22.6.16

 

 

 

Philippe Wojazer Reuters.jpg© Philippe Wojazer/Reuters

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Europa sem ingleses ? Não, obrigado

 

 

 

Desde o Tratado de Windsor - e da batalha de Aljubarrota – Portugal e a Inglaterra têm tido relações privilegiadas que resistiram ao ultimato inglês de 1890 e a pressão alemã durante a II Guerra Mundial para que a nossa neutralidade nos impedisse de aceitar a instalação de base militar inglesa (e, depois, americana) na Ilha Terceira dos Açores.

 

Potências marítimas, confrontadas por poderes continentais, demo-nos bem assim quando a Europa passou a ser o centro do mundo e também agora, que a União Europeia já não o é. Na quinta-feira (eleições e referendos são às quintas-feiras no Reino Unido), os ingleses - a escoceses e irlandeses do Norte o problema não se põe -, em inusitada manifestação colectiva de falta de bom senso, poderão optar por sair da União. Não acredito que o façam mas, se o fizerem, Portugal deveria começar a pensar em sair também.

 

Temos recebido muito da União, como tínhamos recebido muito das Comunidades Europeias que a precederam. Sem a Inglaterra, porém, a União será um animal político muito diferente do que é agora, contrário ao nosso interesse.

 

Com o Tratado de Roma de 1957, França, Alemanha, Itália e Benelux criaram a Comunidade Económica Europeia. O Reino Unido - isto é, a Inglaterra - não se quis então juntar aos seis fundadores. Poucos anos depois passou a querê-lo mas De Gaulle opôs-se. O alargamento a Reino Unido, Irlanda e Dinamarca fez-se em 1973; quando Portugal aderiu em 1986, já a Inglaterra era um dos ‘Quatro Grandes’. A chamada Construção Europeia fora possível porque, a seguir a seis anos de guerra, os europeus, sobretudo a Alemanha, estavam de rastos e URSS (potência atómica desde 1949) e EUA partilhavam o domínio do mundo em Guerra Fria. Os EUA protegiam a Europa Ocidental: defendiam-nos da Rússia - e defendiam-nos também uns dos outros. Sem uma Rússia que nos aterrorizava e uma Alemanha de rastos não se teria chegado à União Europeia.

 

A URSS colapsou e a Rússia revanchista de Putin não mete medo que se lhe compare. O terror soviético animava forças centrípetas vitais para a Europa; sem ele medram forças centrífugas de nacionalismo (patriotismo é amor aos nossos; nacionalismo é ódio aos outros, Romain Gary). Entretanto, a Alemanha levantou-se do chão, reunificou-se, fez do Eixo Franco-Alemão a trela com que Berlim puxa Paris, ajeitou os Tratados e, sem Inglaterra a bater-se por liberdade económica, defesa forte a Leste e Sul e bom senso em geral, acabaria obtendo em paz – mais por erros dos outros do que por desígnio próprio – o que lhe escapara nas guerras lançadas em 1914 e 1939: domínio incontestado da Europa.

 

Não há país mais longe do fascismo do que a Alemanha de hoje mas há vigências antigas. A saga da austeridade atasca a economia do Continente, afunda o Sul, divide Norte e Sul, com os alemães convencidos de estarem a fazer bem, por bem. Querem livrar-nos dos nossos Demónios e não entendem que a gente queira livrá-los dos Demónios deles. Assim não.

 

 

 

 

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10.6.16

 

Arigato, eu.jpg

 aqui

 

 

 

O Japão é daqueles sítios que transformam as pessoas. Posso atestá-lo pela minha experiência pessoal, cumpridos três meses por lá e quase meio milénio após os meus compatriotas ali entra­rem, eles que também terão mudado após o acidente de Tanegashima (que adiante conheceremos) e dito «obrigado» por este não os ter matado. Também poderei confirmar que a experiência do Extremo Oriente é marcante quando, nos próximos capítu­los, escrever sobre os sete portugueses que aí conheci, abertos e aventureiros como lusos, mornos e simpáticos mas cada vez mais formais, trabalhadores e concentrados como os nipónicos.

 

Em 1512, durante o reinado de D. Manuel I, chegaram notí­cias de que existiria um arquipélago ao largo da China. Fora o mercador italiano Marco Polo quem o dissera, acrescentando que esse conjunto de terras rodeadas por mar era chamado «Cipanto» ou «Ji-pangu», em chinês «o local onde o sol nasce».

 

Na época os japoneses viviam isolados, pois o seu território não tem ligação por terra com nenhum outro e eles só mantinham contacto com a China e com a Coreia, de onde vieram fortes influências culturais, como a escrita, o cultivo do arroz e o budismo. «Uma ilha grande, de gente branca, de boas maneiras, formosa e de uma riqueza incalculável», escreveu Marco Polo. A descrição deixava o novo local envolto numa névoa de fabu­losas riquezas, o mistério que ainda hoje se lhe associa e que atrai portugueses, emigrantes, viajantes e exploradores de todo o mundo.

 

Já em 1540 as informações sobre o Japão eram mais claras, pois barcos japoneses ancoravam nas pequenas ilhas de Liampo, na costa chinesa, e por aí tinham contacto com mercadores lusi­tanos. Segundo uma das versões da história, um dos barcos mercadores dirigia-se para lá levando três portugueses quando foi apanhado numa violenta tempestade, indo parar à ilha de Tane­gashima, ao sul do Japão, no tal acidente pelo qual podemos dizer muito obrigado ou arigato gosaimasu.

 

 

Luís Brito

in  Arigato, eu. Os portugueses no Japão

© Fundação Francisco Manuel dos Santos e Luís Brito. Abril de 2016

 

 

 

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9.3.16

 

 

 

Alentejo Prometido capa.jpg

 

edição FFMS 2016

 

 

Quando as notícias deram conta, a propósito do livro de Henrique Raposo, das manifestações daquela «vocação do energúmeno» de que Nemésio fala no seu belíssimo prefácio a um livro sobre Polémicas Portuguesas[1], desta vez sob a forma de auto-de-fé, senti que talvez tivesse de contrariar a minha aversão a meter o nariz onde não sou chamado. Ou admitir que havia chamamento, afinal.

 

É que de imediato reconheci o espírito – ou, melhor, a falta dele – que estava por detrás das ditas manifestações, e quase por instinto decidi que queria estar na apresentação pública do livro (e na altura nem sabia que Rentes de Carvalho usaria da palavra!). A minha vivência alentejana difere, no tempo, no espaço e na duração, da experiência de Henrique Raposo: é mais antiga, mais interior (em sentido duplo), mais longa e abrangente. Mas talvez igualmente distanciada e crítica.

 

Estimo a ousadia de Henrique Raposo, que não conheço pessoalmente, e creio que ele dá corpo a algumas intuições certeiras. Estimo igualmente a genica com que procura um paradigma diferente na abordagem do Alentejo e das suas mitologias. Mas também penso que é por vezes demasiado ligeiro, até abusivo, nas generalizações, e, malgré lui, dominado por um certo romantismo.

 

A minha ideia de ir à apresentação era, em primeiro lugar, marcar presença (coisa que só para mim contaria), aliás logo justificada ao notar a presença façanhuda e pesporrente de algumas personagens entre a assistência. Conheço bem o género. Depois, chegar à fala com o autor e dizer-lhe: parabéns pelo seu livro, que li com interesse, também eu sou alentejano, não há como ver-me livre disso e lido bem com a coisa, e gostaria um dia de trocar impressões sobre um certo número de ideias, factos e memórias.

 

Fiquei-me pela presença. O resto fica aqui dito.

 

Jorge Colaço

 

[1] Direcção de Artur Anselmo, 2 vols., Verbo, 1964 e 1967.

 

 

 

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1.4.15

 

 

 

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 Cemitério de vítimas do Gulag em Vorkuta, Rússia. 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Quaresma

 

 

 

Sábado, 28 - Entre cornflakes e café, folheio o International New York Times e leio, ao fundo da página 5, que no quadro do desastre de avião que matou o Presidente Lech Kaczynski e mais 95 altas figuras do estado que viajavam com ele, na Rússia ocidental, em 2010, procurador militar polaco acusou ontem 2 controladores aéreos russos. Depois de quase 5 anos de investigação, um dos controladores, de responsabilidade directa pelo desastre; o outro de responsabilidade indirecta. Poderão ser condenados a 8 anos de prisão. Todavia, acrescentou o coronel procurador, a causa mais imediata do desastre fora a falta de treino e o comportamento negligente da tripulação polaca que havia feito descer demais o avião abaixo do nevoeiro e ignorara sinal automático para retomar altitude. Tripulação que não estava autorizada a conduzir o avião presidencial.

 

As revelações do procurador militar foram logo aproveitadas pelo partido conservador Lei e Justiça, maior partido de oposição polaco, fundado pelo falecido presidente e por seu irmão gémeo Jaroslaw, antigo primeiro-ministro, que tem sustentado sempre que o presidente foi assassinado, possivelmente pelos russos, e acredita também que o governo de Donald Tusk (agora Presidente do Conselho Europeu) ajudou a encobrir os factos. Antoni Macierewicz, um dos barões do partido acusou os investigadores de “desencaminharem o público” e disse que o desastre fora causado por explosão misteriosa a bordo. A Rússia ainda não devolveu os restos do avião, apesar de repetidas insistências polacas.

 

Tragédias, intrigas, mistérios em curso bem como muitas opiniões sábias – que se passaria na cabeça do copiloto de Germanwings?; ditos, reditos e desditos de Bibi sobre todo o mundo e ninguém e dinheiro de impostos devolvido aos palestinos; labirinto de becos sem saída, desenhado pela ignorância curta de vistas de Washington na escolha de amigos e inimigos no Médio Oriente (onde o amigo do meu inimigo também muitas vezes meu amigo é); esforços para limpar o Laos, uma das terras mais bombardeadas deste mundo; decisão final pendente da justiça italiana sobre a americana Amanda Knox (a telefonia veio dizer que fora definitivamente absolvida da acusação de ter morto a amiga); Sigmund Freud na história da psiquiatria; o novo Museu Whitney em Nova Iorque; Silicon Valley e automóveis de luxo velozes; mudanças na banca privada internacional – tudo em 22 páginas, no meio de anúncios de joias, de relógios, de bagagens, de hotéis, tudo de luxo, para entreter convalescentes e mais ociosos nesta véspera de Domingo de Ramos, quase me fizeram falhar o inquérito ao desastre do avião polaco.

 

Teria sido pena. Em poucas linhas, não me deixou esquecer que nessa interface entre Leste e mais a Leste, onde desconfiança mútua impera, má-fé campeia e transparência é opaca, está todos os dias em risco a paz geral da Europa. Todo o cuidado é pouco, a começar com Putin. E, vistas bem as coisas, também a acabar nele. Páscoa Feliz.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

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7.12.14

 

FLG Faial.jpg

 Fernando Lopes Graça, Horta, Açores 1983 

 

 

 

Cumpriu-se faz agora dois anos a primeira etapa do projecto ambicioso dum grupo de amigos de Fernando Lopes Graça (1906-1994): trazer a público uma colecção de peças para piano que o compositor dedicou a amigos e eventos – as “Músicas Festivas” – e registá-la em múltiplos suportes, permitindo a criação de conteúdo não efémero.

 

Das 23 peças, 13 nunca tinham sido tocadas em público e 18 nunca tinham sido gravadas. A colecção inédita foi apresentada a 16 de Dezembro de 2012 num concerto do pianista António Rosado no Centro Cultural de Belém. Na mesma data saíram os CD "Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça", os quatro volumes das partituras (em suporte papel) e foram criados um sítio Web multilingue* e um álbum de fotografias e documentos no facebook.

 

Um duplo DVD agora lançado [o concerto no CCB, com introdução do musicólogo Rui Vieira Nery, e o documentário "Uma visita aos afectos do compositor"] completa este projecto multimédia, a vários títulos exemplar, constituído por cinco iniciativas produzidas e financiadas por um grupo muito pequeno de pessoas com apoios quase nulos.

 

O documentário "Uma visita aos afectos do compositor" — retrato intimista e muito cativante de Lopes Graça construído a partir de depoimentos, excertos musicais, fotografias, imagens em movimento e documentos reunidos ao longo da pesquisa — revela-nos com simplicidade e saber toda a riqueza da sua música (1), do seu legado intelectual e da sua personalidade, à luz do presente.

 

E nem de propósito, a coincidir com a recente consagração mundial do Cante Alentejano, este documentário vem recordar o papel pioneiro de Lopes Graça na música coral portuguesa e na recolha da nossa música tradicional (2), e inclui mesmo um apontamento extra sobre a digressão pelos Estados Unidos, pela mão do compositor, do grupo coral alentejano da Aldeia Nova de São Bento, a convite da Smithsonian Institution, por ocasião do bicentenário do país, em 1976.

 

Bem vindo às “Músicas Festivas” de Fernando Lopes Graça, disponível em DVD numa loja perto de si.

 

 

 

Notas:

 

 1. “Muita da sua reflexão vem de um trabalho de desconstrução dessas músicas tradicionais e de transposição de elementos que ele encontra nessa linguagem popular para uma esfera erudita em que depois cruza esses elementos com as referências cosmopolitas das vanguardas modernistas em que se integrou”. [Rui Vieira Nery na introdução]

 

2. Lopes Graça cria nos anos 40 o Coro da Academia de Amadores de Música. As suas harmonizações das Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas serão cantadas pelo Coro por todo o país. O interesse de Lopes Graça por este património tradicional e o trabalho que desenvolveu nesta área é comparável ao de Garrett com o Romanceiro, acerca do qual o compositor escreveu na revista Gazeta Musical um artigo que será abordado em futuro post.

 

 

 

 

separador_20DVD copy.jpg

 

*Na web em português aqui e EN-FRA-RU-ESP-HUN

 

trailer do documentário aqui

 

facebook aqui

 

 

 

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28.3.14

 

 

Documentário de Lewis Cohen

Sábado, 29 de Março 2014 às 16h30

Cinema S. Jorge, Sala Manoel de Oliveira

 

 

The kidnapping and brutal murder of a young French Jew, Ilan Halimi, kicks off a roller coaster quest to bring his tormenters and killers to justice, along with an enlightening search through history to discover the origins and reasons for perpetuation of the age-old myth of Jews as the world’s financial purse string holders. Jews & Money is a probe into the myth about Jews, and where and when it took root. Why is the Jew so often cast as the banker or trader, pawnbroker or movie mogul? Of all the medieval moneylenders, why is only Shylock remembered? How did the Rothschilds become the symbols of international capitalism? And why does a simple cell phone salesman get pegged as rich, and die for it?

 

A debate with the participation of Richard Zimler, Manuela Franco, Jorge Martins and Marina Pignatelli will follow the screening.​

  

 

Ilan Halimi

1982-2006

 

 

Em 2006, um jovem vendedor judeu é raptado nos arredores de Paris por um bando de criminosos, que exigem um resgate de meio milhão de euros convencidos de que “todos os judeus são ricos”. Não era o caso.

 

Este documentário investiga quando e onde estarão as raízes desse mito, por que razão o banqueiro, o comerciante, o dono da loja de penhores ou o grande empresário da indústria cinematográfica são tantas vezes representados por judeus? Entre tantos agiotas medievais, por que motivo é Shylock o único que ainda hoje é recordado? Como é que os Rothschild se tornaram os símbolos do capitalismo internacional? E porque é que um modesto vendedor de telemóveis passa por rico, morrendo por causa disso?

 

Após a exibição haverá um debate com a participação de Richard Zimler, Manuela Franco e Jorge Martins moderado por Marina Pignatelli.   

 

 

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2.5.13

 

Num conjunto muito variado de textos, Eduardo Côrte-Real discorre com simplicidade e humor sobre a descoberta doutras paisagens, povos e mentalidades à luz dos seus autores de cabeceira e da sua história pessoal de filho do Império: 

 

"nesta parte do mundo [Macau], os portugueses fizeram-se à vida sozinhos, verdade que nem sempre se conta, só isso já dá a dimensão da aventura de quem vai para a China, para a civilização mais antiga de todas, agora um gigantesco casino, com Moulin Rouge e tudo" ... "Em Moçambique o apartheid era uma realidade, nunca tive um colega de escola preto e fiz lá o liceu todo. Naquele tempo, entretido a crescer, não me parecia estranho. Os únicos pretos com quem falávamos eram os nossos criados — sete."

 

O Médio Oriente, a Rússia e a China registados pelo autor nos finais do século XX também já não são hoje exactamente os mesmos, e nesse subtil desfasamento reside outro dos interesses deste livro. 

 

 

 

 

 índice de capítulos aqui

 

 

Tive a sorte de viver, longamente, em três continentes - África, Ásia e Europa. O persa de Homero, esse ainda desconhecido dos eu­ropeus e, no entanto, a viver ao nosso lado, foi o meu best friend nesses idos. Também gosto imenso da América, tanto do norte como de al­guns países do sul, daqueles onde não mora o pecado como no Brasil, a glória portuguesa. Gosto de árabes — o que é raro nos europeus — uma matriz complicadíssima porque política e religião são do mesmo grupo de conceitos neles. [...] Não há lares de terceira idade na China, o filho mais velho toma conta dos pais até eles morrerem. É assim. Praticar o Li (o bom caminho) não é muito diferente das éticas gerais, religiosas ou ateias. Individuo versus Universo é a questão do confucionismo chinês. O Ocidente individualista deusificou a Humanidade - mais interessante para filosofar — que a abstração dessa alma coletiva chinesa, nunca individual. No confucionismo não há salvação isolada, egoísta, nem alminhas. O historiador, o antropólogo, o humanista ocidental europeu, o jornalista, levo-os a todos como se fosse a escova de dentes, se possível sem eurocentrismos que são só excesso de peso. Não é só fazer a mala. É saber ao que vamos.

 

Eduardo Côrte Real

in Vagamente à procura de Pasárgada (Introdução)

© RCP Edições 2012 

 

Leia o poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira aqui

 

 

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23.2.13

 

 

 

Elisa Silva Santos, Alice Ribeiro, Eduardo Silva Santos e Estolano Dias Ribeiro

Anos 20 do séc. XX

 

 

Vivi sempre com o desgosto de não ter conhecido este avô (nem o outro),e contavam-me pessoas que com ele privaram que era uma pessoa irresistivelmente encantadora. [...] Muito jovem foi trabalhar para Moçambique. Terá sido aí que estabeleceu uma amizade muito forte com Estolano Ribeiro, e trabalhado com ele, na Companhia do Boror de que também viria a ser accionista. A amizade com Estolano Ribeiro esteve na origem de uma relação de uma enorme familiaridade, madrinhas e afilhados para cá e para lá, e que ao fim de três gerações se mantém viva. Os dois amigos e as suas mulheres formaram um eixo que sustentou e relacionou afectos, entreajudas, o afirmar de um certo estilo/ espírito, mitologias – de que eu próprio fui herdeiro, como se fosse possível comungar de património genético por afinidade. [...]

 

 

Update 001

Não tropecei propriamente no registo de nascimento do meu avô. Andei laboriosamente à procura dele. Sabia que era escorpião, e a partir do registo de nascimento da minha mãe, que refere a idade dele, e da minha avó, determinei que ele tinha muito provavelmente nascido entre Outubro e Novembro de 1879. E ela em 9 de Setembro de 1894. Ouf! Seguiu-se uma segunda ida para a Torre do Tombo. A Torre do Tombo é uma experiência. A escala, os materiais, o silêncio. A função. Alguém na portaria dirigiu-se a mim como Sr. Investigador Shiii! Durante duas horas literalmente "lambi" não papel mas microfilme, dando à manivela nos registos paroquiais da Freguesia do Santíssimo Coração de Jesus. Rolo 1.538. Nada. Rolo 2.642. Outras freguesias. Rezei o responso a São Tomás de Vila Nova. E mesmo, mesmo, no fim dos registos, próximo da "data extrema", na margem do livro aparece um simples Eduardo. A próxima coisa em que os meus olhos pousaram, curiosamente, foi o nome Rozebel. Invadiu-me um sentimento de calma enorme, e de exaltação também. Agradeci ao Altíssimo ter-me finalmente levado aos meus.[…]

Preciso do casamento, e já agora do óbito. Seguiram-se 24 horas de alta voltagem. Estas descobertas deixam-me num estado quase febril, é o encontro com a verdade, os registos contam-me a verdadeira história, muito mais nítida e útil do que as minhas memórias e a tradição oral que carregava comigo há anos.

Logo de manhã: Conservatória. De uma assentada a transcrição do registo que já tinha visto, e logo a seguir o de casamento e o de óbito. Um manancial de informação e muitos recantos da minha história - e da deles - iluminados.

 

Joaquim Martinho

in 1912 um superalbum

Edição Súbita, Associação de Desenho e Cinema

©2012 Joaquim Martinho

aqui

 

 

 

Este livro dedicado a um neto, para um dia ele “saber de onde vem este avô”, reúne cerca de trinta membros da família do autor num mosaico de histórias dos últimos cem anos em Portugal. Alguns retratos e paisagens recordaram-me pessoas e ambientes do meu próprio passado e, a par do importante trabalho de transmissão às gerações seguintes, é neste reconhecimento que reside a meu ver o grande encanto dos álbuns de família dos outros*. Neste "superalbum" também apreciei particularmente o modo como o autor vai partilhando o seu work in progress e as reflexões que o mesmo lhe vai suscitando. 

 

 

* Mais sobre a fotografia vernacular aqui

 

 

 

 

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9.12.12

 

 

 

 



Ferro, António Joaquim Tavares (Lisboa, 17-8-1895 - Lisboa, 11-11-1956). A sua personali­dade de escritor, jornalista e político evoca, habitu­almente, na recorrência memorial uma dupla cir­cunstância: editor de Orpheu, a convite de Mário de Sá-Carneiro, com apenas 19 anos; fundador--director do Secretariado da Propaganda Nacional (após 1944, denominado de Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo), por convite de António de Oliveira Salazar, a fim de promover a «política do espírito» do «Estado Novo». Sendo certas essas duas evidências, elas não esgo­tam contudo as manifestações de uma complexa vivência, que articulou de forma hábil a acção cul­tural com a acção política, entrelaçadas por uma muito particular dimensão estética, e que se pode, em visão estrutural, periodizar deste modo: 1914-17 (irrupção poética e cívica), 1918-32 (resistência à cultura e à política republicana demoliberal), 1933-49 (vertigem da propaganda salazarista) e 1950-56 (solidão do diplomata). [...]

 

Ernesto Castro Leal

in "António Ferro" Dicionário de História de Portugal- VIII

Coordenadores: António Barreto e Maria Filomena Mónica

© Livraria Figueirinhas

Imagem: A.F. c. 1940




 

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6.12.12

 

 

 

António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 

 

A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].

 

Sou suspeita, já que António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que os meus avós pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna.

 

Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de se ter convencido de que "nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.

 

Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Resta-nos agora esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum produtor do cinema clássico de Hollywood.

 

 

 

ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"

 

2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui

 

4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui

 

5. Fundação António Quadros aqui e aqui

 

6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 

 

 

 

 

 


3.12.12

 

 

 

 

 Audições no fim do ano lectivo na Academia de Amadores de Música*, Lisboa, Junho 1969.

Miguel Azevedo e Sílvia Camilo. Flauta de bisel. Professora: Catarina Latino

 

 

São 23 obras para piano, compostas ao longo de três décadas por Fernando Lopes Graça para aniversários, bodas e outros acontecimentos como a inauguração de uma casa ou um simples convívio de amigos.

 

"Umas são pequenas, outras maiorzinhas. É uma colecção que eu tenho: uma comemoração disto, uma comemoração daquilo, uns anos deste, um casamento daquele... São "Músicas Festivas" (F.L.G. fev. 1986).

 

Em 1962, ano em que inicia a composição das Músicas Festivas, Fernando Lopes-Graça muda-se de Lisboa, onde ainda compõe a primeira peça deste ciclo, para um apartamento na Parede. Aí, um pequeno gabinete com um piano vertical passará a ser a oficina do compositor até à sua morte. Após uma fase emocionalmente dilacerante que culminará nessa obra-prima que é Canto de Amor e de Morte (1961), este ciclo de Músicas Festivas parece inaugurar, simbolicamente, uma nova fase na vida do compositor. (1)

 


 

partitura original 

 

 

 

 

A colecção inédita — das 23 peças 13 nunca foram tocadas em público e 18 nunca foram gravadas — será registada em múltiplos suportes para permitir a criação de conteúdo não efémero. A iniciativa partiu de um grupo de amigos de que hoje fazem parte três dos dedicatários das Músicas Festivas, entre outros colaboradores, e todas as acções vão por diante apesar de os apoios terem sido muito escassos.

 

Um Concerto no Centro Cultural de Belém a 16 de Dezembro de 2012 incluirá a maior parte das peças, interpretadas pelo pianista António Rosado e com uma introdução do musicólogo Rui Vieira Nery . Na mesma data serão lançados os quatro volumes das partituras (em papel) e o primeiro volume do CD das Músicas Festivas [2]. Os autores do projecto criaram igualmente um sítio web [3] e um álbum de fotografias digital [4]. Mais tarde será produzido um DVD incluindo o concerto ao vivo e um documentário, com depoimentos dos dedicatários e outras pessoas próximas do compositor.

 

 

Além do seu interesse cultural manifesto, esta edição multimédia das Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça é sem dúvida um modelo inspirador de "Álbum de Família" ou, melhor dizendo neste caso, de "Livro dos Amigos".  

 

 

 

 
 

 

Fernando Lopes Graça (1906-1994) 

retratado por Cecília Pinto

 

 

Notas:

 

1 Texto integral de João Espírito Santo (Outubro de 2012) aqui 

2 CD: integral Músicas Festivas pelo pianista António Rosado

3 sítio web aqui

4 álbuns de fotografias aqui

um perfil de Fernando Lopes-Graça aqui

6 De todos os materiais produzidos serão entregues exemplares ao Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria para serem integrados no espólio do compositor. aqui

7 Imagens deste post encontradas aqui

8 Fernando Lopes-Graça e a Academia de Amadores de Música aqui 

 

 

 

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10.2.12

 

 

 
Luísa Gabriela Deslandes Blanck c. 1900
Foto: Camacho
 

 

A casa em Lisboa onde uma importante colecção de manuscritos do romanceiro garrettiano permaneceu guardada e esquecida durante cem anos foi adquirida em 1923 por Luísa Gabriela Deslandes Blanck, filha de Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909). Presumia-se deste modo que Luísa e o marido se tivessem instalado nesta casa do Bairro Alto nos anos vinte do século XX. No entanto, a investigadora Sandra Boto descobriu que a Sociedade Literária Almeida Garrett, entidade criada em 1902, mantinha “reuniões regulares, que tinham lugar no nº 7 da Rua dos Caetanos, em Lisboa, [...] onde apareceram os manuscritos autógrafos do romanceiro” [em 2004] (1). 

 

Era membro desta sociedade, entre outros, o escritor Xavier da Cunha, amigo do Conselheiro Deslandes e autor da obra Impressões Deslandesianas (2).

 

Luísa Gabriela, embora tivesse comprado a casa em 1923, talvez já ali residisse desde o seu casamento com Frederico Carlos Blanck, em 1899, dez anos antes da morte do pai. 

 

 

Notas:

 

1Sandra Cristina Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica', p.186

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

2. Impressões deslandesianas: divagações bibliographicas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1895. A investigadora remete na sua tese para o Arquivo de Xavier da Cunha aqui 

 

 

Leia mais neste blog sobre o assunto clicando na tag garrett  

 

 

 

 

 

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8.2.12

 

 

 

Venâncio Augusto Deslandes c. 1880 

Foto: Marguerite Relvas

 

 

 

A propósito dos manuscritos do Romanceiro garrettiano redescobertos em 2004, já aqui apresentei aos leitores a figura do Conselheiro Venâncio Augusto Deslandes(1829-1909), a quem pertenceu, não se sabe como, a agora chamada ‘Colecção Futscher Pereira’ (ver post anterior). O espólio garrettiano foi identificado pelo Professor Artur Anselmo ao examinar um conjunto de papéis e curiosidades bibliográficas que haviam pertencido a V. A. Deslandes : "Isto é Garrett. Conheço a letra de Garrett!".

 

A aturada investigação entretanto levada a cabo por Sandra Boto sobre o percurso deste espólio não permitiu (ainda) determinar de que forma ele chegou à biblioteca do Conselheiro Deslandes mas veio revelar alguns dados novos e surpreendentes, além de apresentar um panorama sugestivo da classe letrada e intelectual da Lisboa de finais do século XIX, princípios do século XX, “confinada a uma pequena casta onde todos se conheciam e relacionavam”. [1]   

 

 

 

 

1. Sandra Cristina de Jesus Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica', p. 180

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

 

 

 
Verso da fotografia
 
 

20.10.11

 

 

I like to hole up in hotel suites. I like to turn off the lights and crank the AC. I like temperature-controlled and contained environments. I like to sit in the dark and let my mind race. I was set to meet Bill Stoner the next morning. I ordered a room-service dinner and a big pot of coffee. I turned out the lights and let the redhead take me places.


I knew things about us. I sensed other things. Her death corrupted my imagination and gave me exploitable gifts. She taught me self-sufficiency by negative example. I possessed a self-preserving streak at the height of my self-destruction. My mother gave me the gift and the curse of obsession. It began as curiosity in lieu of childish grief. It flourished as a quest for dark knowledge and mutated into a horrible thirst for sexual and mental stimulation. Obsessive drives almost killed me. A rage to turn my obsessions into something good and useful saved me. I outlived the curse. The gift assumed its final form in language.

 

 

James Ellroy

in My Dark Places, An L.A. Crime Memoir  p.206

© 1996 James Ellroy

 

 

 

 

 

 

Leia este excerto em português no

blog Traduçõesaqui

 

 


19.6.11

 

 

 

 

 

netsuke

aqui

 

 

 

 

It could write itself, I think, this kind of story. A few stitched-together wistful anecdotes, more about the Orient-Express, of course, a bit of wandering round Prague or somewhere equally photogenic, some clippings from Google on ballrooms in the Belle Epoque. It would come out as nostalgic. And thin.

And I'm not entitled to nostalgia about all that lost wealth and glamour from a century ago. And I am not interested in thin. I want to know what the relationship has been between this wooden object that I am rolling between my fingers — hard and tricky and Japanese - and where it has been. I want to be able to reach to the handle of the door and turn it and feel it open. I want to walk into each room where this object has lived, to feel the volume of the space, to know what pictures were on the walls, how the light fell from the windows. And I want to know whose hands it has been in, and what they felt about it and thought about it - if they thought about it. I want to know what it has witnessed.

Melancholy, I think, is a sort of default vagueness, a get-out clause, a smothering lack of focus. And this netsuke is a small, tough explosion of exactitude. It deserves this kind of exactitude in return.

 

 

Edmund De Waal

in  The Hare with Amber Eyes - A Hidden Inheritance  (prefácio)

© Edmund de Waal 2010

 

 

 

 

 

 

aqui

 

 

 

 

 

 

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18.4.11

 

Foto: Gustave Le Gray (França,1856) 

aqui

 

 

Au lever du soleil, dans un autre cimetière, celui du Montparnasse à Paris, un curieux paroissien parcourait jadis les allées désertes, c'était un Suédois qui avait répudié le théâtre pour les sciences surnaturelles. A l'imitation des prospecteurs d'or du Tanganyka, il s'était mis à chasser les âmes. Il prétendait capter le fluide des corps dématérialisés dont les émanations purement chimiques devaient sans nul doute être rejetées à l'aube par les fleurs des couronnes, par les tilleuls et les cyprès. On aurait pu le voir qui brandissait une fiole d'acétate de plomb liquide, en train de courir parmi les chapelles et les tombeaux vers la fin de l'avant-dernier siècle (1).

L'étranger ne rapportera dans son pays aucune preuve, aucun trophée. Il consacrera le plus clair de son temps à photographier ensuite la forme des nuages, à la façon de ceux qui utilisaient la photographie en guise d'instrument de divination pour capturer l'invisible.

Des médecins, physiologistes et neurologues, voulurent enregistrer avec l'apparence des humains l'aura de leurs passions et de leurs pulsions. L'un d'entre eux qui pensait que l'on pourrait, scientifiquement, réveiller les morts, avait bien conçu, et tout aussi sérieusement, l’«optogramme». C'était l'instrument irrécusable, estimait-il vers la même époque, pour confondre les criminels. En analysant de très près la photographie de la rétine des victimes de mort violente, ne devait-on pas parvenir à restituer la dernière image qui s'y était imprimée, l'instant fatal ?

Des écrivains très sérieux, des auteurs de romans policiers, des poètes imaginèrent sans s'être concertés que l'on pourrait stocker les ondes du passé, les ondes sonores comme les ondes visuelles. Grâce à ces ondes, on effectuerait des prélèvements de durée, on conserverait des reliques de présent.  Bientôt viendrait le temps où l'on allait pouvoir assister, par-delà les âges, aux nuits de  la Terreur  ou à la destruction de Pompéi le 24 août 79.

S'il est vrai que les grands événements restent imprimés, déposés dans l'espace, cela ne doit-il pas l'être d'avantage pour les êtres humains dont, en principe, la durée de vie est bien plus longue? Si leurs traces subsistent, c'est simplement parce qu'elles s'impressionnent plus fortement, plus profondément dans la matière invisible. Les corps amoureux n'émettent-ils pas une chaleur, un rayonnement qui les attirent et les attachent? Pourquoi ces rayons ne subsisteraient-ils pas?

 

 

Jérôme Prieur

in  Rendez-vous dans une autre vie  (La boutique de fantômes) p. 106,107

© Éditions du Seuil, mars 2010 aqui


 

 

Nota : August Strindberg, Inferno, Mercure de France, 1966, p.74 sq.

 

  

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7.10.10

 

A história das regras que governam a aquisição ou perda de nacionalidade é uma história complexa, que tem posto duramente à prova o regime da soberania popular instituído pela Revolução Francesa. Ao trazer luz a estes casos que vivem entre a lei e a política ou, se quisermos, entre o Direito e o Poder, documenta-se um caminho estreito, por vezes sombrio. E o actual debate sobre o lugar dos “ilegais”, “sem papéis” no “Estado de direito” e na “sociedade dos direitos”, volta a mostrar como em tempos de crise é difícil equilibrar o triângulo extremamente dinâmico que se forma entre o poder institucionalizado, a população e o território. Que maus ventos impeliam já a República?

 

Manuela Franco

in “Os desnacionalizados da I República”

Jornal Público–P2 25 Setembro 2010

 



*

 

 

 

 

 

Lisboa, 24 de Junho de 1916

 

Tenho a honra de devolver a V.Exa, por ordem de S.Exa O Ministro, as duas cartas de denúncia contra Hermano Minder e Leopoldo Futscher que acompanhavam o officio de V.Exa, nº 857, confidencial, de 22 de Junho.


 

 

 

*

 

 

 

 

 

 

[...] Eugénio Futscher e filhos, Americo Futscher e Alberto Futscher, que alegam ser portugueses, descendentes de cidadão suisso, tendo-se apresentado a certidão de nascimento do primeiro,que é natural de Lisboa, e a certidão de óbito do pae. Filho legítimo de Rafael Futscher, natural do Cantão de San Gallen, Suissa, e falecido nesta cidade em 15 de Janeiro de 1903. Estas duas certidões, extraídas dos livros de registo da igreja evangélica Alemã de Lisboa foram passadas em Abril e Maio últimos pelo Consul Geral De Espanha, como encarregado dos interesses alemães em Portugal, o que avoluma a suspeita de que se trata de inimigos.

 

 

*

 

 

Leopoldo Futscher e Eugénio Futscher eram tios maternos de meu avô paterno, Rudolfo Futscher Pereira (1885-1956).  O Professor João Alfredo Lobo Antunes, que foi quem me facultou os dados essenciais sobre a família Futscher em Portugal, para o livro "Retrovisor, um Álbum de Família", conhecia o episódio e mostrou-me cópias de um ou outro documento relacionado.


As cópias dos ofícios que hoje apresento foram-me fornecidas por Manuela Franco que a elas teve acesso no quadro da investigação que realizou no Arquivo Histórico-Diplomático.


mais sobre "os desnacionalizados da I República" no post anterior e o artigo na íntegra aqui.

 

 

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6.10.10

 

 

 



 

 

 

Como português,e como filho de Alfredo Keil, apresento respeitosamente a V.Exa este protesto cheio de tristeza, pedindo que o meu nome (que é o de minha filha) e o de meu irmão não sejam comprehendidos entre os que são apenas tolerados na terra portuguesa.

 

Lisboa, 2 de Maio de 1916

 

Portugal entrara na I Guerra a 9 de Março de 1916. De imediato começaram a surgir pequenas notícias nos diários, sobre a partida de alemães, as respectivas andanças por Lisboa, as voltas pelos guichets, do Governo Civil para o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) e vice-versa.

Prevalecia um ambiente algo irreal quanto ao que significasse estar em guerra, excepto na profusão declaratória da imprensa e dos políticos sobre o heroísmo, a defesa da pátria. Os jornais prometiam novas leis aplicáveis aos súbditos alemães. Passado um mês, a 4 de Abril, um primeiro diploma, emanado do Ministério do Interior, proibia a entrada no território da República aos súbditos da Alemanha e dos seus aliados. Aos estrangeiros já residentes em Portugal eram dados oito dias para solicitar título de residência válido por seis meses, prorrogável, o qual poderia ser retirado a qualquer momento.

[...]

A 21 de Abril de 1916, Afonso Costa fazia sair pelo seu Ministério das Finanças o Decreto-Lei 2.350, que bania todos os súbditos alemães de ambos os sexos, mandados sair pela fronteira terrestre, no prazo de cinco dias, excepção feita aos do sexo masculino entre os 16 e os 45 anos, que seriam conduzidos para a ilha da Terceira, podendo fazer-se acompanhar de mulher e filhos menores (despesas a seu cargo). O incumprimento implicava julgamento por tribunal militar e condenações de um a três anos de prisão em presídio militar. Quanto aos indivíduos sem nacionalidade, mas que tivessem sido alemães, podia o governo aplicar-lhes todas estas disposições se visse inconveniente na livre residência em território português. Restringia-se também a capacidade civil e a propriedade industrial e comercial de nacionais alemães, sujeitas a arrolamento e sequestro em modalidades habituais em estado de guerra. 

A opinião publicada na imprensa ficou satisfeita.

[...]

Os requerimentos amontoavam-se. Centenas e centenas deles estão ainda hoje à disposição para consulta no Arquivo Histórico-Diplomático do MNE. Viúvas, soldados, Frauleins, gente chique ou modesta: a vasta maioria, bisnetos de alemães, muitos deles fugidos da Alemanha por ocasião das revoluções de 1848. Refugiados políticos ou económicos, de entre o milhão de alemães que na altura deixou a Europa e partiu para os EUA, uma pequena fatia instalara-se no Portugal liberal. Agora, viam-se apanhados nas voltas da história. 



 

 

 

Manuela Franco

in “Os desnacionalizados da I República”

Jornal Público–P2 25 Setembro 2010

Leia o artigo aqui


 

 

 

 

 

 

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18.7.10

 

 

 

 

 

© Marie-Françoise Plissart

 

 

 

Descubra o livro Kinshasa, récits de la ville invisible de Filip De Boeck, Marie-Françoise Plissart e Jean-Pierre Jacquemin, clicando no título.

 

2 artigos recentes:

 

"Cinq décennies de descente aux enfers" aqui

 

"Au Congo, anniversaire au coeur des ténèbres" aqui

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23.1.10

 

 

 

 

 

En août 1993, le magazine Elle proposait en couverture un test d'été : êtes-vous une salope? L'étonnant n'est pas seulement la brutalité de la question, c'est l'enthousiasme des réponses : pas une rédactrice, une journaliste de ce célèbre hebdomadaire qui n'ait répondu positivement, s'enorgueillissant d'être une chienne, une traînée à nulle autre pareille. Bref, «salope» était devenu un titre de gloire, l'équivalent d'une particule dans l'ordre des jeux amoureux (1). Ce renversement de l'insulte en fierté nous prouve, si besoin, que nous avons changé de monde. Jadis cachée, la vie sexuelle doit désormais s'exhiber. Nouveau snobisme voluptueux : nul sur ce plan ne voudrait être pris en défaut de savoir. Feuilleter une certaine presse depuis une trentaine d'années, c'est consulter un étrange catéchisme du stupre, pas moins prescriptif que celui d'antan : essayez la sodomie, l'amour à trois, la bisexualité, le fouet, êtes-vous un bon coup, faites-vous l'amour le lundi ? (2) Alors que la mort reste obscène et dissimulée, le sale petit secret est sur scène, mis sur la place publique et chacun veut venir le raconter à la télévision, à la radio, sur le Net.

L'émancipation des mœurs a joué aux hommes de notre temps un tour étrange. Loin de libérer la joyeuse effervescence des instincts, elle s'est contentée de remplacer un dogme par un autre. Hier contrôlée ou interdite, la lubricité est devenue obligatoire. La chute des tabous, le droit des femmes à disposer de leur corps s'est doublé d'une injonction à la volupté pour tous. L'annulation de la réticence a été compensée par l'augmentation de l'exigence : il faut comme on dit «assurer» sous peine d'être rejeté.

 

Pascal Bruckner

in Le paradoxe amoureux (troisième partie : Le merveilleux charnel

pp. 173-174-175

© Éditions Grasset & Fasquelle, 2009

 


Notas: 

1. Un journaliste, Jean-Pierre Elkabbach, à l'occasion du 200ème numéro de Elle, demande a une lectrice : « Et vous, Madame, êtes-vous une salope? — Hélas, non », répond-elle.

 

2. Ces magazines cumulent conseils d'ascension sociale («Faut-il coucher pour réussir?», «Réussir quand on a des seins») pour Rastignac féminins et indicateurs de standing. Jadis il y avait ce qui se faisait et ne se faisait pas, désormais il y a ce qu'il faut faire et ce qui est chic. Le mensuel Marie-Claire publie à l'été 2008 un guide érotique pour femmes libérées où sont répertoriées toutes les possibilités : triolisme, échangisme, prostitution, sado-masochisme, etc. Mais la bienbaisance officielle peut déboucher aussi sur la malveillance : «Je hais les mecs malades », « Eviter les mauvais coups» titrait en février 1994 le magazine 20 ans. Le sexe devient un manuel de guérilla contre les hommes.

 

 

Imagem: Madonna - foto Steven Meisel  aqui

 

 

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9.12.09

 

 

 

 

 

 

Sem Título, 2009.  Gouache sobre papel

de Vasco Futscher

 

 

 

 

 

Quand une histoire est impossible, ils pensent que ce n’est pas la peine de la vivre.

 

En revanche dans les livres et les films, s’il n’y a pas cette impossibilité, ils trouvent aussitôt que l’histoire est ratée.

 

 

*

 

 

Une phrase un peu pompeuse, mais de temps en temps j’aime bien: « il y a dans mes rêves un homme qui s’appelle J’Existe. »

 

 

*

 

 

Il va mourir, et l’aumônier lui demande quel prénom il veut emporter avec lui. L’idée le séduit. Ça le réveille un peu. Il cherche. Hélas, il a beau draguer le passé, aucun prénom ne s’allume. Il revoit des visages, et rien d’autre. Tatouani avec ses yeux bridés: c’est éteint, ça ne miroite pas. Isabelle, la terrible infidèle: éteint. La douleur: éteinte. Les flamboiements des retrouvailles ; éteints. Lucie : éteinte. Poussière. Michèle: suréteinte. Gaby la folle: éteinte, détrempée par les larmes qu’il a versées pour elle et qui ont perdu leur sens aujourd’hui. Eh oui, tout est déjà mort, même si ces femmes sont sûrement florissantes de santé quelque part, même s’il est là devant la mort puisqu’un aumônier, tout de même, c’est la preuve. Et pourtant, il n’y a que lui de vivant. Alors, comme il faut dire un prénom, que c’est le jeu, il dit: « Paloma. » Il a toujours rêvé de rencontrer une femme qui s’appelle Paloma. Et celle-ci, elle est bien là. Il la voit.  Ah, on peut compter sur quelque chose. Tout ne part pas dans l’oubli.

 

 

*

 

Elle me parle du grand courage qu’il faut pour mettre au pied du mur quelqu’un qu’on aime et qui va vous dire non. Et ô combien ce courage est nécessaire si on veut avoir une chance d’entendre un oui.

 

 

* 

 

 

Et moi, pendant qu’absolument tout le monde me croyait seule dans mon chagrin au milieu de ce cimetière, je réalisais la part d’amour que les morts vous laissent.

 

 

*

 

 

Je pense, à un moment donné de ce livre, c’est-à-dire ici vers la fin, que je suis peut-être de ceux qui vivront l’amour sans personne.

 

 

*

 

 

Et puis, octobre, quelqu’un me rencontre.

 

Et je le laisse faire.

 

Alors tu vois.

 

 

Sophie Fontanel

in L’ amour dans la vie des gens

© Éditions Stock, 2003

 

 Mais sobre o livro e a autora

aqui

 

 

Recolha de aforismos e vinhetas, entre o desencanto e a candura, ou o diário de um desgosto sentimental transformado em inquérito sobre o amor.

 

 

Pintura: Vasco Futscher / trabalhos recentes aqui

 

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2.10.09

 

 

 

Fotografia de Bruce Davidson

 

aqui 

 

 

Phaedrus remembered parties in the Fifties and Sixties full of liberal intellectuals like himself who actually admired the criminal types that sometimes showed up. "Here we are," they seemed to believe, "drug-pushers, flower children, anarchists, civil rights workers, college professors - we're all just comrades-in-arms against the cruel and corrupt social system that is really the enemy of us all."


No one liked cops at those parties. Anything that restricted the police was good. Why? Well, because police are never intellectual about anything. They're just stooges for the social system. They revere the social system and hate intellectuals. It was a sort of caste thing. The police were low-caste. Intellectuals were above all that crime-and-violence sort of thing that the police were constantly engaged in. Police were usually not very well-educated either. The best thing you could do was take away their guns. That way they'd be like the police in England, where things were better. It was the police repression that created the crime.


What passed for morality within this crowd was a kind of vague, amorphous soup of sentiments known as "human rights". You were also supposed to be "reasonable". What these terms really meant was never spelt out in any way that Phaedrus had ever heard. You were just supposed to cheer for them.


He knew now that the reason nobody ever spelt them out was nobody ever could. In a subject-object understanding of the world these terms have no meaning. There is no such thing as "human rights". There is no such thing as moral reasonableness. There are subjects and objects and nothing else.


This soup of sentiments about logically non-existent entities can be straightened out by the Metaphysics of Quality. It says that what is meant by "human rights" is usually the moral code of intellect-vs.-society, the moral right of intellect to be free of social control. Freedom of speech; freedom of assembly, of travel; trial by jury; habeas corpus; government by consent – these "human rights" are all intellect-vs.-society issues. According to the Metaphysics of Quality these "human rights" have not just a sentimental basis, but a rational, metaphysical basis. They are essential to the evolution of a higher level of life from a lower level of life. They are for real.


But what the Metaphysics of Quality also makes clear is that this intellect-vs.-society code of morals is not at all the same as the society-vs.-biology codes of morals that go back to a prehistoric time. They are completely separate levels of morals. They should never be confused.


The central term of confusion between these two levels of codes is "society". Is society good or is society evil? The question is confused because the term "society" is common to both these levels, but in one level society is the higher evolutionary pattern and in the other it is the lower. Unless you separate these two levels of moral codes you get a paralyzing confusion as to whether society is moral or immoral. That paralyzing confusion is what dominates all thoughts about morality and society today.


The idea that "man is born free but is everywhere in chains" was never true. There are no chains more vicious than the chains of biological necessity into which every child is born. Society exists primarily to free people from these biological chains. It has done that job so stunningly well intellectuals forget the fact and turn upon society with a shameful ingratitude for what society has done.

 

 
Robert M. Pirsig

in Lila: An Inquiry into Morals (p.331)

© Robert M. Pirsig, 1991,2006
 
 
Acompanhe aqui o debate sobre questões morais que enfrentamos no dia-a-dia

 

 


27.9.09

 

 

 

 

 

"Untitled", 2008. Gouache and collage on book page, 24,5 x 18,5 cm

 Jorge Nesbitt

 

 

 

 

Truth, knowledge, beauty, all the ideals of mankind, are external objects, passed on from generation to generation like a flaming torch. The headmaster said each generation must hold them up high and protect them with their very lives lest that torch go out. 


That torch. That was the symbol of the whole school. It was part of the school emblem. It should be passed on from one generation to another to light the way for mankind by those who understood its meaning and were strong enough and pure enough to hold to its ideals. What would happen if that torch went out was never stated, but Phaedrus had guessed it would be like the end of the world. All of man's progress out of the darkness would be ended. No one doubted that the headmaster's only purpose in being there was to pass that torch to us. Were we worthy enough to receive it? It was a question everyone was expected to take seriously. And Phaedrus did.


In some diluted and converted sense, he thought, that's what he was still doing. That's what this Metaphysics of Quality was, a ridiculous torch no Victorian would accept that he wanted to use to light a way through the darkness for mankind.


What a cornball image. Just awful. Yet there it was, burnt into him from childhood.


Twenty and thirty years later he still dreamt of following the path that led between brown-leaved oaks up the hill to the Blake School buildings. But the buildings were all locked and deserted and he couldn't get in. He tried every door but none was open. He looked in through the library window, cupping his hand so that the reflection would not prevent him from seeing inside. There he could see a grandfather clock with a pendulum swinging back and forth, but there was nobody in the room. The only movement was the pendulum. Then the dream ended.

 
 
Robert M. Pirsig

in Lila: An Inquiry into Morals (p.285)

© Robert M. Pirsig, 1991,2006
 
 
 
 
 
 
Pintura: Jorge Nesbitt  aqui

 

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9.8.09

 

 

I didn't expect silence. We had always talked so much. She was my best friend as well as my sister: a little less than three years younger than me, the child I needed to protect when I was still a child (and my parents scarcely grown-ups themselves); yet I could not protect her now. When we knew that she was going to die, because the cancer had spread to her lungs and her liver, we spoke about how we would always talk to each other, even after her death. Neither of us had grown up believing in a conventional Christian afterlife (and anyway, I had given up on that unkind God after his failure to answer my prayers to save her); but, even so, it seemed impossible that we would ever be separated by silence, that our voices were contained only in our flesh and blood.
Yet in the weeks after her death, I heard nothing. At night there were just my own muffled screams in the pillow when I went to bed; or the memory that I tried to block out but which filled my head of her agonized breath on her last night, as she gasped for all that remained of life. And I could say nothing to her except, ‘I love you, I love you, I love you.’ ‘I love you too,’ she whispered, before she slipped away to a place where I could not follow.

Justine Picardie
in If the Spirit Moves You
© Justine Picardie, 2001

 

 

 

 Este e outros livros da autora aqui

 

 

Inconformada com a morte da irmã, esta jornalista britânica passou um ano a investigar aqueles que dizem comunicar com ‘o outro lado’. É o diário de um luto, transformado em inquérito sobre a vida depois da morte na era do cepticismo. Um livro honesto e comovente. 

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30.4.09

 

Vasco e Margarida Futscher Pereira

Itália, 1948

 

O livro Retrovisor, um Álbum de Família, que aqui venho anunciando, é lançado na próxima semana. Aproveito o momento para agradecer aos leitores que me têm acompanhado neste espaço. Talvez alguns se perguntem se o blog acaba aqui. Não acaba, mas haverá naturalmente um 'antes' e um 'depois' do livro, porque foi em torno do livro que construí o blog. Pode ser que nos próximos tempos abrande o ritmo de posts, e prometo que tão cedo não volto a falar na minha família. No livro, eu conto a história com princípio, meio e fim. Aqui, tenho procurado apresentar o material de que a história é feita, mas sempre com o cuidado de não estragar a surpresa. Mais tarde chegará o momento de poder servir-me livremente de todo o material.

 



 

sinopse:

Retrato de um diplomata português e da sua família, cujas histórias se cruzaram com a História do século XX em três continentes. Sendo uma história pessoal, com as vicissitudes a que nenhuma vida escapa, é também a ilustração de um percurso, ao serviço de Portugal, antes e depois do 25 de Abril, por lugares e épocas tão diversos como a Europa do após-guerra, a África Colonial e a América dos finais da Guerra Fria.

 

excerto da introdução:

 

Fiz este álbum para mostrar aos meus sobrinhos alguma coisa da vida e do mundo dos seus avós Margarida e Vasco, com quem eles não tiveram oportunidade de conviver. Eu, que tive a sorte de conhecer bem os meus avós, queria falar-lhes dos seus, e também doutras pessoas muito queridas, parentes e amigos sem os quais o retrato da nossa família ficaria muito incompleto.

Vasco teve um percurso ascendente e chegou mesmo a ser uma figura pública na última década da sua vida, enquanto Margarida fez o percurso inverso, mas eu desejava retratar os dois. E apesar de ter consciência de que a história se construiria em torno da figura dele, em virtude da sua carreira e do 'exotismo' da vida diplomática, os arquivos de ambos completavam-se. Ela conservou um espólio fotográfico e documental considerável, escreveu “Livros de Bébé” para os três filhos e publicou dois livros de poesia. Ele conservou toda a sua correspondência pessoal e um arquivo completo da sua vida profissional.

 

Mais no site do editor aqui



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