10.5.17

 

 

 

FRANCE POLITICS ELECTIONS MACRON

Emmanuel Macron

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O desbravar do caminho

 

 

 

 

Emmanuel Macron ganhou folgadamente a eleição presidencial em França mas os 34% de votos em Marine Le Pen mostraram mais de um terço da França virada para o país pétainista que fora no começo dos anos quarenta do século passado, contente por Hitler a ter salvo do comunismo – e tanto pior para os judeus. Que em 1945 a França não só tenha escapado ao opróbrio da derrota mas também sido dada por um dos cinco grandes vencedores da segunda guerra mundial – juntamente com Rússia, Inglaterra, América e China – com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, deve-se ao génio do general De Gaulle que, de Londres onde se refugiara, apelara à resistência aos alemães pelas forças francesas livres, uma pequena minoria de civis e militares (a que os comunistas se aliaram mas só depois de Hitler ter invadido a União Soviética, rompendo brutalmente o pacto germano-sovético contra as democracias europeias) e, a despeito da sobranceria norte-americana , comandara a sua luta com tal eficácia militar e política que, em 1944, descera os Campos Elísios à frente dos seus como libertador de Paris.

 

A França (e a fortiori a União Europeia) precisa também agora de quem a salve e talvez tenha encontrado o salvador em Emmanuel Macron. É trabalho de Hércules mas poderá ser feito e Macron parece estar disso convencido, tal como parecem estar os milhões que foi juntando à sua volta desde que, há um ano, lançou o movimento En marche! quando ninguém o conhecia para lá do mundo político parisiense onde se sabia haver aparecido rapaz inteligentíssimo com quem toda a gente simpatizava , casado com Senhora muito mais velha do que ele que fora sua professora no liceu. Se Macron der conta do recado, é preciso ir mais atrás na história de França do que De Gaulle para encontrar figura comparável: Napoleão Bonaparte. Os tempos e as técnicas são outros e a guerra não é militar mas em tenacidade de propósito, clareza no rumo à vitória, planeamento a longo prazo de estruturas e pormenores necessários ao projecto sem por isso perder comando e controle da luta diária, as semelhanças são sugestivas.

 

Muitos comentadores franceses e alguns estrangeiros lembram em tom magistral que não há homens providenciais. (Argumento conhecido contra a história contada por feitos de Reis, por praticantes da história contada por variações do preço do centeio). Infelizmente para os comentadores, “providencial” assenta como uma luva em De Gaulle e Napoleão (até o mando lhe subir à cabeça e o desterrar para Santa Helena). Sem homens providenciais – e uma mulher, Joana d’Arc – a França não seria a França.

 

Macron terá maioria na Assembleia Nacional. As piores dificuldades vêm de fora: austeridade, imposta pelos seus amigos alemães; vandalização da verdade, desde a teoria da evolução ao aquecimento global e a tudo o resto, exemplificada pelo 45º presidente dos Estados Unidos, que disse já quase 500 mentiras provadas desde que tomou posse a 20 de Janeiro.

 

 

 

 

 

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3.5.17

 

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Paris

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A eleição francesa

 

 

Na primeira volta da eleição presidencial francesa, as empresas que fazem sondagens em França portaram-se muito melhor dos que as suas congéneres no Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda no Norte e nos Estados Unidos da América se tinham portado (isto é, acertaram em quem viria a ganhar e a perder e com os números certos). No primeiro caso, quando do referendo sobre permanecer ou não membro da União Europeia em Junho do ano passado em que as ditas congéneres do lado de lá do Canal da Mancha, como um só homem, previram que quem queria ficar na União ganharia sem sombra de dúvida e, no segundo caso, sobre a eleição presidencial que opôs Donald Trump a Hillary Clinton (outros candidatos não contavam embora complicassem: por exemplo, candidata à esquerda de Clinton, a quem fora pedido, em vão, que desistisse antes da ida às urnas, ganhou em Michigan, Pensilvânia e Wisconsin votos que, se tivessem sido contados para Clinton, lhe teriam dado vitória no Colégio Eleitoral, isto é, na eleição) em que as congéneres transatlânticas, também com certeza absoluta, previram Clinton como o 45º Presidente, a entronizar em Janeiro. (O Clinton macho avisara que era preciso prestar atenção aos brancos pobres da ‘cintura da ferrugem’; não considerar os votos deles adquiridos sem sequer os ir ver e falar com eles mas a rapaziada – e raparigada – que mandava na campanha mandou o velho ir dar uma volta).

 

Com esse precedente, os especialistas franceses destas coisas ganharam crédito e a gente agora espera que o que nos apresentarem desta vez como resultado mais provável esteja outra vez certo. Os últimos palpites desses especialistas de que tive notícia dão 59% dos votos expressos a Emmanuel Marcron e 41% a Marine Le Pen. Como o medo de abstenção por muita gente de direita, apesar da recomendação de votar Macron dos seus chefes – Fillon, Sarkozy, Juppé – bem como por muita gente de extrema-esquerda, sem recomendação de votar Macron do candidato Jean-Luc Mélenchon, em quarto lugar na primeira volta, estava a generalizar-se, começa a sentir-se alívio por parecer muito provável que o 7º Presidente da 5ª República francesa venha a ser Emmanuel Macron. Pessoalmente, estou convencido de que Macron tem qualidades de chefia excepcionais que lhe permitirão, nas eleições legislativas de Junho, ganhar maioria presidencial na Assembleia Nacional e levar depois a França a bom porto. Ao mesmo tempo, felicito-me por não irmos ter Marine Le Pen no Palácio do Eliseu.

 

Mas além disso não haverá grande motivo para exultação. Muito pelo contrário. Quase 40% dos franceses prefeririam ser governados por gente com provas dadas de nacionalismo brutal (patriotismo é amar os nossos; nacionalismo é odiar os outros, disse Romain Gary); nostalgia de regimes nazis ou fascistas que mandaram em partes da Europa nas décadas de 30 e 40 (e na Península Ibérica até aos anos 70) do século passado; antissemitismo; racismo em geral. E 40% dos franceses é muita gente.

 

 

 

 

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26.4.17

 

 

france 2017

França, 2017 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

A caça aos pobres

 

 

 

Nos Estados Unidos, os brancos (e brancas, o machismo do homem não as apoquentou) pobres, desempregados, adoentados, alcoolizados, suicidários dos Estados, antigamente industriais, que votaram Trump em Novembro passado quando 8 e 4 anos antes tinham votado Obama e que o aldrabão mal formado dos reality shows e dos concursos Miss Universo vai tornar mais desesperados ainda, sabotando o programa de assistência na saúde de Obama em vigor (não conseguiu substitui-lo por programa melhor contra o que prometera na campanha eleitoral: o núcleo duro do Partido Republicano entende que a culpa dos pobres serem pobres é dos pobres, que se adoecerem e não tiverem dinheiro para se tratarem, paciência, e que quando morrerem Deus saberá para onde mandar as suas almas) e cortando no orçamento federal inúmeras verbas destinadas a ajudarem pessoas a reintegrarem-se no mundo do trabalho - toda essa gente que esperava até de madrugada se Trump chegava atrasado aos comícios, continua a achar que só ele a entende e se bate por ela em Washington.

 

Lembrei-me deles (e delas) no Domingo à noite quando uma das cadeias de televisão francesas que cobria as eleições passou mais uma vez, já tarde, pelo feudo de Marine Le Pen nos Hauts de France (departamento que se chamava dantes Nord – Pas de Calais mas há anos reforma administrativa libertou o poeta que dormita na alma de cada burocrata francês, dando-lhe nome mais subido) e entrevistou dois apoiantes dela, homens novos da classe operária que não estavam exuberantes porque tinham esperado que ela ganhasse a primeira volta mas ficara em segundo lugar o que dá para passar à volta final mas não é tão glorioso. “Só ela é que entende o povo”; “Só ela sabe falar connosco” disseram. “Os outros são todos liberais”. (Não teriam dado ainda pela subida fulgurante de Jean-Luc Mélenchon, que chegou em quarto lugar muito perto do terceiro, orador entusiasmante, sensato sobre o meio ambiente, que tiraria a França da União Europeia e a associaria a Cuba e à Venezuela numa grande frente de esquerda. Douce France…). Filmado mais cedo na sua horta, viu-se homem de meia-idade, triste mas sorridente, que tinha sempre votado comunista mas há duas eleições votava Le Pen. “Na segunda volta tudo pode acontecer.”  

 

(Como dizia o meu professor de matemática na Valsassina, quando se irritava com incompreensão de equações simples por aluno chamado ao quadro: “Oh senhor! É bom ser burro mas não tanto!”)

 

Mas, indo ao cerne da questão: o fim do comunismo não foi a irradicação de uma doença – foi o falhanço de um remédio. E o colapso da União Soviética bem como a ética peculiar da China fizeram o capitalismo tomar escandalosamente o freio dos dentes. Não será pela terceira via de Blair nem pelo Bonapartismo aggiornato de Macron mas se não se descobrir maneira de corrigir - a bem - diferenças entre muito poucos muito ricos e muitos muito pobres, vamo-nos meter numa broncalina do camandro - ou numa Bernardette do caboz.

 

 

 

 

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12.4.17

 

Patrie

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Pátria

 

 

 

Em Novembro de 1994 fui escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental, em Bruxelas. Havia quatro candidatos: um belga que desistiu quando outro belga, Willie Claes, foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN; um político italiano substituído a certa altura por um diplomata italiano, fidalgo competente muito bem-educado – foi dele que recebi o primeiro telefonema de parabéns depois de ser eleito – e um espanhol, Enrique Barón Crespo, ex-ministro de Felipe Gonzalez, ex-Presidente do Parlamento Europeu, que a França tomara de ponta quando ele quisera mudar o Parlamento Europeu de Estrasburgo para Bruxelas (crime de lesa-majestade para qualquer alto funcionário francês, cujo lema é: L’État c’est (aussi) moi).

 

Um mês depois recebi uma carta manuscrita com estampilha francesa, remetida por Joaquín Romero Maura. Estivéramos juntos em St. Antony’s, eu antropólogo, ele historiador. Anos depois de Oxford, fui convidado para seminário sobre religião e política no Mediterrâneo, organizado em Roma por universidade americana. Numa manhã radiosa de Maio, o professor americano que presidia à reunião, careca como Mussolini, antes de começar os trabalhos anunciou gravemente que Martin Heidegger tinha morrido. “Should we do something?” Éramos uns vinte sentados a mesa quadrada e vi Joaquín, do outro lado, escrever num pequeno papel, dobrá-lo, passá-lo a vizinho do lado que o passou a vizinho do lado, até mim a quem vinha endereçado. Desdobrei-o e li: La classe obrera tiene un inimigo menos!

 

Abri o sobrescrito. A carta vinha em inglês, datada de Darkest Périgord e começava assim:      

 

Dear José,

The joy of seeing Enrique Barón loose the job almost made me forget to congratulate you on getting it. (A alegria de ver Barón Crespo perder o lugar quase me fez esquecer de te dar os parabéns por o teres ganho.)

 

Agradeci-lhe e nunca mais soube dele. Não sei se continuará historiador ou se   terá virado banqueiro; se Goody (dinamarquesa que em Oxford se recusara a viver em Summertown House, bloco de apartamentos da Universidade, porque a ideia de duzentas teses a serem escritas debaixo do mesmo teto a deixava deprimida) e ele continuam vivos, casados e felizes.

 

Gosto desta história – e mais ainda nos dias incertos que atravessamos – porque mostra o disparate sem nome dos patriotismos anti-europeus que agora vicejam e ganham raízes por vários cantos da Europa. Em França é com sentimentos assim que Marine Le Pen, na extrema direita, e Jean-Luc Mélenchon, na extrema esquerda, animam a malta – onde pululam, de um lado, beatos integristas e, do outro, devotos de Estaline e de Trotsky. Se qualquer deles os dois for eleito Presidente, a União Europeia acabou. Édouard Macron sabe isso, sabe muito mais coisas ainda e julgo que seria capaz de meter a França nos eixos sem dar cabo dela. Mas talvez lhe falte o jeito de um Bill Clinton ou de um Mário Soares para convencer pessoas burras a quererem coisas inteligentes. Carisma, chamam-lhe alguns.

 

 

 

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23.11.16

 

 

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 França, 1794

 

 

 

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Mudam-se os tempos

 

 

Escrevo a 21 de Novembro, dia dos anos do Vasco Pulido Valente. De manhã lembrei-me dele quando tinha 14 anos ter dito ao pai, burguês de bem, inteligente, culto e informado (explicou-me como é que os romanos faziam a barba), engenheiro, opositor corajoso e coerente do regime salazarista, muito mais alto do que o filho que só deitou corpo no fim da adolescência. “Ah Pai, se eu tivesse a tua idade sabendo o que eu sei…” Na altura em que isto me vinha à cabeça, voz saída da telefonia do carro anunciou-me que era o dia dos anos de Voltaire.

 

O Vasco e Voltaire ao começo da semana – nada mau para antídoto de tanta patetice ignorante nos tempos que correm, disse com os meus botões. Devo-me ter distraído anos a fio e, pelas conversas que agora tenho tido e pelos jornais que agora tenho lido e pelos programas de televisão por que tenho saltitado, devemos ter andado (quase) todos distraídos porque recebemos com surpresa desagradável notícias sobre coisas acontecidas entre nós ou muito perto de nós de que (quase) ninguém estava à espera - nem bandarilheiros, nem apoderados, nem curiosos na tourada da política.

 

Vai-se um homem deitar à noite convencido de que os ingleses querem ficar na União Europeia e acorda de manhã para saber que afinal querem sair. Vai-se uma mulher deitar convencida de que o 45º Presidente dos Estados Unidos vai ser finalmente, à segunda tentativa, uma mulher sabichona e teimosa chamada Hillary Clinton, e acorda de manhã para saber que afinal quem ganhou foi um aldrabão inculto, novato em política e malcriado que entendia muito melhor os eleitores americanos do que a sua experiente rival e, ao contrário dela, lhes sabia falar ao coração – de tal maneira que eram capazes de esperar por ele 3 horas para um comício, ao frio, até à uma da manhã, sem arredarem pé. Ontem, na véspera dos anos do Vasco e do Voltaire, franceses da direita e do centro, à procura de alguém que pudesse bater Marine Le Pen, protofascista da Frente Nacional, na segunda volta da eleição presidencial do ano que vem – que ela irá à segunda volta é convicção geral – numa primária aberta da direita e do centro escolheram antigo PM de Sarkozy que as sondagens punham em terceiro lugar, beato metediço na vida dos outros, liberal à la Thatcher em economia (coisa rara no sentimento francês, cujo primeiro reflexo à vista de criança descalça na rua é achar que a culpa é dos Rothschild, em vez de achar, como Thatcher, que a culpa é da criança), com um fraco por - e muitas visitas à - Rússia de Putin. Se o propósito é encontrar quem junte o resto da França para derrotar a extrema-direita (como Jacques Chirac derrotou Jean-Marie, pai de Marine, noutra segunda volta, em 2002) parece-me má ideia: Alain Juppé teria sido melhor escolha mas é claro que há ainda, no Domingo, a segunda volta da final da primária.

 

Em cada francês vivem, enlaçados em coluna salomónica, um ci-devant et um sans culottes. Têm de pensar em tudo pelo menos duas vezes.

 

 

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29.10.16

 

 

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marau
ma.rau
nome e adjectivo masculinos
(do francês maraud, «maroto»)

 

 

Galicismo interessante por ter entrado no léxico português com uma grafia semelhante à do francês e não com uma grafia que reflectisse um critério fonético, isto é que terminasse com o som «ô». Ou então é uma palavra que nos diz alguma coisa sobre a articulação do ditongo «au» num certo momento da história da língua que poderia perfeitamente ser o período das invasões francesas. Seja como for, o «maroto» francês tem em português tons mais carregados. O marau é o mariola, coisa italiana que significa patife, querendo dizer o malandro, talvez mesmo o malandrão. Mais do que biltre ou tratante, o marau é o que hoje se chamaria um «hooligan» de salão. É o corrécio, palavra que parece ter desaparecido dos dicionários, mas que a célebre saga dos irmãos Cavaco popularizou, para quem se lembra, que indica aquele que não obedece a ditames. O marau é um vadio, mas é também um malicioso. No fundo, o marau é uma figura de todos os tempos, um tipo que prefere a boa-vai-ela, que vive de expedientes e aparentemente ninguém controla. Hoje há também os maraus da política, sempre na linha da frente do proselitismo partidário, cães-de-fila parlamentares ou governamentais. São dados à incontinência verbal e à veemência. Geralmente, aparecem muito na televisão.

 

 

 

 

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21.9.16

 

 

 

 

 

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Defesa europeia, Brexit e bom senso

 

 

 

 

Alguns entusiastas vêm na saída anunciada do Reino Unido da União Europeia não um desastre mas uma oportunidade. O seu argumento é que, ao longo dos anos, o Reino Unido várias vezes impediu com o seu veto projectos de defesa europeia propostos por outros estados membros (na União Europeia, questões de defesa são decididas por unanimidade) como, por exemplo, a criação em Bruxelas de um quartel-general europeu. Deixando os ingleses a União, outros poderão levar os seus projectos avante, aumentando assim, segundo eles, a capacidade defensiva da União Europeia.

 

Hão de poder, com certeza. Mas espero que o bom senso prevaleça e isso não venha a acontecer. Os vetos dos ingleses a tais iniciativas não eram birras, eram resultado de duas condições necessárias para que defesa europeia eficaz possa existir: uma, que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (vulgo NATO) esteja pronta a intervir 24 horas por dia, 365 dias (6 em anos bissextos) por ano em caso de ataque a qualquer membro da Aliança (não aconteceu até agora e só esteve para acontecer uma vez: a 12 de Setembro de 2001, evocando o Artigo V do Tratado, todos os outros Aliados se disponibilizaram para ajudarem os Estados Unidos mas estes agradeceram e recusaram); outra, que os países Aliados elaborem os seus orçamentos nacionais de maneira a poderem arcar com as despesas que lhes caibam na partilha do fardo fiscal colectivo da defesa da Europa, em que os Estados Unidos também participam.

 

Enquanto a União Soviética existiu, medo saudável dela ajudou a arrumar as ideias nas cabeças de ministros, parlamentares e contribuintes na Europa Ocidental, e foram feitos esforços sérios de cumprimento das metas orçamentais acordadas para cada Aliado. Depois do colapso da União Soviética e do fim da Guerra Fria as coisas mudaram. Nenhum Aliado europeu gasta o que devia – e como devia - em defesa, sendo, de longe, o Reino Unido e a França os que mais se aproximam do cumprimento dessas obrigações. Juntamente com dimensão, arsenal nuclear e história (incluindo assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU), tal faz deles os únicos Aliados membros da União que são potências militares mundiais.

 

Na área da defesa, a saída do Reino Unido em nada enfraquece a União Europeia nem prejudica iniciativas Franco-Britânicas. Por uma razão: a defesa dos países membros da União Europeia contra eventuais ataques de terceiros cabe, não à União, mas à OTAN (directamente, para a maioria porque são também Aliados; indirectamente - tradição vinda da Guerra Fria -, para Irlanda, Áustria, Finlândia e Suécia que o não são).

 

O risco de “iniciativas europeias” (bem intencionadas ou/e antiamericanas), por exemplo, a de um quartel-general em Bruxelas seria, por um lado, prejudicarem unidade ocidental, condição sine qua non de bom funcionamento da defesa europeia e, por outro, competirem irracionalmente por fundos escassíssimos dando azo a ainda mais desculpas de mau pagador.

 

 

 

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3.8.16

 

 

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Fim de festa

 

 

 

 

Saiu o ano, entrou o ano. No topo do Estado dois chatos tristonhos deram lugar a dois faroleiros alegres e parece que o povo gosta assim. Ao menos anda a gente distraída, Senhor Doutor. Não ficámos menos pobres mas passámos a viver com mais gosto, dizem-me médicos de Lisboa e mestres d’obras de província. E nesta aventura inédita a que chamamos Europa – já lá vai mais de meio século sem andarmos à estalada uns aos outros (e sem batermos em pretos) – há muitos que nos invejam por esse mundo fora, apesar do mal que gostamos de dizer de nós próprios. Mas será preciso acordarmos e ganharmos juízo porque a papa doce está a acabar.

 

Não acabaria nunca enquanto a União Soviética existisse e a Alemanha estivesse dividida. (Gosto tanto da Alemanha que prefiro que haja duas – lembrava o General De Gaulle). O medo que o Camarada Estaline e os seus herdeiros nos metiam nos ossos tinha efeito salutar nas nossas decisões de europeus do Ocidente: dava força e razão ao que nos unia, punha de lado o que nos afastava e a construção europeia não parava. Se idade e doença não tivessem levado tão depressa desta para melhor os dois predecessores imediatos de Gorbachev, a perestroika e o colapso da União Soviética só teriam chegado dez anos depois, com a União Europeia já pronta para entrega aos europeus, chave na mão, pelo empreiteiro Delors ao serviço do casal franco-alemão (gravado para todo o sempre na sabedoria das nações por Mitterrand e Kohl de mão dada em Verdun).

 

A reunificação alemã deu cabo desse casal. Como no drama de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, que dantes se estudava no liceu, o primeiro marido afinal ainda estava vivo. “Perdida, desonrada, infame” grita da filha inocente a bígama involuntária quando tal descobre, antes de se fechar num convento a expiar a culpa até ao fim da vida. Para a Alemanha Reunida, o centro da Europa passou a ser a Leste. Tem algum respeito ainda pelo Noroeste protestante, à cabeça os holandeses, heróis de Srebrenica e gente de contas certas; Inglaterra indispensável para equilibrar França que não só descobriu que não manda na Europa (tempo foi em que Kohl dizia que o Chanceler alemão, quando ia ver o Presidente francês, devia começar por fazer três reverências) mas também que nem sequer em si própria manda - com os ingleses a irem-se embora, como é que vai ser? – e os de Sul e Sueste que se arranjem, punidos com cegueira analfabeta, norteada por calendários eleitorais teutónicos. Até à reunificação, a Alemanha Ocidental expiara exemplarmente a sua gigantesca culpa (ajudada por perdão de dívida que afastava fantasias de ir para Leste) mas, depois de reunida, a tentação de ser alemã e não cidadã europeia cruza cada vez mais cabeças, deixando mais nódoas negras nos vizinhos.

 

Enquanto a Europa se afunda. Quando agora o Sultão de Istanbul acusa as potências ocidentais de conspirarem contra ele, as potências em vez de mandarem canhoneiras para o Bósforo desfazem-se em desculpas de mau pagador.

 

 

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27.7.16

 

 

Marie_Eléonore_Godefroid_-_Portrait_of_Mme_de_Sta

Germaine de Staël

(Marie Eléonore Godefroid segundo François Gérard)

 

 

 

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O passado e o futuro

 

 

 

 

 

Cosimo de Medici, o mais sábio e ponderado de ninhada de irmãos florentinos de que o mais vaidoso era Lourenço, o Magnífico, banqueiro respeitadíssimo e homem de trato exemplar - dava sempre a parede a pessoas mais velhas (no seu tempo as ruas de Florença não tinham passeios e quando nelas se andasse “dar a parede” , fosse à direita ou à esquerda, era sinal de deferência) – dominava práticas financeiras novas que no seu tempo animavam o comércio internacional europeu e era, nesse sentido, um homem virado para o futuro. Mas, por outro lado, detestava a invenção da imprensa por Gutenberg, não porque esta tivesse tirado valor à sua biblioteca de incunábulos mas porque leitura era exercício requintado que não se compadecia com a vulgaridade dos paralelepípedos de papel a que chamamos livros, saídos em quantidades industriais das prensas tipográficas. Para Cosimo, a Renascença fora manchada pelo aviltamento de uma das mais refinadas experiências humanas e, nesse sentido, era um homem do passado. Lembro-me dele às vezes, escrevendo onde escrevo agora: penas (plumas) propriamente ditas já tinham desaparecido quando aprendi a redigir mas canetas de molhar o aparo na tinta, canetas de tinta permanente, máquinas de escrever – comecei por uma Olivetti lettera 22 – que passaram a eléctricas, vi um dia no Diário de Notícias que Jimmy Carter estava a escrever as memórias dele num “word-processor”, até ao computador que uso agora e me obriga de vez em quando a pedir ajuda ao Cipriano que, sem sair do escritório dele, entra no meu écran e, enquanto o diabo esfrega um olho, em série de cliques que obedecem a gramática que não conheço, acaba com o impedimento ou corrige o desvio que me levara a telefonar-lhe. (Isto, na escrita. Quanto à leitura, enquerenço como Cosimo embora não em incunábulos mas sim em livros impressos em papel - assim fazem touros em Praças que não saem de um lugar por muitas capas que lhes metam pela frente. Não julgo que alguma vez me meta a ler um livro electrónico – é assim que se diz? – nem mesmo em leituras de verão, onde a modernice poupa imenso espaço dentro das malas de bagagem que se levem para férias.

 

A propósito, não só nisso os antigos eram diferentes dos modernos. Hoje, chegado o Verão, os europeus vão para férias. Antigamente iam para a guerra. Deixando memórias vivas, mesmo em país neutro aonde havia férias (agradeciam as mães portuguesas ao Dr. Salazar, a despropósito, pois fora Franco que travara qualquer apetite de Hitler para invasão da Península Ibérica). Lembro-me como se fosse hoje do Pai chegar ao Estoril ao fim da tarde e dizer que a guerra tinha começado.

 

Com a Europa a esfrangalhar-se, Trump na maior, o Czar e o Sultão sem ganharem tino, gente nova cheia de sangue na guelra, correcção política que não deixa pôr nomes aos bois e divórcio entre elites e povos parecido com o que alarmou Madame de Staël durante a Revolução Francesa, talvez os nossos verões tornem a pegar fogo.

 

 

 

 

 

 

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13.7.16

 

 

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Barroso, Goldman Sachs e bom senso

 

 

 

De há uma dúzia de anos para cá, no calendário cinegético deste maravilhoso país que tão generosamente nos acolhe no seu seio – assim chamava a Portugal amigo inglês que cá vivia e já esticou o pernil – abre de vez em quando a caça ao Barroso. (Os nossos compatriotas atiradores à espécie folgam quando franceses rompem também o defeso. Franceses a cuja visão marxista primária do mundo se junta nessas alturas indignação escandalizada pelo triunfo do filho da concierge. Michel Rocard disse uma vez a Barroso que mesmo que ele cantasse a Marselhesa e erguesse ao alto o estandarte tricolor a esquerda francesa nunca o toleraria).

 

A pulsão condenatória nacional tem raízes mais variadas do que a estrangeira, nutrida por todos os horrores da alma humana. Inveja, empertigamento moral e ignorância fazem má mistura, da qual saem comentários nos jornais, nas telefonias, nas televisões, nas “redes sociais” e nas conversas. Num caldo de cultura de má-fé e má-vontade.

 

No cargo que Barroso vai agora ocupar em Londres – Presidente não executivo de Goldman Sachs International – esteve durante uma década, até ao ano passado, o irlandês Peter Sutherland  (o melhor Presidente que a Comissão Europeia não teve: política interna irlandesa impediu o que haveria sido escolha unânime) que foi Comissário Europeu e criou o programa Erasmus, Representante do Secretário-Geral da ONU para Migração, pilotou a transição de GATT para OMC, presidiu à BP, preside à Comissão Católica Internacional sobre Migração, tem vários outros encargos e a mais alta das reputações no mundo em que política e economia internacionais se entrecruzam. Encontrar sucessor à altura não terá sido fácil até Goldman Sachs decidir convidar Durão Barroso.

 

Ouviu-se e leu-se logo um coro de protestos, de entrada esperançados numa ilegalidade. Como esta não existe procuraram, também em vão, conflito de interesses. Por fim trataram Barroso como se fosse um traidor que se tivesse posto ao serviço do inimigo. Tal é, evidentemente, absurdo mas, como essa evidência parece escapar a muitos, vale a pana recordar algumas coisas elementares.

 

Durão Barroso, que foi presidente incansável da Comissão Europeia, vai agora presidir a Goldman Sachs. Mesmo a mais eurocéptica das cidadãs terá de reconhecer que é dever da Comissão - que nos próximos anos não terá mãos a medir na definição das novas relações entre o Reino Unido e a União Europeia - obrar pelo bem dos europeus. Por sua vez Goldman Sachs tem todo o interesse em que essa definição garanta a melhor articulação possível entre a praça financeira de Londres e a Europa Continental, como terá de reconhecer mesmo o mais eurofílico dos cidadãos europeus. A escolha de Durão Barroso faz assim o maior sentido e merece parabéns.

 

Salvo, claro, para quem ache que banqueiros – homens de negócios em geral - são cambada de gatunos apostada em esbulhar o povo e o alto funcionalismo internacional um bando de lacaios do capitalismo.

 

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2.7.16

 

 

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galhardia
ga.lhar.di.a
nome feminino
[de galhardo (do provençal antigo galhart, francês gaillard) + ia]

 

A galhardia pode referir-se à beleza ou à distinção, à generosidade, à vivacidade, à robustez ou à bravura. O coloquialismo espanhol trapío (de etimologia incerta; segundo José María de Cossío a palavra terá origem no jargão náutico, no qual designaria o velame), ausente dos dicionários portugueses, embora usado na língua com frequência, sobretudo em contexto tauromáquico, aglutina algumas destas acepções. O Dicionário da Real Academia Espanhola oferece como segunda acepção de trapío a «boa presença e galhardia de um touro de lide». Mas não é esse o primeiro significado listado; nesse primeiro lugar aparece o «ar garboso que costumam ter algumas mulheres».
Não é necessária uma grande investigação para concluir que, relativamente ao touro, na sua «presença e galhardia» se articulam envergadura, beleza, brio e bravura. Relativamente à mulher, a ideia é sobretudo designar a elegância e o porte. A vivacidade e aprumo inerentes à prática de dançar galhardas, popularizadas em Portugal nos salões dos séculos XVI e XVII, deixou algum vestígio no significado de galhardia que toca também o significado de garbo (palavra de origem italiana). A elegância grácil do garbo é, no entanto, designada com acerto por uma outra palavra fora de moda, belíssima por sinal, que aliás nos chegou por via castelhana: donaire.
Seja como for, em Portugal, o termo trapío, usado — sem dúvida por gente com uma organização mental especiosa — para designar o porte garboso da mulher desliza facilmente para a outra acepção: uma mulher com trapío é uma mulher com a envergadura necessária. Que por certo se desenvencilhará com galhardia, seja o que for que isso, no momento, queira dizer.

 

 

 

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22.6.16

 

 

 

Philippe Wojazer Reuters.jpg© Philippe Wojazer/Reuters

 

 

 

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Europa sem ingleses ? Não, obrigado

 

 

 

Desde o Tratado de Windsor - e da batalha de Aljubarrota – Portugal e a Inglaterra têm tido relações privilegiadas que resistiram ao ultimato inglês de 1890 e a pressão alemã durante a II Guerra Mundial para que a nossa neutralidade nos impedisse de aceitar a instalação de base militar inglesa (e, depois, americana) na Ilha Terceira dos Açores.

 

Potências marítimas, confrontadas por poderes continentais, demo-nos bem assim quando a Europa passou a ser o centro do mundo e também agora, que a União Europeia já não o é. Na quinta-feira (eleições e referendos são às quintas-feiras no Reino Unido), os ingleses - a escoceses e irlandeses do Norte o problema não se põe -, em inusitada manifestação colectiva de falta de bom senso, poderão optar por sair da União. Não acredito que o façam mas, se o fizerem, Portugal deveria começar a pensar em sair também.

 

Temos recebido muito da União, como tínhamos recebido muito das Comunidades Europeias que a precederam. Sem a Inglaterra, porém, a União será um animal político muito diferente do que é agora, contrário ao nosso interesse.

 

Com o Tratado de Roma de 1957, França, Alemanha, Itália e Benelux criaram a Comunidade Económica Europeia. O Reino Unido - isto é, a Inglaterra - não se quis então juntar aos seis fundadores. Poucos anos depois passou a querê-lo mas De Gaulle opôs-se. O alargamento a Reino Unido, Irlanda e Dinamarca fez-se em 1973; quando Portugal aderiu em 1986, já a Inglaterra era um dos ‘Quatro Grandes’. A chamada Construção Europeia fora possível porque, a seguir a seis anos de guerra, os europeus, sobretudo a Alemanha, estavam de rastos e URSS (potência atómica desde 1949) e EUA partilhavam o domínio do mundo em Guerra Fria. Os EUA protegiam a Europa Ocidental: defendiam-nos da Rússia - e defendiam-nos também uns dos outros. Sem uma Rússia que nos aterrorizava e uma Alemanha de rastos não se teria chegado à União Europeia.

 

A URSS colapsou e a Rússia revanchista de Putin não mete medo que se lhe compare. O terror soviético animava forças centrípetas vitais para a Europa; sem ele medram forças centrífugas de nacionalismo (patriotismo é amor aos nossos; nacionalismo é ódio aos outros, Romain Gary). Entretanto, a Alemanha levantou-se do chão, reunificou-se, fez do Eixo Franco-Alemão a trela com que Berlim puxa Paris, ajeitou os Tratados e, sem Inglaterra a bater-se por liberdade económica, defesa forte a Leste e Sul e bom senso em geral, acabaria obtendo em paz – mais por erros dos outros do que por desígnio próprio – o que lhe escapara nas guerras lançadas em 1914 e 1939: domínio incontestado da Europa.

 

Não há país mais longe do fascismo do que a Alemanha de hoje mas há vigências antigas. A saga da austeridade atasca a economia do Continente, afunda o Sul, divide Norte e Sul, com os alemães convencidos de estarem a fazer bem, por bem. Querem livrar-nos dos nossos Demónios e não entendem que a gente queira livrá-los dos Demónios deles. Assim não.

 

 

 

 

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1.6.16

 

 

 

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Cem anos depois

 

 

 

Ernst Jünger, autor de diários de guerra célebres na Alemanha e também em França – traduzidos na Bibliothèque de La Pléiade (Tomo I: 1914-1918; Tomo II: 1939-1945), sendo o primeiro considerado por muitos o mais belo livro de guerra e o segundo, onde o autor, já homem feito, hostil aos nazis, deixou para trás a excitação do combate e o horror das trincheiras para ser oficial durante a ocupação alemã de Paris, relata com a mesma franqueza a extrema dificuldade de conservar “a sua integridade num mundo onde verdade e moralidade já não têm qualquer expressão visível” – quando lhe haviam perguntado, nos anos de l’entre deux guerres, qual a impressão mais forte que lhe ficara da Grande Guerra, respondera “A pena de a termos perdido”.

 

Lembrei-me dessa resposta com as comemorações do centenário da batalha de Verdun que durou onze meses, matou oitocentos mil soldados sob as bandeiras alemã e francesa vindos de muitas pátrias - no caso da França bem para lá da Europa e da cristandade – e foi ganha sob a égide do Marechal Pétain que ficou herói nacional – quase à altura de Joana d’Arc no altar patriótico que cada francesa ou francês traz dentro da cabeça – até a Alemanha atacar de novo, 20 anos depois de humilhada pela paz de Versailles, tendo Pétain, guindado a Presidente da República, negociado rendição que deixou a Alemanha a ocupar o país e o governo francês, subalterno, sediado em Vichy. De Gaulle, de cujo filho mais velho Pétain fora padrinho, fugiu para Londres, de lá exortou à rebelião pela BBC, organizou a Resistência e foi condenado à morte à revelia. (Os comunistas só passaram a resistir aos nazis depois de Hitler invadir a Rússia em 1941). Com a vitória Aliada em 1945, De Gaulle, entretanto Presidente, amnistiou Pétain que de Leão de Verdun passara a traidor condenado à morte e acabou a vida preso da Ilha de Yeu. François Mitterand, Presidente socialista eleito em 1981, mandava pôr-lhe flores na campa nos aniversários da sua morte.

 

No Domingo, diante do ossuário monumental que guarda milhares de ossadas desconhecidas franco-alemãs, inaugurado em1932 (condenar o horror da Grande Guerra não impediu os chefes de se meterem noutra), François Hollande e Angela Merkel lembraram erros e crimes passados e avisaram de nuvens negras no futuro. De facto, novos fascismos e racismos de sempre atraem muita gente. Na Europa, fronteiras voltam: só a que separa Chéquia e Eslováquia não foi traçada a sangue. A guerra é tao antiga quanto o homem; a paz é uma invenção recente, disse jurista inglês a meio do século XIX.

 

Felizmente há a Bomba (nuclear) para moderar ímpetos mas quanto mais amigos animarem à toa redes sociais e mais jornais com pés e cabeça forem desaparecendo de bancas e écrans, maiores serão as probabilidades de gente que não sabe nada e julga saber tudo ser posta no poder em eleições livres e limpas e o usar muito mal. O puto coreano já é grande susto; meia dúzia de graúdos democráticos serão o fim da picada.

 

 

 

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11.5.16

 

 

Charles_Maurice_de_Talleyrand-Périgord_by_Franço

Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord,

bispo de Autun, príncipe de Benevente, 1754-1828

(François Gérard, 1808)

 

 

 

 

 

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La douceur de vivre*

 

 

 

 

Amigo recolhido há muitos anos para lá da barbacã do Alzheimer deixou-nos de vez há dias. Era homem de outro tempo – como às vezes chamamos ao passado - e gostaria de ter nascido em tempo mais passado ainda. Quando fora novo e ia e vinha de Bruxelas a Lisboa de automóvel dava sempre volta larga para não passar por Paris. Porque em Paris, com a Revolução Francesa de 1789, começara a tragédia do mundo moderno.

 

Lera com certeza as Reflexões sobre a Revolução em França de Edmund Burke, publicadas logo em 1790, mas mesmo que o não tivesse feito percebia tão dolorosamente quanto o parlamentar irlandês da Câmara dos Comuns o rombo brutal às tradições que começara a ser aberto; a preferência funesta dada a princípios abstractos sobre costumes. E, se fora admirável em Burke a previsão perspicaz, o meu amigo sofrera, nos decénios da sua vida lúcida, o desenrolar sem remissão desse futuro impiedoso. Está agora na moda dizer mal da Revolução Francesa mas ele não era homem de modas: pensava o que pensava desde os seus anos (brilhantes) de universidade. Ceux qui n’ont pas vécu avant la Révolution n’ont pas connu la douceur de vivre.

 

Do que pouca gente se dava conta e muitos se davam conta achando bem. Sobretudo na Europa continental, farta de monarquias absolutas, e nos Estados Unidos da América, bêbados de independência triunfante, com escravos e índios a amortecerem a pancada. O grande poeta inglês William Wordsworth cantou a felicidade de ser vivo e ainda por cima novo nos momentos gloriosos da Revolução do outro lado do canal mas, nas suas ilhas, tal visão foi sempre minoritária. A prudência e o bom senso britânicos prevaleceram, na convicção de que todo o cuidado seria pouco. O Dr. Samuel Johnson – lexicógrafo, considerado homem tão espirituoso que em dicionários de citações inglesas só Shakespeare, Oscar Wilde e Bernard Shaw o batem em número de entradas – quando a Duquesa de Devonshire, acolhendo-o para sarau literário na sua casa de Londres, lhe disse, entusiasmada, ir ter entre os convidados dessa noite dois revolucionários de Paris, respondeu: “Watch the silver, Madam!” (“Atenção à baixela!”).

 

Coube-nos estar a assistir ao fim desse enorme sobressalto mas nem de longe foi a primeira vez que a história alarmou espíritos atentos. Há poucos anos alguém enumerou o que considerava as piores catástrofes do percurso ocidental, começando já se vê no Próximo Oriente. Por ordem cronológica: monoteísmo; cristianismo primitivo; reforma; Marx e, acrescentaria eu se Thérèse Delpech ainda fosse viva para o defender melhor do que eu o teria atacado, Freud. Desde que o Homo sapiens deu por si, a Dor humana busca os amplos horizontes e tem marés de fel como um sinistro mar.

 

“Não há-de ser nada!” diria o Senhor Engenheiro e, embora o destino não tenha sido o seu forte, está sol em Bruxelas e suspendo a descrença. O mais de tudo isto é Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca.

 

 

 

*Com vénia a Talleyrand, Cesário e Pessoa.

 

       

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4.5.16

 

 

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 o avião de Henri Guillaumet

 

 

 

 

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Mar Morto e cavalinhos

 

 

 

Começo a escrever ao meio-dia da Quinta-Feira 28 de Abril. Quando a leitora me ler, a Vera, minha senhoria e decoradora de interiores na net (com o bloco aninhado no seu blog, as ilustrações são propostas por ela), terá saído da Portela na madrugada de Sábado para estar ao fim do dia na Jordânia, mais precisamente numa margem do Mar Morto, a interpretar em conferência de ONG dedicada a crianças e famílias, ficando por lá até ao próximo Sábado. Poderia, mesmo assim, ter posto o bloco no blog no começo da semana mas havia preferido que eu lhe mandasse o texto antes de partir porque, technologically challenged fora de casa, só com a malinha dos pertences, talvez não conseguisse encontrar boneco apropriado. Respondi-lhe que sem horas de fecho estritas me era muito mais difícil escrever para qualquer publicação, que o desafio me agradava e que ela poderia contar comigo.

 

Pensei na tarefa e prefigurei a táctica. Decidi antecipar trabalho no morto a publicar no Expresso de Sábado e, com efeito, acabei de o escrever ontem e mandei-o esta manhã (28) com mais de 24 horas de avanço sobre a deadline afim de ficar à vontade ao redigir o bloco. Lembrei-me de Guillaumet, aviador colega e amigo de Saint-Exupéry, cujo avião-correio caíra nos Andes deixando-o ileso mas sozinho na neve, sem comunicações. Cá em baixo deram-no por perdido mas três dias depois encontrou gente e foi salvo, para grande alegria de todos, exausto mas feliz. “Ce que j’ai fait, je te le dis, jamais aucune bête ne l’aurait fait!” declarou. Sabia que se parasse para descansar se deixaria dormir na neve e nunca mais acordaria; por isso não parara de andar. Era homem novo, os pilotos têm treino físico muito exigente mas, francês de nascimento e formação, fora o que entendia ser um triunfo do espírito sobre a matéria que lhe deslumbrara a mente. N’est pas français qui veut. Sendo o homosapiens o único animal com capacidade cerebral para o cálculo que Guillaumet fizera no cimo dos Andes, tinha provavelmente razão. Como eu tive ao avançar esta semana para Quarta-Feira a escrita do In Memoriam.

 

Un soneto me manda hacer Violante começou famosamente Lope de Vega, enfiando considerações sobre a arte do soneto em geral e o método da feitura daquele soneto em particular para rematar no 14º verso: contad si son catorce, y está hecho! mas eu estou ainda em 2.310 batidas – com espaços - faltando-me por isso 690 e não me parece que seja por aqui que o gato irá às filhoses. Mas uns versos puxam por outros e com o estado em que a Europa se apresenta agora, a rebolar para o fascismo, vem-me à cabeça Manuel Bandeira, no Jockey Club do Rio de Janeiro, em 1936:

 

Os cavalinhos correndo,                                                                                                          

E nós, cavalões, comendo.                                                                                                        

A Itália falando grosso,                                                                                                          

A Europa se avacalhando.

 

Cavalinhos, cavalões, o refrão vai-se repetindo, a beleza de Esmeralda faz esquecer Mussolini e outros males do mundo, enlouquecendo o poeta, tudo como deve ser, porque Manuel Bandeira sofria daquilo que o António Alçada achava ser também maleita minha: a mania de viver em epopeia amorosa.

 

Por razões técnicas longas de explicar a contagem de batidas neste texto não é evidente mas palpita-me estar pelas 3.000. Até Quarta-Feira que vem.

 

 

 

 

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30.4.16

 

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geringonça
ge.rin.gon.ça
nome feminino
(do provençal antigo, gergon, «linguagem corrompida ou incompreensível»)

 

A origem deste termo parece ser a mesma da palavra francesa a que fomos buscar o nosso «jargão», que designa a linguagem de um grupo, mais concretamente o léxico específico de um grupo profissional ou social (o mesmo que gíria, portanto), nisso diferindo de calão, que é um fenómeno similar, mas em registo mais circunscrito e grosseiro.
Certo é que a palavra adquiriu uma nova vida, isto é, um outro sentido, que é praticamente o único que encontramos no português contemporâneo, e que também existe no equivalente espanhol jeringonza. E, assim, a geringonça é um artefacto rudimentar que, podendo ser relativamente astucioso (característica que partilha com engenhoca), é especialmente imperfeito ou mal feito, mal engendrado, tosco, grosseiro, mal-amanhado, mal-enjorcado, atamancado, albardado, de tal modo precário na sua construção – a qual podemos ver como estando presa por fios ou por arames – que a qualquer momento ameaça partir-se, desfazer-se, desconjuntar-se, descompor-se, desmanchar-se.

 

 

 

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6.4.16

 

 

 

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Monumento aos soldados portugueses mortos na 1ª Guerra Mundial

António Teixeira Lopes (1928)

La Couture, França

 

 

 

 

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O primeiro pecado é ser pobre

 

 

 

Assim escreveu Bernard Shaw, irlandês saído da minoria protestante da ilha, no começo do século passado acrescentando que quando alguém diz “sou inculto mas é porque sou pobre” está a desculpar um mal com outro pior. É como se estivesse a dizer sou coxo mas é da sífilis. Escreveu também que o dinheiro não dava felicidade mas dava uma coisa tão parecida que só um perito era capaz de as distinguir. Amiga minha a quem anos de vida nos Estados Unidos instilaram bom senso revivificante nas sinóvias morais instaladas em menina e moça pelas Doroteias gosta de lembrar às vezes com algum schadenfreude que “mais vale ser rica e saudável do que ser pobre e doente”. Conheci no Alentejo profundo Senhora chamada Antónia, mulher de taberneiro-seareiro com pendor filosófico, tão enérgica, metódica, esperta e diligente na lida do seu negócio, trazendo a taberna num brinco enquanto o marido preguiçava, que eu achava que ela, tal como Wolfgang (Amadeus Mozart), Pablo (Ruiz Picasso) e William (Shakespeare) não deixava “criar gordura ao músculo do dia”.

 

Fora Portugal assim… Mas não é. Se o meu entusiasmo lírico era evidente, já o Senhor Teófilo, compadre dela e secretário da Junta de Freguesia, se queixava: “É boa rapariga, a Antónia – é pena ter aquela coisa do lucro.” Aquela coisa do lucro… O lucro ser coisa má é convicção que parece permear o país de alto abaixo e de lado a lado, desde a direita das sacristias tradicionais (as Misericórdias, por exemplo, limitavam rigorosamente o juro – baixo - a que emprestavam dinheiro) até à esquerda dos sindicatos modernos (“La propriété c’est le vol” foi Proudhon quem o disse primeiro mas não era por isso que Marx o detestava). “Hoje fiz manhã de rico!”, expressão que ouvi também no Alentejo a jovem funcionário do Grémio da Lavoura com quem encalhei no café central da terra, sentado diante de um café com leite e de uma torrada às onze da manhã, deixaria qualquer milionário americano, por um lado, indignado por se pensar que as manhãs dele eram assim e, por outro, relutante diante de sugestões de investimento num lugar onde se julgava que os ricos assim eram – talvez por ser o caso dos indígenas ricos. A América dos negócios ficara inquieta quando descobrira que Ronald Reagan descia ao seu escritório na Casa Branca às 9 da manhã, em vez de ser às 7 como qualquer protestante anglo-saxónico branco que se prezasse.

 

Algures entre a apresentação de Os Lusíadas a D. Sebastião e as três invasões francesas perdeu-se o fio à meada. O pai dizia que não somos descendentes dos que foram à Índia: somos descendentes dos que cá ficaram. Em tudo. Quarta-feira passada lembrei-me de Fernão Mendes Pinto, dizimando chineses a poder de Avé-Marias e pelouros; hoje lembro-me de um tenente-coronel reformado adorável, muito de casa do meu primeiro sogro, que na batalha de La Lys comandara uma bateria de morteiros. Contou-me que sempre que mandava um para o outro lado rezava para não matar ninguém.

 

 

 

 

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2.3.16

 

 

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Lord Ismay, 1º secretário-geral da OTAN, no seu gabinete, palais de chaillot,  1953

© OTAN/NATO

 

 

 

 

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Olhar por nós

 

 

 

 

Com segurança não se brinca. Seis anos de guerra sem quartel acabando em rendições incondicionais da Alemanha e do Japão em 1945 temperaram os Estados Unidos, deixando-os aptos a chefiarem aquilo a que chamávamos o Mundo Livre durante a Guerra Fria.

 

Em geração próxima – Churchill seria um dos vencedores de duas guerras mundiais; Hitler, um dos vencidos –, a seguir à vitória de 1918, o Senado desfizera os sonhos do Presidente Wilson, recusando que os EUA se juntassem à Sociedade das Nações. Entretanto, as condições leoninas impostas à Alemanha vencida ajudaram ao colapso da República de Weimar e ao triunfo eleitoral do nazismo. (Convém nestes dias de Trumps, Le Pens e Putins, lembrar que Hitler não tomou o poder pelas armas; apanhou-o do chão em eleições livres e limpas).

 

Assim, em 1945 a Alemanha, ou pelo menos a parte dela que coube ao Ocidente, foi poupada a exacções ruinosas. Pelo contrário, em 1953, quando até mesmo os franceses tinham percebido que o inimigo passara a ser a Rússia e deixara de ser a Alemanha, quase toda a dívida que restava das duas guerras lhe foi perdoada para a ancorar melhor ainda no Ocidente. Washington queria ter os pés bem assentes no chão: só depois de alguns europeus terem criado organização de defesa própria – a União da Europa Ocidental – os americanos se dispuseram a negociar com eles e alguns outros, quase todos democracias (Portugal era a excepção e a base das Lajes a razão dela - com segurança não se brinca) o Tratado de Washington, assinado em 1949. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) estabeleceu-se em 1952. A maior e mais reputada aliança militar do mundo contemporâneo desimaginou durante quarenta anos a URSS de aventuras insensatas e ganhou a Guerra Fria sem ter de dar um tiro (salvo em exercícios de fogos reais).

 

Desde essa altura houve quem achasse que devia acabar: amantes imprevidentes da paz, que não são poucos e nunca aprendem; anti-americanos primários, convencidos de que a Rússia deixara de ser problema e, sobretudo, a Rússia de Putin que diz ser o alargamento da OTAN a Leste uma provocação agressiva (dado que Geórgia e Ucrânia, vizinhos da Rússia que estão fora da OTAN, são atacados pelos russos, e outros vizinhos, dentro dela, não o são, é preciso ter lata).

 

Único instrumento colectivo de defesa de que dispomos, para além de continuar a meter respeito profilático desempenha outro papel crucial: refreia nacionalismos militaristas dos Aliados, pondo os europeus na bicha e não virados uns contra os outros. Defender-nos-á de eventuais invasores - terroristas, cibernéticos, nucleares, convencionais. (E, se o Kremlin ganhar um dia boa-fé, será interlocutora ideal na discussão de interesses europeus e americanos).

 

Só não serve para a vergonha actual: 500 milhões, prósperos e anafados, enxotando como pestíferos escassas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças fugidos de guerra nas suas terras, no engodo enganado dos valores europeus.

 

 

 

 

 

 


6.1.16

 

 

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Vontade nacional

 

 

 

“… parecer-me-ia muito interessante que escrevesse sobre um dos mais difíceis factores mensuráveis (?) do poder de um Estado - a vontade nacional. Onde está a nossa vontade nacional? Existe? Para onde caminha? O que se espera da nação? Ainda somos um estado-nação?”

 

Bom conselho de politóloga, se nos quisermos pôr a pau perante o que são Mundo, Europa, euro, democracia, desemprego, temperaturas, Maomé, Cristo, Buda, terroristas, velhos, refugiados, mulheres veladas e sem véu, passado, futuro. Embora eu olhe para o assunto de outro jeito por achar que a ciência política não ajuda muito a entendê-lo (nem a entendermo-nos a nós por via dele). Já a História ajuda, se for bem contada como foi, por exemplo, a da guerra do Peloponeso; histórias ajudam também, tal a de Anna Karenina ou as de outras infelicidades; versos; frescos; estátuas; música – e fica um ror sem fim por entender. Não é só coisa de hoje e de aqui. “Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução” escreveu o brasileiro Carlos Drummond de Andrade no dia de Natal de 1928.

 

Seremos ainda um estado-nação? Duas vezes na vida julguei entender do que é que essa questão trata. Primeira. Quando fui embaixador em Moçambique, cinco anos depois da independência, tinha na residência três criados moçambicanos. Lourenço, Jacinto e Salomão garantiam-me o serviço da casa; eu mantinha-os livres da sua liberdade. Um estado fizera reverência à boca de cena e retirara-se para deixar outro estado tomar conta do palco. Uma nação esboroara-se. Mas, quanto a nós os quatro, o ritual que nos regia continuava a ordenar o nosso mundo. (But to the four of us the center/ Holds escrevi eu então, a rematar versos de circunstância).

 

Segunda. O massacre islamita de 13 de Novembro passado, em Paris, foi planeado ao pormenor por residentes, alguns deles franco-árabes, do bairro bruxelense de Molenbeeck, lugar com tradição jiadista antiga – de lá saíram os assassinos do comandante Massoud do Afeganistão em 2001 – e ruas onde a polícia há décadas não põe pé. As polícias secretas europeias passam constantemente informações umas às outras e a investigação do massacre de Novembro mostrou que as autoridades belgas não tinham usado, ou tinham usado pateticamente mal, informação recebida; bem aproveitada poderia provavelmente ter impedido o massacre. Porque não há na Bélgica vontade nacional: flamengos e valões detestam-se; de alto abaixo, múltiplos níveis de decisão comunicam pouco e mal entre si; a disfunção do estado é permanente.

 

Em Maputo percebi que, em transições, anseio de ordem protegida encontrará maneira de se satisfazer, mesmo à custa de incongruências, porque de dentro para fora - do lugar onde dói – estas contam pouco.

 

Em Bruxelas percebi que boa-vai-ela tolerante de antijacobinos como eu não sabe defender-se de quem queira dar cabo dela. Caricatura premonitória de Europa sem estados-nação?

 

Entretanto, e como dantes, nós por cá todos bem.

 

 

 

 

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9.12.15

 

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 França, 2015

 

 

 

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De mal a pior

 

 

Os alemães hão de ser sempre alemães, os franceses franceses e os portugueses portugueses, porque não há outros. Dito isto (quanto aos portugueses, já fora dito pelo primeiro Duque de Palmela, homem avisado que nas suas memórias contou ter tido dois grandes fitos na vida: fazer de Portugal uma monarquia liberal e casar o filho primogénito com a herdeira mais rica do país), a Alemanha de Merkel é muito menos parecida com a Alemanha de Hitler do que a França de Hollande com a França de Pétain, mesmo que fotografias de Paris e Berlim em 1944 e 1945 possam sugerir o contrário (Paris libertada por De Gaulle e os aliados ocidentais, sem uma vidraça partida, com pequenas na rua a saltarem ao pescoço dos magalas; Berlim arruinada pelo exército vermelho, com as mulheres em casa cheias de medo de sair à rua, não fosse a soldadesca soviética violá-las).

 

Ou talvez por isso mesmo. Depois de expansão fulgurante no começo da guerra, triunfos nazis que alargaram o domínio do Reich e incharam o orgulho dos alemães, vieram derrotas no Norte de África e em Estalinegrado que mudaram o curso da guerra até ao suicídio de Hitler e à rendição incondicional, seguida da ocupação - zonas russa, americana, britânica e francesa -, da proibição de ter forças armadas, dos julgamentos de Nuremberga, da divisão em dois estados até ao colapso da União Soviética, da vigilância e culpabilização permanente pelos vencedores. A Alemanha foi martelada para ficar tenra, como se fazia dantes aos bifes. De tal maneira que, mesmo hoje, mais rica e poderosa que qualquer dos seus parceiros europeus (salvo - por não o querer - militarmente) é, de longe, a grande potência que melhor respeita os direitos humanos e que trata os pequenos com mais decência.

 

Na França, a história foi outra. Graças à coragem e ao génio político de De Gaulle, em 1945 figurou entre as vencedoras da guerra e não entre as vencidas, como o comportamento do regime de Pétain e da grande maioria dos franceses por ele governados teria amplamente justificado. Instalada nesse casulo (poetas e prosadores haviam dourado a Resistência) viveu décadas de fantasia, considerando-se equidistante dos Estados Unidos, a quem invejava o poder (e que De Gaulle detestava) e da Rússia Soviética por quem a esquerda francesa - a operária e a caviar – esteve longamente fascinada (Yves Montand e Simonne Signoret saíam malcriadamente de jantares se algum conviva sugerisse que o Gulag existia).

 

Desde a reunificação alemã, o conchego do casulo começou a estragar-se; a crise de 2008 deu-lhe bolada grande; refugiados e terroristas bateram mais e às 8 da noite de Domingo passado os resultados da primeira volta das eleições regionais mostraram, urbi et orbi, o descalabro a que a França chegou. O Front National, racista, xenófobo e protecionista poderá vir a ganhar 6 de 13 regiões e passou a ser o partido mais votado do país.

 

Por este andar, talvez Marine Le Pen ponha a cereja no bolo, conquistando o Eliseu em 2017.

 

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2.12.15

 

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Giovanni Francesco Rustici (ca. 1495)

 

 

 

 

 

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Civilização

 

 

 

André Malraux, escroque francês de génio que se distinguiu nas letras (L’Espoir, La Métamorphose des Dieux), na guerra contra o fascismo (Brigada Internacional em Espanha), na guerra contra o nazismo (Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial) e na política (ministro da cultura de De Gaulle que, quando o amigo François Mauriac, prémio Nobel da literatura, lhe perguntou como conseguia aturá-lo, respondeu: “Malraux c’est mon vice”), escreveu: “Nós somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem.”

 

Era bom, era. O “nós” de Malraux referia-se a um grupo de pessoas muitíssimo mais pequeno do que aquelas que a nossa “civilização” abrange. Apesar de nas escolas actualizadas dos países mais desenvolvidos se aprender que o Big Bang, origem de nós e de tudo o resto, se deu há 13,8 biliões de anos, nada se sabendo do nada que houvesse antes, a vasta maioria da gente – sem chegar aos excessos de literalismo bíblico dos evangélicos americanos (ou, noutra variante de monoteísmo, igualmente candidata a civilização, ao literalismo corânico dos salafistas sauditas) – conforta-se com mitos de criação e redenção que – tal como água de Fátima desde que seja fervida – não fazem mal a ninguém, a não ser se, como acontece agora entre os salafistas, exijam a matança dos infiéis. (Há uns séculos também éramos assim: “E com muitas Ave Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num credo” conta Fernão Mendes Pinto, com o desembaraço de um tempo em que não havia ONG dedicadas aos direitos do homem nem governos empenhados na salvaguarda do estado de direito).

 

No século XX os europeus (e os chineses) foram apanhados em cheio por novo mito, na aparência tão radicalmente diferente das restantes fés – também vinha curar os nossos males mas tudo se passaria neste mundo - que podia ser tomado por outra coisa. Raymond Aron chamou-lhe o ópio dos intelectuais. O estardalhaço foi enorme mas o paraíso não se instalou na Terra. Gato por lebre, dirão alguns, mas o problema é que a lebre, ou melhor, as lebres também não dão conta do recado. Ao mesmo tempo que ser marxista passou a opção privada (assim como ser vegetariano ou filatelista), fés mais antigas - duradouras por nunca terem caído na esparrela de se considerarem ciência - reapareceram no esplendor da sua intolerância. E no mundo globalizado de hoje podem chegar a toda a parte. Na Birmânia, maioria budista maltrata sem dó nem piedade minoria muçulmana. 1.300 anos de cizania sangrenta entre sunitas e xiitas levaram o mês passado à matança de Paris, inspirada, planificada e executada por salafistas.

 

A Europa, adubada pelo Iluminismo, separou a igreja do estado: não matamos nem morremos por mitos religiosos. Considerá-la fortaleza cristã é disparate nocivo. A sua força vem da tolerância. É para defesa desta contra intolerâncias (budista, sunita, xiita, calvinista, católica romana, marxista, o que for) que precisamos de nos armar até aos dentes.

 

 

 

 

 

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18.11.15

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Uma invenção recente

 

 

“A guerra é tão antiga quanto a humanidade” disse jurisconsulto inglês em meados do século passado: “A paz é uma invenção recente”. Ilustrando a razão dessa sentença deflagraram, já no século XX, as duas maiores guerras de sempre – até agora. Nós, na União Europeia, nascida como Fénix de brasidos deixados pelo fim da segunda depois da rendição incondicional da Alemanha nazi, parecíamos convencidos de que desta vez a paz era a valer e, sobretudo desde o colapso da União Soviética, achámos que não valia a pena gastar dinheiro em defesa, preferindo sacrificar esta a aumentos na saúde e noutros mimos, possíveis em tempo de paz. (Como escreveu outro inglês, Duff Cooper, ministro no governo de guerra de Churchill, autor de óptima biografia de Talleyrand e embaixador britânico em Paris em 1945 que saiu um dia abruptamente de restaurante explicando que a vida era curta demais para um mau almoço: “A ideia de que cortar nas despesas militares diminuirá os riscos de guerra é tão absurda como pensar que para reduzir o número de roubos se devam fechar as esquadras de polícia”). 

 

A inércia do bem-estar é muito forte. Em matéria de defesa - e de política externa, sem a qual não se saberia ao certo quem defenderia o quê de quem – nada parecia alarmar os nossos povos ou os nossos governos: nem Putin na Ucrânia, nem o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, nem o caos na Líbia depois de lá termos borrado a pintura. (Há alguns meses, antigos países de Leste e antigas Repúblicas bálticas da U.R.S.S., com memórias ainda vivas do bafo do urso no pescoço, conseguiram que a OTAN mostrasse os dentes lembrando que existia - sensatez milagrosa manteve a OTAN pronta a servir, agora com Secretário-Geral à altura - mas, no geral da União, não se pensava nestas coisas ou pensava-se nelas com pouco zelo). 

 

No fim da semana passada, da noite para o dia, as coisas mudaram com os ataques terroristas em Paris, comandados de Racca no Estado Islâmico do Iraque e da Síria e planeados no bairro bruxelense de Molenbeek, à esquerda de quem vá do Jardim Botânico para a Basílica, depois do canal, bairro que já pertencerá ao imaginário do Islão radical - também foram lá planeados o assassinato do comandante afegão antitaliban Massud, 2001, e os quase 200 assassinatos da gare de Atocha em Madrid, 2004 - em partes do qual a policia belga não se atreve a entrar.

 

François Hollande declarou que a França estava em guerra; Angela Merkel acrescentou que o acolhimento aos refugiados deveria continuar como antes. Por uma vez, desde há muito tempo, o eixo franco-alemão falou de cima, com razão e com coragem. Para continuar a existir a Europa precisa de absorver centenas de milhares de jovens que não tem na sua força de trabalho e precisa de saber defender-se de quem a atacar.

 

Vozes já se levantaram – também em Portugal - clamando que uso de força contra o Estado Islâmico não se deve permitir. Há gente que nunca aprende e gente que esquece o que tinha aprendido.

 

 

 


14.11.15

 

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 Une victime des terroristes à l'extérieur du Bataclan à Paris, le 13 novembre 2015.

(AP Photo/Jerome Delay)

 

 

 

 

Entre le tortionnaire et le corps qu'il déchire, la dissy­métrie est extrême. Le premier s'affirme délié de tout inter­dit. Le second doit se retrouver lié de partout. « Celui qui a, même une seule fois, exercé un pouvoir illimité sur le corps, le sang et l'âme de son semblable... celui-là devient incapable de maîtriser ses sensations. La tyrannie est une habitude douée d'extension... Le meilleur des hommes peut, grâce à l'habi­tude, s'endurcir jusqu'à devenir une bête féroce», écrit Dos­toïevski. La torture recèle in nuce, à l'état réduit et concentré, encore fruste et élémentaire, un style de rapport humain que seule la littérature russe ose scruter avec patience, avec sang-froid sous l'étiquette «nihiliste». Comme tous les articles en vogue sur le marché des biens et des idées, le mot eut tôt fait de se dévaluer. Ainsi crut-on démonétiser l'idée et exorciser cet inquiétant horizon de la modernité. Peine perdue. Dou­blement. D'une part, la réalité est têtue. Et Dostoïevski au retour de la maison des morts, Tchékhov visitant le bagne de Sakhaline, Soljénitsyne et Chalamov rescapés du goulag s'en­tendent à rappeler l'inhumanité de notre humanité. Par ailleurs, la littérature russe est obstinée et n'a de cesse qu'elle n'examine, tourne, retourne l'unique objet de sa méditation, une barbarie qu'elle a toujours refusé, depuis Pouchkine, d’ensevelir dans les lointains antérieurs des sociétés dites primitives ou des caractères taxés incultes. Et Dostoïevski d’insister: «D’où sont sortis les nihilistes ? mais de nulle part, ils ont toujours été avec nous, en nous, à nos côtés».

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan [4. Le cogito du nihiliste]  p. 125-126

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

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10.11.15

 

 

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Que répliquer à l'hégélianisme spontané qui gouverne la une des journaux ? Comment ne pas concéder que l'histoire du monde juge tout le monde et emporte tout un chacun (Weltgeschichte ist Weltgericht)? Ma réponse est brutale, je te l'expédie sous forme d'une injonction pragmatique et sai­gnante : redevenons classiques. Pas naïvement classiques, bien sûr. Casse-cou jusqu'au bout, je n'aurai de cesse avant que tu m'entendes: revenons à Racine. Oui, résiste à l'incoer­cible désir de normalité qui pousse à s'immerger dans ce qui semble le cours des choses. Oui, prête au journal télévisé l'attention détachée, mais imprescriptible, que suscite une représentation d'Athalie ou d'Andromaque. Sur la scène, à l'écran, l'éclair du définitif risque à tout moment d'accrocher ton regard. Accrocher à quoi? La question est bonne. Garde la tête hors de l'eau, redeviens « classique », et tu ne seras jamais l'homme d'une seule époque.

 

Le classique habite deux patries, la sienne et une autre. La Florence des Médicis et la Grèce, la Rome du quintocento et celle d'Auguste. Le Siècle d'or espagnol, l'Angleterre d' Élisabeth, la France du Roi-Soleil, au choix, mais jamais sans son ombre glorieuse et antique. Les classiques cultivent le sentiment paradoxal mais banal d'une plongée dans l'histoire qui les élève et les enlève hors histoire. Ils s'autorisent de l'expérience immobilisée du temps qui passe. Ces esprits à double nationalité recherchent le temps perdu plus frénétiquement que l'existence de Dieu, quitte à reconnaître, avec Proust que, perdu pour perdu, le temps est cette recherche même, dont on ne sort que mort. Il n'y a pas de train pour Cythère, mon ami. Afin de vaincre l'angoisse des quais de gare, grignote une madeleine.

 

 

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d'Allemagne et de France

© Éditions Robert Laffont, S. A., Paris, 1997

 

 

 

 

 

 

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1.11.15

 

 

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 La Blessure (2004 França/Bélgica)

de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval

 

 

O melhor filme que vi nesta edição do Doclisboa é uma recriação notável das condições de acolhimento e de vida de imigrantes africanos em França.

Um texto sobre o filme e mais fotografias na revista Courte-Focale aqui.

 

A crítica de Jacques Mandebaum no Le Monde aqui

A text in English here.

 

 

 

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30.9.15

 

 

 

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Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

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O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

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31.7.15

 

 

 

Déjeuner sur l'herbe 1933

 

 

 

 

 

 

 

 

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Néné campagne

 

 

 fotografias de João D' Korth

 c. 1933

 álbum Vintage France no Flickr

 

 

 

 

 

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25.7.15

 

fotografias de João D' Korth

 

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Le cimetière militaire portugais de Richebourg regroupe les corps de 1.831 soldats tombés notamment lors de la bataille de la Lys. Il demeure le symbole de l’engagement du Portugal dans la Première Guerre mondiale.

 

 

 

 

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Sur près 56.500 hommes mobilisés, le Portugal doit déplorer en 1918 environ 2.100 morts, 5.200 blessés et 7.000 prisonniers.  

 

 

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Apesar da já existência nos E.U.A. de cemitérios militares, na Europa este fenómeno está inevitavelmente ligado à Grande Guerra. Pela primeira vez foi criada legislação para o tratamento dos soldados mortos – projecção e concepção de cemitérios militares. A França foi o primeiro país a fazê-lo, em Dezembro de 1915, sanciona o direito de cada indivíduo a um lugar único de repouso, ultrapassando soluções anteriores em que os soldados eram depostos em valas comuns. [...] Em Portugal, a primeira legislação para tratamento dos mortos de guerra portugueses na frente europeia surge em 1917. Procurou-se regulamentar esta situação com a estruturação de um serviço, futuramente denominado Comissão Portuguesa das Sepulturas de Guerra (CPSG), responsável pela identificação, concentração e inumação dos corpos. Face a uma limitação de recursos, exigiu-se da CPSG um esforço acrescido para concentrar os corpos espalhados pelo território da Flandres em cemitérios militares exclusivamente portugueses, criados para tal com a devida e necessária monumentalidade. Na verdade, durante o conflito, os esforços desta comissão debateram-se com as limitações sanitárias e espaciais impostas pelas autoridades francesas, levando a que os corpos ficassem espalhados por vários cemitérios (em 88 cemitérios da Alemanha, 23 da Bélgica; 2 da Espanha; 141 da França; 1 da Holanda e em 3 cemitérios da Inglaterra)*. Texto integral aqui

 

 

***

 

Monumento de La Couture, do escultor António Teixeira Lopes, inaugurado em 10 de Novembro de 1928.

 

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Nós usamos Soldado desconhecido; os franceses Nom inconnu. Os ingleses encontraram (Kipling encontrou) forma melhor: Known unto God.

 

 

Cemitério WWI 1933

 

 

 

Agradecimentos: Henrique D' Korth Brandão, José Cutileiro,  Chemins de Mémoire en Nord Pas de CalaisMemória Virtual.Defesa.pt,  Operacional , Jornal Público, Momentos de História,

 

 

Fotografias de João D'Korth no Flickr nos álbuns Vintage France e Exposição do Mundo Português

 

 

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22.7.15

 

 

 

 

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Helmut Kohl

Foto: AP

 

 

 

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Aprendizes de Feiticeiro

 

 

Abriu a caça à Europa. Enquanto a Alemanha esteve dividida e a União Soviética durou o projecto europeu floresceu. Mas desde a crise de 2008 e das más respostas que lhe fomos dando, começa a ver-se o túnel ao fundo da luz.

 

A França percebeu logo o perigo da Alemanha reunida (como a Inglaterra, tentou à última hora evitá-la mas Kohl foi apoiado por Gorbachev e Bush) a quem Mitterand forçou a engolir a moeda única (os alemães prefeririam manter o marco) na esperança de a travar um pouco. Estratagema vão, como a tragicomédia grega à boca de cena e a fraqueza económica geral europeia em pano de fundo mostram. Agora Hollande quer governo, orçamento e parlamento da zona euro, na esperança de que tal arranjo federal ajude a enquadrar o poder de Berlim. Que o projecto exclua a Inglaterra e enfraqueça a União Europeia não o preocupa desde que Paris ganhe mais voz contra Berlim do que a que tem hoje. Não sei se terá sucesso: talvez nem todos os utilizadores da moeda única estejam dispostos a juntarem-se a essa aventura. O papão, que fazia dantes os meninos comerem a sopa sem rabujarem, já não existe.

 

O pai da construção europeia foi Estaline, dizia Paul-Henri Spaak e nunca é demais repeti-lo. Acabado o terror incutido pela União Soviética, foi-se a propensão contra natura dos europeus a colaborarem uns com os outros. Durante 45 anos, permitira-lhes atingir a União Europeia mas quando Jacques Delors – 90 anos convictos de que o Presidente da Comissão deveria ser sempre um francês – e os seus discípulos lançaram o euro, esperando que as harmonizações necessárias para seu funcionamento fossem sendo acordadas pelos estados, já Yeltsin desmantelara o monstro e as capitais europeias, livres da canga da solidariedade e do interesse geral, retomavam hábito e gosto antigos de desconfiarem umas das outras.

 

O mau estar explodiu com a crise grega e mostrou coisa pior ainda. Desaparecido o medo salutar da União Soviética, uma noite de decisões brutais em Bruxelas restaurou em muitos corações o medo da Alemanha. Strauss-Kahn, um dos raros políticos em quem Angela Merkel confiara, achou as medidas contra a Grécia ‘quase mortíferas’; o filósofo Habermas, que 70 anos de diplomacia de reabilitação tinham sido deitados a perder.

 

É complicado. Toda a gente – incluindo muitos gregos – entende que, para o projecto europeu não se desmantelar, os gregos terão de passar a ser mais virtuosos. Menos gente – e quase nenhum alemão – entende que, também para o efeito, os alemães terão de passar a ser menos virtuosos. Durante a Guerra Fria, Bona, readmitida por De Gaulle ao convívio das pessoas de bem, deixara Paris mandar e não viera daí mal ao mundo. Desde a reunificação quem manda é Berlim. Na Alemanha a virtude tomou o freio nos dentes; se não aparecer outro Helmut Kohl, nacionalismos curtos de vistas darão cabo da riqueza e do poder da Europa.

 

Não seria o fim do mundo, muito menos da História. E tornaria a haver guerras entre nós.

 

 

 

 

 

 

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18.7.15

 

 

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França, anos 30

álbum Vintage France no Flickr

 

 

 

fotografias de João D' Korth

 

 

 

 

 

 

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