21.6.17

 

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Estátua da Liberdade, Nova Iorque

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

100 milhões de emigrantes

 

 

 

Na União Europeia, cada reformado, como eu, é sustentado pelo trabalho de 4 pessoas activas. Prevê-se que em 2050, no mesmo grupo de países, cada reformado seja sustentado pelo trabalho de duas pessoas activas. Expressão daquilo a que se chama a crise demográfica europeia. Por outras palavras, por muito que se racionalizem os métodos de produção incluindo robots e inteligência artificial - ajudas que seriam preciosas se robots pagassem impostos e consumissem bens e serviços; mas nem os pagam nem consomem – precisamos na Europa de muito mais mão de obra do que a que temos. As empresas que no mundo moderno fazem o que nas ruas do Portugal tradicional costumavam fazer as ciganas, isto é, prever o futuro, estimam que, em meados do século XXI, precisaremos de mais cem milhões de emigrantes dos que já cá temos, senão estará o caldo entornado. (A menos que, entretanto, se haja decidido que velhas e velhos, chegados a certa idade, sejam postos de parte por meios não violentos, com se faz com animais domésticos. Julga-se improvável tão cedo mas o progresso nos nossos dias é veloz como o pensamento).

 

Ora os europeus, por mais cristãos que sejam, não parecem às vezes amar a Deus sobre todas as coisas e, muito menos ainda, amar o próximo como a si mesmos. Sobretudo se esse próximo (chamemos-lhe retoricamente assim) não for nem cristão nem branco, o que é o caso de muitos emigrantes que cá arribam – ou morrem no Mediterrâneo em tentativa dispendiosa e vã de cá chegarem. Vai haver mais agora porque é Verão.

 

Vivendo em lugares confortáveis, dando-nos com gente bem educada, lendo jornais com correccão política suficiente mas não ridiculamente exagerada (como na América) com anos de boa educação formal a defenderem-nos, sem termos de pensar nisso, das nuvens por Juno contadas às crianças e explicadas ao povo, agora espalhadas pelo uso ganancioso e nocivo de algoritmos, a maior parte do tempo não percebemos bem em que mundo vivemos nem os seus riscos – e espantamo-nos quando a realidade nos dói. Uma noite destas, inglês das classes trabalhadoras atropelou deliberadamente fieis muçulmanos, que disse odiar, à saída de mesquita em Londres, naquilo que, da Senhora May à BBC, chamaram um incidente, só depois corrigindo para terrorismo. E homem de letras português meu amigo, lamentou o fogo por má construção, também em Londres, que matou “aquela pretalhada toda”.

 

Mais 100 milhões de emigrantes até 2050? Não creio. Nos Estados Unidos, apesar do alarido de Trump contra o Islão, é diferente. Todo o país, salvo Comanches & Cia, é emigrante. Em Princeton, o António Tabucchi e a Zé perguntaram-me o que eu achava de pedido de desculpa aos negros por causa da escravatura, causa querida de Susan Sontag, em casa de quem tinham estado em Nova Iorque. Respondi que, a haver desculpas a pedir, não seria aos descendentes dos africanos trazidos de África para a América como escravos, mas aos descendentes dos africanos deixados em África.

 

 

 

 

 

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7.6.17

 

 

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Berlim, 1989

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Birras ou guerra?

 

 

Poucos ricos, muito ricos; muitos pobres, muito pobres; fosso entre os dois a crescer: assim vai o nosso mundo. É receita para grande desastre, estimulada pela ganância de Wall Street e de outras praças financeiras – em toda a parte, cada vez mais PDGs são premiados por lucros a curto prazo. A diferença entre o que ganham os administradores executivos de grandes companhias e o que ganham os empregados menos bem pagos destas duplicou várias vezes desde o tempo há quarenta anos em que toda a gente parecia estar mais feliz do que alguma vez estivera (e do que está agora), nos Estados Unidos da América e na Europa Ocidental (e a tendência não dá sinais de abrandar, pelo contrário).

 

Tempo houve em que na Áustria políticos cristãos-democratas e sociais-democratas se alternavam no poder e distribuíam pelas clientelas respectivas benesses e prebendas financiadas pelo contribuinte. Com toda a gente, ou quase, sentada à mesa do orçamento, não havia revolucionários, ou sequer conspiradores. A Áustria viveu sob acordo entre a União Soviética e os três grandes do Ocidente, também vencedores da segunda guerra mundial e, se só ela estava proibida, por tratado, de aderir à Aliança Atlântica, aos outros neutros da Europa – Irlanda, Suécia, Finlândia – a União Soviética metia respeito igual ao que metia aos membros europeus da Aliança. Para cá da cortina de ferro e do arranjo sui generis da Jugoslávia, todos nos íamos governando – ou sendo governados – de maneira parecida.

 

Agora temos saudades – ninguém, por enquanto, inventou e pôs em prática coisa melhor, pelo contrário. À geração já matura mas ainda activa dos nossos dias, cabe o duvidoso privilégio – contrariando a experiência de três gerações anteriores consecutivas – de deixar os filhos mais pobres do que os pais tinham sido (excepto, mais uma vez, entre os muito ricos). A chamada terceira via de Tony Blair e do professor da London School of Economics que o inspirou – a arte de diminuir as pensões de velhinhas pobres com boa consciência, chamava-lhe cínico na nossa praça – acabou por não convencer ninguém. A social-democracia alemã – e a sueca – cansaram os eleitores. Transformado em poder por François Mitterrand, que não era socialista mas era artista, o socialismo francês deu cabo do comunismo estalinista francês, apoderou-se da noção de estado-jiboia que tudo come à sua volta e acabou por rebentar: nas eleições legislativas deste mês nem chegará a dez por cento dos votos. Simultaneamente, a direita francesa desconjuntou-se. Os americanos elegeram Trump. Os povos mais ricos e bem tratados do mundo, como meninos mimados, fazem birras.

 

O homo sapiens, também conhecido por bicho homem, gosta do mal e precisa dele dizia, salvo erro, George Orwell e, certamente, algum Doutor da Igreja. Como se meio século de paz não chegasse, vieram demãos de correcção política e a besta zangou-se.

 

Esperemos que cheguem dois ou três grandes sustos para a meterem nos eixos – sem guerra.

 

 

 

 

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19.4.17

 

 

aspirina

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O fim das Luzes?

 

 

Em 2005, por altura da tentação de uma Constituição europeia, tinha havido dois avisos, dois “nãos” a referendos – um vindo de país onde não fica bem gastar dinheiro com mulheres e vinho e não se gosta de inflação (a Holanda); outro vindo de país onde fica bem gastar dinheiro com mulheres e vinho e uma pitada de inflação é o sal da economia (a França) – mas quem mandava nessa altura na Europa (que é mais ou menos quem agora nela manda) usou de falcatrua a que ninguém se opôs: tiraram dois ou três pratos da ementa proposta mas deixaram ficar os outros todos, apagando os nomes que lhes tinham dado e escrevendo no cardápio nomes diferentes. A malta (como o Zeca Afonso chamava à gente) esteve-se nas tintas porque se vivia ainda na tradição das trente glorieuses: o ano corrente fora melhor do que o ano anterior e o ano que viria a seguir seria melhor ainda do que o ano corrente, de maneira que, se a minha mulher-a-dias podia trocar de Toyota em segunda mão, não a aquecia nem arrefecia que eu trocasse de BMW ou o Rockefeller local – nessa altura era o Ricardo Salgado, agora ainda há menos quem se assemelhe à tribo americana – trocasse de Bentley.

 

A seguir vieram as crises começadas em 2008 e, na peugada delas, a austeridade. E a gente sem aprender. Não surpreende muito: quando se toma uma aspirina e a cabeça deixa de doer; quando, se se for preso, se pode chamar um advogado que consegue tirar-nos da cadeia ou, se a lei obrigar a que lá fiquemos, garante a nossa defesa ao abrigo de leis, até ao tribunal se se vier a chegar lá; quando, se se adoece, se tem direito a médico, tratamento e hospitalização; quando, se se perde o emprego, se tem direito a subsídio de desemprego, etc., etc., é difícil imaginar que neste baixo mundo se possa viver muito melhor do que assim.

 

De aspirina a subsídio de desemprego tudo se deve a evolução especial da humanidade na pequena península da Eurásia a que se chama Europa, durante os últimos quatro séculos. (O século de Péricles e Jesus Cristo também contaram mas, embora tenham sido conhecidos de civilizações orientais e médio-orientais, não levaram nelas milagres como os do desenvolvimento das ciências e do humanismo na Europa). Habituadas a viver com room service permanente, numa espécie de upgrading da condição humana tomado tão naturalmente como as estações do ano ou as marés, as nossas gentes não querem perceber que, como no filme de Tati Mon Oncle, “tudo comunica” e que, quem apoie o Brexit, Le Pen em França (amigo experiente aposta, dobrado contra singelo, que ela vai ganhar à primeira volta), Orban na Hungria, o gémeo sobrevivente na Polónia e também Erdogan na Turquia, Trump nos Estados Unidos, Putin na Rússia, vai apagando uma a uma as lâmpadas que nos alumiam; talvez mal e pouco mas não há outras. Fundamentalistas Corânicos ou Bíblicos (que negam a teoria da evolução) ou budistas (que limpam etnicamente a Birmânia) deixados à rédea solta darão cabo de tudo. Até da aspirina.

 

 

 

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12.4.17

 

Patrie

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Pátria

 

 

 

Em Novembro de 1994 fui escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental, em Bruxelas. Havia quatro candidatos: um belga que desistiu quando outro belga, Willie Claes, foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN; um político italiano substituído a certa altura por um diplomata italiano, fidalgo competente muito bem-educado – foi dele que recebi o primeiro telefonema de parabéns depois de ser eleito – e um espanhol, Enrique Barón Crespo, ex-ministro de Felipe Gonzalez, ex-Presidente do Parlamento Europeu, que a França tomara de ponta quando ele quisera mudar o Parlamento Europeu de Estrasburgo para Bruxelas (crime de lesa-majestade para qualquer alto funcionário francês, cujo lema é: L’État c’est (aussi) moi).

 

Um mês depois recebi uma carta manuscrita com estampilha francesa, remetida por Joaquín Romero Maura. Estivéramos juntos em St. Antony’s, eu antropólogo, ele historiador. Anos depois de Oxford, fui convidado para seminário sobre religião e política no Mediterrâneo, organizado em Roma por universidade americana. Numa manhã radiosa de Maio, o professor americano que presidia à reunião, careca como Mussolini, antes de começar os trabalhos anunciou gravemente que Martin Heidegger tinha morrido. “Should we do something?” Éramos uns vinte sentados a mesa quadrada e vi Joaquín, do outro lado, escrever num pequeno papel, dobrá-lo, passá-lo a vizinho do lado que o passou a vizinho do lado, até mim a quem vinha endereçado. Desdobrei-o e li: La classe obrera tiene un inimigo menos!

 

Abri o sobrescrito. A carta vinha em inglês, datada de Darkest Périgord e começava assim:      

 

Dear José,

The joy of seeing Enrique Barón loose the job almost made me forget to congratulate you on getting it. (A alegria de ver Barón Crespo perder o lugar quase me fez esquecer de te dar os parabéns por o teres ganho.)

 

Agradeci-lhe e nunca mais soube dele. Não sei se continuará historiador ou se   terá virado banqueiro; se Goody (dinamarquesa que em Oxford se recusara a viver em Summertown House, bloco de apartamentos da Universidade, porque a ideia de duzentas teses a serem escritas debaixo do mesmo teto a deixava deprimida) e ele continuam vivos, casados e felizes.

 

Gosto desta história – e mais ainda nos dias incertos que atravessamos – porque mostra o disparate sem nome dos patriotismos anti-europeus que agora vicejam e ganham raízes por vários cantos da Europa. Em França é com sentimentos assim que Marine Le Pen, na extrema direita, e Jean-Luc Mélenchon, na extrema esquerda, animam a malta – onde pululam, de um lado, beatos integristas e, do outro, devotos de Estaline e de Trotsky. Se qualquer deles os dois for eleito Presidente, a União Europeia acabou. Édouard Macron sabe isso, sabe muito mais coisas ainda e julgo que seria capaz de meter a França nos eixos sem dar cabo dela. Mas talvez lhe falte o jeito de um Bill Clinton ou de um Mário Soares para convencer pessoas burras a quererem coisas inteligentes. Carisma, chamam-lhe alguns.

 

 

 

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15.3.17

 

Turquia, 2017

 Turquia, 2017

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Patriotas

 

 

 

Recep Tyyip Erdogän (devia haver uma espécie de v, em vez de trema, sobre o a mas falta no meu teclado embora só um tonto ou um fanático se queixaria disso: há quase um século Mustafá Kemal, depois conhecido por Kemal Ataturk – pai dos turcos – mudou o alfabeto em que se escrevia a língua turca do árabe para o nosso e ninguém se lembrou ainda de voltar para trás; conta-se de resto que o grupo de sábios encarregado da tarefa não atava nem desatava há mais de um ano quando Kemal mandou um dia vir a papelada, trabalhou sobre ela a noite inteira e de manhã fez entregar o alfabeto novo aos sábios), Recep Tyyip Erdogän, dizia eu, é déspota oriental obrigado por um século de ocidentalização da Turquia a dotar-se de constituição, parlamento e outras modernices que nunca se deveriam dar ao povo - até porque, depois de dadas, é muito difícil tirar-lhas – de maneira que procura ajeitá-las o mais possível às exigências de uma monarquia absoluta. Primeiro-ministro de 2004 a 2014 e Presidente da República desde 2014, tudo ao longo dos anos como deveria ser, em eleições livres e limpas, vai em Maio fazer um referendo para aprovar nova Constituição que torne a governação muito mais presidencial do que parlamentar. Ao contrário do que Erdogän esperara, animado não só pelos triunfos eleitorais anteriores mas também por aumento da sua popularidade a seguir a tentativa falhada de golpe de estado que tencionara matá-lo e colocou brevemente ao seu lado até oposicionistas tradicionais, sondagens agora não o deixam achar que sejam favas contadas e a campanha pelo sim não pode desleixar-se. Ora em 2014 Erdogän e o AKP, seu partido, perceberam melhor que os outros partidos turcos que os votos da diáspora eram importantes e passaram a fazer campanha no estrangeiro, o que se prepararam para repetir desta vez.

 

Entretanto, porém, aconteceram duas coisas: por um lado, políticos populistas na Europa estimulam entusiasticamente o ódio aos muçulmanos; por outro lado, traços autoritários com toques paranoides foram-se acentuando em Erdogän, envenenando também as perspectivas de adesão da Turquia à União Europeia. Por fim, arranjo manigânciado entre a União e a Turquia permite à primeira mandar emigrantes de países terceiros à segunda e à segunda receber dinheiro e vistos. Alemanha, Áustria, Suécia e Suissa, também fecharam agora a porta a ministros turcos mas os holandeses foram mais brutos, os turcos lembraram o nazismo – muito eficaz na Holanda durante a ocupação alemã – e hoje as relações políticas entre Haia e Ancara viram Clausewitz do avesso: guerra por outros meios. (Erdogän chamou à Holanda e à Alemanha “estados bandidos”). Dá jeito a uns e a outros por agradar aos mais renhidos dos seus patriotas.

 

A França mistura a República mais monárquica do mundo com Liberté, Égalité, Fraternité e autorizou o MNE turco a ir lá falar, sendo hipocritamente condenada por outros europeus e (também tem eleições à porta) pela sua própria extrema-direita.  

 

 

 


22.2.17

 

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José Cutileiro

 

 

Uma Europa alemã?

 

 

 

Os Deuses estão outra vez zangados connosco, pensariam Reis e Pontífices olhando à volta e talvez mandassem sacrificar vacas ou virgens se os tempos fossem para tais estratagemas. Mas não são: já não é por aí que o gato vai às filhoses. Na Europa, o Vaticano resistiu enquanto pôde mas Angelo Roncalli, mais conhecido por João XXIII, a cuja memória Pasolini dedicou o filme O Evangelho segundo S. Mateus, convocou o Concílio Vaticano II e começou uma grande mudança, tão grande que sobreviveu aos rigores do Papa polaco e ganha ânimo novo com as larguezas do papa Francisco. O meu chorado Nuno Bragança, católico progressista como se dizia na altura mas entusiasta lúcido desse progresso, achava que se João XXIII houvesse vivido mais dez anos “tinha dado cabo de tudo”.

 

Mas o Vaticano não é membro da União Europeia e é por causa do estado desta que tanta gente hoje dorme mal. Ataques a “união cada vez mais chegada” dos europeus, prometida fará sessenta anos no mês que vem no preâmbulo de tratado assinado em Roma, têm sido bem-sucedidos e outros estão na calha. Primeiro, o chamado Brexit, em que aldrabões sem vergonha convenceram populações inglesas ignorantes e (pela primeira vez há um século) mais pobres do que os pais tinham sido, de que seriam mais ricas e poderosas fora da União Europeia do que dentro dela. Mentira patética mas, com determinação de manada de bisontes trotando para se afogar no mar, políticos e burocratas meteram mãos à obra e não se vê marcha atrás. Segundo, o chamado Presidente Trump, maluco com mau fundo, que baixou para abismos inéditos os níveis - moral e intelectual - exigidos pela função sem que tal pareça ofender a sua base eleitoral, considera a Alemanha perigo maior do que a Rússia, e está constitucionalmente ao abrigo de junta médico-psiquiátrica. Terceiro, no futuro próximo, eleição provável de populistas na Europa. Em Março o partido de Geert Wilders deverá vir à cabeça na Holanda. Como a hipocrisia holandesa – que deveria ser património cultural distinguido pela UNESCO – não o deixará governar, coligação de outros se encarregará de ir aplicando o seu programa à socapa. A seguir em França Marine Le Pen poderá ser Presidente e, querendo proteger a produção nacional e sair do Euro, fará o descabello do touro europeu, malferido pela estocada do Brexit.

 

A esperança está na Alemanha onde há eleições em Setembro. A insistência desta na manutenção indevida de enorme superavit e a sua cegueira luterana diante das dívidas que a austeridade, em lugar de aliviar, vai aumentando não deveriam animar ninguém a vê-la como base de sustentação do que restar da Europa. Mas quer Merkel quer Schulz são europeístas convictos e Senhora que ousou abrir os braços a todos os desgraçados do Médio Oriente saberá explicar aos seus que poderão deixar reestruturar a dívida grega sem sequer darem por isso.

 

Ao princípio a ideia fora europeizar a Alemanha. À vista está a germanização do que resta da Europa. É a vida.

 

 

 

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4.1.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

Ano Novo, vida nova

 

 

Pelo menos desde a passagem de ano de 1986 a 1987 – isto é, a primeira já com Portugal membro das Comunidades Europeias – tal exortação exprimia ‘pensamento desejudo’ - assim o meu chorado Gérard traduzia ‘wishful thinking’ - e não previsão sensata dos dozes meses que se seguiriam, partindo evidentemente do princípio que a contagem não fosse interrompida por girândola nuclear, deliberada ou acidental, sempre possível quando a segurança de cada um dos dois lados é garantida pela convicção mútua de que quem sair a matar mata mesmo mas será morto também. Tão convencidos estávamos todos disso que, como o leitor “tenebroso e cruel e tonto e traste” que comprara sonetos garantidos por dois anos ao meu chorado Alexandre, críamos nos marcianos mas não víamos a bomba. Não víamos nem vemos. (Alexandre; Gérard: com a idade, os mortos vão-se metendo mais e mais nas conversas. Lembram-se de coisas de que nós já não nos lembramos).

 

Falo no réveillon de 1986 a 1987 porque o quarto quartel do século XX começou em Portugal de maneira mais animada que a dos nossos vizinhos da Europa Ocidental. Estes, engordados e anafados em casulo formado no abrigo do confronto Leste-Oeste, estavam tão iludidos pelo seu próprio bem-estar que se persuadiram de que viviam em paz por terem passado a ser bons, por terem deixado de querer matar os outros, sem perceberem que a paz lhes era imposta por russos e americanos, a quem zaragata aqui não conviria (salvo evidentemente se um dos dois tivesse previsto nela estratagema para enfraquecer fatalmente o outro, o que não aconteceu). A Rússia perdeu a Guerra Fria de dentro para fora (costuma dizer-se a URSS mas tal exactidão formal torna as coisas mais confusas em vez de as tornar mais claras) porque o seu sistema político se desagregou por si, tal como George Kennan, diplomata-historiador, previra em 1946 quando estava encarregado de negócios dos Estados Unidos da América em Moscovo, onde Estaline viria a declará-lo persona non grata.

 

Portugal era diferente. Em parte para fugirem à tropa em África, milhares de migrantes portugueses em França, Alemanha, e outros países europeus beneficiaram das trente glorieuses – ganhava-se sempre mais do que se tinha ganho no ano anterior – mas, nas parvónias de onde diziam que vinham, a melhoria tinha sido pouca. No começo de 1974 os portugueses não esperavam vida nova. Até que, de repente, veio o sobressalto de trocar África pela Europa, de passar de patrão dos pretos a criado dos brancos. De anacronismo serôdio a modelo do futuro, para alguns entusiastas - para gente sensata, menos pobreza e mais liberdade. E, passados uns anos de turbulência, tornou a ser ano novo, vida velha mas num patamar mais alto.

 

Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más.

 

 

 

 

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21.12.16

 

 

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Waterloo e por aí fora

 

 

 

A batalha de Waterloo a 18 de Junho de 1815 do ar do dia ao cair da noite quando o corso Napoleão Bonaparte percebeu que estava perdido e fugiu para depois ser preso e desterrado na ilha de Santa Helena, possessão do Império Britânico no Oceano Atlântico ao largo da África Meridional onde viria a morrer, talvez envenenado com arsénico, acabou com a primeira tentativa moderna de estabelecer uma União Europeia. A segunda tentativa, destruída com Berlim em 1945, deveu-se ao austríaco Adolfo Hitler que se suicidou, havendo muitos dos grandes do seu regime que não se suicidaram sido julgados e enforcados em Nuremberga como criminosos de guerra. Essas duas tentativas foram liquidadas a ferro e fogo porque a ferro e fogo tinham começado, a primeira levando guerra a quase toda a Europa e a segunda a quase todo o mundo.

 

A terceira tentativa de União Europeia é a nossa, pacífica em parte porque os seus fundadores, depois de duas guerras mundiais, não podiam com uma gata pelo rabo e em parte porque o confronto entre União Soviética e Estados Unidos, entre comunismo e capitalismo, ambos armados até aos dentes, deixou os europeus ocidentais, confortados pelo Plano Marshall e pela OTAN, viajarem para o futuro em primeira classe pagando só bilhetes de classe turística. Les trente glorieuses chamam a esses anos em França (que o génio do general De Gaulle transformou de país vencido em país vencedor). Entretanto a União Soviética implodiu, o comunismo perdeu o crédito e os europeus ficaram sem o inimigo que os unia (o primeiro propósito da OTAN era defender-nos da União Soviética; o segundo é defender-nos uns dos outros). Como perigos menos apocalípticos se perfilam – o desagradável Putin; o Estado Islâmico – foi-se mantendo o que havia.

 

Mas este Outono, quando os Estados Unidos, em eleições livres e limpas mas sabotadas ciberneticamente pelo Kremlin, escolheram para presidente um charlatão demagogo, ignorante e instável, cujas prioridades de governo quanto a mudança climática, saúde pública, trabalho, relações internacionais, incluindo comércio internacional, etc., etc., e designação de futuros ministros nos deixam com o Credo na boca perante o futuro dos Estados Unidos e da humanidade em geral, o que há a fazer? Se a OTAN for posta em causa pelo seu sócio maioritário, como é que é? Pior ainda: neste tempo em que tudo se sabe assim que acontece (em 1815, a notícia da vitória em Waterloo levou 4 dias a chegar Londres) e toda a gente conta contos, aumenta pontos, esfuma por querer ou sem querer diferenças entre verdade e mentira; em duas democracias respeitadas os votantes escolheram Brexit e Trump (este, é certo, com Colégio Eleitoral de permeio), em que se sente corte radical entre o mundo da politica e o mundo das pessoas, alguém conhece que alma tem? Quem é que gosta de quê? Paz e direitos humanos estarão a passar de moda na Europa? O inferno são os outros? Será guerra que faz falta, para animar a malta?

 

 

 

 

 

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23.11.16

 

 

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 França, 1794

 

 

 

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Mudam-se os tempos

 

 

Escrevo a 21 de Novembro, dia dos anos do Vasco Pulido Valente. De manhã lembrei-me dele quando tinha 14 anos ter dito ao pai, burguês de bem, inteligente, culto e informado (explicou-me como é que os romanos faziam a barba), engenheiro, opositor corajoso e coerente do regime salazarista, muito mais alto do que o filho que só deitou corpo no fim da adolescência. “Ah Pai, se eu tivesse a tua idade sabendo o que eu sei…” Na altura em que isto me vinha à cabeça, voz saída da telefonia do carro anunciou-me que era o dia dos anos de Voltaire.

 

O Vasco e Voltaire ao começo da semana – nada mau para antídoto de tanta patetice ignorante nos tempos que correm, disse com os meus botões. Devo-me ter distraído anos a fio e, pelas conversas que agora tenho tido e pelos jornais que agora tenho lido e pelos programas de televisão por que tenho saltitado, devemos ter andado (quase) todos distraídos porque recebemos com surpresa desagradável notícias sobre coisas acontecidas entre nós ou muito perto de nós de que (quase) ninguém estava à espera - nem bandarilheiros, nem apoderados, nem curiosos na tourada da política.

 

Vai-se um homem deitar à noite convencido de que os ingleses querem ficar na União Europeia e acorda de manhã para saber que afinal querem sair. Vai-se uma mulher deitar convencida de que o 45º Presidente dos Estados Unidos vai ser finalmente, à segunda tentativa, uma mulher sabichona e teimosa chamada Hillary Clinton, e acorda de manhã para saber que afinal quem ganhou foi um aldrabão inculto, novato em política e malcriado que entendia muito melhor os eleitores americanos do que a sua experiente rival e, ao contrário dela, lhes sabia falar ao coração – de tal maneira que eram capazes de esperar por ele 3 horas para um comício, ao frio, até à uma da manhã, sem arredarem pé. Ontem, na véspera dos anos do Vasco e do Voltaire, franceses da direita e do centro, à procura de alguém que pudesse bater Marine Le Pen, protofascista da Frente Nacional, na segunda volta da eleição presidencial do ano que vem – que ela irá à segunda volta é convicção geral – numa primária aberta da direita e do centro escolheram antigo PM de Sarkozy que as sondagens punham em terceiro lugar, beato metediço na vida dos outros, liberal à la Thatcher em economia (coisa rara no sentimento francês, cujo primeiro reflexo à vista de criança descalça na rua é achar que a culpa é dos Rothschild, em vez de achar, como Thatcher, que a culpa é da criança), com um fraco por - e muitas visitas à - Rússia de Putin. Se o propósito é encontrar quem junte o resto da França para derrotar a extrema-direita (como Jacques Chirac derrotou Jean-Marie, pai de Marine, noutra segunda volta, em 2002) parece-me má ideia: Alain Juppé teria sido melhor escolha mas é claro que há ainda, no Domingo, a segunda volta da final da primária.

 

Em cada francês vivem, enlaçados em coluna salomónica, um ci-devant et um sans culottes. Têm de pensar em tudo pelo menos duas vezes.

 

 

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16.11.16

 

 

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Lord Ismay, primeiro Secretário-Geral da OTAN, entendia que esta servia 

"to keep the Americans in, the Russians out and the Germans down."

 

 

 

 

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A partilha do fardo

 

 

 

         

A eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos da América foi tomada por muitas europeias e muitos europeus como uma ofensa e uma má criação. Nesse espírito, algumas administrações nacionais tão alapardadas ficaram (não se fazem coisas assim aos amigos!) que, por sugestão do alemão, vinte e cinco ministros dos negócios estrangeiros de países da União Europeia bem como a Alta Representante (vice-presidente da Comissão que põe outro chapéu para presidir às reuniões dos MNEs do clube: na União Europeia, diria Oscar Wilde, as coisas nunca são puras e raramente são simples) tiveram jantar de trabalho em Bruxelas para primeira troca de impressões sobre esse importante evento transatlântico (o inglês dissera que não deviam estar bons da cabeça, o francês lamentara educadamente ter obrigações mais importantes em Paris, o húngaro metera os pés pelas mãos com desculpas de mau pagador para disfarçar a euforia pro-Trump de Vitor Orban, primeiro ministro húngaro, e os três fizeram gazeta – o que, se nos lembrarmos que o Reino Unido e a França são os dois únicos estados-membros da União com forças armadas capazes de meterem respeito seja a quem for, mostra a aparente frivolidade do exercício).

 

Mas não há com efeito razão para grande tranquilidade europeia quanto à nossa defesa e à defesa dos nossos interesses. A OTAN, estabelecida em 1952, chama-se por extenso Organização do Tratado do Atlântico Norte e o Tratado do Atlântico Norte fora assinado em Washington em 1949 pelos Estados Unidos da América, o Canadá e uma dúzia de países da Europa Ocidental. Outros se foram juntando: quando Guerra Fria acabou havia 16 Aliados, depois foi um vê se te avias com todos os ex de Leste a quererem-se profilaticamente proteger da eventual sanha do Kremlin (já não existia U.R.S.S. mas a Mãe Rússia mete medo igual aos vizinhos; os que dizem que isso é mentira e que foram os Estados Unidos e seus aliados ocidentais que quiseram cercar a Rússia de perto, devem ser lembrados que os três países bálticos e a Polónia, vizinhos da Rússia e aliados na OTAN não foram por ela atacados militarmente desde o fim da Guerra Fria mas a Geórgia e a Ucrânia, também vizinhos dela mas fora da OTAN, o foram tendo além disso a Rússia anexado a Crimeia). Desde o começo que os Estados Unidos gastaram mais na defesa de todos do que os outros em absoluto e per capita. “Burden sharing” – a partilha do fardo – passou a ser pomo de discórdia mais vivo desde que a Guerra Fria acabou, tendo havido muitas discussões sobre o assunto, embora Clinton, Bush e Obama nunca tenham feito ameaças como Trump agora fez e nunca Bush e Obama tenham admirado Putin como Trump agora admira.

 

 

 

Nota Bene Portugal não foi dos primeiros assinantes do Tratado de Roma porque não era uma democracia e só entrou para as Comunidades Europeias depois de o passar a ser. Mas, sem o ser, assinou o Tratado de Washington e foi membro fundador da Aliança. Com coisas sérias não se brinca.

 

 

 

 

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2.11.16

 

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 Hillary Clinton

 

 

 

 

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A 7 dias de Broncalina do camandro?

 

 

 

Ou de Bernardette do caboz? Ou uma ou outra, tanto faz. Na segunda terça-feira de Novembro, próximo dia 8, os americanos dos Estados Unidos vão às urnas decidir o seu destino político – e o nosso. Toda a política é política local, disse famosamente Tip O’Neill, antigo presidente da Câmara dos Representantes em Washington, de origem tão irlandesa que em quase cinco décadas de serviço em altas instâncias do Partido Democrata nunca pôs os pés na Embaixada Britânica, porque os ingleses tinham sido os opressores coloniais, os responsáveis pelas terríveis fomes dos séculos XVIII e XIX no seu país, o Diabo na terra, e Tip não queria ser visto pelos outros irlando-americanos a comer o seu pão e a beber o seu vinho, tu cá tu lá com eles. Manteve essa ficção até ao fim, embora se desse com os ingleses como Deus com os anjos e os ajudasse quando tal fosse preciso.

 

Mas, para voltar ao aforismo de Tip, os grandes países têm vantagens sobre os pequenos (é certo que, neste ano da Graça de 2016, a pequena Valónia que nem chega a ser um país atrasou de vários dias a assinatura de acordo comercial muito importante entre a União Europeia e o Canadá e, como nos nossos dias o comércio externo é a única coisa pela qual a Europa ainda tem peso no mundo e se pode dar a algum respeito, houve gente que se assustou mas tudo foi depressa ao sítio assim que a questão de política interna belga que fizera a Valónia portar-se mal foi apaziguada – se eu fosse embaixador no activo acrescentaria nesta altura, entre parêntesis, ver meu 153). E há uma prática bizarra nalgumas organizações internacionais – parar o relógio da sala a poucos minutos da hora para a qual se programara o fim de uma reunião e só o deixar trabalhar outra vez quando se tiver chegado ao acordo pretendido, passadas horas, dias ou mesmo meses, podendo-se então olhar para o relógio e pretender que se acabou no dia e hora devidos. Começou isto quando Don Mintoff, zaragateiro marxista e populista, era primeiro ministro de Malta e inventava maneiras de tornar o seu país importante pela incomodidade que causasse aos outros. Por fim, para lidar com ele, teve de se inventar o conceito de “Consenso Menos Um”.

 

Entreténs de ricos para acudir a males menores. O que poderá estar à nossa espera na madrugada da próxima quarta-feira será um tsunami geopolítico de dimensões inéditas desde 1945, maior – para nós – do que o fim da União Soviética. A política local dos Estados Unidos, os interesses dos seus brancos pobres e dos seus fundamentalistas evangélicos, apostados uns em proteccionismo que os fechasse num casulo imune à globalização e os outros em Supremo Tribunal que recriminalisasse o aborto, poderá ganhar. A Senhora fez o que pôde mas, confessa, falta-lhe o jeito do marido ou de Obama, muitos não gostam dela e não se pode excluir que perca a eleição. Se tal acontecesse a ordem internacional sofreria sobressalto de consequências imprevisíveis para a Europa.

 

 

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26.10.16

 

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In real time e sem anestesia

 

 

 

Às vezes parece estarmos a assistir assim ao fim do projecto europeu. Na sexta-feira passada, em lágrimas, a ministra do comércio externo canadiana, saindo de encontro com o presidente do governo valão (região do sul da Bélgica cujos habitantes falam francês), governo que à última hora decidiu bloquear acordo comercial de grande alcance, começado a negociar há 6 anos entre a União Europeia e o Canadá, fez a declaração seguinte (cito-a em francês como ela falou):

 

« Au cours des derniers mois nous avons travaillé très fort avec la Commission européenne et avec beaucoup des pays des membres-états de l’Union européenne, y compris l’Allemagne, la France, Autriche, la Bulgarie, la Roumanie. Le Canada a travaillé vraiment et moi personnellement j’ai travaillé très fort.

 

Mais il semble évident pour moi, pour le Canada, que l’Union européenne n’est pas capable maintenant d’avoir un accord international même avec un pays qui a des valeurs si européennes comme le Canada, et même avec un pays si gentil et avec beaucoup de patience comme le Canada.

 

Le Canada est déçu. Moi personnellement je suis très déçue. J’ai travaillé très fort. Mais je pense que c’est impossible. Nous avons décidé de retourner chez nous et je suis très, très triste et c’est une chose emotionelle pour moi. La seule bonne chose que je peux dire c’est que demain matin je serai chez moi avec mes trois enfants ».

 

É bonito - e triste - mas afinal, sábado de manhã (altura em que escrevo estas linhas: por razões longas de enumerar devo acabar hoje o texto que irá para o ar – ou o éter ou a web, não sei como dizer – na próxima quarta-feira) a senhora está ainda em Bruxelas a negociar com o presidente do Parlamento Europeu antes de voltar para casa ainda hoje e talvez, depois desta peripécia, tudo fique pronto a tempo do jovem Trudeau (filho do velho Trudeau que já morreu e também foi primeiro ministro do Canadá) assinar na quinta-feira em Bruxelas, como previsto, o novo acordo. Esperemos que sim – mas o episódio é característico da doença que mina a Europa desde que a URSS acabou. O medo dela dava pulsões centrípetas aos países das Comunidades Europeias que iam ajudando a União a fazer-se. Agora cada um trata de si e liga pouco aos outros, como era costume dantes. O poder comercial da Europa vem da Comissão negociar com terceiros em nome dos países membros. Este verão, sob enorme pressão da Alemanha e doutros, contra a opinião dos seus serviços jurídicos, a Comissão deixou que nações pudessem negociar também. Levou mais tempo e estava quase feito quando a estrutura constitucional belga permitiu que os valões se metessem a desmancha-prazeres. O precedente vai enfraquecer a Europa.

 

E dá mais uma história belga. Má. A maioria flamenga, de economia mais rica, está furiosa e eu lembrei-me do meu colega belga de Estrasburgo, em 1979. « Tu sais ce que c’est que la pollution ? Un wallon dans la Meuse. Et la solution ? Tous les wallons dans la Meuse! ».

 

 

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19.10.16

 

 

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Barrabás

 

 

 

Os povos portam-se mal, mesmo povos que toda a gente aprendeu na escola serem viveiros de democracia. (Embora haja progresso: se, em vez de passar os dedos pelo teclado do computador para compor estas linhas no ano da Graça de 2016 eu estivesse a passar aparo de caneta de tinta permanente sobre papel almaço no ano em que nasci, quisesse ser rigoroso e ficar bem com a minha consciência, teria tido de escrever “que toda a gente que foi à escola aprendeu” porque à escola no Portugal dessa altura pouquíssima gente ia, sendo o remanescente maioritário das crianças portuguesas grupo a que o aparachique e ficcionista Soeiro Pereira Gomes chamou “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, dedicando-lhes o romance Esteiros de que gostei, sendo o único romance neorrealista que me agradou porque os outros sofriam todos de pecha, comum também às pinturas dessa escola, que professor numa universidade de Londres explicava bem: “No impressionismo pinta-se o que se vê; no expressionismo pinta-se o que sente; no realismo social pinta-se o que se ouve”. Pinta-se e escreve-se).

 

Os ingleses, herdeiros da Magna Carta com que gostavam de vez em quando de apoucar os outros, graças a Primeiro Ministro conservador cuja paciência para os eurocépticos do seu partido se esgotara e resolvera pôr a questão da Europa a referendo e cuja inépcia o fizera depois perdê-lo (expediente político favorito dos populistas, o referendo foi ganho por demagogos desonestos e irresponsáveis) votaram por sair da Europa sem entenderem bem do se tratava, sobretudo por estarem fartos dos “políticos de Londres” e de um sistema que cria 1% de ricos cada vez mais ricos e 99% de uma mistura de pobres cada vez mais pobres e de classe média a resvalar para a pobreza. Com a poeira a assentar está a descobrir-se que o país vai ficar mais fraco do que era e que a mudança lhes vai custar os olhos da cara.

 

Os norte-americanos que gostam tanto ou mais do que os ingleses de se pavonearem com evocações da Magna Carta (mais as sua próprias Declaração de Independência, Constituição e Alocução de Gettysburg), a seguir a mais de um ano de berrarias e impropérios que se chamaram eleições primárias em cada um dos dois grandes partidos e agora campanhas mesmo para a presidência do país, entre uma senhora competente (sem jeito para a política mas competente) e, pelos padrões da sua terra, do seu tempo e da sua profissão, decente, e um mitómano sociopata, desonesto e ordinário, indecente por quaisquer padrões. Milhões de americanos parecem achar que deveria ser ele o novo inquilino da Casa Branca. Dia 8 de Novembro se saberá mas muito mal já foi feito - para ficar.

 

Toda a gente gosta de lembrar Churchill: a democracia é o pior sistema de governo tirando todos os outros. É verdade mas é verdade também que o povo tem dias: a história moderna está cheia de maus exemplos – e não só ela. Convém nunca esquecer que o povo escolheu Barrabás (e terem sido os judeus já não serve de desculpa).

 

 

 

 

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12.10.16

 

 

 

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Deutschland über alles?

 

 

 

 

Ou não? Na eleição de António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas houve episódio esquisito. Depois de 5 votos a feijões todos ganhos por Guterres e antes do sexto, o governo da Bulgária retirou a sua candidata, Directora Geral da UNESCO, senhora socialista que tinha o apoio da Rússia e, por instigação de Angela Merkel, nomeou outra, Comissária Europeia, de direita. Guterres ganhou também a sexta votação e veio a ser escolhido por aclamação pelo Conselho de Segurança; a recém-vinda búlgara de direita teve ainda menos votos do que a búlgara de esquerda (que se mantivera em liça, indigitada por outro país). O curioso da história é Merkel ter decidido meter-se ao barulho quando a vitória de Guterres estava assegurada. Houve escolhas para Secretário-Geral da ONU renhidas, num caso pelo menos exigindo coelho tirado à última hora da cartola para fugir a impasse de vetos cruzados. Mas este ano não. Ou Merkel foi mal informada pelos seus de como as coisas se estavam a passar ou julgou que apesar de tudo a sua vontade prevaleceria (mais provavelmente, mistura de ambas as coisas). Não prevaleceu. Será o proverbial canário da mina?

 

Oxalá. Quem trate há muito tempo de coisas europeias - nos milhares de reuniões, entra o ano sai o ano, em que diplomatas, burocratas, políticos e técnicos de (hoje) 28 países concertam posições sobre toda a espécie de assuntos – conheceu três fases distintas quanto à participação da Alemanha. Na primeira, durante aí um quarto de século a seguir ao Tratado de Roma de 1957 - criador do processo formal que levaria à União Europeia - a Alemanha derrotada, saindo aos poucos da ruína, envergonhada, não mostrava preferências próprias nem levantava a voz, cultivava europeísmo em vez de patriotismo, e era seguidora disciplinada de quaisquer consensos. Na segunda, começada no fim dos anos 80, a Alemanha, primeiro com a capital ainda em Bona e depois, de novo inteira, em Berlim, começou a dar sinais cada vez mais fortes e frequentes de hegemonia e de gosto por a exercer. (O anúncio, em Dezembro de 1991,de que ia reconhecer a independência da Croácia sem esperar por acordo a Doze foi marco importante de autonomia política reconquistada). A terceira começou em 2010 com a crise financeira e a austeridade, declarada política obrigatória no Sul da Europa para quem quisesse receber ajuda de “Bruxelas” (que compensou primeiro perdas de bancos alemães e franceses), e foi anunciada em termos moralistas ofensivos pela formiga germânica às cigarras meridionais. Grande responsável pelo marasmo económico europeu tem sido acompanhada, também noutros campos, por arrogância crescente de quase todo o pessoal alemão que participa nos milhares de reuniões europeias.

 

O descontentamento de outros europeus perante esta situação absurda cresce; talvez leve Berlim a mudar de rumo. É urgente que o faça antes de tanta cegueira acabar de vez com reabilitação alemã que parecia há 10 anos ter vindo para ficar.

 

 

 

NB Há gente a mais agora a dar palpites sobre política internacional. E aconselhar a Alemanha, de dedo em riste, a partir de um pequeno blog lisboeta parece néscio. Mas será? Em 1914 quando se soube no Cartaxo que a Alemanha invadira a Bélgica, o director do jornal da vila saltou de cadeira de barbeiro meio escanhoado e saiu a correr, anunciando que ia escrever artigo a escavacar o Kaiser. E o facto, como lembrou o advogado e dramaturgo Amilcar Ramada Curto que contou depois a história, é que o Kaiser perdeu a guerra.

 

 

 

 

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5.10.16

 

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Família

 

 

 

 

A família faz-nos amar pessoas de quem nunca gostaríamos se as tivéssemos conhecido de outra maneira. Assim, não gostamos delas mas amamo-las. Treino inestimável para a vida, de que nem nos damos conta: aprende-se sem ter de ser ensinado.

 

Família como é em Portugal. No centro está o próprio, com pai e mãe, irmãos, irmãs, avós paternos e maternos, tios, tias, primos, primas, a certa altura quase sempre também mulher ou marido, filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas (e sogros, sogras, genros, noras). O parentesco traça-se igualmente pelo lado do pai e pelo lado da mãe; este sistema de parentesco, existente na Europa toda e, hoje em dia, em muitas outras partes do mundo, chama-se cognático. Há outras variedades. Se o parentesco se traça só pelo lado do pai o sistema chama-se patrilinear. Se se traça só pelo lado da mãe chama-se matrilinear - o que não quer dizer mulheres a mandar; quem manda são sempre os homens (‘matriarcados’ são ficções mitológicas). O que varia é a transmissão de bens, obrigações, honras de uma geração para outra. No sistema cognático estes são transmitidos pelos dois lados, no patrilinear eu herdo através do meu pai e o meu filho herda através de mim. No matrilinear eu herdo através do irmão da minha mãe e o filho da minha irmã herda através de mim. No primeiro caso não tenho parentes do lado da mãe; no segundo, é do lado do pai que não os tenho. Nalgumas sociedades tradicionais, como as dos aborígenes australianos, há regras de casamento complicadíssimas. Os europeus que as descobriram em finais do século XIX só vieram a entendê-las devidamente com ajuda de modelos matemáticos, enquanto os aborígenes, analfabetos e ignorantes de álgebra, as dominavam tão completamente que sabiam sempre com quem poderiam casar ou não (antes de instrução e envangelização obrigatórias lhes terem começado a embotar a broca do entendimento).

 

Seja como for, a família –no começo disto tudo, à bulha com outras famílias - é o primeiro grupo a que se pertence. Quer para quem acredite, com Jean-Jacques Rousseau, que o homem é naturalmente bom e é a sociedade que depois o estraga, quer para quem acredite, com Thomas Hobbes, que a maldade nos vem da matriz e só a sociedade poderá minorá-la. Desde que há homo sapiens até hoje – um ápice na história do universo – outros grupos foram tirando comando e controle à família até se chegar à visão de superestado que a União Europeia ambiciona ser. Mas quando as coisas dão para o torto como, de há 8 anos para cá, estão a dar na Europa e nos Estados Unidos – “A malta agora é mais pobre do que eram os pais da malta” - a família sai do pano de fundo e volta à boca de cena, nem sempre para maior bem-estar de todos nós. Com ela reforçam-se, em ordem descendente de mal fazer, máfias, nepotismo, corrupção, compadrios. Perde-se respeito pela coisa pública - a res publica, a República – e pelos que enriquecem à custa dela e nossa. A hora é dos gladiadores. Não se irá ao sítio a bem.

 

 

 

 

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28.9.16

 

 

 

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Fábrica de armamentos em Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial 

 

 

 

 

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Pátrias

 

 

 

“O patriotismo é o último refúgio do bandalho” proclamou o Dr. Samuel Johnson, lexicógrafo inglês do século XVIII - na Europa, pátrias começavam a ganhar mais importância do que fés e dinastias - cujo humor cáustico continua a ser apreciado. Reforçadas por revoluções europeias de meados do século XIX, pátrias mostrariam a sua força crescente contra outras lealdades na Primeira Guerra Mundial: as classes operárias alemã e francesa, marimbando-se para exortações a que proletários de todo o mundo se unissem, mataram-se zelosamente uma à outra nas trincheiras da Flandres. “Patriotismo é amor dos nossos; nacionalismo é ódio aos outros” lembrou por seu lado Roman Gary, nascido judeu polaco, morto – por suicídio – cidadão francês, cuja origem estrangeira levara a baixarem-lhe a Note d’amour na academia aeronáutica, se juntara aos aviadores da França Livre de De Gaulle e foi, até hoje, o único escritor a ganhar o Prémio Goncourt duas vezes – a segunda sob pseudónimo, a mangar com o júri - publicando também romances em inglês e casado algum tempo com Jean Seberg de quem se separou e que se suicidou antes dele. Na sua vida e à sua volta desenrolaram-se muitas das barbaridades do fim da primeira metade do século XX no centro da Europa.

 

Nós portugueses, a irmos para nove séculos de história dentro das mesmas fronteiras – que os Amigos de Olivença me perdoem a pequena inexactidão – oito se quisermos contar com Tavira, não damos valor ao sossego ontológico desta periferia com vista para o mar. Devíamos dar. Javier Solana contou-me ter conhecido em Bratislava senhor muito velho que ao longo da vida mudara sete vezes de nacionalidade sem nunca ter mudado de casa. A mim explicou-me há meio século proprietário alentejano, para me contar da vida sob a Primeira República (1910-1926): “Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há”. Para nós, as leis mudaram poucas vezes e, sobretudo, nunca nos mandaram dizer que eramos outros. Logo a seguir aos anos do fim do Império, anos em que tinham realmente querido dar-nos cabo do juízo (diante de mim, no Clube de Évora, um deputado à Assembleia Nacional e dois grandes lavradores do distrito disseram a jornalista francês de Le Monde, vindo por haver ‘eleições’: “Portugal é uno do Minho a Timor” em uníssono sem sombra de ironia na voz), amigo meu que ensinava em Genebra recebia compatriotas incessantemente preocupados com a “identidade nacional” - o que o deixava perplexo porque, dizia, não havia país mais idêntico que Portugal.

 

Talvez por isso, cá o Dr. Johnson não vigore: os bandalhos terão de encontrar outro refúgio. Lá fora, estão ultimamente na maior: patrioteiros como Marine Le Pen em França, Trump nos E.U.A., Putin na Rússia, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, etc., etc. trazem à superfície o pior na sua gente, voltam-na contra outras gentes e aceleram o mundo para novo desastre.

 

As luzes que em 1914 se apagaram na Europa apagam-se agora pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

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21.9.16

 

 

 

 

 

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Defesa europeia, Brexit e bom senso

 

 

 

 

Alguns entusiastas vêm na saída anunciada do Reino Unido da União Europeia não um desastre mas uma oportunidade. O seu argumento é que, ao longo dos anos, o Reino Unido várias vezes impediu com o seu veto projectos de defesa europeia propostos por outros estados membros (na União Europeia, questões de defesa são decididas por unanimidade) como, por exemplo, a criação em Bruxelas de um quartel-general europeu. Deixando os ingleses a União, outros poderão levar os seus projectos avante, aumentando assim, segundo eles, a capacidade defensiva da União Europeia.

 

Hão de poder, com certeza. Mas espero que o bom senso prevaleça e isso não venha a acontecer. Os vetos dos ingleses a tais iniciativas não eram birras, eram resultado de duas condições necessárias para que defesa europeia eficaz possa existir: uma, que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (vulgo NATO) esteja pronta a intervir 24 horas por dia, 365 dias (6 em anos bissextos) por ano em caso de ataque a qualquer membro da Aliança (não aconteceu até agora e só esteve para acontecer uma vez: a 12 de Setembro de 2001, evocando o Artigo V do Tratado, todos os outros Aliados se disponibilizaram para ajudarem os Estados Unidos mas estes agradeceram e recusaram); outra, que os países Aliados elaborem os seus orçamentos nacionais de maneira a poderem arcar com as despesas que lhes caibam na partilha do fardo fiscal colectivo da defesa da Europa, em que os Estados Unidos também participam.

 

Enquanto a União Soviética existiu, medo saudável dela ajudou a arrumar as ideias nas cabeças de ministros, parlamentares e contribuintes na Europa Ocidental, e foram feitos esforços sérios de cumprimento das metas orçamentais acordadas para cada Aliado. Depois do colapso da União Soviética e do fim da Guerra Fria as coisas mudaram. Nenhum Aliado europeu gasta o que devia – e como devia - em defesa, sendo, de longe, o Reino Unido e a França os que mais se aproximam do cumprimento dessas obrigações. Juntamente com dimensão, arsenal nuclear e história (incluindo assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU), tal faz deles os únicos Aliados membros da União que são potências militares mundiais.

 

Na área da defesa, a saída do Reino Unido em nada enfraquece a União Europeia nem prejudica iniciativas Franco-Britânicas. Por uma razão: a defesa dos países membros da União Europeia contra eventuais ataques de terceiros cabe, não à União, mas à OTAN (directamente, para a maioria porque são também Aliados; indirectamente - tradição vinda da Guerra Fria -, para Irlanda, Áustria, Finlândia e Suécia que o não são).

 

O risco de “iniciativas europeias” (bem intencionadas ou/e antiamericanas), por exemplo, a de um quartel-general em Bruxelas seria, por um lado, prejudicarem unidade ocidental, condição sine qua non de bom funcionamento da defesa europeia e, por outro, competirem irracionalmente por fundos escassíssimos dando azo a ainda mais desculpas de mau pagador.

 

 

 

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7.9.16

 

 

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Angela Merkel

 

 

 

 

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A questão alemã

 

 

 

 

 

No Domingo passado - a leitora terá dado por isso - partido da extrema-direita alemã passou à frente da CDU, vindo com 21% dos votos em segundo lugar, a seguir aos 30% dos Sociais Democratas vencedores e relegando para terceiro lugar, com 19%, o partido da Senhora Merkel, em eleições regionais no mais pequeno dos Länder, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, entalado entre o resto da Alemanha a Polónia e o Mar Báltico, que não conta mais do que 2% do eleitorado do país, fazia parte da República Democrática Alemã antes de reunificação e é o Land onde a Chanceler vota e é eleita. Esta coincidência, a seguir a três desempenhos notáveis em eleições regionais na Primavera da Alternativa para a Alemanha (24,3% em Saxe-Anhalt; 15,1% em Bade-Wurtemberg; 12,6% em Renânia-Palatinado) levou Frauke Petry, porta-voz do partido, a cantar “vitória” e a declarar que “os cidadãos perderam a confiança nos velhos partidos” (que, para ela, são todos menos a Alternativa).

 

Até às reacções hostis de muitos alemães à generosidade voluntarista e unilateral de Angela Merkel no acolhimento de imigrantes do próximo Oriente, sobretudo de imigrantes fugidos do horror sírio, a Alemanha fora, desde as grandes crises começadas em 2010 - a crise das dívidas soberanas e, mais tarde, a crise da imigração – ou, melhor ainda, desde o fim da segunda guerra mundial em 1945, o país europeu menos provável para berço de novo regime fascista, depois do surto triunfalista dos antigos na década de 30 e do seu esmagamento implacável na de 40, do século passado. Mais do que isso. Entre a derrota de 1945 e a reunificação de 1991 a Alemanha Ocidental, primeiro de rastos e depois, a pouco e pouco, levantando-se do chão por determinação tenaz (com ajudas de fora: estar proibida de se meter em grandes despesas militares; ver perdoado o grosso das dívidas de guerra incorridas na paz de Versailles de 1919 e a seguir à rendição incondicional de 1945 porque Washington, Londres e Paris precisavam dela forte contra a Rússia Soviética) tornara-se, de longe, a grande potência que melhor tratava potências médias e pequenas.

 

E era também a nação europeia que levava mais a sério a Europa (primeiro as Comunidades Europeias e, mesmo depois da reunificação lhe devolver Pátria própria, a União Europeia).

 

Helmut Kohl avisava: “Quem vier a seguir a nós [governar a Alemanha] não se lembrará da guerra”. Felizmente apareceu Merkel, que se lembrava da Alemanha de Leste. Mas a sua austeridade pôs a economia europeia na cauda do crescimento económico do mundo (e mostrou urbi et orbi que a dívida afinal ainda não estava paga).

 

A Alternativa assusta mas é cereja para bolo que não foi cozido. Julgo que o enxerto democrático continue a vingar no tronco teutónico. Que quanto a imigração a Alemanha ajude a civilizar os países do Leste europeu em vez de ceder à barbaridade destes. Que os alemães se convençam de que meio século sem lhes darem ouvidos não lhes dá direito a não ouvirem os outros.

 

 

 

 

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31.8.16

 

 

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Gemeinschaft

 

 

 

 

Quando eu era novo, Gemeinschaft era bom. Lembrava o tempo em que palavra de homem valia mais do que papelada oficial de burocratas sem cara e sem alma. Em que costumes seculares de aldeia, validados por gerações seguidas de analfabetos norteados por curas, prevaleciam sobre códigos escritos alheios, impostos pelo estado moderno, que os roubava para seu sustento e lhes levava os filhos para a guerra. Um tempo que provavelmente já não se vivia em parte nenhuma e que a saudade da gente imaginava. Mas o passado não pára de mudar e agora, segundo aprendi num ensaio de Henrique Raposo na revista do Expresso que trazia os Duques de Windsor na capa (“The Windsors were here alright. The bed is still cold”), Gemeinschaft afinal é mau e as nossas saudades dele também. Isto por razões longas de enumerar mas de que se pode dar o tom numa penada: se nesse tempo se falava com respeito de palavra de homem não se falava nunca de palavra de mulher. Era, aparentemente, coisa que não existia ou, se existia, não contava. Só fidalgas ricas, viúvas de jure ou de facto, se podiam dar a tal luxo, como D. Felipa de Vilhena armando os filhos cavaleiros.

 

Marx, sempre a puxar a brasa à sua sardinha, escreveu que não havia uma moral dos senhores e uma moral dos escravos: havia uma moral feita pelos senhores para os escravos. Julian Pitt-Rivers, antropólogo inglês que morreu há quinze anos, entre as três mulheres com quem foi casado contou uma duquesa espanhola, viveu uns tempos numa vilória do sul do país e observou-a bem (“The town begins and ends as abruptly as the Spanish day”) explicava que, em Espanha, os muito pobres – e nessa altura havia muitos - não tinham meios que chegassem para se poderem portar bem, os muito ricos, incluindo então muitas Grandezas de Espanha, tinham meios demais para precisarem de se portar bem, e eram as vastas classes médias que passavam por este mundo permanentemente atormentadas por rosário de penas que temor a Deus ou falatório de vizinhos lhes quisessem causar.

 

Voltando às mulheres, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) que comandara a pacificação de Évora depois da revolta do Manuelinho em 1637 fora claro numa passagem capital da sua Carta de Guia de Casados: “Que o marido sofra da mulher tudo menos ofensas e a mulher ofensas e tudo”. Lido hoje, tal não se enquadra bem no espírito do tempo.

 

Assim nos vamos entretendo por Lisboa, capital do Porto, enquanto a Europa (ou melhor, a União Europeia, invenção política que tem dado aos europeus de hoje peso e força no mundo, isto é, seguro de vida) se vai destricotando em protecionismos protofascistas. Cercada por um mundo onde os valores do Iluminismo e da Democracia Representativa são arvorados em inimigos do povo. Onde Putin, Erdogan, teocratas sauditas e teocratas iranianos praticam com desenvoltura guerras pequenas, preparando-se para grandes guerras. Onde Trump quer privar a OTAN do arsenal nuclear americano e se arrisca a ser eleito em Novembro.

 

 

 

 

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24.8.16

 

 

 

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Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

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Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

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15.8.16

 

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… upon rereading my book, it is clearer to me than ever, that it is quintessentially a work of fiction and not an autobiography or memoir, and that I had to write the story of Maciek and Tania in the form of a novel. The form was no less necessary than the emotional distance from the events I was going to evoke conferred by exile and the passage of time.

 

Perhaps I should briefly explain what I mean when I refer to the form of the novel. I understand the convention of the realist novel — a tradition in which I place myself — to require the novelist to write avowedly invented stories that so engage the reader's interest and sympathy that, while the spell lasts, he believes they are true or, at least, suspends disbelief. Novelistic invention does not, of course, preclude use of the novelist's own experiences and observations — of himself and others — in addition to material whose connection to his actual experience may be tenuous or indiscernible as he puts words down on paper. That is because the act of writing has the power to release thoughts and images of which one has had no premonition; one did not know they were within one's ability to summon up. Of course, when the novel has at last been finished, none of the material included in it has conserved its nature, whether it be personal experience, make believe, or serendipitous dis­covery; all of it has been transformed, as though the writer were a silkworm, and the bits and pieces of memory, associations, and knowledge leaves of a mulberry bush. These characteristics of the novel as form have an importance for me that I cannot overstate. They give the freedom to invent, consistent with the profound moral and psychological truth of the story being told, that treasure as my essential prerogative, and, like the passage of time and exile, they provide a psychic screen that has permitted me to approach matters, including the annihilation of Jews in Poland, that would otherwise seem intractable, even forbidden.

 

It should by now be clear that my insistence on the fictional nature of Wartime Lies is not a form of coquetry, and has nothing to do with some bizarre need on my part to avoid embarrassment to my mother or me. Neither of us has any more cause to apologize for or be ashamed of our lies or degradation during those war years than did Tania or Maciek — if I exclude the profound shame and disgrace of belonging to the same animal species as the men and women whose cruel and vile deeds I describe.

 

 

Louis Begley

in Wartime Lies [Afterword]

© Louis Begley, 1991 Afterword © Louis Begley, 2004

 

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3.8.16

 

 

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Fim de festa

 

 

 

 

Saiu o ano, entrou o ano. No topo do Estado dois chatos tristonhos deram lugar a dois faroleiros alegres e parece que o povo gosta assim. Ao menos anda a gente distraída, Senhor Doutor. Não ficámos menos pobres mas passámos a viver com mais gosto, dizem-me médicos de Lisboa e mestres d’obras de província. E nesta aventura inédita a que chamamos Europa – já lá vai mais de meio século sem andarmos à estalada uns aos outros (e sem batermos em pretos) – há muitos que nos invejam por esse mundo fora, apesar do mal que gostamos de dizer de nós próprios. Mas será preciso acordarmos e ganharmos juízo porque a papa doce está a acabar.

 

Não acabaria nunca enquanto a União Soviética existisse e a Alemanha estivesse dividida. (Gosto tanto da Alemanha que prefiro que haja duas – lembrava o General De Gaulle). O medo que o Camarada Estaline e os seus herdeiros nos metiam nos ossos tinha efeito salutar nas nossas decisões de europeus do Ocidente: dava força e razão ao que nos unia, punha de lado o que nos afastava e a construção europeia não parava. Se idade e doença não tivessem levado tão depressa desta para melhor os dois predecessores imediatos de Gorbachev, a perestroika e o colapso da União Soviética só teriam chegado dez anos depois, com a União Europeia já pronta para entrega aos europeus, chave na mão, pelo empreiteiro Delors ao serviço do casal franco-alemão (gravado para todo o sempre na sabedoria das nações por Mitterrand e Kohl de mão dada em Verdun).

 

A reunificação alemã deu cabo desse casal. Como no drama de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, que dantes se estudava no liceu, o primeiro marido afinal ainda estava vivo. “Perdida, desonrada, infame” grita da filha inocente a bígama involuntária quando tal descobre, antes de se fechar num convento a expiar a culpa até ao fim da vida. Para a Alemanha Reunida, o centro da Europa passou a ser a Leste. Tem algum respeito ainda pelo Noroeste protestante, à cabeça os holandeses, heróis de Srebrenica e gente de contas certas; Inglaterra indispensável para equilibrar França que não só descobriu que não manda na Europa (tempo foi em que Kohl dizia que o Chanceler alemão, quando ia ver o Presidente francês, devia começar por fazer três reverências) mas também que nem sequer em si própria manda - com os ingleses a irem-se embora, como é que vai ser? – e os de Sul e Sueste que se arranjem, punidos com cegueira analfabeta, norteada por calendários eleitorais teutónicos. Até à reunificação, a Alemanha Ocidental expiara exemplarmente a sua gigantesca culpa (ajudada por perdão de dívida que afastava fantasias de ir para Leste) mas, depois de reunida, a tentação de ser alemã e não cidadã europeia cruza cada vez mais cabeças, deixando mais nódoas negras nos vizinhos.

 

Enquanto a Europa se afunda. Quando agora o Sultão de Istanbul acusa as potências ocidentais de conspirarem contra ele, as potências em vez de mandarem canhoneiras para o Bósforo desfazem-se em desculpas de mau pagador.

 

 

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27.7.16

 

 

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Germaine de Staël

(Marie Eléonore Godefroid segundo François Gérard)

 

 

 

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O passado e o futuro

 

 

 

 

 

Cosimo de Medici, o mais sábio e ponderado de ninhada de irmãos florentinos de que o mais vaidoso era Lourenço, o Magnífico, banqueiro respeitadíssimo e homem de trato exemplar - dava sempre a parede a pessoas mais velhas (no seu tempo as ruas de Florença não tinham passeios e quando nelas se andasse “dar a parede” , fosse à direita ou à esquerda, era sinal de deferência) – dominava práticas financeiras novas que no seu tempo animavam o comércio internacional europeu e era, nesse sentido, um homem virado para o futuro. Mas, por outro lado, detestava a invenção da imprensa por Gutenberg, não porque esta tivesse tirado valor à sua biblioteca de incunábulos mas porque leitura era exercício requintado que não se compadecia com a vulgaridade dos paralelepípedos de papel a que chamamos livros, saídos em quantidades industriais das prensas tipográficas. Para Cosimo, a Renascença fora manchada pelo aviltamento de uma das mais refinadas experiências humanas e, nesse sentido, era um homem do passado. Lembro-me dele às vezes, escrevendo onde escrevo agora: penas (plumas) propriamente ditas já tinham desaparecido quando aprendi a redigir mas canetas de molhar o aparo na tinta, canetas de tinta permanente, máquinas de escrever – comecei por uma Olivetti lettera 22 – que passaram a eléctricas, vi um dia no Diário de Notícias que Jimmy Carter estava a escrever as memórias dele num “word-processor”, até ao computador que uso agora e me obriga de vez em quando a pedir ajuda ao Cipriano que, sem sair do escritório dele, entra no meu écran e, enquanto o diabo esfrega um olho, em série de cliques que obedecem a gramática que não conheço, acaba com o impedimento ou corrige o desvio que me levara a telefonar-lhe. (Isto, na escrita. Quanto à leitura, enquerenço como Cosimo embora não em incunábulos mas sim em livros impressos em papel - assim fazem touros em Praças que não saem de um lugar por muitas capas que lhes metam pela frente. Não julgo que alguma vez me meta a ler um livro electrónico – é assim que se diz? – nem mesmo em leituras de verão, onde a modernice poupa imenso espaço dentro das malas de bagagem que se levem para férias.

 

A propósito, não só nisso os antigos eram diferentes dos modernos. Hoje, chegado o Verão, os europeus vão para férias. Antigamente iam para a guerra. Deixando memórias vivas, mesmo em país neutro aonde havia férias (agradeciam as mães portuguesas ao Dr. Salazar, a despropósito, pois fora Franco que travara qualquer apetite de Hitler para invasão da Península Ibérica). Lembro-me como se fosse hoje do Pai chegar ao Estoril ao fim da tarde e dizer que a guerra tinha começado.

 

Com a Europa a esfrangalhar-se, Trump na maior, o Czar e o Sultão sem ganharem tino, gente nova cheia de sangue na guelra, correcção política que não deixa pôr nomes aos bois e divórcio entre elites e povos parecido com o que alarmou Madame de Staël durante a Revolução Francesa, talvez os nossos verões tornem a pegar fogo.

 

 

 

 

 

 

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20.7.16

 

 

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 Donald Trump e Nigel Farage

 

 

 

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Mundo novo

 

 

 


Pedro Pires de Miranda, com quem tive a honra de trabalhar quando ele era ministro dos negócios estrangeiros (“A política externa é óptima: só se tem inimigos!” disse-me uma vez - e outra vez, quando eu o informava que com três pessoas não conseguiria levar a cabo tarefa de que me encarregara, perguntou-me “Já experimentou com duas?”) pediu-me ao jantar em que o conheci que eu lhe pusesse, para o dia seguinte, em meia página, as diferenças entre as posições da OTAN e do Pacto de Varsóvia na Conferência Europeia de Segurança, em Estocolmo, onde ele viera acompanhar Mário Soares, Presidente da República, ao funeral de Olaf Palme (primeiro ministro sueco assassinado) e onde eu vivia, chefiando a delegação portuguesa à Conferência. No papel que lhe entreguei quando ele ia apanhar o avião escrevera meia dúzia de frases. A primeira, em inglês (língua franca da diplomacia, onde eu estava, e dos negócios, donde ele vinha), tocava no nó do problema: “We are right and they are wrong” (Nós temos razão e eles não). O mundo era menos complicado do que é agora.


Pedro foi-se embora há pouco tempo, eu ainda por cá ando mas nos trinta anos desde esse enterro nórdico especial (o assassino de Palme andava a monte, não se sabia quem era nem se havia cúmplices, desabaram sobre a cidade num fim de semana chefes políticos do mundo inteiro e, para preocupação suplementar dos serviços de segurança suecos, Shimon Peres, PM de Israel, no sábado, em vez de ir como os outros em carros mais ou menos blindados, foi a pé aos lugares onde tinha de se ir) desde esse enterro, dizia, os que tínhamos razão, ganhámos a guerra fria – e a Rússia perdeu-a - sem termos de dar um tiro. Éramos os melhores, os mais fortes, os mais ricos e ainda por cima, para algumas almas optimistas a História tinha acabado. Só que, como escreveu Nelson Mandela, quando se chega ao cimo da montanha que se está a subir descobre-se que há outra montanha que tem de se subir também, depois dessa mais outra ainda e por aí fora.


Ora para as montanhas que se seguiram e para a cordilheira que se vislumbra até onde a vista alcança nem nós nem os americanos - Atenas e Roma do mundo de hoje, houve quem gostasse de pensar - temos mostrado grande jeito. Perante a decadência do Ocidente (será finalmente desta?) avultam novos poderes – China, Índia; menos grandes mas incomodamente perto, a Rússia de Putin, segunda potência nuclear do mundo, batoteira das Olímpiadas, invasora de vizinhos e a Turquia, onde o islamista Erdogan venceu golpe militar pondo o povo na rua pelo FaceTime do seu iPhone – mas o podre vem de dentro.


Na pátria da Magna Carta, políticos encartados mentiram escandalosamente a eleitores que mostraram ignorância abissal e fartura sem remédio das “elites” - como se chama agora a quem saiba ler e escrever e tenha onde cair morto. Do outro lado do Atlântico, “Nós, o povo” reduziu a duas as pessoas entre quem escolher para suceder a Barack Obama e uma delas é Donald Trump. 

 

 

 

   

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13.7.16

 

 

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Barroso, Goldman Sachs e bom senso

 

 

 

De há uma dúzia de anos para cá, no calendário cinegético deste maravilhoso país que tão generosamente nos acolhe no seu seio – assim chamava a Portugal amigo inglês que cá vivia e já esticou o pernil – abre de vez em quando a caça ao Barroso. (Os nossos compatriotas atiradores à espécie folgam quando franceses rompem também o defeso. Franceses a cuja visão marxista primária do mundo se junta nessas alturas indignação escandalizada pelo triunfo do filho da concierge. Michel Rocard disse uma vez a Barroso que mesmo que ele cantasse a Marselhesa e erguesse ao alto o estandarte tricolor a esquerda francesa nunca o toleraria).

 

A pulsão condenatória nacional tem raízes mais variadas do que a estrangeira, nutrida por todos os horrores da alma humana. Inveja, empertigamento moral e ignorância fazem má mistura, da qual saem comentários nos jornais, nas telefonias, nas televisões, nas “redes sociais” e nas conversas. Num caldo de cultura de má-fé e má-vontade.

 

No cargo que Barroso vai agora ocupar em Londres – Presidente não executivo de Goldman Sachs International – esteve durante uma década, até ao ano passado, o irlandês Peter Sutherland  (o melhor Presidente que a Comissão Europeia não teve: política interna irlandesa impediu o que haveria sido escolha unânime) que foi Comissário Europeu e criou o programa Erasmus, Representante do Secretário-Geral da ONU para Migração, pilotou a transição de GATT para OMC, presidiu à BP, preside à Comissão Católica Internacional sobre Migração, tem vários outros encargos e a mais alta das reputações no mundo em que política e economia internacionais se entrecruzam. Encontrar sucessor à altura não terá sido fácil até Goldman Sachs decidir convidar Durão Barroso.

 

Ouviu-se e leu-se logo um coro de protestos, de entrada esperançados numa ilegalidade. Como esta não existe procuraram, também em vão, conflito de interesses. Por fim trataram Barroso como se fosse um traidor que se tivesse posto ao serviço do inimigo. Tal é, evidentemente, absurdo mas, como essa evidência parece escapar a muitos, vale a pana recordar algumas coisas elementares.

 

Durão Barroso, que foi presidente incansável da Comissão Europeia, vai agora presidir a Goldman Sachs. Mesmo a mais eurocéptica das cidadãs terá de reconhecer que é dever da Comissão - que nos próximos anos não terá mãos a medir na definição das novas relações entre o Reino Unido e a União Europeia - obrar pelo bem dos europeus. Por sua vez Goldman Sachs tem todo o interesse em que essa definição garanta a melhor articulação possível entre a praça financeira de Londres e a Europa Continental, como terá de reconhecer mesmo o mais eurofílico dos cidadãos europeus. A escolha de Durão Barroso faz assim o maior sentido e merece parabéns.

 

Salvo, claro, para quem ache que banqueiros – homens de negócios em geral - são cambada de gatunos apostada em esbulhar o povo e o alto funcionalismo internacional um bando de lacaios do capitalismo.

 

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29.6.16

 

 

 

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A Nave dos Loucos - Pieter van der Heyden (1562)

 

 

 

 

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“E agora José?”

 

 

 

perguntou Yvonne por SMS (haver quem se lembre de Carlos Drummond a propósito da maioria dos britânicos decidirem de um dia para o outro sair da União Europeia dá logo algum conforto). É pergunta retórica mas eu respondo. Agora, Yvonne, das duas uma: se, dos outros europeus, aqueles a quem a Inglaterra faz falta dentro da União tiverem mais poder do que aqueles que suspiram de alívio por a verem sair dela, tudo irá menos mal no menos mau dos mundos possíveis. Se for ao contrário vamos ter, Você e eu, fim de vida muito mais incómodo do que aquele que havíamos antecipado.

 

Vai ouvir e ler agora toda a espécie de argumentos, vindos de um lado e do outro, mas não será o valor intrínseco de qualquer deles que ditará o futuro mas sim o resultado do confronto de forças indicado acima. É sempre assim. Por exemplo, durante a Guerra (como nós dizemos; para leitoras mais novas, a Segunda Guerra Mundial) uma tarde, no Norte de África, Duff Cooper tentava persuadir Churchill dos grandes méritos de De Gaulle (Churchill, primeiro-ministro britânico e De Gaulle, chefe exilado em Londres das forças francesas livres, não precisarão de apresentação; Duff Cooper foi ministro inglês próximo de Churchill, embaixador em Paris logo a seguir à guerra, biógrafo exímio de Talleyrand e polígamo natural: a mulher, Lady Diana Cooper tinha às vezes de consolar a sua principal amante francesa, Louise de Vilmorin, dos devaneios do marido). A certa altura Winston interrompeu Duff: “Não vale a pena insistires. Tu gostas dele e eu não (You like the man and I don’t)”.

 

É o que se está a passar. Felizmente para quem pense, como eu, que União Europeia, privada de Reino Unido, seria objecto político teratológico, girafa sem pescoço ou touro sem cornos, o chefe de fila dos que lamentam a saída e não a querem apressar é Angela Merkel, ao pé da qual resmungões anti-ingleses de vários partidos e pátrias, sedentos de divórcio litigioso, são pigmeus. Vale a pena ir demorando porque os jogos não estão feitos. O referendo não era vinculativo. Referendos europeus foram repetidos. Danos nos interesses de todos causados por tão egrégia insensatez cega os olhos. Brutidão xenófoba – a começar pelos ingleses – precisa de correcção exemplar. Talvez se possa ainda virar o bico ao prego.

 

Moralistas evocarão Bertolt Brecht: “É preciso dissolver o povo e eleger outro!”. Haverá lembranças diferentes. Em 1999, quando a OTAN ia bombardear a Sérvia, Robin Cook, MNE inglês, disse a Madeleine Albright, MNE americana, que os seus juristas (lawyers) achavam que tal era ilegal. “Get other lawyers” respondeu ela. E na Cidade e as Serras quando os dois homens de Madame de Trèves, o marido, o Conde de Trèves e o amante, o banqueiro judeu David Ephraim, querem convencer Jacinto a investir numa mina de esmeraldas no Ceilão e Jacinto pergunta enfadado Ele há esmeraldas no Ceilão? o banqueiro indigna-se: “Homem, há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!

 

Brexit? Ou talvez não?

 

 

 

 

 

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22.6.16

 

 

 

Philippe Wojazer Reuters.jpg© Philippe Wojazer/Reuters

 

 

 

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Europa sem ingleses ? Não, obrigado

 

 

 

Desde o Tratado de Windsor - e da batalha de Aljubarrota – Portugal e a Inglaterra têm tido relações privilegiadas que resistiram ao ultimato inglês de 1890 e a pressão alemã durante a II Guerra Mundial para que a nossa neutralidade nos impedisse de aceitar a instalação de base militar inglesa (e, depois, americana) na Ilha Terceira dos Açores.

 

Potências marítimas, confrontadas por poderes continentais, demo-nos bem assim quando a Europa passou a ser o centro do mundo e também agora, que a União Europeia já não o é. Na quinta-feira (eleições e referendos são às quintas-feiras no Reino Unido), os ingleses - a escoceses e irlandeses do Norte o problema não se põe -, em inusitada manifestação colectiva de falta de bom senso, poderão optar por sair da União. Não acredito que o façam mas, se o fizerem, Portugal deveria começar a pensar em sair também.

 

Temos recebido muito da União, como tínhamos recebido muito das Comunidades Europeias que a precederam. Sem a Inglaterra, porém, a União será um animal político muito diferente do que é agora, contrário ao nosso interesse.

 

Com o Tratado de Roma de 1957, França, Alemanha, Itália e Benelux criaram a Comunidade Económica Europeia. O Reino Unido - isto é, a Inglaterra - não se quis então juntar aos seis fundadores. Poucos anos depois passou a querê-lo mas De Gaulle opôs-se. O alargamento a Reino Unido, Irlanda e Dinamarca fez-se em 1973; quando Portugal aderiu em 1986, já a Inglaterra era um dos ‘Quatro Grandes’. A chamada Construção Europeia fora possível porque, a seguir a seis anos de guerra, os europeus, sobretudo a Alemanha, estavam de rastos e URSS (potência atómica desde 1949) e EUA partilhavam o domínio do mundo em Guerra Fria. Os EUA protegiam a Europa Ocidental: defendiam-nos da Rússia - e defendiam-nos também uns dos outros. Sem uma Rússia que nos aterrorizava e uma Alemanha de rastos não se teria chegado à União Europeia.

 

A URSS colapsou e a Rússia revanchista de Putin não mete medo que se lhe compare. O terror soviético animava forças centrípetas vitais para a Europa; sem ele medram forças centrífugas de nacionalismo (patriotismo é amor aos nossos; nacionalismo é ódio aos outros, Romain Gary). Entretanto, a Alemanha levantou-se do chão, reunificou-se, fez do Eixo Franco-Alemão a trela com que Berlim puxa Paris, ajeitou os Tratados e, sem Inglaterra a bater-se por liberdade económica, defesa forte a Leste e Sul e bom senso em geral, acabaria obtendo em paz – mais por erros dos outros do que por desígnio próprio – o que lhe escapara nas guerras lançadas em 1914 e 1939: domínio incontestado da Europa.

 

Não há país mais longe do fascismo do que a Alemanha de hoje mas há vigências antigas. A saga da austeridade atasca a economia do Continente, afunda o Sul, divide Norte e Sul, com os alemães convencidos de estarem a fazer bem, por bem. Querem livrar-nos dos nossos Demónios e não entendem que a gente queira livrá-los dos Demónios deles. Assim não.

 

 

 

 

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15.6.16

 

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 Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva

 

 

 

 

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Da cepa torta

 

 

 

A nossa sabedoria popular não fica atrás da do relógio humano de Koenisberg, na Prússia (hoje Kaliningrado, na Rússia) – os vizinhos sabiam que era meio-dia quando o viam entrar em casa para almoçar – conhecido por Emmanuel Kant, considerado por uns o maior filósofo moderno e por outros não, quando escreveu que da madeira torcida da humanidade nada de direito poderia alguma vez ser feito. Em alturas de entusiasmo – pessoal, religioso, corporativo, partidário, patriótico – a gente às vezes julga que vai cortar a direito e quando depois cai em si, descobre que afinal a tábua não destorceu. Aconteceu com o 5 de Outubro de 1910, com o 28 de Maio de 1926 e está agora a acontecer com o 25 de Abril de 1974. É grande pena que seja assim mas é assim mesmo.

 

Ou pelo menos tal me parece, embora me sinta obrigado a lembrar à leitora anedota desenhada na revista humorística madrilena antifranquista La Codorniz – “La revista más audaz para el lector más inteligente”, rezava tarja de um lado ao outro da capa – de uma série delas dedicadas ao pessimismo, em que sujeito lúgubre dizia a compincha mais lúgubre ainda: “Lo único bueno del pesimismo es que a veces uno no tiene razón”. Pode ser que eu não tenha razão agora e que tudo vá pelo melhor no melhor dos mundos possíveis – mas não me palpita nada que tal seja o caso.

 

Do grande sobressalto de há pouco mais de 40 anos, que começou com a Grândola, vila morena, do Zeca Afonso, a sair das telefonias, viemos numa montanha russa, divertida para uns, arrepiante para outros - em giga joga alternando quem se divertia e quem se arrepiava - até que o paralelo divisório da Europa ocidental que passa no coração de Bruxelas - com flamengos na mó de cima e valões na mó de baixo - linha a Norte da qual toda a autoridade é, até prova em contrário, legítima e acreditamos no que um estranho nos diga a menos que tenhamos razões para desconfiar dele e a Sul da qual toda a autoridade é, até prova em contrário, ilegítima e desconfiamos, por princípio, de qualquer estranho que nos fale, nos desabou em cima. Implicações desta configuração vieram dar-nos mau viver quando a crise financeira levou os alemães, com acordo quase geral das gentes do Norte, a nos imporem austeridade cega e irracional, em parte para salvar bancos seus que haviam animado despesas a Sul e em parte para nos fazerem pagar o que acham ser os nossos pecados. (Os franceses não foram capazes de lhes lembrar que, sem a mão que a França lhe estendera, a Alemanha talvez andasse ainda a espiar os seus pecados).

 

Entretanto, por cá, a coragem e visão do Dr. Mário Soares, sobretudo em 1975 e 1985, salvaram a Democracia; Deus o abençoe apesar de ateu. E, entre 1985 e o começo dos anos 90, o Dr. Cavaco Silva, talvez por não pertencer à burguesia urbana, salvou o Estado. Valha-nos isso, mas não é preciso ser pessimista para perceber que as aldrabices risonhas e inconsequentes com que se trata agora dos destinos da Pátria são de muito mau agoiro.

 

 

 

 

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25.5.16

 

 

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 Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva

 

 

 

 

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Canários na mina

 

 

 

 

A Palma de Ouro do Festival de Cannes foi atribuída ao realizador inglês Ken Loach pelo filme “I, Daniel Blake”. Também este ano, o prémio Pritzker (espécie de Nobel da arquitectura, criado por família multi-milionária de Chicago, já recebido duas vezes por portugueses: Siza Vieira e Souto de Moura) foi atribuído ao chileno Alexandro Aravena. As duas atribuições têm uma coisa em comum: ao contrário do que costuma acontecer ambas recompensam mais as preocupações sociais dos contemplados do que as suas contribuições arte pela arte, por assim dizer, aos misteres respectivos. Loach conta história desventurosa de um desempregado; Aravena tem projectado para acolher o melhor possível na cidade migrantes pobres do campo. O filme e as construções não ficarão necessariamente entre as mais altas obras-primas do cinema ou da arquitectura.

 

Mas foram premiados, neste ano da graça de 2016, por júris diferentes de artistas, em diferentes continentes, de competência incontestável, porque, às vezes, artistas percebem o futuro melhor que economistas, antropólogos, historiadores, cientistas políticos (longe vá o agoiro…), matemáticos, banqueiros, sindicalistas, mulheres-a- dias, leitoras de sinas ou leitoras de genomas, tal como os cães começam a uivar por pressentirem terramotos antes dos humanos os sentirem ou os canários postos em minas para assim darem o alarme, morrem asfixiados antes dos humanos cheirarem o gás e, com sorte, poderem escapar a tempo das explosões.

 

Como cães em tremores de terra e canários ao fundo de minas, os prémios dos júris de Cannes e de Chicago lembram-nos uma coisa enorme. Desde que o colapso da União Soviética e a emergência dos bilionários chineses passaram certidão de óbito ao comunismo como remédio para os males sociais deste Mundo, o capitalismo tomou o freio nos dentes. Zelo excessivo e mal orientado está a cavar fosso cada vez mais largo entre grupo muito pequeno e muito rico por um lado, e vastas classes baixas e médias com perspectivas de prosperidade cada vez mais ténues e incertas, por outro lado. Coisa de que já sabíamos mas contra a qual, nas sociedades do Sul da Europa, incluindo a nossa, aparecem agora a lutar estudantes e sindicalistas convencidos da bondade do remédio que falhou. O fosso alarga-se. Entretanto em França, na Áustria, na Hungria, nos Países Baixos, a pouco e pouco na Alemanha, a inacção da gente de bem deixa germinar os fascismos do futuro próximo. E nos Estados Unidos, amigo judeu alemão que morreu há dias e lá tinha arribado com Franklin Roosevelt presidente horrorizava-se de ver bruto ignaro como Trump convencer tanta gente a pô-lo na Casa Branca. Uma broncalina do camandro – ou então uma Bernardette do caboz.

 

 

NB – Em Portugal não há extrema-direita porque a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva em 1987 foi mata-borrão que apanhou tudo. E não há extrema-esquerda porque Mário Soares, ao dissolver a Assembleia da República em 1985, lhe tirou o caldo de cultura.

 

 

 

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18.5.16

 

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Escolher o burro ?

 

 

 

Ou, quando se passa de cavalo a burro, como está a acontecer agora à Europa, nem a essa escolha se tem direito? Eu, se mandasse nalgum país ou nalguma instituição da União Europeia – “But that is not real, it’s politics isn’t it?” palpitou caixeira de um Brooks Brothers de Washington a diplomata europeu seu freguês – faria o que pudesse para que a besta não mudasse muito na metamorfose. Porque quando se olha à roda do globo terrestre – que cada um vê à sua maneira: eu, por exemplo, aos 8 anos, na escola da D. Maria Prego na Travessa da Capelinha ao Largo da Igreja de São Francisco, fiquei a saber que Portugal tem a Nova Zelândia como país antípoda, que se se começasse a cavar, cada vez mais fundo, debaixo dos nossos pés e se resistisse às temperaturas extremas do centro da Terra e se continuasse a cavar, mais e mais, acabaria por se sair para o ar livre, furando a crosta de dentro para fora, numa das ilhas da Nova Zelândia, o que dava a esta, de certa maneira, quase uma espécie de vizinhança. Depois, durante a Guerra – lá em casa eramos anglófilos – quer em Lisboa, quer na Ilha Terceira, quer outra vez em Lisboa depois do Pai ter sido desmobilizado, os ingleses enchiam-nos de propaganda e um dos livros mandados por eles era de Ngaio Marsh, escritora neozelandesa de policiais, de que gostei muito. Passadas algumas décadas, descobri Popper – foi descoberta maior: durante um par de anos impingi A Sociedade Aberta e os seus Inimigos a gregos e troianos, sobretudo a troianos (pelo andar da carruagem desde Outubro do ano passado, devia tê-la impingido muito mais ainda) e, de caminho, soube que o homem, judeu fugido da Viena nazi, antes de se ter instalado em Inglaterra, onde meteu Wittgenstein na ordem sobre a maneira de tratar visitas e foi armado cavaleiro pela Rainha Isabel II, ensinara na Nova Zelândia o que me caiu bem. E há pouco mais de dez anos fiz amizade em Princeton com o italiano Nicola Di Cosmo, autoridade na história das relações da China com a Ásia Central desde a Pré-História com quem muito aprendi, chegado em 2003 da Nova Zelândia.

 

Se o mundo fosse só Portugal e a Nova Zelândia a passagem de cavalo a burro não faria diferença nenhuma. Infelizmente não o é e todo o cuidado é pouco. Entre os dois antípodas a agitação do mundo não para mas enquanto a Europa vai vendo fatias do bolo que dantes lhe cabiam caberem agora a outros sem transtorno de maior para a sua gente (apesar de queixa permanente), os candidatos a senhores futuros, os chamados BRICs, não estão – salvo talvez a Índia – a dar conta do recado. A China é ditadura atroz; a Rússia para lá caminha; do Brasil nem falar. Nenhum soube criar aquilo a que chamamos estado de direito e protecção satisfatória dos direitos do homem. Entretanto, quando a Europa era rica e poderosa inventou a sua União. Ainda o é - mas muitos europeus julgam que não e culpam a União por isso. Insensatez perigosa que eu espero que os ingleses contrariem a 23 de Junho.

 

 

link do postPor VF, às 09:57  comentar


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