25.2.16

 

 

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Recolher, preservar e divulgar as memórias de gente comum, reconhecendo que esses testemunhos de vida contribuem para o conhecimento da história e da identidade nacionais, é a missão do Arquivo dos Diários, associação cultural criada há dois anos, que lançou o concurso “Conta-nos e Conta Connosco”, destinado a enriquecer o seu acervo.

 

Agora que dispõe de uma equipa e de um espaço na Biblioteca de São Lázaro, graças a uma parceria com a Junta de Freguesia de Arroios, a associação está em condições de começar a reunir cartas e diários através dos quais os portugueses poderão contar a sua história. Diários, cartas, fotografias e filmes caseiros ou simples evocações feitas pelas pessoas são uma parte importante na construção da memória de cada um. Mas esses documentos servem também para ajudar a construir a narrativa de uma comunidade. A ideia é catalogar por temas tudo o que for recebido e, no futuro, disponibilizar o acervo num meio digital. 

 

Existem já em vários países europeus arquivos dedicados a recolher a memória popular, designadamente o Archivio Diarístico Nazionale, em Itália, que serviu de referência a Clara Barbacini e Roberto Falanga, fundadores deste projecto.

 

 

 

 

 

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© Soraia Martins 

 

 

 

O principal obstáculo, admitem, é chegar às pessoas e mostrar-lhes que as suas memórias e objectos pessoais podem ajudar a desenvolver outros projectos interessantes, do cinema ao teatro, da ficção à investigação, ou simplesmente servir para consulta de quem tem curiosidade por histórias de outros tempos.

 

“Espero que os portugueses desmintam o pudor como traço da sua cultura”, diz Roberto. “Sei que vai ser complicado, mas desafiante. E acho que só o facto de alguém se questionar se deve ou não entregar [os diários e cartas da sua família] já é bom. Estimula o pensamento. Nesse tempo de reflexão o tema esteve ali, a ser considerado.”

 

Também sabem que poderá haver resistências à entrega de materiais e à publicação. “Sabemos que estamos a tocar assuntos muito delicados”, asseguram. Recordam o caso de uma mulher, vítima de violência doméstica, que ganhou em Itália um concurso semelhante ao agora lançado em Portugal e só anos mais tarde recebeu o prémio, depois de o marido morrer. Há também questões legais que podem colocar-se, por exemplo, no caso de pessoas que encontram ou compram materiais que não se importam de doar mas que dizem respeito a terceiros.

 

Tal como em Itália, está prevista a publicação anual de pelo menos um diário: quem entrega os seus materiais pode escolher participar num concurso aberto até 1 de Março próximo. Depois, um painel de dois júris – um popular e um técnico – escolherá um vencedor. Será publicado pela Penguin – Companhia das Letras.

 

As entregas podem ser feitas na Biblioteca de São Lázaro todos os sábados das 11h às 13h ou enviadas por correio e a associação tem um site com toda a informação em www.arquivodosdiarios.pt. Tem também uma página de Facebook aqui.

 

Arquivo dos Diários

Biblioteca de São Lázaro

Rua do Saco, 1  Lisboa 1169-107 (Freguesia de Arroios)  

 

 

Agradecimentos:

 

artigo de Vanessa Rato no jornal Público, artigo de Samuel Alemão em “O Corvo” e textos reunidos no site Arquivo dos Diários.

 

Fotos gentilmente cedidas por Arquivo dos Diários e Soraia Martins

 

 

 


3.10.15

 

 

 

Garrett CBP.jpg

 

   Garrett - Columbano (detalhe)

 

 

 

 

 

 

Carta de Almeida Garrett ao político e amigo Rodrigo da Fonseca Magalhães

 

"Pensa", escreve Garrett em 1846 ou 1847 ao seu amigo, nesta carta inédita que pertence à Biblioteca Nacional. "E se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secreto, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver." Estava-se em plena Guerra da Patuleia, que dividiu o país entre liberalistas e miguelistas, e Garrett oferece-se para ajudar. O "acordo", se existiu, manteve-se mesmo secreto. Não se sabe qual foi — se algum — o envolvimento de Garrett nos bastidores.

 

 

5a feira

 

[...]

Meu Rodrigo, aproveito esta ocasião para te pedir que estejas bem em guarda para te não deixares comprometer com certos sujeitos que nós sabemos. Olha que eles nada te podem dar, e se te pudes­sem dar alguma coisa, não ta davam. Se se chegam para ti é porque sabem que nada têm, e fazem de vampiros para vi­ver do teu sangue. E depois uma de duas, ou te hás-de desfazer deles, e chamam-te traidor, ou os aturas e alienas de ti os verdadeiros valores. No meio destas ruínas em que está Portugal tu podes ter uma bela missão.

 

Isto é como o terramoto de 55: nós não o fizemos, tu não o fizeste. E o que se incarregar de levantar a cidade caída não é responsável pelo que a deitou abaixo. Esta opinião e modo de ver não é meu, é de muita gente, e pode­remos fazê-lo ser do maior número se se for com tento e firmeza.

 

Tu bem sabes que eu não cos­tumo oferecer-me para nada; mas também sabes que sou amigo verdadeiro e eficaz quando a consciência da razão e da alma se juntam às minhas simpatias pessoais. Eu digo a todos que não sou de políticas, e que abdiquei, mas a ti digo-te que escolhi de propósito e de longamão esta posição insuspeita porque vi do princípio que por bastante tempo outra era impossível com proveito público. Creio que me não inganei. Assim vejo todos, e com todos falo em negócios que de outro modo não são tratáveis.

 

Se vires que podemos falar sério e com proveito nestas coisas, e que convém, dize e  falaremos. Os patuleus estão com mais senso do que os eu supunha.

 

Se se tenta alguma coisa, é preciso tentá-lo já, isto é, prepará-lo; e parece-me a mim que posso ajudar-te nal­guma coisa, especialmente porque cuidam que o não pretendo.

 

Ora eu realmente para mim aqui nada quero.

 

Adeus. Pensa, e se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secre­to, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver. E tu bem deves saber que eu não sou poeta em prosa, e que todos valem mais que eu, menos em lealdade e certeza que ninguém mais que eu vale. Teu dedicado amigo

 

JBAG

 

 

*

 

 

A 4 de Março de 1852, ao apresentar o texto do primeiro Acto Adicional à Carta Constitucional, por si redigido, Almeida Garrett proferiu o último discurso na Câmara dos Deputados. Este é um verdadeiro testamento político (a que deve juntar-se a alocução, também derradeira, na Câmara dos Pares, em 10 de Fevereiro de 1854), e nele se inclui este enigma de decifração de profundas convicções:

 

Eu também já perdi as minhas ilusões; também já não creio na maior parte das cousas em que acreditava; mas há uma única crença, é a crença na minha Pátria é na liberdade dela [...]. Mas quando a per­desse, sumia-a no fundo de minha alma para que ma não suspeitasse a Nação Portuguesa.

 

Das bancadas parlamentares que o aplaudiram (no registo dos taquígrafos, emotiva e efusivamen­te o fizeram), não podem contar-se aqueles que terão penetrado o sentido dissimulador, tão do agrado do escritor, que essas palavras contêm.

 

Ora, descrente das soluções e dos oportunismos que enchem páginas na história do nosso liberalis­mo, Garrett aprendeu a dissimular as mais fundas crenças, cobrindo-as sob um manto (ou jogo) irónico de "ilusões" e "crenças" com que manteve incólume uma postura de independência dos partidos e inte­resses particulares de então. Daí a fórmula, que não deixa de ser perturbadora e que podemos traduzir deste outro modo: se hoje deixei de pensar o que ontem posso ter pensado, não afirmo nem desminto tanto o que ontem posso ter pensado como, hoje, o ter deixado de pensá-lo.

 

Fórmula especiosa... e perturbadora! Afinal de contas, fórmula geral de uma "intimidade cons­trangida", que, com o tempo (sobretudo, por força de um tempo histórico vivido), aprendeu a escamo­tear em público as convicções mais íntimas, sem as apagar de todo. Mas quais terão sido estas?

 

Creio que, de um juvenil ponto de partida repu­blicano (de que o federalismo norte-americano foi "a pedra filosofal" dos sistemas políticos) e jacobino (de que as revoluções servem para "colocar os homens no seu lugar"), permaneceu uma dissimulada posição de defesa do que, no primeiro liberalis­mo português, podemos considerar os difusos interesses populares.

 

E, de forma irruptiva e mais ou menos velada, conforme as circunstâncias — nessa "posição in­suspeita" de quem já vira "que por bastante tempo outra era impossível com proveito público" (ver carta inédita junto) — , Garrett surgiu nos picos de maior radicalidade ao lado do partido popular e contra o oportunismo das facções.

 

No geral, manteve o princípio de conservação das liberdades e de estabilidade política que se não confunde com conservadorismo e não pode esconder as crenças subtilmente veladas pelas "endiabradas políticas" que "tudo absorve[ra]m" no nosso longo século XIX.

 

 

 

 

Luís Augusto Costa Dias

in Jornal Público, Caderno "150 anos da morte de Almeida Garrett ", 9 de Dezembro 2004

 

 


 

 

 

* Imagem: Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro concluido em 1926 [pormenor] . Passos Perdidos, Assembleia da República, Lisboa

 

 

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27.9.15

 

 

 

 

Cristina-2002.jpg

 

 

 Cristina de Carvalho Futscher Pereira

17 de Abril 1948 - 27 de Setembro 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ramo de Oiro

 

 

 

Estando eu à minha porta

Com três horas de serão

Vi passar Nossa Senhora

Com um ramo de oiro na mão.

 

 

Eu pedi-lhe uma folhinha

Ela disse-me que não;

Pedi, tornei-lhe a pedir,

Ela deu-me o seu cordão,

 

 

Que me dava sete voltas

À roda do coração.

Sete voltas não são nada

Ó Virgem da Conceição

 

 

Prendei vós esta alma toda

Prendei-ma com vossa mão

Que a metade inda é do mundo

Metade, que a outra não.

 

 

 

Plantai-me esse ramo de oiro

No meio do coração

Ficarei no vosso altar

Como vaso de eleição.

 

 

 

 

Romance popular incluído nos manuscritos garrettianos descobertos pela Cristina em 2004. O poema foi lido no seu funeral e editado numa pagela oferecida aos amigos.

 

 

 

Veja também os posts:

 

 

Efeméride

 

 

LFCL (desde 1952)

 

 

Carta a Garrett

 

 

Fado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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29.12.14

 

Romanceiro Capa 1.jpg

 

Romanceiro

Manuscrito do Autor

[autógrafo de Almeida Garrett]

 

 

 

A compra pelo Estado Português do espólio garrettiano designado por “Colecção Futscher Pereira” [1], anunciada pelo Secretário de Estado da Cultura no dia 18 de Dezembro, fecha um ciclo iniciado há dez anos pela descoberta, por minha irmã Cristina Futscher Pereira (1948-2005), de manuscritos inéditos de Almeida Garrett que contribuem de forma decisiva para o estudo do Romanceiro português.

 

Fica deste modo assegurada a ampla divulgação deste espólio, o maior desejo de Cristina, além da permanência dos autógrafos em Portugal, nas melhores condições [2]. Por fim, e também importante, com esta aquisição a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas valoriza aos olhos do público a recolha pioneira de Garrett de temas da nossa tradição oral. São relatos de eventos históricos e histórias de amor, transgressão e violência, de grande suspense e final incerto, que mantêm plena actualidade no século XXI.

 

Para a família, a colecção permanecerá ligada à memória de Cristina, de Venâncio Augusto Deslandes e de iniciativas e amizades inspiradas pelo Autor [3]. Entregamos estes papéis com muita satisfação e um bocadinho de nostalgia.

 

 

 

*

 

 

 

 Notas: 

 

1.  A Colecção engloba mais de 400 páginas manuscritas, grande parte delas inéditas, compreendidas no período de 1839 a 1853/54.

Artigo de Luís Miguel Queirós no Público sobre a aquisição da colecção pelo Estado Português. 

 

2.  “O espólio agora adquirido será objecto de um contrato de depósito na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, enriquecendo, desta forma, o já importante espólio garrettiano de que [a instituição] dispõe”, de acordo com o comunicado divulgado pelo Gabinete do Secretário de Estado da Cultura citado pela Agência Lusa.

Espólio Garrettiano da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra [Youtube] 

 

3.

-  Blog garrettiano O Divino , 2004-2005

 

-  A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

Edição oferecida pelo "Diário de Notícias" aos leitores no 140º aniversário do jornal, a 29 de Dezembro de 2004

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

- No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro [Ermitão] 

Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana

Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. 

 

- As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’ [Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários]

Sandra Boto

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

  

 

 

 

Sobre a Colecção Futscher Pereira e Venâncio Augusto Deslandes leia também aqui 

 

 

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12.12.14

 

A descoberta de inéditos do Romanceiro de Almeida Garrett foi anunciada a 7 de Dezembro de 2004 pelo Diário de Notícias [1]. No dia 9 de Dezembro do mesmo ano, integrado num caderno dedicado ao Autor por ocasião dos 150 anos da sua morte, saiu no Público [2] o romance popular “Fonte da Cruz”. 

 

 

Fonte da Cruz título.jpg

 autógrafo de Almeida Garrett

 

 

As primeiras e últimas coplas deste romance são uma das mais antigas reminiscências de minha infância. Estou daqui vendo ainda o grupo de crianças que nos sentávamos no chão para o ouvir contar a uma certa pequena pouco mais velha que nós, filha de uma boa mulher que fora ama de leite de minha mãe. Isto é dizer que eu teria quatro anos, os mais velhos de entre nós seis ou sete, e a nossa cantora os seus oito ou nove anos. Era uma santa gente que morava para o Bom Jardim, no Porto, e vivia de pequeno mas honesto tráfico, protegidos por meus pais. A filha ia passar oito ou quinze dias no “Castelo”, pequena quinta nossa, situada daquém Douro. E era um dia de alegria o em que ela chegava, era choro que não acabava quando se partia. Porque ela sabia, além destes cantares ao divino, todas as xácaras da Silvana, da Bela Infanta, e mil outras histórias em prosa e verso, como as da «Maria Cortiço», da «Maria Sabida» do «Rei dos Ratos», «Gata Borralheira», «Rei Ramiro» além de infinitas aventuras de bruxos, lobisomens, moiras incantadas [3] , duendes, etc, cujos títulos individuais me não lembram; era um romanceiro vivo, uma segunda e mais completa edição daquela erudita e copiosa Brígida velha que, em outros lugares de minhas escrevinhaduras, tenho celebrado e citado.

 

Estas primeiras e últimas coplas eram as que só me lembravam quando a nossa lavadeira, que é uma boa mulher de Loures, aqui veio hoje, 15 de Abril de 1843, e a ouvi cantando a trova na cozinha donde a chamei e, sem grande dificuldade — coisa rara ! — pude obter que ma deixasse copiar, o que fielmente fiz, emendando apenas algum verso demasiado esticado ou curto demais: que poucos foram.

 

Fonte da Cruz

 

Deixa-me ir à fonte nova

Que nasceu ao pé da Cruz:

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

Um cego, que abriu a fonte

O cego já achou luz,

Que lhe deu água nos olhos

Da fonte da vera Cruz.

 

Fonte nova, fonte santa,

Fonte de amor que reluz!

Santa Maria ao pé dela,

San’ João com seu capuz.

 

Outra fonte fazem ambos

A chorar o seu Jesus.

—“ Minha mãe, esse é teu filho”

Diz o Salvador da Cruz,

 

“João, essa é tua mãe,

Que assim o quero e dispus

À hora da minha morte;

E cá vos fique esta luz:

 

Que o meu amor não tem fim,

E que entre vós dois o pus

Para se lavar o mundo

Na fonte da vera Cruz.”

 

Quem quer vir à fonte nova

Que se fez ao pé da Cruz?

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

 Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Notas

 

1. Almeida Garrett foi «o primeiro compilador do nosso Romanceiro, ou seja, de narrativas diversificadas, de vária índole, da nossa tradição oral popular, destinadas a serem meio recitadas, meio cantadas» explica a investigadora Ofélia Paiva Monteiro. O autor terá dedica­do grande parte da sua vida a esta recolha. «Entre 1843 e 1851, Garrett editou os três tomos do "seu" Romanceiro, dizendo na Introdução do segundo que a sua colecção viria a ser consti­tuída por cinco livros», lembra esta professora. Mas o elenco publicado só corresponde aos li­vros I e II. «Os manuscritos ago­ra achados parecem comportar o material compilado para os to­mos que não chegaram a vir a lume; e complementam mate­rial que já tinha sido dado a co­nhecer por um Cancioneiro, au­tógrafo garrettiano (que traz a indicação de ter sido começado em 1824)».

 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

 

2. "Fonte da Cruz", um poema recitado por uma lavadeira saloia de Loures, foi descoberto em Março [2004] pela família Futscher Pereira num espólio herdado, e mantém-se inédito. Este poema (também chamado "romance" ou "cancioneiro") da tradição oral popular tem origem medieval e Almeida Garrett reuniu-o no Livro III das "Lendas e Profecias", todo ele inédito. Começa com uma introdução, do próprio Garrett.

 

Público, 9 Dezembro 2004

 

3. Na transcrição dos manuscritos para o Público, desdobraram-se abreviaturas e pontuou-se raramente para compreensão dos textos, mantendo embora a redacção de palavras peculiares na ortografia garrettiana (como "incarregar" ou "incantadas". [Luís Augusto Costa Dias]

 

 

4. Sobre a divulgação dos manuscritos achados em 2004 leia também neste blog o post Long Live Garrett 

 

 

 

 

 

 

 

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7.12.14

 

FLG Faial.jpg

 Fernando Lopes Graça, Horta, Açores 1983 

 

 

 

Cumpriu-se faz agora dois anos a primeira etapa do projecto ambicioso dum grupo de amigos de Fernando Lopes Graça (1906-1994): trazer a público uma colecção de peças para piano que o compositor dedicou a amigos e eventos – as “Músicas Festivas” – e registá-la em múltiplos suportes, permitindo a criação de conteúdo não efémero.

 

Das 23 peças, 13 nunca tinham sido tocadas em público e 18 nunca tinham sido gravadas. A colecção inédita foi apresentada a 16 de Dezembro de 2012 num concerto do pianista António Rosado no Centro Cultural de Belém. Na mesma data saíram os CD "Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça", os quatro volumes das partituras (em suporte papel) e foram criados um sítio Web multilingue* e um álbum de fotografias e documentos no facebook.

 

Um duplo DVD agora lançado [o concerto no CCB, com introdução do musicólogo Rui Vieira Nery, e o documentário "Uma visita aos afectos do compositor"] completa este projecto multimédia, a vários títulos exemplar, constituído por cinco iniciativas produzidas e financiadas por um grupo muito pequeno de pessoas com apoios quase nulos.

 

O documentário "Uma visita aos afectos do compositor" — retrato intimista e muito cativante de Lopes Graça construído a partir de depoimentos, excertos musicais, fotografias, imagens em movimento e documentos reunidos ao longo da pesquisa — revela-nos com simplicidade e saber toda a riqueza da sua música (1), do seu legado intelectual e da sua personalidade, à luz do presente.

 

E nem de propósito, a coincidir com a recente consagração mundial do Cante Alentejano, este documentário vem recordar o papel pioneiro de Lopes Graça na música coral portuguesa e na recolha da nossa música tradicional (2), e inclui mesmo um apontamento extra sobre a digressão pelos Estados Unidos, pela mão do compositor, do grupo coral alentejano da Aldeia Nova de São Bento, a convite da Smithsonian Institution, por ocasião do bicentenário do país, em 1976.

 

Bem vindo às “Músicas Festivas” de Fernando Lopes Graça, disponível em DVD numa loja perto de si.

 

 

 

Notas:

 

 1. “Muita da sua reflexão vem de um trabalho de desconstrução dessas músicas tradicionais e de transposição de elementos que ele encontra nessa linguagem popular para uma esfera erudita em que depois cruza esses elementos com as referências cosmopolitas das vanguardas modernistas em que se integrou”. [Rui Vieira Nery na introdução]

 

2. Lopes Graça cria nos anos 40 o Coro da Academia de Amadores de Música. As suas harmonizações das Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas serão cantadas pelo Coro por todo o país. O interesse de Lopes Graça por este património tradicional e o trabalho que desenvolveu nesta área é comparável ao de Garrett com o Romanceiro, acerca do qual o compositor escreveu na revista Gazeta Musical um artigo que será abordado em futuro post.

 

 

 

 

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*Na web em português aqui e EN-FRA-RU-ESP-HUN

 

trailer do documentário aqui

 

facebook aqui

 

 

 

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27.9.14

 

 

Cristina Ténis 1965.jpg

 

 

Cristina Futscher Pereira

17 Abril 1948—27 Setembro 2005 

 

 

 

 

 

Caro Almeida Garrett

 

 

Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.

 

O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.

 

Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.

 

Mas o achado constituiu também um encontro.

 

A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno «templo», de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.

 

Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.

 

Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned you know what I mean? —, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.

 

Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.

 

Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.

 

Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.

 

O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é…), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através da quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.

 

Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.

 

Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual eu tive a honra e o gosto de participar.

 

Ele aí – aí?, aqui? – fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?

 

Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.

 

 

 

 

Notas:

 

Este texto fechou o blog O Divino em 2005. O blog garrettiano fora criado por Cristina em 2004 e foi retirado dos blogs do sapo cinco anos depois.

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Retentiva e Conteúdos em Português. 

 

 

Leia também os posts

 

Long Live Garrett

 

Garrett inédito

 

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

Garrett leitor de Vicente

 

Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909)

 

 

Inéditos do romanceiro garrettiano neste blog na tag Garrett 

 

 

 

 

 

 

Lettre à Garrett (2005)

 

 

Cher Almeida Garrett,

 

Pardonnez-moi de vous interpeller ainsi, si soudainement, mais, croyez bien que je n’oserais pas vous importuner pour un rien. Partir, et partir tôt, est un drame que vous connaissez bien. Partir trop tôt. Je sais, donc, que vous comprendrez ce que j’ai à vous dire.

 

Votre nom et votre œuvre sont encore vénérés dans ce pays qui est le vôtre, même si on leur voue, en somme, l’estime accordée habituellement aux monuments. Révérés, mais en vérité, oubliés, ignorés et vandalisés. Rien de nouveau, nous le savons bien.

 

Imaginez-vous que les manuscrits inédits de votre Romanceiro ont été découverts dans un tas de papiers qui se trouvait chez Venâncio Deslandes, jadis directeur de l’Imprensa Nacional. Il n’est pas difficile d’imaginer les raisons qui auront conduit Monsieur Deslandes à rapporter le manuscrit chez lui mais nous ne saurons probablement jamais le fin mot de l’histoire qui explique qu’ils y soient restés jusqu’à ce que Cristina Futscher Pereira ne les déniche.

 

Mais cette découverte fut aussi une rencontre.

 

Car, dès cet instant, le destin de Cristina Futscher Pereira s’est mêlé à celui de ces documents. Et vous, mon cher Garrett, sachez que vous avez nourri son enthousiasme. Elle pressentait que ces manuscrits étaient une manifestation de sa bonne étoile et alla même jusqu’à construire ce petit temple d’où je vous écris, pour y partager les bonnes nouvelles avec tous ceux qu’elles intéresseraient.

 

Mais, (presque) personne ne se montra intéressé. Enfin, il y eu quelques lueurs d’intérêt pour ces documents, noblesse oblige , bien qu’elles fussent mornes et brèves. Qui sait, peut-être sommes-nous fatigués d’être un Pays, d’avoir une Histoire si pesante, au bilan si incertain.

 

Et puis, un Romanceiro, n’est-ce pas quelque chose de complètement has been, si old fashioned – you know what I mean? – quelque chose qui appartient à un monde qui n’est plus et qui a donc cessé de nous intéresser ? Bien sûr, il convient de le protéger et quelqu’un doit se charger de conserver ces choses. Ça pourrait venir à manquer, un jour, qui sait ?

 

Et pourtant, cher ami, vous avez bien peu de raisons de vous plaindre. En dépit de l’infortune pédagogique de Voyages , vous faites encore partie du canon, personne ne vous réfute l’épisode de Mindelo, la scène des théâtres vous est encore ouverte, le frac vert, la cravate colorée et le chapeau blanc provoquent encore bien des émois chez la gente féminine. De votre poésie, il reste Folhas Caídas (dont le pathos augmente quand on connaît l’histoire de la vicomtesse de Luz) et votre éloquence résonne encore vaguement au parlement. Tout le monde n’a pas la chance de pouvoir en dire autant.

 

Mais en réalité, votre œuvre est bien peu lue et, hélas ! , rares sont ceux qui parlent encore cette langue dans laquelle vous avez écrit ces pages si remarquables.

 

Poursuivons. J’ai connu Cristina à cause de vous. Disons que c’est l’écrivain illustre qui est à l’origine de notre rencontre. A peine m’avait-elle fait part de ses projets que je lui disais de ne rien attendre, ou si peu. Mais mon scepticisme a cédé face à l’énergie qui l’animait et à son désir d’éveiller un intérêt renouvelé pour votre personne, cher Garrett, et pour votre œuvre. Comment aurais-je pu refuser ?

 

Le résultat de cette collaboration est là, dans ces pages écrites dans l’éther (vous me pardonnerez, cher ami, de ne pas me risquer à la moindre explication...) mais aussi, dans ce riche échange épistolaire d’où est née une amitié certaine.

 

Cher Almeida Garrett, Cristina Futscher Pereira n’est plus.

 

Elle est partie trop tôt, comme vous. Avec elle, disparaît également cet espace qu’elle vous avait consacré et auquel j’ai eu l’honneur et le plaisir de participer.

 

Et lui là, – là ? Ici ? – reste pour témoigner de ces battements de cœur que vous avez provoqués tout au long de sa dernière année de vie. Cristina a fait ce qu’elle a pu jusqu’à ne plus pouvoir. Mais son exemple est là et, qui sait, peut-être fera-t-il des émules, peut-être sera-t-il repris ? N’est-il pas vrai que nous lui sommes tous redevables ?

 

C’est le devoir accompli - dont je me suis moi-même investi - que je vous salue, toujours plein d’estime et d’admiration.

 

 

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Si les morts et les époques se rejoignent et se mêlent comme dans La Tour de Barbela de Ruben A., vous finirez par faire la connaissance de Cristina. Je vous demande de lui accorder le traitement que l’on réserve aux amis sincères et dévoués.

 

 

 

Traduction de Laurence Corréard

 

 

 

Lettre à Garrett fut le dernier texte publié dans O Divino , un blog créé par Cristina en 2004.

 

 

 

 


6.12.13

 

 

 

Anonyme; Cabinet de curiosités; (fin XVIIe siècle)

Huile sur toile; Florence; Opificio delle Pietre Dure. aqui

 

 

Tenho celebrado um ou outro aniversário do blog com um breve balanço e queria tê-lo feito neste quinto aniversário, mas atrasei-me. Quero antes de mais agradecer os comentários deixados no post de 15 de Novembro. As palavras de incentivo de tão ilustres colegas da blogosfera animam-me particularmente. Assinalei a data com um cartoon que divide a blogosfera entre “histórias sobre ninharias que alguém cozinhou, tricotou ou coseu”, “auto-promoção” e “teorias da conspiração”. Está bem visto, em versão mais soft seria o facebook, os blogs pessoais e os blogs políticos.

 

Em poucas palavras, para quem me visita pela primeira vez, este blog divide-se entre histórias do meu álbum de família (fotos, recordações e curiosidades do espólio familiar), histórias dos álbuns dos outros (fotografias e curiosidades dos espólios de outras famílias) e, last but not least, textos bastante variados de Autores, sobretudo excertos de obras de história, jornalismo, ensaio e alguma literatura. 

 

Os textos que eu própria escrevo (em minoria) tratam normalmente de espólios familiares, álbuns e recordações, enquanto as citações de Autor e os textos doutras pessoas surgem geralmente a propósito da actualidade e/ou do calendário. Quanto às imagens tenho procurado apresentar um máximo de material inédito, inicialmente com base no meu arquivo familiar e, progressivamente, a partir de colecções particulares que parentes e amigos têm posto generosamente à minha disposição.

 

O blog recebe actualmente em média 50 visitas por dia e poucos comentários (cerca de 300 até hoje em 480 posts). O propósito continua a ser o mesmo: partilhar a minha exploração da fotografia vernacular e reflexões de Autores favoritos, além de contribuir, mesmo que modestamente, para o universo dos conteúdos em português, com imagens, perfis e textos algo esquecidos*.

 

Queridos Leitores e visitantes em geral, continuarei a esforçar-me por merecer a vossa visita. 

 

 

 

 

* Notas:

 

Cabinet de curiosités 1 in English 

 

Neste contexto veja o blog Restos de Colecção aqui e o projecto Conteúdos em Português aqui  

 

Neste blog, um texto sobre a Fotografia Vernacular aqui , um perfil  aqui e um texto de Autor ilustrado com uma foto aqui

 

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3.12.12

 

 

 

 

 Audições no fim do ano lectivo na Academia de Amadores de Música*, Lisboa, Junho 1969.

Miguel Azevedo e Sílvia Camilo. Flauta de bisel. Professora: Catarina Latino

 

 

São 23 obras para piano, compostas ao longo de três décadas por Fernando Lopes Graça para aniversários, bodas e outros acontecimentos como a inauguração de uma casa ou um simples convívio de amigos.

 

"Umas são pequenas, outras maiorzinhas. É uma colecção que eu tenho: uma comemoração disto, uma comemoração daquilo, uns anos deste, um casamento daquele... São "Músicas Festivas" (F.L.G. fev. 1986).

 

Em 1962, ano em que inicia a composição das Músicas Festivas, Fernando Lopes-Graça muda-se de Lisboa, onde ainda compõe a primeira peça deste ciclo, para um apartamento na Parede. Aí, um pequeno gabinete com um piano vertical passará a ser a oficina do compositor até à sua morte. Após uma fase emocionalmente dilacerante que culminará nessa obra-prima que é Canto de Amor e de Morte (1961), este ciclo de Músicas Festivas parece inaugurar, simbolicamente, uma nova fase na vida do compositor. (1)

 


 

partitura original 

 

 

 

 

A colecção inédita — das 23 peças 13 nunca foram tocadas em público e 18 nunca foram gravadas — será registada em múltiplos suportes para permitir a criação de conteúdo não efémero. A iniciativa partiu de um grupo de amigos de que hoje fazem parte três dos dedicatários das Músicas Festivas, entre outros colaboradores, e todas as acções vão por diante apesar de os apoios terem sido muito escassos.

 

Um Concerto no Centro Cultural de Belém a 16 de Dezembro de 2012 incluirá a maior parte das peças, interpretadas pelo pianista António Rosado e com uma introdução do musicólogo Rui Vieira Nery . Na mesma data serão lançados os quatro volumes das partituras (em papel) e o primeiro volume do CD das Músicas Festivas [2]. Os autores do projecto criaram igualmente um sítio web [3] e um álbum de fotografias digital [4]. Mais tarde será produzido um DVD incluindo o concerto ao vivo e um documentário, com depoimentos dos dedicatários e outras pessoas próximas do compositor.

 

 

Além do seu interesse cultural manifesto, esta edição multimédia das Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça é sem dúvida um modelo inspirador de "Álbum de Família" ou, melhor dizendo neste caso, de "Livro dos Amigos".  

 

 

 

 
 

 

Fernando Lopes Graça (1906-1994) 

retratado por Cecília Pinto

 

 

Notas:

 

1 Texto integral de João Espírito Santo (Outubro de 2012) aqui 

2 CD: integral Músicas Festivas pelo pianista António Rosado

3 sítio web aqui

4 álbuns de fotografias aqui

um perfil de Fernando Lopes-Graça aqui

6 De todos os materiais produzidos serão entregues exemplares ao Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria para serem integrados no espólio do compositor. aqui

7 Imagens deste post encontradas aqui

8 Fernando Lopes-Graça e a Academia de Amadores de Música aqui 

 

 

 

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4.2.12

 

 

As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’, tese de doutoramento que Sandra Cristina Boto defendeu ontem na Universidade Nova de Lisboa, representa para a minha família a conclusão feliz dum percurso iniciado em 2004 pela descoberta duma importante colecção de autógrafos garrettianos em nossa casa. Ao apresentar com esta colecção perspectivas inteiramente novas sobre o romanceiro garrettiano, o trabalho de Sandra Boto confere pleno sentido ao enorme esforço que minha irmã dedicou à divulgação deste espólio, em grande parte inédito.

 

Hoje penso que foi sorte estes papéis serem redescobertos por uma estrangeirada, que nunca tinha lido as Viagens na Minha Terra, mas de Garrett sabia pelo menos que “main street is named after him!” (Cristina Futscher Pereira dixit). Quantos portugueses de gema se teriam dado ao trabalho?

 

Diz Sandra Boto na introdução:

 

Sabia-se, por fontes externas, que a colecção continha novos temas tradicionais. A publicação, na edição de 9 de Dezembro de 2004 do jornal Público, de um tema religioso de base tradicional, Fonte da Cruz, fazia suspeitar da importância destes materiais para o estudo do romanceiro tradicional garrettiano. Sabia-se também que entre estes autógrafos se encontrariam igualmente temas de origem não tradicional. Aliás, um romance criado pela pena garrettiana, A moira encantada, constituíra, a 29 de Dezembro de 2004, o verdadeiro cartão de visita desta colecção, num infelizmente pouco valorizado suplemento do Diário de Notícias. (1)

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

 

 

Do ponto de vista da minha família, a edição de A Moira Encantada foi um pequeno milagre, só tornado possível por circunstâncias muito favoráveis como o apoio essencial que recebemos de Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana, e o facto de termos encontrado patrocinadores - Diário de NotíciasPortugal Telecom - que gostaram do projecto e nos deram autonomia total para o realizar.

 

Uns meses depois, as duas especialistas chamavam a atenção para a riqueza do espólio agora encontrado, concluindo que dar a conhecer este romanceiro inédito seria prosseguir a tarefa que o próprio Garrett definiu como um “grande serviço ao seu País” [2]. Mas (quase) ninguém estava interessado, como sintetizou mais tarde Jorge Colaço [3] ao contar a história na sua Carta a Garrett.

 

No entanto, sete anos volvidos sobre a descoberta da 'Colecção Futscher Pereira' [4], a Proposta de ‘Edição Crítica’  de Sandra Boto vem contrariar o pessimismo e convidar-nos a revisitar o nosso Autor e o seu apaixonante Romanceiro:   

 

[...] no que concerne ao Romanceiro, a elaboração de um plano editorial patente na “Introducção” ao tomo II da obra, cujos preparativos e rascunhos textuais se prova estarem documentalmente contidos na Colecção Futscher Pereira em autógrafos garrettianos, só nos anima a levar a cabo a tarefa de prosseguir editorialmente com esse mesmo plano, que a morte do poeta impediu de se cumprir. A não destruição intencional destes materiais em vida de Garrett conjugada com o manifesto de intenções que é o mencionado plano editorial, o qual por seu turno entendemos como uma vontade expressa autoral de vir a publicar futuramente esses materiais, é garante de que é uma missão estudá-los e editá-los, mesmo com mais de 150 anos de atraso.[1]

 

 

 

 

 

 

Autógrafo de Almeida Garrett:

Romanceiro

Colecções de xácaras, estudos e apontamentos para a confecção do Romanceiro

Manuscrito do Autor

 

 

 

 

Notas:

 

1 Sandra Cristina Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica' (introdução)

Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

2 Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana in No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro. Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. pp.235-239

 

3 o blog de Jorge Colaço aqui

 

4 Colecção Futscher Pereira (CFP), assim designada por Sandra Boto. São também as iniciais de Cristina Futscher Pereira, coincidência feliz.

 

O blog garrettiano de Cristina Futscher Pereira -— O Divino — deixou de estar acessível no blogs.sapo.pt

 

Texto integral de A Moira Encantada aqui

 

Mais neste blog na tag "garrett" 

 

 


24.6.11

 

 

São João Baptista, Brasil, séc XIX

 

 

Por manhã de São João,

Manhã de fresca alvorada,

A Virgem-Santa passeia

Deredor da fonte clara.

Venturosa da donzela

Que à fonte for buscar água

Por manhã de São João

Manhã de benta alvorada !

 

Baixou a filha do rei                                                

Da alta torre onde estava,                                                

Vestiu vestido de seda,

Calçou sapato de prata,

Pegou em cântaro de oiro

Para a fonte caminhava.

 

Ao chegar ao pé da fonte                                       

Com a Virgem se encontrava :                        

— « Deitai-me a benção, Senhora,

Que me deis um bom marido             

Com quem seja bem casada ! »

— « Casada sereis , donzela,

Bem casada e bem medrada.                                    

Três filhos haveis de ter,

Todos três de capa magna.

Um há de ser papa em Roma        

O outro primaz em Braga ;                        

O mais pequeno de todos                        

Dá-lo-eis à Virgem Sagrada :

Que se há de chamar João.                

João de Deus o seu nome,

Pastor da minha manada.

Aos pobres que não têm pão,

Aos doentes sem pousada

Ele há de dar casa e cama

Em honra desta alvorada.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Nota: este romance popular foi originalmente publicado no blog garrettiano O Divino, em Dezembro de 2004 

Imagem: Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

 

                         

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14.5.10

 

 

 

Carta de Teixeira de Pascoaes a Vasco Futscher Pereira

 

 

 

23 de Novembro de 1946

Amarante


Muito querido amigo e jovem confrade

Felicito-o e felicito-me pela entrevista, que está uma perfeição! Mas também desejo agradecer-lhe as suas amabilíssimas palavras, que eu, decerto, não mereço. Recebi uma carta da Estrelinha, que me deixou deslumbrado! Não lhe respondi, nem respondo. Responder a uma estrela um poeta da minha idade! É um impossível quasi metafísico!

Envio todos os meus respeitos a sua queridíssima esposa; e um imenso abraço ao seu muito querido sogro, que eu conto entre o pequenino número dos meus autênticos amigos.

Seu velho confrade muito grato e dedicado



Teixeira de Pascoaes

 


 

 

 

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

 

 


 

O poeta e escritor Teixeira de Pascoaes, pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, e o meu avô, Guilherme Pereira de Carvalho (1891-1966), eram amigos de longa data e as suas famílias conviveram muito. Teixeira de Pascoaes viveu toda a vida em Gatão, nos arredores de Amarante, não longe da Casa de Freitas, em pano de fundo deste blog. Veja outra fotografia do poeta, vinte anos antes, aquiQuanto a "Estrelinha",  veja uma foto dela aqui.



6.5.10

 

 

 

 

carta de Vitorino Nemésio a Margarida

 

 

 

 

Casaréus do Tòvim,

(Coimbra), 2 Set° 1942.

 

 

A sua carta deu-me muita alegria.  Acabo de lê-la.  Estou na aldeia há dois dias, rodeado de latadas morangueiras, com o vale do Mondego diante de mim, oliveiras derroda e às vezes a paz correspondente... (O meu Jorge partiu pela terceira vez um braço).  Mas basta de paisagem.  O que quero é fazer-lhe chegar rapidamente a minha gratidão por aquilo que me diz.  Vou guardar aquela polegada de cartão como uma das coisas mais honrosas da minha vida.

 

às vezes, lembrando-me do que tenho cá dentro para dizer, e que poderia sair em poema, romance ou "vida", e vendo a minha baça esterilidade de escritor, apetece-me soltar o "rai’s parto" dos carreiros que por aqui passam com os bois. Não é só o ofício de professor que me tira o tempo : são as mil e uma formas de dispersão para reforçar o orçamento.  Mas depois acontecem-me coisas como esta carta da Margarida, e penso de mim para mim que talvez valha a pena trocar uma hipótese de obra literária pela consolação de sentir que alguma coisa passou do meu entusiasmo a alguém.  "Talvez" !  Que mesquinho !  Mas "com certeza" !...

 

E até me vejo um velhinho de setenta anos, no esquife do limite de idade, coberto de flores e de cãs (essas minhas difíceis cãs de quarentão sem uma branca), e com uma borla, que ainda não comprei, toda orvalhada de lágrimas...  Haverá música para o "Antigamente a escola era risonha e franca" ?

 

Perdoe, Margarida ; não há direito de brincar assim numa carta como esta.

 

Repito que as suas palavras me comovem.  Estimo-as por virem de quem vême pela delicadeza com que escolheu as condições de isenção para mas mandar.

 

Desejo-lhe boas férias, — verdadeiras, alegres, sem sabedorias.

 

Minha Mulher retribui os seus cumprimentos.  Lembranças a seu Pai. E creia

 

na maior estima

 

Do seu muito amigo

 

 

Vitorino Nemésio

 

 

 

 


Em 1942, Margarida* acabara de se licenciar, com distinção, em Filologia Germânica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde Vitorino Nemésio fôra seu professor. Nesta altura, Vitorino Nemésio ainda não tinha publicado o romance Mau Tempo no Canal (1944).

 

Vitorino Nemésio é um dos nossos maiores poetas e escritores do século XX. No fim da sua vida, conquistou o público português com a crónica semanal  "Se Bem Me Lembro", programa transmitido pela RTP de 1969 a 1975 em horário nobre.

 

 

 

 

Vitorino Nemésio e alunos na Faculdade de Letras,

c. 1942**

 

 

 

*Uma fotografia de Margarida aqui

 

**Detalhe de fotografia reproduzida no livro Retrovisor, Um Álbum de Família.

À direita de Vitorino Nemésio está Maria da Graça Paço d'Arcos. À frente,no canto inferior direito, Maria Violante Vieira.

 

Mais sobre V.N. aqui

 



 

 


2.4.10

 

 

 

 

 

  

Lenda S.15

 

 

ROMANCE DOS PADRES NO LIMBO

 

 

Vozes davam prisioneiros,

Longo tempo estão chorando,

Em triste cárcere escuro

Padecendo e suspirando,

Com palavras dolorosas

Suas prisões quebrantando:

 

-"Que é de ti ó Virgem mãe?

A ti estamos clamando,

Desperta o senhor do mundo,

Não estamos mais penando ?"

 

Ouvindo estas vozes tristes

A Virgem estava orando,

Quando veio a embaixada

Pelo Anjo, saudando

Avé rosa gracia-plena

Sua prenhez anunciando.

 

"Solta os encarcerados

Que por ti estão suspirando,

Pela morte de teu Filho

Ao Padre estão rogando:

 

Cresça o menino glorioso

Que a cruz está esperando:

Sua morte será cutelo

A tua alma trespassando

Sofre a sua morte, senhora

Nossa vida desejando!"

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Imagem: Giotto -   Descida de Cristo ao limbo aqui

 

um artigo sobre a "geografia do além" no Ocidente medieval aqui

 

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25.12.09

 

 

 

Adoração dos Magos

Diego Velázquez, 1619

 

 

 

Lend. Sec.17

 

Nota: É uma verdadeira chácara (1) porque em perguntas e respostas com certo sainete de graça e chacota. D. Fr chamou-lhe romance (o editor das obras) em Leão de Fr 1665 onde vem em castelhano pg 19 segundos três versos.

 

 

 

 

Zagal tu vens de Belém

No me dirás que há de novo ?

— Que chamou elrei a cortes

O povo, nobreza e clero         (2)

 
Que intenta sua majestade

 

Que, sem falta, é bom intento ?

— Jurar príncipe a seu filho

Que há de ser rei destes reinos.

 

Eu pensei que o mundo todo

Se rogava ao juramento

— Não que é já tão cristão

Que não jurará sem rogos

 
Pelos egrejos quem veio

Prestar o sagrado preito ?

— Os anjos eram que são

As dignidades do céu.
 
E do braço da nobreza

Quem veio ao juramento ?

— Não chegaram, porem já

Três reis hão-de chegar presto.

 
Quem recebeu a homenagem
No popular achamento?

— Os pastores que madrugaram

A obedecer seu  império
 
E  quem por parte d’elrei
As cortes  fez o    *
— Foi a voz de um paraninfo (3)

Todo o mundo era em silêncio

 

Que partes tocou elegante

E persuasivo em efeito ?

— A paz publicou aos homens

E glória intimou aos céus.

 

Não se tratou mais nas cortes

Outro importante manejo ?

— Sim: a defesa do mundo

Que em grande perigo o vemos

 

Pois há quem a elrei não sirva

Ao menos por seu proveito ?

— A um mesmo fim miram todos

Mas nem todos a um só meio

 

E que tal estava o quadro

De adornos e paramentos ?

— Um quadro - e de mão divina

Só lá vi, era um presépio

 

Mui rico seria o trono

De gran’ máquina por certo?

— Não resplandecem seus lustres

Como admiram seus mistérios.

 

E o que deram para a guerra

Dentre paraíso e inferno?

— O próprio do rei pedido
Dois milhões são desejados

 

Do príncipe que se diz

Muitos anos o logremos?

— Que já morre pelo povo

E disso há de morrer cedo

 

Pois dizem que com o pai

Se parece por extremo

— Tanto que quem vir o filho

É como ver o pai mesmo.

 

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

NOTAS :

1.chácara é termo que designa um certo tipo de romance popular

2.variante: egrejos nobres e povo

3.paraninfo : padrinho apresentante

 

 

 

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13.6.09

 

 

 

 

 

 

Para a sé vai Stº António

Vestidinho de encarnado

Leva o menino nos braços

No seu livro vai sentado

 

Os anjos que o viram ir

Ficam de rosto inclinado

Vendo ir o Deus menino

De outro menino levado

 

Chega ao altar da Stª Virgem

Com muito amor muito agrado

Entrega-lhe o bento filho

Seu amor e seu cuidado

 

Adeus Jesus da minha alma

Adeus menino sagrado

Que são horas de matinas

E o sino não está dobrado

 

Deita a correr à torre

À torre em passo dobrado

Que das horas de matinas                              Para tocar a matinas

O tempo é quase passado

 

Os cónegos que o não ouvem

E que tinham bem ceado

Na cama se espreguiçam

E se viram do outro lado

 

À porta da igreja o demo

N’um cantinho acanhado

Espreita o santo menino

Para o colher em pecado

 

Toda a vida o bom do santo

C’o demo andou apostado

A qual há de ser mais fino

Qual há de ficar logrado

 

Vendo-o a correr à torre

E o tempo quase passado

Disse o demo agora António

Que te tenho apanhado!

 

Deixa dormir os meus cónegos

O seu sono regalado

Que à ceia estive eu com eles

E ficou tudo arrasado

 

Não és tu que hoje os despertas

Com o teu sino dobrado

Que da seca das matinas

Eu os tenho dispensado

 

Trás almoçar no aljube

Meu santinho desregrado

Que já não tangerás a matinas

No tempo determinado

 

Passou-lhe adiante dum salto / dum pulo

E se foi pôr emboscado

Na volta que a torre dá

Para o deixar assombrado

 

Salta o santo a dois e dois

Os degraus sem mais cuidado

Senão quando que deparou                       Senão quando de repente

Com o anjo condenado                              lhe apareceu o condenado

 

Com tão feia catadura

De tanto fogo cerrado

Que todo o valor de António

Ali ficou soçobrado                                     desmaiado

 

Queria bradar Jesus

E em gesto de assustado

Quis dizer-lhe vade retro

Da garganta está tomado

 

Mas erguendo a mão direita

Mesmo assim desatinado

Na dura pedra da torre

Deixou o sinal sagrado

 

Toda a sé velha tremeu

E Satanás despeitado

Nas profundas dos infernos

Foi cair precipitado.

 

Tocou o sino a matinas

No tempo determinado

Os cónegos despertou

O demo ficou logrado

 

 

O bento sinal da cruz

Na pedra ficou gravado

E ainda hoje de memória                     Ainda hoje o sinal santo

Na torre está conservado                     Na muralha está gravado

 

 

 

 

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

Imagem: Santo António de Pádua (detalhe de Bom Pastor), marfim, séc. XVII,  encontrado aqui

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12.4.09

 

 

 

 

"Barca Nova"

manuscrito autógrafo de Almeida Garrett

 

 

 

 

BARCA NOVA

 

 

Quem quer ver a barca nova

Que se vai deitar ao mar ?

San João é marinheiro

Os anjinhos a remar

 

Por bandeira as Cinco Chagas

São o estandarte real;

Dentro vai Nossa Senhora,

Agulha de marear.

 

As três Marias à proa

Sentadas vão a cantar,

Seus manteos pela cabeça

A gemer e a chorar:

 

- “Oh vós todos que passais

Pela terra e pelo mar,

Vinde ver a minha dor

Se há dor que a possa igualar !”

 

Ali vai Nosso Senhor

Ali vai a enterrar,

Nos braços da Virgem Santa

Que o está a amortalhar

 

Vai José e Nicodemus

Para o  ungir e imbalsemar;

Chegou ao Santo Sepulchro

Lá o vão depositar.

 

Venham guardas e soldados

Este sepulchro a guardar !
Mas no cabo de  três dias

Vê-lo hão ressuscitar

 

À mão direita do Padre

Na glória se há de ir sentar;

E no cabo desta vida

Ele vos virá julgar

 

Pecadores, pecadores

Não vos deixais afogar:

Acolher à barca nova

Os que se querem salvar

 

 

 

 

manuscrito autógrafo de Almeida Garrett

Introdução a "Barca Nova"

 

 

 

Nestas trovas — que não sei se lhes chame romance, lenda, loa ou o quê — há um ar de semelhança tão visível com a “Barca dos Anjos” de Gil Vicente, há um sabor tão forte àquela alusão poética e apaixonada da meia-idade, que me não fica a mínima dúvida de que nasceu por esses tempos. Daí se viria traduzindo, pela tradição oral que a conservou, até ao presente estado em que se acha.

 

Hoje, Quinta-feira santa de Abril de 1843, a copiei do que estava ensinando a minha filha Maria Adelaide, a nossa cozinheira Joaquina, mulher de cinquenta anos à volta, natural de Torres Vedras.

 

Já notei noutra parte que este nome de Barca significava dantes o que quer que fosse de representações musicais misturando o canto na declamação.

 

Seria isto composto para alguma procissão do enterro do Senhor que noutro tempo, especialmente nas províncias do Norte, era uma espécie de auto ou representação daquele último passo da paixão do cristo ?

 

É também para notar — e nem é imprópria a ocasião — quanto os portugueses nação marítima e marinheira, gostavam de dar à última viagem que se faz no féretro todo o aparelho de uma viagem de mar. “Esquife” que em muitas línguas, e também na nossa, significa uma pequena embarcação – em português igualmente quer dizer a tumba em que se leva os mortos a enterrar.

 

Lembro-me de ver, em pequeno, na Igreja que fora dos jesuítas, em Angra, um esquife com a forma e jeito de barco, que servia para levarem na procissão do enterro em Sexta-feira Santa a imagem do Senhor morto.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

conheça a história dos manuscritos aqui (blog "O Divino", post de 7-12- 2004)


11.3.09

 

 

 

 

 

 

 

 

Rio de Janeiro

Rua Farani 61 apt.514

 

4.2.62

 

Meu caro Futscher

 

Com diplomatas tudo pode acontecer, até que se lembrem dos Amigos; de qualquer modo os Amigos se lembram deles - até Pedro, que está no segundo ano de História, se lembra dos soldados que recebeu de presente. E os Amigos gostariam de saber dos diplomatas, como estão na carreira e se a Vida os tem tratado bem. Afinal, quando nos encontrámos foi para andarmos à volta do Cícero; hoje andamos os dois às voltas com política externa, coisa talvez ligeiramente mais interessante do que o Cícero; até o Cícero seria da mesma opinião se não fosse o vaidoso que era.

Aguardo uma linha sua, ouviu?

 

Afectuoso abraço

Agostinho

 

 

 

 

Vasco fez parte do grupo de jovens a quem, no princípio dos anos 40, Agostinho da Silva deu aulas particulares de latim, após ter sido afastado do ensino oficial.

Conheci bem o Professor Agostinho e esta carta fez-me recordar com nitidez a sua voz, e a sua personalidade afável e irreverente.

 

 

 

Agostinho da Silva

1906-1994

 

Excerto de uma biografia recente:

 

 

Regressa [de Paris] a Portugal em 1933, sendo colocado no Liceu de Aveiro como professor. Entusiasta, cria uma "caixa de apoio" aos estudantes mais pobres e promove outras acções incómodas para o Estado Novo. Ao fim de dois anos é exonerado, por se recusar a assinar a Lei Cabral: um documento que todos os funcionários públicos eram obrigados a subscrever, jurando não pertencerem a nenhuma sociedade secreta (leia-se: ao Partido Comunista ou à Maçonaria). Para além dele, só Fernando Pessoa e Norton de Matos ousariam contestar o diploma legal aprovado pela Assembleia Nacional.(...)

Desempregado, Agostinho começa a dar aulas no ensino privado e explicações particulares. Mestre Lagoa Henriques, Jorge de Melo, Manuel Vinhas e os irmãos Lima de Faria, serão alguns dos seus alunos. (...) Simultaneamente empenha-se em diversas actividades de produção e divulgação culturais: dá palestras públicas de Norte a Sul do país, cria o Núcleo Pedagógico Antero de Quental apostando em novos métodos pedagógicos (...), organiza exposições, escreve um sem número de biografias, colabora em jornais, organiza sessões culturais na rádio para  jovens e inicia a publicação dos famosos Cadernos de Informação Cultural sobre áreas tão diversas como religião ou arquitectura. Esses Cadernos - sobretudo dois deles, "O Cristianismo" e "Doutrina Cristã", (...) levam a que a sua biblioteca seja confiscada e inventariada pela PIDE e que conheça como destino a Prisão do Aljube. Ironicamente, a própria polícia política reconhece: "intransigente adversário do Estado Novo, com pronunciadas  tendências extremistas, embora tido como bom professor e honesto" (PIDE, folio 398, p.20)

Acusado de "comunista" por defender o regresso ao cristianismo primitivo e por se insurreccionar contra a deturpação que a Igreja fez dos ensinamentos de Cristo, simultaneamente desiludido com o governo do país e ansioso por liberdade, parte em 1944 para a América do Sul. Passa pelo Rio de Janeiro e São Paulo, instala-se no Uruguai, vive na Argentina, até regressar definitivamente ao Brasil onde permanecerá durante 22 anos, e onde ganhará fama pela sua personalidade e erudição.

 

Paulo Marques

in Agostinho da Silva, Servo dos Servos (1906-1994)

Cadernos Biográficos de Personalidades Portuguesas do Século XX

© Parceria A.M.Pereira e Público

 

mais sobre Agostinho da Silva aqui

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5.3.09

 


Carreço, c. 1950

 


 

Ruy Cinatti foi um dos amigos mais queridos de minha mãe, e queria dedicar-lhe um post, a seguir aos Monteiro Grilo, e ilustrá-lo com esta fotografia. No entanto, ao procurar documentos sobre Cinatti numa pasta, encontrei a carta que a seguir transcrevo, e me faz regressar a Ruben A.. A fotografia pertence à fotobiografia "O Mundo de Ruben A." (Assírio e Alvim).

 

Coimbra a dos poetas 5-N-42

 

Caro Vasco,

É com um prazer enorme que te escrevo estas linhas pois além de me fazerem lembrar de ti, um bom e franco amigo me leva a recordar a tua simpática comparência ao nosso castiço jantar. Foste de facto um bom amigo – “a real friend”.

Feita esta introdução académica e pompadouresca mas sincera no seu realismo e surrealismo, vamos contar-te o que este menino vindo de Lisboa viu e ouviu. Excedeu em tudo não poderei dizer, mas em quási tudo a minha expectativa, esta Musa do Mondego. Tirando duas ou mais cenas cómicas duma graça infinita que me aconteceram à chegada e no dia seguinte, tudo se tem passado num ambiente clássico e de bom gosto. Uma das cenas de que fui protagonista é esplêndida e por isso te conto. Ei-la: como sabes não conhecia nada de Coimbra, cheguei de noite com a etiqueta ao pescoço, que dizia Rua de Sta Teresa 33. Cheguei a casa. Comi e dormi como todo o mortal, (lá alguns mortais, coitados negam a utilidade dum bom bife e dum carrascão) Deixá-los viver.

Aqui começa propriamente a cena. Segunda-feira de manhã, oito e meia depois de perguntar à criada mais ou menos o caminho para a Faculdade, ou melhor a Universidade, saio de casa e dirijo-me a passos largos pelo tal caminho. Chego a um sítio lindo ao pé dos Arcos e do Jardim Botânico e indeciso fiquei com respeito ao rumo a tomar. Olhei as plantas mas não me senti botânico, vi um eléctrico que dizia Calhabé e pensei que iria para a cidade dos rapazes pois o nome é próprio para ser adorado pelos “enfants terribles”. Nisto aparecem três tipos em capa e batina e outro com uma pasta, fiquei radiante, já não poderia fazer figura fraca perguntando o caminho para a Universidade. Foi a Universidade que fez a cidade! (Não lhes perguntei nada) Segui-os a passo rápido, andei, andei já um pouco desconfiado quando de repente os “bichos” (nome dado aqui aos alunos do liceu) param e entram para um jardim, então eu leio na casa, escrito em grandes letras: Colégio Luiz de Camões, Externato e internato — Ambos os sexos!!!!!

Eis caríssimo Vasco o que foi o meu primeiro contacto com isto tudo. Ri,ri e tornei a rir. A minha chegada a Coimbra como vês foi brilhante e cómica. Conto-te algumas coisas que se passam  na Liberalium Artium Facultas e que tu companheiro de louros nessas coisas deves apreciar. Tenho professores esplêndidos. Damião Peres a H. Dos Descobrimentos que ultrapassou tudo o que pensava a seu respeito.

Maximino Correia a Psicologia Geral, com muito sistema nervoso e localizações mas falando de Bergson, Freud e escolas modernas. Não me posso ainda pronunciar a seu respeito. H-F-Moderna (teóricas) Joaquim de Carvalho que fez duas aulas de introdução ao estudo da F. Moderna e a alguns aspectos da Renascença, falando e dominando o assunto com uma claridade imensa. (Práticas) Magalhães Vilhena, ainda não tive aulas com ele mas já lhe falei, andou-me a apresentar a todos os tipos dos institutos estrangeiros. Foi simpático.

H. Moderna tenho um Dr. Brandão, ainda só houve apresentação ??? Arqueologia tive hoje a primeira aula é o Orlando Ribeiro, já sabes a classe dele.

H.F. Portugal (2º semestre) Joaquim de Carvalho. Numismática (2º semestre) Damião Peres.

Eis um resumo completo da minha actividade escolar em que tenho uns colegas que só se interessam por futebol e animatógrafo. A mentalidade e o interesse cultural aqui é baixíssimo. Espero sem ser vaidade que isto seja óptimo para mim. Tirando os tipos do Novo Cancioneiro que são excelentes de resto a Academia aqui não tem interesse nenhum.

Os teus exames? A Margarida e sua morada? Tu naturalmente com muito amor. Enfim tenho de acabar a carta pois graças a Deus tenho mais amigos a quem escrever. Espero em Deus que passes e venças sempre pois este é o meu maior desejo. Aguardo carta tua com grande ansiedade recebe muitos abraços e dá cumprimentos a tua família.

 

Teu sempre amigo e futuro padrinho,

 

 

Ruben

 

Carta de Ruben para Vasco

 

 

Poemas de Ruy Cinatti aqui

 

Mais neste blog sobre Ruben A. e Cinatti aqui e sobre os estudos do meu pai em Coimbra aqui


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