18.10.17

 

 

 

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Capitol Hill, Washington

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Perigo de Morte

 

 

 

Um argumento contra a monarquia é esta designar para chefe de Estado herdeiro (ou herdeira) mesmo quando o dito (ou a dita) não tenha o mínimo de qualificações. Tudo pode sair na rifa – Nero herdara o Império e divertira-se a pegar fogo a Roma - e, há uns séculos, os europeus meteram-se a preferir repúblicas a monarquias ou, no canto noroeste do continente onde o feudalismo foi forte e incutiu regras de convívio entre pobres e ricos, a conservar monarquias, mas afastando-as cada vez mais da governação (Suécia, Noruega, Dinamarca, Países Baixos, Reino Unido). Em 1974, uma das primeiras pessoas que conheci no MNE, a D. Adelaide, que trabalhara na nossa embaixada em Oslo durante mais de dez anos, explicou-me porquê: “Aquelas criaturinhas pouco ou nada fazem mas têm o condão de manter o povinho unido”.

 

Quem não tenha tido, ou não tenha querido ter tanta sorte, foi alargando o número de sócios da empresa até ao sufrágio universal – nas democracias contemporâneas não há metecos nem escravos - julgando que, como não é possível enganar toda a gente todo o tempo, se haveria encontrado a maneira mais segura de evitar no futuro Neros, Calígulas e demais fatalidades dinásticas. Infelizmente, tal foi atribuir à voz do povo mais sabedoria do que ela é, permanentemente, capaz de mostrar. Exercendo os seus direitos numa das maiores (e mais senhoras do seu nariz) das repúblicas do mundo, em eleições livres e limpas, o povo dos Estados Unidos da América escolheu para seu Presidente Donald J. Trump, manifestamente incapaz de desempenhar tais funções com o mínimo de sanidade mental, competência política e integridade moral que elas exigem. E com mau fundo. Nunca acontecera nada assim.

 

Se Trump tivesse sido eleito presidente da Albânia, ou da Bolívia, ou da Malásia, nesta altura os albaneses, ou os bolivianos, ou os malaios - e eventualmente algum vizinho – estariam em maus lençóis, o Conselho de Segurança das Nações Unidas já se teria reunido e, por geografia ou interesses, talvez até um dos mandachuvas do mundo, com ou sem o beneplácito da ONU, tivesse mandado o Trump local pró catano. Mas o homem mora em Washington e só os americanos nos poderão livrar dele.

 

A lista de desmandos é egrégia: internacionais, nos casos da Coreia do Norte e do Irão, por um lado, e relações económicas com o estrangeiro, por outro; universais, em aquecimento global (incluindo desmantelamento de profilaxias já estabelecidas); nacionais, com a tentativa de destruição do sistema de saúde de Obama, a ilegalização de filhos de emigrantes, projecto de orçamento incoerente. Tudo recheado de aldrabices, golpadas, insultos e birras que envergonham e desacreditam os Estados Unidos.

 

Sem Estados-Unidos que nos fica? A Rússia de Putin? A China de Xi Jinping? A União Europeia, incapaz de matar uma mosca mesmo que a mosca seja tsé-tsé? Valham-nos alguns senadores e congressistas em Washington capazes de removerem o homem sem derramamento de sangue. Já houve caso parecido.

 

 

 

 

 
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4.10.17

AfD

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Tempo circular

 

 

 

O tio Clarimundo proibira-me de fazer mais de duas citações ao almoço e três ao jantar. Adolescente, eu passava uma semana em casa dele porque o Pai visitava outra vez a clínica do Lopez Ibor em Madrid e a Mãe fora com ele. Cingi-me à disciplina avuncular mas a emenda não pegou. Adiante.

 

As I write highly civilized human beings fly over my head trying to kill me”, George Orwell, em Londres, durante o Blitz. “Je suis la guerre civile. Quand je tue, je sais que je tue”, Henri de Montherland, começo da sua peça “La Guerre Civile”. A guerra atómica começara nesse dia, o soldado teve de partir sem se despedir da mãe mas promete ir visitá-la assim que a guerra acabar … “three quarters of an hour from now!”, Tom Lehrer, matemático do MIT, cantor de protesto e de humor na década de 60, com muito sucesso na costa e na contracosta dos Estados Unidos (mas menos ou mesmo nenhum no interior entre as duas, que sem ninguém dar por isso já germinava por lá essa coisa politicamente teratológica – ou talvez seja a nova normalidade e o aleijado seja eu – a que se chama Trumpismo).

 

Vieram-me os três juntos à cabeça agora porque, depois de alguns entre nós, embalados por tanto aumento de riqueza e tanta aparência de virtude desde a autodestruição da União Soviética (que Vladimir Putin considera a maior catástrofe geopolítica do século XX - once a KGB officer, always a KGB officer) se meterem a imaginar, com pormenor adaptado aos nossos dias, a paz perfeita proposta pelo filósofo Immanuel Kant e parecerem convencidos de que tudo ia realmente pelo melhor no melhor dos mundos possíveis (conheço um ou dois, mais espertos a meterem equações à economia do que a leitora ou que este seu criado, mas para entendimento do mundo à sua e nossa volta, valha-nos Deus...) até começaram a brotar por toda a parte flores venenosas apostadas em darem cabo de jardim tão carinhosamente plantado.

 

Empreendimento criminoso hereditário, vulgo Coreia do Norte , talvez compreensivelmente preocupado com o que aconteceu a Muammar Khadafi que negociara com o Ocidente o desmantelamento das suas ambições nucleares, resolveu lembrar-nos a todos que tem bombas e que as poderá usar. O choque cultural cria estranheza; talvez o homem não assuste os seus mas assusta todo o resto (tirando as Bolsas que, com a acuidade geopolítica dos homens de negócios, parecem nem dar por ele). Com sorte não há de ser nada - mas aumenta o perigo por o Presidente dos Estados Unidos actual ser tão escandalosamente inepto. Entretanto a Catalunha, devido a manha perversa de alguns políticos locais e a estupidez granítica de Madrid, poderá dar à Espanha e à Europa déja vus impensáveis há um mês, desarrumadores de outras cabeças e potencialmente sangrentos. Por fim, em Berlim o pior sistema de governo tirando todos os outros levou ao Budenstag noventa e seis deputados nostálgicos de Hitler e das glórias passadas do Volk.

 

Como ao jantar em casa do tio Clarimundo, fico-me por três citações.

 

 

 

 

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27.9.17

 

 

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 Edvard Munch, 1899

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Winter is coming

 

 

 

Toulouse-Lautrec adorava o Outono, que para ele era a Primavera do Inverno, e embora esta semana Bruxelas esteja banhada no que os ingleses imperiais apodaram de Verão Indiano, o Inverno avizinha-se como monstro em pesadelo que exigiria almas ainda mais torturadas do que a do fidalgo-pintor – há mais de meio século, em cantiga portuguesa traduzidota de filme a cores de Hollywood, “…por mais que fizesse/Vivia a lembrá-la/E bebia absinto/Pelo cabo da bengala” – para apetecerem a estação das trevas e sofrerem por ela levar quase um ano antes de nos tornar a visitar (no Hemisfério Norte. Não sei como a correcção política dá conta do recado sem ofender as/os do Hemisfério Sul).

 

Para mim, como em todos os sistemas simbólicos que o bicho homem foi inventando durante milhares de anos para tentar viver com a noite e o dia, o mal e o bem, a força e a fraqueza, a mulher e o homem, a vida e a morte, o Inverno é coisa péssima (ao contrário do que achava o aleijadinho genial, que “ia ao Moulin Rouge/Enfrascar-se no vinho”) - e o de 2017-2018 vai ser “très very péssimo” como diria chauffeur de táxi poliglota que me levou o ano passado de casa ao aeroporto, onde ainda decorriam trabalhos de reconstrução, consequentes de terrorismo bombista.

 

No verão de 1914, ministro britânico ganhou nota de pé de página no grão livro dos viventes por ter dito que por toda a Europa as luzes se estavam a apagar. Para os europeus, a primeira metade do século XX foi uma Bernardette do caboz e, para muitos – incluindo, leitora, este seu criado – a segunda foi work in progress até ao colapso da União Soviética. Mas o mundo é mais complicado do que cada um de nós julga. Um bem que hoje se alcança/Amanhã já o não vejo/Assim nos traz a mudança/De esperança em esperança/E de desejo em desejo - ou, olhando para o ano que se aproxima e tomando outra inspiração clássica, de Bernardette do caboz em broncalina do camandro. Na América, Trump – e quanto melhor se percebe no que deram quer o partido Republicano quer o partido Democrático menos a gente se espanta. Na Europa, da Polónia ao Reino Unido, da Hungria à Catalunha, poucos dizem coisa com coisa; Macron procura, em vão, que os franceses se portem como alemães e Frau Merkel descobre com alarme que quem quer cada vez mais portar-se como os alemães são os alemães eles próprios. Très very péssimo.

 

O mal vem de longe. Durante a Guerra Fria, para encostar a URSS à parede, armámo-nos em defensores dos direitos do homem, levantando a fasquia bem acima das nossas posses – mas, como os soviéticos podiam muito menos ainda do que nós, passámos por virtuosos (assim um bocadinho como a filha do general birmanês). Ainda por cima, financeiros e economistas acham mais graça a tornar os ricos mais ricos do que os pobres menos pobres e o mau viver está a espalha-se por toda a parte. Por um tempo, sabedoria e bondade foram valores seguros. Se deixarem de o ser, acabou o meio milénio de intervalo lúcido a que tivemos direito.

 

 

 

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6.9.17

 

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Norte Coreanos inclinam-se diante de estátuas dos antigos líderes Kim Il-sung and Kim Jong-il na capital Pyongyang.

foto: J.A. de Roo via Wikimedia Commons. 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Grande chatice à vista?

 

 

 

Com o psicopata de Pyongyang na maior, parece-me que estamos mesmo pela primeira vez em perigo de guerra nuclear, desde o colapso da União Soviética. Ora na guerra, escreveu Thomas Hobbes (1588- 1679) e eu vi acontecer à minha frente, força e fraude são as duas virtudes capitais. Exactamente o contrário do que a correcção politica da presidência de Barrack Obama queria impor aos americanos. Ao fim de oito anos, a malta yankee fartou-se de tanta bondade e, em vez de votar terceira vez seguida nos democratas, votou em Trump, toma lá que já almoçaste. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, mas acontece quase sempre assim.

 

Em Portugal é diferente. Cá, as tentativas de correcção política são sempre ridículas – mesmo quando não cheguem à insensatez fascistoide da proibição dos livros para meninos e para meninas da Porto Editora. Não por sermos desajeitados mas porque a correcção política resulta de exagero inapropriado de exigência moral – e em Portugal tal exigência moral não existe. Não há noções de mal e de bem universalistas, fontes de satisfação ou de culpabilização geral. O centro dos direitos e deveres é a família e não uma obrigação abstracta aplicada por igual a toda a gente. Pai de amigos meus, grande commis d’État do regime de Salazar (mas poderia ter sido um dos manda-chuvas de hoje menos iletrados) teria candidamente dito que nas relações dos governantes com os governados se deveriam favorecer os amigos, prejudicar os inimigos e, a quem fosse nem uma coisa nem outra, aplicar a lei. O cocheiro da tipoia que levara Fradique Mendes de Santa Apolónia ao hotel em noite tempestuosa, por preço exorbitante exigido à cabeça, quando Fradique lhe perguntou no fim “Com que então são três mil reis?”, respondeu: “Eu disse aquilo porque não tinha conhecido o Senhor D. Fradique. Para o Senhor D. Fradique é o que o Senhor D. Fradique quiser”. Dei uma libra àquele bandido, desabafa Fradique. À gente destas terras do Sul europeu – nós, os espanhóis, os italianos, mais de metade dos franceses, os croatas, os sérvios, os albaneses, os gregos – Lutero e Calvino não chegaram. Mas chegaram às grandes tribos anglo-saxónicas e germânicas que estão a agora a perder o controle do mundo, depois de dois séculos a mandarem vir. (De caminho, deixaram estado de direito e democracia nalguns lugares – a Índia é o mais conspícuo – que espero não venham a desaparecer). No estertor desse poder temos hoje em casa as batalhas inglórias da austeridade.

 

Voltando à Coreia do Norte. Devemos ajudar os americanos a definir sensatamente qual seria o mal menor – a fim de que o Ocidente não se desconjunte diante da China e da Rússia. A história da Coreia do Norte com a arma atómica vem de longe e quando se julgava que no mundo multipolar se encontraria enquadramento propício, o psicopata mandou matar tio e irmão e bateu o pé. A nosso favor: em 1914 e 1939 guerra era natural e grandes potências a queriam; hoje não o é e nenhuma potência a quer.

 

 

 

 

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23.8.17

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Sacanas e bananas

 

 

 

Passam-se anos sem eu ver o Duro. Desde novos, privámos em passagens animadas da vida e ele conhece-me melhor a mim do que eu o conheço a ele - ou pelo menos é isso que eu sinto. (Outro com quem acontecia o mesmo era o meu chorado Zé Cardoso Pires e eu achava que tal se devia ao Zé ser romancista e eu não; com o Duro essa explicação não colhe). Encalhámos um no outro há dias e lembrei-me – lembro-me sempre que nos encontramos - de encalhe anterior, também no verão, à porta do Balaia, depois do 25 de Abril mas antes do Balaia ter virado Club Med.

 

“Voltaste?”. Fazia-o ainda pela finança internacional, em Londres ou numa das costas dos Estados Unidos.

 

“Não! Só quando as condições estiverem cumpridas”.                                                                                  

“Quais condições?”                                                                                                                                                  

“Salazar no poder; Marcelo Caetano na oposição; Freitas do Amaral na clandestinidade!” (Freitas do Amaral, nessa altura, considerava-se e era considerado de direita).

 

A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres; el trigo trigo!” afirma camponesa andaluza numa peça de teatro de Lorca. Camponesa que havia de ser, como o Duro, pessoa de um só princípio, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer. Como seria também o médico cujo nome me escapa, membro do Partido Comunista Português no tempo da clandestinidade, preso duas ou três vezes, esbofeteado pela Pide, que encontrei em casa da Mimi e do Fernando Bandeira de Lima, amigos dos meus Pais (ele também maltratado na António Maria Cardoso) e que, ao falar eu de inspector da Pide inteligente me interrompeu, indignado, porque a inteligência era um dom das almas superiores e, por isso, nenhum Pide podia ser inteligente.

 

Ainda haverá gente assim. O Duro é fino como um coral; o amigo dos Bandeira de Lima era burro; o que nos chegou da camponesa de Lorca não dá para saber – mas tudo seres morais e isso escasseia agora no pessoal político. Não só por cá (já lá vamos); falha no cimo mesmo do que chamávamos “O Mundo Livre”: Trump, palhaço pouco esperto, ignorante e malfazejo terá de ser corrido depressa; no Reino Unido não se vê hoje ninguém; em Berlim, automóveis poluentes e superavit escandaloso são demais para que a mediocridade da Senhora disfarce a Alemanha. Talvez Macron, se fizer os franceses perderem egoísmo e peneiras.

 

E nós? No tempo de Salazar o escritor José Rodrigues Migueis dizia que Portugal era um país de bananas governado por sacanas. Democracia e Europa trouxeram-nos harmonia: hoje somos, governados e governantes, bananas assacanados - ou sacanas abananados se a leitora preferir.

                                                                            

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20.8.17

 

Disponível para consulta no  Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

 

 Daniel Rocha

 

Hoje, como no início da carreira de Futscher Pereira, os telegramas rosa são os recebidos e os telegramas verdes são os expedidos. O espólio ocupa 14 prateleiras do Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Foto Daniel Rocha

 

  

Estudar este espólio, disse o ministro [dos Negócios Estrangeiros] que é ele próprio um académico, vai permitir ver “como se exerce a profissão de diplomata, como se cresce e se amadurece passando pelos postos C., e como se faz política externa em Portugal — que tem sido sempre um pouco singular”. Foi justamente isso que a filha Vera mais gostou de descobrir ao mergulhar no universo profissional do pai: “Ver o que realmente faz um diplomata. Tem-se aquela ideia do croquete. Como a história da menina a quem perguntam: ‘O que faz o teu pai?’ e ela responde: ‘É diplomata e faz discursos em francês.’ Aqui percebe-se que ser diplomata é sobretudo a descrição e a análise do que se está a passar nos países. Foi ver os bastidores de uma profissão que é tão secreta.”

 

Em momentos separados e a milhares de quilómetros de distância, ela em Lisboa, ele em Dublin, os dois irmãos usam exactamente a mesma expressão. “Estava sentado em cima dos papéis quando já há historiadores interessados em ver”, conta Bernardo. “Até que percebemos que estávamos aqui sentados em cima dos papéis e que assim os papéis morrem”, diz Vera. O filho-embaixador tem uma razão extra: “Sendo eu próprio investigador nas horas vagas [é autor de A Diplomacia de Salazar (1932-1949), de 2012, e Crepúsculo do Colonialismo – A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961), que acaba de ser lançado], não me sentiria bem perante os meus colegas académicos dispondo daquele espólio e não o pondo à disposição deles também. Se o meu pai guardou isto tudo, é porque achava que os documentos tinham valor histórico. Não era apenas para nós podermos saber o que ele tinha feito como diplomata.”

 

Leia na íntegra o artigo de Bárbara Reis no jornal Público 

 

 

 

 

 

Vasco e Malu com Nancy e Ronald Reagan

Vasco e Malu Futscher Pereira com Nancy e Ronald Reagan em Washington

 

 

 

* * *

José de Freitas Ferraz* :

 

Ele, na realidade, foi o diplomata mais completo que eu conheci. Na medida em que era um homem extremamente inteligente e culto, tinha uma enorme capacidade de análise, escrevia muitíssimo bem, ainda hoje se quiserem podem ver, e para além disso era extremamente gregário, era extremamente afável, era extremamente simpático, ele tinha uma necessidade terrível de ter gente à volta e tinha também a seu favor o facto de, na realidade, a embaixada em Washington para ele ser o terceiro posto que ele fazia nos EUA. [...] O que aconteceu nesse período, nos períodos em que ele tinha estado nos outros postos ia coleccionando amigos e quando chegou a Washington já tinha uma rede importante e uma rede que desenvolveu.

 

Ele tinha uma, algo que eu aprendi na altura e os colegas também, que era : ele não tolerava "nós". Ele que era extremamente simpático e afável, não tolerava que num jantar oficial, numa recepção, nós, nos apanhasse a falar uns com os outros. Porque ele explicava que vocês estão aqui para trabalhar, portanto fazem o obséquio de falar com os convidados.

 

E ele, por seu lado, se eu estivesse numa ponta da sala, era um prazer ver o Vasco Futscher Pereira e a Malu a trabalhar, como os americanos diziam, “working the crowd”, praticamente cobrindo digamos 60 ou 100 convidados que eles lá tinham.

 

 

*

Bernardo Futscher Pereira:

 

Sempre guardou cuidadosamente e transportou consigo pelo mundo a sua correspondência com o ministério, as inúmeras cartas que trocou com colegas e amigos, os recortes de imprensa em que se apoiaram os seus relatórios. É todo este manancial de documentos, com a única exceção dos que são de natureza estritamente pessoal e familiar, que hoje simbolicamente entregamos à guarda do Arquivo Histórico-Diplomático.

 

E não haverá certamente melhor sitio para o depositar do que no Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Faço-o com particular gosto por ser eu próprio um utilizador assíduo do arquivo e conhecer o seu valor ímpar para o estudo da história diplomática de Portugal – ou seja para a história de Portugal.

 

Sempre procurou transmitir a importância de fazer as coisas bem feitas. Punha um grande apuro em tudo o que fazia, e em particular naquilo que escrevia, num estilo que se esforçava para tornar límpido e elegante. Não era pessoa timorata, que se acanhasse perante os seus superiores ou que deixasse de exprimir, de forma delicada mas firme, os seus pontos de vista. Estava à vontade com toda a gente.

 

Teve uma vida muito atribulada, mas nunca se deixou abater pelas preocupações. Pelo contrário, procurou sempre gozá-la tanto quanto podia. Tinha tempo para tudo. Aliás, costumava dizer: “não ando com pressa na vida”. 

 

Discípulo de António Sérgio e Agostinho da Silva, creio que se via como um humanista. O amor pela cultura manifestava-se numa devoção pelos livros, não como objetos – não era bibliófilo nesse sentido embora adorasse todas as artes decorativas, incluindo a encadernação – mas como expressão do que de mais profundo e elevado a razão e a arte podem criar.

 

 

 

*

 

*Presidente do Instituto Diplomático

 

 

Agradecimentos: Margarida Lages, José de Freitas Ferraz, Bárbara Reis, jornal Público 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2.8.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

Democracias

 

 

 

No ano passado, a democracia mais antiga e mais prestigiada do mundo (o Reino Unido de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) e a democracia mais rica e poderosa do mundo (os Estados Unidos da América), utilizando os seus respeitados mecanismos constitucionais, deram a si próprias duas bordoadas de cujos maus efeitos não recuperarão tão cedo.

 

A bordoada britânica foi resultado de referendo a perguntar aos cidadãos (melhor dito, aos súbditos de Sua Majestade Britânica) se queriam sair da União Europeia ou permanecer nela – uma maioria disse que queria sair. A bordoada americana foi eleger Donald Trump Presidente dos Estados Unidos. No primeiro caso a procissão nem sequer vai no adro: só há poucos dias se encetaram conversas formais em Bruxelas mas, antes das negociações começarem, já se tinha percebido que o Reino Unido ia perder muito com o negócio, a todos os níveis. Durante a campanha que precedeu o referendo os partidários da saída mentiram escandalosamente sobre o dinheiro que os britânicos poupariam se saíssem, sem que os partidários na permanência na União tivessem denunciado essa mentira com vigor comparável; além disso a população da Inglaterra e da Irlanda do Norte, é uma das mais ignorantes e menos educadas dos 35 países da OCDE. Por exemplo, em lugares dependentes para sua sobrevivência da exportação de automóveis para o resto da União Europeia, a percentagem de votantes que quiseram deixá-la foi das mais altas do país. 44% das exportações britânicas e mais de metade das importações são com o resto da União Europeia; saindo do Mercado Único tudo isso lhes ficará muito mais caro mas, para nele ficarem mesmo saindo da União, teriam de admitir imigrantes de lá vindos e isso, até agora, é impensável. Digo até agora porque a indústria em geral começou a dar-se conta de que, sem estrangeiros, a economia levará grande e duradouro rombo. Para não falar da City. Os serviços de finança e negócios de Londres perfazem um terço do PIB britânico porque têm clientes pela Europa toda – que os vão deixar se saírem da União. A Confederação da Industria Britânica estima que em 2020 o PIB britânico será de 3,5% a 5% menor do que se o Reino tivesse continuado na União. Haverá 2° referendo? Exit tão soft que não se dê por ele? Ou insistirão no masoquismo da ruína voluntária?

 

Nos Estados Unidos as coisas vão de mal a pior porque Trump não dá para Presidente – a maioria dos eleitores já o sabia – e, em vez do hábito fazer o monge, neste caso o monge está a esfarrapar o hábito. A personalidade de Trump - o seu narcisismo, a sua mesquinhez, a sua maldade, a sua ignorância – está a abandalhar a Presidência. Sendo a Constituição como é não se vê saída fácil – mas quanto mais demorar, pior será para a América e para o mundo.

 

Acha a leitora que irá tudo ao sítio? Escrevo em Montemor-o-Novo onde, a passar na cidade antiga, li este nome: Rua da Paz, e, por baixo, antiga rua da Mancebia. Enquanto há vida há esperança.

 

 

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21.6.17

 

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Estátua da Liberdade, Nova Iorque

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

100 milhões de emigrantes

 

 

 

Na União Europeia, cada reformado, como eu, é sustentado pelo trabalho de 4 pessoas activas. Prevê-se que em 2050, no mesmo grupo de países, cada reformado seja sustentado pelo trabalho de duas pessoas activas. Expressão daquilo a que se chama a crise demográfica europeia. Por outras palavras, por muito que se racionalizem os métodos de produção incluindo robots e inteligência artificial - ajudas que seriam preciosas se robots pagassem impostos e consumissem bens e serviços; mas nem os pagam nem consomem – precisamos na Europa de muito mais mão de obra do que a que temos. As empresas que no mundo moderno fazem o que nas ruas do Portugal tradicional costumavam fazer as ciganas, isto é, prever o futuro, estimam que, em meados do século XXI, precisaremos de mais cem milhões de emigrantes dos que já cá temos, senão estará o caldo entornado. (A menos que, entretanto, se haja decidido que velhas e velhos, chegados a certa idade, sejam postos de parte por meios não violentos, com se faz com animais domésticos. Julga-se improvável tão cedo mas o progresso nos nossos dias é veloz como o pensamento).

 

Ora os europeus, por mais cristãos que sejam, não parecem às vezes amar a Deus sobre todas as coisas e, muito menos ainda, amar o próximo como a si mesmos. Sobretudo se esse próximo (chamemos-lhe retoricamente assim) não for nem cristão nem branco, o que é o caso de muitos emigrantes que cá arribam – ou morrem no Mediterrâneo em tentativa dispendiosa e vã de cá chegarem. Vai haver mais agora porque é Verão.

 

Vivendo em lugares confortáveis, dando-nos com gente bem educada, lendo jornais com correccão política suficiente mas não ridiculamente exagerada (como na América) com anos de boa educação formal a defenderem-nos, sem termos de pensar nisso, das nuvens por Juno contadas às crianças e explicadas ao povo, agora espalhadas pelo uso ganancioso e nocivo de algoritmos, a maior parte do tempo não percebemos bem em que mundo vivemos nem os seus riscos – e espantamo-nos quando a realidade nos dói. Uma noite destas, inglês das classes trabalhadoras atropelou deliberadamente fieis muçulmanos, que disse odiar, à saída de mesquita em Londres, naquilo que, da Senhora May à BBC, chamaram um incidente, só depois corrigindo para terrorismo. E homem de letras português meu amigo, lamentou o fogo por má construção, também em Londres, que matou “aquela pretalhada toda”.

 

Mais 100 milhões de emigrantes até 2050? Não creio. Nos Estados Unidos, apesar do alarido de Trump contra o Islão, é diferente. Todo o país, salvo Comanches & Cia, é emigrante. Em Princeton, o António Tabucchi e a Zé perguntaram-me o que eu achava de pedido de desculpa aos negros por causa da escravatura, causa querida de Susan Sontag, em casa de quem tinham estado em Nova Iorque. Respondi que, a haver desculpas a pedir, não seria aos descendentes dos africanos trazidos de África para a América como escravos, mas aos descendentes dos africanos deixados em África.

 

 

 

 

 

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7.6.17

 

 

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Berlim, 1989

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Birras ou guerra?

 

 

Poucos ricos, muito ricos; muitos pobres, muito pobres; fosso entre os dois a crescer: assim vai o nosso mundo. É receita para grande desastre, estimulada pela ganância de Wall Street e de outras praças financeiras – em toda a parte, cada vez mais PDGs são premiados por lucros a curto prazo. A diferença entre o que ganham os administradores executivos de grandes companhias e o que ganham os empregados menos bem pagos destas duplicou várias vezes desde o tempo há quarenta anos em que toda a gente parecia estar mais feliz do que alguma vez estivera (e do que está agora), nos Estados Unidos da América e na Europa Ocidental (e a tendência não dá sinais de abrandar, pelo contrário).

 

Tempo houve em que na Áustria políticos cristãos-democratas e sociais-democratas se alternavam no poder e distribuíam pelas clientelas respectivas benesses e prebendas financiadas pelo contribuinte. Com toda a gente, ou quase, sentada à mesa do orçamento, não havia revolucionários, ou sequer conspiradores. A Áustria viveu sob acordo entre a União Soviética e os três grandes do Ocidente, também vencedores da segunda guerra mundial e, se só ela estava proibida, por tratado, de aderir à Aliança Atlântica, aos outros neutros da Europa – Irlanda, Suécia, Finlândia – a União Soviética metia respeito igual ao que metia aos membros europeus da Aliança. Para cá da cortina de ferro e do arranjo sui generis da Jugoslávia, todos nos íamos governando – ou sendo governados – de maneira parecida.

 

Agora temos saudades – ninguém, por enquanto, inventou e pôs em prática coisa melhor, pelo contrário. À geração já matura mas ainda activa dos nossos dias, cabe o duvidoso privilégio – contrariando a experiência de três gerações anteriores consecutivas – de deixar os filhos mais pobres do que os pais tinham sido (excepto, mais uma vez, entre os muito ricos). A chamada terceira via de Tony Blair e do professor da London School of Economics que o inspirou – a arte de diminuir as pensões de velhinhas pobres com boa consciência, chamava-lhe cínico na nossa praça – acabou por não convencer ninguém. A social-democracia alemã – e a sueca – cansaram os eleitores. Transformado em poder por François Mitterrand, que não era socialista mas era artista, o socialismo francês deu cabo do comunismo estalinista francês, apoderou-se da noção de estado-jiboia que tudo come à sua volta e acabou por rebentar: nas eleições legislativas deste mês nem chegará a dez por cento dos votos. Simultaneamente, a direita francesa desconjuntou-se. Os americanos elegeram Trump. Os povos mais ricos e bem tratados do mundo, como meninos mimados, fazem birras.

 

O homo sapiens, também conhecido por bicho homem, gosta do mal e precisa dele dizia, salvo erro, George Orwell e, certamente, algum Doutor da Igreja. Como se meio século de paz não chegasse, vieram demãos de correcção política e a besta zangou-se.

 

Esperemos que cheguem dois ou três grandes sustos para a meterem nos eixos – sem guerra.

 

 

 

 

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1.2.17

 

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José Cutileiro

 

Casa Branca, Nau Preta, felicidade na Austrália…

 

 

Coitada da Casa Branca. Álvaro de Campos faria troça dela mas ninguém ligava, sobretudo porque pouquíssima gente lia o estimável engenheiro ou sabia que ele era heterónimo do tradutor-correspondente Fernando Pessoa, namorado de Ofélia Queiroz, freguês do tinto do Martinho da Arcada e, dessa gente, alguma poderia perguntar-se se seria a Casa Branca de Washington (construída por escravos, incendiada pela tropa inglesa em 1812; as voltas que o Mundo dá…) ou quiçá a que dera o nome a entroncamento ferroviário da linha do Sul e Sueste, depois de Pinhal Novo, já no Alentejo, saída de ramal que ia a Évora e deitava a Reguengos de Monsaraz, enquanto as carruagens do comboio principal continuavam para Sul passando por Beja e acabando no Algarve de aquém mar.

 

Na Casa Branca do começo do Alentejo estive quando era pequeno, indo às vezes, no Verão, comprar bilhas de água à plataforma da estação; na de Washington, D.C. só uma. Jantei lá em 1999 quando o Tratado de Washington – fundamento legal da O.T.A.N. – celebrou 50 anos e, havendo a O.T.A.N acudido à Bósnia-Herzegovina depois do acordo de Dayton de 1995 em que os americanos meteram paz pelas goelas abaixo de sérvios, croatas e muçulmanos, que a engoliram com a pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino (tal como Jacinto, em Paris, a preparar-se para Tormes) já a maioria dos proponentes da extinção da Aliança Atlântica tinham metido a viola no saco. Que nos sirva de lição que sem as sangrentas desavenças balcânicas – e com a Rússia tentando ajeitar-se mal aos instintos democráticos do bom Boris Nicolaevitch em vez de se submeter contente aos instintos autocráticos do pérfido Vladimir Vladimirovich - talvez os proponentes entusiásticos da paz perpétua Kantiana, crentes no fim da História, houvessem levado a sua avante e agora nem O.T.A.N tivéssemos.

 

Mas temo-la e, com sorte, irá resistir aos tumultos do 45° presidente dos Estados Unidos a quem a mudança da possidoneira dourada em estilo Luís XVI da penthouse de Trump Tower, na 5ª Avenida de Manhattan, instalada a seu mando e gosto, para o n° 1600 de Pennsylvania Avenue, Washington, deverá ter feito enorme confusão. Vindo daquele pastiche despropositado de monarquia absoluta, bem calhado com a sua maneira de ser - quer no pastiche quer no absolutismo - talvez nalgum pesadelo haja perguntado a si próprio se passara de cavalo para burro. Comparada com os palácios de Buckingham e do Eliseu para não falar do Kremlin, a Casa Branca quase faz ternura de tão provinciana e despretensiosa, assim uma espécie de solar de senhor local, homem de palavra – mulher ainda não houve - respeitado pelos criados, estimado na vizinhança, e seguro de ser quem é. Quando Jack Kennedy convidou duas dúzias de prémios Nobel disse-lhes que debaixo daquele tecto nunca estivera tanto talento, com a possível excepção das noites em que Thomas Jefferson lá jantara sozinho. Agora são outros tempos. Coitada da Casa Branca.

 

 

 

 

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25.1.17

 

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José Cutileiro

 

Um caso clínico

 

 

 

 

A seguir à vitória de Trump as bolsas subiram, o FMI disse que com ele a economia cresceria mais, as associações industriais, sobretudo as PME dentro destas, rejubilaram, comentadores de direita acharam menos pecados em Trump do que nos esquerdistas que o atacam agora por toda a parte. Com efeito, os excessos do pato-bravo bilionário de Brooklyn convidam a escrutínio igualmente exigente do folclore oposto, bem à vista na Europa nas primárias socialista de França para escolher candidato à presidência da República: o vencedor da primeira volta – e deverá vencer a segunda – ganhou popularidade que lhe deu o triunfo por propor que cada francês/a passasse a ter à nascença subsídio para a vida (em 2012, o que provavelmente fez Hollande ganhar a Sarkozy foi anunciar, a meio da campanha, 75% de imposto a rendimentos anuais superiores a 1 milhão de Euros). Os franceses – os europeus ocidentais em geral – habituaram-se a viver com room service incluído mas continuam a achar que não deveria haver gente muito mais rica do que eles.

 

Nos Estados Unidos, o Partido Democrático, cuja incompetência contribuiu tanto ou mais para a eleição do grande narcisista do que inépcia do Partido Republicano – são as elites, gargarejam quase engasgados de contentamento os populistas – entrou em movimentação frenética, uma espécie de Tea Party liberal (dizem eles lá; aqui nós diríamos esquerdista) para encontrar rumo e tento antes de 2020 e não apanharem 8 anos do pato-bravo. Vai ser animado e é impossível prever se Trump será presidente de um mandato – Carter, Bush pai – ou de dois mandatos – Reagan, Clinton, Bush filho, Obama. E aí não há politólogo que nos valha mas talvez um alienista, como chamavam dantes aos psiquiatras.

 

Porque a questão da presidência de Donald J. Trump não é do foro político. A sua tomada de medidas prometidas na campanha logo nos primeiros dias de mandato, feita embora com espalhafato próprio, está na tradição (por exemplo, democratas facilitam o aborto; republicanos dificultam o aborto), podem ser mais ou menos sensatas (por exemplo. acabar com “Obama care” antes de instalado sistema equivalente irá lesar milhões de pessoas que, na maioria, votou Trump), podem levantar objecções fundadas e criar problemas futuros (por exemplo, sair de acordo comercial com países do Pacífico) mas política com alternância no poder foi, é e será sempre assim.

 

O que é novo, a não ser em monarquias hereditárias, é pôr no topo do poder do Estado alguém egocêntrico, infantil, incapaz de reflexão prolongada, patologicamente susceptível e aí baralhando pessoa e cargo, vaidoso, vingativo (segundo biógrafos seus, nas insónias não medita: pensa em dinheiro, sexo, comida ou vinganças que estejam por cumprir). Somos todos Narcisos (as águas do lago não sabiam se ele era belo ou não porque só tinham olhado para si próprias nos seus olhos) mas ser tanto e em tão alto lugar, cola ao mundo aviso igual aos de estações elétricas: Perigo de Morte.   

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4.1.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

Ano Novo, vida nova

 

 

Pelo menos desde a passagem de ano de 1986 a 1987 – isto é, a primeira já com Portugal membro das Comunidades Europeias – tal exortação exprimia ‘pensamento desejudo’ - assim o meu chorado Gérard traduzia ‘wishful thinking’ - e não previsão sensata dos dozes meses que se seguiriam, partindo evidentemente do princípio que a contagem não fosse interrompida por girândola nuclear, deliberada ou acidental, sempre possível quando a segurança de cada um dos dois lados é garantida pela convicção mútua de que quem sair a matar mata mesmo mas será morto também. Tão convencidos estávamos todos disso que, como o leitor “tenebroso e cruel e tonto e traste” que comprara sonetos garantidos por dois anos ao meu chorado Alexandre, críamos nos marcianos mas não víamos a bomba. Não víamos nem vemos. (Alexandre; Gérard: com a idade, os mortos vão-se metendo mais e mais nas conversas. Lembram-se de coisas de que nós já não nos lembramos).

 

Falo no réveillon de 1986 a 1987 porque o quarto quartel do século XX começou em Portugal de maneira mais animada que a dos nossos vizinhos da Europa Ocidental. Estes, engordados e anafados em casulo formado no abrigo do confronto Leste-Oeste, estavam tão iludidos pelo seu próprio bem-estar que se persuadiram de que viviam em paz por terem passado a ser bons, por terem deixado de querer matar os outros, sem perceberem que a paz lhes era imposta por russos e americanos, a quem zaragata aqui não conviria (salvo evidentemente se um dos dois tivesse previsto nela estratagema para enfraquecer fatalmente o outro, o que não aconteceu). A Rússia perdeu a Guerra Fria de dentro para fora (costuma dizer-se a URSS mas tal exactidão formal torna as coisas mais confusas em vez de as tornar mais claras) porque o seu sistema político se desagregou por si, tal como George Kennan, diplomata-historiador, previra em 1946 quando estava encarregado de negócios dos Estados Unidos da América em Moscovo, onde Estaline viria a declará-lo persona non grata.

 

Portugal era diferente. Em parte para fugirem à tropa em África, milhares de migrantes portugueses em França, Alemanha, e outros países europeus beneficiaram das trente glorieuses – ganhava-se sempre mais do que se tinha ganho no ano anterior – mas, nas parvónias de onde diziam que vinham, a melhoria tinha sido pouca. No começo de 1974 os portugueses não esperavam vida nova. Até que, de repente, veio o sobressalto de trocar África pela Europa, de passar de patrão dos pretos a criado dos brancos. De anacronismo serôdio a modelo do futuro, para alguns entusiastas - para gente sensata, menos pobreza e mais liberdade. E, passados uns anos de turbulência, tornou a ser ano novo, vida velha mas num patamar mais alto.

 

Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más.

 

 

 

 

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28.12.16

 

 

Institute for Advanced Study

 Institute for Advanced Study, Princeton

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Os professores e o pessoal menor 

 

 

 

 

Quando eu nasci, todos os livros escritos para salvar o mundo já tinham sido escritos. Só faltava uma coisa: salvar o mundo. Assim escreveu Almada Negreiros no começo de A Invenção do Dia Claro - ou usou quase as mesmas palavras, que eu estou a citar de memória e a memória é má conselheira. Habituei-me a ela em pequeno por ter muita, tanta que uma vez pensei que, se tivesse nascido pobrezinho e os meus pais não pudessem continuar a mandar-me à escola, encontraria com certeza circo onde poderia ganhar a vida. Enganos da infância: mesmo sem ter tido de passar por essa prova, cedo me dei conta de que a memória, em vez de ajudar o pensamento a exercitar-se, o desimagina da acção e o torna preguiçoso – sendo que a passagem do tempo piora as coisas.

 

Desde o primeiro ano do liceu vivi em Lisboa, onde os clubes de futebol mais importantes eram o Sporting, o Benfica e o Belenenses, aprendendo eu naturalmente de cor as linhas de cada um deles: Azevedo, Cardoso e Manuel Marques; Canário, Barrosa e Veríssimo, etc. por aí fora. No Verão passado, em conversa com amigo inglês que não percebia porque é no coração de um dos bairros residenciais mais caros e exclusivos de Lisboa – o Restelo – estava enxertado um estádio de futebol moderno, com as grandes invasões populares periódicas e as perturbações permanentes de privacidade que tal acarreta, tive de lhe explicar que o bairro era anterior ao estádio mas que as licenças de toda a ordem precisas para poder construir este (não eram tantas quantas seriam agora mas já faziam um pacote) tinham não obstante sido obtidas porque o habitante mais importante do bairro, onde tinha a sua residência privada, se opôs às razões de peso evocadas por todos os seus vizinhos, apoiou do princípio ao fim a pretensão dos Belenenses, clube de que era adepto ferrenho e, sendo também à época Presidente da República, exerceu a sua influência junto da Câmara de Lisboa e de outras entidades relevantes.

 

O meu amigo, sem perceber nada (coitado, não é de cá) perguntou-me se Os Belenenses tinham sido o clube do Estado Novo. Respondi que achava que não porque, mais ou menos por essa época, reformado muito digno sentado ao meu lado num banco de eléctrico lia no jornal do Belenenses artigo intitulado a azul “Amor clubista: sentimento maravilhoso e inexplicável” da autoria de Miguel Urbano Rodrigues, comunista que se exilara e, depois do 25 de Abril, dirigira durante anos o Avante.

 

Entretanto passou-me pela cabeça a linha do Belenenses: faltava o interior direito; só 5 dias depois apareceu. Coisas assim acontecem cada vez mais.

 

Quanto à salvação do mundo. O Instituto de Estudos Avançados em Princeton é um templo de saber e progresso onde cheguei seis dias depois do Nine/Eleven. Passadas duas semanas, carpinteiro da casa perguntou-me como é que se distinguiam os carros deles dos dos professores. “Os professores não colam a bandeira nacional aos vidros”. Por estas e por outras é que Trump ganhou.

 

 

 

 

 

 

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21.12.16

 

 

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Waterloo e por aí fora

 

 

 

A batalha de Waterloo a 18 de Junho de 1815 do ar do dia ao cair da noite quando o corso Napoleão Bonaparte percebeu que estava perdido e fugiu para depois ser preso e desterrado na ilha de Santa Helena, possessão do Império Britânico no Oceano Atlântico ao largo da África Meridional onde viria a morrer, talvez envenenado com arsénico, acabou com a primeira tentativa moderna de estabelecer uma União Europeia. A segunda tentativa, destruída com Berlim em 1945, deveu-se ao austríaco Adolfo Hitler que se suicidou, havendo muitos dos grandes do seu regime que não se suicidaram sido julgados e enforcados em Nuremberga como criminosos de guerra. Essas duas tentativas foram liquidadas a ferro e fogo porque a ferro e fogo tinham começado, a primeira levando guerra a quase toda a Europa e a segunda a quase todo o mundo.

 

A terceira tentativa de União Europeia é a nossa, pacífica em parte porque os seus fundadores, depois de duas guerras mundiais, não podiam com uma gata pelo rabo e em parte porque o confronto entre União Soviética e Estados Unidos, entre comunismo e capitalismo, ambos armados até aos dentes, deixou os europeus ocidentais, confortados pelo Plano Marshall e pela OTAN, viajarem para o futuro em primeira classe pagando só bilhetes de classe turística. Les trente glorieuses chamam a esses anos em França (que o génio do general De Gaulle transformou de país vencido em país vencedor). Entretanto a União Soviética implodiu, o comunismo perdeu o crédito e os europeus ficaram sem o inimigo que os unia (o primeiro propósito da OTAN era defender-nos da União Soviética; o segundo é defender-nos uns dos outros). Como perigos menos apocalípticos se perfilam – o desagradável Putin; o Estado Islâmico – foi-se mantendo o que havia.

 

Mas este Outono, quando os Estados Unidos, em eleições livres e limpas mas sabotadas ciberneticamente pelo Kremlin, escolheram para presidente um charlatão demagogo, ignorante e instável, cujas prioridades de governo quanto a mudança climática, saúde pública, trabalho, relações internacionais, incluindo comércio internacional, etc., etc., e designação de futuros ministros nos deixam com o Credo na boca perante o futuro dos Estados Unidos e da humanidade em geral, o que há a fazer? Se a OTAN for posta em causa pelo seu sócio maioritário, como é que é? Pior ainda: neste tempo em que tudo se sabe assim que acontece (em 1815, a notícia da vitória em Waterloo levou 4 dias a chegar Londres) e toda a gente conta contos, aumenta pontos, esfuma por querer ou sem querer diferenças entre verdade e mentira; em duas democracias respeitadas os votantes escolheram Brexit e Trump (este, é certo, com Colégio Eleitoral de permeio), em que se sente corte radical entre o mundo da politica e o mundo das pessoas, alguém conhece que alma tem? Quem é que gosta de quê? Paz e direitos humanos estarão a passar de moda na Europa? O inferno são os outros? Será guerra que faz falta, para animar a malta?

 

 

 

 

 

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14.12.16

 

Trump-Tower-Lobby-Atrium-NYC.jpgTrump Tower

 

 

 

 

 

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Sangue na guelra

 

 

 

Trump, a sua rapaziada e alguma raparigada também, a começar com as brasas da família – e essas são importantes: amigo comunista, português de gema, disse-me que não se pode olhar só para Trump, deve-se olhar para Trump e para a mulher, porque é logo outra coisa, até um comunista fica bem disposto e se esquece do governo de generais – todos, deve dizer-se, de primeira ordem salvo um, paranoide, que vai ser Consultor para Segurança Nacional - e bilionários – todos leitores fieis de Ayn Rand, judia russa ateia, desde os anos 40 maître à penser de homens de negócios americanos que queiram julgar-se super-homens, apologista de egoísmo feroz e de desprezo pelos pobres (uma espécie de Calvino desembolado – e sem Deus..), governo que está a ser inexoravelmente tricotado como uma telenovela concebida, pormenorizada e redigida por comunistas primários ignorantes para mostrarem bem aos telespectadores os horrores do capitalismo norte-americano. Vão chegar ao poder em Washington daqui a cinco semanas, cheios de sangue na guelra.

 

Há quase dois anos, quando o homem anunciou que ia às primárias republicanas muita gente se riu, em parte por achar ambição tonta que depressa seria posta no seu lugar, de que os seus rivais no Grand Old Party se descartariam logo nos primeiros embates e em parte por esperar que, entretanto, nos fôssemos divertir todos porque, na sua ordinarice egocêntrica de possidónio de luxo, o homem às vezes até era engraçado e perspicaz. Quão perspicaz, porém, nenhum dos seus rivais, republicano ou democrata, tinha sequer sonhado.

 

Com método rigoroso, conhecimento intuitivo dos eleitores, dos gostos e das fobias deles, sobretudo dos que nem o curso dos liceus tinham acabado e que a globalização atirara para o desemprego (que nos Estados Unidos dói muito mais do que na União Europeia porque subsídios de desemprego não há e de saúde, até ao Obama care, o Estado não tratava e, com o governo que se anuncia, vai provavelmente deixar de tratar outra vez), gente ululante nos comícios de Trump, facilmente aliciada para pregões de agressividade inédita como os que exigiam a prisão imediata de Hillary Clinton – “Lock her up” gritavam em uníssono - agressividade de resto que se estendia a toda a campanha e polarizou a sociedade americana – até porque os agressores se sentiram reconhecidos e recompensados pela vitória nas urnas poucas semanas depois da candidata democrata, num desabafo captado por microfone que deveria ter estado desligado, os descrevera com desprezo altivo acabando por lhes chamar um bando de “deploráveis”.

 

O governo que sairá disto tudo assustará muitos americanos e quase todos os europeus cada vez mais convencidos estes de terem nascido com direito a room service desde o berço até à cova desde que não metam cá emigrantes. “Oh Maria, tira o puto da rua que vai haver merda” largou uma da Madragoa que estava a ouvir falar de coisas destas na telefonia e julgara que os desmandos iam ser à sua porta.

 

 

 

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7.12.16

 

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 Nelson Mandela em Robben Island

 

 

 

 

 

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Menos pessimismo

 

 

 

Leitora fiel e correspondente escreveu-me o seguinte: “Para além de ser provável que sejamos naturalmente maus as pessoas só ouvem o que querem e os algoritmos aproveitam-se disso. Espero, com todas as forças, que o próximo Bloco-Notas seja menos pessimista”. Outra amiga disse-me do seu casal de filhos que ele é um miúdo generoso, sensível, bom, e que ela, mais pequena ainda, é torta. Mãe galinha, adora os dois por igual; cabeça fina como um coral, sabe o que tem em casa – fôssemos todos assim. A espécie é como é e cabe a cada um de nós encontrar maneiras da maldade ingénita fazer por fim o menor mal possível, ao próprio e aos outros. Mães, amando os filhos; toda a gente, tentando instalar dentro de si uma espécie de sexto sentido de amar o próximo como a nós mesmos (haverá técnicas novas, digitais?). Desmond Tutu – que, arcebispo da cidade quando eu o conheci, assinava Desmond Cape Town – disse-me que a fé era coisa complicada e incerta de que nunca se estava seguro mas “se V. sentir que o seu pior inimigo está destinado a vida eterna, à mão direita de Deus, tudo estará bem”. Calou-se um momento e acrescentou: “É claro que a gente só sente essas coisas muito, mas muito raramente”.

 

Eram dias felizes para Tutu e para muito mais gente. Nelson Mandela ia ser libertado daí a uma semana para negociar com Frederik De Klerk o fim do apartheid. Pousado na terra esse marco do bem, o mundo tem tido altos e baixos. A África do Sul é um pântano de corrupção. A muitos europeus e a mais de metade dos eleitores dos Estados Unidos da América parece agora que rebolamos atabalhoadamente rampa abaixo. Para lá do mal de cada um toda essa gente sente mal maior geral muito perigoso: a tomada de posse próxima de Donald Trump em Washington. Insónias aumentam. Desespera-se do futuro. Grande Eleitor (Republicano do Texas) sentiu que tinha de explicar, no New York Times, porque é que não daria o seu voto a Trump no dia 19. Cita os requisitos formulados por um dos pais fundadores da República (qualificações para o cargo, ausência de demagogia, independência de influências estrangeiras) enumera comportamentos de Trump desde a eleição popular que não passam essas fasquias e espera convencer mais grandes eleitores a escolherem outro republicano (o que parece quixotescamente vão). Amigo português que viveu em Nova Iorque e Washington e conhece bem políticos de lá indignou-se, alarmado. Democratas e republicanos detestam-se como nunca, a exasperação está à flor da pele, tal iniciativa levada por diante poderia acabar em guerra civil.

 

O bom e o bonito? Talvez não. Na África do Sul o presidente Zuma deverá ser corrido por corrupção. Quando Nixon, no fim, bebia muito, mais paranoide ainda, militares perto dos botões nucleares foram instruídos a não cumprirem eventuais ordens suas sem as verificarem. E para esperança, Churchill: os americanos encontravam sempre a solução certa de um problema - depois de terem experimentado todas as outras.

 

 

 

 

 

 

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23.11.16

 

 

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 França, 1794

 

 

 

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Mudam-se os tempos

 

 

Escrevo a 21 de Novembro, dia dos anos do Vasco Pulido Valente. De manhã lembrei-me dele quando tinha 14 anos ter dito ao pai, burguês de bem, inteligente, culto e informado (explicou-me como é que os romanos faziam a barba), engenheiro, opositor corajoso e coerente do regime salazarista, muito mais alto do que o filho que só deitou corpo no fim da adolescência. “Ah Pai, se eu tivesse a tua idade sabendo o que eu sei…” Na altura em que isto me vinha à cabeça, voz saída da telefonia do carro anunciou-me que era o dia dos anos de Voltaire.

 

O Vasco e Voltaire ao começo da semana – nada mau para antídoto de tanta patetice ignorante nos tempos que correm, disse com os meus botões. Devo-me ter distraído anos a fio e, pelas conversas que agora tenho tido e pelos jornais que agora tenho lido e pelos programas de televisão por que tenho saltitado, devemos ter andado (quase) todos distraídos porque recebemos com surpresa desagradável notícias sobre coisas acontecidas entre nós ou muito perto de nós de que (quase) ninguém estava à espera - nem bandarilheiros, nem apoderados, nem curiosos na tourada da política.

 

Vai-se um homem deitar à noite convencido de que os ingleses querem ficar na União Europeia e acorda de manhã para saber que afinal querem sair. Vai-se uma mulher deitar convencida de que o 45º Presidente dos Estados Unidos vai ser finalmente, à segunda tentativa, uma mulher sabichona e teimosa chamada Hillary Clinton, e acorda de manhã para saber que afinal quem ganhou foi um aldrabão inculto, novato em política e malcriado que entendia muito melhor os eleitores americanos do que a sua experiente rival e, ao contrário dela, lhes sabia falar ao coração – de tal maneira que eram capazes de esperar por ele 3 horas para um comício, ao frio, até à uma da manhã, sem arredarem pé. Ontem, na véspera dos anos do Vasco e do Voltaire, franceses da direita e do centro, à procura de alguém que pudesse bater Marine Le Pen, protofascista da Frente Nacional, na segunda volta da eleição presidencial do ano que vem – que ela irá à segunda volta é convicção geral – numa primária aberta da direita e do centro escolheram antigo PM de Sarkozy que as sondagens punham em terceiro lugar, beato metediço na vida dos outros, liberal à la Thatcher em economia (coisa rara no sentimento francês, cujo primeiro reflexo à vista de criança descalça na rua é achar que a culpa é dos Rothschild, em vez de achar, como Thatcher, que a culpa é da criança), com um fraco por - e muitas visitas à - Rússia de Putin. Se o propósito é encontrar quem junte o resto da França para derrotar a extrema-direita (como Jacques Chirac derrotou Jean-Marie, pai de Marine, noutra segunda volta, em 2002) parece-me má ideia: Alain Juppé teria sido melhor escolha mas é claro que há ainda, no Domingo, a segunda volta da final da primária.

 

Em cada francês vivem, enlaçados em coluna salomónica, um ci-devant et um sans culottes. Têm de pensar em tudo pelo menos duas vezes.

 

 

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16.11.16

 

 

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Lord Ismay, primeiro Secretário-Geral da OTAN, entendia que esta servia 

"to keep the Americans in, the Russians out and the Germans down."

 

 

 

 

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A partilha do fardo

 

 

 

         

A eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos da América foi tomada por muitas europeias e muitos europeus como uma ofensa e uma má criação. Nesse espírito, algumas administrações nacionais tão alapardadas ficaram (não se fazem coisas assim aos amigos!) que, por sugestão do alemão, vinte e cinco ministros dos negócios estrangeiros de países da União Europeia bem como a Alta Representante (vice-presidente da Comissão que põe outro chapéu para presidir às reuniões dos MNEs do clube: na União Europeia, diria Oscar Wilde, as coisas nunca são puras e raramente são simples) tiveram jantar de trabalho em Bruxelas para primeira troca de impressões sobre esse importante evento transatlântico (o inglês dissera que não deviam estar bons da cabeça, o francês lamentara educadamente ter obrigações mais importantes em Paris, o húngaro metera os pés pelas mãos com desculpas de mau pagador para disfarçar a euforia pro-Trump de Vitor Orban, primeiro ministro húngaro, e os três fizeram gazeta – o que, se nos lembrarmos que o Reino Unido e a França são os dois únicos estados-membros da União com forças armadas capazes de meterem respeito seja a quem for, mostra a aparente frivolidade do exercício).

 

Mas não há com efeito razão para grande tranquilidade europeia quanto à nossa defesa e à defesa dos nossos interesses. A OTAN, estabelecida em 1952, chama-se por extenso Organização do Tratado do Atlântico Norte e o Tratado do Atlântico Norte fora assinado em Washington em 1949 pelos Estados Unidos da América, o Canadá e uma dúzia de países da Europa Ocidental. Outros se foram juntando: quando Guerra Fria acabou havia 16 Aliados, depois foi um vê se te avias com todos os ex de Leste a quererem-se profilaticamente proteger da eventual sanha do Kremlin (já não existia U.R.S.S. mas a Mãe Rússia mete medo igual aos vizinhos; os que dizem que isso é mentira e que foram os Estados Unidos e seus aliados ocidentais que quiseram cercar a Rússia de perto, devem ser lembrados que os três países bálticos e a Polónia, vizinhos da Rússia e aliados na OTAN não foram por ela atacados militarmente desde o fim da Guerra Fria mas a Geórgia e a Ucrânia, também vizinhos dela mas fora da OTAN, o foram tendo além disso a Rússia anexado a Crimeia). Desde o começo que os Estados Unidos gastaram mais na defesa de todos do que os outros em absoluto e per capita. “Burden sharing” – a partilha do fardo – passou a ser pomo de discórdia mais vivo desde que a Guerra Fria acabou, tendo havido muitas discussões sobre o assunto, embora Clinton, Bush e Obama nunca tenham feito ameaças como Trump agora fez e nunca Bush e Obama tenham admirado Putin como Trump agora admira.

 

 

 

Nota Bene Portugal não foi dos primeiros assinantes do Tratado de Roma porque não era uma democracia e só entrou para as Comunidades Europeias depois de o passar a ser. Mas, sem o ser, assinou o Tratado de Washington e foi membro fundador da Aliança. Com coisas sérias não se brinca.

 

 

 

 

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9.11.16

 

 

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 @ The Washington Post (em actualização)

 

 

 

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O povo é quem mais ordena

 

 

 

Ah é? Ora toma lá que já almoçaste! Até as criadas ficaram consternadas: Ai a Dona Hilária, coitadinha, tão boa Senhora, depois de tudo quanto aturou ao marido apanhar com mais esta. O povo é quem mais ordena. O fazedor de TV- Realidade sabe que para se ser herói é preciso ser-se mau e meteu-se à obra, com veia de actor consumado. Fez troça de aleijados. Tratou as mulheres como no Antigo Testamento mas em calão de agora (calando fundo em almas evangélicas americanas: muitas mulheres votaram nele). Prometeu acabar com Obama-care, isto é deixar os pobres sem qualquer assistência médica, como estavam antes que só lhes faz bem em vez de viverem à custa dos outros. Rever os tratados comerciais de maneira a proteger o operário americano, isto é, decretar proteccionismo sempre que achar que for preciso para ser amado pelo povo (como nos anos trinta da Europa a caminho de fascismos e guerra). Tornar a pôr a tortura de suspeitos de terrorismo nas práticas de interrogatório militares e da CIA (waterboarding e “muito pior”). Aquecimento global é conspiração chinesa. Contra imigração clandestina, levantar muralha na fronteira com o México com o México pagar por ela. Tudo descrito em promessas eleitorais, porque o povo é quem mais ordena e ao povo não se mente mais do que ao clero ou à nobreza. (Há espíritos mal intencionados e já foram contadas quarenta mentiras por discurso em dias de inspiração, mas o povo gosta e o povo é quem mais ordena – em dias de menos inspiração, anda por vinte. Mentir, para o homem dos golfes e dos casinos, é um estado natural.

 

O efeito em nós, europeus, começa por medo de deixar de haver disposição americana para nos defender: há mais de meio século que contamos com ela e o susto faz frio na espinha. Além disso tudo quanto seja homófobo, misógino, racista, reacionário genérico (como nos medicamentos) animou imenso com a brutalidade tosca exibida por Trump e vai tornar mais difícil dia-a-dia de decência. O povo é quem mais ordena. Porque é que, quando a chamada classe política perde o fio à meada e tribunos populistas capturam o poder (às vezes, como Hitler, em eleições livres e limpas) e se instalam, estes são, invariavelmente, velhacos? De mesmo antes do nosso tempo: Lenine, Estaline, Hitler, Mussolini, Mao Tse Tung, Pol Pot… Não há um que se aproveite (os que agora parecem estar na forja - Putin, Erdogan, Orban - tampouco prometem virtude). De maneira que embora a democracia canse e pareça às vezes estar em risco tem-se acabado por voltar a ela à la Churchill. O povo é quem mais ordena. Mas quiçá isso mude. A democracia parlamentar talvez se tenha dado particularmente bem com a imprensa de Gutenberg e atribuições afins. Nas redes sociais de agora e do futuro previsível, onde sapiência e responsabilidade se diluem até ao desaparecimento, palpita-me que tudo possa ser diferente. Entretanto o povo é quem mais ordena - e um americano em cada quatro julga que o sol anda à roda da terra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2.11.16

 

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 Hillary Clinton

 

 

 

 

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A 7 dias de Broncalina do camandro?

 

 

 

Ou de Bernardette do caboz? Ou uma ou outra, tanto faz. Na segunda terça-feira de Novembro, próximo dia 8, os americanos dos Estados Unidos vão às urnas decidir o seu destino político – e o nosso. Toda a política é política local, disse famosamente Tip O’Neill, antigo presidente da Câmara dos Representantes em Washington, de origem tão irlandesa que em quase cinco décadas de serviço em altas instâncias do Partido Democrata nunca pôs os pés na Embaixada Britânica, porque os ingleses tinham sido os opressores coloniais, os responsáveis pelas terríveis fomes dos séculos XVIII e XIX no seu país, o Diabo na terra, e Tip não queria ser visto pelos outros irlando-americanos a comer o seu pão e a beber o seu vinho, tu cá tu lá com eles. Manteve essa ficção até ao fim, embora se desse com os ingleses como Deus com os anjos e os ajudasse quando tal fosse preciso.

 

Mas, para voltar ao aforismo de Tip, os grandes países têm vantagens sobre os pequenos (é certo que, neste ano da Graça de 2016, a pequena Valónia que nem chega a ser um país atrasou de vários dias a assinatura de acordo comercial muito importante entre a União Europeia e o Canadá e, como nos nossos dias o comércio externo é a única coisa pela qual a Europa ainda tem peso no mundo e se pode dar a algum respeito, houve gente que se assustou mas tudo foi depressa ao sítio assim que a questão de política interna belga que fizera a Valónia portar-se mal foi apaziguada – se eu fosse embaixador no activo acrescentaria nesta altura, entre parêntesis, ver meu 153). E há uma prática bizarra nalgumas organizações internacionais – parar o relógio da sala a poucos minutos da hora para a qual se programara o fim de uma reunião e só o deixar trabalhar outra vez quando se tiver chegado ao acordo pretendido, passadas horas, dias ou mesmo meses, podendo-se então olhar para o relógio e pretender que se acabou no dia e hora devidos. Começou isto quando Don Mintoff, zaragateiro marxista e populista, era primeiro ministro de Malta e inventava maneiras de tornar o seu país importante pela incomodidade que causasse aos outros. Por fim, para lidar com ele, teve de se inventar o conceito de “Consenso Menos Um”.

 

Entreténs de ricos para acudir a males menores. O que poderá estar à nossa espera na madrugada da próxima quarta-feira será um tsunami geopolítico de dimensões inéditas desde 1945, maior – para nós – do que o fim da União Soviética. A política local dos Estados Unidos, os interesses dos seus brancos pobres e dos seus fundamentalistas evangélicos, apostados uns em proteccionismo que os fechasse num casulo imune à globalização e os outros em Supremo Tribunal que recriminalisasse o aborto, poderá ganhar. A Senhora fez o que pôde mas, confessa, falta-lhe o jeito do marido ou de Obama, muitos não gostam dela e não se pode excluir que perca a eleição. Se tal acontecesse a ordem internacional sofreria sobressalto de consequências imprevisíveis para a Europa.

 

 

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19.10.16

 

 

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Barrabás

 

 

 

Os povos portam-se mal, mesmo povos que toda a gente aprendeu na escola serem viveiros de democracia. (Embora haja progresso: se, em vez de passar os dedos pelo teclado do computador para compor estas linhas no ano da Graça de 2016 eu estivesse a passar aparo de caneta de tinta permanente sobre papel almaço no ano em que nasci, quisesse ser rigoroso e ficar bem com a minha consciência, teria tido de escrever “que toda a gente que foi à escola aprendeu” porque à escola no Portugal dessa altura pouquíssima gente ia, sendo o remanescente maioritário das crianças portuguesas grupo a que o aparachique e ficcionista Soeiro Pereira Gomes chamou “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, dedicando-lhes o romance Esteiros de que gostei, sendo o único romance neorrealista que me agradou porque os outros sofriam todos de pecha, comum também às pinturas dessa escola, que professor numa universidade de Londres explicava bem: “No impressionismo pinta-se o que se vê; no expressionismo pinta-se o que sente; no realismo social pinta-se o que se ouve”. Pinta-se e escreve-se).

 

Os ingleses, herdeiros da Magna Carta com que gostavam de vez em quando de apoucar os outros, graças a Primeiro Ministro conservador cuja paciência para os eurocépticos do seu partido se esgotara e resolvera pôr a questão da Europa a referendo e cuja inépcia o fizera depois perdê-lo (expediente político favorito dos populistas, o referendo foi ganho por demagogos desonestos e irresponsáveis) votaram por sair da Europa sem entenderem bem do se tratava, sobretudo por estarem fartos dos “políticos de Londres” e de um sistema que cria 1% de ricos cada vez mais ricos e 99% de uma mistura de pobres cada vez mais pobres e de classe média a resvalar para a pobreza. Com a poeira a assentar está a descobrir-se que o país vai ficar mais fraco do que era e que a mudança lhes vai custar os olhos da cara.

 

Os norte-americanos que gostam tanto ou mais do que os ingleses de se pavonearem com evocações da Magna Carta (mais as sua próprias Declaração de Independência, Constituição e Alocução de Gettysburg), a seguir a mais de um ano de berrarias e impropérios que se chamaram eleições primárias em cada um dos dois grandes partidos e agora campanhas mesmo para a presidência do país, entre uma senhora competente (sem jeito para a política mas competente) e, pelos padrões da sua terra, do seu tempo e da sua profissão, decente, e um mitómano sociopata, desonesto e ordinário, indecente por quaisquer padrões. Milhões de americanos parecem achar que deveria ser ele o novo inquilino da Casa Branca. Dia 8 de Novembro se saberá mas muito mal já foi feito - para ficar.

 

Toda a gente gosta de lembrar Churchill: a democracia é o pior sistema de governo tirando todos os outros. É verdade mas é verdade também que o povo tem dias: a história moderna está cheia de maus exemplos – e não só ela. Convém nunca esquecer que o povo escolheu Barrabás (e terem sido os judeus já não serve de desculpa).

 

 

 

 

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5.10.16

 

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Família

 

 

 

 

A família faz-nos amar pessoas de quem nunca gostaríamos se as tivéssemos conhecido de outra maneira. Assim, não gostamos delas mas amamo-las. Treino inestimável para a vida, de que nem nos damos conta: aprende-se sem ter de ser ensinado.

 

Família como é em Portugal. No centro está o próprio, com pai e mãe, irmãos, irmãs, avós paternos e maternos, tios, tias, primos, primas, a certa altura quase sempre também mulher ou marido, filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas (e sogros, sogras, genros, noras). O parentesco traça-se igualmente pelo lado do pai e pelo lado da mãe; este sistema de parentesco, existente na Europa toda e, hoje em dia, em muitas outras partes do mundo, chama-se cognático. Há outras variedades. Se o parentesco se traça só pelo lado do pai o sistema chama-se patrilinear. Se se traça só pelo lado da mãe chama-se matrilinear - o que não quer dizer mulheres a mandar; quem manda são sempre os homens (‘matriarcados’ são ficções mitológicas). O que varia é a transmissão de bens, obrigações, honras de uma geração para outra. No sistema cognático estes são transmitidos pelos dois lados, no patrilinear eu herdo através do meu pai e o meu filho herda através de mim. No matrilinear eu herdo através do irmão da minha mãe e o filho da minha irmã herda através de mim. No primeiro caso não tenho parentes do lado da mãe; no segundo, é do lado do pai que não os tenho. Nalgumas sociedades tradicionais, como as dos aborígenes australianos, há regras de casamento complicadíssimas. Os europeus que as descobriram em finais do século XIX só vieram a entendê-las devidamente com ajuda de modelos matemáticos, enquanto os aborígenes, analfabetos e ignorantes de álgebra, as dominavam tão completamente que sabiam sempre com quem poderiam casar ou não (antes de instrução e envangelização obrigatórias lhes terem começado a embotar a broca do entendimento).

 

Seja como for, a família –no começo disto tudo, à bulha com outras famílias - é o primeiro grupo a que se pertence. Quer para quem acredite, com Jean-Jacques Rousseau, que o homem é naturalmente bom e é a sociedade que depois o estraga, quer para quem acredite, com Thomas Hobbes, que a maldade nos vem da matriz e só a sociedade poderá minorá-la. Desde que há homo sapiens até hoje – um ápice na história do universo – outros grupos foram tirando comando e controle à família até se chegar à visão de superestado que a União Europeia ambiciona ser. Mas quando as coisas dão para o torto como, de há 8 anos para cá, estão a dar na Europa e nos Estados Unidos – “A malta agora é mais pobre do que eram os pais da malta” - a família sai do pano de fundo e volta à boca de cena, nem sempre para maior bem-estar de todos nós. Com ela reforçam-se, em ordem descendente de mal fazer, máfias, nepotismo, corrupção, compadrios. Perde-se respeito pela coisa pública - a res publica, a República – e pelos que enriquecem à custa dela e nossa. A hora é dos gladiadores. Não se irá ao sítio a bem.

 

 

 

 

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28.9.16

 

 

 

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Fábrica de armamentos em Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial 

 

 

 

 

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Pátrias

 

 

 

“O patriotismo é o último refúgio do bandalho” proclamou o Dr. Samuel Johnson, lexicógrafo inglês do século XVIII - na Europa, pátrias começavam a ganhar mais importância do que fés e dinastias - cujo humor cáustico continua a ser apreciado. Reforçadas por revoluções europeias de meados do século XIX, pátrias mostrariam a sua força crescente contra outras lealdades na Primeira Guerra Mundial: as classes operárias alemã e francesa, marimbando-se para exortações a que proletários de todo o mundo se unissem, mataram-se zelosamente uma à outra nas trincheiras da Flandres. “Patriotismo é amor dos nossos; nacionalismo é ódio aos outros” lembrou por seu lado Roman Gary, nascido judeu polaco, morto – por suicídio – cidadão francês, cuja origem estrangeira levara a baixarem-lhe a Note d’amour na academia aeronáutica, se juntara aos aviadores da França Livre de De Gaulle e foi, até hoje, o único escritor a ganhar o Prémio Goncourt duas vezes – a segunda sob pseudónimo, a mangar com o júri - publicando também romances em inglês e casado algum tempo com Jean Seberg de quem se separou e que se suicidou antes dele. Na sua vida e à sua volta desenrolaram-se muitas das barbaridades do fim da primeira metade do século XX no centro da Europa.

 

Nós portugueses, a irmos para nove séculos de história dentro das mesmas fronteiras – que os Amigos de Olivença me perdoem a pequena inexactidão – oito se quisermos contar com Tavira, não damos valor ao sossego ontológico desta periferia com vista para o mar. Devíamos dar. Javier Solana contou-me ter conhecido em Bratislava senhor muito velho que ao longo da vida mudara sete vezes de nacionalidade sem nunca ter mudado de casa. A mim explicou-me há meio século proprietário alentejano, para me contar da vida sob a Primeira República (1910-1926): “Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há”. Para nós, as leis mudaram poucas vezes e, sobretudo, nunca nos mandaram dizer que eramos outros. Logo a seguir aos anos do fim do Império, anos em que tinham realmente querido dar-nos cabo do juízo (diante de mim, no Clube de Évora, um deputado à Assembleia Nacional e dois grandes lavradores do distrito disseram a jornalista francês de Le Monde, vindo por haver ‘eleições’: “Portugal é uno do Minho a Timor” em uníssono sem sombra de ironia na voz), amigo meu que ensinava em Genebra recebia compatriotas incessantemente preocupados com a “identidade nacional” - o que o deixava perplexo porque, dizia, não havia país mais idêntico que Portugal.

 

Talvez por isso, cá o Dr. Johnson não vigore: os bandalhos terão de encontrar outro refúgio. Lá fora, estão ultimamente na maior: patrioteiros como Marine Le Pen em França, Trump nos E.U.A., Putin na Rússia, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, etc., etc. trazem à superfície o pior na sua gente, voltam-na contra outras gentes e aceleram o mundo para novo desastre.

 

As luzes que em 1914 se apagaram na Europa apagam-se agora pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

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21.9.16

 

 

 

 

 

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Defesa europeia, Brexit e bom senso

 

 

 

 

Alguns entusiastas vêm na saída anunciada do Reino Unido da União Europeia não um desastre mas uma oportunidade. O seu argumento é que, ao longo dos anos, o Reino Unido várias vezes impediu com o seu veto projectos de defesa europeia propostos por outros estados membros (na União Europeia, questões de defesa são decididas por unanimidade) como, por exemplo, a criação em Bruxelas de um quartel-general europeu. Deixando os ingleses a União, outros poderão levar os seus projectos avante, aumentando assim, segundo eles, a capacidade defensiva da União Europeia.

 

Hão de poder, com certeza. Mas espero que o bom senso prevaleça e isso não venha a acontecer. Os vetos dos ingleses a tais iniciativas não eram birras, eram resultado de duas condições necessárias para que defesa europeia eficaz possa existir: uma, que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (vulgo NATO) esteja pronta a intervir 24 horas por dia, 365 dias (6 em anos bissextos) por ano em caso de ataque a qualquer membro da Aliança (não aconteceu até agora e só esteve para acontecer uma vez: a 12 de Setembro de 2001, evocando o Artigo V do Tratado, todos os outros Aliados se disponibilizaram para ajudarem os Estados Unidos mas estes agradeceram e recusaram); outra, que os países Aliados elaborem os seus orçamentos nacionais de maneira a poderem arcar com as despesas que lhes caibam na partilha do fardo fiscal colectivo da defesa da Europa, em que os Estados Unidos também participam.

 

Enquanto a União Soviética existiu, medo saudável dela ajudou a arrumar as ideias nas cabeças de ministros, parlamentares e contribuintes na Europa Ocidental, e foram feitos esforços sérios de cumprimento das metas orçamentais acordadas para cada Aliado. Depois do colapso da União Soviética e do fim da Guerra Fria as coisas mudaram. Nenhum Aliado europeu gasta o que devia – e como devia - em defesa, sendo, de longe, o Reino Unido e a França os que mais se aproximam do cumprimento dessas obrigações. Juntamente com dimensão, arsenal nuclear e história (incluindo assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU), tal faz deles os únicos Aliados membros da União que são potências militares mundiais.

 

Na área da defesa, a saída do Reino Unido em nada enfraquece a União Europeia nem prejudica iniciativas Franco-Britânicas. Por uma razão: a defesa dos países membros da União Europeia contra eventuais ataques de terceiros cabe, não à União, mas à OTAN (directamente, para a maioria porque são também Aliados; indirectamente - tradição vinda da Guerra Fria -, para Irlanda, Áustria, Finlândia e Suécia que o não são).

 

O risco de “iniciativas europeias” (bem intencionadas ou/e antiamericanas), por exemplo, a de um quartel-general em Bruxelas seria, por um lado, prejudicarem unidade ocidental, condição sine qua non de bom funcionamento da defesa europeia e, por outro, competirem irracionalmente por fundos escassíssimos dando azo a ainda mais desculpas de mau pagador.

 

 

 

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31.8.16

 

 

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Gemeinschaft

 

 

 

 

Quando eu era novo, Gemeinschaft era bom. Lembrava o tempo em que palavra de homem valia mais do que papelada oficial de burocratas sem cara e sem alma. Em que costumes seculares de aldeia, validados por gerações seguidas de analfabetos norteados por curas, prevaleciam sobre códigos escritos alheios, impostos pelo estado moderno, que os roubava para seu sustento e lhes levava os filhos para a guerra. Um tempo que provavelmente já não se vivia em parte nenhuma e que a saudade da gente imaginava. Mas o passado não pára de mudar e agora, segundo aprendi num ensaio de Henrique Raposo na revista do Expresso que trazia os Duques de Windsor na capa (“The Windsors were here alright. The bed is still cold”), Gemeinschaft afinal é mau e as nossas saudades dele também. Isto por razões longas de enumerar mas de que se pode dar o tom numa penada: se nesse tempo se falava com respeito de palavra de homem não se falava nunca de palavra de mulher. Era, aparentemente, coisa que não existia ou, se existia, não contava. Só fidalgas ricas, viúvas de jure ou de facto, se podiam dar a tal luxo, como D. Felipa de Vilhena armando os filhos cavaleiros.

 

Marx, sempre a puxar a brasa à sua sardinha, escreveu que não havia uma moral dos senhores e uma moral dos escravos: havia uma moral feita pelos senhores para os escravos. Julian Pitt-Rivers, antropólogo inglês que morreu há quinze anos, entre as três mulheres com quem foi casado contou uma duquesa espanhola, viveu uns tempos numa vilória do sul do país e observou-a bem (“The town begins and ends as abruptly as the Spanish day”) explicava que, em Espanha, os muito pobres – e nessa altura havia muitos - não tinham meios que chegassem para se poderem portar bem, os muito ricos, incluindo então muitas Grandezas de Espanha, tinham meios demais para precisarem de se portar bem, e eram as vastas classes médias que passavam por este mundo permanentemente atormentadas por rosário de penas que temor a Deus ou falatório de vizinhos lhes quisessem causar.

 

Voltando às mulheres, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) que comandara a pacificação de Évora depois da revolta do Manuelinho em 1637 fora claro numa passagem capital da sua Carta de Guia de Casados: “Que o marido sofra da mulher tudo menos ofensas e a mulher ofensas e tudo”. Lido hoje, tal não se enquadra bem no espírito do tempo.

 

Assim nos vamos entretendo por Lisboa, capital do Porto, enquanto a Europa (ou melhor, a União Europeia, invenção política que tem dado aos europeus de hoje peso e força no mundo, isto é, seguro de vida) se vai destricotando em protecionismos protofascistas. Cercada por um mundo onde os valores do Iluminismo e da Democracia Representativa são arvorados em inimigos do povo. Onde Putin, Erdogan, teocratas sauditas e teocratas iranianos praticam com desenvoltura guerras pequenas, preparando-se para grandes guerras. Onde Trump quer privar a OTAN do arsenal nuclear americano e se arrisca a ser eleito em Novembro.

 

 

 

 

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30.8.16

 

 

Untitled-1.jpgFernando Guedes (1929-2016)

 

 

 

 

Ignoro se têm sido muito ou pouco estudadas eventuais afinidades do nosso modernismo com o dos Britânicos, para além da comum recusa do sentimentalismo (mas talvez não a procura radical da despersonalização e do distanciamento, que quase só encontramos em Pessoa; a estética imagista só terá verdadeira expressão portuguesa com Alberto de Lacerda, mas esta poderá ser uma opinião controversa), mas não resisto a chamar a vossa atenção para os conselhos que William Carlos Williams, um outro americano que foi figura de proa do Imagismo, dava à poeta inglesa Denise Levertov, em 1954, repercutindo ainda nesse momento, de forma bastante fiel, o ideário imagista de Pound e Eliot em 1914. Dizia ele: «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer».

 

O crítico britânico Harold Monro, num livro intitulado Some Contemporary Poets, publicado em 1920, conta a história de um jovem poeta americano recém-chegado dos Estados Unidos que procurou Eliot a fim de lhe mostrar os seus trabalhos. Este, ponderou longamente em silêncio um poema e, erguendo finalmente os olhos, terá dito: «Precisou de 97 palavras para o fazer; eu acho que poderia tê-lo feito em 56». Mas nada disto era novo e os próprios imagistas não se cansavam de o afirmar: «Estes princípios não são uma novidade; caíram em desuso. Eles são o essencial de toda a grande poesia».

 

É claro que estamos no plano estilístico da precisão. Mas creio que poderíamos articular isto, independentemente dos particulares relativos à diferença de contextos, com o que António Ferro — fundador e referência desta Casa — escrevia, em 1919, em Leviana (publicado em 1921):

 

«O excesso de pormenores embrulha a concepção, a intenção. Já que não podemos simplificar a vida, simplifiquemos a literatura. A literatura, como a vida, está atravancada. Há que descongestioná-la: um só quadro numa parede, dois ou três móveis em cada sala. Simplifiquemos! Simplifiquemos! A falta de espaço é cada vez maior. Há que fazer peças com poucas personagens, romances com poucas páginas, telas com poucas tintas. Seleccionar! Seleccionar! Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem».

 

Como é sabido, The Waste Land, o poema de Eliot que Fernando Guedes considera o mais visionário do século xx, foi drasticamente reduzido na sua dimensão pela mão de Pound, que na dedicatória de Eliot é justamente designado como il miglior fabbro.

 

***

 

Há muito que Fernando Guedes se interessa por estes dois autores, Eliot e Pound. Poeta, ligado à Távola Redonda, nessas «folhas de poesia», cuja publicação se iniciou em Janeiro de 1950, apresentou e traduziu ambos (possivelmente pela primeira vez entre nós, como ele próprio notou na sessão de apresentação do livro). Eliot fora distinguido com o Nobel em 1948; Pound, internado num hospital psiquiátrico, recebera o Prémio Bollingen, em 1949. Posteriormente, no final da década, Fernando Guedes haveria de dirigir uma outra revista que logo no título – Tempo Presente – evocava Eliot (O tempo presente e o tempo passado/ São ambos presentes talvez no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tempo passado) e que no segundo número apresentava traduções de Pound e saudava a sua libertação, ocorrida no ano anterior.

 

Deste modo, o que Fernando Guedes faz nestas quatro comunicações é arrumar de forma condensada o seu próprio percurso de leitor de Eliot e Pound ao longo de décadas e apresentar a sua visão sobre o lugar de cada um deles na poesia do século xx. Partindo de uma perspectiva, que foi antes de mais geracional, de reavaliação da modernidade face à tradição, de indagação estética (o tal percurso partilhado em fraterna amizade com Fernando Lanhas), mas também ideológica na marcação das suas distâncias, Fernando Guedes engloba no seu interesse por estes poetas a dinâmica concisa e complexa da estética imagista, a relação com as artes plásticas, e, muito particularmente, a sua ressonância mítica e religiosa.

 

 

Jorge Colaço

 

Excerto de um texto lido no Círculo Eça de Queirós no dia 4 de Setembro de 2014 a propósito do livro de Fernando Guedes T. S. Eliot e Ezra Pound – uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras, publicado nesse mesmo ano.

 

 

O artigo de Jorge Colaço  Na morte de Fernando Guedes (1929-2016)  aqui.

 

Algumas obras de Fernando Guedes disponíveis na Wook aqui

 

 

 

 

 

 

 

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24.8.16

 

 

 

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Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

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Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

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21.8.16

 

 

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Seymour'd told me to shine my shoes just as I was going out the door with Waker. I was furious. The studio audience were all morons, the announcer was a moron, the sponsors were morons, and I just damn well wasn't going to shine my shoes for them, I told Seymour. I said they couldn't see them anyway, where we sat. He said to shine them anyway. He said to shine them for the Fat Lady. I didn't know what the hell he was talking about, but he had a very Seymour look on his face, and so I did it. He never did tell me who the Fat Lady was, but I shined my shoes for the Fat Lady every time I ever went on the air again — all the years you and I were on the program together, if you remember. I don't think I missed more than just a couple of times. This terribly clear, clear picture of the Fat Lady formed in my mind. I had her sitting on this porch all day, swatting flies, with her radio going full-blast from morning till night. I figured the heat was terrible, and she probably had cancer, and — I don't know. Anyway, it seemed goddam clear why Seymour wanted me to shine my shoes when I went on the air. It made sense.

 

J.D. Salinger in Zooey (1957)

 

 

*

 

 

What stays to me the most from your books is the Fat Lady from Franny and Zooey. I remember Seymour telling his siblings to polish their shoes for the fat lady [...] I remember Zooey explaining years later to Franny that there wasn’t really a Fat Lady, that the Fat Lady is God, or that faceless unknown person in the audience for whom a performer must always do his or her best, even when we don’t feel like it, or when we’re confronted with a cold, unresponsive, audience.

 

Stephen Collins in Letters to J.D. Salinger, edited by Chris Kubica, Will Hochman

 

 

 

Letters to J.D.S..jpeg

 

 

 

 

 Leia também neste blog o post Everyone is the Fat Lady 

 

 

 

 

 

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15.8.16

 

Wartime Lies L. Begley.jpg

 

 

 

 

… upon rereading my book, it is clearer to me than ever, that it is quintessentially a work of fiction and not an autobiography or memoir, and that I had to write the story of Maciek and Tania in the form of a novel. The form was no less necessary than the emotional distance from the events I was going to evoke conferred by exile and the passage of time.

 

Perhaps I should briefly explain what I mean when I refer to the form of the novel. I understand the convention of the realist novel — a tradition in which I place myself — to require the novelist to write avowedly invented stories that so engage the reader's interest and sympathy that, while the spell lasts, he believes they are true or, at least, suspends disbelief. Novelistic invention does not, of course, preclude use of the novelist's own experiences and observations — of himself and others — in addition to material whose connection to his actual experience may be tenuous or indiscernible as he puts words down on paper. That is because the act of writing has the power to release thoughts and images of which one has had no premonition; one did not know they were within one's ability to summon up. Of course, when the novel has at last been finished, none of the material included in it has conserved its nature, whether it be personal experience, make believe, or serendipitous dis­covery; all of it has been transformed, as though the writer were a silkworm, and the bits and pieces of memory, associations, and knowledge leaves of a mulberry bush. These characteristics of the novel as form have an importance for me that I cannot overstate. They give the freedom to invent, consistent with the profound moral and psychological truth of the story being told, that treasure as my essential prerogative, and, like the passage of time and exile, they provide a psychic screen that has permitted me to approach matters, including the annihilation of Jews in Poland, that would otherwise seem intractable, even forbidden.

 

It should by now be clear that my insistence on the fictional nature of Wartime Lies is not a form of coquetry, and has nothing to do with some bizarre need on my part to avoid embarrassment to my mother or me. Neither of us has any more cause to apologize for or be ashamed of our lies or degradation during those war years than did Tania or Maciek — if I exclude the profound shame and disgrace of belonging to the same animal species as the men and women whose cruel and vile deeds I describe.

 

 

Louis Begley

in Wartime Lies [Afterword]

© Louis Begley, 1991 Afterword © Louis Begley, 2004

 

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9.8.16

 

 

simone-biles-gymnast-olympics-usa-team.jpg

 

Simone Biles fotografada por Norman Jean Roy para a Teen Vogue, Abril 2016

 

 

“Simone trains hard, but she also has uncanny air awareness. She can judge where she is in relation to the ground, even when she’s upside down. Some things you just can’t teach.”

 

o artigo The Full Revolution na revista The New Yorker aqui

 

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