2.5.13

 

Num conjunto muito variado de textos, Eduardo Côrte-Real discorre com simplicidade e humor sobre a descoberta doutras paisagens, povos e mentalidades à luz dos seus autores de cabeceira e da sua história pessoal de filho do Império: 


"nesta parte do mundo [Macau], os portugueses fizeram-se à vida sozinhos, verdade que nem sempre se conta, só isso já dá a dimensão da aventura de quem vai para a China, para a civilização mais antiga de todas, agora um gigantesco casino, com Moulin Rouge e tudo" ... "Em Moçambique o apartheid era uma realidade, nunca tive um colega de escola preto e fiz lá o liceu todo. Naquele tempo, entretido a crescer, não me parecia estranho. Os únicos pretos com quem falávamos eram os nossos criados — sete."

 

O Médio Oriente, a Rússia e a China registados pelo autor nos finais do século XX também já não são hoje exactamente os mesmos, e nesse subtil desfasamento reside outro dos interesses deste livro. 

 

 

 

 

 índice de capítulos aqui

 

 

Tive a sorte de viver, longamente, em três continentes - Africa, Ásia e Europa. O persa de Homero, esse ainda desconhecido dos eu­ropeus e, no entanto, a viver ao nosso lado, foi o meu best friend nesses idos. Também gosto imenso da América, tanto do norte como de al­guns países do sul, daqueles onde não mora o pecado como no Brasil, a glória portuguesa. Gosto de árabes — o que é raro nos europeus — uma matriz complicadíssima porque política e religião são do mesmo grupo de conceitos neles. [...] Não há lares de terceira idade na China, o filho mais velho toma conta dos pais até eles morrerem. É assim. Praticar o Li (o bom caminho) não é muito diferente das éticas gerais, religiosas ou ateias. Individuo versus Universo é a questão do confucionismo chinês. O Ocidente individualista deusificou a Humanidade - mais interessante para filosofar — que a abstração dessa alma coletiva chinesa, nunca individual. No confucionismo não há salvação isolada, egoísta, nem alminhas. O historiador, o antropólogo, o humanista ocidental europeu, o jornalista, levo-os a todos como se fosse a escova de dentes, se possível sem eurocentrismos que são só excesso de peso. Não é só fazer a mala. É saber ao que vamos.

 

Eduardo Côrte Real

in Vagamente à procura de Pasárgada (Introdução)

© RCP Edições 2012 

 

Leia o poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira aqui

 

 

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6.3.13

 

 

 

Desk Murder 

Oil on canvas, 76.2 x 122 cm, c.1970–1984

 


R.B. Kitaj  (1932-2007)

 

em Londres até 16 de Junho de 2013  aqui

 

Leia aqui

 

 

 

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31.12.12

 

 


postal (2012)


Radio Presenter Sister Melianise Gabreus, Les Cayes, Haiti
© Paolo Woods
World Press Photo 2012 aqui





20.12.12

 

 

 Timor, anos 20 do séc. XX?

 


Jesus mouris iha manu kokoreek!  Jesus nasceu ao cantar do galo!

A luz do petróleo incendiava a casa de estrelas. E íamos, toda a gente, a família e os que viviam connosco em família, festejar o nascimento de Jesus que o galo anunciara.[…] Recebíamos presentes trazidos do bazar e que tinham entrado em casa às escondidas. Não eram bem brinquedos, mas coisas que nos enfeitavam — tecidos bonitos, alfinetes de ouro, chinelas bordadas...

A Princesa minha mãe morreu, era menina ainda. Mas o Natal ficou nos meus olhos e na minha alma como afirmação de que Jesus passeara por toda a ilha de Timor tal como o fizera desde Belém a Jerusalém.

 

*

 

Na linha de cultos lunissolares, que imprimiu e imprime sinais e marcas indeléveis na alma dos Timorenses, a consubstanciação de Maromak como ente supremo, Deus, não representava qualquer oferta de paz ou de alívio. Pelo contrário o conhecimento, a consciência de Maromak impunha receio e inquietação. […] Carregado de superstições, crente da existência de espíritos vagueando, dominado pela vontade e atitudes de bruxos e feiticeiros, responsabilizado pelos oráculos ou sacerdotes, o Timorense não pôde despir-se de todas as suas vestes ancestrais para com simplicidade tornar-se cristão. Isso explica em grande parte que ainda hoje se prenda tanto à terra e considere os objectos mais variados e lugares, montes, rios, árvores e casas como tabus ou luliks. De facto, entre o Homem e a Terra, e entre o presente e o passado há tão intimas e tão vivas alianças que dir-se-ia ser fácil fazer reviver todas as gerações do passado. De crenças totemísticas, há também animais luliks ou tabus, o que explica a atitude suave de todo o timorense para com os animais. Deve assinalar-se, para melhor acentuar a importância dos luliks na vida dos autóctones de Timor, que tabu significa exactamente uma prática supersticiosa da Oceânia que dá carácter sagrado a determinado ser ou a determinada coisa, proibindo o contacto com ele ou o seu uso. [...] O Cristianismo só o entendem na medida em que lhes garante o caminho para encontrar a Deus, mas querem, na busca, ter presente o melhor e mais subtil do seu passado. Por isso os uma-luliks ou templos permanecem na sua beleza estranha e misteriosa encastoados na paisagem grandiosa da ilha e cultuados pelos que têm os pés mergulhados no húmus mais fundo e mais rico daquele chão. Muitas das cerimónias dos uma-luliks, as de maior relevo, conduzem os crentes a um tal estado de histerismo que findam em incontroláveis orgias. As famílias autóctones cristãs já se despegaram dessas orgias, porque receberam a suavidade da Presença de Jesus e a magnitude da Sua mensagem. [...] Como no tempo em que eu era pequeno e a Princesa minha mãe menina, os autóctones cristãos dessa ilha suave e viril, fruto de uma inexplicável simbiose de beleza e força, cultuarão o Menino Jesus na noite de Natal. E tal como eu, também os meninos de agora ouvirão das bocas de suas mães as palavras de anúncio do Anjo Gabriel:

Ave Maria, graça barak liu iha Ita-Boot; Maromak ho Ita-Boot; Ita-Boot di'ak liu feto hotu-hotu; Ita-boot nia Oan, Jesus, di’ak liu.

Santa Maria, Maromak nia Inan, haro-han ba Na'i Maromak tan ba ami-ata salan, oras ne'e ho oras ne'ebé ami-ata becik atu mate. Amen.

 

 

Fernando Sylvan aqui

Excertos de “Iha Kalan Boot – Jesus Mouris –  Iha Manu Kokoreek” 

Foto (data desconhecida) e texto publicados em Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961 - Edição do SNI, Lisboa

 


 

 

 



9.12.12

 

 

 

 



Ferro, António Joaquim Tavares (Lisboa, 17-8-1895 - Lisboa, 11-11-1956). A sua personali­dade de escritor, jornalista e político evoca, habitu­almente, na recorrência memorial uma dupla cir­cunstância: editor de Orpheu, a convite de Mário de Sá-Carneiro, com apenas 19 anos; fundador--director do Secretariado da Propaganda Nacional (após 1944, denominado de Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo), por convite de António de Oliveira Salazar, a fim de promover a «política do espírito» do «Estado Novo». Sendo certas essas duas evidências, elas não esgo­tam contudo as manifestações de uma complexa vivência, que articulou de forma hábil a acção cul­tural com a acção política, entrelaçadas por uma muito particular dimensão estética, e que se pode, em visão estrutural, periodizar deste modo: 1914-17 (irrupção poética e cívica), 1918-32 (resistência à cultura e à política republicana demoliberal), 1933-49 (vertigem da propaganda salazarista) e 1950-56 (solidão do diplomata). [...]

 

Ernesto Castro Leal

in "António Ferro" Dicionário de História de Portugal- VIII

Coordenadores: António Barreto e Maria Filomena Mónica

© Livraria Figueirinhas

Imagem: A.F. c. 1940




 

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6.12.12

 

 


António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 


A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].


Sou suspeita, já que como alguns leitores sabem, António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, para quem não conhece a história, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna. Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de estar "convencida de que nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.


Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Depois deste filme resta-nos apenas esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que eu imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum grande produtor do cinema clássico de Hollywood.




ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h


 

 






Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"


2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui


4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui


5. Fundação António Quadros aqui e aqui


6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 


 

 

 

 


3.11.12

 

 

 

Portugal, anos 60

 

 

 

Não faço ideia do que se trata mas gosto muito desta fotografia, uma daquelas que são das primeiras a ser deitadas fora em "limpezas"*. E hoje sirvo-me dela para preencher um pouco o despovoamento dos meus posts mais recentes, de interiores e exteriores de espaços comerciais em Lisboa nos finais dos anos 50 e princípios dos 60. Gostaria de ver imagens dos mesmos lugares nessa época com os empregados e os clientes, e talvez até existam. Esta fotografia data do mesmo período, em Portugal.   


 

* Todos os dias, é sempre bom repeti-lo, milhares de documentos únicos desaparecem, sejam papéis pessoais, um livro de actas, um relatório colonial com fotografias únicas, um objecto icónico de um tempo, uma organização ou uma ideia.


José Pacheco Pereira in "Jornal Público" de hoje (no artigo "Ofício de caça e recolecção") e aqui 





 


30.7.12

 

 

 

 

Gabrielle Douglas fotografada por Martin Schoeller para a revista Time

 



Training his lens on several of the American athletes headed to London for the 2012 Olympic Games (as well as Oksana Masters, who will be rowing in the Paralympic games in late August), Schoeller gives the viewer an intimate glimpse at the person behind the fierce competitor...

 



este texto e mais fotografias  aqui

 

a crítica da revista Salon aqui 


Martin Schoeller aqui




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21.7.12

 

 

 
Frédéric Mitterrand
foto: A. Chardeau © Radio France


 

 

16 mai 2012 : dans son bureau quasiment vide de la rue de Valois, le ministre de la culture et de la communication, Frédéric Mitterrand, regarde, à la télévision, la passation de pouvoir entre Nicolas Sarkozy et François Hollande et emballe ses derniers cartons. C’est son dernier jour au ministère.

 

 

Émission "Les Pieds sur Terre" par Sonia Kronlund sur France Culture ici 


 

 


 

 

Nota: Esperemos vê-lo regressar em breve à tv, à rádio, à escrita.

 

Mais sobre Frédéric Mitterrand neste blog aqui 

 

 

 

 

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5.6.12

 

 

 

 

 

Chegada de Isabel II à Doca das Fontaínhas, Setúbal, 16 de Fevereiro de 1957

 

 

 

 

Sobre a Raínha Isabel II e a sua primeira e mais importante visita de Estado a Portugal, um artigo da Revista "Máxima" aqui


 

The Queen By Cecil Beaton aqui

 

 

 

Nota:

Fotografia de imprensa de autoria desconhecida, encontrada no espólio familiar. Por coincidência é uma das que ilustra o artigo da Máxima sobre esta visita de Isabel II. Não encontrei outras reproduções desta fotografia na internet.

 

 


2.5.12

 

 

encontrado aqui

 

 

Esta escultura em cerâmica recuperada no sítio arqueológico Cinco Reis 8, zona intervencionada no âmbito da empreitada do Troço de Ligação Pisão-Beja do Subsistema de Rega do Alqueva, pode ser vista até ao próximo dia 29 de Junho na sala de exposições da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, S.A., em Beja.  A peça, representando um touro, em posição natural de repouso, deitado sobre o ventre e com a parte traseira ligeiramente recostada sobre a perna esquerda, tem uma altura de 23 cm, 17 cm de largura e 45 cm de comprimento. 

O sítio arqueológico de Cinco Reis 8, uma necrópole da 1ª Idade do Ferro, constitui uma das intervenções arqueológicas realizadas pela EDIA no âmbito da minimização de impactos da implantação do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva.

 


29.4.12

 

 

 João Branco Núncio

Vila Franca, Portugal 1949

 

 

À portuguesa tradição do toureio a cavalo se referem já crónicas de Strabão, citando os antigos lusitanos como amigos dos jogos hípicos, com touros, e outras que dão notícia de D. Sancho II alanceando touros ao estilo da época, e as de Fernão Lopes em relação a D. Fernando, e as de Garcia de Rezende que descrevem el-rei D. João II no gosto pelas touradas e fazendo frente e matando à espada um touro que em Alcochete lhe saiu ao caminho quando ia com a rainha. Outras crónicas descrevem façanhas do rei D. Sebastião como toureiro a cavalo, e dizem que o neto de Carlos V rojoneou em Cadiz, de abalada para o sonho de Alcácer. E muitos monarcas foram toureiros a cavalo, até D. Miguel que farpeou em Salvaterra, e na praça de Xabregas desta cidade de Lisboa, que teve redondéis no Rossio, no Terreiro do Paço, na Junqueira, no Largo da Anunciada, no local onde está o jardim da Estrela, no Salitre, no Campo de Santana e agora no Campo Pequeno. D. Carlos criou touros e D. Luís e D. Miguel entraram em tourinhas. E quantos fidalgos lanceando e rojoneando nas festas dos nascimentos de príncipes e das suas bodas e nos torneios peninsulares com os continuadores del Cid e de Villamediana, nas Praças Maiores de Espanha, em nobre competência, por sua dama, em alardes de valentia e de pompa pela gente de cada bando, a cavalo e a pé, com as armas e as cores de cada qual! Em Portugal manteve-se e aperfeiçoou-se a Arte de Marialva, tomando o nome do grande senhor e cavaleiro a quem mestre Andrade  dedicou o seu famoso tratado de equitação. Desde aqueles tempos, e até aos nossos dias, têm sido sucessivas as gerações de cavaleiros tauromáquicos. Estes e os forcados são os representantes do toureio português, uma vez que os bandarilheiros, e os antigos «capinhas», quási se limitam a imitar, até na indumentária, os seus iguais de Espanha.

Os cavaleiros  tauromáquicos têm indumentária própria: a casaca bordada e o tricórnio de plumas, e botas altas à Relvas — outro bom cavaleiro, do século XIX, em que brilharam também Mourisca, Tinoco, Castelo Melhor e outros. E os forcados, que, como os campinos, são do Ribatejo, terra dos touros, também vestem de forma característica, e também têm sua arte, porque não é apenas função de força o pegar um touro de cara, de costas ou de cernelha. Há que saber cair na cabeça da fera, evitando a violência do choque quando, para colher, humilha, e depois aguentar-se, «embarbelando» bem, ou, na melhor ajuda, torcendo bem a «pombinha», vértebra da cauda. E para se julgar da arte que pode caber em sorte tão rude, basta ver os últimos grupos de forcados-amadores, como os de Santarém e de Montemor, tão elegantes e pundonorosos, e até alguns profissionais que sabem dar terreno, com ritmo, com graça, como Edmundo e Garrett e os seus valentes conterrâneos do Ribatejo.

E tem ritual a sua aparição com a azémola das farpas, estas em duas arcas cobertas com pano rico, de veludo, que eles desdobram cuidadosamente ante a presidência, que manda recolher as caixas com os ferros para o uso da lide. Depois retiram-se os forcados para saltarem à arena quando o «inteligente» entende que o touro mete bem a cabeça e as hastes permitem a sorte. Os cavaleiros surgem, então, para as cortezias, outrora feitas ao som do hino real, caminhando passo a passo até sob o camarote da presidência, que saúdam em vénia de cabeça descoberta, depois recuando cerimoniosamente, voltando a avançar para se separarem nos cumprimentos ás quatro partes da assistência, ladeando e cruzando-se no meio do redondel, e sempre no cuidado dos cavalos bem ensinados, e na praxe dos movimentos.

 

 

 

Pepe Anastasio (aqui)
Algés, Portugal, 1949

 

 

 

Assenta o toureio equestre em três princípios básicos: cravar de alto a baixo, ao estribo e sem deixar tocar a montada. E, de uma maneira geral, além do mérito de equitador, necessita o cavaleiro de ser toureiro, isto é, de conhecer os touros e saber medir os terrenos. Carece o cavaleiro de firmeza de joelhos para as reacções do cavalo, que o deve temer mais a ele que ao touro, boa mão esquerda para mandar rápido, e boa direita para cravar, com pulso para aguentar a resistência, e certeza para encontrar o sítio próprio, com precisão. E o cavalo deve estar ensinado para todo o toureio, especialmente para entrar e sair nas quatro sortes clássicas: de cara, à tira, à meia volta e à garupa. E quando tudo corre bem, em tarde quente de verão, e o público, entusiasmado, aplaude cavaleiros e forcados, estes agradecem juntos, abraçando-se num gesto simbólico do seu convívio nos campos de Portugal — que a ambos dá o pão, o azeite, o vinho, e a alegria de viver ao sol.

 


El Terrible Perez

in  "Tauromaquia Portuguesa, Cavaleiros e Forcados"

Revista Panorama Números 25 e 26, Ano de 1945, Volume 5º

 

 

Fotos: Fernando Henrique Lezameta Simões (1920-2011) 

 

 

 

 


 capa de Panorama 

Nºs 25 e 26, 1945, Vol. 5º

 

 índice aqui 


Excerto do livro ABC da Tauromaquia de El Terrible Pérez, Edições VIC, 1944, aqui

 

 

Excerto do artigo Touradas em Portugal  de Conde de Sabugosa aqui 

 

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17.2.12

 

 

Garrett é mais do que Garrett. Quer dizer que a sua obra, por admirável que seja no teatro, no romance, na poesia, em títulos como Frei Luís de Sousa, Viagens na Minha Terra, Folhas Caídas, não é uma obra fechada, mas uma obra aberta. Obra aberta porque não se encerrando na sua acabada perfeição como um fim em si mesma, rasgou uma estrada na literatura portuguesa. Há na história literária como na história política fundadores de dinastia. E na literatura portuguesa é, sem dúvida, Garrett um desses fundadores. Depois de Garrett há toda uma literatura que dele deriva - uma literatura que por isso mesmo se chama neogarrettiana ou neogarretista (e, se designou também, mas com menor fortuna, por novilusista).[...] Àquela “geração de 90” pertenciam, entre outros, Trindade Coelho (1861-1908) e Manuel da Silva Gaio (1860-1934), nomes representativos do neogarrettismo ou do nacionalismo literário. No artigo de apresentação da Revista Nova (Nov. de 1893)  —  e novo não seria só o título da publicação como o seu espírito — , Trindade Coelho aponta em Garrett um exemplo de banho lustral, qual é o de mergulhar “no fecundo veio” da província portuguesa e das tradições populares.[...] Na peugada de Ramalho, que explorou aquele “fecundo veio” aberto por Garrett, outros vieram que viajando pelo vasto mundo, regressavam sempre ao ninho. É o caso desse espectador cosmopolita, de clara prosa e poder evocativo, que foi Augusto de Castro (1883-1970), homem do mundo que gostava também de viajar no seu jardim. É o caso ainda de António Ferro (1895-1956), igualmente grande jornalista, mas de prosa mais dinâmica (ou não fosse ele um protagonista da aventura futurista), e homem de acção – um poeta de acção, diria, por esse toque estético que punha em todas as suas realizações. Uma vida sem beleza, toda material e vazia de alma, é uma vida que não vale a pena viver. Uma equilibrada dosagem de inovação e tradição, de europeísmo e de nacionalismo, de alta cultura e de cultura popular, determina a acção de António Ferro, para quem vale o que disse Afonso Lopes Vieira de Garrett: mais notável ainda “pelo que descobriu e indicou do que pelo que realizou”
[...] escritor da família garrettiana é ainda Luís Forjaz Trigueiros (1915-2000) por esse espírito liberal sem demagogia, por essa curiosidade cosmopolita sem divórcio das raízes. Das “paisagens portuguesas” – título de uma sua colectânea de páginas de geografia literária, aquelas que parece exercerem maior fascínio sobre Luís Forjaz Trigueiros são as do Minho (1) , “campos elísios” também para este moderno autor de viagens na nossa terra.

 


João Bigotte Chorão

in “Garrett, Clássico do Romantismo”

Revista “O Tripeiro” 7ª série – Ano XVIII – Nº 2, Fevereiro de 1999. aqui

 

 

Notas:

1. Leia neste blog o texto A Écloga e a Epopeia de Luís Forjaz Trigueiros aqui e aqui

2. Este post é retirado do texto publicado no blog O Divino (28 de Março de 2005) aqui

 

 


26.1.12

 

 

 

António Júdice Bustorff Silva (de pé), Lisboa c. 1950

 

 

 

 

Obituário de The Times,  3 de Janeiro de 1980:

 

The distinguished lawyer, Dr Antonio Judice Bustorff Silva, who died in Lisbon on Dec­ember 17, aged 84, will be affec­tionately remembered by many of the older generation of British entrepreneurs in Portu­gal.

 

He was at one time or another chairman, director or legal adviser of many important British enterprises, including the Tramways of Lisbon and the Telephones of Lisbon and Oporto, both of which until a few years ago were operated by British Concessionary Com­panies.

 

Born in 1895 on the island of Sao Tome, where his father had big plantations, Dr Bustorff, as he was always known, took his law degree at Coimbra Uni­versity. His youth was spent in the turbulent times of the end of the monarchy and the birth of the First Republic. He was an ardent monarchist, and it must have been with a sense of relief that he saw the Generals take over in 1926, after a suc­cession of more than 40 Repub­lican Governments in 16 years.

 

Bustorff was the legal repre­sentative of the Royal Family, and when the Generals called in Dr Salazar (himself a crypto-monarchist) it was in dealing with the affairs of the Royal Family that the friendship and confidence between the two men began and later became of such value to his clients, Portu­guese or foreign.

 

Bustorff was a steadfast admirer of Salazar and his general policies, but he was never a toady and his advice to the Prime Minister, on behalf of his clients, was invariably what he thought to be compat­ible with the interests of the client and of the Portuguese State.

 

One of the most important services rendered by Bustorff to his own country and to the Allied cause during the Second World War concerned the ex­ploitation of uranium. The Portuguese Government was approached by Britain, and Salazar decided that Bustorff would represent the Portuguese Government in the company which was to carry out the work.

 

He was also legal adviser to the British-owned Panasqueira Mines, the largest source of wolfram available to the West and a constant source of dispute between the economic warriors of each side. After the war Bustorff was made honorary CBE, a decoration of which he was immensely proud.

 

A man of enormous energy Bustorff frequently represented Portugal at international con­ferences. He had great devotion to his Church and a true sense of humour. His Germanic name is from a Swiss ancestor who came to Portugal in the 17th century to escape the persecu­tion of Roman Catholics.

 

He spoke several languages fluently but, in his bubbling enthusiasm, not always cor­rectly. «Come and see my Charolais veals», he would say to an English guest at his estate near Setubal, «they are beau­ties". He entertained lavishly and the food and wines were always Portuguese and usually produced by him.

 

The passion of his leisure time was building, especially restoring old houses. He built or restored one for each of his five children and for each pair of his 24 grandchildren.

 

When the Second Republic came in 1974 Bustorff was already virtually retired, but he was summoned to Brazil, where more legal work awaited him and he went in 1975, aged 80. He suffered a stroke there and was brought home. Lucid and able to speak, he struggled bravely for two years, as presi­dent of the Bragança Founda­tion and supervising proper­ties which had not been seques­trated.

 

It can be postulated that the «Blue Monkey» Marques de Soveral, of Edward Vll's time, and Bustorff Silva, were the most steadfast and most influ­ential Portuguese friends of Britain in the 20th century.

 

 

 

Sir Peter Norton-Griffiths

in "The Times"  3 January 1980

 

 

Notas:

 

 

António Júdice Bustorff Silva formou-se em Direito em Lisboa e não em Coimbra como afirma o autor do artigo.

 

 

Foto e perfil do Marquês de Soveral aqui 



 

 

 

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27.10.11

 

I remember one day long ago driving down Park Avenue on the way to Penn Station with a sheaf of notes for a Harvard lecture in the right-hand pocket of my raincoat, and in the left, a celluloid packet containing twelve photographs, with accompanying text, of one girl model spanking another on her bare bottom with a hairbrush. Given a choice, I would far rather have jettisoned the contents of the right-hand pocket: with this dichotomy I have spent my life. (Note the fearless candour of this amazing revelation.) (And note, too, the self-deprecating irony — 'fearless candour', 'amazing revelation' — with which I have phrased it, thereby showing what a self-critical person I am.) (And if you think that sounds self-congratulatory, let me answer you that I am well aware of my faults, which are numerous.) (And if that implies too much self- knowledge, may I add that, in fact etc. etc. etc.) Such is the art of autobiography.

 

Kenneth Tynan

in The diaries of Kenneth Tynan edited by John Lahr 

Bloomsbury Publishing, Plc, London

©2001 by Tracy Tynan

 

 

 

 

 

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13.10.11

 

Every night when I was a boy, I sat and read in our living room, listening to my father writing letters. He wrote on his lap in longhand, with the letter paper backed by one of his long yellow legal pads, and the scratch and swirl of his black Waterman pen across the page sounded like the scrabblings of a creature in the underbrush. There were no pauses or crossings out, and in time I realized that I could even identify the swoosh of a below-the-line “g” leaping diagonally upward into an “h” and the crossing double zag of an ensuing “t,” and, soon after, the blip of a period. When he reached the bottom of the page, the sheet was turned over and smoothed down in a single, back-of-the-hand gesture, and the rush of writing and pages went on, while I waited for the declarative final “E” or “Ernest”— the loudest sound of all — that told me the letter was done. When the envelope had been addressed, licked, and sealed with a postmasterish thump of his fist, he would pluck a Lucky Strike out of its green pack and whack it violently four times against his thumbnail, like a man hammering a spike, then damply tongue the other end before lighting up. By the time the first deep drag appeared as a pale upward jet of smoke, another letter was in progress. I went back to my book. Sooner or later, the letters would be over, and he would be ready to read aloud to me. “Finished,” he would announce, picking up “Oliver Twist.” “Now, where were we?”

 

 

Roger Angell

in The King of the Forest

 

The New Yorker, Fevereiro de 2000 (The King of the Forest na íntegra aqui )

e em Let Me Finish © 2006 by Roger Angell

 

 

 



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11.9.11

  

Depuis des temps immémoriaux, l’homme distingue peur et angoisse: «En présence de ce qui est hostile on a peur, en présence des ténèbres on éprouve l’angoisse» (Hermann Broch). La peur est distincte, définie, provoquée par une chose précise, elle blesse un intérêt non moins précis : je crains la foudre, un microbe, une taloche, le grand méchant loup. Et je crains pour... ma vie, mon portefeuille, ma réputation. L’angoisse, en revanche, touche à tout. Elle taraude mon rapport au monde en général. Elle fait vaciller projets et repères. Elle trouble l’image des autres et de moi-même. Experts, politiques et psychologues ont beau s’évertuer à combattre les craintes croissantes par des précautions multiples et souvent vaines, ils peinent à contenir une impalpable angoisse. Quel démenti apporter au sentiment diffus de n'être plus sûr de rien ? Quelle garantie faire valoir à une humanité qui se découvre, se redécouvre soudain sans garantie? Même si les criminels ou leurs complices sont arrêtés et leurs réseaux éradiqués, ils suscitent des concurrents, des adeptes et des admirateurs, pas seulement des indignés. Une page est tournée. Nous vivrons et nos enfants survivront dans une histoire où l’explosion des tours redessine la carte de géographie et trace l'horizon indépassable d’un crépuscule terroriste de l’humanité. Le 11 septembre 2001 aura toujours lieu. C'est à l’échelle de son horreur médiatique et planétaire qu'il faut apprendre à mesurer nos émotions et nos décisions.

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan  p. 15-16

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

O artigo de André Glucksmann "Ben Laden est mort, mais la haine survit", publicado esta semana no Le Monde, aqui 

 

 

Outro excerto do livro, neste blog, aqui 

 

 

 


  In Remembrance of 9/11

Elizabeth Blackwell Elementary aqui

 

 

 

 

 

 


21.7.11

 

 

 

 

 

Centro Espacial Kennedy, Cabo Canaveral (esta manhã)

foto: Joe Skipper/Reuters

 

Mais aqui

 

Veja também aqui

 

 

 

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27.5.11

 

 

 

 

[...]  E, novamente, tudo bem com Portugal. Esse é um comentário que traduz com fidelidade, a intenção dos sucessivos gestos diplomáticos trocados essa semana entre Brasília e Lisboa, de onde o Primeiro Ministro Mário Soares chegou a destacar parte importante do lançamento de seu programa de governo, para reiterar uma maior aproximação com o Brasil.

 

Na verdade, os telegramas – e só agora, depois de um mês divulgados – entre os presidentes Geisel e Ramalho Eanes, refletem uma disposição de abertura política que não se verificava desde o final de 1974, quando Portugal tentava inaugurar seus primeiros tempos de vida democrática, com a consolidação das diferentes tendências políticas que iriam resultar na vitória da oposição socialista, com o governo do primeiro-ministro Mário Soares.

 

Amigo pessoal do chanceler Azeredo da Silveira, o chefe do Governo português terá potencialidade suficiente para sensibilizar o Governo brasileiro. No momento, é o lado de cá quem é chamado a dar uma certa dose de confiança a Portugal, reestabelecendo — com a necessidade de um conteúdo mais pragmático — o clima que criou a agora esvaziada comunidade luso-brasileira.

 

Sob outra forma, o Brasil poderá ser essencial para Portugal, na solução de questões resultantes da herança de problemas com as ex-colónias africanas — com quem o Itamaraty vem conseguindo manter um entendimento mais do que razoável; um deles seria a grande quantidade de imigrantes que se dirigiram para o território português, e agora não encontram colocação no disputado mercado da mão-de-obra daquele país.

 

A praxe diplomática dos telegramas, dessa vez, chegou a trazer uma novidade, que foi a não divulgação — quando seria de interesse — do texto enviado pelo chanceler Azeredo da Silveira a Mário Soares quando ele fala que o Brasil acompanhava com "especial" interesse os novos tempos que esperam Portugal.

 

[...] Agora, é esperar pelas novidades que se anunciam na aproximação bilateral — admitidas por autoridades dos dois países — que farão esquecer os tempos em que o atual embaixador de Lisboa, Vasco Futscher Pereira, era obrigado a conversar com os jornalistas no pátio externo do Itamaraty. Isso aconteceu quando nem tudo era claro na política interna dos respectivos governos.

 

 

Pedro Redig

Editoria de Política, Jornal Diário, Brasília 07 de Agosto de 1976

 

 

 

 

 

 

Ministério das Relações Exteriores do Brasil

Palácio do Itamaraty, Brasília

 

 

 

Os anos que o meu pai passou como embaixador de Portugal em Brasília (1974-77) foram muito complicados em matéria de relações entre os dois países, que poderão mesmo ter estado à beira de uma ruptura. Quem conhece bem a história, por a ter vivido, é o Embaixador José Paulouro das Neves, que citei há tempos aqui, e o Embaixador António Pinto da França, então Cônsul Geral no Rio de Janeiro, que citei no meu livro, a propósito do ofício de diplomata. António Pinto da França tem escrito interessantes memórias e, quem sabe, talvez venha um dia a debruçar-se sobre esse período conturbado. Sei que o meu pai tinha uma grande admiração pela diplomacia brasileira, que considerava das melhores do mundo. 

 

 

 

 

 

Notas:

obras de António Pinto da França aqui 

 

 o artigo citado neste post está aqui

 

 

 

 

 

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17.5.11

 

 

 

aqui

 


O Cláudio Abramo era um grande jornalista brasileiro e um querido amigo meu. De uma delicadeza, de uma inteligência, de uma argúcia raras. Ele era um aristocrata anarquista, mas tinha a mania que era de esquerda e de esquerda revolucionaríssima. Mas a sua figura, a sua educação e os seus modos não davam para tanto.

Ele tinha um lugar de chefia na Folha de São Paulo. Não me posso esquecer do dia em que fui ter com ele ao jornal e pediu a uma menina servente dois cafés. A menina trouxe os dois cafés numa bandeja, mas tropeçou logo à entrada e espalhou os cafés por cima da mesa. Coitadinha, de atrapalhada, pôs-se a chorar. O Cláudio levantou-se e tentou consolá-la com uma ternura e uma delicadeza que nunca mais esquecerei:

— Ó filhinha, isto não tem importância. Nós é que te pedimos desculpa de te fazer vir aqui com os cafés...

A pequena lá ficou menos nervosa, veio limpar a mesa e trouxe outros cafés. A delicadeza desta cena do «revolucionário» com a menina dos cafés nunca mais me saiu da cabeça e é essa a memória que me ficou do Cláudio.

Quando veio o 25 de Abril, o primeiro telefonema que recebi foi dele. Queria que eu fosse trabalhar para a Folha, em São Paulo, pois estava preocupado com a minha sorte em Portugal. Tranquilizei-o. Disse-lhe que ficaria por aqui, que finalmente íamos ter liberdade mas se, por um acaso, viesse uma «democracia popular», que aí sim. Que já não tinha idade nem condição social para viver numa coisa dessas e que não me esqueceria da sua oferta.

Mas o Cláudio não ficou tranquilo. Como o Victor Cunha Rego tinha trabalhado com ele na Folha, resolveu telefonar ao Victor. Disse-lhe:

— Ó Victor, por favor, vocês não matem o António Alçada!...

O Victor respondeu-lhe:

— Vamos lá agora matar o António Alçada! Era o que faltava. A gente não vai matar ninguém...

Então, veio a revolução ao cimo daquele aristocrata nato e disse de lá meio agastado:

— Não matam ninguém! Então que raio de revolução é essa que não vai matar ninguém...

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias

© Editorial Presença aqui

 

Leia também aqui

 

 


13.5.11

 

 


 

"Voz de Portugal", Nº 2.467

Rio de Janeiro, 24 de Setembro de 1976

 

 

VOZ de PORTUGALO recente discurso feito à Nação através da televisão pelo Primeiro-Ministro Mário Soares, causou em Portugal — como aliás também no Brasil, em todos quantos o leram — um forte impacto, pela franqueza e coragem com que nele se abordava a crise em que o país se debate. Mas o diagnóstico que o Primeiro-Ministro fez da situação econômica portuguesa é tão grave, que pode pôr-se em dúvida se ele não terá gerado mais pessimismo do que a confiança no futuro, que é indispensável que Portugal readquira. Que pensa V. Excelência disto?

 

 

 

VASCO FUTSCHER — Em minha opinião, era preciso dizer ao país serenamente, mas sem meias verdades, tudo aquilo, exatamente, que o Primeiro-Ministro lhe disse. E que se a crise da economia portuguesa nunca deixou de ser focada em diferentes tons, e num ou noutro sentido, por todas as forças políticas, desde há um ano para cá, a verdade — ainda que aparentemente paradoxal — é que a larga maioria do povo português ainda não sentiu, diretamente, os efeitos negativos. Graças às grandes reservas de ouro acumuladas pelo regime anterior ao 25 de abril, foi até agora possível conseguir internacionalmente todos os empréstimos externos que solicitamos e evitar assim medidas restritivas ou quaisquer dificuldades de abastecimento público. Certo que temos vivido com uma alta taxa de inflação, e que a vida está hoje muito mais cara do que há cerca de dois anos. Mas os grandes aumentos salariais concedidos nestes dois anos — muitos inteiramente justificados, mas muitos outros, também, completamente irrealistas — por tal modo melhoraram o poder aquisitivo do povo, que pode dizer-se que este nunca, desde há muito, auferira um nível de vida tão alto como aquele de que beneficiou desde 25 de abril de 74.

 

Tudo estaria certo se a produção não tivesse sido afetada e tivesse aumentado, porque então teríamos apenas procedido a uma mais justa distribuição da renda nacional. Mas não foi isso o que se deu: não tem sido o produto do trabalho do país que tem sustentado o enorme acréscimo das despesas nacionais. Estas apenas têm podido ser cobertas através da progressiva descapitalização do Estado, a que é agora imperioso e inadiável por cobro.

 

A esta luz, julgo que a alocução do Dr. Mário Soares terá tido sobretudo em vista preparar psicologicamente a nação para as medidas que, com caráter urgente, o governo terá de adotar para sobrevivermos. Como o próprio Dr. Mário Soares frisou, mais importante para qualquer país do que o ouro em cofre, é o trabalho e a sua capacidade de produção. O que hoje é inadiável para recuperar a economia, e recriar uma atmosfera de ordem e disciplina, absolutamente incompatível com greves selvagens, com ocupações ilegais, com o absentismo que hoje se verifica em largos setores da vida económica, com manipulações partidárias disfarçadas de movimentos de "justa luta pelos direitos dos trabalhadores", com reivindicações salariais completamente irrealistas e, enfim, com a política de avales até agora prosseguida pelo Estado e que, como era previsível, em vez de estimular a produtividade, encorajou sobretudo o absentismo e o parasitismo, por os trabalhadores saberem as empresas protegidas contra o risco de falência.

 

A curto prazo, julgo que será impossível restaurar a nossa vida económica e restabelecer os índices de produção industrial e agrícola que havíamos atingido antes de abril de 74. Mas a condição de base para isso se tornar possível é a restauração de um clima de ordem e disciplina nacionais, e creio que é essa tarefa que o governo se consagrará prioritariamente, não numa perspectiva partidária, mas — como o próprio Dr. Mário Soares o disse claramente — numa perspectiva nacional.

 

 


30.4.11

 

 


Gaby Photo, Léopoldville, 1954*


  

 

Comemoro hoje o segundo aniversário da publicação de "Retrovisor, um Álbum de Família" com a resenha de Clóvis Brigagão, amigo de longa data, que acompanhou de perto o meu projecto e, pelo caminho, me deu bons conselhos. O texto não chegou a sair no jornal mas aqui não podia faltar, passe a imodéstia. 
 

 

 

RETROVISOR – Um Álbum de Família

Vera  Futscher  Pereira

Lisboa,  Rui Costa Pinto Edições, 2009

 

 

 

Nessa encantadora e elegante obra de arte literária, Vera Futscher Pereira revela-nos o âmago de um álbum familiar. Ali estão as origens remotas da família e de seus negócios, alguns deles exercidos em Salvador da Bahia e no Rio de Janeiro, de um Brasil ainda bucólico. Ali estão também os caminhos pacientemente construídos no presente e, finalmente, a oferta generosa do futuro à nova prole.  Mais além do legado fotobiográfico, o que apreciamos é a tecedura criativa, muito bem elaborada, através de uma trama 'a descoberto' ... Retrovisor é totalmente aberto às aventuras e desventuras que o leitor, intruso?, quer saborear a cada página.  

À sua arte se junta, sem descontinuidade, o delicado e sensível ofício, tenaz e reluzente, que adquire sentido como ato de amor declarado a tecer, fio a fio, palavra a palavra, o retrato privado da família Futscher Pereira: a lusofonia cosmopolita. Essa ilustrada fotografia familiar ganha sabor e notável dimensão ao incorporar na narrativa o rico contexto histórico com variados comentários do desenrolar sociológico, político, cultural e, porque não, psicológico desses dois tempos, o privado e o público. É pura prosa poética, sob a bela e brilhante composição gráfica, que a autora presenteia ao público, sem pieguice ou maneirismos.

Ao lado da estória da vida dos avós, dos parentes próximos, principalmente dos pais, Vasco e Margarida, de si mesma e dos dois irmãos Cristina e Bernardo, a navegar pelo mundo afora, a autora abre suas páginas aos acontecimentos do dia-a-dia – através de textos tanto seus como de vários comentaristas. Cabe aqui um parêntese sobre o significado dos textos. Primeiro os da própria escritora, alinhavados com graça e sensibilidade, como « ... a tentativa de reagrupar pessoas e lugares dispersos pelas rupturas da vida - e pela própria passagem do tempo ». Narra, de forma concisamente confortável, como andavam as coisas da família, da política portuguesa e do mundo, dos movimentos culturais, artísticos e literários, criados pela geração nascida nos anos 20 do século passado, mas que ainda ressoa aqui e agora, a desvendar as várias circunstâncias que percorrem as páginas, sem perder o fio da meada, num português refinado e claro. Anoto outras contribuições textuais: notas, telegramas, cartas e registros diplomáticos do embaixador Vasco Futscher Pereira, sempre impecáveis, em múltiplos sentidos e em especial notas, artigos e recortes de jornais sobre seu tempo como Embaixador em Brasília (75-77). Os poemas extraídos dos dois livros de Margarida Futscher Pereira: Lugar Comum e Bens Adquiridos, portuguesmente poéticos, como este: « temos que trilhar/piso difícil/para aprender/a saudade sem mácula» (p. 165). O artigo de Bernardo Futscher Pereira publicado em O Jornal (21/05/1982) “Reagan e Brejnev Trocam Galhardetes”, análise política intocável sobre a pressão da opinião pública nos estertores da Guerra Fria. Além de vários outros textos sempre muito bem contextualizados, destaco os diretos, firmes e literariamente muito bem escritos, de Maria Filomena Mónica de seu livro A Evolução dos Costumes em Portugal, 1961-1991.       

Como forma de ilustração da estória familiar, que une geração e vida cultural – onde o mundo entra e participa dessa saga - a autora concebe, com gracioso apuro, uma obra que frui livre, a extrair toda a riqueza e vantagens literárias e estéticas de seu Retrovisor. Além de ser obra de leitura muito cativante e prazerosa, ela é recomendada para os estudos de sociologia e antropologia familiar, para cursos de artes gráficas, letras e jornalismo e até mesmo para os que gostam, estudam e pesquisam épocas e interações das relações humanas. Do abrir ao fechar as páginas de Retrovisor, o espelho recompõe todas as figurações, os textos, as imagens e, principalmente, as pessoas que de forma comovente, humana e precisa, Vera Futscher Pereira consagra em suas essencialidades.

 

 

Clóvis Brigagão

cientista político e escritor, brasileiro, viveu em Lisboa entre 1975-1979.

 


*Foto de capa de "Retrovisor" (Cristina, 1954)
 


18.2.11

 

 

"Diário Popular", Janeiro de 1968

 

 

No capítulo sobre Madrid usei as crónicas sociais que a jornalista Vera Lagoa escrevia nessa época para o "Diário Popular". Escolhi-as por causa dos títulos e porque gosto de recortes de jornal. Num deles vemos Amália Rodrigues e o Príncipe Don Juan Carlos. Amália não podia faltar no meu álbum de família, por todos os motivos, e até aparece mais do que uma vez. Mas independentemente do caso de Amália, creio que um livro como o meu, que também pretende mostraruma época, ganha sempre em incluir personalidades públicas, e já agora, se possível, tão simpáticas como estas.

 

As "Bisbilhotices" de Vera Lagoa causavam sensação pela sua novidade, o que poderá fazer sorrir nos dias de hoje. O certo é que reflectiam uma mudançade atmosfera, ainda que subtil, na sociedade portuguesa dos anos 60.  Subtil, porque "a ostentação chegara a Portugal. Mas não a liberdade, nem o fim da guerra colonial".*

 

 

*

 

Vera Lagoa (pseudónimo de Maria Armanda Falcão) tornou-se uma personagem marcante na década de sessenta. Cronista social de incrível irreverência, assumiu, pela mordacidade, pela elegância da sua escrita, da sua postura, um papel inovador entre nós — crispando por igual os moralistas da direita e da esquerda.

Observadora astuta da alta burguesia, farpeia personalidades até aí intocáveis. As setas com que mimoseia, por exemplo, Natália Thomaz, filha do Presidente da República, nas compras, nos chás, nas estreias, nas recepções fazem-se, jornalisticamente, antológicas.

O pseudónimo Vera Lagoa surgiu durante um almoço com Luís de Sttau Monteiro: Vera proveio do desejo de ser verdadeira, Lagoa do vinho branco que bebiam à refeição.

[…]

Membro do staff da candidatura à Presidência da República de Humberto Delgado, em 1958, Vera Lagoa não conseguiu que o general seguisse, no seu apoteótico regresso do Porto, o itinerário anunciado entre Santa Apolónia e o Rossio. «Ele deixou-se influenciar pelos que o rodeavam, sobretudo pela mulher. Estavam com medo que a polícia provocasse incidentes graves, dada a multidão presente. A caravana, que seria triunfal, não se fez. Foi pena. Desperdiçou-se uma ocasião única... essa cedência marcou o princípio da derrota do general.»

[…]

Mulher de paixões (não de ideologias), extrema-se, após o 25 de Abril e a separação de Tengarrinha, à direita. Encabeça as primeiras reacções públicas contra os comunistas — que passa a combater como outrora combatera os fascistas.

Saída do Diário Popular, funda O Diabo (recuperando um título de prestígio), que o Conselho da Revolução manda, porém, suspender. Inconformada, enfrenta os poderes e lança O Sol, também semanário. Uma bomba explode nas suas instalações, destruindo-as. Chamados a pronunciar-se, os tribunais restituem-lhe O Diabo.


«A Maria Armanda era uma pessoa com muito mais valor do que a Vera Lagoa. Tinha mais energias, mais coisas porque lutar. A Vera Lagoa afasta muita gente que a Maria Armanda gostaria de ver junto de si. Antigamente vivia rodeada de certas pessoas que estimava muito», dirá, falando na terceira pessoa, da sua dupla e contraditória identidade.

 

 

Fernando Dacosta

in  Nascido no Estado Novo

Editorial Notícias, 2001 / reeedição Casa das Letras, 2008  aqui

© Fernando Dacosta

 

* v. texto de Maria Filomena Mónica em "Retrovisor, um Álbum de Família" p.117


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29.1.11

 

 

 

 

Figura (1972)

 

 

 

Jorge de Sena e Mário Cesariny foram os escritores que melhor captaram o pulsar erótico do Estado Novo. O primeiro pela ficção (Sinais de Fogo, romance sobre o agrilhoamento do regime), o segundo pela poesia (Real Quotidiano, metáfora sobre a vigilância da ditadura).

O submundo da província e da capital, das suas cumplicidades, vergonhas, ousadias, cobardias, emerge com magnificência nos dois autores. «O que importa é não ter medo: fechar os olhos/Frente ao precipício/E cair verticalmente no vício», escreve Cesariny.

Provocando o marialvismo então instituído, este rebela-se e assume o feminino da sua (nossa) androginia. Fá-lo com inteligência, com imaginação, com esplendor, com criatividade, com universalidade. A polícia de costumes humilha-o, a inteligentsia de esquerda menospreza-o. Ele não se deixa, porém, demover.

Através da metáfora, do fantástico, do perturbador, constrói um universo paralelo onde reina entre marinheiros, gatos, quartos, bares, ruas, engates, paixões, ludíbrios. A sua lucidez rola sobre as décadas como um filtro de inebriamentos. Cesariny faz-se, para sempre, um ser acima do tempo e do espaço.

Lisboa é povoada, nessa altura, por «putas, chulos, gatunos e marinhagem, uns príncipes!», exclama. Engenhosos fios de narrativa conduzem os mancebos que, ao deambularem pela cidade, conhecem os bas-fonds das transgressões secretas — e se fascinam por elas.

Depois, partem em «navios de espelhos» para guerras em África, o «último continente surrealista». Matam e regressam feitos caricaturas de heróis, heróis-travestis, vestidos coleantes, sapatos altos, cabeleiras loiras, lábios de sangue, canções de rouquidão. [...]

 

 

Fernando Dacosta

in  Nascido no Estado Novo

Editorial Notícias, 2001 / reeedição Casa das Letras, 2008  aqui

© Fernando Dacosta

 

 

Imagem:

Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)

Óleo sobre tela aqui

 

 


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26.1.11

 

 


 

 

 

 

Ousados, independentes, caóticos, os cultores do surrealismo (do que está para além do real) marcaram a arte, a literatura, a filosofia, os comportamentos do seu século. Em meia dúzia de anos perturbaram a vida portuguesa, convocando-a para a modernidade. Foram o grupo intelectual mais libertário e incómodo da nossa cultura.

A sua formação surge em 1947, entre jovens artistas e intelectuais que frequentavam o Café Gelo, no Rossio, duas décadas depois do movimento se ter afirmado em França.

Antes, noutro café (o Herminius), outros jovens (estudantes da Escola António Arroio) haviam avançado com propostas anunciadoras da nova corrente. Cesariny, Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Vespeira, Moniz Pereira e Pomar, a que se juntam António Pedro, Paolo, Júlio, Costa Pinto, Alexandre O'Neill, José Augusto França, Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Carlos Eurico da Costa, António Dacosta, Areal, Escada, Vespeira, Natália Correia, fazem-se-lhes referências.

Hostilizados pelos salazaristas e comunistas, mal vistos pelos católicos e burgueses, marginalizados pelos jornais e universidades, acabam, três anos depois, por separar-se.

António Maria Lisboa morre, Cesariny vai para Londres, Cruzeiro Seixas para África, Henrique Leiria para a América Latina.

 

 

 

Fernando Dacosta

in  Nascido no Estado Novo

Editorial Notícias, 2001 / reeedição Casa das Letras, 2008  aqui

© Fernando Dacosta

 

Imagem: desenho de António Pedro, 1948

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11.1.11

 

 


O cineasta António-Pedro Vasconcelos, que tinha 35 anos há 35 anos, recorda os tempos em que era difícil ser jovem num País vigiado e em que nem se podia beijar a namorada em público, mas onde também era impossível ser um velho intelectual activo e respeitado num regime que perseguia inteligência e liberdade.

Não é fácil explicar a um jovem de hoje - que julgará que o querem gozar quando se conta que a primeira televisão do realizador foi comprada a prestações para ver um jogo internacional do Benfica ou que chegou a pôr no "prego" (essa instituição antiga, onde se deixavam objectos, fosse a máquina de escrever ou o par de sapatos, como garantia do dinheiro emprestado) a aliança de casamento e o esquentador da casa de banho - o que era ter 21 anos no Portugal das décadas de 50 e de 60.

 

Só a partir de 1966/67 é que começa a surgir um maior consumo (televisão, semáforos, novos cafés) e, naturalmente, o boom da publicidade, que deu emprego a muita gente, dos escritores (O'Neill, Sttau Monteiro, Alves Redol, Ary dos Santos) aos cineastas (Fernando Lopes, José Fonseca e Costa e António-Pedro Vasconcelos, que filmou uma centena de anúncios).

 

O pior era, contudo, esse "ambiente de Feira Cabisbaixa, como tão bem definiu [no livro de poemas] o Alexandre O'Neill". Expulso de um café por beijar a namorada ou a conversar olhando sempre para a mesa do lado e tentando perceber se havia algum informador da PIDE a ouvir o que se dizia, com uma censura que só deixava projectar “Os Quatrocentos Golpes” depois de fazer 14 cortes no filme de Truffaut, ao sair dessa Lisboa provinciana, fechada e vigiada para Paris da liberdade e da vivacidade o choque era enorme.

 

Um jovem português de hoje, além de não sentir a vergonha ("era quase humilhante, a não ser que se tivesse, como cartão de visita, o estatuto de exilado, desertor, resistente") de ser identificado com o País da ditadura e da guerra colonial - o que era inevitável até 1966, "quando tudo mudou por causa do Eusébio no Mundial de Inglaterra" -, também não sente o mesmo contraste entre Portugal e o resto da Europa.

 

"Assediado para entrar no PCP, como toda a gente da minha geração (até porque os comunistas dominavam o Cineclube Universitário e a revista Imagem), apesar de ter ideais revolucionários, não aderi (nem nenhum dos meus amigos da época) porque li, quando era muito novo, um livro sobre os Processos de Moscovo e fiquei a saber o que era o estalinismo."

 

No fundo, a forma do seu grupo de amigos se manifestar era, por exemplo, distribuírem-se por uma sala onde era projectado um filme português daquela época e começar a patear - como fizeram no Éden, a 6 de Maio de 1960, na estreia de “O Cantor e a Bailarina”, de Armando de Miranda, acabando todos na esquadra.

 

"Um lado tenebroso do regime é que os intelectuais ou se exilavam, como o Jorge de Sena, ou então desistiam, morriam por dentro".

 

Um dos primeiros contemplados com os subsídios da Gulbenkian, em 1971 rodou Perdido por Cem, em torno de Artur, um rapaz da província (interpretado por José Cunha) que aproveita uma boleia de Rui (papel confiado a José Nuno Martins) para se escapar para Lisboa. Numa das cenas, filmada em directo na Pastelaria Suíça, no Rossio, o protagonista "lia Musil e olhava para as pessoas que por ali estavam, quase só homens, todos de chapéu, vestidos de negro, cinzento ou azul escuro, com um aspecto taciturno, como se fosse a Feira Cabisbaixa do O'Neill".

 

 

Fernando Madaíl

in "Diário de Notícias", 25 de Abril de 2009, na íntegra aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

Cartaz do filme Perdido por Cem

de António Pedro Vasconcelos (Portugal 1972).

 

 

 

um post recente sobre António Pedro Vasconcelos e a sua obra aqui

 

 

 


18.12.10

 

 

 

Capa de Panorama Revista de Arte e Turismo, nº 28 - IV série

Dezembro de 1968


 

 

Editada mensalmente pelo SPN, Secretariado da Propaganda Nacional (em 1945 SNI, Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo) — e terminada com a dissolução deste organismo, à queda do regime do Estado Novo em 1974, sob a superior direcção de António Ferro até 1949 (e tendo como director gráfico Bernardo Marques até então e Júlio Gil depois de uma interrupção em 1950) Panorama foi a primeira revista portuguesa de vocação modernizante. em grande parte consagrada às artes plásticas — embora, pela própria função cultural e propagandística da instituição editora, entre estas fossem especialmente tratadas as de carácter decorativo e de atracção turística, domínios em que a própria revista lançou iniciativas de relevo. Não deixaram por isso os números da sua primeira série, correspondentes à acção de A. Ferro durante a década de 40 (depois, com maior acentuação política, a revista entrou em franca decadência cultural) de prestar atenção à pintura, à escultura, ao desenho e também à arquitectura, sobretudo para encarecer a acção fomentadora do Estado Novo. Esta vinculação política, de carácter oficial, levou Panorama a documentar sectariamente as iniciativas do SPN-SNI, e as suas exposições, com esquecimento de outras — e propositadas ignorâncias das Exposições Gerais de Artes Plásticas ou da Exposição Surrealista de 1949 e da de Azevedo-Lemos-Vespeira de 1952 e outras, depois, de idêntico carácter modernizante contestatário, nas décadas seguintes. Bem paginada e ilustrada, documentalmente, com colaboração de bons desenhadores e excelentes capas (Bernardo Marques, Emmerico, Paulo, Ofélia, Anahory, Lapa), Panorama tinha menor interesse nos textos publicados, de carácter magazinesco, embora com algumas assinaturas de relevo (J. Osório de Oliveira. Reynaldo dos Santos, Reis Santos, Diogo de Macedo, João Couto).

 

 

inCatálogo da exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa

Comissário: Fernando de Azevedo

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1982

 

 

Imagem:

Grupo do Grande Presépio do Mosteiro da Madre de Deus. Oficina de António Ferreira. Séc XVIII. Museu Nacional de Arte Antiga.

Foto: A. Santos d’Almeida

 

 

imagens da revista Panorama aqui e aqui


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17.12.10

 

Bordado em protesto contra a decisão da tutela de transferir o espólio do Museu de Arte Popular para o Museu Nacional de Etnologia e adaptar o edifício do antigo MAP para acolher o futuro Museu da Língua Portuguesa.

 


Lenço de namorados do Minho, 2009

 

 


O caminho do Museu de Arte Popular, em Lisboa, tem sido feito de avanços e recuos. Fechou em 2003 e esteve para não reabrir. Um movimento cívico deu-lhe nova vida. (A.D.C.)


reportagem do Público aqui

As bordadeiras  aqui


 

artigo sobre a exposição patente no MAP aqui



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30.11.10

 

 

“Salut les copains” era a revista que as francesas liam no liceu francês. Embora algumas estrêlas da “geração yéyé” tenham alcançado popularidade além fronteiras, e tiveram-na sem dúvida nenhuma em Portugal, a sua projecção foi restrita à excepção do caso de Serge Gainsbourg, cujo “Je t’aime moi non plus” esteve no topo dos “charts” britânicos, conquista lendária celebrada no recente biopic do compositor.

Eu era fã de Françoise Hardy, Sylvie Vartan, Adamo, Polnareff, para nomear apenas alguns, mas a música vinda de Inglaterra e da América já exercia uma atracção irresistível. Com a chegada do programa “Em Órbita”, transmitido pelo Rádio Clube Português, a pop francesa desapareceu aos poucos do meu radar, mas não as canções, a moda, os filmes e os livros que vinham de França.

 

sobre o programa "Em órbita" leia aqui

 

 

 

 

 

L'interjection yéyé est, au départ, la transcription française du yeah, une déformation de «ye», qui ponctue les chansons de rock et de twist américaines. Les paroliers ont préféré « yé » à une traduction plus littérale en ouais. De là , « yéyé » désigna le courant musical.

Le 22 juin 1963, entre 150 000 et 200 000 jeunes se retrouvent place de la Nation à Paris, pour fêter le premier anniversaire du magazine Salut les copains. A l'exception de Johnny Hallyday, aucune idole ne va pouvoir atteindre le podium. Il y a trop de monde et la sécurité n'est pas garantie.

Quelques jours plus tard, dans une chronique publiée dans le journal Le Monde, le sociologue Edgar Morin baptise ces jeunes les yéyé. Par extension yéyé désigne donc aussi un phénomène de mode des années 1960.

 

Les artistes du Yé-yé:


* Claude François * César et les Romains * Christophe * Dalida * Françoise Hardy * France Gall * Sheila * Sylvie Vartan * Chantal Goya * Frank Alamo * Eddy Mitchell * Johnny Hallyday *Jacques Dutronc * Michel Polnareff * Liz Brady * Cosette * Dani * Gillian Hills * Jacqueline Taïeb * Jocelyne * Michèle Richard * Pierre Lalonde * Ronnie Bird * Les Surfs * Richard Anthony * Serge Gainsbourg.

 

Leia a história da revista "Salut les copains" aqui



26.11.10

 

 

 

 

Revista ELLE, 5 Outubro 1967

 

 

 

Devo muito aos jornais e às revistas e a "Elle" francesa é de longe a publicação que me acompanha há mais tempo, e com maior regularidade. Leio-a desde o início dos anos 60, desde que fui morar para o Saldanha, onde o correio a entregava pontualmente todas as semanas, oferta de Pierre e Helène Lazareff ao meu avô.

A "Elle" continua igual ao que era há 50 anos, o que parece um milagre mas é verdade. Apenas desapareceram das suas páginas Marcelle Ségal e Francesco Waldner, infelizmente. Em tudo o mais, a edição francesa, que continua a ser semanal, manteve intacta a qualidade da sua redacção, dos seus colaboradores, do seu design gráfico e do seu conjunto de rubricas. É simplesmente perfeita. Espero que nunca mude.

 

Leia a história da "Elle" aqui

 

Sobre Marcelle Ségal e o seu "Courrier du Coeur" leia aqui




 
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