4.2.17

 

 

 

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 traje masculino - século XIX

 

 

 

 

 

Para em tudo ser grande, este homem singular a quem os seus contempo­râneos chamaram «o divino», como a Pla­tão, foi um dos maiores, senão o maior ele­gante do seu tempo. Poeta do amor, tão belo, que se um dia os Amores descessem à terra fariam o ninho num verso seu; ora­dor tão eloquente, que o seu verbo evocava o daqueles atenienses maravilhosos que, envoltos no seu pálio branco, arrastando as suas sandálias doiradas, discutiam sob os loureiros roxos dos jardins de Academo: diplomata, homem do mundo, grande do ir mo, ministro de Estado — Garrett levou trinta anos de vida a espalhar em volta de si, como braçados de rosas, a elegância, a harmonia, a beleza e a graça. Por onde quer que passasse, a Moda curvava-se diante dele. Ministro na Bélgica, foi tão grande o sucesso pessoal da sua elegância que por toda a parte, nas montras, nos cartazes, nos jornais de Bruxelas aparecem as «capas à Garrett», os «chapéus à Garrett», as «jóias à Garrett». Regressando a Lisboa em 1846, de tal forma o seu tipo inconfundível se impôs, tanto o imitaram e o copiaram, que todos os retratos em miniatura pintados por Guglielmi parecem, pelo talhe das bar­bas, pelo jeito das cabeleiras, peias peque­nas moscas, pelos próprios folhos das cami­sas, o retrato de Garrett. Como Brummell, tudo na sua elegância era simples, mas tudo era perfeito e minucioso. Vestia-se em In­glaterra. Mandava vir de Londres as casa­cas, as meias, os sapatos de baile, as luvas de Jouvin, a libré verde do groom, a suit of clothes com que passeava em Sintra, até os seus assombrosos pijamas matinais de xa­drez branco e vermelho, cuja pantalona afunilava em meia como a dos arlequins. Bulhão Pato descreve o trajo com que ele se apresentava nas Câmaras, o mesmo que usava nas lutas da eloquência e nas entre­vistas de amor: «Casaca verde-bronze com botões de metal amarelo recortado sobre veludo verde; colete branco, deslumbrante, grandes bandas; calça de flor de alecrim; camisa finíssima, encanudada; luvas ama­relas.» Quando tinha de pronunciar algum dos seus monumentais discursos, não es­quecia nenhum pequeno pormenor de ele­gância: ele, que não usava rapé, levava sem­pre consigo uma pequena tabaqueira de ouro para o ajudar nos gestos; e nunca, antes de começar a falar, deixava de esfre­gar as mãos para as fazer mais pálidas. Como a sua nobre figura dominava então a assembleia! Que harmonia de atitudes! Que elegância majestosa, só comparável à de Lamartine! Iluminava-se, crescia, arre­batava. E, entretanto, Garrett não era belo. Garrett lutava com a falta de dotes natu­rais. O milagre da sua elegância foi, sobre­tudo, uma obra de arte, de paciência e de génio. Tudo nele era postiço, desde o es­partilho até ao chinó, desde os dentes até às ancas, desde o chumaço dos ombros até ao bucho das pernas. Quando à noite reco­lhia a casa, depois de um baile ou de uma recepção, desmanchava-se como um puzzle. E o que tem graça, é que era ele o primeiro a rir-se dos ridículos a que o obrigavam, não só os seus defeitos físicos, mas as própria exigências da moda de 1840. Uma noi­te, o criado de quarto de Garrett adoeceu e teve de ser substituído por outro — um pobre rapaz boçal chegado da província. Quando o «divino», quase de madrugada, de calção e meia, regressava de um baile dos marqueses de Viana — o primeiro baile de Lisboa em que apareceram camélias do Japão — foi já o criado novo que, pela pri­meira vez, se apresentou para o despir. — «Começamos pelo chino, percebe?» — disse-lhe Garrett, tirando a cabeleira pos­tiça e enfiando-a na boneca. O pobre rapaz, que nunca tinha visto arrancar os cabelos da cabeça com tanta facilidade, ficou va­rado de espanto. Depois, o poeta tomou um pequeno espelho, abriu a boca, fez saltar a dentadura e deu-a ao criado: — «Tome lá os dentes. Meta-os num copo de água.» O assombro do pobre homem subiu de ponto. Imperturbável, Garrett des­piu a casaca em «busto de abelha», o colete de reflexos de prata, o espartilho, e apon­tou os chumaços das espáduas: — «Tire-me os ombros.» Em seguida, puxou uma ca­deira, assentou-se: — «Agora, tire-me as barrigas das pernas.» O criado, muito pá­lido, coberto de suores frios, teve naquele instante a impressão de que o amo ia desfazer-se todo. (Garrett percebeu, levantou-se, avançou para ele e disse-lhe, olhando-o fixamente: — «Agora, desatarrache-me a cabeça devagarinho.» O pavor do ingénuo provinciano foi tal que abalou pela porta fora e nunca mais ninguém o viu. Este epislódio pinta a figura do poeta muito melhor do que todos os retratos e todas as carica­turas. No fim da vida, no período agudo da paixão pela Ignota Dea das Folhas Caí­das, Garrett esqueceu-se por vezes de que já tinha mais de cinquenta anos e de que nem todas as idades suportam as modas excessivamente audaciosas. Quando sobra­çava a pasta dos Negócios Estrangeiros, apareceu um dia em conselho de ministros com umas extravagantes calças de qua­dradinhos brancos e roxos, que fizeram sensação em Lisboa e que chegaram a despertar receios de natureza política. — «Então, como vão esses negócios da Fa­zenda?» — perguntou o poeta ao seu colega Rodrigo da Fonseca, estendendo-lhe afec­tuosamente a mão. — «Mal, muito mal — respondeu o espirituoso Rodrigo. — Sobre­tudo, os negócios da fazenda das tuas cal­ças. Se tu apareces assim no Parlamento, deitas o governo a terra!» A sua última preocupação foi a de mandar gravar por toda a parte, na baixela de prata, nos sine­tes de uso, nas pedras dos anéis, o seu es­cudo de armas rodeado das insígnias da grã-cruz e bailiado de Malta. A morte, po­rém, que tantas vezes tem piedade do génio, não o deixou ser ridículo por muito tempo. Dois anos depois, o divino Garrett, prín­cipe dos príncipes da elegância portuguesa, rodeado de flores, compondo ainda ao es­pelho a sua última toilette, morria vítima das duas mais terríveis doenças que se conhecem no mundo: a política e o amor. Sem dúvida, foram estes os corifeus da elegância romântica em Portugal — os «in­ternacionais», aqueles cujas jóias e cujas casacas nos fizeram, por um momento, quase tão admirados na Europa do sé­culo XIX, como os coches de D. João V nos tinham feito célebres na Europa do século XVIII. Mas, ao lado destes, quan­tos outros! Quanto janota ilustre fascinou Lisboa, nessa longa parada de elegâncias que ia da plateia de S. Carlos até aos sa­lões da Regaleira, do Marrare de Poli­mento até às alamedas doiradas do Passeio Público! De quantos está ainda fresca a memória, elegantes pragmáticos, devotos fiéis do ritual da Moda, capazes de se dei­xar insultar para não desfazer um só caracol da cabeleira, de se deixar matar para não desmanchar uma só prega das calças! Alguns passam, flagrantes e vivos, diante dos meus olhos.

 

 

Júlio Dantas in O heroísmo, a elegância, o amor*

Edições Roger Delraux

© Maria Isabel Dantas, 1980

 

 

 

* Conferências proferidas no Brasil em 1923 pelo autor, a convite da Academia Brasileira de Letras, por proposta do romancista Coelho Netto:

 

O Heroísmo: O Mosteiro da Batalha

 

A Elegância: Os Elegantes do Romantismo

 

O Amor: Mulheres que Camões amou

 

 

Nota:

 

O meu agradecimento a Manuel Sant'Iago Ribeiro, que me deu a conhecer estas conferências.

 

A imagem é do blog Des bobines et des songes 


 

 


3.8.16

 

 

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Fim de festa

 

 

 

 

Saiu o ano, entrou o ano. No topo do Estado dois chatos tristonhos deram lugar a dois faroleiros alegres e parece que o povo gosta assim. Ao menos anda a gente distraída, Senhor Doutor. Não ficámos menos pobres mas passámos a viver com mais gosto, dizem-me médicos de Lisboa e mestres d’obras de província. E nesta aventura inédita a que chamamos Europa – já lá vai mais de meio século sem andarmos à estalada uns aos outros (e sem batermos em pretos) – há muitos que nos invejam por esse mundo fora, apesar do mal que gostamos de dizer de nós próprios. Mas será preciso acordarmos e ganharmos juízo porque a papa doce está a acabar.

 

Não acabaria nunca enquanto a União Soviética existisse e a Alemanha estivesse dividida. (Gosto tanto da Alemanha que prefiro que haja duas – lembrava o General De Gaulle). O medo que o Camarada Estaline e os seus herdeiros nos metiam nos ossos tinha efeito salutar nas nossas decisões de europeus do Ocidente: dava força e razão ao que nos unia, punha de lado o que nos afastava e a construção europeia não parava. Se idade e doença não tivessem levado tão depressa desta para melhor os dois predecessores imediatos de Gorbachev, a perestroika e o colapso da União Soviética só teriam chegado dez anos depois, com a União Europeia já pronta para entrega aos europeus, chave na mão, pelo empreiteiro Delors ao serviço do casal franco-alemão (gravado para todo o sempre na sabedoria das nações por Mitterrand e Kohl de mão dada em Verdun).

 

A reunificação alemã deu cabo desse casal. Como no drama de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, que dantes se estudava no liceu, o primeiro marido afinal ainda estava vivo. “Perdida, desonrada, infame” grita da filha inocente a bígama involuntária quando tal descobre, antes de se fechar num convento a expiar a culpa até ao fim da vida. Para a Alemanha Reunida, o centro da Europa passou a ser a Leste. Tem algum respeito ainda pelo Noroeste protestante, à cabeça os holandeses, heróis de Srebrenica e gente de contas certas; Inglaterra indispensável para equilibrar França que não só descobriu que não manda na Europa (tempo foi em que Kohl dizia que o Chanceler alemão, quando ia ver o Presidente francês, devia começar por fazer três reverências) mas também que nem sequer em si própria manda - com os ingleses a irem-se embora, como é que vai ser? – e os de Sul e Sueste que se arranjem, punidos com cegueira analfabeta, norteada por calendários eleitorais teutónicos. Até à reunificação, a Alemanha Ocidental expiara exemplarmente a sua gigantesca culpa (ajudada por perdão de dívida que afastava fantasias de ir para Leste) mas, depois de reunida, a tentação de ser alemã e não cidadã europeia cruza cada vez mais cabeças, deixando mais nódoas negras nos vizinhos.

 

Enquanto a Europa se afunda. Quando agora o Sultão de Istanbul acusa as potências ocidentais de conspirarem contra ele, as potências em vez de mandarem canhoneiras para o Bósforo desfazem-se em desculpas de mau pagador.

 

 

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19.2.16

 

 

Os textos do Romanceiro português e respectivos registos sonoros, quando conservados, vão passar a estar disponíveis online e em acesso livre na plataforma Romanceiro.pt. A preservação deste património, através da digitalização, era urgente, já que a sua manutenção nos formatos em que se encontrava (cassetes áudio e fotocópias em papel) constituía uma séria ameaça à sua preservação. 

 

A plataforma digital será apresentada amanhã, pelas 16h, na Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé), pelo coordenador do projecto, o investigador Pedro Ferré.

 

O objetivo é tornar acessível ao grande público um arquivo sem par no contexto ibérico, que alberga já perto de 14000 imagens de documentos de grande relevo no âmbito da literatura patrimonial portuguesa, nomeadamente do Romanceiro de tradição oral, e cuja expansão está prevista.

 

Nos últimos anos, os investigadores do CIAC  Pere Ferré, Mirian Tavares e Sandra Boto trabalharam o acervo da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, que compreende 660 horas de gravação em 609 cassetes áudio ali depositadas, e onde estão guardadas 3632 versões inéditas de romances e acolhe 10096 versões de romances publicadas entre 1828 e 2010. A plataforma Romanceiro.pt é o resultado do projeto “O Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (1828-2010): sua preservação e difusão”, uma parceria entre a Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé) e o CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação/FCT (Universidade do Algarve / Escola Superior de Teatro e Cinema) com o mecenato da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Concurso de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais (2013).

 

 

 

 

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O Romanceiro é um género poético tradicional que circula desde os finais da Idade Média na memória dos povos de expressão portuguesa, galega, castelhana e catalã, difundindo-se desde então oralmente de geração em geração. Trata-se, portanto, de um património imaterial de uma vitalidade excepcional e de uma riqueza ímpar que importa preservar, numa altura em que a disseminação das novas tecnologias e dos media parece ter aniquilado talvez definitivamente a sua vitalidade e função no seio das comunidades rurais em que ainda permaneciam até há pouco tempo.

 

Remonta a 1421 o primeiro documento conhecido onde se fixa uma versão de um romance, o "Gentil dona, gentil dona", pela mão do estudante maiorquino Jaume de Olesa. Foi, contudo, o Romantismo que encetou o interesse sistemático por este género poético. Desde 1824, foram coligidas milhares e milhares de versões de romances em Portugal, em Espanha e nos países da diáspora portuguesa e espanhola, sem falar na memória romancística que os judeus expulsos da Península Ibérica nos finais do século XV transportaram com eles pelo mundo e que ainda hoje é preservada.

 

Poderíamos, para o caso específico português, referir-nos ao contributo das recolhas e publicações de versões de romances realizadas a cargo de nomes como Almeida Garrett, Teófilo Braga, Leite de Vasconcellos, Consiglieri Pedroso, Alves Redol, Michel Giacometti, Maria Aliete Galhoz, Manuel Viegas Guerreiro, entre tantos outros. Este arquivo alimenta-se, justamente, dos trabalhos de recolha e publicação do romanceiro tradicional português que estes e muitos outros interessados na literatura de tradição oral levaram e continuam a levar a cabo no presente.

 

 

 

Leia mais aqui e aqui

Entrevista com os investigadores aqui

No facebook aqui  

 

 

 

 

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30.1.16

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O Retrovisor vai ter uma nova rubrica semanal, da autoria de Jorge Colaço, que tenho o prazer de apresentar aos Leitores, não porque se trate de um novo convidado, já que vários textos seus figuram neste espaço, mas para saudar a sua renovada presença aqui e dar-lhe as boas vindas.

  

Amigo de Garrett

 

Jorge Colaço começou por ser o desconhecido que, em finais de 2004, depois de ler notícias da descoberta, numa casa particular em Lisboa, duma importante colecção de inéditos do romanceiro garrettiano, tomou a iniciativa de escrever a minha irmã Cristina para a felicitar pelo achado e, perante o seu entusiasmo com a riqueza do material encontrado, adverti-la gentilmente a não esperar muito. Começou aí uma correspondência que deu lugar à amizade que eu herdei. Jorge Colaço acabaria por participar em todos os esforços de divulgação dos manuscritos e por ter nessa divulgação um papel fundamental. Modéstia à parte, a forma como este espólio foi tratado merecia ser um caso de estudo em Portugal. 

 

Retrovisor

 

No meio do esforço algo solitário que representou para mim nos anos mais recentes alimentar este blog, a chegada do Bloco-Notas foi um autêntico balão de oxigénio. Quando há dois anos José Cutileiro me propôs alojar aqui a sua crónica semanal, perguntei a mim mesma se teria sido o chamamento de gente como Cinatti, O'Neill, Nemésio ou Garrett. No caso de Jorge Colaço é simples, na minha família sempre lhe chamámos o Amigo de Garrett.

 

 

Stay tuned, o Dicionário Pessoal  de Jorge Colaço começa dia 6 de Fevereiro. Sai ao sábado.

 

 

 

 

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3.10.15

 

 

 

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   Garrett - Columbano (detalhe)

 

 

 

 

 

 

Carta de Almeida Garrett ao político e amigo Rodrigo da Fonseca Magalhães

 

"Pensa", escreve Garrett em 1846 ou 1847 ao seu amigo, nesta carta inédita que pertence à Biblioteca Nacional. "E se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secreto, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver." Estava-se em plena Guerra da Patuleia, que dividiu o país entre liberalistas e miguelistas, e Garrett oferece-se para ajudar. O "acordo", se existiu, manteve-se mesmo secreto. Não se sabe qual foi — se algum — o envolvimento de Garrett nos bastidores.

 

 

5a feira

 

[...]

Meu Rodrigo, aproveito esta ocasião para te pedir que estejas bem em guarda para te não deixares comprometer com certos sujeitos que nós sabemos. Olha que eles nada te podem dar, e se te pudes­sem dar alguma coisa, não ta davam. Se se chegam para ti é porque sabem que nada têm, e fazem de vampiros para vi­ver do teu sangue. E depois uma de duas, ou te hás-de desfazer deles, e chamam-te traidor, ou os aturas e alienas de ti os verdadeiros valores. No meio destas ruínas em que está Portugal tu podes ter uma bela missão.

 

Isto é como o terramoto de 55: nós não o fizemos, tu não o fizeste. E o que se incarregar de levantar a cidade caída não é responsável pelo que a deitou abaixo. Esta opinião e modo de ver não é meu, é de muita gente, e pode­remos fazê-lo ser do maior número se se for com tento e firmeza.

 

Tu bem sabes que eu não cos­tumo oferecer-me para nada; mas também sabes que sou amigo verdadeiro e eficaz quando a consciência da razão e da alma se juntam às minhas simpatias pessoais. Eu digo a todos que não sou de políticas, e que abdiquei, mas a ti digo-te que escolhi de propósito e de longamão esta posição insuspeita porque vi do princípio que por bastante tempo outra era impossível com proveito público. Creio que me não inganei. Assim vejo todos, e com todos falo em negócios que de outro modo não são tratáveis.

 

Se vires que podemos falar sério e com proveito nestas coisas, e que convém, dize e  falaremos. Os patuleus estão com mais senso do que os eu supunha.

 

Se se tenta alguma coisa, é preciso tentá-lo já, isto é, prepará-lo; e parece-me a mim que posso ajudar-te nal­guma coisa, especialmente porque cuidam que o não pretendo.

 

Ora eu realmente para mim aqui nada quero.

 

Adeus. Pensa, e se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secre­to, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver. E tu bem deves saber que eu não sou poeta em prosa, e que todos valem mais que eu, menos em lealdade e certeza que ninguém mais que eu vale. Teu dedicado amigo

 

JBAG

 

 

*

 

 

A 4 de Março de 1852, ao apresentar o texto do primeiro Acto Adicional à Carta Constitucional, por si redigido, Almeida Garrett proferiu o último discurso na Câmara dos Deputados. Este é um verdadeiro testamento político (a que deve juntar-se a alocução, também derradeira, na Câmara dos Pares, em 10 de Fevereiro de 1854), e nele se inclui este enigma de decifração de profundas convicções:

 

Eu também já perdi as minhas ilusões; também já não creio na maior parte das cousas em que acreditava; mas há uma única crença, é a crença na minha Pátria é na liberdade dela [...]. Mas quando a per­desse, sumia-a no fundo de minha alma para que ma não suspeitasse a Nação Portuguesa.

 

Das bancadas parlamentares que o aplaudiram (no registo dos taquígrafos, emotiva e efusivamen­te o fizeram), não podem contar-se aqueles que terão penetrado o sentido dissimulador, tão do agrado do escritor, que essas palavras contêm.

 

Ora, descrente das soluções e dos oportunismos que enchem páginas na história do nosso liberalis­mo, Garrett aprendeu a dissimular as mais fundas crenças, cobrindo-as sob um manto (ou jogo) irónico de "ilusões" e "crenças" com que manteve incólume uma postura de independência dos partidos e inte­resses particulares de então. Daí a fórmula, que não deixa de ser perturbadora e que podemos traduzir deste outro modo: se hoje deixei de pensar o que ontem posso ter pensado, não afirmo nem desminto tanto o que ontem posso ter pensado como, hoje, o ter deixado de pensá-lo.

 

Fórmula especiosa... e perturbadora! Afinal de contas, fórmula geral de uma "intimidade cons­trangida", que, com o tempo (sobretudo, por força de um tempo histórico vivido), aprendeu a escamo­tear em público as convicções mais íntimas, sem as apagar de todo. Mas quais terão sido estas?

 

Creio que, de um juvenil ponto de partida repu­blicano (de que o federalismo norte-americano foi "a pedra filosofal" dos sistemas políticos) e jacobino (de que as revoluções servem para "colocar os homens no seu lugar"), permaneceu uma dissimulada posição de defesa do que, no primeiro liberalis­mo português, podemos considerar os difusos interesses populares.

 

E, de forma irruptiva e mais ou menos velada, conforme as circunstâncias — nessa "posição in­suspeita" de quem já vira "que por bastante tempo outra era impossível com proveito público" (ver carta inédita junto) — , Garrett surgiu nos picos de maior radicalidade ao lado do partido popular e contra o oportunismo das facções.

 

No geral, manteve o princípio de conservação das liberdades e de estabilidade política que se não confunde com conservadorismo e não pode esconder as crenças subtilmente veladas pelas "endiabradas políticas" que "tudo absorve[ra]m" no nosso longo século XIX.

 

 

 

 

Luís Augusto Costa Dias

in Jornal Público, Caderno "150 anos da morte de Almeida Garrett ", 9 de Dezembro 2004

 

 


 

 

 

* Imagem: Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro concluido em 1926 [pormenor] . Passos Perdidos, Assembleia da República, Lisboa

 

 

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27.9.15

 

 

 

 

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 Cristina de Carvalho Futscher Pereira

17 de Abril 1948 - 27 de Setembro 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ramo de Oiro

 

 

 

Estando eu à minha porta

Com três horas de serão

Vi passar Nossa Senhora

Com um ramo de oiro na mão.

 

 

Eu pedi-lhe uma folhinha

Ela disse-me que não;

Pedi, tornei-lhe a pedir,

Ela deu-me o seu cordão,

 

 

Que me dava sete voltas

À roda do coração.

Sete voltas não são nada

Ó Virgem da Conceição

 

 

Prendei vós esta alma toda

Prendei-ma com vossa mão

Que a metade inda é do mundo

Metade, que a outra não.

 

 

 

Plantai-me esse ramo de oiro

No meio do coração

Ficarei no vosso altar

Como vaso de eleição.

 

 

 

 

Romance popular incluído nos manuscritos garrettianos descobertos pela Cristina em 2004. O poema foi lido no seu funeral e editado numa pagela oferecida aos amigos.

 

 

 

Veja também os posts:

 

 

Efeméride

 

 

LFCL (desde 1952)

 

 

Carta a Garrett

 

 

Fado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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29.12.14

 

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Romanceiro

Manuscrito do Autor

[autógrafo de Almeida Garrett]

 

 

 

A compra pelo Estado Português do espólio garrettiano designado por “Colecção Futscher Pereira” [1], anunciada pelo Secretário de Estado da Cultura no dia 18 de Dezembro, fecha um ciclo iniciado há dez anos pela descoberta, por minha irmã Cristina Futscher Pereira (1948-2005), de manuscritos inéditos de Almeida Garrett que contribuem de forma decisiva para o estudo do Romanceiro português.

 

Fica deste modo assegurada a ampla divulgação deste espólio, o maior desejo de Cristina, além da permanência dos autógrafos em Portugal, nas melhores condições [2]. Por fim, e também importante, com esta aquisição a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas valoriza aos olhos do público a recolha pioneira de Garrett de temas da nossa tradição oral. São relatos de eventos históricos e histórias de amor, transgressão e violência, de grande suspense e final incerto, que mantêm plena actualidade no século XXI.

 

Para a família, a colecção permanecerá ligada à memória de Cristina, de Venâncio Augusto Deslandes e de iniciativas e amizades inspiradas pelo Autor [3]. Entregamos estes papéis com muita satisfação e um bocadinho de nostalgia.

 

 

 

*

 

 

 

 Notas: 

 

1.  A Colecção engloba mais de 400 páginas manuscritas, grande parte delas inéditas, compreendidas no período de 1839 a 1853/54.

Artigo de Luís Miguel Queirós no Público sobre a aquisição da colecção pelo Estado Português. 

 

2.  “O espólio agora adquirido será objecto de um contrato de depósito na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, enriquecendo, desta forma, o já importante espólio garrettiano de que [a instituição] dispõe”, de acordo com o comunicado divulgado pelo Gabinete do Secretário de Estado da Cultura citado pela Agência Lusa.

Espólio Garrettiano da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra [Youtube] 

 

3.

-  Blog garrettiano O Divino , 2004-2005

 

-  A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

Edição oferecida pelo "Diário de Notícias" aos leitores no 140º aniversário do jornal, a 29 de Dezembro de 2004

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

- No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro [Ermitão] 

Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana

Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. 

 

- As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’ [Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários]

Sandra Boto

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

  

 

 

 

Sobre a Colecção Futscher Pereira e Venâncio Augusto Deslandes leia também aqui 

 

 

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19.12.14

 

 

 

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Protagonista e espectador de acon­tecimentos fundamentais na cul­tura, na política e na sociedade por­tuguesas, Garrett (1799-1854) viveu a transição do século XVIII para o século XIX, a viragem do Portugal velho para o Portugal novo. O exí­lio, o desempenho de funções diplo­máticas e outras actividades obrigaram-no a residir alguns anos na Inglaterra, na França e na Bélgica. Teve contacto directo com a vida social e política daqueles países e dos movimentos culturais de van­guarda.

 

Foi um dos principais colabora­dores de Mouzinho da Silveira na redacção e elaboração dos decretos para a reorganização das finanças públicas, da justiça, da divisão ad­ministrativa e que modificaram o sistema governativo. Pertence-lhe, também, uma das leis para a definição da propriedade literária e o direito de autor, contribuindo para a dignificação e independência da criação intelectual.

 

A modernidade começou, entre nós, com Garrett. As raízes da mo­derna poesia portuguesa, no enten­der de José Régio e depois de Óscar Lopes e António José Saraiva na História da Literatura Portuguesa, derivam da obra de Garrett. Prolongou-se até às gerações do Orpheu e da Presença. Sem o Gar­rett das Folhas Caídas não tería­mos João de Deus, nem António Nobre, nem Pascoais, toda a gran­de corrente lírica dos séculos XIX e XX , que retrata muito do comportamento do homem português.

 

Desde sempre o teatro ocupou lugar de relevo nas suas preocupa­ções. Quando Passos Manuel este­ve à frente do Governo (1836-1837) solicitou a intervenção de Garrett para renovar o teatro. Dois exem­plos: a colaboração para organizar o Conservatório e para construir um Teatro Nacional. Integraram-se nesta política cultural as peças que Garrett escreveu e onde recriou grandes ciclos da História de Por­tugal: a revolução de 1385, que res­tituiu a independência e levou ao trono o Mestre de Avis ( O Alfageme de Santarém ); a época dos Desco­brimentos, contemporânea do nas­cimento do teatro português ( Um Auto de Gil Vicente ); a perda da in­dependência em 1580, com 60 anos de ocupação espanhola ( Frei Luís de Sousa); e a governação pombali­na (A Sobrinha do Marquês).

 

Criou, igualmente, uma nova escrita nas Viagens na Minha Ter­ra. Atribuiu à palavra a nitidez do pensamento, a variedade do ritmo, uma arquitectura verbal em que a construção lógica se concilia numa expressão original. As Viagens na Minha Terra abriram caminho à língua e estilo de Eça de Queiroz. Do Carlos das Viagens resultou o Carlos de Uma Família Inglesa, de Júlio Diniz, e o Carlos d' Os Maias, de Eça de Queiroz, qualquer deles elegante, volúvel, sedutor. E não será difícil aproximar o Carlos das Viagens de outro Carlos também de Eça de Queiroz e da sua geração: Carlos Fradique Mendes, exemplo do homem requintado, medularmente europeu.

 

Entre nós, Garrett foi o primeiro a recolher o tesouro poético do povo português. Recuperou da tra­dição oral numerosas composições do Romanceiro, muitas das quais inéditas, conforme revela o DN, hoje, a propósito do espólio de Ve­nâncio Deslandes. Mas ainda lhe cabe um papel precursor nas áreas da etnografia, do folclore, dos estu­dos de antropologia. O que é preciso - salientou - é estudar as nossas pri­mitivas fontes poéticas, os romances em verso e as legendas em prosa, as fábulas e crenças velhas (...) no grande livro nacional, que é o Povo.

 

Lançou um movimento que se reflectiu até aos nossos dias. Cha­mou a atenção para os atentados à paisagem, aos monumentos, às bi­bliotecas e arquivos. Apesar dos aproveitamentos políticos, para al­gumas orientações do Integralismo Lusitano e do Salazarismo, Garrett iniciou a reabilitação e classifica­ção do património articulando as necessidades e interesses locais com a história, a geografia e o quotidiano, a fim de assegurar os fun­damentos da identidade do País.

 

Em tudo quanto fez Garrett, sem deixar de ser português, aproximou-se da Europa numa perspec­tiva aberta, dinâmica e plural, de sentido humanista.

 

 

António Valdemar

in [Garrett] "Um dos Precursores da Modernidade" 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

*

 

Imagem:

Desenho de Julio Gil  

Ilustração de Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett

Diário de Notícias, 24 de Janeiro de 1955

 

 

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13.12.14

 

APV still 378 blog

Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça gravam mulheres da Beira a cantar.

Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP 1968] 

 

 

[... ] Reco­lhendo a letra dos Romances desa­companhada da respectiva música, o autor das Viagens na minha terra fez obra incompleta, truncada. Não o culpemos muito por isso. Pode­ria ele ter procedido diferente­mente ? Garrett era, antes de mais nada, um poeta, um escritor, cer­tamente pouco familiarizado com o fenómeno musical. Não era fol­clorista (a disciplina do folclore achava-se então ainda nos limbos) para poder proceder à sua reco­lha (aliás feita indirectamente, através de comunicações de ter­ceiros) com verdadeiro método científico.

 

Lembremo-nos, ademais, que, nos países que de certo modo o impulsionaram no estudo da lite­ratura popular e que lhe minis­traram as ideias interpretativas desta, a Inglaterra e a Alemanha, ou, antes, o movimento romântico naquelas duas nações, também as coisas não principiaram doutro jeito e que só mais tarde ali se começou a. prestar a devida aten­ção às melodias populares e a con­siderar em conjunto o binómio poesia-música.

 

No entanto, ao próprio Garrett. não passou acaso despercebida a deficiência do seu trabalho e o quanto importaria, sob o ponto de vista prático, isto é, para o apro­veitamento artístico dos materiais fornecidos pela nossa poesia tra­dicional, associar esta às melodias que com ela nasceram ou que com ela fraternamente andam de par. Comentando, no mesmo 2.° volume do Romanceiro, o Romance da «Bela Infanta» (que classifica de chá­cara), diz que o introduziu, com algumas alterações indispensáveis, no 5.º acto d' O Alfageme de Santarém, fazendo-o «cantar por um coro de mulheres do povo, à hora do trabalho». E relata, entre satisfeito e pesaroso: «...observei o sensível prazer que tinha o pú­blico em ver recordar as suas anti­guidades populares, que nem ainda agora deixaram de lhe ser caras, Mas por mais que fizesse, não consegui que as cantassem a uma toada própria e imitante, quanto hoje pode ser, da melopeia antiga com que há séculos andam casa­das essas trovas. Ainda em cima, os cantores desafinavam e iam fora de tempo na música italiana e com­plicada que lhe puseram. Apesar de tudo, os espectadores avaliaram a intenção e a aplaudiram.»

 

Dos Romances compendiados por Garrett conhecemos nós hoje tão só as toadas da Bela Infanta, do Bernal- Francês, do Conde Yano (ou Conde Alberto), do Conde de Ale­manha, da Silvaninha, do Reginaldo, do Conde Nilo, da Donzela que vai à guerra (também conhe­cido por D. Martinho), da Nau Catrineta, de O cego, de Linda-a-pastora (ou O príncipe e a pastori­nha), do D. João e de A morena. (E possível que ainda um que outro deles haja por aí recolhido por algum curioso ou folclorista benemérito de que não temos no­tícia). Mas o ponto é saber-se se tais toadas são de facto as que, à altura da colação garrettiana, se cantavam com as letras que ali se referem. Não terá havido em muitas delas permutas e transposições? Já se verificaria então o fenómeno, hoje corrente, de a uma determi­nada toada se poderem atribuir vários romances ou de um destes ser cantado com melodias diferen­tes ? Que alterações ou transfor­mações se terão produzido nessas toadas no decurso de um século?

 

A coisa seria importante de sa­ber-se para a organização e estudo quanto possível documentado do nosso Romanceiro no ponto de vista poético-musical; mas crêmo-la já agora impossível de apurar-se.

 

A tarefa sistemática da recolha da poesia e música dos Romances nunca chegou a ser empreendida entre nós, e talvez já seja tarde para a tentar. E que prejuízo daí não resultou, a avaliar pelos belos mas desgarrados espécimes com que se consegue topar numa que outra publicação ou ouvir ainda (cada vez menos, infelizmente) da boca do próprio povo! (*)

 

O cometimento de Garrett ficou incompleto; mas saibamos fazer jus ao grande escritor, hoje, no ano do seu Centenário, por haver dado o sinal de partida, ao menos num aspecto do conhecimento, res­guardo e apreço do rico tesouro da nossa arte popular.

 

Fernando Lopes Graça

in  A propósito do Romanceiro de Garrett

Vol. III de Gazeta Musical (Academia de Amadores de Música) nr 51 Dezembro de 1954 

 

 

(*) Nota do Autor: — Já agora, consignemos aqui os Romances (na maior parte incompletos, outros com interpolações várias) que, acom­panhados de música, andam dispersos por várias publicações de que temos conheci­mento, fazendo, para algumas das toadas recolhidas, a prudente reserva da fideli­dade da transcrição musical (por exemplo, para os das colecções de Pedro Fernandes Tomás, a quem muito se deve neste capí­tulo, mas cujo rigor musical é frequente­mente duvidoso), e formulando votos por que a presente lista possa vir a ser acres­centada com comunicações dos nossos es­tudiosos da matéria.

I. O Conde de Alemanha, Reginaldo, O Capitão da Armada, Nau Catrineta, O Cego, Frei João, Jesus pobrezinho, in Pedro Fernandes Tomás: Velhas Canções e Romances Populares Por­tugueses (França Amado, Coimbra, 1913).

II. O duque de Alba, A noiva enganada, in Pedro Fernandes Tomás : Cantares do Povo (França Amado, Coimbra, 1913)

III. O Caçador, Pastora, Sta, Catarina, Milagre da Virgem, in Pedro Fernan­des Tomás: Canções Portuguesas do século XVIII à actualidade (Coim­bra, Imprensa da Universidade, 1934).

IV. D. João, D. Fernando, D. Angela, Deus te guarde pastorinha, Mineta, A menina cativa (?), in P.e Firmino A. Martins: Folklore do Concelho de Vinhais, 2º vol. (Lisboa, Imprensa Nacional, 1939).

V. O lavrador da arada, O homem rico, Conde Alardo, Santa Iria, in António Avelino Joyce: Revista Ocidente, IV.

VI. Lavrador da Airada, D. Silvana, Santa Iria, O príncipe e a pastorinha, Ora, valha-me Deus, Morena, O rei e a pastora, D. Martinho, in J. Diogo Correia: Cantares de Malpica (Livra­ria Enciclopédica de João Bernardo, Lisboa> 1938).

VII. O cego, Conde Nino, Conde Albano, Rosa, a pastorinha, Nau Catrineta, Dona Silvanas Irene (sem letra), Bernal Francês (sem letra), Lamenta­ções da freira (sem letra), Dona In­fanta, Gerinaldo, O lavrador da arada, in Gonçalo Sampaio: Cancioneiro Mi­nhoto, 2,a edição (Livraria Educação Nacional, Porto, 1944).

VIII. O lavrador da arada (três versões), Romance ("sem titulo), in Edmundo Arménio Correia Lopes: Cancioneirinho de Fozcoa (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926).

IX. Santa Iria, A nau Catrineta, in Fran­cisco de Lacerda: Cancioneiro Musi­cal Português   (Junta de Educação Nacional, Lisboa, 1935).

X. Rosa, a pastorinha, Confissão da Vir­gem, in Sales Viana: Cancioneiro Monsantino (Edições SNI, Lisboa).

XI. A bela Infanta, in Rodney Gallop: Portugal, a book of Folk-ways (Cam­bridge, at University Press, 1936),

XII. Silvaninha (var.), Bela Infanta, in Ro­dney Gallop: Cantares do Povo Por­tuguês (Livraria Ferin, Lisboa, 1937).

XIII. Reginaldo (ou Gerinaldo), O homem rico, in Fernando Lopes Graça: A Can­ção Popular Portuguesa (Publicações Europa-América, Lisboa).

 

Deve observar-se que certos destes Ro­mances se acham repetidos ou constituem lições diferentes do mesmo tema; estão neste caso, por exemplo, Mineta (O cego), Rosa, a pastorinha (O príncipe e a pastora, Pastora), Frei João (Morena), Jesus pobre­zinho (O lavrador da arada). Isto apenas quanto às letras, porquanto as melodias não se repetem.

 

 *

 

Notas:

 

1. Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP, 1968] de excerto reproduzido no documentário Uma visita aos afectos do compositor  [Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça © Sílvia Camilo 2014] 

Imagem gentilmente cedida por Sílvia Camilo a quem muito agradeço. 

 

2. O romance popular Linda-a Pastora com introdução de Garrett neste blog aqui

 

3. Artigo de Gonçalo Frota no Público O cante ouve-se com o corpo, diante das vozesaqui

 

4. Mais neste blog nas tags Lopes Graça e Garrett

 

 

 

 

 

 

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12.12.14

 

A descoberta de inéditos do Romanceiro de Almeida Garrett foi anunciada a 7 de Dezembro de 2004 pelo Diário de Notícias [1]. No dia 9 de Dezembro do mesmo ano, integrado num caderno dedicado ao Autor por ocasião dos 150 anos da sua morte, saiu no Público [2] o romance popular “Fonte da Cruz”. 

 

 

Fonte da Cruz título.jpg

 autógrafo de Almeida Garrett

 

 

As primeiras e últimas coplas deste romance são uma das mais antigas reminiscências de minha infância. Estou daqui vendo ainda o grupo de crianças que nos sentávamos no chão para o ouvir contar a uma certa pequena pouco mais velha que nós, filha de uma boa mulher que fora ama de leite de minha mãe. Isto é dizer que eu teria quatro anos, os mais velhos de entre nós seis ou sete, e a nossa cantora os seus oito ou nove anos. Era uma santa gente que morava para o Bom Jardim, no Porto, e vivia de pequeno mas honesto tráfico, protegidos por meus pais. A filha ia passar oito ou quinze dias no “Castelo”, pequena quinta nossa, situada daquém Douro. E era um dia de alegria o em que ela chegava, era choro que não acabava quando se partia. Porque ela sabia, além destes cantares ao divino, todas as xácaras da Silvana, da Bela Infanta, e mil outras histórias em prosa e verso, como as da «Maria Cortiço», da «Maria Sabida» do «Rei dos Ratos», «Gata Borralheira», «Rei Ramiro» além de infinitas aventuras de bruxos, lobisomens, moiras incantadas [3] , duendes, etc, cujos títulos individuais me não lembram; era um romanceiro vivo, uma segunda e mais completa edição daquela erudita e copiosa Brígida velha que, em outros lugares de minhas escrevinhaduras, tenho celebrado e citado.

 

Estas primeiras e últimas coplas eram as que só me lembravam quando a nossa lavadeira, que é uma boa mulher de Loures, aqui veio hoje, 15 de Abril de 1843, e a ouvi cantando a trova na cozinha donde a chamei e, sem grande dificuldade — coisa rara ! — pude obter que ma deixasse copiar, o que fielmente fiz, emendando apenas algum verso demasiado esticado ou curto demais: que poucos foram.

 

Fonte da Cruz

 

Deixa-me ir à fonte nova

Que nasceu ao pé da Cruz:

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

Um cego, que abriu a fonte

O cego já achou luz,

Que lhe deu água nos olhos

Da fonte da vera Cruz.

 

Fonte nova, fonte santa,

Fonte de amor que reluz!

Santa Maria ao pé dela,

San’ João com seu capuz.

 

Outra fonte fazem ambos

A chorar o seu Jesus.

—“ Minha mãe, esse é teu filho”

Diz o Salvador da Cruz,

 

“João, essa é tua mãe,

Que assim o quero e dispus

À hora da minha morte;

E cá vos fique esta luz:

 

Que o meu amor não tem fim,

E que entre vós dois o pus

Para se lavar o mundo

Na fonte da vera Cruz.”

 

Quem quer vir à fonte nova

Que se fez ao pé da Cruz?

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

 Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Notas

 

1. Almeida Garrett foi «o primeiro compilador do nosso Romanceiro, ou seja, de narrativas diversificadas, de vária índole, da nossa tradição oral popular, destinadas a serem meio recitadas, meio cantadas» explica a investigadora Ofélia Paiva Monteiro. O autor terá dedica­do grande parte da sua vida a esta recolha. «Entre 1843 e 1851, Garrett editou os três tomos do "seu" Romanceiro, dizendo na Introdução do segundo que a sua colecção viria a ser consti­tuída por cinco livros», lembra esta professora. Mas o elenco publicado só corresponde aos li­vros I e II. «Os manuscritos ago­ra achados parecem comportar o material compilado para os to­mos que não chegaram a vir a lume; e complementam mate­rial que já tinha sido dado a co­nhecer por um Cancioneiro, au­tógrafo garrettiano (que traz a indicação de ter sido começado em 1824)».

 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

 

2. "Fonte da Cruz", um poema recitado por uma lavadeira saloia de Loures, foi descoberto em Março [2004] pela família Futscher Pereira num espólio herdado, e mantém-se inédito. Este poema (também chamado "romance" ou "cancioneiro") da tradição oral popular tem origem medieval e Almeida Garrett reuniu-o no Livro III das "Lendas e Profecias", todo ele inédito. Começa com uma introdução, do próprio Garrett.

 

Público, 9 Dezembro 2004

 

3. Na transcrição dos manuscritos para o Público, desdobraram-se abreviaturas e pontuou-se raramente para compreensão dos textos, mantendo embora a redacção de palavras peculiares na ortografia garrettiana (como "incarregar" ou "incantadas". [Luís Augusto Costa Dias]

 

 

4. Sobre a divulgação dos manuscritos achados em 2004 leia também neste blog o post Long Live Garrett 

 

 

 

 

 

 

 

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9.12.14

 

garrettiana1_g.jpg

 Foto: Júlio Novais (1904)

 

Nos 160 anos da morte de Garrett a BNP revisita a Exposição Garrettiana de 1904

aqui

 

No ano do cinquentenário da morte de Almeida Garrett, a Biblioteca Nacional promoveu uma exposição comemorativa, era então seu director o erudito e bibliófilo Xavier da Cunha (além de crítico e poeta, também sob o pseudónimo de Olímpio Freitas), ao tempo fundador da Sociedade Literária Almeida Garrett e membro dos seus corpos dirigentes.

 

Admirador de Almeida Garrett, Xavier da Cunha esteve no centro das comemorações, antes de mais no centenário do nascimento, em 1899, propondo à Academia das Ciências de Lisboa a edição de um «livro áureo» do autor de Viagens na Minha Terra, iniciativa que não vingou. Nos anos subsequentes, porém, sobretudo a partir de 1903, a proposta para a trasladação dos restos mortais de Garrett para o Panteão dos Jerónimos, a cargo da Sociedade Literária Almeida Garrett e ocorrida a 3 de maio, foi amplamente difundida pela imprensa portuguesa, com destaque para o Diário de Notícias, de que era então redactor principal o escritor Brito Aranha.

 

No ano seguinte, ao mesmo tempo que Teófilo Braga coordenava as Obras Completas de Almeida Garrett, em diversos volumes de uma «Edição ilustrada» de pequeno formato e em dois tomos de uma «Grande edição popular», a Biblioteca Nacional chamou a si a organização de uma exposição de «homenagem simples e modestíssima» ao escritor romântico, segundo descrição no Boletim da Sociedade Literária Almeida Garrett . Inaugurada a 9 de dezembro de 1904 pelo príncipe real D. Luís Filipe e seu irmão e futuro rei D. Manuel, com assinaturas inscritas em Livro de Visitantes, desta exposição não chegou a ser impresso catálogo (cujo original manuscrito consta existir na Sala Ferreira Lima, FLUC), porém o seu registo fotográfico foi deixado por Júlio Novais e reunidos numa miscelânea os jornais diários que noticiaram o evento.

 

 

 

 

Nota:

Sobre a Sociedade Literária Almeida Garrett e o escritor Xavier da Cunha leia neste blog o post Impressões Deslandesianas.

 

Mais neste blog na tag Garrett

 

 

 

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27.9.14

 

 

Cristina Ténis 1965.jpg

 

 

Cristina Futscher Pereira

17 Abril 1948—27 Setembro 2005 

 

 

 

 

 

Caro Almeida Garrett

 

 

Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.

 

O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.

 

Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.

 

Mas o achado constituiu também um encontro.

 

A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno «templo», de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.

 

Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.

 

Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned you know what I mean? —, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.

 

Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.

 

Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.

 

Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.

 

O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é…), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através da quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.

 

Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.

 

Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual eu tive a honra e o gosto de participar.

 

Ele aí – aí?, aqui? – fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?

 

Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.

 

 

 

 

Notas:

 

Este texto fechou o blog O Divino em 2005. O blog garrettiano fora criado por Cristina em 2004 e foi retirado dos blogs do sapo cinco anos depois.

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Retentiva e Conteúdos em Português. 

 

 

Leia também os posts

 

Long Live Garrett

 

Garrett inédito

 

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

Garrett leitor de Vicente

 

Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909)

 

 

Inéditos do romanceiro garrettiano neste blog na tag Garrett 

 

 

 

 

 

 

Lettre à Garrett (2005)

 

 

Cher Almeida Garrett,

 

Pardonnez-moi de vous interpeller ainsi, si soudainement, mais, croyez bien que je n’oserais pas vous importuner pour un rien. Partir, et partir tôt, est un drame que vous connaissez bien. Partir trop tôt. Je sais, donc, que vous comprendrez ce que j’ai à vous dire.

 

Votre nom et votre œuvre sont encore vénérés dans ce pays qui est le vôtre, même si on leur voue, en somme, l’estime accordée habituellement aux monuments. Révérés, mais en vérité, oubliés, ignorés et vandalisés. Rien de nouveau, nous le savons bien.

 

Imaginez-vous que les manuscrits inédits de votre Romanceiro ont été découverts dans un tas de papiers qui se trouvait chez Venâncio Deslandes, jadis directeur de l’Imprensa Nacional. Il n’est pas difficile d’imaginer les raisons qui auront conduit Monsieur Deslandes à rapporter le manuscrit chez lui mais nous ne saurons probablement jamais le fin mot de l’histoire qui explique qu’ils y soient restés jusqu’à ce que Cristina Futscher Pereira ne les déniche.

 

Mais cette découverte fut aussi une rencontre.

 

Car, dès cet instant, le destin de Cristina Futscher Pereira s’est mêlé à celui de ces documents. Et vous, mon cher Garrett, sachez que vous avez nourri son enthousiasme. Elle pressentait que ces manuscrits étaient une manifestation de sa bonne étoile et alla même jusqu’à construire ce petit temple d’où je vous écris, pour y partager les bonnes nouvelles avec tous ceux qu’elles intéresseraient.

 

Mais, (presque) personne ne se montra intéressé. Enfin, il y eu quelques lueurs d’intérêt pour ces documents, noblesse oblige , bien qu’elles fussent mornes et brèves. Qui sait, peut-être sommes-nous fatigués d’être un Pays, d’avoir une Histoire si pesante, au bilan si incertain.

 

Et puis, un Romanceiro, n’est-ce pas quelque chose de complètement has been, si old fashioned – you know what I mean? – quelque chose qui appartient à un monde qui n’est plus et qui a donc cessé de nous intéresser ? Bien sûr, il convient de le protéger et quelqu’un doit se charger de conserver ces choses. Ça pourrait venir à manquer, un jour, qui sait ?

 

Et pourtant, cher ami, vous avez bien peu de raisons de vous plaindre. En dépit de l’infortune pédagogique de Voyages , vous faites encore partie du canon, personne ne vous réfute l’épisode de Mindelo, la scène des théâtres vous est encore ouverte, le frac vert, la cravate colorée et le chapeau blanc provoquent encore bien des émois chez la gente féminine. De votre poésie, il reste Folhas Caídas (dont le pathos augmente quand on connaît l’histoire de la vicomtesse de Luz) et votre éloquence résonne encore vaguement au parlement. Tout le monde n’a pas la chance de pouvoir en dire autant.

 

Mais en réalité, votre œuvre est bien peu lue et, hélas ! , rares sont ceux qui parlent encore cette langue dans laquelle vous avez écrit ces pages si remarquables.

 

Poursuivons. J’ai connu Cristina à cause de vous. Disons que c’est l’écrivain illustre qui est à l’origine de notre rencontre. A peine m’avait-elle fait part de ses projets que je lui disais de ne rien attendre, ou si peu. Mais mon scepticisme a cédé face à l’énergie qui l’animait et à son désir d’éveiller un intérêt renouvelé pour votre personne, cher Garrett, et pour votre œuvre. Comment aurais-je pu refuser ?

 

Le résultat de cette collaboration est là, dans ces pages écrites dans l’éther (vous me pardonnerez, cher ami, de ne pas me risquer à la moindre explication...) mais aussi, dans ce riche échange épistolaire d’où est née une amitié certaine.

 

Cher Almeida Garrett, Cristina Futscher Pereira n’est plus.

 

Elle est partie trop tôt, comme vous. Avec elle, disparaît également cet espace qu’elle vous avait consacré et auquel j’ai eu l’honneur et le plaisir de participer.

 

Et lui là, – là ? Ici ? – reste pour témoigner de ces battements de cœur que vous avez provoqués tout au long de sa dernière année de vie. Cristina a fait ce qu’elle a pu jusqu’à ne plus pouvoir. Mais son exemple est là et, qui sait, peut-être fera-t-il des émules, peut-être sera-t-il repris ? N’est-il pas vrai que nous lui sommes tous redevables ?

 

C’est le devoir accompli - dont je me suis moi-même investi - que je vous salue, toujours plein d’estime et d’admiration.

 

 

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Si les morts et les époques se rejoignent et se mêlent comme dans La Tour de Barbela de Ruben A., vous finirez par faire la connaissance de Cristina. Je vous demande de lui accorder le traitement que l’on réserve aux amis sincères et dévoués.

 

 

 

Traduction de Laurence Corréard

 

 

 

Lettre à Garrett fut le dernier texte publié dans O Divino , un blog créé par Cristina en 2004.

 

 

 

 


14.2.14

 

 

 

 

[...] Aos 72 anos de idade, um ilustre poeta açoriano começa a escrever exaltados versos de amor tardio a uma mulher. Prolonga essa escrita por cerca de quatro anos e ela ocupa para cima de 220 páginas do volume agora editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em edição da responsabilidade de Luiz Fagundes Duarte, Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga. Pensa em publicar em vida uma parte substancial dessa poesia, embora o livro só venha a sair a 14 de Fevereiro de 2003, isto é, a seis dias de se completarem vinte e cinco anos sobre a sua morte e, pelo menos desta vez adequadamente, a coincidir por um acaso feliz com a data conhecida como «dia dos namora­dos». No deslumbramento que sente, há dois aspectos que permitem relacioná-lo com outros casos: um é o do Garrett das Folhas Caídas, já referido, experiência de maturidade e libertação erótica, vivencial e poética, que na época foi quase revolucionária, mas que hoje, ante os poemas de Nemésio, mais se diria uma tímida produção para ser estudada em colégios de freiras; o outro é um paradigma humano e literário que implica uma experiência em que se cumulam maturi­dade, consciência da idade vivida e rejuvenescimento: refiro-me ao de Fausto e Margarida, com alguma ambiguidade, aliás irrelevante, no deslizamento da identificação com a personagem, Fausto, para a identificação com o próprio autor, Goethe: «Que tudo isto, afinal, são glosas de Goethe e Margarida», diz Nemésio, ou ainda:

 

No amor de Margarida eu, Goethe, me renovo.

Ah, Goethe victorino, como estes Versos finos cansam!

Goethe, se o for,  —  Victória a Margarida!

 

Mas paz a Margarida

Na praia da Victória

Onde o mar amanhece

E lhe traz peixe fresco [...]

 

Para além dos vários jogos de palavras a partir da onomástica, de que fica dado um exemplo, a coincidência de nomes, habilmente explorada pelo poeta português, entre a heroína de Goethe e a musa de Nemésio, funciona de modo a estabelecer o paralelo entre dois homens idosos e sabedores, dois criadores, que se transfiguram pela experiência amorosa. E também nas idades das protagonistas haveria por certo uma notável disparidade, uma vez que a Gretchen do Fausto é uma jovem inexperiente e Margarida Vitória contava 54 anos muito vividos em 1973, à data em que estes textos eclodem e explodem... Mas o princípio actuante de ambas estas figuras femininas, na vida e, para o que nos interessa, na expressão lírica da criação literária, é semelhante porque ambas proporcionam aos seus interlocutores entreverem a recuperação da juventude perdida e um intenso sentimento de felicidade.

 

 

 

Vasco Graça Moura

in Discursos vários poéticos ["Anfíbios sistemas de palavras", ou a poesia de amor de Vitorino Nemésio* apresentação de Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga (IN-CM, 2003)]

Edição © Babel, 2013

texto ©Vasco Graça Moura, 2013

 

 

Imagem: aqui

 

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9.12.13

 

 

Ultimamente tenho abrandado o ritmo de posts, às vezes por falta de tempo para dedicar ao blog e outras vezes por falta de material e de inspiração. Gostaria de ter chegado aos 500 nestes cinco anos mas o meu espólio familiar tem naturalmente limites e, de momento, não tenho novas colecções em mãos. As minhas leituras também se têm prestado menos, nos últimos tempos, à composição de vinhetas politico-literarias.

 

Serendipity:

 

Estava eu nesta dificuldade quando José Cutileiro me telefona a propor — muito cerimoniosamente, o que ainda me faz sorrir — alojar a sua crónica “Bloco-Notas” no Retrovisor. Nesta blogosfera recheada de espaços tão apetecíveis, anuncia-me que, of all places, gostava de estrear-se neste cantinho. Terá sido o chamamento de gente como Cinatti, O’Neill, Nemésio ou Garrett?

 

Preciso de explicar que José Cutileiro é o meu Perfect Reader, o leitor ideal, o leitor a que aspira todo aquele que escreve, o leitor exigente que leu o que escrevemos de fio a pavio, percebeu tudo e gostou do que viu. Neste caso, não só gostou como se deu ao trabalho de redigir e publicar na revista do MNE uma resenha elogiosa de Retrovisor, um Álbum de Família, ultrapassando largamente tudo o que eu poderia esperar em termos de reconhecimento de um trabalho tão circunscrito. Nem sequer nos conhecíamos pessoalmente em 2009, foi o meu irmão que lhe deu o livro.

 

Desta feita, o meu leitor ideal dá-me a enorme alegria de vir arejar este "cabinet de curiosités", que andava muito precisado, e abrir-lhe as portas a novos leitores, a quem dou desde já as boas vindas. 

 

 

Stay tuned, o Bloco-Notas de José Cutileiro começa a 11 de Dezembro. Sai à quarta-feira.

 


26.3.12

 

Ninguém duvide de que lembra este ano um grande escritor e um grande português. Cuidado, porém, não pretenda encandear com a luz brilhante alguns focos bem mais espirituais que, mesmo depois da morte de Garrett, se acenderam por cá.

VITORINO NEMÉSIO  (1)

 

Respeitemos Almeida Garrett, homem admirável. Mas saibamos, por amor da poesia e de nós próprios, quem são os nossos grandes poetas.

JORGE DE SENA (2)

 

 

 

 

[...] Na altura da publicação das Folhas Caídas (1853), Garrett está com cinquenta e quatro anos, bem próximo daquele episódio que todos tememos e que nunca ninguém pôde cantar ou contar, a não ser por interpostas experiências. Mas se ele não pôde cantar ou contar a sua morte, o mesmo não se poderá dizer, com as devidas cautelas hermenêuticas, da sua vida — da que efectivamente viveu e, sobretudo, da (ou das...) que foi laboriosamente construindo em benefício próprio e dos outros, a ponto de se tornar muito difícil separar com nitidez a primeira das segundas. Nem sei mesmo se ele o conseguiria, no caso, duplamente improvável, de cá volver aferrado ao princípio de que os grandes criadores são fiáveis em questões de posteridade. Com efeito, de quem falam os professores-críticos Nemésio e Sena nos excertos aqui escolhidos para epígrafe? Do «divino» Garrett, por ocasião do primeiro centenário da sua morte, ou dos grandes poetas que ambos, não sem razão, julgam ser? Provavelmente de uma coisa e outra, na senda, aliás, do ilustre homenageado, que não consta haver alguma vez pecado por acanhamento em matéria de glória pessoal e artística. Garrett sempre foi uma obsessão de Garrett, como é sabido e logo ressai da Advertência — habitual expediente seu, sob este nome ou nomes afins — que precede as Folhas Caídas. Escrita em Janeiro para a primeira edição, e deixada intacta na segunda (provavelmente de Abril), essa Advertência materializa mais uma das suas múltiplas auto-encenações de teor lúdico-cognitivo. Na circunstância, pondo o «autor» a discorrer sobre o «poeta», visto este como inconfundível protagonista do que aquele chama a sua «vida poética» — «vida» teatralmente dada por conclusa no limiar das Flores sem Fruto (1843), mas que agora se retoma, depois da inevitável palinódia («Enganei o público, mas de boa-fé, porque me enganei primeiro a mim»). Repare-se, porque me parece importante: embora cúmplices, o «autor» e o «poeta», tal como as respectivas «vidas», interseccionam-se, porém não se confundem. O «autor» é o escritor prestigiado, figura conhecida do público burguês em expansão, partícipe de uma actividade socialmente relevante e com bastas provas dadas ao nível de vários tipos de discurso escrito, com relevo para o discurso literário. O «poeta», esse é outra coisa; é, por assim dizer, aquela parte do escritor que os outros toleram mal, mas que ele privilegia e acarinha — de modo envergonhado e reticente nos verdes anos, de modo desinibido e frontal nos anos crepusculares. Ou então, por palavras que o narrador das Viagens talvez se não importasse de secundar: o poeta e a «poesia» subsistem no escritor para, em momentos cruciais, o redimirem da «prosa» a que o século o obriga. Ora, as Folhas Caídas corresponderão, para Garrett, ao mais crucial desses momentos: o da iminência do fim, dos balanços inadiáveis. Ele sabe que não pode protelar mais a ocasião de sensibilizar o leitor para aquilo em que sempre acreditou e estas «folhas» mostram bem: o indiscutível e perene primado da dupla poeta/poesia num tempo votado à imanência, embora nostálgico da antiga transcendência. Em meu entender, é fundamentalmente por essa dupla que passa a compreensão do que estas «folhas de poesia» representam, quando observadas na perspectiva da tradição e da modernidade. Correndo porventura o risco de me tornar polémico, adiantarei mesmo mais: na derradeira obra de Garrett, a modernidade emana do poeta; a tradição, da poesia. Vejamos como, partindo da Advertência, e a ela volvendo quando se justifique. Não olvidemos que estamos perante um mestre da contradição — instrumento da maior fecundidade nos modernos, como ele próprio nunca se cansou de ensinar...

 

 

F. J. Vieira Pimentel

in "A Modernidade, a Tradição e Garrett: tópicos para uma releitura das Folhas Caídas" (capítulo 2/pp.194-195) 

Colóquio Letras nº 153/154 no segundo centenário de Almeida Garrett/ Julho-Dezembro 1999 aqui

 

 

Notas: 

1. Vitorino Nemésio, Conhecimento de Poesia, Lisboa, Editorial Verbo, 1970, p.79

2. Jorge de Sena, Estudos de Literatura Portuguesa-1, Lisboa, Edições 70, 1981, p.111

 

 

 

 

 

 

Folha de rosto da 1ª edição

 

 


 


20.3.12

 

 

 
 
 

 

 

 

 

Voici quel est l'unique privilège des poètes: jusqu'à leur mort ils peuvent être amoureux. Il est vrai que je ne leur en connais pas d'autre. La plupart des gens ont leurs périodes dans la vie en dehors desquelles il ne leur est pas permis de connaître de pas­sion. Les philosophes prétendirent à la même faveur, mais elle ne leur fut pas concédée par la reine Opinion, qui est souveraine absolue et juge suprême contre qui personne ne peut faire appel ni porter plainte.

 

Anacréon chanta ses amours alors qu'il avait des cheveux blancs, et personne ne s'en étonna. Aristote devait avoir la barbe grisonnante quand il eut sa dernière aventure car aujourd'hui encore on lui en fait grief.

 

Or, philosophe, je ne le suis certes pas, je l'ai déjà dit: quant à être poète, j'y ai quelques prétentions, et, à vrai dire, j'ai connu des accès assez aigus de cette maladie, et je pourrais bien m'en prévaloir pour me faire pardonner certaines fragilités du cœur... Pourtant il n'en est pas question, je ne veux pas présenter d'excuses comme si j'étais coupable, mais me défendre comme ayant la raison et le bon droit pour moi.

 

Je suis d'accord avec mon ami Yorick, le très sensé bouffon du roi de Danemark, celui qui ressuscita par la suite chez Sterne sous une si élégante plume; je suis tout à fait d'accord avec lui. — Toute ma vie — dit-il — j'ai été amoureux soit de cette prin­cesse soit d'une autre, et il en sera ainsi, je l'espère, jusqu'à ma mort, fermement persuadé que, si un jour je commets une action vile, mesquine, cela ne se fera qu'entre deux passions; dans ces intervalles je sens mon cœur se fermer, mes sentiments se refroi­dissent, je ne trouve pas deux sous à donner à un pauvre... C'est pourquoi j'évite de toutes mes forces d'être dans un état pareil; et dès que je m'enflamme à nouveau je redeviens la générosité et la bienveillance mêmes.

 

Yorick a raison, il avait bien plus de raison et de bon sens que son auguste maître, le roi du Danemark. Pour peu que se généralise le principe, il est à tout jamais et en toute chose indis­cutable, et ne saurait supporter la moindre exception. Le cœur humain est comme l'estomac humain, il ne saurait rester vide, il a toujours besoin d'aliments: sain et généreux, seules les affec­tions peuvent lui en procurer; la haine, l'envie et toute autre mauvaise passion sont des stimulants qui ne font qu'irriter et ne sustentent pas. Si la raison et la morale nous recommandent d'éviter les passions, si les chimères philosophiques, ou d'autres, nous les interdisent, quel aliment donnerez-vous au cœur, que devra-t-il faire? Se nourrir de sa propre substance, se consu­mer... La vie s'altère, la dissolution morale de l'existence s'accé­lère, la santé de l'âme est impossible.

 

Celui qui peut vivre ainsi vit pour faire le mal ou pour ne rien faire.

 

Or, celui qui n'aime pas, qui n'aime pas passionnément, son enfant s'il en a un, sa mère si elle est encore en vie, ou la femme qu'il préfère à toute autre, cet homme-là est celui que j'ai dit, et Dieu me préserve de le rencontrer.

 

Et surtout qu'il n'écrive pas: il doit être terriblement ennuyeux.

 

 

 

 

Almeida Garrett

in Voyages dans mon pays (Chapitre XI, p. 67-68)

Traduit du Portugais par Michelle Giudicelli

© La Boite à Documents/Éditions UNESCO 1997

 

 

 

 

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13.3.12

 

 

 

 
 

Yorick and the Grisette

Gilbert Stuart Newton (1797-1835) 

 

 

«Estou, com o meu Yorick, o ajuizadíssimo bobo de el-rei da Dinamarca, o que alguns anos depois ressuscitou em Sterne com tão elegante pena, estou sim. ‘Toda a minha vida’ – diz ele – ‘tenho andado apaixonado já por esta já por aquela princesa, e assim hei-de ir, espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca há-de ser senão no intervalo de uma paixão à outra: nesses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez réis que dar a um pobre... por isso fujo às carreiras de semelhante estado; e mal me sinto aceso de novo, sou todo generosidade e benevolência outra vez.’

 Yorick tem razão, tinha muito mais razão e juízo que seu augusto amo, el-rei de Dinamarca. Por pouco que se generalize o princípio, fica indisputável, inexcepcionável para sempre e para tudo. O coração humano é como o estômago humano, não pode estar vazio, precisa de alimento sempre: são e generoso só as afeições lho podem dar; o ódio, a inveja e toda a outra paixão má é estímulo que só irrita mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster destas paixões, se as quimeras filosóficas, ou outras, nos vedarem aquelas, que alimento dareis ao coração, que há-de ele fazer? Gastar-se sobre si mesmo, consumir-se... Altera-se a vida, apressa-se a dissolução moral da existência, a saúde da alma é impossível.

 O que pode viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada. 

Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus nos livre dele.

 Sobretudo que não escreva: há-de ser um maçador terrível. (...)»



Garrett, Viagens na Minha Terra

 

Duas razões me levam a pôr em evidência o trecho original citado em tradução por Garrett.
 Em primeiro lugar, deixar aqui sublinhada a importância de Sterne na obra narrativa de Garrett. As Viagens de Garrett estabelecem relações, visíveis e invisíveis, quer com A Sentimental Journey quer com Tristram Shandy, da estrutura digressiva às referências ao Quixote. 
Em segundo lugar, para chamar a atenção para a tradução do nosso Autor, capaz de transpor escorreitamente o inglês de Sterne para o bom português garrettiano, de modo simultaneamente fiel e criador.

 

«...having been in love, with one princess or other, almost all my life, and I hope I shall go on till I die, being firmly persuaded, that if I ever do a mean action, it must be in some interval betwixt one passion and another: whilst this interregnum lasts, I always perceive my heart locked up -- I can scarce find in it to give Misery a six-pence; and therefore I always get out of it as fast as I can, and the moment I am rekindled, I am all generosity and good-will again;...»

Laurence Sterne, A Sentimental Journey through France and Italy by Mr. Yorick (1768)

 

 

Jorge Colaço

blog o divino (2005)

 

 

 

Jorge Colaço escreve aqui 

  

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7.3.12

 

 

 

 

Alfredo Keil (1850-1907)

Paisagem. Entardecer nos Vales, 1898

 

© IMC/DDF aqui

 

 

 

These interesting travels of mine shall be a masterpiece, erudite, sparkling with new ideas, something worthy of our century. I need to inform the reader of this, so that he may be forewarned and not think that they are just another batch of these fashionable scribblings entitled Travel Notes or something similar, which weary the printing presses of Europe without the slightest benefit for science or for the advancement of the species.

 

First of all my book is a symbol ... a myth, a Greek word, and a Germanic fashion, that is put into everything nowadays and used to explain everything that... can't be explained.

 

It is a myth because... because... Without further ado I shall lift the veil and state openly to my benevolent reader the profound idea that is concealed beneath this frivolous appearance of a brief trip seemingly taken in play, while all the time it is a serious, sober, thoughtful business like a new tome from the Leipzig fair, not one of your penny dreadfuls from the boulevards of Paris.

 

Some years ago there was a deep, abstruse philosopher from over the Rhine who wrote a work on the march of civilization, of the intellect - what we might call, to be better understood, Progress. He discovered that there are two principles in the world: spiritualism, which marches on heedless of the material, earthy side of this life, eyes fixed on its great, abstract theories, a stiff, spare, hard, inflexible belief which can be suitably embodied, symbolized by the famous myth of the Knight of La Mancha, Don Quixote; and materialism, which, taking not the slightest heed of these theories, in which it does not believe and whose impossible applications it declares to be Utopias each and every one, can be properly represented by the rotund and well-fed person of our old friend Sancho Panza.

 

But, as in witty Cervantes's story, these two completely opposed and contradictory principles nevertheless are always together, the one some way behind, the other going on ahead, often getting in each other's way, rarely helping one another, but always progressing.

 

And this is what is possible for human progress.

 

And here is the chronicle of the past, the history of the present, the programme for the future.

 

Our present-day world is a vast Barataria governed by King Sancho.

 

Don Quixote's turn will be next.

 

Common sense shall come with the millennium: the kingdom of the children of God! It is guaranteed in the divine promises... like the constitution promised by the King of Prussia; and he has not failed yet, because - because the contract has no fixed date: he promised, but he did not say for when.

 

Now this journey of mine up the Tagus symbolizes the march of our social progress: I hope the reader has understood this by now. I shall be careful to remind him from time to time, for I very much fear he will forget.

 

 

Almeida Garrett

in Travels in My Homeland (II) p.27-28

Translated from the Portuguese by John M. Parker

© Peter Owen Publishers/UNESCO collection of Representative Works

 

 

 

 

Santarém hoje  aqui e no facebook aqui

 


3.3.12

 

 

 

 

Ninguém (a partir de Frei Luís de Sousa)*

Teatro da Trindade, Lisboa 1978-79

 

Foto (Detalhe): António Lagarto 

 

 

De onde vem o meu interesse por Garrett? Sempre foi, em primeiro lugar, literário. As coisas não começaram bem. A primeira recordação que tenho é a de ter lido o Frei Luís de Sousa no liceu. Sou do tempo dos liceus. Nessa altura, tive um professor de português que me disse que o FLS era uma «lufada de ar fresco no teatro português». A peça não era uma novidade, já tinha visto várias produções televisivas que, nessa época, eram ciclicamente transmitidas. Umas melhores, outras piores, eram geralmente medíocres. Do alto da minha insolência adolescente decidi que o FLS era exactamente o contrário: uma coisa doentia.

 

O tempo que mediou entre esse momento e a descoberta de que o tal professor estava coberto de razão constituiu verdadeiramente o meu percurso de descoberta de Garrett. O meu deslumbramento seria total.

 

O teatro português é pobre e só tem dois autores grandes (perdoe-se-me o radicalismo): Gil Vicente e Garrett. O resto são inexistências, miudezas, tentativas, ou obras avulsas. Apesar de muito conhecida, não se tem sublinhado suficientemente a natureza da concepção trágica enunciada por Garrett na Memória ao Conservatório Real. Talvez um dia possamos abordar isso aqui. Além do mais, o FLS podia ter dado, se tivéssemos tradição musical, uma grande ópera. A grande ópera portuguesa.

 

Nesse caminho de descoberta e conversão, as Viagens constituem um momento fundamental. Primeiro, em leitura desconcertada. Mais tarde, ajustadas as peças do puzzle, penetrei o seu mundo e amei-as até hoje. Elas permitiram a descoberta de toda uma família literária e espiritual, a que julgo, modestamente, pertencer.

 

Para ler as Viagens (percebi-o ainda mais perfeitamente quando as ensinei) é preciso – toda a leitura é assim – «acertar» primeiro com o tom em que devem ser lidas. Depois, é preciso saber mover-se na infinidade de referências de que é feita. Isso é também parte da sua modernidade.

 

É preciso ter aprendido a ler uma página de um livro apenas pelo prazer da sua leitura. É preciso também ter passado por muitos outros autores e muitos outros livros. É preciso descobrir a sua desenvoltura e compreender a sua novidade.

 

Por tudo isso, as Viagens acumularam gerações de equívocos e inimizades feitas na escola: é uma obra que precisa de um certo grau de maturidade para ser bem lida. Para ser saboreada. Eis outro tema que, por si só, mereceria reflexão.

 

Um outro momento fulcral foi o texto admirável de David Mourão-Ferreira (que falta faz David) sobre As Folhas Caídas (primeiro publicado num opúsculo da Seara Nova, depois incluído na colectânea Hospital das Letras). Por aí se podem descobrir proximidades e distâncias entre a vida vivida e a vida escrita, entre o impulso confessional e os caminhos do engenho, entre os sobressaltos reais e o artifício literário.

 

Fui também descobrindo, como é evidente, outras coisas sobre o homem e as suas circunstâncias, as suas contradições, os seus dilemas.

 

Garrett: o soldado liberal capaz de apontar os vícios do liberalismo. O romântico (como hoje o entendemos) que, romanticamente, recusava o romantismo (como então se entendia). O escritor cuja glória literária não fez apagar o drama pessoal. O homem de espírito. O pesquisador das raízes do nosso imaginário poético. O autor cujo nacionalismo não era provinciano e tinha, sem paradoxo, um cunho europeu. E também o realizador, o homem de acção. O congregador de vontades. O político, o orador. O crítico impiedoso da negligência portuguesa. E também o civilizado, o mundano, o autor de O Toucador, jornal para damas, o dandy, o elegante cheio de souci de soi, o sedutor. O visconde.

 

E, claro, de novo o infinito sabor da sua prosa, o donaire, para usar a expressão de outro tempo, tão deliciosa, que o meu querido amigo João Bigotte Chorão gosta de usar a propósito da escrita garrettiana (cf. o prefácio à edição das Viagens da Lello).

 

Porque a admiração pela obra também se faz da descoberta dos outros admiradores de Garrett, o escritor que tantos escritores bem diferentes admiraram sem reservas, desde logo Camilo e Eça. E ainda há uma pequena mas sólida «confraria» garrettiana que reúne gente muito diferente entre si, irmanada nessa admiração.

 

Jorge Colaço

in blog o divino** , 9 Janeiro de 2005

 

Jorge Colaço escreve aqui 

 

 

 

 

 aqui

 

 

 

 

 

 

 

* Ninguém (Frei Luís de Sousa):

Encenação de Ricardo Pais

Texto de Almeida Garrett, Maria Velho da Costa, Alexandre O'Neill

Música de Carlos Zíngaro

veja o cartaz do espectáculo aqui

 

** O blog garrettiano o divino foi recentemente desactivado no blogs.sapo.pt

 

 

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26.2.12



 

 

 Na estreia da peça O Fidalgo Aprendiz de D. Francisco Manuel de Melo,

encenada por Osório Mateus (ao centro)

Sarau dos Finalistas do Liceu de Viseu (66/67), 21 de Janeiro de 1967  

aqui


 

 

Osório Mateus (1940-1996), investigador, homem de teatro e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi uma personalidade marcante pelos métodos inovadores que usou em todos os domínios da sua actividade. Aliou sempre a investigação académica e o trabalho desenvolvido com os seus alunos à prática teatral, fundando companhias — Os Cómicos (1974) e Produções Teatrais (1978) — e encenando espectáculos — O Fatalista de Diderot (1978), Tragédia Infantil (1979), Garrettismos (1984), entre outros — a par da construção de um importante corpus teórico sobre a prática e o estudo do teatro, e a investigação da história do teatro. Os Cadernos Vicente que dirigiu (1988-1993), definindo-os como "programa de análise monográfica da produção artística do autor dos autos", revelam o seu método de trabalho de edição: revisão exaustiva dos textos por autor e leitores.

Osório Mateus doou à Faculdade de Letras um dos maiores acervos bibliográficos e iconográficos de Teatro e Artes do Espectáculo do país, que integra actualmente outros espólios doados pelos seus proprietários, além de ofertas de autores, editores e companhias. O tratamento do fundo documental e bibliográfico tem sido feito pelo Centro de Estudos de Teatro, responsável pela organização do livro de teatro e outras escritas apresentado aqui, bem como exposições (Papéis de Teatro, 2000, Vicentina, 2002) e leituras encenadas. 

 


  

Centro de Estudos de Teatro aqui 

 

Espólio Osório Mateus aqui 

 

Cadernos Vicente aqui 

 

Outro post dedicado a Osório Mateus aqui 


23.2.12

 

Em 1838, Almeida Garrett escreve, ensaia e produz Um Auto de Gil Vicente, drama histórico em torno da partida da infanta e da representação de Cortes de Júpiter, o auto a que o título se refere. O drama foi escrito entre 11 de Junho e 10 de Julho.

estreado 15.08.1838.

Edição romântica de Hamburgo. Por ela, em 1838, Garrett faz Um Auto de Gil Vicente.

 

A estreia, no Teatro da Rua dos Condes na noite de 15 de Agosto, num espectáculo ensaiado por Emile Doux, com cenários de Palluci, é o primeiro acto público do romantismo em Portugal. [...] 

É a primeira vez, depois de séculos de interrupção, que palavras compostas por Gil Vicente são ditas no teatro. O projecto de fazer de novo representar Gil Vicente só tem continuidade sessenta anos depois (1898), final do século XIX, à aproximação do IV Centenário (1902).

 

Grande parte dos versos de Cortes de Júpiter é incluída no texto de Um Auto de Gil Vicente, com novos recortes e nova montagem, muito diferentes da sequência original. Garrett parece intuir que fazer ressurgir Vicente não é trabalho fácil, que não pode haver a veleidade mecanicista de querer representar tal e qual aqueles autos, como se fossem peças de repertório.

 

 

A ficção de Garrett implica mostrar o auto a ser ensaiado (Actos I e II) e a fazer-se (Acto II).

A representação é acidentada e incompleta: Bernardim Ribeiro, apaixonado infeliz da infanta, que tem de o abandonar pelas razões de estado e partir, executa, sem ensaio, a figura da moura Tais, para se aproximar de Beatriz, dizer outros versos e lhe meter no dedo um anel devolvido. Gil Vicente e sua filha Paula representam Júpiter e a Providência.

 

eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro 


Representar representação é um jeito que Almeida Garrett já tinha ensaiado em 1821 n'O Impromptu de Sintra. Nos anos 30, o teatro no teatro é modernidade romântica.


 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas * 

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” [3] pp.271-272

© José Camões e Quimera Editores 

 

 

 

 

 aqui


 

 

* da Nota Editorial:

[de teatro e outras escritas] reúne uma centena de textos escritos e quase todos publicados entre 1971 e 1995. [...] Gil Vicente é objecto de eleição e, sem dúvida, a contribuição mais fértil do trabalho crítico de Osório Mateus. Os estudos sobre os autos são hoje incontornáveis e realizam, na segunda metade do século XX, uma proposta de restauro das condições primeiras da sua existência teatral. Esta perspectiva preside, aliás, desde cedo ao modo de entender o estudo dos textos a que chamamos dramáticos, e muitos dos ensaios apresentam-se hoje como lugar de teorização sobre o teatro nas suas múltiplas formas. [...] A seu modo, cada um deles consegue ser um certeiro gesto para uma história do teatro por fazer, tornando visíveis lugares-comuns ou inexac­tidões que importa identificar, abrindo outros lugares de interrogação, convocando os instrumentos adequados para o trabalho imenso que espe­ra por ser feito.



 

 

 

 

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22.2.12



Almeida Garrett, a figura mais avançada de entre os artistas românticos de raiz burguesa e liberal, é dos primeiros leitores modernos de Gil Vicente. Aos 23 anos, em O Toucador (periódico sem política, dedicado às senhoras portuguesas, 1822), apresenta um resumo e fragmentos de Mofina Mendes. Em 1822, em Portugal, Gil Vicente é um autor caído no esquecimento, ou conhecido de muito poucos. As duas últimas edições completas dos textos datam do século XVI (1562 e 1586) e já não há muitos exemplares de nenhuma delas.[...]

 

1826, no prefácio do Parnaso Lusitano, Garrett escreve: 

O próprio Gil Vicente não deixa de ter seu cómico sal, e entre muita extravagância muita coisa boa; Bouterwek e Sismondi parece que escolheram o pior para citar; muito melhores coisas tem, particularmente nos autos, superiores sem comparação às comédias. A soltura da frase e a falta de gosto são os defeitos do século: o engenho que daí transparece é do homem grande e de todas as épocas. Em nota, acrescenta: Reservo-me para uma edição que pretendo publicar do nosso Plauto, fruto de longo e penoso trabalho, para examinar melhor este ponto e demonstrar o que aqui enuncio. Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa

Paris: Aillaud (VII-XVI:XIII).


Não realizou o seu projecto, mas é possível que seja ele o instigador da edição de Hamburgo.

A edição romântica que inaugura a época moderna de Gil Vicente e o torna o primeiro autor clássico do século de ouro.

 

 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” (1 e 2) pp.269-270

© José Camões e Quimera Editores

 


 

 

 


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17.2.12

 

 

Garrett é mais do que Garrett. Quer dizer que a sua obra, por admirável que seja no teatro, no romance, na poesia, em títulos como Frei Luís de Sousa, Viagens na Minha Terra, Folhas Caídas, não é uma obra fechada, mas uma obra aberta. Obra aberta porque não se encerrando na sua acabada perfeição como um fim em si mesma, rasgou uma estrada na literatura portuguesa. Há na história literária como na história política fundadores de dinastia. E na literatura portuguesa é, sem dúvida, Garrett um desses fundadores. Depois de Garrett há toda uma literatura que dele deriva - uma literatura que por isso mesmo se chama neogarrettiana ou neogarretista (e, se designou também, mas com menor fortuna, por novilusista).[...]

 

Àquela “geração de 90” pertenciam, entre outros, Trindade Coelho (1861-1908) e Manuel da Silva Gaio (1860-1934), nomes representativos do neogarrettismo ou do nacionalismo literário. No artigo de apresentação da Revista Nova (Nov. de 1893)  —  e novo não seria só o título da publicação como o seu espírito — , Trindade Coelho aponta em Garrett um exemplo de banho lustral, qual é o de mergulhar “no fecundo veio” da província portuguesa e das tradições populares.[...]

 

Na peugada de Ramalho, que explorou aquele “fecundo veio” aberto por Garrett, outros vieram que viajando pelo vasto mundo, regressavam sempre ao ninho. É o caso desse espectador cosmopolita, de clara prosa e poder evocativo, que foi Augusto de Castro (1883-1970), homem do mundo que gostava também de viajar no seu jardim. É o caso ainda de António Ferro (1895-1956), igualmente grande jornalista, mas de prosa mais dinâmica (ou não fosse ele um protagonista da aventura futurista), e homem de acção – um poeta de acção, diria, por esse toque estético que punha em todas as suas realizações. Uma vida sem beleza, toda material e vazia de alma, é uma vida que não vale a pena viver. Uma equilibrada dosagem de inovação e tradição, de europeísmo e de nacionalismo, de alta cultura e de cultura popular, determina a acção de António Ferro, para quem vale o que disse Afonso Lopes Vieira de Garrett: mais notável ainda “pelo que descobriu e indicou do que pelo que realizou”
[...] escritor da família garrettiana é ainda Luís Forjaz Trigueiros (1915-2000) por esse espírito liberal sem demagogia, por essa curiosidade cosmopolita sem divórcio das raízes. Das “paisagens portuguesas” – título de uma sua colectânea de páginas de geografia literária, aquelas que parece exercerem maior fascínio sobre Luís Forjaz Trigueiros são as do Minho (1) , “campos elísios” também para este moderno autor de viagens na nossa terra.

 

 

João Bigotte Chorão

in “Garrett, Clássico do Romantismo”

Revista “O Tripeiro” 7ª série – Ano XVIII – Nº 2, Fevereiro de 1999. aqui

 

 

Notas:

1. Leia neste blog o texto A Écloga e a Epopeia de Luís Forjaz Trigueiros aqui e aqui

2. Este post é retirado do texto publicado no blog O Divino (28 de Março de 2005) aqui

 

 


10.2.12

 

 

 
Luísa Gabriela Deslandes Blanck c. 1900
Foto: Camacho
 

 

A casa em Lisboa onde uma importante colecção de manuscritos do romanceiro garrettiano permaneceu guardada e esquecida durante cem anos foi adquirida em 1923 por Luísa Gabriela Deslandes Blanck, filha de Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909). Presumia-se deste modo que Luísa e o marido se tivessem instalado nesta casa do Bairro Alto nos anos vinte do século XX. No entanto, a investigadora Sandra Boto descobriu que a Sociedade Literária Almeida Garrett, entidade criada em 1902, mantinha “reuniões regulares, que tinham lugar no nº 7 da Rua dos Caetanos, em Lisboa, [...] onde apareceram os manuscritos autógrafos do romanceiro” [em 2004] (1). 

 

Era membro desta sociedade, entre outros, o escritor Xavier da Cunha, amigo do Conselheiro Deslandes e autor da obra Impressões Deslandesianas (2).

 

Luísa Gabriela, embora tivesse comprado a casa em 1923, talvez já ali residisse desde o seu casamento com Frederico Carlos Blanck, em 1899, dez anos antes da morte do pai. 

 

 

Notas:

 

1Sandra Cristina Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica', p.186

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

2. Impressões deslandesianas: divagações bibliographicas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1895. A investigadora remete na sua tese para o Arquivo de Xavier da Cunha aqui 

 

 

Leia mais neste blog sobre o assunto clicando na tag garrett  

 

 

 

 

 

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8.2.12

 

 

 

Venâncio Augusto Deslandes c. 1880 

Foto: Marguerite Relvas

 

 

 

A propósito dos manuscritos do Romanceiro garrettiano redescobertos em 2004, já aqui apresentei aos leitores a figura do Conselheiro Venâncio Augusto Deslandes(1829-1909), a quem pertenceu, não se sabe como, a agora chamada ‘Colecção Futscher Pereira’ (ver post anterior). O espólio garrettiano foi identificado pelo Professor Artur Anselmo ao examinar um conjunto de papéis e curiosidades bibliográficas que haviam pertencido a V. A. Deslandes : "Isto é Garrett. Conheço a letra de Garrett!".

 

A aturada investigação entretanto levada a cabo por Sandra Boto sobre o percurso deste espólio não permitiu (ainda) determinar de que forma ele chegou à biblioteca do Conselheiro Deslandes mas veio revelar alguns dados novos e surpreendentes, além de apresentar um panorama sugestivo da classe letrada e intelectual da Lisboa de finais do século XIX, princípios do século XX, “confinada a uma pequena casta onde todos se conheciam e relacionavam”. [1]   

 

 

 

 

1. Sandra Cristina de Jesus Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica', p. 180

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

 

 

 
Verso da fotografia
 
 

4.2.12

 

 

As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’, tese de doutoramento que Sandra Cristina Boto defendeu ontem na Universidade Nova de Lisboa, representa para a minha família a conclusão feliz dum percurso iniciado em 2004 pela descoberta duma importante colecção de autógrafos garrettianos em nossa casa. Ao apresentar com esta colecção perspectivas inteiramente novas sobre o romanceiro garrettiano, o trabalho de Sandra Boto confere pleno sentido ao enorme esforço que minha irmã dedicou à divulgação deste espólio, em grande parte inédito.

 

Hoje penso que foi sorte estes papéis serem redescobertos por uma estrangeirada, que nunca tinha lido as Viagens na Minha Terra, mas de Garrett sabia pelo menos que “main street is named after him!” (Cristina Futscher Pereira dixit). Quantos portugueses de gema se teriam dado ao trabalho?

 

Diz Sandra Boto na introdução:

 

Sabia-se, por fontes externas, que a colecção continha novos temas tradicionais. A publicação, na edição de 9 de Dezembro de 2004 do jornal Público, de um tema religioso de base tradicional, Fonte da Cruz, fazia suspeitar da importância destes materiais para o estudo do romanceiro tradicional garrettiano. Sabia-se também que entre estes autógrafos se encontrariam igualmente temas de origem não tradicional. Aliás, um romance criado pela pena garrettiana, A moira encantada, constituíra, a 29 de Dezembro de 2004, o verdadeiro cartão de visita desta colecção, num infelizmente pouco valorizado suplemento do Diário de Notícias. (1)

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

 

 

Do ponto de vista da minha família, a edição de A Moira Encantada foi um pequeno milagre, só tornado possível por circunstâncias muito favoráveis como o apoio essencial que recebemos de Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana, e o facto de termos encontrado patrocinadores - Diário de NotíciasPortugal Telecom - que gostaram do projecto e nos deram autonomia total para o realizar.

 

Uns meses depois, as duas especialistas chamavam a atenção para a riqueza do espólio agora encontrado, concluindo que dar a conhecer este romanceiro inédito seria prosseguir a tarefa que o próprio Garrett definiu como um “grande serviço ao seu País” [2]. Mas (quase) ninguém estava interessado, como sintetizou mais tarde Jorge Colaço [3] ao contar a história na sua Carta a Garrett.

 

No entanto, sete anos volvidos sobre a descoberta da 'Colecção Futscher Pereira' [4], a Proposta de ‘Edição Crítica’  de Sandra Boto vem contrariar o pessimismo e convidar-nos a revisitar o nosso Autor e o seu apaixonante Romanceiro:   

 

[...] no que concerne ao Romanceiro, a elaboração de um plano editorial patente na “Introducção” ao tomo II da obra, cujos preparativos e rascunhos textuais se prova estarem documentalmente contidos na Colecção Futscher Pereira em autógrafos garrettianos, só nos anima a levar a cabo a tarefa de prosseguir editorialmente com esse mesmo plano, que a morte do poeta impediu de se cumprir. A não destruição intencional destes materiais em vida de Garrett conjugada com o manifesto de intenções que é o mencionado plano editorial, o qual por seu turno entendemos como uma vontade expressa autoral de vir a publicar futuramente esses materiais, é garante de que é uma missão estudá-los e editá-los, mesmo com mais de 150 anos de atraso.[1]

 

 

 

 

 

 

Autógrafo de Almeida Garrett:

Romanceiro

Colecções de xácaras, estudos e apontamentos para a confecção do Romanceiro

Manuscrito do Autor

 

 

 

 

Notas:

 

1 Sandra Cristina Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica' (introdução)

Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

2 Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana in No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro. Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. pp.235-239

 

3 o blog de Jorge Colaço aqui

 

4 Colecção Futscher Pereira (CFP), assim designada por Sandra Boto. São também as iniciais de Cristina Futscher Pereira, coincidência feliz.

 

O blog garrettiano de Cristina Futscher Pereira -— O Divino — deixou de estar acessível no blogs.sapo.pt

 

Texto integral de A Moira Encantada aqui

 

Mais neste blog na tag "garrett" 

 

 


24.6.11

 

 

São João Baptista, Brasil, séc XIX

 

 

Por manhã de São João,

Manhã de fresca alvorada,

A Virgem-Santa passeia

Deredor da fonte clara.

Venturosa da donzela

Que à fonte for buscar água

Por manhã de São João

Manhã de benta alvorada !

 

Baixou a filha do rei                                                

Da alta torre onde estava,                                                

Vestiu vestido de seda,

Calçou sapato de prata,

Pegou em cântaro de oiro

Para a fonte caminhava.

 

Ao chegar ao pé da fonte                                       

Com a Virgem se encontrava :                        

— « Deitai-me a benção, Senhora,

Que me deis um bom marido             

Com quem seja bem casada ! »

— « Casada sereis , donzela,

Bem casada e bem medrada.                                    

Três filhos haveis de ter,

Todos três de capa magna.

Um há de ser papa em Roma        

O outro primaz em Braga ;                        

O mais pequeno de todos                        

Dá-lo-eis à Virgem Sagrada :

Que se há de chamar João.                

João de Deus o seu nome,

Pastor da minha manada.

Aos pobres que não têm pão,

Aos doentes sem pousada

Ele há de dar casa e cama

Em honra desta alvorada.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Nota: este romance popular foi originalmente publicado no blog garrettiano O Divino, em Dezembro de 2004 

Imagem: Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

 

                         

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19.12.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

— «Linda pastorinha, que fazeis aqui ?»

— «Procuro o meu gado que por aí perdi.»

— «Tão gentil senhora a guardar o gado!»

— «Senhor, já nascemos para esse fado.»

— «Por estas montanhas em tão grande p'rigo!»

Diga-me, ó menina, se quer vir comigo.»

— «Um senhor tão guapo dar tão mau conselho (1)

Querer que se perca o gado alheio!»

— «Não tenha esse medo que o gado se perca (2)

Por aqui passarmos uma hora de sesta.»

— «Tal razão como essa não na ouvirei (3):

Já dirão meus amos que de mais tardei,»

— «Diga-lhe, menina, que se demorou

Co'esta nuvem de água que tudo molhou.»

— «Falarei verdade, que mentir não sei:

À volta do gado eu me descuidei.»

— «Pastorinha, escute, que oiço balar gado...»

— «Serão as ovelhas que me têm faltado.»

— «Eu lhas vou buscar já muito depressa,

Mas que me espedace por essa charneca.»

— «Ai como vai grave de meias de seda!

Olhe não as rompa por essa resteva (4).»

— «Meias e sapatos (5), tudo romperei (6)

Só por lhe dar gosto, minha alma, meu bem.»

— «Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.»

— «Meu destino foi ser vosso criado.»

— «Senhor, vá-se embora, não me dê mais pena,

— «Que há-de vir meu amo trazer-me a merenda.»

— «Se vier seu amo, venha muito embora;

Diremos, menina, que cheguei agora.»

— «Senhor, vá-se, vá-se, não me dê tormento:

Já não quero vê-lo nem por pensamento.»

— «Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora!

Fica-te, eu me vou pela serra fora (7).»

— «Venha cá, Senhor, torne atrás correndo...

Que o amor é cego, já me está rendendo.»

Sentaram-se à sombra... tudo estava ardendo... (8)

Quando elas não querem, então 'stão querendo.

 

 

variantes:

(1) Não deve ser nobre quem dá tal conselho — Minho e Beira Baixa.

(2) Eu não digo isso, que o gado se perca,

Mas que descansemos uma hora de sesta.—Beira Alta e Estremadura.

(3) Que dirão meus amos em que me ocupei.—Beira Alta.

(4) Por essas estevas—Alentejo.

(5) Meias e vestido—Ribatejo.

(6) Romperem — Coimbra.

(7) Vai guardar teu gado pela serra fora.— Beira Alta.

(8) Senta-te a esta sombra que está o mundo ardendo.

— «Eu bem não queria, mas estou querendo.»

— «Cala-te, pastora, não digas mais nada,

que a aposta que eu fiz já está ganhada.»

— «Senhor, vou sentar-me não por má tenção.

Pois sabe a verdade, que sou teu irmão.—Beira Alta.

«Sente-se a esta sombra, passemos a sesta,

Já pouco me importa que o gado se perca.»

Ó gente da casa, acudi ao gado,

Que foge a pastora c'o seu namorado.—Minho.

 

 

 

[...] O lugarejo é bem conhecido de nome e fama, chama-se Linda-a-Pastora. Porquê? Não sei. Têm-me jurado antiquários de «meia tigela» que o seu nome verdadeiro é Niña a Pastora. Mas enquanto não achar algum de «tigela inteira» que me saiba dar a razão por que se havia de chamar assim, meio em português meio em castelhano, um aldeote de ao pé de Lisboa — hei-de chamar-lhe eu, como os seus habitantes, e toda a gente diz: Linda-a-Pastora.

Namorei-me do sítio por modo que ali passei o verão todo; e dali fiz deliciosas excursões pelas vizinhanças, que todas são bonitas. Foi neste próprio e apropriado sítio que a Sr.ª Francisca, lavadeira bem conhecida do lugar, me deu a última e, ao parecer, mais correcta lição que do presente romance tinha obtido. Em outras partes do reino traz ele o título de Pastorinha; aqui era justo e natural que se lhe desse o de Linda-a-Pastora, que assentei conservar-lhe.

Na forma é um romance em endeixas, mas o fundo é de uma verdadeira pastorela do género provençal; nem a fariam mais graciosa Giraud Riquier ou Giraud de Borneill.

Tem muitas variantes, porque todo o reino a sabe e canta. Eu noto somente as principais.

 

 

Almeida Garret

in Romanceiro (III)

Edição revista e prefaciada por Fernando de Castro Pires de Lima

Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho/Gabinete de Etnografia, 1963

Leia um excerto do prefácio aqui



 

Imagem:

Desenho de Paulo Ferreira (detalhe)

in Quelques Images de l' Art Populaire Portugais aqui

S.P.N. 1937


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2.4.10

 

 

 

 

 

  

Lenda S.15

 

 

ROMANCE DOS PADRES NO LIMBO

 

 

Vozes davam prisioneiros,

Longo tempo estão chorando,

Em triste cárcere escuro

Padecendo e suspirando,

Com palavras dolorosas

Suas prisões quebrantando:

 

-"Que é de ti ó Virgem mãe?

A ti estamos clamando,

Desperta o senhor do mundo,

Não estamos mais penando ?"

 

Ouvindo estas vozes tristes

A Virgem estava orando,

Quando veio a embaixada

Pelo Anjo, saudando

Avé rosa gracia-plena

Sua prenhez anunciando.

 

"Solta os encarcerados

Que por ti estão suspirando,

Pela morte de teu Filho

Ao Padre estão rogando:

 

Cresça o menino glorioso

Que a cruz está esperando:

Sua morte será cutelo

A tua alma trespassando

Sofre a sua morte, senhora

Nossa vida desejando!"

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Imagem: Giotto -   Descida de Cristo ao limbo aqui

 

um artigo sobre a "geografia do além" no Ocidente medieval aqui

 

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25.12.09

 

 

 

Adoração dos Magos

Diego Velázquez, 1619

 

 

 

Lend. Sec.17

 

Nota: É uma verdadeira chácara (1) porque em perguntas e respostas com certo sainete de graça e chacota. D. Fr chamou-lhe romance (o editor das obras) em Leão de Fr 1665 onde vem em castelhano pg 19 segundos três versos.

 

 

 

 

Zagal tu vens de Belém

No me dirás que há de novo ?

— Que chamou elrei a cortes

O povo, nobreza e clero         (2)

 
Que intenta sua majestade

 

Que, sem falta, é bom intento ?

— Jurar príncipe a seu filho

Que há de ser rei destes reinos.

 

Eu pensei que o mundo todo

Se rogava ao juramento

— Não que é já tão cristão

Que não jurará sem rogos

 
Pelos egrejos quem veio

Prestar o sagrado preito ?

— Os anjos eram que são

As dignidades do céu.
 
E do braço da nobreza

Quem veio ao juramento ?

— Não chegaram, porem já

Três reis hão-de chegar presto.

 
Quem recebeu a homenagem
No popular achamento?

— Os pastores que madrugaram

A obedecer seu  império
 
E  quem por parte d’elrei
As cortes  fez o    *
— Foi a voz de um paraninfo (3)

Todo o mundo era em silêncio

 

Que partes tocou elegante

E persuasivo em efeito ?

— A paz publicou aos homens

E glória intimou aos céus.

 

Não se tratou mais nas cortes

Outro importante manejo ?

— Sim: a defesa do mundo

Que em grande perigo o vemos

 

Pois há quem a elrei não sirva

Ao menos por seu proveito ?

— A um mesmo fim miram todos

Mas nem todos a um só meio

 

E que tal estava o quadro

De adornos e paramentos ?

— Um quadro - e de mão divina

Só lá vi, era um presépio

 

Mui rico seria o trono

De gran’ máquina por certo?

— Não resplandecem seus lustres

Como admiram seus mistérios.

 

E o que deram para a guerra

Dentre paraíso e inferno?

— O próprio do rei pedido
Dois milhões são desejados

 

Do príncipe que se diz

Muitos anos o logremos?

— Que já morre pelo povo

E disso há de morrer cedo

 

Pois dizem que com o pai

Se parece por extremo

— Tanto que quem vir o filho

É como ver o pai mesmo.

 

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

NOTAS :

1.chácara é termo que designa um certo tipo de romance popular

2.variante: egrejos nobres e povo

3.paraninfo : padrinho apresentante

 

 

 

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