1.11.17

666px-Miguel_de_Unamuno_Meurisse_1925

 Miguel de Unamuno

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Hommage to Catatonia

 

 

 

George Orwell publicou um livro célebre sobre a guerra civil espanhola – a Guerra de Espanha de 1936-1939, tantas vezes lembrada ultimamente – a que chamou Homenagem à Catalunha, Hommage to Catalonia no original inglês. Na manhã de 31de Outubro em que este bloco escrevo, quando a tragicomédia das últimas semanas que parecia opor Madrid e Barcelona, ameaçando aqui e além caminhar para tragédia mesmo, se começou de repente a desfazer em farsa, em opera buffa, levando toda a gente, salvo os independentistas mais aguerridos, a dar grande suspiro de alívio, Orwell nosso contemporâneo deveria começar a escrever livro sobre a dita tragicomédia, a que chamasse Hommage to Catatonia – Homenagem à Catatonia.

 

Mas deixemos o manicómio e suspiremos de alívio. Quando o homem que, por iniciativa própria, decidira declarar e incarnar a Republica independente da Catalunha, e apoiado por almas igualmente determinadas, dar a cara contra Madrid, a União Europeia, Washington, por fim contra mundo (salvo a Ossécia do Sul, pequeno fantoche caucasiano manobrado pelo Kremlin, porque Putin não perde um oportunidade para tentar prejudicar ou irritar a Europa, e, não sei porque razões mas hão de ser frescas, a Gâmbia), a cara dada, depois de circular na televisão como se estivesse no seu posto – mas era manha; tinha filmada noutro dia – foi às escondidas por terra até Marselha, com alguns dos seus ministros, e lá apanhara avião de linha para Bruxelas onde agora está e haverá de falar aos seus. Saída de sendeiro, diz-se em casos destes.

 

É claro que foi infinitamente melhor assim. Se a confrontação continuasse e a certa altura houvesse sangue, teria havido depois mais sangue, e todos os ódios passados subjacentes viriam a seguir ao de cima. Tal tem acontecido em outras partes do mundo - e em Espanha muitas das feridas não têm ainda um século. Graças a políticos como Adolfo Suarez e Filipe Gonzalez, ao rei D. Juan Carlos, e, sobretudo, ao povo espanhol – castelhano, catalão, basco, galego, andaluz, todos – a construção democrática é sólida. Como se está a ver agora.

 

E foi um longo caminho. É célebre a troca de palavras entre Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca e o general fascista que numa sessão solene em 1936, governava Franco de Burgos (e os Republicanos de Madrid), gritou: “Muera la inteligência! Viva la muerte!”. Unamuno respondeu: “Este es el templo de la inteligência y yo soy su sumo sacerdote. Venceréis (…) pero no convenceréis”. Etc. Menos conhecido é que na mesma sessão um lente atacara violentamente a Catalunha e o País Basco que considerou “cánceres en el cuerpo de la nacion. El fascismo, que es el sanador de Espanã, sabrá cómo esterminarlas, cortando en la carne viva, como un decidido cirurjano libre de falsos sentimentalismos”.

 

Não foi há tanto tempo assim: eu, por exemplo, já era nascido. Percebem-se melhor os independentistas antigos e, ao mesmo tempo, assusta a insensatez crassa dos independentistas modernos.

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

4.10.17

AfD

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Tempo circular

 

 

 

O tio Clarimundo proibira-me de fazer mais de duas citações ao almoço e três ao jantar. Adolescente, eu passava uma semana em casa dele porque o Pai visitava outra vez a clínica do Lopez Ibor em Madrid e a Mãe fora com ele. Cingi-me à disciplina avuncular mas a emenda não pegou. Adiante.

 

As I write highly civilized human beings fly over my head trying to kill me”, George Orwell, em Londres, durante o Blitz. “Je suis la guerre civile. Quand je tue, je sais que je tue”, Henri de Montherland, começo da sua peça “La Guerre Civile”. A guerra atómica começara nesse dia, o soldado teve de partir sem se despedir da mãe mas promete ir visitá-la assim que a guerra acabar … “three quarters of an hour from now!”, Tom Lehrer, matemático do MIT, cantor de protesto e de humor na década de 60, com muito sucesso na costa e na contracosta dos Estados Unidos (mas menos ou mesmo nenhum no interior entre as duas, que sem ninguém dar por isso já germinava por lá essa coisa politicamente teratológica – ou talvez seja a nova normalidade e o aleijado seja eu – a que se chama Trumpismo).

 

Vieram-me os três juntos à cabeça agora porque, depois de alguns entre nós, embalados por tanto aumento de riqueza e tanta aparência de virtude desde a autodestruição da União Soviética (que Vladimir Putin considera a maior catástrofe geopolítica do século XX - once a KGB officer, always a KGB officer) se meterem a imaginar, com pormenor adaptado aos nossos dias, a paz perfeita proposta pelo filósofo Immanuel Kant e parecerem convencidos de que tudo ia realmente pelo melhor no melhor dos mundos possíveis (conheço um ou dois, mais espertos a meterem equações à economia do que a leitora ou que este seu criado, mas para entendimento do mundo à sua e nossa volta, valha-nos Deus...) até começaram a brotar por toda a parte flores venenosas apostadas em darem cabo de jardim tão carinhosamente plantado.

 

Empreendimento criminoso hereditário, vulgo Coreia do Norte , talvez compreensivelmente preocupado com o que aconteceu a Muammar Khadafi que negociara com o Ocidente o desmantelamento das suas ambições nucleares, resolveu lembrar-nos a todos que tem bombas e que as poderá usar. O choque cultural cria estranheza; talvez o homem não assuste os seus mas assusta todo o resto (tirando as Bolsas que, com a acuidade geopolítica dos homens de negócios, parecem nem dar por ele). Com sorte não há de ser nada - mas aumenta o perigo por o Presidente dos Estados Unidos actual ser tão escandalosamente inepto. Entretanto a Catalunha, devido a manha perversa de alguns políticos locais e a estupidez granítica de Madrid, poderá dar à Espanha e à Europa déja vus impensáveis há um mês, desarrumadores de outras cabeças e potencialmente sangrentos. Por fim, em Berlim o pior sistema de governo tirando todos os outros levou ao Budenstag noventa e seis deputados nostálgicos de Hitler e das glórias passadas do Volk.

 

Como ao jantar em casa do tio Clarimundo, fico-me por três citações.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

31.8.16

 

 

Carta de Guia de Casados.jpg

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Gemeinschaft

 

 

 

 

Quando eu era novo, Gemeinschaft era bom. Lembrava o tempo em que palavra de homem valia mais do que papelada oficial de burocratas sem cara e sem alma. Em que costumes seculares de aldeia, validados por gerações seguidas de analfabetos norteados por curas, prevaleciam sobre códigos escritos alheios, impostos pelo estado moderno, que os roubava para seu sustento e lhes levava os filhos para a guerra. Um tempo que provavelmente já não se vivia em parte nenhuma e que a saudade da gente imaginava. Mas o passado não pára de mudar e agora, segundo aprendi num ensaio de Henrique Raposo na revista do Expresso que trazia os Duques de Windsor na capa (“The Windsors were here alright. The bed is still cold”), Gemeinschaft afinal é mau e as nossas saudades dele também. Isto por razões longas de enumerar mas de que se pode dar o tom numa penada: se nesse tempo se falava com respeito de palavra de homem não se falava nunca de palavra de mulher. Era, aparentemente, coisa que não existia ou, se existia, não contava. Só fidalgas ricas, viúvas de jure ou de facto, se podiam dar a tal luxo, como D. Felipa de Vilhena armando os filhos cavaleiros.

 

Marx, sempre a puxar a brasa à sua sardinha, escreveu que não havia uma moral dos senhores e uma moral dos escravos: havia uma moral feita pelos senhores para os escravos. Julian Pitt-Rivers, antropólogo inglês que morreu há quinze anos, entre as três mulheres com quem foi casado contou uma duquesa espanhola, viveu uns tempos numa vilória do sul do país e observou-a bem (“The town begins and ends as abruptly as the Spanish day”) explicava que, em Espanha, os muito pobres – e nessa altura havia muitos - não tinham meios que chegassem para se poderem portar bem, os muito ricos, incluindo então muitas Grandezas de Espanha, tinham meios demais para precisarem de se portar bem, e eram as vastas classes médias que passavam por este mundo permanentemente atormentadas por rosário de penas que temor a Deus ou falatório de vizinhos lhes quisessem causar.

 

Voltando às mulheres, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) que comandara a pacificação de Évora depois da revolta do Manuelinho em 1637 fora claro numa passagem capital da sua Carta de Guia de Casados: “Que o marido sofra da mulher tudo menos ofensas e a mulher ofensas e tudo”. Lido hoje, tal não se enquadra bem no espírito do tempo.

 

Assim nos vamos entretendo por Lisboa, capital do Porto, enquanto a Europa (ou melhor, a União Europeia, invenção política que tem dado aos europeus de hoje peso e força no mundo, isto é, seguro de vida) se vai destricotando em protecionismos protofascistas. Cercada por um mundo onde os valores do Iluminismo e da Democracia Representativa são arvorados em inimigos do povo. Onde Putin, Erdogan, teocratas sauditas e teocratas iranianos praticam com desenvoltura guerras pequenas, preparando-se para grandes guerras. Onde Trump quer privar a OTAN do arsenal nuclear americano e se arrisca a ser eleito em Novembro.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 15:20  comentar

27.7.16

 

 

Marie_Eléonore_Godefroid_-_Portrait_of_Mme_de_Sta

Germaine de Staël

(Marie Eléonore Godefroid segundo François Gérard)

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

O passado e o futuro

 

 

 

 

 

Cosimo de Medici, o mais sábio e ponderado de ninhada de irmãos florentinos de que o mais vaidoso era Lourenço, o Magnífico, banqueiro respeitadíssimo e homem de trato exemplar - dava sempre a parede a pessoas mais velhas (no seu tempo as ruas de Florença não tinham passeios e quando nelas se andasse “dar a parede” , fosse à direita ou à esquerda, era sinal de deferência) – dominava práticas financeiras novas que no seu tempo animavam o comércio internacional europeu e era, nesse sentido, um homem virado para o futuro. Mas, por outro lado, detestava a invenção da imprensa por Gutenberg, não porque esta tivesse tirado valor à sua biblioteca de incunábulos mas porque leitura era exercício requintado que não se compadecia com a vulgaridade dos paralelepípedos de papel a que chamamos livros, saídos em quantidades industriais das prensas tipográficas. Para Cosimo, a Renascença fora manchada pelo aviltamento de uma das mais refinadas experiências humanas e, nesse sentido, era um homem do passado. Lembro-me dele às vezes, escrevendo onde escrevo agora: penas (plumas) propriamente ditas já tinham desaparecido quando aprendi a redigir mas canetas de molhar o aparo na tinta, canetas de tinta permanente, máquinas de escrever – comecei por uma Olivetti lettera 22 – que passaram a eléctricas, vi um dia no Diário de Notícias que Jimmy Carter estava a escrever as memórias dele num “word-processor”, até ao computador que uso agora e me obriga de vez em quando a pedir ajuda ao Cipriano que, sem sair do escritório dele, entra no meu écran e, enquanto o diabo esfrega um olho, em série de cliques que obedecem a gramática que não conheço, acaba com o impedimento ou corrige o desvio que me levara a telefonar-lhe. (Isto, na escrita. Quanto à leitura, enquerenço como Cosimo embora não em incunábulos mas sim em livros impressos em papel - assim fazem touros em Praças que não saem de um lugar por muitas capas que lhes metam pela frente. Não julgo que alguma vez me meta a ler um livro electrónico – é assim que se diz? – nem mesmo em leituras de verão, onde a modernice poupa imenso espaço dentro das malas de bagagem que se levem para férias.

 

A propósito, não só nisso os antigos eram diferentes dos modernos. Hoje, chegado o Verão, os europeus vão para férias. Antigamente iam para a guerra. Deixando memórias vivas, mesmo em país neutro aonde havia férias (agradeciam as mães portuguesas ao Dr. Salazar, a despropósito, pois fora Franco que travara qualquer apetite de Hitler para invasão da Península Ibérica). Lembro-me como se fosse hoje do Pai chegar ao Estoril ao fim da tarde e dizer que a guerra tinha começado.

 

Com a Europa a esfrangalhar-se, Trump na maior, o Czar e o Sultão sem ganharem tino, gente nova cheia de sangue na guelra, correcção política que não deixa pôr nomes aos bois e divórcio entre elites e povos parecido com o que alarmou Madame de Staël durante a Revolução Francesa, talvez os nossos verões tornem a pegar fogo.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

2.7.16

 

 

G red.jpg

 

 

 

galhardia
ga.lhar.di.a
nome feminino
[de galhardo (do provençal antigo galhart, francês gaillard) + ia]

 

A galhardia pode referir-se à beleza ou à distinção, à generosidade, à vivacidade, à robustez ou à bravura. O coloquialismo espanhol trapío (de etimologia incerta; segundo José María de Cossío a palavra terá origem no jargão náutico, no qual designaria o velame), ausente dos dicionários portugueses, embora usado na língua com frequência, sobretudo em contexto tauromáquico, aglutina algumas destas acepções. O Dicionário da Real Academia Espanhola oferece como segunda acepção de trapío a «boa presença e galhardia de um touro de lide». Mas não é esse o primeiro significado listado; nesse primeiro lugar aparece o «ar garboso que costumam ter algumas mulheres».
Não é necessária uma grande investigação para concluir que, relativamente ao touro, na sua «presença e galhardia» se articulam envergadura, beleza, brio e bravura. Relativamente à mulher, a ideia é sobretudo designar a elegância e o porte. A vivacidade e aprumo inerentes à prática de dançar galhardas, popularizadas em Portugal nos salões dos séculos XVI e XVII, deixou algum vestígio no significado de galhardia que toca também o significado de garbo (palavra de origem italiana). A elegância grácil do garbo é, no entanto, designada com acerto por uma outra palavra fora de moda, belíssima por sinal, que aliás nos chegou por via castelhana: donaire.
Seja como for, em Portugal, o termo trapío, usado — sem dúvida por gente com uma organização mental especiosa — para designar o porte garboso da mulher desliza facilmente para a outra acepção: uma mulher com trapío é uma mulher com a envergadura necessária. Que por certo se desenvencilhará com galhardia, seja o que for que isso, no momento, queira dizer.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

15.6.16

 

soares e cavaco.jpg

 Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Da cepa torta

 

 

 

A nossa sabedoria popular não fica atrás da do relógio humano de Koenisberg, na Prússia (hoje Kaliningrado, na Rússia) – os vizinhos sabiam que era meio-dia quando o viam entrar em casa para almoçar – conhecido por Emmanuel Kant, considerado por uns o maior filósofo moderno e por outros não, quando escreveu que da madeira torcida da humanidade nada de direito poderia alguma vez ser feito. Em alturas de entusiasmo – pessoal, religioso, corporativo, partidário, patriótico – a gente às vezes julga que vai cortar a direito e quando depois cai em si, descobre que afinal a tábua não destorceu. Aconteceu com o 5 de Outubro de 1910, com o 28 de Maio de 1926 e está agora a acontecer com o 25 de Abril de 1974. É grande pena que seja assim mas é assim mesmo.

 

Ou pelo menos tal me parece, embora me sinta obrigado a lembrar à leitora anedota desenhada na revista humorística madrilena antifranquista La Codorniz – “La revista más audaz para el lector más inteligente”, rezava tarja de um lado ao outro da capa – de uma série delas dedicadas ao pessimismo, em que sujeito lúgubre dizia a compincha mais lúgubre ainda: “Lo único bueno del pesimismo es que a veces uno no tiene razón”. Pode ser que eu não tenha razão agora e que tudo vá pelo melhor no melhor dos mundos possíveis – mas não me palpita nada que tal seja o caso.

 

Do grande sobressalto de há pouco mais de 40 anos, que começou com a Grândola, vila morena, do Zeca Afonso, a sair das telefonias, viemos numa montanha russa, divertida para uns, arrepiante para outros - em giga joga alternando quem se divertia e quem se arrepiava - até que o paralelo divisório da Europa ocidental que passa no coração de Bruxelas - com flamengos na mó de cima e valões na mó de baixo - linha a Norte da qual toda a autoridade é, até prova em contrário, legítima e acreditamos no que um estranho nos diga a menos que tenhamos razões para desconfiar dele e a Sul da qual toda a autoridade é, até prova em contrário, ilegítima e desconfiamos, por princípio, de qualquer estranho que nos fale, nos desabou em cima. Implicações desta configuração vieram dar-nos mau viver quando a crise financeira levou os alemães, com acordo quase geral das gentes do Norte, a nos imporem austeridade cega e irracional, em parte para salvar bancos seus que haviam animado despesas a Sul e em parte para nos fazerem pagar o que acham ser os nossos pecados. (Os franceses não foram capazes de lhes lembrar que, sem a mão que a França lhe estendera, a Alemanha talvez andasse ainda a espiar os seus pecados).

 

Entretanto, por cá, a coragem e visão do Dr. Mário Soares, sobretudo em 1975 e 1985, salvaram a Democracia; Deus o abençoe apesar de ateu. E, entre 1985 e o começo dos anos 90, o Dr. Cavaco Silva, talvez por não pertencer à burguesia urbana, salvou o Estado. Valha-nos isso, mas não é preciso ser pessimista para perceber que as aldrabices risonhas e inconsequentes com que se trata agora dos destinos da Pátria são de muito mau agoiro.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

4.5.16

 

 

GUILLAUMET Henri1.jpg

 o avião de Henri Guillaumet

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Mar Morto e cavalinhos

 

 

 

Começo a escrever ao meio-dia da Quinta-Feira 28 de Abril. Quando a leitora me ler, a Vera, minha senhoria e decoradora de interiores na net (com o bloco aninhado no seu blog, as ilustrações são propostas por ela), terá saído da Portela na madrugada de Sábado para estar ao fim do dia na Jordânia, mais precisamente numa margem do Mar Morto, a interpretar em conferência de ONG dedicada a crianças e famílias, ficando por lá até ao próximo Sábado. Poderia, mesmo assim, ter posto o bloco no blog no começo da semana mas havia preferido que eu lhe mandasse o texto antes de partir porque, technologically challenged fora de casa, só com a malinha dos pertences, talvez não conseguisse encontrar boneco apropriado. Respondi-lhe que sem horas de fecho estritas me era muito mais difícil escrever para qualquer publicação, que o desafio me agradava e que ela poderia contar comigo.

 

Pensei na tarefa e prefigurei a táctica. Decidi antecipar trabalho no morto a publicar no Expresso de Sábado e, com efeito, acabei de o escrever ontem e mandei-o esta manhã (28) com mais de 24 horas de avanço sobre a deadline afim de ficar à vontade ao redigir o bloco. Lembrei-me de Guillaumet, aviador colega e amigo de Saint-Exupéry, cujo avião-correio caíra nos Andes deixando-o ileso mas sozinho na neve, sem comunicações. Cá em baixo deram-no por perdido mas três dias depois encontrou gente e foi salvo, para grande alegria de todos, exausto mas feliz. “Ce que j’ai fait, je te le dis, jamais aucune bête ne l’aurait fait!” declarou. Sabia que se parasse para descansar se deixaria dormir na neve e nunca mais acordaria; por isso não parara de andar. Era homem novo, os pilotos têm treino físico muito exigente mas, francês de nascimento e formação, fora o que entendia ser um triunfo do espírito sobre a matéria que lhe deslumbrara a mente. N’est pas français qui veut. Sendo o homosapiens o único animal com capacidade cerebral para o cálculo que Guillaumet fizera no cimo dos Andes, tinha provavelmente razão. Como eu tive ao avançar esta semana para Quarta-Feira a escrita do In Memoriam.

 

Un soneto me manda hacer Violante começou famosamente Lope de Vega, enfiando considerações sobre a arte do soneto em geral e o método da feitura daquele soneto em particular para rematar no 14º verso: contad si son catorce, y está hecho! mas eu estou ainda em 2.310 batidas – com espaços - faltando-me por isso 690 e não me parece que seja por aqui que o gato irá às filhoses. Mas uns versos puxam por outros e com o estado em que a Europa se apresenta agora, a rebolar para o fascismo, vem-me à cabeça Manuel Bandeira, no Jockey Club do Rio de Janeiro, em 1936:

 

Os cavalinhos correndo,                                                                                                          

E nós, cavalões, comendo.                                                                                                        

A Itália falando grosso,                                                                                                          

A Europa se avacalhando.

 

Cavalinhos, cavalões, o refrão vai-se repetindo, a beleza de Esmeralda faz esquecer Mussolini e outros males do mundo, enlouquecendo o poeta, tudo como deve ser, porque Manuel Bandeira sofria daquilo que o António Alçada achava ser também maleita minha: a mania de viver em epopeia amorosa.

 

Por razões técnicas longas de explicar a contagem de batidas neste texto não é evidente mas palpita-me estar pelas 3.000. Até Quarta-Feira que vem.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

30.4.16

 

g-cloud-in-the-sky.jpg

 

 

 

geringonça
ge.rin.gon.ça
nome feminino
(do provençal antigo, gergon, «linguagem corrompida ou incompreensível»)

 

A origem deste termo parece ser a mesma da palavra francesa a que fomos buscar o nosso «jargão», que designa a linguagem de um grupo, mais concretamente o léxico específico de um grupo profissional ou social (o mesmo que gíria, portanto), nisso diferindo de calão, que é um fenómeno similar, mas em registo mais circunscrito e grosseiro.
Certo é que a palavra adquiriu uma nova vida, isto é, um outro sentido, que é praticamente o único que encontramos no português contemporâneo, e que também existe no equivalente espanhol jeringonza. E, assim, a geringonça é um artefacto rudimentar que, podendo ser relativamente astucioso (característica que partilha com engenhoca), é especialmente imperfeito ou mal feito, mal engendrado, tosco, grosseiro, mal-amanhado, mal-enjorcado, atamancado, albardado, de tal modo precário na sua construção – a qual podemos ver como estando presa por fios ou por arames – que a qualquer momento ameaça partir-se, desfazer-se, desconjuntar-se, descompor-se, desmanchar-se.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

19.2.16

 

 

Os textos do Romanceiro português e respectivos registos sonoros, quando conservados, vão passar a estar disponíveis online e em acesso livre na plataforma Romanceiro.pt. A preservação deste património, através da digitalização, era urgente, já que a sua manutenção nos formatos em que se encontrava (cassetes áudio e fotocópias em papel) constituía uma séria ameaça à sua preservação. 

 

A plataforma digital será apresentada amanhã, pelas 16h, na Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé), pelo coordenador do projecto, o investigador Pedro Ferré.

 

O objetivo é tornar acessível ao grande público um arquivo sem par no contexto ibérico, que alberga já perto de 14000 imagens de documentos de grande relevo no âmbito da literatura patrimonial portuguesa, nomeadamente do Romanceiro de tradição oral, e cuja expansão está prevista.

 

Nos últimos anos, os investigadores do CIAC  Pere Ferré, Mirian Tavares e Sandra Boto trabalharam o acervo da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, que compreende 660 horas de gravação em 609 cassetes áudio ali depositadas, e onde estão guardadas 3632 versões inéditas de romances e acolhe 10096 versões de romances publicadas entre 1828 e 2010. A plataforma Romanceiro.pt é o resultado do projeto “O Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (1828-2010): sua preservação e difusão”, uma parceria entre a Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé) e o CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação/FCT (Universidade do Algarve / Escola Superior de Teatro e Cinema) com o mecenato da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Concurso de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais (2013).

 

 

 

 

Romanceiro.jpg

 

 

 

 

O Romanceiro é um género poético tradicional que circula desde os finais da Idade Média na memória dos povos de expressão portuguesa, galega, castelhana e catalã, difundindo-se desde então oralmente de geração em geração. Trata-se, portanto, de um património imaterial de uma vitalidade excepcional e de uma riqueza ímpar que importa preservar, numa altura em que a disseminação das novas tecnologias e dos media parece ter aniquilado talvez definitivamente a sua vitalidade e função no seio das comunidades rurais em que ainda permaneciam até há pouco tempo.

 

Remonta a 1421 o primeiro documento conhecido onde se fixa uma versão de um romance, o "Gentil dona, gentil dona", pela mão do estudante maiorquino Jaume de Olesa. Foi, contudo, o Romantismo que encetou o interesse sistemático por este género poético. Desde 1824, foram coligidas milhares e milhares de versões de romances em Portugal, em Espanha e nos países da diáspora portuguesa e espanhola, sem falar na memória romancística que os judeus expulsos da Península Ibérica nos finais do século XV transportaram com eles pelo mundo e que ainda hoje é preservada.

 

Poderíamos, para o caso específico português, referir-nos ao contributo das recolhas e publicações de versões de romances realizadas a cargo de nomes como Almeida Garrett, Teófilo Braga, Leite de Vasconcellos, Consiglieri Pedroso, Alves Redol, Michel Giacometti, Maria Aliete Galhoz, Manuel Viegas Guerreiro, entre tantos outros. Este arquivo alimenta-se, justamente, dos trabalhos de recolha e publicação do romanceiro tradicional português que estes e muitos outros interessados na literatura de tradição oral levaram e continuam a levar a cabo no presente.

 

 

 

Leia mais aqui e aqui

Entrevista com os investigadores aqui

No facebook aqui  

 

 

 

 

link do postPor VF, às 16:42  comentar

11.11.15

 

 

não sei.jpg

 Lisboa, 2015

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

O futuro?

 

 

 

A família donde se venha (pai, mãe, avôs, avós, irmãs, irmãos) prepara-nos para a vida, inclusive porque, sem a gente sequer dar por isso, tantas vezes nos leva a amar pessoas de quem nunca gostaríamos. Com países é diferente: cada um tem os vizinhos que tem e ou se gosta deles ou não se gosta: daí não se sai. Pelo sim pelo não, dantes qualquer país que se prezasse tinha o seu Ministério da Guerra. De há décadas a esta parte passou a dizer-se Ministério da Defesa. Valha-nos S. Jorge Orwell.

 

Vizinhos, vizinhos, nós portugueses só tínhamos um; daí a prudência. “De Espanha nem bom vento nem bom casamento” é prevenção tão ancestral que o tratado internacional de entreajuda mais antigo do mundo ainda em vigor foi assinado por Portugal e a Inglaterra em 1386. E também para garantir mais independência à dinastia que inaugurava, o Mestre de Avis foi buscar mulher à casa inglesa de Lancaster. Histórias de poder: veio a seguir o Tratado de Tordesilhas dividir o mundo descoberto e a descobrir entre Portugal e Espanha. Depois, já com Os Lusíadas escritos – há países para quem a epopeia é ao mesmo tempo o epitáfio, disse há quase século e meio Oliveira Martins - regras dinásticas trouxeram-nos o primeiro rei Filipe (segundo de Espanha) para, sessenta anos depois, revolta popular e fidalga nos livrar do terceiro (quarto de Espanha). São águas passadas. Neste nosso tempo em que a fatia europeia do bolo mundial continua a mirrar o único vislumbre que pessoalmente tive do que seria o “espírito de Tordesilhas” aconteceu quando, havendo eu sido escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental em 1994, Javier Solana foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN em 1995. Mas não éramos patrões – éramos só gerentes.

 

Entretanto, bem entendido, Espanha e Portugal tinham aderido às Comunidades Europeias. Entre ambos a corrida, por assim dizer, passara a ser com touros embolados ou, abandonando folclores, a nossa vizinhança passara a ser outra, fora da União. Essa preocupa e poderá dar maus exemplos, sobretudo agora que um toque de Terceiro Mundo parece convir às predilecções de parte do novo poder político. Já existe espalhado em Portugal, mesmo para lá da extrema esquerda, um apoio bem intencionado mas faccioso e ignorante à “luta do povo palestiniano”, condimentado por laivos frequentes de antissemitismo (o velho antissemitismo europeu, com longas raízes históricas, mudou-se no nosso tempo da direita para esquerda). Sobre esse caldo de cultura alguns poderão agora ser tentados a imitar jeitos dos que se impacientam com as delongas da democracia formal e preferem ganhar batalhas políticas e sindicais na rua. A ir deitando pela borda fora costumes de civilidade democrática estabelecidos desde o fim do Estado Novo. A parecerem dar razão, em suma, àqueles e àquelas que, de vez em quando, olhando para trás e olhando à sua roda, sombriamente se convencem de que Portugal é incapaz de criar no seu seio elites sustentáveis. É pena.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:51  comentar

18.5.14

 

 

  Alix de Saint-André

 

La puerta se abre a todos,

enfermos y sanos

no sólo a católicos,

sino aun a paganos, a judíos, herejes,

ociosos y vanos;

y más brevemente, a buenos y profanos.

 

                                                     Poema del siglo XIII

 

 

 

On peut se croiser, mais on n'habite plus dans le même monde que les automobilistes. Pendant qu'on tournicote sans fin sur nos sentiers, de village en village, ils foncent tout droit d'une ville à l'autre. Si j'avais voulu ne pas me perdre et gagner du temps, j'aurais pu aussi longer les routes nationales. Il y en a toujours une pas loin, les panneaux sont sans mystère, cela va plus vite et c'est plus court. Mais le raccourci se paye cher: on s'explose les articulations et les pieds à marcher sur la chaussée, on respire le parfum des pots d'échappement, et l'on passe à côté de l'essentiel. Des lieux et des gens. Le chemin n'est pas fait pour aller vite d'un point A à un point B, il est fait pour se perdre, et perdre du temps.  Ou prendre  son  temps,  si l'on veut. Retrouver un monde à taille humaine et ses humains habitants. Ses animaux et ses végétaux. Chaque nouvelle erreur est une nouvelle ren­contre, chaque pas sur un sentier en creuse davantage l'existence sur la croûte terrestre, et l'on zigzague autour de la modernité à quatre kilomètres à l'heure. A la vitesse (si l'on peut dire!) du pas humain. Dans un autre espace-temps.

 

Le chemin nous fait vivre dans un monde parallèle. A la fois tout près des villes, et au milieu de nulle part. Un monde de petits sen­tiers et de hameaux qui festonne les grandes routes. Un monde de maisons d'hôtes et de gîtes ruraux, où évolue aussi une population paral­lèle, qui a plaisir à être là où elle est. A vous montrer combien c'est beau chez elle. Et qu'il n'y a rien de meilleur que sa cuisine... Car si le chemin ne pousse pas au mysticisme, il ne passe pas davantage par l'ascèse, Dieu merci! Jésus a commencé sa carrière miraculeuse en changeant l'eau en vin aux noces de Cana. Et non seule­ment sa mère était là, mais c'est elle qui l'y a poussé... L'avantage parfois douloureux de redé­couvrir la faim et la soif donne aussi l'occasion de se mettre à table chaque fois avec grand appétit, et sans aucun souci de régime : un vrai miracle!

 

Alix de Saint-André

in  En avant, route!

©Éditions Gallimard, 2010

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 17:51  comentar

12.2.14

 

 

Lo mismo.

Goya - Los Desastres de la Guerra - No. 03 

 

 

 

 

 

O sem-fim

 

 

A Guerra de Espanha fora a derrota da democracia pelas forças negras do fascismo ou fora a última Cruzada? Mobilizado como médico militar nos Açores, o pai visitava colega de curso preso na Ilha Terceira por ter combatido numa Brigada Internacional. Amigo dos irmãos da mãe, filho de notário de Évora, morrera abatido no avião de caça franquista que se voluntariara para pilotar. Paixões extintas?

 

A Segunda Guerra Mundial veio a seguir, 21 anos depois de acabar a Primeira (tão má que os franceses lhe chamaram, esperançados, “la der des der”, a última das últimas). Poucos anos depois de nazismo e fascismo perderem em 1945, começou a Guerra Fria entre democratas e comunistas que acabou com o colapso da União Soviética em 1991. (Não passou a Quente por Washington e Moscovo disporem de arsenais nucleares capazes de destruírem várias vezes a humanidade, dando juízo a cabeças políticas e militares. O Dr. Strangelove ficou-se pelo cinema. Mas quando Zawahiri, chefe de Al Queda, excomunga grupos seus que matam na Síria, por serem indisciplinados e agirem por conta própria, a violência serve a anarquia. Bombas atómicas nas mãos de anarquistas fanáticos seriam realmente um grande perigo).

 

Depois do fim da Guerra Fria um académico americano julgou que a História tinha acabado: íamos todos ser capitalistas e democráticos. Por seu lado Vladimir Putin declarou que o desaparecimento da União Soviética fora a maior catástrofe geopolítica do século XX. O americano estava enganado — a História voltou em força — mas o engano não teve a menor importância. A convicção de Putin, essa, é assustadora quer quanto ao que se imagine ser a evolução interna da Rússia regida pela sua batuta quer quanto à atitude da Rússia em relação ao “estrangeiro próximo”. Ainda a História. No começo do Código da Imperatriz Catarina, redigido no século XVIII, diz-se que a Rússia é grande demais para ser governada por mais do que uma só pessoa. E, quer antes quer depois de S. Vladimiro os converter ao cristianismo em Kiev, os russos só aceitaram as fronteiras que têm quando alguém do outro lado lhes bateu o pé e disse: daqui não passam!

 

A Ocidente nada de novo. Em França e Espanha governos incapazes de convencerem os seus do que era economicamente possível — como Schroeder fez — armaram-se em modernos noutras questões — homossexualidade, aborto — e despertaram Pétainismos e Franquismos latentes que agora pintam a manta. Alemães —  que fizeram de súcia com a Rússia pipeline no Mar Báltico para evitar a Polónia — não querem incomodar muito Moscovo. Ensimesmados, os ingleses afastam-se da Europa e deixam de ser ponte para os americanos. Em suma, os europeus preferem fugir a chatices a pensar no futuro. Washington, virada também para dentro por Congresso demente e Presidente frouxo, já não mete o respeito que metia ao mundo.

 

Em Kiev o frio não arrefece os espíritos. A janela de oportunidade fecha no fim dos jogos de Sochi. Alguém ajuda os ucranianos a baterem o pé?

 

 


29.11.13

 

 

 

 


A avaliar pelas aparências dir-se-ia que Aristides de Sousa Mendes era o próprio anti-herói. Senhor beirão, brasonado, proprietário, conservador, católico devoto com uma família extensa, nada parecia separá-lo dos seus pares. Como diplomata, a sua carreira, mesmo nos baixos, permaneceu perfeitamente dentro dos cânones até à aposentação compulsiva em 1940, aos 55 anos. Um homem maduro, com mundo, politicamente atento, avisado pela burocracia de Lisboa, estava agudamente consciente da retribuição que as suas acções iriam provocar.

De facto, diante dos milhares de refugiados apinhados junto ao Consulado Geral de Portugal em Bordéus, deu voz a essas preocupações:


Como informei toda a gente, o meu Governo recusou terminantemente todos os pedidos para concessão de vistos a todos e quaisquer refugiados. [...] Todos eles são seres humanos, e o seu estatuto na vida, religião ou côr são totalmente irrelevantes para mim. [...] Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião e estou certo que os meus filhos compreenderão e não me acusarão se, por dar vistos a todos e cada um dos refugiados, eu fôr amanhã destituído do meu cargo por ter agido [...] {contra} ordens que em meu entender, são vis e injustas. E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. […]


 

                


Ao agir no plano do real, acudindo na medida das suas possibilidades à situação dramática dos milhares de pessoas em perigo, sabendo que teria de enfrentar uma hierarquia que considerava o diplomata um militar à paisana, Aristides de Sousa Mendes gritava para Lisboa que a liberdade de consciência não é assunto de conveniência. O crime de Sousa Mendes fora tornar claro ao regime que as arquitecturas políticas sobre que assentava o seu perfil internacional e as suas linhas de defesa burocrática eram, realmente, apenas, construções.

O diplomata foi punido mas o “crime” foi abafado. E a maior parte das pessoas que se apresentaram às fronteiras portuguesas foram admitidas, na certeza de que a Espanha não as aceitaria de volta. Pretender que nada acontecera era a maneira mais expedita de reduzir o impacto do precedente e de lidar com a situação tida por desprestigiante de nem o Ministério do Interior nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros terem sabido evitar o acontecido. E a habilidade do regime em transformar o vício em virtude ressalta de um Editorial do Diário de Notícias de 14 de Agosto, uma lauda ao humanismo português, que Aristides de Sousa Mendes recortou e enviou ao MNE para juntar à sua defesa...

 

Manuela Franco

in "Razões e Humanidade" [texto na íntegra aqui]


Fotos  aqui  e Documentos aqui



 



 

 

Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial 

Exposição documental

 

Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 


site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

© 2013 Governo da República Portuguesa 

 

link do postPor VF, às 17:47  comentar

6.6.13

 

 

 

Stella Freitas da Costa

 Antonio Guijarro 1958

 

verso



link do postPor VF, às 12:20  comentar

27.5.12

 

 

 
Pablo Picasso
1er Carnet #VIII (8.7.1959)

 

[...] El contacto con el toro bravo es lo que nos hace toreros. Quizá sea el contacto con su soledad en el campo, lo que hace que el hombre se vaya consolidando en su carácter. Y en este caso, al referirme al hombre, he de hacer alusión directa de mí, ya que, al pedirme estas cuartillas, quisieron hacerme protagonista del relato. Supe también en el campo y en este contacto con lo que el público llama la fiera, lo que debía rehuir para no convertirme en lo que Antonio Machado llamaba: « España de charanga y pandereta, cercado y sacristía, devota de Frascuelo y de María, de espíritu burlón y de alma quieta». Supe desde el primer momento que buscaría algo más, que encontraría otras inquietudes en mi vida. No admito la carnavalada más que en las máscaras de Goya o de Solana. Estoy más cerca de la pintura negra Goyesca, que de la fiesta en la Pradera de San Isidro. En él campo castellano fui puesto en contacto con esa España más profunda, que es la España del campo en donde no cabe el oropel, porque las vestiduras son de cuero, en donde no sirven las panderetas, porque su tamborileo sería borrado por la profundidad de su horizonte. Conocí a la par a los hombres que a nadie engañan, porque nacieron ayunos de aspiraciones por una tradición de inexplicable resignación, porque nadie les ha querido despertar sus conciencias. Y conocí a la par al toro, alejado del albero de la plaza, en donde assume el papel de antagonista en este festejo, en el que el papel de protagonista, de héroe legendario, se le ha atribuido al torero. Y estoy conforme — ¿por qué no? — en el reparto que en la Gran Comedia Humana, me ha tocado en suerte o en desgracia representar.

En un herradero, en una tienta, en cualquiera de esas faenas que hay que realizar antes de que el toro se encuentre en condiciones de ser lidiado, puede estar el secreto de la trascen­dencia con que tratamos de revestir a este espectáculo de multitudes, espectáculo capaz de despertar pasiones insospechadas. Si no le diésemos, si no revistiésemos a la corrida de la precisa trascendencia, no resultaría serio — ya lo he dicho en otras ocasiones — que un hombre con unas medias rosas, luche con un toro en medio de una plaza, y todo esto en plena Era atómica; a primera vista no parece serio.

Pero algo más que la simple pandereta, hay en las entrañas de esta fiesta. Algo más existe, efectivamente, si sus protagonistas tienen algo más que lo superficial. Sin embargo, no puede evitarse que como frivolidad sea tomado a veces, un espectáculo que es la lucha a muerte entre toro y torero. Pues sí, es un juego, casi una frivolidad, para el pueblo más familiarizado con la muerte que haya existido jamás: España. 

 

 

Luis Miguel Dominguín

in Picasso, Toros y Toreros

© 1980 Alpine Fine Art Collection, Ltd, 

New York, New York

link do postPor VF, às 11:10  comentar

22.5.12

Corrida de touros em Espanha, Anos 40

formato 4,5 x 3 cm (Instanta)

 

 

 

.....
1.os aguacilillos                                                              2.cortejo
......
3.picador                                                                         4.sorte de bandarilhas
 ......
5.sorte de bandarilhas                                                     6. sorte de muleta
 
Fotos: António Sérgio Carneiro Bustorff Silva (1923-2001)
Corrida de toros aqui
 
link do postPor VF, às 16:18  comentar

16.5.12

 

 

 

 

 João Branco Núncio c. 1930

 Foto: Mário Novais

aqui

 

 

[...] a par da «revolução» belmontista, também a nossa tourada sofrera importantes altera­ções forçadas por essa excepcional figura de cavalei­ro que foi João Branco Núncio. Cerca do final dos anos 20, totalmente coadjuvado pelo inesquecível Simão da Veiga e por outros jovens artistas, João Núncio decide pôr termo à prática do «touro corri­do». De facto, passa-se a exigir que para a lide a ca­valo tal como para o toureio clássico saiam reses que nunca tenham sido toureadas. A medida acaba por ser aceite e com ela, tal como acontecera com a «re­volução» belmontista, aumenta decisivamente o in­teresse artístico da nossa tourada. Mas, note-se que por essa ocasião os touros utilizados nas corridas eram por via de regra animais autóctones cuja selecção não contemplava em especial os problemas de casta ou nobreza. Significativamente e quando começam a surgir em Espanha touros bem adaptados ao toureio post-belmontista, também por cá os ganadeiros inici­am idêntico caminho. Nos anos 40 e 50 eram fre­quentes os cartazes em que se anunciavam com certo orgulho touros de «casta espanhola». E, porque um animal de investida suave e persistente é capaz de permitir uma melhor exploração artística da sua lide, atinge-se nessa ocasião (anos 40) um dos vários pon­tos máximos do nosso toureio a cavalo.

 

Fernando Teixeira

in "Tauromaquia" Dicionário de História de Portugal- IX

Coordenadores: António Barreto e Maria Filomena Mónica

© Livraria Figueirinhas

 

 


link do postPor VF, às 17:21  comentar

12.5.12

 

 

 

 

Paquito 

Vila Franca, Portugal, 1949

 

 

 

[Nos anos 30 do século XX] A salvação da festa vai provir duma outra evolução decisiva da lide [...]. Trata-se da revolução da arte de tourear, criada pelo célebre diestro Juan Belmonte. Pode dizer-se que antes des­te, e mesmo quando praticada por verdadeiras figu­ras da época como o famoso Guerrita ou como o malogrado Joselito, afinal o maior rival de Belmonte, toda a lide do touro se baseava no princípio tauromáquico pitorescamente descrito por Lagartijo: «Viene el toro; se no te quitas, te quita el». Isto é, na interpretação pre-belmontina o toureio fazia-se, à custa da velocidade de execução, da agilidade de per­nas, da esquiva hábil à investida do animal. Belmonte, diz-se que por insuficiência física, optou pelo cami­nho inverso. A posição do toureiro passa a ser predo­minantemente estática e a forma de manejar capa ou muleta é que obriga o touro a circular em volta da figura de pés fincados na areia. Com este princípio a técnica e o domínio sobre o touro terão que ser abso­lutos e capas e muletas deverão deslocar-se tão lenta­mente quanto possível, como se estivéssemos peran­te uma inusitada forma de ballet. Assim nasce uma nova arte, melhor dizendo assim o toureio passa a poder plasmar-se numa estética de tal forma dimensionada que se vai revelar quase obsessiva numa plêiade de poetas e artistas. Aliás, nem os românticos se irão afastar. Manolete, outra figura de época, vai elevar esse toureio agora hierático aos seus mais al­tos níveis com toda a carga de tragédia que aparecia já implícita na sua arrepiante expressão artística. Mas muitos hão de ser os toureiros que na definição de Garcia Lorca virão a ser tocados pelo mágico Duende desenhando em instantes fugazes verdadeiras obras primas que perduram uma eternidade em quem tem a felicidade de os contemplar (1)

 

Fernando Teixeira (aqui)

in "Tauromaquia"

Dicionário de História de Portugal- IX

Coordenadores: António Barreto e Maria Filomena Mónica

© Livraria Figueirinhas

 

 

 

 

1. Remeto o leitor que queira aprofundar o tema para Hemingway, Morte ao entardecer, ou para José Bergamin, La musica callada del toreo, Madrid, 1981, Turner, ou para o autor em O touro e o destino, Lisboa, 1994, Instituto de Sociologia e Etnologia, Uni­versidade Nova de Lisboa.

 

 

 

 

 

Paquito

aqui 

 

 

link do postPor VF, às 11:43  comentar

29.4.12

 

 

 João Branco Núncio

Vila Franca, Portugal 1949

 

 

À portuguesa tradição do toureio a cavalo se referem já crónicas de Strabão, citando os antigos lusitanos como amigos dos jogos hípicos, com touros, e outras que dão notícia de D. Sancho II alanceando touros ao estilo da época, e as de Fernão Lopes em relação a D. Fernando, e as de Garcia de Rezende que descrevem el-rei D. João II no gosto pelas touradas e fazendo frente e matando à espada um touro que em Alcochete lhe saiu ao caminho quando ia com a rainha. Outras crónicas descrevem façanhas do rei D. Sebastião como toureiro a cavalo, e dizem que o neto de Carlos V rojoneou em Cadiz, de abalada para o sonho de Alcácer. E muitos monarcas foram toureiros a cavalo, até D. Miguel que farpeou em Salvaterra, e na praça de Xabregas desta cidade de Lisboa, que teve redondéis no Rossio, no Terreiro do Paço, na Junqueira, no Largo da Anunciada, no local onde está o jardim da Estrela, no Salitre, no Campo de Santana e agora no Campo Pequeno. D. Carlos criou touros e D. Luís e D. Miguel entraram em tourinhas. E quantos fidalgos lanceando e rojoneando nas festas dos nascimentos de príncipes e das suas bodas e nos torneios peninsulares com os continuadores del Cid e de Villamediana, nas Praças Maiores de Espanha, em nobre competência, por sua dama, em alardes de valentia e de pompa pela gente de cada bando, a cavalo e a pé, com as armas e as cores de cada qual! Em Portugal manteve-se e aperfeiçoou-se a Arte de Marialva, tomando o nome do grande senhor e cavaleiro a quem mestre Andrade  dedicou o seu famoso tratado de equitação. Desde aqueles tempos, e até aos nossos dias, têm sido sucessivas as gerações de cavaleiros tauromáquicos. Estes e os forcados são os representantes do toureio português, uma vez que os bandarilheiros, e os antigos «capinhas», quási se limitam a imitar, até na indumentária, os seus iguais de Espanha.

Os cavaleiros  tauromáquicos têm indumentária própria: a casaca bordada e o tricórnio de plumas, e botas altas à Relvas — outro bom cavaleiro, do século XIX, em que brilharam também Mourisca, Tinoco, Castelo Melhor e outros. E os forcados, que, como os campinos, são do Ribatejo, terra dos touros, também vestem de forma característica, e também têm sua arte, porque não é apenas função de força o pegar um touro de cara, de costas ou de cernelha. Há que saber cair na cabeça da fera, evitando a violência do choque quando, para colher, humilha, e depois aguentar-se, «embarbelando» bem, ou, na melhor ajuda, torcendo bem a «pombinha», vértebra da cauda. E para se julgar da arte que pode caber em sorte tão rude, basta ver os últimos grupos de forcados-amadores, como os de Santarém e de Montemor, tão elegantes e pundonorosos, e até alguns profissionais que sabem dar terreno, com ritmo, com graça, como Edmundo e Garrett e os seus valentes conterrâneos do Ribatejo.

E tem ritual a sua aparição com a azémola das farpas, estas em duas arcas cobertas com pano rico, de veludo, que eles desdobram cuidadosamente ante a presidência, que manda recolher as caixas com os ferros para o uso da lide. Depois retiram-se os forcados para saltarem à arena quando o «inteligente» entende que o touro mete bem a cabeça e as hastes permitem a sorte. Os cavaleiros surgem, então, para as cortezias, outrora feitas ao som do hino real, caminhando passo a passo até sob o camarote da presidência, que saúdam em vénia de cabeça descoberta, depois recuando cerimoniosamente, voltando a avançar para se separarem nos cumprimentos ás quatro partes da assistência, ladeando e cruzando-se no meio do redondel, e sempre no cuidado dos cavalos bem ensinados, e na praxe dos movimentos.

 

 

 
 
Pepe Anastasio (aqui)
Algés, Portugal, 1949

 

 

 

Assenta o toureio equestre em três princípios básicos: cravar de alto a baixo, ao estribo e sem deixar tocar a montada. E, de uma maneira geral, além do mérito de equitador, necessita o cavaleiro de ser toureiro, isto é, de conhecer os touros e saber medir os terrenos. Carece o cavaleiro de firmeza de joelhos para as reacções do cavalo, que o deve temer mais a ele que ao touro, boa mão esquerda para mandar rápido, e boa direita para cravar, com pulso para aguentar a resistência, e certeza para encontrar o sítio próprio, com precisão. E o cavalo deve estar ensinado para todo o toureio, especialmente para entrar e sair nas quatro sortes clássicas: de cara, à tira, à meia volta e à garupa. E quando tudo corre bem, em tarde quente de verão, e o público, entusiasmado, aplaude cavaleiros e forcados, estes agradecem juntos, abraçando-se num gesto simbólico do seu convívio nos campos de Portugal — que a ambos dá o pão, o azeite, o vinho, e a alegria de viver ao sol.

 

 

El Terrible Perez

in  "Tauromaquia Portuguesa, Cavaleiros e Forcados"

Revista Panorama Números 25 e 26, Ano de 1945, Volume 5º

 

 

Fotos: Fernando Henrique Lezameta Simões (1920-2011) 

 

 

 

 

 

 capa de Panorama 

Nºs 25 e 26, 1945, Vol. 5º

 

 índice aqui 

 

Excerto do livro ABC da Tauromaquia de El Terrible Pérez, Edições VIC, 1944, aqui

 

 

Excerto do artigo Touradas em Portugal  de Conde de Sabugosa aqui 

 

link do postPor VF, às 10:31  comentar

5.1.12

 

 

 

 

 

A Tuna Académica da Universidade de Coimbra em 1910-1911

(digressão por Ciudad Rodrigo, Salamanca, Valladolid e Zamora)
 

Foto: J.M. dos Santos, Coimbra.

 

 
 
 
 
 
 
 
Esta fotografia vem da minha família paterna, mais precisamente da família materna de meu pai. António Correia Caldeira Coelho (1888-1977) - irmão da minha avó Rosita - está sentado na terceira fila. É o terceiro a contar da direita. Formou-se em Direito em Coimbra, em 1913, e na sua juventude participou em iniciativas recreativas e culturais, como atestam fotografias e documentos que as suas irmãs conservaram e assim me chegaram às mãos. Não creio que tocasse um instrumento musical. Na margem inferior direita da fotografia é identificado como 'Delegado'.
Leia aqui um artigo que me esclareceu sobre as digressões da Tuna Académica da Universidade de Coimbra por terras de Espanha:
 
Fundada em 1888, surge da popularidade da actividade musical entre os escolares na 2ª metade do Século XIX, que com a extinção da orquestra do teatro académico e com a passagem da Estudantina de Santiago de Compostela por Coimbra sentiram a necessidade de criar um agrupamento musical semelhante não só para retribuir a visita aos estudantes espanhóis mas também para levar Coimbra representada musicalmente a outros centros de Portugal.
 

 

 

 

Outra fotografia de António Caldeira Coelho, uns anos antes, aqui. 

 

 

Tuna Académica da Universidade de Coimbra aqui

 

 

 

 

link do postPor VF, às 23:57  comentar

1.12.11

 

 

 
 
José Alvellos, Maria José e Hugo Belmarço
 
foto A.Linares- Alhambra,64 Granada
 
 
 
link do postPor VF, às 16:58  comentar

6.8.11


Encore aujourd'hui, toute une vie plus tard, il suffit d'un instant de rêverie éveillée, n'importe où, n'importe quand, ou d'un instant de distraction délibérée afin de m'évader d'une conversation oiseuse, d'un récit mal fagoté, d'un spectacle médiocre, pour que brusquement, sans rapport apparent avec les préoccupations ou les désirs circonstanciels, se déploie dans ma mémoire un envol d'éclatante blancheur d'images au ralenti. Ailes de mouette, à l'aube, derrière les baies vitrées d'une chambre d'hôtel, en Bretagne ? Focs des voiliers sous la lumière d'étain de la baie de Formentor ? Brouillards laiteux, effilochés par les vents tournoyant dans le détroit d'Eggemogging ?


Il m'arrive de ne pas identifier ces images. Je reste alors au seuil de leur lisibilité, remué par une émotion indéfinissable : quelque chose de fort et de vrai demeure caché, m'échappe et se dérobe. Quelque chose se défait, sitôt surgi, comme un désir inassouvi. Mais il arrive aussi qu'elles se précisent, qu'elles cessent d'être floues, de me flouer.


Je reconnais le long couloir de l'appartement de la rue Alfonso-XI, à Madrid, résonnant du bruit de nos courses, des portes ouvertes à la volée. Je reconnais dans la pénombre d'un soir de la fin de l'été les meubles précieux recouverts de housses blanches. Et c'est alors que réapparaissent, liés au souvenir enfantin, étrangement gouvernés par lui, tous les autres : un envol de pigeons, place de la Cybèle ; les mouettes de Bretagne ; les voiles de Formentor ; les brouillards de Little Deer Isle. Et le souvenir d'Odile, voltigeant à travers un salon parisien, arrachant joyeusement les linceuls éclatants des fauteuils et des canapés, les transformant en oriflammes du plaisir annoncé, tout en chantant à tue-tête l'air du toréador de Bizet.


Au « Petit Schubert », boulevard du Montparnasse, quelques jours après mon arrivée à Paris, j'avais eu Odile M. dans mes bras. Je me suis demandé si quelqu'un n'allait pas subitement surgir pour me l'enlever. À Eisenach, dans le vieil hôtel où les Américains avaient installé un centre de rapatriement, l'officier français des commandos m'avait enlevé Martine. Mais au « Petit Schubert » le temps a passé, il ne se passait rien. Rien d'autre que la lumière allumée dans les yeux d'Odile, la présence accrue de son corps. Elle était toujours dans mes bras. Elle ne semblait appartenir à personne. Personne ne semblait avoir sur cette jeune femme droit de préemption ou de cuissage. Elle allait être à moi.


Les jours ont passé, les semaines: elle était à moi. Mais sans doute faut-il renverser ce rapport d'appartenance. C'est moi qui lui appartenais, plutôt, puisqu'elle était la vie et que je voulais appartenir à la vie, pleinement. Elle a réinventé pour moi, avec moi, les gestes de la vie. Elle a réinventé mon corps, un usage de mon corps, du moins, qui n'était plus strictement celui d'une économie de survivance, qui était celui du don, du gaspillage amoureux.


Pourtant, malgré elle, malgré moi, malgré l'exubérance de cet été du retour, la mémoire de la mort, son ombre sournoise, me rattrapait parfois. Au milieu de la nuit, de préférence.

 

Jorge Semprún

in  L’Écriture ou la Vie    p.200-201

© Éditions Gallimard 1994

 

Para Isabel Feijó (4 Janeiro 1959 - 5 de Agosto 2011) 

 



18.2.11

 

 

 

"Diário Popular", Janeiro de 1968

 

 

Vera Lagoa (pseudónimo de Maria Armanda Falcão) tornou-se uma personagem marcante na década de sessenta. Cronista social de incrível irreverência, assumiu, pela mordacidade, pela elegância da sua escrita, da sua postura, um papel inovador entre nós — crispando por igual os moralistas da direita e da esquerda.

 

Observadora astuta da alta burguesia, farpeia personalidades até aí intocáveis. As setas com que mimoseia, por exemplo, Natália Thomaz, filha do Presidente da República, nas compras, nos chás, nas estreias, nas recepções fazem-se, jornalisticamente, antológicas.

 

O pseudónimo Vera Lagoa surgiu durante um almoço com Luís de Sttau Monteiro: Vera proveio do desejo de ser verdadeira, Lagoa do vinho branco que bebiam à refeição.[…]

 

Membro do staff da candidatura à Presidência da República de Humberto Delgado, em 1958, Vera Lagoa não conseguiu que o general seguisse, no seu apoteótico regresso do Porto, o itinerário anunciado entre Santa Apolónia e o Rossio. «Ele deixou-se influenciar pelos que o rodeavam, sobretudo pela mulher. Estavam com medo que a polícia provocasse incidentes graves, dada a multidão presente. A caravana, que seria triunfal, não se fez. Foi pena. Desperdiçou-se uma ocasião única... essa cedência marcou o princípio da derrota do general.»[…]

 

Mulher de paixões (não de ideologias), extrema-se, após o 25 de Abril e a separação de Tengarrinha, à direita. Encabeça as primeiras reacções públicas contra os comunistas — que passa a combater como outrora combatera os fascistas.

 

Saída do Diário Popular, funda O Diabo (recuperando um título de prestígio), que o Conselho da Revolução manda, porém, suspender. Inconformada, enfrenta os poderes e lança O Sol, também semanário. Uma bomba explode nas suas instalações, destruindo-as. Chamados a pronunciar-se, os tribunais restituem-lhe O Diabo.

 

«A Maria Armanda era uma pessoa com muito mais valor do que a Vera Lagoa. Tinha mais energias, mais coisas porque lutar. A Vera Lagoa afasta muita gente que a Maria Armanda gostaria de ver junto de si. Antigamente vivia rodeada de certas pessoas que estimava muito», dirá, falando na terceira pessoa, da sua dupla e contraditória identidade.

 

 

Fernando Dacosta

in  Nascido no Estado Novo

Editorial Notícias, 2001 / reeedição Casa das Letras, 2008  aqui

© Fernando Dacosta

 

 

Vera Lagoa.jpg

 Crónicas de Vera Lagoa

 

 

No capítulo do meu livro* sobre o período passado em Madrid usei as crónicas sociais que a jornalista Vera Lagoa escrevia nessa época para o "Diário Popular". Escolhi-as por causa dos títulos e porque gosto de recortes de jornal. Num deles vemos Amália Rodrigues e o Príncipe Don Juan Carlos. Amália não podia faltar no meu álbum de família, por todos os motivos, e até aparece mais do que uma vez. Mas independentemente do caso de Amália, creio que um livro como o meu, que também pretende mostrar uma época, ganha sempre em incluir personalidades públicas, e já agora, se possível, tão simpáticas como estas.

 

 

As "Bisbilhotices" de Vera Lagoa causavam sensação pela sua novidade, o que poderá fazer sorrir nos dias de hoje. O certo é que reflectiam uma mudança de atmosfera, ainda que subtil, na sociedade portuguesa dos anos 60.  Subtil, porque "a ostentação chegara a Portugal. Mas não a liberdade, nem o fim da guerra colonial".*

 

* v. "Retrovisor, um Álbum de Família" texto de Maria Filomena Mónica  p.117

 

link do postPor VF, às 14:34  comentar

12.2.11

 

 

 

 

 

 

Por incrível que (me) pareça, não consigo lembrar-me se tínhamos televisão em casa enquanto vivemos em Madrid, de 1967 a 1969. Do que me lembro é de ouvir este programa na rádio, todos os dias, religiosamente, na companhia do meu irmão, que era pequeno mas já adorava música. Ao sábado íamos juntos à loja de discos da calle Serrano comprar um "single" com a semanada.

 

A fabulosa música popular nesses anos obliterou a TV .

 

 

"Los 40 Principales" aqui

 

 

link do postPor VF, às 00:06  comentar

10.2.11

 

 

 

 

Madrid, 1967

 

 

 

À chegada tínhamos sido recebidos por amigos de São Francisco, um bom augúrio por certo, as coisas começavam bem. A alegria dos espanhóis e a animação de Madrid, em brutal contraste com o ambiente sorumbático de Lisboa, seduziram-me de imediato. E fosse como fosse, em Madrid ser estrangeira deixava de ser um sintoma de desajustamento para se tornar numa realidade concreta, um dado objectivo. O estatuto agradou-me.

O liceu era mais pequeno e acolhedor, e a facilidade com que me integrei na quatrième fez-me compreender melhor, finalmente, o sentido de frequentar o ensino francês. Tornei-me uma aluna calma e razoável.

Viver de novo com os meus pais, na nossa própria casa, apenas com o meu irmão, seis anos mais novo, e duas empregadas, foi solitário e reconfortante ao mesmo tempo. Os meus pais viviam muito absorvidos em si mesmos e nas suas vidas, mas tinham amor e respeito um pelo outro, e por nós também, o que afinal de contas é o principal. Embora nunca mais se pudesse colar tudo o que se tinha partido, os anos que passámos em Espanha seriam de reconstrução.

 

 

 

Imagem: O meu irmão é o quinto a contar da direita, na última fila

 


 

 



28.6.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Théoriquement, mais théoriquement seulement, le colonialisme règne en Afrique depuis la Conférence de Berlin (1883-1885) au cours de laquelle quelques États européens, essentiellement l'Angleterre et la France, mais aussi la Belgique, l'Allemagne et le Portugal, se sont partagé le continent tout entier, jusqu'à la libération de l'Afrique dans la seconde moitié du XXe siècle. En fait, la pénétration coloniale a commencé bien plus tôt, dès le XVe siècle, et elle n’a cessé de progresser au cours des cinq siècles suivants. La phase la plus honteuse et la plus brutale de cette conquête fut le commerce des esclaves africains, qui dura plus de trois cents ans. Trois cents ans de traques, de rafles, de poursuites et d'embuscades organisées par des Blancs, souvent avec la complicité d'Africains et d'Arabes. Entassés dans des cales de navires, des millions de jeunes Africains ont été déportés dans des conditions cauchemardesques au-delà de l'océan Atlantique afin d'y édifier, à la sueur de leur front, la richesse et le pouvoir du Nouveau Monde.

 

 

Ryszard Kapuscinski

in Ébène Aventures africaines pp. 31-32

traduit du polonais par Véronique Patte

©Ryszard Kapuscinski,1998/Librairie Plon 2000

 

Imagem encontrada aqui

 

 


16.5.09

 

 

 

 

 

« vous avez le droit de tout me dire, sauf que Franco n'est pas mort!» La voix de l'homme est sourde et monocorde, le regard voilé d' une sorte de lassitude triste et il se tient, comme toujours, emprunté et indéchiffrable dans la pénombre d'un de ces palais pompeux et surannés d’où le dictateur a gouverné l'Espagne pendant quarante ans d'une main d'acier.

Les dignitaires du régime comprennent alors que tous les scénarios patiemment élaborés par le régime, ses adversaires ou l'étranger, sont subitement sans valeur.

L’homme sans relief et sans éclat, qu'ils ont surveillé pas à pas depuis son enfance, les congédie dans un murmure sans appel, avec le vieux monde et ses macabres souvenirs.

À l'extérieur, tout le monde a eu un projet différent pour l'Espagne, dont le seul point commun est que l'homme disparaisse au plus vite. Mais personne n'a imaginé qu'il a

compris tous leurs calculs et tous leurs préparatifs et qu’il en a conçu d'autres, relayés par des amis très sûrs, bien placés, d'une fidélité à toute épreuve.

Il a appris le secret et le silence, s'est entraîné à tromper la violence, est devenu libre dans la prison dorée dont on vient de lui remettre les clés sans penser un seul instant qu'il va s'en servir pour ouvrir toutes les portes.

Aujourd’hui, quinze années se sont écoulées, et Juan Carlos, roi d'Espagne, est un des dirigeants les plus respectés du monde.

Il avait tout pour échouer et son succès est éclatant.

Par quel mécanisme l'héritier d'une dynastie exsangue, le fils adoptif d’un tyran, l'otage d'un pouvoir sanglant et policier, est-il parvenu a remplacer une à une ces cartes

dangereuses par le jeu tout neuf dont il a conçu les règles, avant de les faire accepter au seul partenaire qui fut à sa mesure: l'Espagne?

" Toi, jeunesse plus jeune, si de plus haute cime

la volonté te vient, tu courras l’aventure

dans l’éveil transparent aux divines lumières claires

comme diamant, et comme diamant pures "

Antonio Machado (1875-1939)

 

 

 

 

Frédéric Mitterrand

introdução de  Juan Carlos, in Destins d'étoiles - volume III

© P.O.L.,Fixot,1991

 

imagem: Juan Carlos, in Destins d'étoiles (vol.III)

link do postPor VF, às 12:45  comentar

7.1.09

 

Marão-1938.jpg

 

Marão, 1938

 

De política, nenhum de nós sabia nada. Era como se tudo o que vinha nos jornais se passasse a séculos e milhares de quilómetros de distancia. As nossas famílias não se interessavam por política, senão em termos de «Ordem», e louvavam-se da paz que o governo impusera a um país em desordem. Qual seria esta desordem e como era a ordem que o governo impunha, nós não fazíamos grande ideia. Os jornais falavam às vezes do caos administrativo e financeiro do passado, enaltecendo as providencias do governo. (…) Mas as transcendências do orçamento e da dívida pública ultrapassavam de muito as especulações das nossas famílias da média ou da alta burguesia. A «ordem» era o contrário de haver «revoluções». (…) Na minha infancia, ainda houvera «revoluções» que eram, para mim, inseparáveis de passarmos dois ou três dias no quarto interior e escuro da casa, deitados no chão, «por causa das balas perdidas» enquanto meu pai e o vizinho de baixo, na escada, discutiam de onde eram os tiros que se ouviam: a Penha de França, a Graça, a Ajuda, etc., sem chegarem a outro acordo que o resultante de, a um estrondo maior, meu pai voltar para dentro, e recolher-se ao quarto escuro, chamado pelos clamores lancinantes da minha mãe. Depois, as revoluções tinham efectivamente acabado, ou abortavam longe e em silêncio, esmagadas suplementarmente pela severidade dos periódicos (que meu pai lia alto, com grandes assentimentos de cabeça) e por grupos de pescadores da Nazaré ou lavradeiras do Minho, que, com os seus trajes típicos, vinham ao Terreiro do Paço, com os regedores na frente e a banda de música, oferecer flores aos salvadores da ordem, que se juntavam todos numa janela a agradecer, como eu e outros, escapados ao liceu, havíamos ido ver uma vez. (…) Claro que, ainda no liceu, o «Anschluss» fora discutido e a Guerra da Etiópia também. Mas a ascensão de Hitler, cujo nome começava a ser conhecido, não aparecia, mesmo no noticiário dos jornais, como uma ameaça às democracias, mas sim como uma perturbação da «ordem» estabelecida pelos «Aliados» na Primeira Grande Guerra. E Mussolini era muito louvado oficialmente, ainda que com discreção, pela sua autoritária organização do progresso da Itália. Todavia, a guerra da Etiópia não era o mesmo que o Anschluss... Que se unissem povos da mesma língua e da mesma raça, não nos parecia coisa por aí além. Que se atacassem o Negus e os «ráses», que o noticiário apresentava habilmente na contradição de serem uns selvagens quase antropófagos, que se recusavam às delícias do progresso, em nome de uma independência que datava desde Salomão e a Rainha do Sabá (e todos nós conhecíamos, de nome, muito mais a Etiópia do que a Austria, já que esse país figurara nas pompas onomásticas dos reis de Portugal,que sabíamos de cor desde a escola primária), eis o que era, sem dúvida, uma agressão. Não o eram, é claro, as campanhas de ocupação africana, que andavam então na moda oficial: os italianos não tinham sido, na verdade, os descobridores da Etiópia, como nós o havíamos sido de tudo e da Etiópia também. Era, de resto, nestes termos de passado histórico que tudo era avaliado e, a tal ponto as coisas nos eram distanciadas, que a república fôra proclamada em Espanha, sem que déssemos por isso.

 

© Jorge de Sena

 

Mais sobre "Sinais de Fogo" aqui e sobre Jorge de Sena aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 14:14  comentar

4.1.09

 

 

 


Madrid, 1944

 

 

Gostava que "Retrovisor, um Álbum de Família" abrisse na época do namoro dos meus pais, para depois voltar atrás, à infância e juventude de ambos, seguida dos restantes capítulos. Parecia-me mais cativante apresentá-los primeiro juntos, e foi por aí que comecei, mas aos poucos percebi que me faltavam o domínio de escrita e os conhecimentos necessários para fugir à ordem cronológica sem correr o risco de fazer o leitor perder o fio à meada.

Tudo o resto foi pesquisado, digitalizado e escrito por ordem cronológica, à qual toda a minha narrativa acabou por obedecer.

 

Consegui, em contrapartida, a conselho do leitor a quem mostrei a primeira versão completa, incluir os meus avós na história central, depois de inicialmente os ter associado aos meus bisavós numa secção separada, que apareceria no fim. E agora que o livro está quase pronto vejo que não poderia ser doutra maneira, à luz do papel que os meus avós tiveram na vida dos meus pais, assim como na minha vida e na dos meus irmãos.

 

 

 

Se é a primeira vez que visita este blog leia mais sobre o álbum de família aqui

link do postPor VF, às 14:18  comentar

25.12.08

Boas Festas!

Descubra as diferenças

 

São Francisco, 1958

 

Eu sou a segunda, a contar da esquerda, na primeira fila. Morávamos desde 1955 em S. Francisco, onde o meu pai era o cônsul de Portugal. Atrás de mim está a minha irmã Cristina. A minha mãe escreveu no meu “Livro de Bébé”:

 

 

Natal de 1958

 

Soraya e Afsaneh Eghbal, Teresa, Carlitos, Mariano, Diego e Belen La Vera, Dominique e Nathalie de Fossey, com a Vera e Cristina na nossa casa, dia de Natal.

 


 

 

As primeiras eram filhas do cônsul do Irão em Francisco e os segundos eram filhos do cônsul de Espanha. Os meus pais gostavam muito de Ahmad Eghbal e da sua mulher, que era francesa, bem como de Carlos e Teresa de La Vera, que reencontrámos dez anos mais tarde em Madrid. Dos Eghbal não soube mais nada mas agora, ao "googlar" o nome, descobri que Afsaneh escreveu dois livros. O primeiro, publicado em 1983, tem por título L'espèce errante.

 

 


link do postPor VF, às 11:14  comentar


pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
Blogs Portugal
contador sapo