25.10.15

Cadernos_de_Poesia.jpg

 

 

A primeira série dos “Cadernos” (1940-42) foi organizada pelos três poetas referidos e engloba cinco números antológicos; a segunda (1951) foi concretizada por Jorge de Sena, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José-Augusto França com sete fascículos. A terceira teve três números (1952-53).

 

 

 

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19.3.14

 

 

Cerco do Porto: desembarque dos Bravos do Mindelo aqui

 

 

 

 

 

As coisas são o que são

 

 

Há muitos anos, a almoçar com o Luís Sttau Monteiro numa tasca em Algés, mandámos vir bacalhau à Braz e favas com chouriço mouro. O bacalhau estava óptimo; as favas bastava vê-las para duvidar. O Luís provou-as e disse: “Ná, não é isto. Mas a verdade é que nós também não somos”.

 

Desde que vivemos em democracia — não era o caso quando o Luís e eu íamos à tasca de Algés — sempre que me indigno com qualquer coisa feita ou desfeita pelo governo português lembro-me dessa pérola de sabedoria.

 

A democracia veio com a Europa que nos mimou não fôssemos, perdido o Império, cair no comunismo. Quando chegou o euro ficámos com o rei na barriga. Dinheiro de fora, barato, gasto durante década em que a economia não cresceu, deu o “milagre português”: toda a gente se achava melhor do que as favas de Algés. Depois veio a troika - alternativa politicamente correcta a ocupação estrangeira, ditada por países do Norte (que inocentaram os seus bancos de tropelias aqui feitas) – para nos ajudar a sair do buraco. De maneiras lembrando a inabalável fé dos comunistas que sabiam como nos salvar, entre Março e Novembro de 1975. Queres Paraíso na Terra? Só depois de Inferno intermédio.

 

Para o resto do mundo a Europa não é modelo, é incómodo. A globalização assusta-nos por já não a comandarmos, ao contrário do que aconteceu em globalizações anteriores — desde Vasco da Gama até às décadas de progresso que precederam a Grande Guerra foram 400 anos a mandar vir. Agora, depois de meio século de paz, os europeus estão azedos uns com os outros: países ricos do Norte contra países remediados do Sul; nenhum disposto a mandar soldados reforçarem soldados franceses na República Centro-Africana (depois de alguns o terem prometido); os que percebem que Putin é um perigo universal contra os que acham que bálticos, polacos e suecos deviam era ter juízo e não provocarem o Czar de todas as Rússias. Se já sabia que atrasava a recuperação económica do mundo por inépcia própria, a União Europeia sabe agora que andou a pregar o direito e o bem acima das suas posses morais.

 

Cada um tem as suas fezes. Em Portugal a imposição de costumes luterano/calvinistas de gente habituada a tratar directamente com Deus a gente calhada na mediação de Santos e de hipóstases de Nossa Senhora é obra. Não há precedente na nossa história, salvo talvez nas leis de Mouzinho da Silveira que, cercado no Porto, fez do Portugal medieval um estado moderno. A legislação só foi aplicada depois do fim da guerra civil em 1834 - mas nem tudo mudou. Por 1900 a dívida externa era tal que, sem a Grande Guerra, Alemanha e Inglaterra teriam partilhado as nossas colónias.

 

Os portugueses hão de ser sempre os mesmos porque não há outros dizia o primeiro Duque de Palmela. Colega de Mouzinho, não só se bateu de armas na mão como convenceu banqueiros de fora a emprestarem dinheiro para os liberais ganharem a guerra.

 

Deplorável situação permanente, diria Jorge de Sena. Ou vigor do Sebastianismo?

 

 


26.3.12

 

Ninguém duvide de que lembra este ano um grande escritor e um grande português. Cuidado, porém, não pretenda encandear com a luz brilhante alguns focos bem mais espirituais que, mesmo depois da morte de Garrett, se acenderam por cá.

VITORINO NEMÉSIO  (1)

 

Respeitemos Almeida Garrett, homem admirável. Mas saibamos, por amor da poesia e de nós próprios, quem são os nossos grandes poetas.

JORGE DE SENA (2)

 

 

 

 

[...] Na altura da publicação das Folhas Caídas (1853), Garrett está com cinquenta e quatro anos, bem próximo daquele episódio que todos tememos e que nunca ninguém pôde cantar ou contar, a não ser por interpostas experiências. Mas se ele não pôde cantar ou contar a sua morte, o mesmo não se poderá dizer, com as devidas cautelas hermenêuticas, da sua vida — da que efectivamente viveu e, sobretudo, da (ou das...) que foi laboriosamente construindo em benefício próprio e dos outros, a ponto de se tornar muito difícil separar com nitidez a primeira das segundas. Nem sei mesmo se ele o conseguiria, no caso, duplamente improvável, de cá volver aferrado ao princípio de que os grandes criadores são fiáveis em questões de posteridade. Com efeito, de quem falam os professores-críticos Nemésio e Sena nos excertos aqui escolhidos para epígrafe? Do «divino» Garrett, por ocasião do primeiro centenário da sua morte, ou dos grandes poetas que ambos, não sem razão, julgam ser? Provavelmente de uma coisa e outra, na senda, aliás, do ilustre homenageado, que não consta haver alguma vez pecado por acanhamento em matéria de glória pessoal e artística. Garrett sempre foi uma obsessão de Garrett, como é sabido e logo ressai da Advertência — habitual expediente seu, sob este nome ou nomes afins — que precede as Folhas Caídas. Escrita em Janeiro para a primeira edição, e deixada intacta na segunda (provavelmente de Abril), essa Advertência materializa mais uma das suas múltiplas auto-encenações de teor lúdico-cognitivo. Na circunstância, pondo o «autor» a discorrer sobre o «poeta», visto este como inconfundível protagonista do que aquele chama a sua «vida poética» — «vida» teatralmente dada por conclusa no limiar das Flores sem Fruto (1843), mas que agora se retoma, depois da inevitável palinódia («Enganei o público, mas de boa-fé, porque me enganei primeiro a mim»). Repare-se, porque me parece importante: embora cúmplices, o «autor» e o «poeta», tal como as respectivas «vidas», interseccionam-se, porém não se confundem. O «autor» é o escritor prestigiado, figura conhecida do público burguês em expansão, partícipe de uma actividade socialmente relevante e com bastas provas dadas ao nível de vários tipos de discurso escrito, com relevo para o discurso literário. O «poeta», esse é outra coisa; é, por assim dizer, aquela parte do escritor que os outros toleram mal, mas que ele privilegia e acarinha — de modo envergonhado e reticente nos verdes anos, de modo desinibido e frontal nos anos crepusculares. Ou então, por palavras que o narrador das Viagens talvez se não importasse de secundar: o poeta e a «poesia» subsistem no escritor para, em momentos cruciais, o redimirem da «prosa» a que o século o obriga. Ora, as Folhas Caídas corresponderão, para Garrett, ao mais crucial desses momentos: o da iminência do fim, dos balanços inadiáveis. Ele sabe que não pode protelar mais a ocasião de sensibilizar o leitor para aquilo em que sempre acreditou e estas «folhas» mostram bem: o indiscutível e perene primado da dupla poeta/poesia num tempo votado à imanência, embora nostálgico da antiga transcendência. Em meu entender, é fundamentalmente por essa dupla que passa a compreensão do que estas «folhas de poesia» representam, quando observadas na perspectiva da tradição e da modernidade. Correndo porventura o risco de me tornar polémico, adiantarei mesmo mais: na derradeira obra de Garrett, a modernidade emana do poeta; a tradição, da poesia. Vejamos como, partindo da Advertência, e a ela volvendo quando se justifique. Não olvidemos que estamos perante um mestre da contradição — instrumento da maior fecundidade nos modernos, como ele próprio nunca se cansou de ensinar...

 

 

F. J. Vieira Pimentel

in "A Modernidade, a Tradição e Garrett: tópicos para uma releitura das Folhas Caídas" (capítulo 2/pp.194-195) 

Colóquio Letras nº 153/154 no segundo centenário de Almeida Garrett/ Julho-Dezembro 1999 aqui

 

 

Notas: 

1. Vitorino Nemésio, Conhecimento de Poesia, Lisboa, Editorial Verbo, 1970, p.79

2. Jorge de Sena, Estudos de Literatura Portuguesa-1, Lisboa, Edições 70, 1981, p.111

 

 

 

 

 

 

Folha de rosto da 1ª edição

 

 


 


31.1.11

 

 

 

 


 

 

Outra grande novidade da faculdade era que tinha alunas. Naquele tempo, não eram numerosas; e não havia, entre nós e elas, camaradagem nenhuma. Quando eu entrara para o liceu, ainda havia no último ano algumas, que eram entidades míticas de quem se diziam horrores, e os últimos remanescentes de o liceu ter sido misto. Entretanto, para a separação dos sexos, e para atender-se a uma população estudantil feminina, haviam sido criados em Lisboa dois liceus femininos. E, para nos espantarmos com a concentração de raparigas que estudavam (estudariam?) o mesmo que nós, muitas vezes tínhamos faltado, em grupos, às aulas, e tínhamos ido em excursão até um deles. Elas fugiam em grupos também, e não voltáramos lá, desde que, às esquinas, estavam polícias encarregados de enxotar-nos. Agora, na faculdade, lá estavam elas. E nós dificilmente concebíamos como colegas os membros de uma espécie humana, que, sem sexo, eram mães, tias ou irmãs, com algum sexo eram pessoas conhecidas, e com o sexo todo eram tudo isso, mas para os outros. As irmãs de um colega nosso haviam sido célebres por essa ambiguidade, que era aliás partilhada pelas primas de nós todos. Umas festas que havia em casa dele — que era um palacete nas avenidas, dentro de um jardim — acabavam sempre por elas e as amigas delas nos levarem para os cantos escuros da casa, para umas actividades meramente exteriores em que eram peritas. E contava-se, aplicada à casa, a história do senhor muito rico que, admoestando os rapazes que frequentavam as reuniões das filhas, recomendava que fizessem o que quisessem, mas não sujassem os reposteiros. As nossas colegas de faculdade eram, porém, animais estranhos. [...] E, naquele tempo, entre nós e as nossas colegas, não havia naturalidade de relações: ou eram tornadas inacessíveis pelo consenso geral, ou eram comodamente dessexuadas pela nossa timidez. Seria quase impensável que as namorássemos; e elas, na verdade, tinham namorados alheios à faculdade, que vinham buscá-las ao portão e não se atreviam a entrar nos corredores que, todavia, eram acessíveis ao público.

 

 

Jorge de Sena

in Sinais de Fogo pp. 44-45

© Mécia de Sena-Edições 70, lda.,1981 (aqui)

 

outro excerto da mesma obra aqui

 


 

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29.1.11

 

 

 

 

Figura (1972)

 

 

 

Jorge de Sena e Mário Cesariny foram os escritores que melhor captaram o pulsar erótico do Estado Novo. O primeiro pela ficção (Sinais de Fogo, romance sobre o agrilhoamento do regime), o segundo pela poesia (Real Quotidiano, metáfora sobre a vigilância da ditadura).

O submundo da província e da capital, das suas cumplicidades, vergonhas, ousadias, cobardias, emerge com magnificência nos dois autores. «O que importa é não ter medo: fechar os olhos/Frente ao precipício/E cair verticalmente no vício», escreve Cesariny.

Provocando o marialvismo então instituído, este rebela-se e assume o feminino da sua (nossa) androginia. Fá-lo com inteligência, com imaginação, com esplendor, com criatividade, com universalidade. A polícia de costumes humilha-o, a inteligentsia de esquerda menospreza-o. Ele não se deixa, porém, demover.

Através da metáfora, do fantástico, do perturbador, constrói um universo paralelo onde reina entre marinheiros, gatos, quartos, bares, ruas, engates, paixões, ludíbrios. A sua lucidez rola sobre as décadas como um filtro de inebriamentos. Cesariny faz-se, para sempre, um ser acima do tempo e do espaço.

Lisboa é povoada, nessa altura, por «putas, chulos, gatunos e marinhagem, uns príncipes!», exclama. Engenhosos fios de narrativa conduzem os mancebos que, ao deambularem pela cidade, conhecem os bas-fonds das transgressões secretas — e se fascinam por elas.

Depois, partem em «navios de espelhos» para guerras em África, o «último continente surrealista». Matam e regressam feitos caricaturas de heróis, heróis-travestis, vestidos coleantes, sapatos altos, cabeleiras loiras, lábios de sangue, canções de rouquidão. [...]

 

 

Fernando Dacosta

in  Nascido no Estado Novo

Editorial Notícias, 2001 / reeedição Casa das Letras, 2008  aqui

© Fernando Dacosta

 

 

Imagem:

Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)

Óleo sobre tela aqui

 

 


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11.1.11

 

 

 

O cineasta António-Pedro Vasconcelos, que tinha 35 anos há 35 anos, recorda os tempos em que era difícil ser jovem num País vigiado e em que nem se podia beijar a namorada em público, mas onde também era impossível ser um velho intelectual activo e respeitado num regime que perseguia inteligência e liberdade.

 

Não é fácil explicar a um jovem de hoje - que julgará que o querem gozar quando se conta que a primeira televisão do realizador foi comprada a prestações para ver um jogo internacional do Benfica ou que chegou a pôr no "prego" (essa instituição antiga, onde se deixavam objectos, fosse a máquina de escrever ou o par de sapatos, como garantia do dinheiro emprestado) a aliança de casamento e o esquentador da casa de banho - o que era ter 21 anos no Portugal das décadas de 50 e de 60.

 

Só a partir de 1966/67 é que começa a surgir um maior consumo (televisão, semáforos, novos cafés) e, naturalmente, o boom da publicidade, que deu emprego a muita gente, dos escritores (O'Neill, Sttau Monteiro, Alves Redol, Ary dos Santos) aos cineastas (Fernando Lopes, José Fonseca e Costa e António-Pedro Vasconcelos, que filmou uma centena de anúncios).

 

O pior era, contudo, esse "ambiente de Feira Cabisbaixa, como tão bem definiu [no livro de poemas] o Alexandre O'Neill". Expulso de um café por beijar a namorada ou a conversar olhando sempre para a mesa do lado e tentando perceber se havia algum informador da PIDE a ouvir o que se dizia, com uma censura que só deixava projectar “Os Quatrocentos Golpes” depois de fazer 14 cortes no filme de Truffaut, ao sair dessa Lisboa provinciana, fechada e vigiada para Paris da liberdade e da vivacidade o choque era enorme.

 

Um jovem português de hoje, além de não sentir a vergonha ("era quase humilhante, a não ser que se tivesse, como cartão de visita, o estatuto de exilado, desertor, resistente") de ser identificado com o País da ditadura e da guerra colonial - o que era inevitável até 1966, "quando tudo mudou por causa do Eusébio no Mundial de Inglaterra" -, também não sente o mesmo contraste entre Portugal e o resto da Europa.

 

"Assediado para entrar no PCP, como toda a gente da minha geração (até porque os comunistas dominavam o Cineclube Universitário e a revista Imagem), apesar de ter ideais revolucionários, não aderi (nem nenhum dos meus amigos da época) porque li, quando era muito novo, um livro sobre os Processos de Moscovo e fiquei a saber o que era o estalinismo."

 

No fundo, a forma do seu grupo de amigos se manifestar era, por exemplo, distribuírem-se por uma sala onde era projectado um filme português daquela época e começar a patear - como fizeram no Éden, a 6 de Maio de 1960, na estreia de “O Cantor e a Bailarina”, de Armando de Miranda, acabando todos na esquadra.

 

"Um lado tenebroso do regime é que os intelectuais ou se exilavam, como o Jorge de Sena, ou então desistiam, morriam por dentro".

 

Um dos primeiros contemplados com os subsídios da Gulbenkian, em 1971 rodou Perdido por Cem, em torno de Artur, um rapaz da província (interpretado por José Cunha) que aproveita uma boleia de Rui (papel confiado a José Nuno Martins) para se escapar para Lisboa. Numa das cenas, filmada em directo na Pastelaria Suíça, no Rossio, o protagonista "lia Musil e olhava para as pessoas que por ali estavam, quase só homens, todos de chapéu, vestidos de negro, cinzento ou azul escuro, com um aspecto taciturno, como se fosse a Feira Cabisbaixa do O'Neill".

 

 

Fernando Madaíl

in "Diário de Notícias", 25 de Abril de 2009, na íntegra aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

Cartaz do filme Perdido por Cem

de António Pedro Vasconcelos (Portugal 1972).

 

 

 

um post recente sobre António Pedro Vasconcelos e a sua obra aqui

 

 

 


14.1.09

 

 

Nos corredores da Faculdade surgia o neo-realismo, receita de um estado novo ao contrário. Eu lia. Comprava esse movimento de sinceros e insinceros, sangue na estrada, miséria no lar, justiça que se impunha. O Alentejo dava porcos e neo-realismo, e passados mais de vinte anos continuava ainda a dar mais porcos e neo-realismo, tal o atraso de subdesenvolvimento em que nos encontramos. A cobertura quase total, os críticos mais apaixonados, tudo que não estivesse na defesa do povo, era condenado. Eu estaria para sempre condenado — um apátrida das letras. Mal sabia que daí a meses o acaso, mais uma vez na vida, me faria mudar de rumo. Iria encontrar em cheio, no domínio do poder literário, a força antídota e semelhante à situação política — aguardava-me em Coimbra a maçonaria poderosa e crescente do neo-realismo. O público estava já habituado ao ersatz, os editores caldeiravam a ração sem razão, não sabiam, dava-lhes dinheiro, como o algodão de Angola, o café e os diamantes. Havia que emborcar, e estar calado, saíndo fora da linha resultava levar na cabeça. E do Alentejo continuava a desembarcar mais prosa e mais suinagem. Tudo era verdade, quem não estivesse dentro da ordem nova, um excomungado. Havia que pertencer a uma ordem maçónica. Estar junto, amancebar o nosso espírito. Talvez a exigência da época, pensava eu. Qual época qual carapuça, sim a exigência mesquinha do português de querer tudo arregimentado. Essa a triste conclusão. O intelectual português passou séculos de perseguição e de miséria, não pode ter grandeza, a grandeza é produto da liberdade. No útero da sua natureza andrógina ele ainda ouve os sons da Inquisição, o silêncio da procissão dos autos-de-fé. Como haviam de aceitar um artista? Um artista só se aceita quando há liberdade de expressão. Foi assim que receberam Eça de Queirós, que sentiram Raul Brandão. Se eles ainda respirassem, seriam pasto para se queimarem vivos, tanto por parte dos neo-realistas como dos estado-novistas, ambos totalitários, ambos negadores de uma verdade de expressão que se sobrepunha à sua receita. Como podia eu ter consciência de culpa de um crime que não praticava?

A resposta foi dada pelo Cinatti ao publicar a revista Aventura. Ele não fazia cerimónia para dizer a verdade, menos ainda o Jorge de Sena, o Carlos Queirós, a Sophia, o José Blanc de Portugal, o Casais e tantos outros que colaboravam — "uma cidadela fundamentada na Amizade".

 


 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura (vol.II)

 

 

 

Dedicatória aos meus pais

do segundo volume da autobiografia de Ruben A.

1966

 

 

Mais sobre o autor aqui , a sua autobiografia aqui e a sua fotobiografia aqui

 

 


7.1.09

 

Marão-1938.jpg

 

Marão, 1938

 

De política, nenhum de nós sabia nada. Era como se tudo o que vinha nos jornais se passasse a séculos e milhares de quilómetros de distancia. As nossas famílias não se interessavam por política, senão em termos de «Ordem», e louvavam-se da paz que o governo impusera a um país em desordem. Qual seria esta desordem e como era a ordem que o governo impunha, nós não fazíamos grande ideia. Os jornais falavam às vezes do caos administrativo e financeiro do passado, enaltecendo as providencias do governo. (…) Mas as transcendências do orçamento e da dívida pública ultrapassavam de muito as especulações das nossas famílias da média ou da alta burguesia. A «ordem» era o contrário de haver «revoluções». (…) Na minha infancia, ainda houvera «revoluções» que eram, para mim, inseparáveis de passarmos dois ou três dias no quarto interior e escuro da casa, deitados no chão, «por causa das balas perdidas» enquanto meu pai e o vizinho de baixo, na escada, discutiam de onde eram os tiros que se ouviam: a Penha de França, a Graça, a Ajuda, etc., sem chegarem a outro acordo que o resultante de, a um estrondo maior, meu pai voltar para dentro, e recolher-se ao quarto escuro, chamado pelos clamores lancinantes da minha mãe. Depois, as revoluções tinham efectivamente acabado, ou abortavam longe e em silêncio, esmagadas suplementarmente pela severidade dos periódicos (que meu pai lia alto, com grandes assentimentos de cabeça) e por grupos de pescadores da Nazaré ou lavradeiras do Minho, que, com os seus trajes típicos, vinham ao Terreiro do Paço, com os regedores na frente e a banda de música, oferecer flores aos salvadores da ordem, que se juntavam todos numa janela a agradecer, como eu e outros, escapados ao liceu, havíamos ido ver uma vez. (…) Claro que, ainda no liceu, o «Anschluss» fora discutido e a Guerra da Etiópia também. Mas a ascensão de Hitler, cujo nome começava a ser conhecido, não aparecia, mesmo no noticiário dos jornais, como uma ameaça às democracias, mas sim como uma perturbação da «ordem» estabelecida pelos «Aliados» na Primeira Grande Guerra. E Mussolini era muito louvado oficialmente, ainda que com discreção, pela sua autoritária organização do progresso da Itália. Todavia, a guerra da Etiópia não era o mesmo que o Anschluss... Que se unissem povos da mesma língua e da mesma raça, não nos parecia coisa por aí além. Que se atacassem o Negus e os «ráses», que o noticiário apresentava habilmente na contradição de serem uns selvagens quase antropófagos, que se recusavam às delícias do progresso, em nome de uma independência que datava desde Salomão e a Rainha do Sabá (e todos nós conhecíamos, de nome, muito mais a Etiópia do que a Austria, já que esse país figurara nas pompas onomásticas dos reis de Portugal,que sabíamos de cor desde a escola primária), eis o que era, sem dúvida, uma agressão. Não o eram, é claro, as campanhas de ocupação africana, que andavam então na moda oficial: os italianos não tinham sido, na verdade, os descobridores da Etiópia, como nós o havíamos sido de tudo e da Etiópia também. Era, de resto, nestes termos de passado histórico que tudo era avaliado e, a tal ponto as coisas nos eram distanciadas, que a república fôra proclamada em Espanha, sem que déssemos por isso.

 

© Jorge de Sena

 

Mais sobre "Sinais de Fogo" aqui e sobre Jorge de Sena aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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