19.12.14

 

 

 

Garrett desenho Júlio Gil.jpg

 

 

 

Protagonista e espectador de acon­tecimentos fundamentais na cul­tura, na política e na sociedade por­tuguesas, Garrett (1799-1854) viveu a transição do século XVIII para o século XIX, a viragem do Portugal velho para o Portugal novo. O exí­lio, o desempenho de funções diplo­máticas e outras actividades obrigaram-no a residir alguns anos na Inglaterra, na França e na Bélgica. Teve contacto directo com a vida social e política daqueles países e dos movimentos culturais de van­guarda.

 

Foi um dos principais colabora­dores de Mouzinho da Silveira na redacção e elaboração dos decretos para a reorganização das finanças públicas, da justiça, da divisão ad­ministrativa e que modificaram o sistema governativo. Pertence-lhe, também, uma das leis para a definição da propriedade literária e o direito de autor, contribuindo para a dignificação e independência da criação intelectual.

 

A modernidade começou, entre nós, com Garrett. As raízes da mo­derna poesia portuguesa, no enten­der de José Régio e depois de Óscar Lopes e António José Saraiva na História da Literatura Portuguesa, derivam da obra de Garrett. Prolongou-se até às gerações do Orpheu e da Presença. Sem o Gar­rett das Folhas Caídas não tería­mos João de Deus, nem António Nobre, nem Pascoais, toda a gran­de corrente lírica dos séculos XIX e XX , que retrata muito do comportamento do homem português.

 

Desde sempre o teatro ocupou lugar de relevo nas suas preocupa­ções. Quando Passos Manuel este­ve à frente do Governo (1836-1837) solicitou a intervenção de Garrett para renovar o teatro. Dois exem­plos: a colaboração para organizar o Conservatório e para construir um Teatro Nacional. Integraram-se nesta política cultural as peças que Garrett escreveu e onde recriou grandes ciclos da História de Por­tugal: a revolução de 1385, que res­tituiu a independência e levou ao trono o Mestre de Avis ( O Alfageme de Santarém ); a época dos Desco­brimentos, contemporânea do nas­cimento do teatro português ( Um Auto de Gil Vicente ); a perda da in­dependência em 1580, com 60 anos de ocupação espanhola ( Frei Luís de Sousa); e a governação pombali­na (A Sobrinha do Marquês).

 

Criou, igualmente, uma nova escrita nas Viagens na Minha Ter­ra. Atribuiu à palavra a nitidez do pensamento, a variedade do ritmo, uma arquitectura verbal em que a construção lógica se concilia numa expressão original. As Viagens na Minha Terra abriram caminho à língua e estilo de Eça de Queiroz. Do Carlos das Viagens resultou o Carlos de Uma Família Inglesa, de Júlio Diniz, e o Carlos d' Os Maias, de Eça de Queiroz, qualquer deles elegante, volúvel, sedutor. E não será difícil aproximar o Carlos das Viagens de outro Carlos também de Eça de Queiroz e da sua geração: Carlos Fradique Mendes, exemplo do homem requintado, medularmente europeu.

 

Entre nós, Garrett foi o primeiro a recolher o tesouro poético do povo português. Recuperou da tra­dição oral numerosas composições do Romanceiro, muitas das quais inéditas, conforme revela o DN, hoje, a propósito do espólio de Ve­nâncio Deslandes. Mas ainda lhe cabe um papel precursor nas áreas da etnografia, do folclore, dos estu­dos de antropologia. O que é preciso - salientou - é estudar as nossas pri­mitivas fontes poéticas, os romances em verso e as legendas em prosa, as fábulas e crenças velhas (...) no grande livro nacional, que é o Povo.

 

Lançou um movimento que se reflectiu até aos nossos dias. Cha­mou a atenção para os atentados à paisagem, aos monumentos, às bi­bliotecas e arquivos. Apesar dos aproveitamentos políticos, para al­gumas orientações do Integralismo Lusitano e do Salazarismo, Garrett iniciou a reabilitação e classifica­ção do património articulando as necessidades e interesses locais com a história, a geografia e o quotidiano, a fim de assegurar os fun­damentos da identidade do País.

 

Em tudo quanto fez Garrett, sem deixar de ser português, aproximou-se da Europa numa perspec­tiva aberta, dinâmica e plural, de sentido humanista.

 

 

António Valdemar

in [Garrett] "Um dos Precursores da Modernidade" 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

*

 

Imagem:

Desenho de Julio Gil  

Ilustração de Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett

Diário de Notícias, 24 de Janeiro de 1955

 

 

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12.12.14

 

A descoberta de inéditos do Romanceiro de Almeida Garrett foi anunciada a 7 de Dezembro de 2004 pelo Diário de Notícias [1]. No dia 9 de Dezembro do mesmo ano, integrado num caderno dedicado ao Autor por ocasião dos 150 anos da sua morte, saiu no Público [2] o romance popular “Fonte da Cruz”. 

 

 

Fonte da Cruz título.jpg

 autógrafo de Almeida Garrett

 

 

As primeiras e últimas coplas deste romance são uma das mais antigas reminiscências de minha infância. Estou daqui vendo ainda o grupo de crianças que nos sentávamos no chão para o ouvir contar a uma certa pequena pouco mais velha que nós, filha de uma boa mulher que fora ama de leite de minha mãe. Isto é dizer que eu teria quatro anos, os mais velhos de entre nós seis ou sete, e a nossa cantora os seus oito ou nove anos. Era uma santa gente que morava para o Bom Jardim, no Porto, e vivia de pequeno mas honesto tráfico, protegidos por meus pais. A filha ia passar oito ou quinze dias no “Castelo”, pequena quinta nossa, situada daquém Douro. E era um dia de alegria o em que ela chegava, era choro que não acabava quando se partia. Porque ela sabia, além destes cantares ao divino, todas as xácaras da Silvana, da Bela Infanta, e mil outras histórias em prosa e verso, como as da «Maria Cortiço», da «Maria Sabida» do «Rei dos Ratos», «Gata Borralheira», «Rei Ramiro» além de infinitas aventuras de bruxos, lobisomens, moiras incantadas [3] , duendes, etc, cujos títulos individuais me não lembram; era um romanceiro vivo, uma segunda e mais completa edição daquela erudita e copiosa Brígida velha que, em outros lugares de minhas escrevinhaduras, tenho celebrado e citado.

 

Estas primeiras e últimas coplas eram as que só me lembravam quando a nossa lavadeira, que é uma boa mulher de Loures, aqui veio hoje, 15 de Abril de 1843, e a ouvi cantando a trova na cozinha donde a chamei e, sem grande dificuldade — coisa rara ! — pude obter que ma deixasse copiar, o que fielmente fiz, emendando apenas algum verso demasiado esticado ou curto demais: que poucos foram.

 

Fonte da Cruz

 

Deixa-me ir à fonte nova

Que nasceu ao pé da Cruz:

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

Um cego, que abriu a fonte

O cego já achou luz,

Que lhe deu água nos olhos

Da fonte da vera Cruz.

 

Fonte nova, fonte santa,

Fonte de amor que reluz!

Santa Maria ao pé dela,

San’ João com seu capuz.

 

Outra fonte fazem ambos

A chorar o seu Jesus.

—“ Minha mãe, esse é teu filho”

Diz o Salvador da Cruz,

 

“João, essa é tua mãe,

Que assim o quero e dispus

À hora da minha morte;

E cá vos fique esta luz:

 

Que o meu amor não tem fim,

E que entre vós dois o pus

Para se lavar o mundo

Na fonte da vera Cruz.”

 

Quem quer vir à fonte nova

Que se fez ao pé da Cruz?

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

 Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

© Família Futscher Pereira

 

 

Notas

 

1. Almeida Garrett foi «o primeiro compilador do nosso Romanceiro, ou seja, de narrativas diversificadas, de vária índole, da nossa tradição oral popular, destinadas a serem meio recitadas, meio cantadas» explica a investigadora Ofélia Paiva Monteiro. O autor terá dedica­do grande parte da sua vida a esta recolha. «Entre 1843 e 1851, Garrett editou os três tomos do "seu" Romanceiro, dizendo na Introdução do segundo que a sua colecção viria a ser consti­tuída por cinco livros», lembra esta professora. Mas o elenco publicado só corresponde aos li­vros I e II. «Os manuscritos ago­ra achados parecem comportar o material compilado para os to­mos que não chegaram a vir a lume; e complementam mate­rial que já tinha sido dado a co­nhecer por um Cancioneiro, au­tógrafo garrettiano (que traz a indicação de ter sido começado em 1824)».

 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

 

2. "Fonte da Cruz", um poema recitado por uma lavadeira saloia de Loures, foi descoberto em Março [2004] pela família Futscher Pereira num espólio herdado, e mantém-se inédito. Este poema (também chamado "romance" ou "cancioneiro") da tradição oral popular tem origem medieval e Almeida Garrett reuniu-o no Livro III das "Lendas e Profecias", todo ele inédito. Começa com uma introdução, do próprio Garrett.

 

Público, 9 Dezembro 2004

 

3. Na transcrição dos manuscritos para o Público, desdobraram-se abreviaturas e pontuou-se raramente para compreensão dos textos, mantendo embora a redacção de palavras peculiares na ortografia garrettiana (como "incarregar" ou "incantadas". [Luís Augusto Costa Dias]

 

 

4. Sobre a divulgação dos manuscritos achados em 2004 leia também neste blog o post Long Live Garrett 

 

 

 

 

 

 

 

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9.12.14

 

garrettiana1_g.jpg

 Foto: Júlio Novais (1904)

 

Nos 160 anos da morte de Garrett a BNP revisita a Exposição Garrettiana de 1904

aqui

 

No ano do cinquentenário da morte de Almeida Garrett, a Biblioteca Nacional promoveu uma exposição comemorativa, era então seu director o erudito e bibliófilo Xavier da Cunha (além de crítico e poeta, também sob o pseudónimo de Olímpio Freitas), ao tempo fundador da Sociedade Literária Almeida Garrett e membro dos seus corpos dirigentes.

 

Admirador de Almeida Garrett, Xavier da Cunha esteve no centro das comemorações, antes de mais no centenário do nascimento, em 1899, propondo à Academia das Ciências de Lisboa a edição de um «livro áureo» do autor de Viagens na Minha Terra, iniciativa que não vingou. Nos anos subsequentes, porém, sobretudo a partir de 1903, a proposta para a trasladação dos restos mortais de Garrett para o Panteão dos Jerónimos, a cargo da Sociedade Literária Almeida Garrett e ocorrida a 3 de maio, foi amplamente difundida pela imprensa portuguesa, com destaque para o Diário de Notícias, de que era então redactor principal o escritor Brito Aranha.

 

No ano seguinte, ao mesmo tempo que Teófilo Braga coordenava as Obras Completas de Almeida Garrett, em diversos volumes de uma «Edição ilustrada» de pequeno formato e em dois tomos de uma «Grande edição popular», a Biblioteca Nacional chamou a si a organização de uma exposição de «homenagem simples e modestíssima» ao escritor romântico, segundo descrição no Boletim da Sociedade Literária Almeida Garrett . Inaugurada a 9 de dezembro de 1904 pelo príncipe real D. Luís Filipe e seu irmão e futuro rei D. Manuel, com assinaturas inscritas em Livro de Visitantes, desta exposição não chegou a ser impresso catálogo (cujo original manuscrito consta existir na Sala Ferreira Lima, FLUC), porém o seu registo fotográfico foi deixado por Júlio Novais e reunidos numa miscelânea os jornais diários que noticiaram o evento.

 

 

 

 

Nota:

Sobre a Sociedade Literária Almeida Garrett e o escritor Xavier da Cunha leia neste blog o post Impressões Deslandesianas.

 

Mais neste blog na tag Garrett

 

 

 

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31.8.14

 

 

  Simon Leys / Pierre Ryckmans

 

 

 

La Chine a connu ces dernières années de prodi­gieuses transformations. Elle est en passe de devenir une super-puissance — sinon la super-puissance. Dans ce cas, elle sera — chose inouïe — une super­puissance amnésique. Car, jusqu'à présent, sa miracu­leuse métamorphose s'effectue sans mettre en ques­tion l'absolu monopole que le Parti communiste continue à exercer sur le pouvoir politique, et sans toucher à l'image tutélaire du président Mao, sym­bole et clé-de-voûte du régime. Et le corollaire de ces deux impératifs est la nécessité de censurer la vérité historique de la République populaire depuis sa fon­dation : interdiction absolue de faire l'histoire du maoïsme en action - les purges sanglantes des années 1950, la gigantesque famine créée par Mao (dans un accès de délire idéologique) au début des années 1960, et enfin le monstrueux désastre humain de la «Révolution culturelle » (1966-1976). Treize ans après la mort du despote, le massacre de Tianan-men (4 juin 1989) est encore survenu comme un post-scriptum ajouté par les héritiers, pour marquer leur fidélité au testament laissé par l'ancêtre fonda­teur. Mais ces quarante années de tragédies histo­riques (1949-1989) ont été englouties dans un « trou de mémoire » orwellien: les Chinois qui ont 20 ans aujourd'hui ne disposent d'aucun accès à ces infor­mations-là — il leur est plus facile de découvrir l'his­toire moderne de l'Europe ou de l'Amérique que celle de leur propre pays.

 

Quelle sorte d'avenir peut-on bâtir sur l'ignorance obligatoire du passé récent? «Ce qui peut constituer le plus grand obstacle empêchant la Chine de devenir un pays moderne au meilleur sens du mot, c'est sa volonté de maquiller et de récrire l'Histoire, tout par­ticulièrement, l'histoire de la "Révolution cultu­relle" », remarquait tout récemment le journaliste Jonathan Mirsky, perspicace observateur de l'actua­lité chinoise.

 

Mais la métaphore la plus éloquente de la situa­tion présente est encore ce Coma de Pékin évoqué par Ma Jian: le protagoniste du roman (une création particulièrement puissante de la littérature chinoise contemporaine) est un jeune manifestant décerveié par une balle perdue de Tiananmen, qui flotte, para­lysé, muet, sourd et aveugle, dans un coma sans fin.

 

 

Simon Leys

in Le Studio de l'inutilité

[Relire l'histoire de la « Révolution culturelle », Intoduction à la réédition des Habits neufs du président Mao (Ivrea 2009)]

© Flammarion 2012

 

 

Mais sobre o Autor aqui e aqui

 

 

 

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13.8.14

 

 

 

 Paula Rego - A dança

 

 

 

 

 

Quem sabe, sabe.

 

 

Entre as duas guerras (a de 1914-1918 e a de 1939-1945, lembro às leitoras mais novas), a propósito da explosão de exibicionismos que borbulhavam nas années folles, André Gide (francês e Prémio Nobel da literatura em 1947, lembro às leitoras menos dadas a leituras) dizia ver à sua volta mais artistas do que obras de arte. Nessa altura não havia nem internet nem twitter nem facebook nem blogs e, com o que hoje se chamam plataformas a coisa mais parecida seria o cinema, que Meliès e os manos Lumière tinham solto em Paris e vingara na Europa e nos Estados Unidos como a prole de um casal de coelhos na Austrália — mas hedonismo, egotismo e narcisismo são antigos e para lhes dar asas cada uma sempre usou o que tivesse à volta (ensimesmada: quando perguntaram às águas do lago se Narciso era mesmo belo, estas responderam que não sabiam porque quando ele vinha olhar-se nelas, elas aproveitavam para se olharem a si próprias nos olhos dele — ou, pelo menos, foi o que Oscar Wilde contou, não sei se antes se depois de ter conhecido Gide em Paris, onde viria a morrer. O mundo é pequeno).

 

De artistas e de obras de arte pouco ou nada sei mas há mais de dez anos virei comentador e, de silêncios aconchegados, longe da balbúrdia pátria, vou mandando bocas. Agora, chegado no começo do mês de Bruxelas, lendo os jornais e olhando para o que Conchita Cintrón chamava la pantalla chiquitita, suspeito que neste maravilhoso país que tão generosamente acolhia Freddy Kotter no seu seio a algazarra dos comentadores cobre de uma espécie de smog as coisas a comentar. Não é que estas faltem — desde o esforço vão do governo para transformar os portugueses em alemães (por via fiscal, ainda por cima) com Herr Gaspar, primeiro, e Frau Albuquerque, depois, a encaminharem-nos com um vasculho, como dantes os vendedores de perus pelas ruas de Lisboa, até à sanha súbita contra várias gerações da família Espírito Santo, reminiscente do azar dos Távoras — mas, bombardeadas pela cacofonia pátria, essas coisas e outras de menor porte deformam-se como as nossas caras na galeria de espelhos de uma feira de diversões.

 

Disse à Vera, dona do blog, que estava a pensar deixar de escrever o Bloco-Notas mas ela disse-me que eu não podia fazê-lo e que o mundo agora era assim, que todos podiam deitar palavra e que havia leitoras para tudo quanto se escrevesse. É, com efeito, um pouco tarde para protestar contra o ensino obrigatório, contra enciclopédias que anunciam à cabeça não garantirem que a informação que nos dão seja verdadeira e contra o ulular desafinado dos comentários de nós todos. Mas eu sou um pequeno-burguês de Évora e às vezes sinto-me como patrício meu, sentado sobre tábuas pousadas em tripés na primeira fila de um circo de província. A gaiola dos leões desconjuntou-se, o público saltou para fugir, e o meu patrício com as partes pudendas entaladas entre duas tábuas, sem se poder levantar, gritou: “Sentem-se, caralho, que os leanitos nã fazem mal”!  

 


5.5.14

 

 

O partido exigia não apenas todo o nosso tempo, como sentia que a nossa entrega só era total se também puséssemos à sua disposição os nossos bens. «É forçoso dizer que grande numero de camaradas (...) procuram modos de vida cómodos; estabelecem por vezes para a sua vida privada padrões de existência abastada e não se importam, nalguns casos, de esbanjar dinheiro inutilmente», escrevia-se numa resolução do comité central. Pior, pecado maior: «alguns camaradas não prescindem e até esperam ansiosamente as férias, não se preocupando com o cumprimento das suas tarefas partidárias e revolucionárias» algo inaceitável, pois «a luta de classes e a revolução jamais poderão ir de férias». A simples ideia de ter férias tinha assim «natureza burguesa e não proletária» e o seu efeito seria semelhante «ao causado pela introdução de droga, ou pela corrupção moral num exército em guerra». Era pois necessário ser muito rigoroso, em nome da «robustez revolucionária», com coisas como «as esquisitices com a comida e com o dormir» ou o «vício de viajar comodamente». Tudo porque «ser comunista não é só um comprometimento, é, antes e acima de tudo, uma transformação real e constante». Ser comunista também implicava «montar a sua vida de acordo com os interesses do Partido e da Revolução», subordinar «incondicional­mente os interesses individuais aos superiores interesses do Partido» de forma a realizar a «condição de fiel ser­vidor do povo pobre». Ser comunista é «sê-lo em todos os momentos, em todas as tarefas e para a vida inteira». Por isso, «o egoísmo pessoal, a vida privada, o tempo li­vre, o aconchego familiar são umas vezes obstáculos, ou­tras vezes desculpas para não se dar ao partido aquilo de que precisa».

 

Exigia-se assim uma espécie de renúncia absoluta ao mundo exterior, uma renúncia que não era imposta pe­las condições concretas da luta política — em ditadura, quando era necessário passar à clandestinidade para fu­gir à perseguição da polícia, a renúncia à vida normal era inevitável —, mas por opção tomada para a vida. Entre­tanto, reforçavam-se os mecanismos destinados a impor o «centralismo democrático» com um objectivo que seria assumido por alturas do II Congresso, em 1977: «conse­guir a homogeneização das ideias e práticas proletário-revolucionárias, marxistas-leninistas», e «romper com resistências que subsistem na aplicação da linha táctica». Ou seja, para uniformizar o pensamento dos militantes, calando todas as vozes internas dissonantes.

 

 

*

 

Ainda hoje, quando olho para a forma muitas vezes arrogante como a esquerda jacobina olha para todos os demais, quando sinto como no debate público todos os que não se filiam, de uma maneira ou doutra, na tradição estatista e dirigista da esquerda sofrem uma espécie de capitis deminutio por, supostamente, não se preocuparem também com o bem da sociedade, recordo a lógica mistificadora da "superioridade moral".

 

 

José Manuel Fernandes

in Era uma vez...a revolução

© 2012 José Manuel Fernandes e Alêtheia Edições

 

 

 

 

 

 

 

 

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25.4.14

 

 

Foto: Alfredo Cunha
mais aqui

 

 

No largo do Carmo, estava a força de Santarém e estava sobretudo Salgueiro Maia. Nas longas horas que com ele ali vivi e confraternizei, pude apreciar a tranquila audácia dum homem que, com duas autometralhadoras e centena e meia de recrutas, estava a destruir cinquenta anos de história, de farroncas de força e de poder, mantendo em respeito uma força profissional e adestrada como era a Guarda Nacional Republicana. Salgueiro Maia estava cercado; pelo Rossio quase até ao alto da Calçada do Carmo, pela Rua da Trindade e Largo da Misericórdia, onde se encontravam entrincheiradas as forças da GNR. No Chiado, até aos largos, os blindados hostis da Cavalaria 7, e julgo recordar que também da Cavalaria 2 e Metralhadoras 1. Mas nem sequer um sentimento de dúvida ou de incerteza pairou na praça. Levada pelo sopro da liberdade, a multidão acorria e o quadro do povo expressava ali a vontade da nação contra qualquer veleidade de repressão sangrenta.

 

 

Francisco de Sousa Tavares in "O Meu 25 de Abril"

artigo do jornal “Público”  27/04/91 aqui

 

 

 

 

 

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10.2.14

 

Congopresse Study photographs, 1930-1960 

Photographs taken by Congopresse photographers in the Belgian Congo. Accompanying the images are French and Flemish language captions which include specific information on locations and photographers, though often without dates.

 

 

 

 

Port de Léopoldville (sans date)

Photo: J. Mulders / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

Port de Léopoldville 1948

H. Goldstein / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

Le 2 Juillet 1948, le M.V. "Général Olsen", le premier bateau de grand tonnage a moteur Diesel mis en service sur le fleuve Congo, et le S.W. "Reine Astrid" ont fait une excursion sur le Stanley-Pool. ils avaient à leur bord les personnalités invitées aux fêtes du 50ème anniversaire de l'inauguration du chemin de fer du Bas-Congo.

 

 

Emate, Congo (sans date)

Photo: E. Lebied / Congopresse 

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

Pour ravitailler en combustible les bateaux qui parcourent le fleuve et les grandes rivières du Congo, d'innombrables "postes à bois" ont été établis le long des rives. Le bois abattu dans les forêts voisines s'y entasse au bord de l'eau, par centaines de stères. Au poste d'Emate une équipe de travailleurs ravitaille un grand stormwheeler.

 

Emate, Congo (sans date)

Photo: E. Lebied / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

Le SW "Reine Astrid" renouvelle sa provision de combustible au poste à bois d'Emate.

 

 

 

 

Photos:

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

 

Sobre a minha colecção de fotografias Congopresse leia o post "No Congo" aqui e veja mais fotos clicando na tag "Congo"

 

Agence Congo Presse hoje aqui

 

 

 

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7.2.14

 

 

 

Noronha da Costa, 1976

Tinta celulósica sobre tela fotosensível, 1200 x 800 mm

colecção P.O.P.

© Noronha da Costa

 

Imagem: "Abecedário", edição comemorativa/catálogo da recente exposição 40 anos do Ar.Co (1973-2013) no MNAC- Museu do Chiado.

 

Visite a exposição de Luís Noronha da Costa (obras de 1967 a 1974) patente no CAMB – Centro de Arte Manuel de Brito  até 2 de Março de 2014. 

 

 

Guiné-Bissau hoje aqui e aqui (English | Français| Português )

 

 

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5.1.14

 

 

 

Sport Lisboa e Benfica 1966/1967

 

 

Postal reproduzido no livro Retrovisor, um Álbum de Família. Texto e outra foto neste blog aqui.

 

A crónica de Ferreira Fernandes Nunca passei por ele sem dizer "obrigado" aqui

 

O ensaio de Nuno Domingos As lutas pela memória de Eusébio aqui

 

Alexandre O'Neill sobre Eusébio aqui

 

Perfil de Eusébio aqui

 

 

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4.1.14

 

Maître SYMS

"Article 15"*, 1992

Courtesy: Gallery Lucien Bilinelli, Brussels

© Plazier, Brussels 

 

 

Écoutez mes bêtes,

la conjoncture de la 2ème République

ne permet pas de vous héberger!

Allez vous débrouiller

 

Snif... Maitre nous sommes ici pour vous!

Pourquoi tu nous abandonnes comme ça?

Où pouvons nous aller

 

 

 

Visitei recentemente o Musée Royal de l'Afrique Centrale, em Bruxelas, agora fechado durante 4 anos para obras de remodelação. Queria ver pela última vez as colecções na versão século XIX. A crónica de José Cutileiro no primeiro dia do ano — Nuers e Dinkas — serve-me agora de pretexto para regressar a África com mais umas curiosidades (ver tag Congo).

 

O artigo e o breve documentário recomendados abaixo são antigos mas permanecem actuais.

 

 

*Article 15:

 

After a series of deflationary measures announced by the Zairean government in September 1983, prices for basic commodities rose by 30 to 40 percent while salaries remained unchanged. This further reduced the standard of living of the average Zairean. A schoolteacher in Kinshasa, for example, makes $13 per month. A civil servant with a university diploma, earns $25 per month.

 

''With such salaries,'' a Western diplomat explains, ''you can't make both ends meet. To survive most Zaireans make ample use of what is known here as Article 15.'' In clearer terms this means many Zaireans give way to corruption: teachers sell diplomas. No official form is available from a civil servant without a tip.

 

O artigo Zaire, An African Nation rich in natural resources but plagued by political instability and economic stagnation na íntegra aqui 

 

Defined as 'Manage by Yourself', the mythical article 15 founded an 'informal' economy in Zaire. Squatting in the grey mud of the market Place, black 'Mamas' barter for survival, singing as they prepare their wares. They manage to supplement their husbands' earnings by running a 'black market'.

 

O documentário The Definition of Poverty - DRC  April 1996 aqui

 

 

 

 

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29.11.13

 

 

 

 


A avaliar pelas aparências dir-se-ia que Aristides de Sousa Mendes era o próprio anti-herói. Senhor beirão, brasonado, proprietário, conservador, católico devoto com uma família extensa, nada parecia separá-lo dos seus pares. Como diplomata, a sua carreira, mesmo nos baixos, permaneceu perfeitamente dentro dos cânones até à aposentação compulsiva em 1940, aos 55 anos. Um homem maduro, com mundo, politicamente atento, avisado pela burocracia de Lisboa, estava agudamente consciente da retribuição que as suas acções iriam provocar.

De facto, diante dos milhares de refugiados apinhados junto ao Consulado Geral de Portugal em Bordéus, deu voz a essas preocupações:


Como informei toda a gente, o meu Governo recusou terminantemente todos os pedidos para concessão de vistos a todos e quaisquer refugiados. [...] Todos eles são seres humanos, e o seu estatuto na vida, religião ou côr são totalmente irrelevantes para mim. [...] Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião e estou certo que os meus filhos compreenderão e não me acusarão se, por dar vistos a todos e cada um dos refugiados, eu fôr amanhã destituído do meu cargo por ter agido [...] {contra} ordens que em meu entender, são vis e injustas. E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. […]


 

                


Ao agir no plano do real, acudindo na medida das suas possibilidades à situação dramática dos milhares de pessoas em perigo, sabendo que teria de enfrentar uma hierarquia que considerava o diplomata um militar à paisana, Aristides de Sousa Mendes gritava para Lisboa que a liberdade de consciência não é assunto de conveniência. O crime de Sousa Mendes fora tornar claro ao regime que as arquitecturas políticas sobre que assentava o seu perfil internacional e as suas linhas de defesa burocrática eram, realmente, apenas, construções.

O diplomata foi punido mas o “crime” foi abafado. E a maior parte das pessoas que se apresentaram às fronteiras portuguesas foram admitidas, na certeza de que a Espanha não as aceitaria de volta. Pretender que nada acontecera era a maneira mais expedita de reduzir o impacto do precedente e de lidar com a situação tida por desprestigiante de nem o Ministério do Interior nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros terem sabido evitar o acontecido. E a habilidade do regime em transformar o vício em virtude ressalta de um Editorial do Diário de Notícias de 14 de Agosto, uma lauda ao humanismo português, que Aristides de Sousa Mendes recortou e enviou ao MNE para juntar à sua defesa...

 

Manuela Franco

in "Razões e Humanidade" [texto na íntegra aqui]


Fotos  aqui  e Documentos aqui



 



 

 

Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial 

Exposição documental

 

Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 


site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

© 2013 Governo da República Portuguesa 

 

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25.11.13


Portugal participou na II Guerra Mundial como neutro. A lúcida apreciação das condicionantes internas e internacionais, especialmente a experiência da recente guerra civil espanhola, a posição geoestratégica da península ibérica, aconselhavam-no. E, em 1939, a neutralidade era ainda um conceito político-jurídico de aplicação relativamente simples. Mas, para além do soez plano de conquistas territoriais e de esferas de influência, a Alemanha movia uma guerra ideológica, total. Perante a aplicação dos mandamentos do movimento totalitário, o estabelecer em terras conquistadas da vassalagem à mundivisão nazi, a destruição segura dos valores em que a civilização ocidental até então tinha funcionado, a semântica da neutralidade foi-se alterando. Tornou-se uma posição de difícil gestão, tanto mais quanto Portugal era governado em regime autoritário, por um ditador que operava sobre certezas, no caso um conjunto de princípios feitos à medida de um Mundo que a própria guerra se encarregava de destruir.


As certezas são inimigas da verdade. No caso português, escondida pela auto-satisfação de nos termos poupado ao conflito, quem sabe até termos ganho algum dinheiro com ele, a verdade ficou por captar até ao fim da guerra, com o luto oficial por Hitler e, até aos nossos dias, com a apreciação legalista, apolítica e amoral que ainda prevalece sobre a neutralidade portuguesa. Na equidistância perante os dois lados, no não ter compreendido que vencedores e vencidos não se equivaleriam, que o Estado nazi não comportava regeneração, em suma, no fugir a tomar partido no conflito político e moral postulado na II Guerra Mundial, Salazar remeteu a nação portuguesa para a periferia da modernidade e para fora da história da Europa. A democracia demoraria mais trinta anos a chegar a Portugal que, só então, reencontraria o caminho político de regresso à Europa.


Sabe-se que durante os anos da II Guerra Mundial passaram por Portugal dezenas de milhares de refugiados, sobretudo judeus. Muitas vidas foram poupadas pela actuação decidida de três diplomatas portugueses documentada na presente exposição: Aristides de Sousa Mendes, Cônsul de Portugal em Bordéus, Carlos de Sampaio Garrido, Ministro de Portugal na Hungria e Alberto Teixeira Branquinho, Encarregado de Negócios de Portugal em Budapeste. O primeiro, em Junho de 1940, elevou-se pela força do seu carácter acima do pânico dominante e, agindo por decisão e risco individual, no momento certo, abriu as portas de Portugal aos fugidos de França. Seria esmagado pelas certezas de um Salazar vencido pela criação de um facto político cuja reversão arrastaria questões complicadas de enquadrar nos parâmetros escolhidos para a neutralidade portuguesa. Os segundos, em 1944, confrontados com a ocupação alemã da Hungria e o programa acelerado de eliminação dos húngaros judeus, empenharam o seu sentido de valores e a sua coragem na concretização de uma operação de salvamento programada pelos representantes dos países neutros em Budapeste, e que contou com a aprovação e o envolvimento activo de Lisboa. Humana e politicamente de natureza e dimensão muito diferentes, estes dois episódios ilustram bem o evoluir da política portuguesa quanto aos refugiados do nazismo: uma atitude inicial muito restritiva, que se foi flexibilizando progressivamente com o andar da guerra, chegando mesmo a assumir formas de acção positiva quando o regime começou a ter por certa a derrota alemã e a imaginar que a neutralidade proporcionaria uma plataforma de protagonismo político no pós-guerra.

 

Manuela Franco

in "Moral e Política" [o texto na íntegra aqui ]

     " Politics and Morals" [text  here]




 



Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial

Exposição Documental 

Documentary Exhibition


Na escolha dos documentos patentes nesta exposição sobre a acção de três diplomatas portugueses guiamo-nos principalmente pela possibilidade de proporcionar um máximo de leitura directa de dois momentos reveladores da administração da neutralidade portuguesa.

No caso de Aristides de Sousa Mendes, os acontecimentos foram rápidos, as posições extremadas, e o material do processo que lhe foi movido mostra, mesmo ao leitor mais desprevenido, o quadro moral e político em que o drama se desenrolou. Limitamo-nos aqui a juntar alguns documentos que contribuem para contextuar o caso, tanto quanto às atitudes – antecedentes – das autoridades portuguesas perante a questão dos refugiados, como em conclusão, nos pareceu interessante mostrar o ponto de vista crítico da política de vistos de Lisboa que o Cônsul em Marselha, um diplomata completamente alheio ao processo Sousa Mendes, comunicava a Lisboa no final de 1940.

No caso da Hungria, a correspondência trocada entre Lisboa e as Legações de Portugal em Budapeste, em Berlim, e em Berna – onde Sampaio Garrido, saído da Hungria, passou quase todo o Verão de 1944 – permite seguir, às vezes dia a dia, um processo onde o empenho pessoal de dois diplomatas galvanizados pela arrogância do ocupante alemão e pelo terror das perseguições movidas aos judeus de Budapeste, encontrou eco numa Administração politicamente orientada para transformar em créditos na paz, uma neutralidade que entretanto se tornara incómoda.

Esperamos que a presente exposição possa ser uma achega para o concretizar da profecia feita por Salazar, a 18 de Maio de 1945, perante a Assembleia Nacional, no seu discurso “Portugal, a Guerra e a Paz”: “A História, serena e imparcial, como os literatos dizem que é, há-de um dia catalogar os nossos actos desta guerra e classificar a nossa neutralidade”.

 

 


 

 

 Artigo censurado (versão integral aqui)

 

 

 

 

 

Foto: Refugiados em Lisboa durante a II Guerra Mundial aqui  

 

 

Exposição e Textos aqui


Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 

Documentary Exhibition

 




site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

© 2013 Governo da República Portuguesa 

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18.10.13

 

Quarta Semana:

 

Esta semana chegou finalmente a oportunidade de assistir a um discurso do presidente. Full treatment.

Presidente feliz com lágrimas, de acordo com o Público. De 2a a 5a decorrreu na “Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação” a primeira audiência pública sobre a guerra civil de 75 em que andaram todos a matar-se uns aos outros. Para quem não leu o Adelino Gomes, já várias vezes tinha sido marcada e outras tantas adiada. É um assunto do mais sensível já que muitos responsáveis políticos de hoje (tanto governo como oposição) foram responsáveis por grandes matanças na época. Desta vez fez-se mesmo. Era aguardado com enorme expectativa e durante as sessões Dili andou colada aos rádios para ouvir os depoimentos; os motoristas aqui do PNUD não saíam dos carros o dia inteiro, sintonizados na Rádio Timor-Leste, e quando saíam era para se juntarem em volta dum transistor. 

 

Note-se bem que isto na altura era Portugal. As nossas maravilhosas RTP, RDP e Lusa têm correspondentes em Dili. Adivinha quantos jornalistas portugueses estavam nas audiências? Quantos passaram por lá, nem que seja 5 minutos? Resposta – Um. Quem? Adelino Gomes que veio de propósito de Lisboa (no voo mais barato que encontrou e pagando do bolso dele as despesas em Dili...). Timor não é notícia. Como não estão a matar ninguém, não interessa para nada. Foram mortos uns milhares em 75 e nunca se falou disso? As feridas são fundas e a gente também teve responsabilidade. Mas o que é que isso interessa agora? Os jornalistas portugueses em Dili foram para a praia.

 

 

 

 

Aconselho vivamente a leitura dos artigos do Adelino Gomes, não posso acrescentar nada. Resta-me a minha própria comoção ao ver toda a gente a chorar com o discurso do Xanana (a começar pelo próprio, voz quebrada, olhos e nariz vermelhos, assoando-se, limpando a cara com o lenço, no meio das suas longas pausas habituais, desta vez mais longas ainda). Nem as moscas (abundantes) se ouviam.

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Foto de Pedro Martins

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui 

 

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2.5.13

 

Num conjunto muito variado de textos, Eduardo Côrte-Real discorre com simplicidade e humor sobre a descoberta doutras paisagens, povos e mentalidades à luz dos seus autores de cabeceira e da sua história pessoal de filho do Império: 

 

"nesta parte do mundo [Macau], os portugueses fizeram-se à vida sozinhos, verdade que nem sempre se conta, só isso já dá a dimensão da aventura de quem vai para a China, para a civilização mais antiga de todas, agora um gigantesco casino, com Moulin Rouge e tudo" ... "Em Moçambique o apartheid era uma realidade, nunca tive um colega de escola preto e fiz lá o liceu todo. Naquele tempo, entretido a crescer, não me parecia estranho. Os únicos pretos com quem falávamos eram os nossos criados — sete."

 

O Médio Oriente, a Rússia e a China registados pelo autor nos finais do século XX também já não são hoje exactamente os mesmos, e nesse subtil desfasamento reside outro dos interesses deste livro. 

 

 

 

 

 índice de capítulos aqui

 

 

Tive a sorte de viver, longamente, em três continentes - África, Ásia e Europa. O persa de Homero, esse ainda desconhecido dos eu­ropeus e, no entanto, a viver ao nosso lado, foi o meu best friend nesses idos. Também gosto imenso da América, tanto do norte como de al­guns países do sul, daqueles onde não mora o pecado como no Brasil, a glória portuguesa. Gosto de árabes — o que é raro nos europeus — uma matriz complicadíssima porque política e religião são do mesmo grupo de conceitos neles. [...] Não há lares de terceira idade na China, o filho mais velho toma conta dos pais até eles morrerem. É assim. Praticar o Li (o bom caminho) não é muito diferente das éticas gerais, religiosas ou ateias. Individuo versus Universo é a questão do confucionismo chinês. O Ocidente individualista deusificou a Humanidade - mais interessante para filosofar — que a abstração dessa alma coletiva chinesa, nunca individual. No confucionismo não há salvação isolada, egoísta, nem alminhas. O historiador, o antropólogo, o humanista ocidental europeu, o jornalista, levo-os a todos como se fosse a escova de dentes, se possível sem eurocentrismos que são só excesso de peso. Não é só fazer a mala. É saber ao que vamos.

 

Eduardo Côrte Real

in Vagamente à procura de Pasárgada (Introdução)

© RCP Edições 2012 

 

Leia o poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira aqui

 

 

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6.3.13

 

 

 

Desk Murder 

Oil on canvas, 76.2 x 122 cm, c.1970–1984

 

 

R.B. Kitaj  (1932-2007)

 

em Londres até 16 de Junho de 2013  aqui

 

Leia aqui

 

 

 

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31.12.12

 

 


postal (2012)


Radio Presenter Sister Melianise Gabreus, Les Cayes, Haiti
© Paolo Woods
World Press Photo 2012 aqui





20.12.12

 

 

 Timor, anos 20 do séc. XX?

 


Jesus mouris iha manu kokoreek!  Jesus nasceu ao cantar do galo!

A luz do petróleo incendiava a casa de estrelas. E íamos, toda a gente, a família e os que viviam connosco em família, festejar o nascimento de Jesus que o galo anunciara.[…] Recebíamos presentes trazidos do bazar e que tinham entrado em casa às escondidas. Não eram bem brinquedos, mas coisas que nos enfeitavam — tecidos bonitos, alfinetes de ouro, chinelas bordadas...

A Princesa minha mãe morreu, era menina ainda. Mas o Natal ficou nos meus olhos e na minha alma como afirmação de que Jesus passeara por toda a ilha de Timor tal como o fizera desde Belém a Jerusalém.

 

*

 

Na linha de cultos lunissolares, que imprimiu e imprime sinais e marcas indeléveis na alma dos Timorenses, a consubstanciação de Maromak como ente supremo, Deus, não representava qualquer oferta de paz ou de alívio. Pelo contrário o conhecimento, a consciência de Maromak impunha receio e inquietação. […] Carregado de superstições, crente da existência de espíritos vagueando, dominado pela vontade e atitudes de bruxos e feiticeiros, responsabilizado pelos oráculos ou sacerdotes, o Timorense não pôde despir-se de todas as suas vestes ancestrais para com simplicidade tornar-se cristão. Isso explica em grande parte que ainda hoje se prenda tanto à terra e considere os objectos mais variados e lugares, montes, rios, árvores e casas como tabus ou luliks. De facto, entre o Homem e a Terra, e entre o presente e o passado há tão intimas e tão vivas alianças que dir-se-ia ser fácil fazer reviver todas as gerações do passado. De crenças totemísticas, há também animais luliks ou tabus, o que explica a atitude suave de todo o timorense para com os animais. Deve assinalar-se, para melhor acentuar a importância dos luliks na vida dos autóctones de Timor, que tabu significa exactamente uma prática supersticiosa da Oceânia que dá carácter sagrado a determinado ser ou a determinada coisa, proibindo o contacto com ele ou o seu uso. [...] O Cristianismo só o entendem na medida em que lhes garante o caminho para encontrar a Deus, mas querem, na busca, ter presente o melhor e mais subtil do seu passado. Por isso os uma-luliks ou templos permanecem na sua beleza estranha e misteriosa encastoados na paisagem grandiosa da ilha e cultuados pelos que têm os pés mergulhados no húmus mais fundo e mais rico daquele chão. Muitas das cerimónias dos uma-luliks, as de maior relevo, conduzem os crentes a um tal estado de histerismo que findam em incontroláveis orgias. As famílias autóctones cristãs já se despegaram dessas orgias, porque receberam a suavidade da Presença de Jesus e a magnitude da Sua mensagem. [...] Como no tempo em que eu era pequeno e a Princesa minha mãe menina, os autóctones cristãos dessa ilha suave e viril, fruto de uma inexplicável simbiose de beleza e força, cultuarão o Menino Jesus na noite de Natal. E tal como eu, também os meninos de agora ouvirão das bocas de suas mães as palavras de anúncio do Anjo Gabriel:

Ave Maria, graça barak liu iha Ita-Boot; Maromak ho Ita-Boot; Ita-Boot di'ak liu feto hotu-hotu; Ita-boot nia Oan, Jesus, di’ak liu.

Santa Maria, Maromak nia Inan, haro-han ba Na'i Maromak tan ba ami-ata salan, oras ne'e ho oras ne'ebé ami-ata becik atu mate. Amen.

 

 

Fernando Sylvan aqui

Excertos de “Iha Kalan Boot – Jesus Mouris –  Iha Manu Kokoreek” 

Foto (data desconhecida) e texto publicados em Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961 - Edição do SNI, Lisboa

 


 

 

 



9.12.12

 

 

 

 



Ferro, António Joaquim Tavares (Lisboa, 17-8-1895 - Lisboa, 11-11-1956). A sua personali­dade de escritor, jornalista e político evoca, habitu­almente, na recorrência memorial uma dupla cir­cunstância: editor de Orpheu, a convite de Mário de Sá-Carneiro, com apenas 19 anos; fundador--director do Secretariado da Propaganda Nacional (após 1944, denominado de Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo), por convite de António de Oliveira Salazar, a fim de promover a «política do espírito» do «Estado Novo». Sendo certas essas duas evidências, elas não esgo­tam contudo as manifestações de uma complexa vivência, que articulou de forma hábil a acção cul­tural com a acção política, entrelaçadas por uma muito particular dimensão estética, e que se pode, em visão estrutural, periodizar deste modo: 1914-17 (irrupção poética e cívica), 1918-32 (resistência à cultura e à política republicana demoliberal), 1933-49 (vertigem da propaganda salazarista) e 1950-56 (solidão do diplomata). [...]

 

Ernesto Castro Leal

in "António Ferro" Dicionário de História de Portugal- VIII

Coordenadores: António Barreto e Maria Filomena Mónica

© Livraria Figueirinhas

Imagem: A.F. c. 1940




 

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6.12.12

 

 

 

António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 

 

A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].

 

Sou suspeita, já que António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que os meus avós pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna.

 

Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de se ter convencido de que "nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.

 

Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Resta-nos agora esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum produtor do cinema clássico de Hollywood.

 

 

 

ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"

 

2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui

 

4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui

 

5. Fundação António Quadros aqui e aqui

 

6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 

 

 

 

 

 


3.11.12

 

 

 

Portugal, anos 60

 

 

 

Não faço ideia do que se trata mas gosto muito desta fotografia, uma daquelas que são das primeiras a ser deitadas fora em "limpezas"*. E hoje sirvo-me dela para preencher um pouco o despovoamento dos meus posts mais recentes, de interiores e exteriores de espaços comerciais em Lisboa nos finais dos anos 50 e princípios dos 60. Gostaria de ver imagens dos mesmos lugares nessa época com os empregados e os clientes, e talvez até existam. Esta fotografia data do mesmo período, em Portugal.   


 

* Todos os dias, é sempre bom repeti-lo, milhares de documentos únicos desaparecem, sejam papéis pessoais, um livro de actas, um relatório colonial com fotografias únicas, um objecto icónico de um tempo, uma organização ou uma ideia.


José Pacheco Pereira in "Jornal Público" de hoje (no artigo "Ofício de caça e recolecção") e aqui 





 


30.7.12

 

 

 

 

Gabrielle Douglas fotografada por Martin Schoeller para a revista Time

 



Training his lens on several of the American athletes headed to London for the 2012 Olympic Games (as well as Oksana Masters, who will be rowing in the Paralympic games in late August), Schoeller gives the viewer an intimate glimpse at the person behind the fierce competitor...

 



este texto e mais fotografias  aqui

 

a crítica da revista Salon aqui 


Martin Schoeller aqui




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21.7.12

 

 

 
Frédéric Mitterrand
foto: A. Chardeau © Radio France


 

 

16 mai 2012 : dans son bureau quasiment vide de la rue de Valois, le ministre de la culture et de la communication, Frédéric Mitterrand, regarde, à la télévision, la passation de pouvoir entre Nicolas Sarkozy et François Hollande et emballe ses derniers cartons. C’est son dernier jour au ministère.

 

 

Émission "Les Pieds sur Terre" par Sonia Kronlund sur France Culture ici 


 

 


 

 

Nota: Esperemos vê-lo regressar em breve à tv, à rádio, à escrita.

 

Mais sobre Frédéric Mitterrand neste blog aqui 

 

 

 

 

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5.6.12

 

 

 

 

 

Chegada de Isabel II à Doca das Fontaínhas, Setúbal, 16 de Fevereiro de 1957

 

 

 

 

Sobre a Raínha Isabel II e a sua primeira e mais importante visita de Estado a Portugal, um artigo da Revista "Máxima" aqui

 

 

The Queen By Cecil Beaton aqui

 

 

 

Nota:

Fotografia de imprensa de autoria desconhecida, encontrada no espólio familiar. Por coincidência é uma das que ilustra o artigo da Máxima sobre esta visita de Isabel II. Não encontrei outras reproduções desta fotografia na internet.

 

 


2.5.12

 

 

encontrado aqui

 

 

Esta escultura em cerâmica recuperada no sítio arqueológico Cinco Reis 8, zona intervencionada no âmbito da empreitada do Troço de Ligação Pisão-Beja do Subsistema de Rega do Alqueva, pode ser vista até ao próximo dia 29 de Junho na sala de exposições da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, S.A., em Beja.  A peça, representando um touro, em posição natural de repouso, deitado sobre o ventre e com a parte traseira ligeiramente recostada sobre a perna esquerda, tem uma altura de 23 cm, 17 cm de largura e 45 cm de comprimento. 

O sítio arqueológico de Cinco Reis 8, uma necrópole da 1ª Idade do Ferro, constitui uma das intervenções arqueológicas realizadas pela EDIA no âmbito da minimização de impactos da implantação do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva.

 


29.4.12

 

 

 João Branco Núncio

Vila Franca, Portugal 1949

 

 

À portuguesa tradição do toureio a cavalo se referem já crónicas de Strabão, citando os antigos lusitanos como amigos dos jogos hípicos, com touros, e outras que dão notícia de D. Sancho II alanceando touros ao estilo da época, e as de Fernão Lopes em relação a D. Fernando, e as de Garcia de Rezende que descrevem el-rei D. João II no gosto pelas touradas e fazendo frente e matando à espada um touro que em Alcochete lhe saiu ao caminho quando ia com a rainha. Outras crónicas descrevem façanhas do rei D. Sebastião como toureiro a cavalo, e dizem que o neto de Carlos V rojoneou em Cadiz, de abalada para o sonho de Alcácer. E muitos monarcas foram toureiros a cavalo, até D. Miguel que farpeou em Salvaterra, e na praça de Xabregas desta cidade de Lisboa, que teve redondéis no Rossio, no Terreiro do Paço, na Junqueira, no Largo da Anunciada, no local onde está o jardim da Estrela, no Salitre, no Campo de Santana e agora no Campo Pequeno. D. Carlos criou touros e D. Luís e D. Miguel entraram em tourinhas. E quantos fidalgos lanceando e rojoneando nas festas dos nascimentos de príncipes e das suas bodas e nos torneios peninsulares com os continuadores del Cid e de Villamediana, nas Praças Maiores de Espanha, em nobre competência, por sua dama, em alardes de valentia e de pompa pela gente de cada bando, a cavalo e a pé, com as armas e as cores de cada qual! Em Portugal manteve-se e aperfeiçoou-se a Arte de Marialva, tomando o nome do grande senhor e cavaleiro a quem mestre Andrade  dedicou o seu famoso tratado de equitação. Desde aqueles tempos, e até aos nossos dias, têm sido sucessivas as gerações de cavaleiros tauromáquicos. Estes e os forcados são os representantes do toureio português, uma vez que os bandarilheiros, e os antigos «capinhas», quási se limitam a imitar, até na indumentária, os seus iguais de Espanha.

Os cavaleiros  tauromáquicos têm indumentária própria: a casaca bordada e o tricórnio de plumas, e botas altas à Relvas — outro bom cavaleiro, do século XIX, em que brilharam também Mourisca, Tinoco, Castelo Melhor e outros. E os forcados, que, como os campinos, são do Ribatejo, terra dos touros, também vestem de forma característica, e também têm sua arte, porque não é apenas função de força o pegar um touro de cara, de costas ou de cernelha. Há que saber cair na cabeça da fera, evitando a violência do choque quando, para colher, humilha, e depois aguentar-se, «embarbelando» bem, ou, na melhor ajuda, torcendo bem a «pombinha», vértebra da cauda. E para se julgar da arte que pode caber em sorte tão rude, basta ver os últimos grupos de forcados-amadores, como os de Santarém e de Montemor, tão elegantes e pundonorosos, e até alguns profissionais que sabem dar terreno, com ritmo, com graça, como Edmundo e Garrett e os seus valentes conterrâneos do Ribatejo.

E tem ritual a sua aparição com a azémola das farpas, estas em duas arcas cobertas com pano rico, de veludo, que eles desdobram cuidadosamente ante a presidência, que manda recolher as caixas com os ferros para o uso da lide. Depois retiram-se os forcados para saltarem à arena quando o «inteligente» entende que o touro mete bem a cabeça e as hastes permitem a sorte. Os cavaleiros surgem, então, para as cortezias, outrora feitas ao som do hino real, caminhando passo a passo até sob o camarote da presidência, que saúdam em vénia de cabeça descoberta, depois recuando cerimoniosamente, voltando a avançar para se separarem nos cumprimentos ás quatro partes da assistência, ladeando e cruzando-se no meio do redondel, e sempre no cuidado dos cavalos bem ensinados, e na praxe dos movimentos.

 

 

 
 
Pepe Anastasio (aqui)
Algés, Portugal, 1949

 

 

 

Assenta o toureio equestre em três princípios básicos: cravar de alto a baixo, ao estribo e sem deixar tocar a montada. E, de uma maneira geral, além do mérito de equitador, necessita o cavaleiro de ser toureiro, isto é, de conhecer os touros e saber medir os terrenos. Carece o cavaleiro de firmeza de joelhos para as reacções do cavalo, que o deve temer mais a ele que ao touro, boa mão esquerda para mandar rápido, e boa direita para cravar, com pulso para aguentar a resistência, e certeza para encontrar o sítio próprio, com precisão. E o cavalo deve estar ensinado para todo o toureio, especialmente para entrar e sair nas quatro sortes clássicas: de cara, à tira, à meia volta e à garupa. E quando tudo corre bem, em tarde quente de verão, e o público, entusiasmado, aplaude cavaleiros e forcados, estes agradecem juntos, abraçando-se num gesto simbólico do seu convívio nos campos de Portugal — que a ambos dá o pão, o azeite, o vinho, e a alegria de viver ao sol.

 

 

El Terrible Perez

in  "Tauromaquia Portuguesa, Cavaleiros e Forcados"

Revista Panorama Números 25 e 26, Ano de 1945, Volume 5º

 

 

Fotos: Fernando Henrique Lezameta Simões (1920-2011) 

 

 

 

 

 

 capa de Panorama 

Nºs 25 e 26, 1945, Vol. 5º

 

 índice aqui 

 

Excerto do livro ABC da Tauromaquia de El Terrible Pérez, Edições VIC, 1944, aqui

 

 

Excerto do artigo Touradas em Portugal  de Conde de Sabugosa aqui 

 

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17.2.12

 

 

Garrett é mais do que Garrett. Quer dizer que a sua obra, por admirável que seja no teatro, no romance, na poesia, em títulos como Frei Luís de Sousa, Viagens na Minha Terra, Folhas Caídas, não é uma obra fechada, mas uma obra aberta. Obra aberta porque não se encerrando na sua acabada perfeição como um fim em si mesma, rasgou uma estrada na literatura portuguesa. Há na história literária como na história política fundadores de dinastia. E na literatura portuguesa é, sem dúvida, Garrett um desses fundadores. Depois de Garrett há toda uma literatura que dele deriva - uma literatura que por isso mesmo se chama neogarrettiana ou neogarretista (e, se designou também, mas com menor fortuna, por novilusista).[...] Àquela “geração de 90” pertenciam, entre outros, Trindade Coelho (1861-1908) e Manuel da Silva Gaio (1860-1934), nomes representativos do neogarrettismo ou do nacionalismo literário. No artigo de apresentação da Revista Nova (Nov. de 1893)  —  e novo não seria só o título da publicação como o seu espírito — , Trindade Coelho aponta em Garrett um exemplo de banho lustral, qual é o de mergulhar “no fecundo veio” da província portuguesa e das tradições populares.[...] Na peugada de Ramalho, que explorou aquele “fecundo veio” aberto por Garrett, outros vieram que viajando pelo vasto mundo, regressavam sempre ao ninho. É o caso desse espectador cosmopolita, de clara prosa e poder evocativo, que foi Augusto de Castro (1883-1970), homem do mundo que gostava também de viajar no seu jardim. É o caso ainda de António Ferro (1895-1956), igualmente grande jornalista, mas de prosa mais dinâmica (ou não fosse ele um protagonista da aventura futurista), e homem de acção – um poeta de acção, diria, por esse toque estético que punha em todas as suas realizações. Uma vida sem beleza, toda material e vazia de alma, é uma vida que não vale a pena viver. Uma equilibrada dosagem de inovação e tradição, de europeísmo e de nacionalismo, de alta cultura e de cultura popular, determina a acção de António Ferro, para quem vale o que disse Afonso Lopes Vieira de Garrett: mais notável ainda “pelo que descobriu e indicou do que pelo que realizou”
[...] escritor da família garrettiana é ainda Luís Forjaz Trigueiros (1915-2000) por esse espírito liberal sem demagogia, por essa curiosidade cosmopolita sem divórcio das raízes. Das “paisagens portuguesas” – título de uma sua colectânea de páginas de geografia literária, aquelas que parece exercerem maior fascínio sobre Luís Forjaz Trigueiros são as do Minho (1) , “campos elísios” também para este moderno autor de viagens na nossa terra.

 


João Bigotte Chorão

in “Garrett, Clássico do Romantismo”

Revista “O Tripeiro” 7ª série – Ano XVIII – Nº 2, Fevereiro de 1999. aqui

 

 

Notas:

1. Leia neste blog o texto A Écloga e a Epopeia de Luís Forjaz Trigueiros aqui e aqui

2. Este post é retirado do texto publicado no blog O Divino (28 de Março de 2005) aqui

 

 


4.2.12

 

 

As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’, tese de doutoramento que Sandra Cristina Boto defendeu ontem na Universidade Nova de Lisboa, representa para a minha família a conclusão feliz dum percurso iniciado em 2004 pela descoberta duma importante colecção de autógrafos garrettianos em nossa casa. Ao apresentar com esta colecção perspectivas inteiramente novas sobre o romanceiro garrettiano, o trabalho de Sandra Boto confere pleno sentido ao enorme esforço que minha irmã dedicou à divulgação deste espólio, em grande parte inédito.

 

Hoje penso que foi sorte estes papéis serem redescobertos por uma estrangeirada, que nunca tinha lido as Viagens na Minha Terra, mas de Garrett sabia pelo menos que “main street is named after him!” (Cristina Futscher Pereira dixit). Quantos portugueses de gema se teriam dado ao trabalho?

 

Diz Sandra Boto na introdução:

 

Sabia-se, por fontes externas, que a colecção continha novos temas tradicionais. A publicação, na edição de 9 de Dezembro de 2004 do jornal Público, de um tema religioso de base tradicional, Fonte da Cruz, fazia suspeitar da importância destes materiais para o estudo do romanceiro tradicional garrettiano. Sabia-se também que entre estes autógrafos se encontrariam igualmente temas de origem não tradicional. Aliás, um romance criado pela pena garrettiana, A moira encantada, constituíra, a 29 de Dezembro de 2004, o verdadeiro cartão de visita desta colecção, num infelizmente pouco valorizado suplemento do Diário de Notícias. (1)

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

 

 

Do ponto de vista da minha família, a edição de A Moira Encantada foi um pequeno milagre, só tornado possível por circunstâncias muito favoráveis como o apoio essencial que recebemos de Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana, e o facto de termos encontrado patrocinadores - Diário de NotíciasPortugal Telecom - que gostaram do projecto e nos deram autonomia total para o realizar.

 

Uns meses depois, as duas especialistas chamavam a atenção para a riqueza do espólio agora encontrado, concluindo que dar a conhecer este romanceiro inédito seria prosseguir a tarefa que o próprio Garrett definiu como um “grande serviço ao seu País” [2]. Mas (quase) ninguém estava interessado, como sintetizou mais tarde Jorge Colaço [3] ao contar a história na sua Carta a Garrett.

 

No entanto, sete anos volvidos sobre a descoberta da 'Colecção Futscher Pereira' [4], a Proposta de ‘Edição Crítica’  de Sandra Boto vem contrariar o pessimismo e convidar-nos a revisitar o nosso Autor e o seu apaixonante Romanceiro:   

 

[...] no que concerne ao Romanceiro, a elaboração de um plano editorial patente na “Introducção” ao tomo II da obra, cujos preparativos e rascunhos textuais se prova estarem documentalmente contidos na Colecção Futscher Pereira em autógrafos garrettianos, só nos anima a levar a cabo a tarefa de prosseguir editorialmente com esse mesmo plano, que a morte do poeta impediu de se cumprir. A não destruição intencional destes materiais em vida de Garrett conjugada com o manifesto de intenções que é o mencionado plano editorial, o qual por seu turno entendemos como uma vontade expressa autoral de vir a publicar futuramente esses materiais, é garante de que é uma missão estudá-los e editá-los, mesmo com mais de 150 anos de atraso.[1]

 

 

 

 

 

 

Autógrafo de Almeida Garrett:

Romanceiro

Colecções de xácaras, estudos e apontamentos para a confecção do Romanceiro

Manuscrito do Autor

 

 

 

 

Notas:

 

1 Sandra Cristina Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica' (introdução)

Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

2 Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana in No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro. Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. pp.235-239

 

3 o blog de Jorge Colaço aqui

 

4 Colecção Futscher Pereira (CFP), assim designada por Sandra Boto. São também as iniciais de Cristina Futscher Pereira, coincidência feliz.

 

O blog garrettiano de Cristina Futscher Pereira -— O Divino — deixou de estar acessível no blogs.sapo.pt

 

Texto integral de A Moira Encantada aqui

 

Mais neste blog na tag "garrett" 

 

 


26.1.12

 

 

 

António Júdice Bustorff Silva (de pé), Lisboa c. 1950

 

 

 

 

Obituário de The Times,  3 de Janeiro de 1980:

 

The distinguished lawyer, Dr Antonio Judice Bustorff Silva, who died in Lisbon on Dec­ember 17, aged 84, will be affec­tionately remembered by many of the older generation of British entrepreneurs in Portu­gal.

 

He was at one time or another chairman, director or legal adviser of many important British enterprises, including the Tramways of Lisbon and the Telephones of Lisbon and Oporto, both of which until a few years ago were operated by British Concessionary Com­panies.

 

Born in 1895 on the island of Sao Tome, where his father had big plantations, Dr Bustorff, as he was always known, took his law degree at Coimbra Uni­versity. His youth was spent in the turbulent times of the end of the monarchy and the birth of the First Republic. He was an ardent monarchist, and it must have been with a sense of relief that he saw the Generals take over in 1926, after a suc­cession of more than 40 Repub­lican Governments in 16 years.

 

Bustorff was the legal repre­sentative of the Royal Family, and when the Generals called in Dr Salazar (himself a crypto-monarchist) it was in dealing with the affairs of the Royal Family that the friendship and confidence between the two men began and later became of such value to his clients, Portu­guese or foreign.

 

Bustorff was a steadfast admirer of Salazar and his general policies, but he was never a toady and his advice to the Prime Minister, on behalf of his clients, was invariably what he thought to be compat­ible with the interests of the client and of the Portuguese State.

 

One of the most important services rendered by Bustorff to his own country and to the Allied cause during the Second World War concerned the ex­ploitation of uranium. The Portuguese Government was approached by Britain, and Salazar decided that Bustorff would represent the Portuguese Government in the company which was to carry out the work.

 

He was also legal adviser to the British-owned Panasqueira Mines, the largest source of wolfram available to the West and a constant source of dispute between the economic warriors of each side. After the war Bustorff was made honorary CBE, a decoration of which he was immensely proud.

 

A man of enormous energy Bustorff frequently represented Portugal at international con­ferences. He had great devotion to his Church and a true sense of humour. His Germanic name is from a Swiss ancestor who came to Portugal in the 17th century to escape the persecu­tion of Roman Catholics.

 

He spoke several languages fluently but, in his bubbling enthusiasm, not always cor­rectly. «Come and see my Charolais veals», he would say to an English guest at his estate near Setubal, «they are beau­ties". He entertained lavishly and the food and wines were always Portuguese and usually produced by him.

 

The passion of his leisure time was building, especially restoring old houses. He built or restored one for each of his five children and for each pair of his 24 grandchildren.

 

When the Second Republic came in 1974 Bustorff was already virtually retired, but he was summoned to Brazil, where more legal work awaited him and he went in 1975, aged 80. He suffered a stroke there and was brought home. Lucid and able to speak, he struggled bravely for two years, as presi­dent of the Bragança Founda­tion and supervising proper­ties which had not been seques­trated.

 

It can be postulated that the «Blue Monkey» Marques de Soveral, of Edward Vll's time, and Bustorff Silva, were the most steadfast and most influ­ential Portuguese friends of Britain in the 20th century.

 

 

 

Sir Peter Norton-Griffiths

in "The Times"  3 January 1980

 

 

Notas:

 

 

António Júdice Bustorff Silva formou-se em Direito em Lisboa e não em Coimbra como afirma o autor do artigo.

 

 

Foto e perfil do Marquês de Soveral aqui 



 

 

 

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27.10.11

 

I remember one day long ago driving down Park Avenue on the way to Penn Station with a sheaf of notes for a Harvard lecture in the right-hand pocket of my raincoat, and in the left, a celluloid packet containing twelve photographs, with accompanying text, of one girl model spanking another on her bare bottom with a hairbrush. Given a choice, I would far rather have jettisoned the contents of the right-hand pocket: with this dichotomy I have spent my life. (Note the fearless candour of this amazing revelation.) (And note, too, the self-deprecating irony — 'fearless candour', 'amazing revelation' — with which I have phrased it, thereby showing what a self-critical person I am.) (And if you think that sounds self-congratulatory, let me answer you that I am well aware of my faults, which are numerous.) (And if that implies too much self- knowledge, may I add that, in fact etc. etc. etc.) Such is the art of autobiography.

 

Kenneth Tynan

in The diaries of Kenneth Tynan edited by John Lahr 

Bloomsbury Publishing, Plc, London

©2001 by Tracy Tynan

 

 

 

 

 

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