templo de la inteligência y yo soy su sumo sacerdote. Venceréis (…) pero no convenceréis”. Etc. Menos conhecido é que na mesma sessão um lente atacara violentamente a Catalunha e o País Basco que considerou “cánceres en el cuerpo de la nacion. El fascismo, que es el sanador de Espanã, sabrá cómo esterminarlas, cortando en la carne viva, como un decidido cirurjano libre de falsos sentimentalismos”.

 

Não foi há tanto tempo assim: eu, por exemplo, já era nascido. Percebem-se melhor os independentistas antigos e, ao mesmo tempo, assusta a insensatez crassa dos independentistas modernos.

 

 

 

 

 

 

 

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25.10.17

pinhal de Leiria

Pinhal de Leiria, 2017

 

 

José Cutileiro

 

 

 

O mundo real

 

 

François Mauriac, católico apostólico romano da região de Bordéus e prémio Nobel da literatura em 1947, escreveu que não conhecia a alma dos criminosos mas conhecia a das pessoas honestas e era um horror. Menos argutas, as nossas elites - eu e tu, hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère… (et, de nos jours, nos soeurs aussi) - estão a descobrir agora que aquilo a que gostam de chamar o país real – o Portugal profundo, escuridão misteriosa escondendo grande diamante por lapidar – é, afinal de contas, tão mau ou pior do que elas próprias. Contentará videirinhos saberem-se dotados de um olho em terra de cegos mas vai deprimir mais o resto de todos nós. A calcinação do Pinhal de Leiria foi a pedra de fecho da abóboda sonâmbula de incúria em que se fora transformando o Estado português.

 

Acabada a ficção “do Minho a Timor” (ainda ouvi gente dizer isso a estrangeiros, sem pestanejar) veio o grande desafio europeu: desde que o Dr. Soares bateu à porta de Bruxelas até nos deixarem entrar passaram dez anos, durante os quais se trabalhou. Uma vez dentro, porém, as coisas começaram a mudar. O Projecto Europeu, onde sempre quisemos estar “no pelotão da frente” (em Portugal a única literatura com leitores é a desportiva) passou a ser uma espécie de renda, ou de lotaria onde não havia nunca prémios astronómicos mas se ia ganhando sempre um poucochinho. Até que chegou a austeridade – “Os pobres que paguem a crise!” – e alguém se lembrou do cavalo do inglês que o dono treinava para viver sem comer e quando estava quase, quase treinado, morreu. Qual o quê! Os povos não são cavalos; entre troikas e autocensura íamos cantando e rindo - até que, de repente, duas girândolas de fogos deram connosco em terra.

 

Ninguém nos estenderá a mão num mundo cheio de outros disparates. Por exemplo, há dias a Organização Mundial da Saúde nomeou seu “Embaixador” Robert Mugabe, ditador que com mão de ferro transformou um dos países mais ricos de África num dos mais pobres. O escândalo foi geral e em 24 horas a OMC tirou-lhe o título. Porque é que o distinguiram? A razão é simples e percebi-a a 25 de Junho de 1982, em Nairobi, numa cimeira da OUA onde fora de observador. Moçambique fazia 7 anos; eu, embaixador em Maputo, quis felicitar Samora Machel que chegava com a comitiva à sala das reuniões quando de outro corredor apareceram Omar Bongo, presidente do Gabão e a sua gente. Estávamos na Guerra Fria: para esquerdistas europeus Bongo era um lacaio do capitalismo; para europeus de direita Machel era um perigoso marxista-leninista. “Machel!”; “Bongo!” gritaram e caíram nos braços um do outro às gargalhadas. Pertenciam ambos à irmandade de escravos forros que agora mandava em África. Capitalismo e comunismo eram problemas nossos, não deles.

 

Pela primeira vez o director da OMS vem de África (ex-ministro dos estrangeiros etíope); para ele Mugabe deve ser ainda, sobretudo e para sempre, um dos grandes heróis das guerras de independência africanas.

 

 

 

 

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18.10.17

 

 

 

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Capitol Hill, Washington

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Perigo de Morte

 

 

 

Um argumento contra a monarquia é esta designar para chefe de Estado herdeiro (ou herdeira) mesmo quando o dito (ou a dita) não tenha o mínimo de qualificações. Tudo pode sair na rifa – Nero herdara o Império e divertira-se a pegar fogo a Roma - e, há uns séculos, os europeus meteram-se a preferir repúblicas a monarquias ou, no canto noroeste do continente onde o feudalismo foi forte e incutiu regras de convívio entre pobres e ricos, a conservar monarquias, mas afastando-as cada vez mais da governação (Suécia, Noruega, Dinamarca, Países Baixos, Reino Unido). Em 1974, uma das primeiras pessoas que conheci no MNE, a D. Adelaide, que trabalhara na nossa embaixada em Oslo durante mais de dez anos, explicou-me porquê: “Aquelas criaturinhas pouco ou nada fazem mas têm o condão de manter o povinho unido”.

 

Quem não tenha tido, ou não tenha querido ter tanta sorte, foi alargando o número de sócios da empresa até ao sufrágio universal – nas democracias contemporâneas não há metecos nem escravos - julgando que, como não é possível enganar toda a gente todo o tempo, se haveria encontrado a maneira mais segura de evitar no futuro Neros, Calígulas e demais fatalidades dinásticas. Infelizmente, tal foi atribuir à voz do povo mais sabedoria do que ela é, permanentemente, capaz de mostrar. Exercendo os seus direitos numa das maiores (e mais senhoras do seu nariz) das repúblicas do mundo, em eleições livres e limpas, o povo dos Estados Unidos da América escolheu para seu Presidente Donald J. Trump, manifestamente incapaz de desempenhar tais funções com o mínimo de sanidade mental, competência política e integridade moral que elas exigem. E com mau fundo. Nunca acontecera nada assim.

 

Se Trump tivesse sido eleito presidente da Albânia, ou da Bolívia, ou da Malásia, nesta altura os albaneses, ou os bolivianos, ou os malaios - e eventualmente algum vizinho – estariam em maus lençóis, o Conselho de Segurança das Nações Unidas já se teria reunido e, por geografia ou interesses, talvez até um dos mandachuvas do mundo, com ou sem o beneplácito da ONU, tivesse mandado o Trump local pró catano. Mas o homem mora em Washington e só os americanos nos poderão livrar dele.

 

A lista de desmandos é egrégia: internacionais, nos casos da Coreia do Norte e do Irão, por um lado, e relações económicas com o estrangeiro, por outro; universais, em aquecimento global (incluindo desmantelamento de profilaxias já estabelecidas); nacionais, com a tentativa de destruição do sistema de saúde de Obama, a ilegalização de filhos de emigrantes, projecto de orçamento incoerente. Tudo recheado de aldrabices, golpadas, insultos e birras que envergonham e desacreditam os Estados Unidos.

 

Sem Estados-Unidos que nos fica? A Rússia de Putin? A China de Xi Jinping? A União Europeia, incapaz de matar uma mosca mesmo que a mosca seja tsé-tsé? Valham-nos alguns senadores e congressistas em Washington capazes de removerem o homem sem derramamento de sangue. Já houve caso parecido.

 

 

 

 

 
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11.10.17

 

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José Cutileiro

 

 

 

Voltas do Mundo

 

 

 

Na segunda-feira de manhã, a telefonia do carro lembrou-me que fazia 50 anos desde a morte de Che Guevara. 50 anos, dantes, eram um ror de tempo, mais do que a vida de muita gente (o meu Pai, por exemplo, morreu com 44, tinha eu 21); hoje os números são outros: casa-se bem mais tarde, muitas mulheres dão à luz pela primeira, e geralmente última vez por volta dos 40. Foi a pílula – a pastilha, dizia amiga minha, também aí há 50 anos, mas nunca ouvi mais ninguém usar a palavra com esse significado, de maneira que não figurará em dicionários de sinónimos: a excentricidade morreu com quem a inventou.

 

No começo de Outubro de 1967 eu vivia em St. Antony’s College, Oxford, e dava-me com economista francês, Jean-Marc Fontaine, chegado há pouco de Sciences-Po. Carregado de todos os preconceitos anti-ingleses que qualquer francês que se prezasse, fosse ele sans-culotte, ci-devant ou mistura dos dois, trazia consigo desde as batalhas de Azincourt, de Waterloo, teve todavia de ir reconhecendo, com relutância, os grandes méritos do que lhe davam agora a ler na pérfida Albion (embora a maneira de pensar fosse tão diferente da sua que lhe acontecia chegar ao fim do primeiro capítulo de um livro com a sensação de ter chegado ao fim do livro). Só na Páscoa seguinte, depois de discussão épica no correio de North Parade, ao virar da nossa rua, julgou entender. “Pourquoi ces types sont, d’une façon générale, si stupides mais leurs intellectuels sont, quand-même, assez astucieux? C’est que, pour eux, penser ce n’est pas naturel. It’s a job. You either do it well or you don’t do it at all”.

 

Jean-Marc era um romântico e quando a notícia chegou pela televisão, e a seguir nas capas de jornais, a preto e branco, com o Che deitado de costas morto, nu da cintura para cima, lembrando Cristo famoso pintado por Mantegna na Renascença, e soldados bolivianos armados em pano de fundo, que geralmente as redacções tiravam da fotografia, achou que era preciso mandar pêsames à embaixada de Cuba em Londres. Ele ia mandá-los, não era comunista mas o Che era figura impar que merecia homenagem e eu deveria mandá-los também. Eu tampouco era comunista; nem sequer tinha a simpatia por Cuba revolucionária que muitos lhe estendiam só por serem anti-americanos – eu não o era – mas também não chegava aos rigores dos que falam dos comunistas como de peste bubónica. O comunismo não foi uma doença; foi um remédio que falhou; o manifesto dos dois alemães (como o Sermão da Montanha do nazareno) não queria dar cabo do mundo, queria endireitá-lo. Deu para o torto; a emenda foi pior do que o soneto - mas o Che morreu convencido do contrário. Mandei os pêsames – e não parei de me arrepender. Passei a receber em quantidade e com regularidade exasperantes toda a espécie de propaganda impressa daquela ditadura de ilhéus, crassa e mentirosa, enquanto estive em Oxford. Três anos depois, quando mudei para Londres, o Colégio passou a devolver tudo e perderam-me o rasto.

 

 

 

 

 

 

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4.10.17

AfD

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Tempo circular

 

 

 

O tio Clarimundo proibira-me de fazer mais de duas citações ao almoço e três ao jantar. Adolescente, eu passava uma semana em casa dele porque o Pai visitava outra vez a clínica do Lopez Ibor em Madrid e a Mãe fora com ele. Cingi-me à disciplina avuncular mas a emenda não pegou. Adiante.

 

As I write highly civilized human beings fly over my head trying to kill me”, George Orwell, em Londres, durante o Blitz. “Je suis la guerre civile. Quand je tue, je sais que je tue”, Henri de Montherland, começo da sua peça “La Guerre Civile”. A guerra atómica começara nesse dia, o soldado teve de partir sem se despedir da mãe mas promete ir visitá-la assim que a guerra acabar … “three quarters of an hour from now!”, Tom Lehrer, matemático do MIT, cantor de protesto e de humor na década de 60, com muito sucesso na costa e na contracosta dos Estados Unidos (mas menos ou mesmo nenhum no interior entre as duas, que sem ninguém dar por isso já germinava por lá essa coisa politicamente teratológica – ou talvez seja a nova normalidade e o aleijado seja eu – a que se chama Trumpismo).

 

Vieram-me os três juntos à cabeça agora porque, depois de alguns entre nós, embalados por tanto aumento de riqueza e tanta aparência de virtude desde a autodestruição da União Soviética (que Vladimir Putin considera a maior catástrofe geopolítica do século XX - once a KGB officer, always a KGB officer) se meterem a imaginar, com pormenor adaptado aos nossos dias, a paz perfeita proposta pelo filósofo Immanuel Kant e parecerem convencidos de que tudo ia realmente pelo melhor no melhor dos mundos possíveis (conheço um ou dois, mais espertos a meterem equações à economia do que a leitora ou que este seu criado, mas para entendimento do mundo à sua e nossa volta, valha-nos Deus...) até começaram a brotar por toda a parte flores venenosas apostadas em darem cabo de jardim tão carinhosamente plantado.

 

Empreendimento criminoso hereditário, vulgo Coreia do Norte , talvez compreensivelmente preocupado com o que aconteceu a Muammar Khadafi que negociara com o Ocidente o desmantelamento das suas ambições nucleares, resolveu lembrar-nos a todos que tem bombas e que as poderá usar. O choque cultural cria estranheza; talvez o homem não assuste os seus mas assusta todo o resto (tirando as Bolsas que, com a acuidade geopolítica dos homens de negócios, parecem nem dar por ele). Com sorte não há de ser nada - mas aumenta o perigo por o Presidente dos Estados Unidos actual ser tão escandalosamente inepto. Entretanto a Catalunha, devido a manha perversa de alguns políticos locais e a estupidez granítica de Madrid, poderá dar à Espanha e à Europa déja vus impensáveis há um mês, desarrumadores de outras cabeças e potencialmente sangrentos. Por fim, em Berlim o pior sistema de governo tirando todos os outros levou ao Budenstag noventa e seis deputados nostálgicos de Hitler e das glórias passadas do Volk.

 

Como ao jantar em casa do tio Clarimundo, fico-me por três citações.

 

 

 

 

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27.9.17

 

 

E. Munch.winter

 Edvard Munch, 1899

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Winter is coming

 

 

 

Toulouse-Lautrec adorava o Outono, que para ele era a Primavera do Inverno, e embora esta semana Bruxelas esteja banhada no que os ingleses imperiais apodaram de Verão Indiano, o Inverno avizinha-se como monstro em pesadelo que exigiria almas ainda mais torturadas do que a do fidalgo-pintor – há mais de meio século, em cantiga portuguesa traduzidota de filme a cores de Hollywood, “…por mais que fizesse/Vivia a lembrá-la/E bebia absinto/Pelo cabo da bengala” – para apetecerem a estação das trevas e sofrerem por ela levar quase um ano antes de nos tornar a visitar (no Hemisfério Norte. Não sei como a correcção política dá conta do recado sem ofender as/os do Hemisfério Sul).

 

Para mim, como em todos os sistemas simbólicos que o bicho homem foi inventando durante milhares de anos para tentar viver com a noite e o dia, o mal e o bem, a força e a fraqueza, a mulher e o homem, a vida e a morte, o Inverno é coisa péssima (ao contrário do que achava o aleijadinho genial, que “ia ao Moulin Rouge/Enfrascar-se no vinho”) - e o de 2017-2018 vai ser “très very péssimo” como diria chauffeur de táxi poliglota que me levou o ano passado de casa ao aeroporto, onde ainda decorriam trabalhos de reconstrução, consequentes de terrorismo bombista.

 

No verão de 1914, ministro britânico ganhou nota de pé de página no grão livro dos viventes por ter dito que por toda a Europa as luzes se estavam a apagar. Para os europeus, a primeira metade do século XX foi uma Bernardette do caboz e, para muitos – incluindo, leitora, este seu criado – a segunda foi work in progress até ao colapso da União Soviética. Mas o mundo é mais complicado do que cada um de nós julga. Um bem que hoje se alcança/Amanhã já o não vejo/Assim nos traz a mudança/De esperança em esperança/E de desejo em desejo - ou, olhando para o ano que se aproxima e tomando outra inspiração clássica, de Bernardette do caboz em broncalina do camandro. Na América, Trump – e quanto melhor se percebe no que deram quer o partido Republicano quer o partido Democrático menos a gente se espanta. Na Europa, da Polónia ao Reino Unido, da Hungria à Catalunha, poucos dizem coisa com coisa; Macron procura, em vão, que os franceses se portem como alemães e Frau Merkel descobre com alarme que quem quer cada vez mais portar-se como os alemães são os alemães eles próprios. Très very péssimo.

 

O mal vem de longe. Durante a Guerra Fria, para encostar a URSS à parede, armámo-nos em defensores dos direitos do homem, levantando a fasquia bem acima das nossas posses – mas, como os soviéticos podiam muito menos ainda do que nós, passámos por virtuosos (assim um bocadinho como a filha do general birmanês). Ainda por cima, financeiros e economistas acham mais graça a tornar os ricos mais ricos do que os pobres menos pobres e o mau viver está a espalha-se por toda a parte. Por um tempo, sabedoria e bondade foram valores seguros. Se deixarem de o ser, acabou o meio milénio de intervalo lúcido a que tivemos direito.

 

 

 

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20.9.17

 

 

 

António Guterres

António Guterres, secretário geral da ONU 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O Circo da ONU

 

 

 

Tenho fraca opinião das Nações Unidas embora lhe reconheça algumas vantagens, que pude medir pela primeira vez no Cairo, onde o Superconstellation fizera escala ao começo da noite, voando de Genebra para Bombaim em Janeiro de 1952. A altura era especial: o General Naguib tinha tomado o poder, levando o país a caminho do Terceiro Mundo (depois de correr com ele, o seu sucessor, Nasser, juntamente com o Pandita Nehru e o jugoslavo Tito – que viriam os três a morrer fiéis ao posto, de morte natural e cercados de acólitos – iriam criar o Movimento dos Não-Alinhados) forçando o Rei Faruk, deposto e exilado, a contribuir pessoalmente para a plausibilidade de vaticínio seu: daí a cinquenta anos só haveria cinco reis no mundo, o Rei de Espadas, o Rei de Paus, o Rei de Ouros, o Rei de Copas e o Rei de Inglaterra. (Voltei a passar no Cairo, daí a pouco mais de seis meses, tinha Naguib sido deposto. Mas a memória mais exótica dessa escala foi outra: ao pequeno-almoço no restaurante do terminal, servido por criados de fez encarnado, se se pedia bacon & eggs vinham sempre três ovos com o bacon. Nunca me acontecera antes nem aconteceu depois, em nenhum lugar do mundo).

 

Nós viajávamos com laissez passer das Nações Unidas porque o Pai trabalhava para a Organização Mundial da Saúde. No mesmo avião vinham duas enfermeiras inglesas de meia-idade, também funcionárias da OMS, que insistiram em se fazer identificar pelos seus passaportes britânicos, válidos e legais no Egipto – e desde há mais de um século impositores de ordem, respeito e eventual subserviência desde o Suez até Pequim. Mas as autoridades fronteiriças do Egipto agora ao serviço de Naguib – nem imagino como terá sido quando passaram a servir Nasser – fingiam não perceber a insistência das Misses e, sabendo que estas viajavam pela OMS, exigiam os laissez-passer da ONU, para eles organização acima de todas as outras no mundo, subalternizando assim os British Passports emitidos por agentes de Sua Majestade Britânica - propósito evidente e inflexível da sua diligência. As enfermeiras a certa altura perceberam que não as deixariam seguir para a Índia, submeteram a razão ao bom senso, e seguiram para Bombaim indignadas.

 

Passados 34 anos, na minha primeira ida à ONU em Nova Iorque, pego à chegada no New York Times, vejo na primeira página artigo sobre a Assembleia Geral que começava e, no segundo parágrafo, leio “Diz António Monteiro, de Portugal: é psicoterapia de grupo para o mundo”. Ele não era ainda embaixador mas diplomata na nossa Missão – e nunca esqueci essa maneira de explicar a utilidade do ritual. Outro momento a não esquecer, 8 anos mais tarde. Nos 50 anos da Organização, o Fernando Andresen, embaixador em Washington e eu, secretário-geral da UEO, entrávamos às 9 da manhã no grande anfiteatro cheio de convidados. “Tu põe-te a pau” disse ele sem olhar para mim. “A maioria desta malta é estrangeira”.

 

Quem não seja burro de todo também aprende com os mais novos.

 

 

 

 

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13.9.17

 

Schubert

 Franz Schubert, aguarela de Wilhelm August Rieder, 1825.

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O quinteto em dó maior, D 956, de Schubert

 

 

 

O mano Jorge, que morreu com dez anos e tinha menos nove do que eu, era o único dos três filhos com jeito para música. O piano que fora da Mãe veio de Évora para nossa casa em Lisboa e a Professora Mariana que dera lições ao Babalhú, à Luzinha e à Nucha, filhos de João Cid dos Santos e de sua mulher Nazaré Vilhena, amigos lá de casa – o Pai era padrinho da Nucha – começou a dar lições ao Jorge quando ele tinha seis anos.

 

O Pai cantara em novo cantigas alentejanas (lembro-me da confusão que me fizera ouvi-lo nos Olhos da Marianita em casa do avô quando eu sabia estar ele em Lisboa: era um disco gravado quando era estudante e posto na telefonia naquela manhã pelo Radio Clube Português ou a Emissora Nacional) mas quer o João quer eu pouco ou nada herdámos dessa inclinação; o João, nada mesmo: se fosse inglês poderia dizer como Winston Churchill que só conhecia duas músicas – uma era o God Save the King e a outra não era; eu saíra um bocadinho menos duro de orelha, distinguindo alguns compositores de outros e sentindo preferências fortes por alguns deles.

 

Nunca saberemos o que o Jorge teria dado. Na geração seguinte, a inclinação reapareceu. O meu filho toca há muitos anos em dois grupos pop holandeses que têm conhecido algum sucesso em Groningen e outras cidades do Norte dos Países Baixos. E o meu sobrinho Tiago, que agora vive em Berlim, é compositor, inter alia, de uma ópera, de música orquestral e de música de câmara, tendo também sido professor de composição. Para entender melhor estes saltos de gerações é útil saber que não são à toa. Existe toda uma ciência destas coisas a partir das experiências de um monge agostinho de Brno, hoje na República Checa, chamado Mendel que, passou oito anos a cruzar ervilhas de cheiro e descobriu as leis segundo as quais, em cada espécie, os caracteres hereditários passam de geração em geração, fazendo comunicação científica em que explicou tudo isso, incluindo a existência de pares do que hoje chamamos genes, em 1865. Ficou esquecido meio século, depois inspirou investigações que ainda hoje continuam: é um gigante da biologia, ombreando com Darwin. Ver-se-á o que darão o meu neto e os netos (e o bisneto) do mano João.

 

Tudo isto porque na telefonia do carro ouvi hoje mais uma vez o quinteto em dó maior de Schubert D 956 quase todo, tocado não sei por quem. De há um século para cá ouve-se música que nos chega assim, por acaso ou de propósito, em discos e em maneiras mais modernas ainda de a reproduzir sem ter de haver músicos a tocá-la diante de nós ou nessa altura. Ouvi-o pela primeira vez em casa do Ruy Cinatti e, na minha ignorância musical, tocou-me muito e veio-me à cabeça linha de Eliot “ an infinitely gentle, infinitely suffering thing”. Volta sempre que o oiço (a última vez o ano passado, ao vivo). Quando estou em sala, dá-me para achar que não devia haver discos. Depois caio em mim: sem discos, teria ouvido muito pouca música, quase toda má.

 

 

 

 

 

 

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6.9.17

 

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Norte Coreanos inclinam-se diante de estátuas dos antigos líderes Kim Il-sung and Kim Jong-il na capital Pyongyang.

foto: J.A. de Roo via Wikimedia Commons. 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Grande chatice à vista?

 

 

 

Com o psicopata de Pyongyang na maior, parece-me que estamos mesmo pela primeira vez em perigo de guerra nuclear, desde o colapso da União Soviética. Ora na guerra, escreveu Thomas Hobbes (1588- 1679) e eu vi acontecer à minha frente, força e fraude são as duas virtudes capitais. Exactamente o contrário do que a correcção politica da presidência de Barrack Obama queria impor aos americanos. Ao fim de oito anos, a malta yankee fartou-se de tanta bondade e, em vez de votar terceira vez seguida nos democratas, votou em Trump, toma lá que já almoçaste. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, mas acontece quase sempre assim.

 

Em Portugal é diferente. Cá, as tentativas de correcção política são sempre ridículas – mesmo quando não cheguem à insensatez fascistoide da proibição dos livros para meninos e para meninas da Porto Editora. Não por sermos desajeitados mas porque a correcção política resulta de exagero inapropriado de exigência moral – e em Portugal tal exigência moral não existe. Não há noções de mal e de bem universalistas, fontes de satisfação ou de culpabilização geral. O centro dos direitos e deveres é a família e não uma obrigação abstracta aplicada por igual a toda a gente. Pai de amigos meus, grande commis d’État do regime de Salazar (mas poderia ter sido um dos manda-chuvas de hoje menos iletrados) teria candidamente dito que nas relações dos governantes com os governados se deveriam favorecer os amigos, prejudicar os inimigos e, a quem fosse nem uma coisa nem outra, aplicar a lei. O cocheiro da tipoia que levara Fradique Mendes de Santa Apolónia ao hotel em noite tempestuosa, por preço exorbitante exigido à cabeça, quando Fradique lhe perguntou no fim “Com que então são três mil reis?”, respondeu: “Eu disse aquilo porque não tinha conhecido o Senhor D. Fradique. Para o Senhor D. Fradique é o que o Senhor D. Fradique quiser”. Dei uma libra àquele bandido, desabafa Fradique. À gente destas terras do Sul europeu – nós, os espanhóis, os italianos, mais de metade dos franceses, os croatas, os sérvios, os albaneses, os gregos – Lutero e Calvino não chegaram. Mas chegaram às grandes tribos anglo-saxónicas e germânicas que estão a agora a perder o controle do mundo, depois de dois séculos a mandarem vir. (De caminho, deixaram estado de direito e democracia nalguns lugares – a Índia é o mais conspícuo – que espero não venham a desaparecer). No estertor desse poder temos hoje em casa as batalhas inglórias da austeridade.

 

Voltando à Coreia do Norte. Devemos ajudar os americanos a definir sensatamente qual seria o mal menor – a fim de que o Ocidente não se desconjunte diante da China e da Rússia. A história da Coreia do Norte com a arma atómica vem de longe e quando se julgava que no mundo multipolar se encontraria enquadramento propício, o psicopata mandou matar tio e irmão e bateu o pé. A nosso favor: em 1914 e 1939 guerra era natural e grandes potências a queriam; hoje não o é e nenhuma potência a quer.

 

 

 

 

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30.8.17

 

 

 

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José Cutileiro

 

 

 

Futuro? Passado?

 

 

 

O meu amigo mais erudito – haverá eruditos ainda mais eruditos do que ele mas não são meus amigos – contou-me de filósofo grego pré-socrático, cujo nome esqueceu, para quem a invenção da escrita estava a enfraquecer cabeças que assim já não se exercitavam a aprender coisas de cor. Passados milénios de escrita, porém, o saber de cor perdeu a utilidade e o prestígio que tinha, salvo no teatro e no circo – há mais de meio século, estudante da Faculdade de Medicina de Lisboa perguntou a outro se estudava Medicina Legal “compreendendo ou empinando” o que, em vez de sugerir versatilidade no espírito do perguntador, confirmou a sua fama de burro. O facto mesmo do meu amigo erudito se lembrar do pensamento mas não do nome do pensador ilustra convicção que fui ganhando ao longo dos anos: quem nasce sem memória acaba a perceber muito melhor as coisas do que quem nasça com ela. Os memoriosos como eu empinam sem dar por isso muitos bocados do mundo e, mais tarde ou mais cedo, a brincadeira sai-nos cara.

 

A conversa sobre o filósofo pré-socrático aconteceu no dia seguinte a jantar com outros amigos, tripeiros que trouxeram com eles pimpolho adorável, quase com dois anos, cujo conhecimento da língua falada cresce como um bambu e sobressalta de vez em quando ouvidos sulistas, elitistas e liberais com esboços de palavras que, ao descerem (ou subirem? Que ordenaria, em casos de Norte contra Sul, a correcção política?) das margens do Douro até às margens do Tejo, se transformam em palavrões - para hilaridade mais ou menos furtiva dos circunstantes, só parando o índex de palrar quando, antes de se sentarem à mesa, os pais lhe metem um iPhone nas mãos. Aí, embevecido, cala-se e ao agradável junta o útil: vai aprendendo inglês e a usar a maquineta com mais destreza do que os pais. Perante miúdos com a habilidade dele, sinto-me eu analfabeto. Gutenberg estragara o conforto estético recatado de homens como o banqueiro Cosimo de Medici, anafado na sua bolha de incunábulos, vistos só por ele e por quem ele consentisse, caligrafados um a um por monges silenciosos, distribuídos a alguns clérigos, alguns fidalgos e alguns banqueiros. Remanso que Gutenberg destruiu - e a desordem não acabou aí. Depois de pregar as suas teses na porta da igreja, Lutero fê-las imprimir. Séculos mais tarde, Máximo Gorki em rapaz novo lia Pushkin a dezenas de operários analfabetos numa grande padaria (antes do bom Tio José ter posto os amanhãs a cantar, a Rússia não morria de fome: era um enorme celeiro e exportava trigo). Mas papel tipografado, que fez o mundo dar voltas, está a passar de moda: na administração da Estónia, paraíso do numérico que este semestre preside à União Europeia, praticamente já não se usa.

 

Quando o filho dos meus amigos for da idade do meu, muitas coisas e maneiras de as fazer que haviam um dia sido parte do futuro pertencerão ao passado. Dantes não era assim, a gente ainda estranha, e o pimpolho em crescido já nem dará por isso.

 

 

 

 

 

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23.8.17

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Sacanas e bananas

 

 

 

Passam-se anos sem eu ver o Duro. Desde novos, privámos em passagens animadas da vida e ele conhece-me melhor a mim do que eu o conheço a ele - ou pelo menos é isso que eu sinto. (Outro com quem acontecia o mesmo era o meu chorado Zé Cardoso Pires e eu achava que tal se devia ao Zé ser romancista e eu não; com o Duro essa explicação não colhe). Encalhámos um no outro há dias e lembrei-me – lembro-me sempre que nos encontramos - de encalhe anterior, também no verão, à porta do Balaia, depois do 25 de Abril mas antes do Balaia ter virado Club Med.

 

“Voltaste?”. Fazia-o ainda pela finança internacional, em Londres ou numa das costas dos Estados Unidos.

 

“Não! Só quando as condições estiverem cumpridas”.                                                                                  

“Quais condições?”                                                                                                                                                  

“Salazar no poder; Marcelo Caetano na oposição; Freitas do Amaral na clandestinidade!” (Freitas do Amaral, nessa altura, considerava-se e era considerado de direita).

 

A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres; el trigo trigo!” afirma camponesa andaluza numa peça de teatro de Lorca. Camponesa que havia de ser, como o Duro, pessoa de um só princípio, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer. Como seria também o médico cujo nome me escapa, membro do Partido Comunista Português no tempo da clandestinidade, preso duas ou três vezes, esbofeteado pela Pide, que encontrei em casa da Mimi e do Fernando Bandeira de Lima, amigos dos meus Pais (ele também maltratado na António Maria Cardoso) e que, ao falar eu de inspector da Pide inteligente me interrompeu, indignado, porque a inteligência era um dom das almas superiores e, por isso, nenhum Pide podia ser inteligente.

 

Ainda haverá gente assim. O Duro é fino como um coral; o amigo dos Bandeira de Lima era burro; o que nos chegou da camponesa de Lorca não dá para saber – mas tudo seres morais e isso escasseia agora no pessoal político. Não só por cá (já lá vamos); falha no cimo mesmo do que chamávamos “O Mundo Livre”: Trump, palhaço pouco esperto, ignorante e malfazejo terá de ser corrido depressa; no Reino Unido não se vê hoje ninguém; em Berlim, automóveis poluentes e superavit escandaloso são demais para que a mediocridade da Senhora disfarce a Alemanha. Talvez Macron, se fizer os franceses perderem egoísmo e peneiras.

 

E nós? No tempo de Salazar o escritor José Rodrigues Migueis dizia que Portugal era um país de bananas governado por sacanas. Democracia e Europa trouxeram-nos harmonia: hoje somos, governados e governantes, bananas assacanados - ou sacanas abananados se a leitora preferir.

                                                                            

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16.8.17

 

 

Ninotchka-05

Greta Garbo em Ninotchka

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Elogio dos coca-bichinhos

 

 

 

Num fim de tarde sombrio do fim do Outono de 1967, em sala aquecida a gás da cave victoriana de Saint Antony’s College, Oxford, assistia eu a uma das cinco palestras sobre Marx dadas pelo Professor Chemin Abramsky, sumidade que vinha às quintas-feiras de Londres iluminar os nossos espíritos, quando ele declarou que Marx se dera imediatamente conta da importância para a história da Europa da Comuna Francesa como tal. “Engels”, acrescentou, “foi mais lento. Levou-lhe cerca de quinze dias”. (Talmúdico e germânico, Abramsky lera, inter alia, toda a correspondência entre os dois).

 

Percebi nesse instante que a vida académica onde há três anos me metera não era para mim mas passariam ainda mais sete – e revolta vitoriosa, por fartura das guerras coloniais, de maioria esmagadora de oficiais milicianos e do quadro das forças armadas portuguesas – até a deixar. Sem o espírito coca-bichinhos porém, não haveria ciência e sem ciência não teríamos, por exemplo, nem aspirina, nem aviões, nem o numérico. Outro exemplo: sem inclinação coca-bichinhos a meter ombros à sua visão, o frade de Brno não teria aguentado oito anos de registo da fecundação cruzada de ervilhas de cheiro - e não haveria genética moderna. Nada é simples. Quando Vasco Pulido Valente era candidato a Saint Antony’s, Raymond Carr, director do colégio perguntou-me se o meu amigo era realmente bom. “É um homem muito inteligente” respondi. “Com certeza. Mas porque é que um homem muito inteligente haveria de fazer investigação pormenorizada?”

 

Até hoje nunca ninguém soube o futuro e continuamos a não o saber. Mas, graças aos progressos da ciência (incluindo nesses progressos a liberdade de estudar o que se quiser e de publicar livremente os resultados desses estudos) tampouco agora temos sobre o passado as certezas que tínhamos. Por um lado, mais uma vez, a liberdade de levantar dúvidas – “If you think your mother loves you, check it”, dizia o chefe da redacção ao estagiário nos grandes anos da imprensa escrita americana – por outro lado, cada vez mais coca-bichinhos auferem tempo e dinheiro para satisfazer a sua curiosidade diligente.

 

Para a vasta maioria de nós todos incluindo, presumo, a leitora, o colapso da União Soviética e o fim dos regimes comunistas da Europa Oriental foram um alívio para quem lá vivia e um sossego para nós também. Salvo – e, machista, a nossa opinião em geral não reparou nisso – quanto à satisfação sexual das mulheres. Em 1917, mesmo antes do Bolchevismo, tiveram o voto na Rússia; na URSS e satélites depressa ganharam direitos e liberdades económicas e sociais que as libertaram de muitas dependências e jugos do homem. Estaline fez marcha atrás; mas embora menos na URSS, na Albânia e na Roménia onde também houve retrocessos, a situação feminina europeia do lado de lá era muito melhor do que do lado de cá – para mais fruição e prazer das próprias, também sexual. Tudo medido e avaliado agora por coca-bichinhos e coca-bichinhas.

 

 

 

 

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9.8.17

 

Operator

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Gemeinschaft e Globalização

 

 

 

O sabonete fugira-me das mãos (os portugueses nunca deixam cair coisas – estas “fogem-lhes das mãos”, dizia o Alexandre O’Neill), baixei-me para o apanhar e dei comigo estatelado de costas no duche do hotel (com a água fechada). Chamei em vão pela Myriam; a construção de hotéis leva a peito o isolamento acústico. Quando, hora e meia depois, ela acordou e telefonou a pedir ajuda, mulher nova comandando homem também novo, empregados do hotel simpáticos e sorridentes, puseram-me de pé num instante com eficácia profissional.

 

Uma hora depois, telefonei a pedir informação sobre o horário do pequeno almoço. A recepcionista deu-ma e perguntou-me a seguir se o Senhor Embaixador estava melhor. Numa lufada de amor da Pátria chegou-me cena passada há quase 83 anos em Évora. Na noite em que eu nasci, em casa dos meus avós maternos, o Pai fez chamada para amigo em Lisboa a dar a notícia. Os telefonemas interurbanos nessa altura pediam-se a uma central (a que chamavam Troncas). Pouco depois de acabada a conversa o telefone tocou; era a menina de Troncas que fizera a chamada, para dar os parabéns ao Senhor Doutor.

 

Aconchegos difíceis de imaginar em lugares protestantes e puritanos, onde pecariam por inconfidências inadmissíveis. Presumo que seja a regularidades assim que alguns antropólogos chamam “vigências”, certezas que não mudam através do tempo apesar do resto mudar tanto à nossa volta.

 

Mas antes, de papo para o ar no chão entre as 6 e as 7 e meia da manhã, tinha-me lembrado de outra coisa. Há poucos anos, prémio Nobel (1974) da medicina belga com 95 anos, viúvo, que fazia ainda 40 piscinas de 20 metros por dia, sentiu-se mal em casa, caiu e, até a mulher-a-dias chegar 14 horas depois, não foi capaz de se levantar. Ficou furioso, indignou-se com limitações postas na Bélgica à eutanásia que lá é legal mas tem de ser autorizada e tanto barafustou (e tão grande era o seu prestígio) que depressa lhe deram licença e pôde ir-se embora em paz, cercado por família que muito lhe queria. Acreditava – como eu acredito – que, depois de morto, nada dele sobreviveria.

 

Entretanto vou tendo notícia de outras coisas: numa aldeia do Paquistão, conselho dos anciãos decidiu que menina de 17 anos, cujo irmão tinha violado outra menina de 17 anos, fosse ela própria violada, não dizendo a notícia por quem. Em Canton, Mississippi, numa fábrica da Nissan, 3.500 operários, homens e mulheres, quase todos negros, votaram quinta e sexta-feira passada e rejeitaram, por maioria de 60%, a sindicalização. O sindicato em questão – United Automobile Workers - acusou Nissan de ameaçar e intimidar os operários; alguns destes evocaram caso de corrupção de chefe sindicalista. O Sul dos Estados Unidos continua ainda menos sindicalizado do que o resto do país.

 

O mundo é vário – e áspero demais em muitos lugares. Continuo a preferir a decência europeia que inclui hoje muitas vezes a liberdade de casar com quem se queira e o direito de morrer em paz.

 

 

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2.8.17

 

 

jack-in-the-box

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Democracias

 

 

 

No ano passado, a democracia mais antiga e mais prestigiada do mundo (o Reino Unido de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) e a democracia mais rica e poderosa do mundo (os Estados Unidos da América), utilizando os seus respeitados mecanismos constitucionais, deram a si próprias duas bordoadas de cujos maus efeitos não recuperarão tão cedo.

 

A bordoada britânica foi resultado de referendo a perguntar aos cidadãos (melhor dito, aos súbditos de Sua Majestade Britânica) se queriam sair da União Europeia ou permanecer nela – uma maioria disse que queria sair. A bordoada americana foi eleger Donald Trump Presidente dos Estados Unidos. No primeiro caso a procissão nem sequer vai no adro: só há poucos dias se encetaram conversas formais em Bruxelas mas, antes das negociações começarem, já se tinha percebido que o Reino Unido ia perder muito com o negócio, a todos os níveis. Durante a campanha que precedeu o referendo os partidários da saída mentiram escandalosamente sobre o dinheiro que os britânicos poupariam se saíssem, sem que os partidários na permanência na União tivessem denunciado essa mentira com vigor comparável; além disso a população da Inglaterra e da Irlanda do Norte, é uma das mais ignorantes e menos educadas dos 35 países da OCDE. Por exemplo, em lugares dependentes para sua sobrevivência da exportação de automóveis para o resto da União Europeia, a percentagem de votantes que quiseram deixá-la foi das mais altas do país. 44% das exportações britânicas e mais de metade das importações são com o resto da União Europeia; saindo do Mercado Único tudo isso lhes ficará muito mais caro mas, para nele ficarem mesmo saindo da União, teriam de admitir imigrantes de lá vindos e isso, até agora, é impensável. Digo até agora porque a indústria em geral começou a dar-se conta de que, sem estrangeiros, a economia levará grande e duradouro rombo. Para não falar da City. Os serviços de finança e negócios de Londres perfazem um terço do PIB britânico porque têm clientes pela Europa toda – que os vão deixar se saírem da União. A Confederação da Industria Britânica estima que em 2020 o PIB britânico será de 3,5% a 5% menor do que se o Reino tivesse continuado na União. Haverá 2° referendo? Exit tão soft que não se dê por ele? Ou insistirão no masoquismo da ruína voluntária?

 

Nos Estados Unidos as coisas vão de mal a pior porque Trump não dá para Presidente – a maioria dos eleitores já o sabia – e, em vez do hábito fazer o monge, neste caso o monge está a esfarrapar o hábito. A personalidade de Trump - o seu narcisismo, a sua mesquinhez, a sua maldade, a sua ignorância – está a abandalhar a Presidência. Sendo a Constituição como é não se vê saída fácil – mas quanto mais demorar, pior será para a América e para o mundo.

 

Acha a leitora que irá tudo ao sítio? Escrevo em Montemor-o-Novo onde, a passar na cidade antiga, li este nome: Rua da Paz, e, por baixo, antiga rua da Mancebia. Enquanto há vida há esperança.

 

 

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26.7.17

 

 

hortensias 2

 

 

José Cutileiro

 

 

Hortênsias dos Açores – à falta de um Bey em Tunis

 

 

 

Todas as terças feiras, há mais do que três anos, eu começo a manhã com uma aposta contra mim próprio: quero ter o bloco-notas pronto ao fim do dia para o mandar à Vera a tempo de ela poder encontrar boneco que o ilustre e poder despachar os dois juntos para o éter – éter onde depois a leitora os irá buscar, já capturados pela máquina moderna, de bolso ou de mesa, que a leitora, segundo a hora e o lugar, prefira pôr ao seu serviço. Entre bens e males de mundo, bens e males da Pátria e bens e males de mim próprio, em teoria a escolha à minha frente é vasta mas – lembrando Hyppolite, qui regardait le ciel par le trou de la serrure e, quando lhe explicaram que podia olhar para o céu de outra maneira, respondeu vous appelez ça l’azur, ce grand ciel bleu? Mon azur à moi est plus compliqué!, ou pelo menos assim me lembro do poeta belga Géo Norge – mas, dizia, o momento de começar, como o de Husain Bolt a sair dos tacos, às vezes precisa de concentração que o ar desse dia não me dá. Estava eu hoje por bandas assim quando abri e-mail da Vera a perguntar-me se eu queria que ela aprovasse um comentário. No Assunto vinha: comentário de “desconhecido” no blog.

 

Não era um desconhecido; era uma conhecida que começava: José continuas a não te lembrar de mim na nossa infância… Vou dizer à Vera para aprovar o comentário de maneira que eu não precise de o transcrever aqui na íntegra. Em resumo, a minha amiga na infância lembra-se de coisas de que eu não me lembro e eu lembro-me de coisas de que ela não se lembra. Julguei, mal, que ela tinha vindo uma tarde de visita com a mãe à quinta onde nós vivíamos na Ilha Terceira. (Nessa altura era costume senhoras, cujas vidas eram em casa, fazerem visitas umas às outras). Afinal tinham lá passado as duas cinco semanas, vindas do Faial. Dou a mão à palmatória (depois de décadas de pedagogia branda, as novas gerações usarão ainda esta figura de retórica?). E a minha amiga julga, acho que também mal, que eu a retratava em figurinhas que amassava em terra e depressa se desfaziam ou se quebravam. Por mim, julgo que haverá de ter sido o mano João. É certo que em menino – tive a sorte de ser um dos filhos dos homens que foram meninos – também pus a mão na massa. Cópia do Desterrado de Soares dos Reis em plasticina com meio palmo de altura foi fotografada por Mário Novais e elogiada por Diogo de Macedo, crítico de arte abalizado, já estávamos de volta ao Continente. Mas, quanto a feitos de escultura, fiquei-me por aí, donde infiro que a minha amiga deve ter trocado os manos na memória dela – tanto mais que conta no comentário que eu (isto é, o João) já crescido esculpi algumas Teresinhas e até lhe dei (o João deu) uma delas.

 

Não sei do retrato dela com hortênsias que havia em casa da mãe e pedi à Vera que encontrasse fotografia de muitas hortênsias açorianas para ilustração desta página de bloco. Entretanto perdi a aposta comigo próprio: já é quarta-feira.

 

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19.7.17

 

Lord_Carrington

 Lord Carrington numa cerimónia da Ordem da Jarreteira, de que é Grão-Mestre

foto Philip Allfrey

 

José Cutileiro

 

 

 

Lembrança da Guerra das Falklands

 

 

 

 

Lord Carrington foi o primeiro ministro dos negócios estrangeiros - Foreign Secretary - de Margaret Thatcher. Na altura da formação do governo, ele tinha-lhe discretamente mandado dizer que não lhe admitiria más criações, o aviso fora acatado, e deram-se os dois como Deus com os anjos até ao fim da vida dela (Carrington fez 98 anos em Junho e está em forma). Mas a relação institucional fora abruptamente interrompida. Em 1982 a Argentina invadiu as Ilhas Falklands e no dia seguinte Carrigton demitiu-se. Entendia que o ministério dos negócios estrangeiros britânico se deveria ter apercebido do que os argentinos estavam a preparar e, como responsável político, entregava a pasta.

 

O seu sucessor foi logo nomeado e Carrington passou a backbencher (membro da Câmara dos Comuns ou da Câmara dos Lords, que não faz parte do governo nem das chefias da oposição) depois de muitos anos de responsabilidade política. Militar de formação – após Eton fizera a academia militar de Sandhurst em vez de Oxford ou Cambridge – condecorado durante a Segunda Guerra Mundial, saiu de cena com a sua honra não só intacta mas reforçada.

 

A Inglaterra ganhou a guerra e recuperou as ilhas (que os argentinos chamam Malvinas); a junta militar que a começara e governara criminosamente a Argentina foi deposta e vários dos seus membros presos e condenados por tratamento atroz de centenas de oposicionistas incluindo muitos assassinatos. A democracia foi restaurada no país.

 

Entretanto, poucos anos depois de se demitir do Foreign Office, Lord Carrington foi convidado a voltar à cena política, desta vez como Secretário-Geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, vulgo NATO, (ou, em momentos pedantes de aficionados da nossa língua – às vezes também os tenho – OTAN). O mandato do Secretário-Geral da NATO é por cinco anos, pode ser renovado mas Carrington não o quis. Assisti, por acaso, ao último Conselho a que presidiu. No último ponto da agenda, leu o comunicado do Conselho quase até ao fim e antes do último parágrafo que fazia o seu elogio e anunciava o seu sucessor, passou assim a leitura para o MNE do Luxemburgo, presidente protocolar : « And now Jacques you come over here and shoot me ».

 

Foi presidir Christie’s, os leiloeiros de arte, e o seu prestígio era tanto que em 1991 foi convidado a presidir a Conferência de Paz sobre a ex-Jugoslávia, o que fez durante um ano do seu gabinete no Christie’s.

 

Um homem de honra leva vida bonita e tem sempre futuro. Infelizmente, nestas matérias, o sul da Europa não goza de grande fama. No prefácio da sua célébre história da luta pelo poder na Europa no século XIX, AJP Taylor conta que, nessa época, os embaixadores eram ou grandes fidalgos ou grandes figuras intelectuais; num caso ou noutro, sempre homens de honra. Nota de pé de página : « Excepto os italianos. Como seria enfadonho estar sempre a repetir esta advertência, fica aqui para o livro todo ».

 

Portugueses são italianos tristes.  

 

 

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12.7.17

 

Bataille de Waterloo

 Batalha de Waterloo  /  Clément-Auguste ANDRIEUX (1829 - 1880)

 

 

José Cutileiro

 

 

Fabrício em Waterloo

 

 

 

 

Ou “Fabrice à Waterloo” como os franceses gostam de dizer, não por serem senhores do seu nariz e terem sempre nariz maior que o do Cyrano (há quarenta anos, quando em Estrasburgo convivi com eles pela primeira vez, percebi que eram portugueses réussis, isto é, tinham todos os nossos defeitos sem terem a qualidade simpática que às vezes nos bafeja de reconhecermos que nem sempre temos razão) mas por ter sido romancista francês quem pôs personagem de romance seu, chamado Fabrice, tão atarantado durante a batalha de Waterloo em que participava como voluntário do lado dos franceses de Napoleão, que perdera o fio à meada, não entendia o que se estava a passar nem percebia sequer quem estava a ganhar e quem estava a perder. A passagem está tão bem escrita que a expressão “Fabrice à Waterloo” entrou na conversa das francesas e dos franceses cultos para referir atrapalhações desse género nos campos mais variados onde a vida nos solte ou prenda – assim como em Portugal a gente recorre ao velho do Restelo, que Camões pôs nos Lusíadas a achar que Vasco da Gama não deitava até à Índia, para falarmos de botas de elástico com raiva ao futuro que só se sentem bem no que julguem já conhecer por dentro e por fora.

 

Nos últimos tempos tenho encontrado alguns assim – mas, desta vez, gente nova e desempoeirada - em questão que eu julgava estar resolvida desde das trente glorieuses, anos de crescimento económico benfazejo do capitalismo europeu centrados entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria - e definitivamente arrumada desde o colapso voluntário da União Soviética, que se deitou abaixo a ela própria, como grandes industriais japoneses faziam hara-kiri se a empresa falisse. Salvo em cús de Judas exóticos – Cuba; Coreia do Norte – estava a dar-se por toda a parte grande mudança para melhor. Tínhamos esquecido sentença sábia de antigo governador do Banco de Inglaterra, do tempo da Senhora Thatcher, com quem acabou por se dar muito mal e cujo nome me escapa agora: “Mudança é sempre mau. Sobretudo mudança para melhor”.

 

Há dias, amigo, muito mais novo do que eu, ponderava - entre curioso e apreensivo, como se contemplasse fendas abertas em terreno onde pensara construir casa – o enxotar dos doutores a que assistimos agora, o festival de contra-verdades triunfantes em redes sociais, o elogio da ignorância e a exortação à intolerância por populistas de fala grossa a começar pelo 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Lembrei-lhe que tudo não vai assim tão mal quanto isso, que os diferentes Estados da América conseguem corrigir muitos disparates do Presidente, que em França, na Holanda, na Áustria os democratas ganharam e a maré mudou. Que a razão tem filhos robustos a combater por ela.

 

Mas que, antes de mais, será preciso refrear a ganância dos mercados. Para voltar ao começo: prefiro estuários a deltas e carabinas a caçadeiras; o Rouge à Chartreuse (ou, 30 anos depois, a Bovary à Educação Sentimental).

 

 

 

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5.7.17

 

Maria Teresa Horta

 Maria Teresa Horta

 

José Cutileiro

 

Hortenses dos Açores

 

 

Os últimos dias foram marcados por celebrações de mortes de gente boa: Helmut Kohl, o primeiro grande europeu a ser considerado, ao mesmo tempo e pelas mesmas pessoas, também um grande alemão (esperemos que, além do primeiro, não tenha sido o último…); Simone Veil que, por instinto nato e experiência dos verdes anos, toda a vida defendeu fracos contra fortes, gente decente contra gente indecente e não tinha ódio no coração; até - para aquelas e aqueles que percebem que só as pessoas frívolas consideram a frivolidade frívola - Alain Senderens, cozinheiro (chefe, como se diz agora em português) francês que tomou conta do Lucas Carton, restaurante parisiense célebre mas entrado em decadência há muitos anos, o levou outra vez à glória de três macarrões no Guide Michelin, o que não acontecia à casa desde os anos 30 do século passado, e foi um dos celebrados inventores daquilo a que se chamou nouvelle cuisine. A gastronomia é em França o que a tauromaquia é em Espanha – forma de ascensão social fulminante que pode levar chefes e toureiros, os grandes artistas dos respectivos ramos, aos píncaros da sociedade nacional de cada um dos países. Tal como a Igreja católica tinha sido em Itália, não no Renascimento, quando a plutocracia coeva tomara conta da instituição, o Vaticano era de bilionários como hoje é a administração Trump, houve Papas Medici, Farnese, Borgia, etc., mas sim nos séculos XIX e XX, quando rapazes de origem humilde, educados em seminários, chegavam a padres, às vezes a bispos, raramente a cardeais e - Euro-milhões dos desígnios de Deus - um ou outro dava em papa. Vindos de cantos dispares da bota italiana, aconteceu de vez em quando, lembrando-se mais a gente de Angelo Roncalli, aliás João XXIII, (canonizado há meses pelo Papa Francisco) que, ao convocar o Concílio Vaticano II, quase virou de pernas para o ar a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana e foi alvo de injúrias e calúnias – parecidas, de resto, com as que, anos mais tarde, foram dirigidas a Simone Veil por causa da lei sobre a interrupção voluntária da gravidez em França – vindas de sectores integristas e tradicionalistas da Igreja, enraivados por tanta modernice.

 

Mas papas italianos talvez tenham acabado. O último foi João Paulo I e durou um mês. João Paulo II era polaco; Bento XVI, alemão; Francisco, argentino (embora com pais italianos).

 

Entretanto, a mudar livros de um desarrumo para outro, encontrei um da Teresa Horta. Somos da mesma idade, conhecemo-nos pouco mas os nossos pais, médicos e amigos, foram mobilizados durante a guerra para ilhas diferentes dos Açores. Teresa visitou-nos, com a mãe, na quinta da Terceira onde vivíamos. (Havia lá em casa retrato dela aos 7 anos a rir diante de muitas hortenses). Aprendi a ler aos 4, li tudo antes de tempo, mas nessa visita ela maravilhou-me com maestria maior. “É não é? Pois é!” disse três ou quatro vezes durante a tarde e nunca mais me esqueci desse malabarismo de monossílabos.

 

 

 


28.6.17

 

Danton

a cabeça de Danton

 

 

 

José Cutileiro

 

Os doutores e o povo

 

 

 

Em 1778, o começo do preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos da América, “Nós o Povo”, não incluía nem índios, nem pretos, nem indigentes, nem mulheres, só homens brancos desafogados (muitos deles, se fossem portugueses de hoje, seriam doutores). Em 1789 chegou a Revolução Francesa: Ah ça ira, ça ira, ça ira,/Les aristocrates à la lanterne/ Ah ça ira, ça ira, ça ira,/Les aristocrates on les pendra! (mas o Dr.Guillotin meteu-se de permeio, passou-se a decapitar e não a enforcar, o método manteve-se depois do próprio Guillotin ser guilhotinado e a invenção só deixou de ser usada quando a pena de morte foi extinta em França em 1982). Mais doutor que Robespierre não havia, Danton fora um grande barrista, Marat era médico. De entrada, cortaram-se cabeças a alguns fidalgos, mas o entusiasmo depressa abrandou. Essa revolução, toda a gente dizia, fora burguesa. Em 1917 veio a Revolução russa: os alemães do Kaiser (que detestava o primo Romanoff) convenceram Lenine a vir da Suíça e meteram-no em comboio selado donde só saiu na Estação da Finlândia, em S. Petersburgo, para tirar a Rússia da guerra e fazer a revolução bolchevique. Lenin era doutoríssimo, Trotsky também; Estaline não - mas fora seminarista. Depois de anos de saneamentos mortíferos e de gulag chegou a meritocracia partidária do tempo de Brejnev, quando os aparachiques deixaram de se matar uns aos outros e passaram a corromper-se uns aos outros. Opressão e subserviência dão sempre má mistura. A União Soviética colapsou ao fim de 70 anos de incompetências acumuladas que deixaram o que sobrou dela exausto até hoje.

 

E o poder sempre nas mãos de doutores, que experiências com outros deram resultados piores. (Tal o aguadeiro ajudado pelos ingleses para derrubar o rei Amanulah, modernizador do Afeganistão que, há quase um século, mandara tirar o véu às mulheres, se correspondia com Lenine e Mustafah Kemal e acabou exilado em Roma – enquanto em Cabul o aguadeiro mandou queimar todos os livros que não fossem o Corão porque ou diziam o que vinha no Corão e eram supérfluos, ou não diziam e eram malditos. Durou pouco). Mao, Nehru, Pol Pot, Lee Kuan Yew de Singapura, foram doutores – Kemal Attaturk, um doutor fardado. Portugal não escapou à maré: Afonso Costa, António José de Almeida, Sidónio Pais, António de Oliveira Salazar, Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e os de agora (salvo Jerónimo de Sousa).

 

A prática é sensata: mais vale ser governado por gente que saiba alguma coisa do que por gente ignorante e contente de o ser e hoje as melhores garantias de saber são universidades. Mas Facebook e quejandos dão vantagens inéditas à ignorância. O não britânico à Europa e a eleição de Donald Trump são disso exemplos assustadores - e a procissão ainda vai no adro. Nestas coisas, contra o que julgam alguns optimistas, não há progresso ascendente garantido; iremos por aí abaixo de escantilhão antes de começarmos a trepar outra vez pela encosta acima.

 

 

 

 

 

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