20.3.17

já-agora
já.a.go.ra
advérbio + advérbio
(do latim: jam + hac hora, nesta hora)

 

Bem sei que o dicionário regista palavras, unidades lexicais, e esta entrada é formada por duas, dois advérbios de tempo de significado similar, usados em conjunto em muitíssimas situações. Como noutros casos, aqui o resultado não é igual à soma das partes, o que torna ainda mais difícil explicar de forma lógica o sentido do seu uso. É uma das expressões do português mais difíceis de traduzir e de explicar, por exemplo a um estrangeiro. A saudade tem fama de não ter equivalentes, mas o «já agora» é um caso bem bicudo. Nem sequer é fácil substituir este par por outra expressão equivalente. A sinonímia que alguns dicionários propõem não é completamente convincente. Talvez a expressão «visto isto» se aproxime, mas é isso mesmo, uma aproximação. Só com uma perífrase se consegue explicitar o sentido oportunístico da expressão: «já que aqui estou», «já que é assim», «já que pergunta», etc. A expressão traduz um sentido de oportunidade em que o locutor procura tirar partido de uma dada situação. Vejamos as diferenças e as semelhanças de uso nos seguintes contextos:
1.
- Quer beber alguma coisa enquanto espera?
- Já agora bebo um café, obrigado.

2.

 

- Vou levar o carro à revisão e já agora mando arranjar o espelho partido.

3.
O maioral agarra, viril, a moçoila e com a outra mão desabotoa a berguilha, quando ela escapa com um safanão. Vendo-se de mãos a abanar e de berguilha aberta, o maioral diz para si, «já agora mijo».

 

 

 

 

 

 

 

 

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12.3.17

 

eles
e.les
pronome pessoal masc. pl.
(do latim ille)

 

O contexto de utilização deste pronome que interessa aqui evidenciar é o da referência a uma entidade ao mesmo tempo indefinida e abstracta, embora de natureza colectiva, da qual o locutor se separa e distancia ao referir-se a «eles». Um trabalhador de uma empresa, digamos, por exemplo, caixa do supermercado, referir-se-á ao conjunto de regras que tem de cumprir e à cadeia hierárquica a que tem de obedecer – isto é, referir-se-á à empresa que integra – como «eles». Num outro exemplo, um professor referir-se-á ao Ministério a cujos quadros pertence como «eles». Em ambos os casos, o locutor exclui-se da pertença às entidades que menciona. E neste «eles» há um travo a ressentimento e a hostilidade. É toda uma visão do mundo. «Eles» são o «sistema», a autoridade, a organização. O «eu» não faz parte dessa pandilha, que olha com desconfiança (não raro justificada, diga-se). Nesse caso, constitui um enunciado de desresponsabilização: «eles» é que têm a culpa, «eles» é que disseram para fazer assim. «Eles» são, por exemplo, o hospital ou o centro de saúde, o banco, a escola, as finanças, a administração pública, a meteorologia (eles dizem que vai chover), o corpo director da empresa, a polícia, os transportes, e, mais recentemente, a internet, o Google e similares. E, no repúdio e na indignação, dir-se-á, na versão suave, «quero que eles se lixem!». O que comporta sempre um certo risco, porque «eles» estão em toda a parte e têm ouvidos de tísico. O que vale é que a gente não tem medo deles.

 

 

 

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5.3.17

 

 

ludíbrio
lu.dí.bri.o
nome masculino
(do latim ludibrium)

Embuste, engano; habilidade ou manha conducentes ao logro. A primitiva acepção de escárnio incorporou-se no significado que vingou na língua actual, envolvendo a menorização ou o desprezo pelo ludibriado, que, não sendo propriamente néscio, faz figura de otário. Engano ou ilusão obtidos com acinte e malícia premeditados. Intrujice. Por extensão, significa também cilada, emboscada. Por analogia com o futebol, diz-se que fulano foi «fintado» com o significado de «enganado com habilidade»; ou «toureado» se a analogia for de natureza tauromáquica. Logro astucioso da percepção elevado, por vezes, à categoria de arte: com minúscula ou mesmo com maiúscula.

 

 

 

 

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26.2.17
 
ventriloquismo
ven.tri.lo.quis.mo
nome masculino
(de ventríloquo, latim ventriloquus + suf. ismo)
 
 
Coisa antiga, esta da loquacidade, quando não eloquência, ventral. Trata-se de uma técnica de dissimulação articulatória destinada a fazer crer que as palavras ouvidas não são emitidas pelo locutor. Coisa de sibilas e adivinhos, posteriormente listada como bruxedo e devidamente perseguida. Aplicar o discurso «ventral» a uma segunda personagem, também presente, é um artifício mais moderno, tornado número de circo em que o ventríloquo dialoga com um boneco que assim parece ganhar vida. Uma espécie de Galateia sem intervenção divina, mas onde a vida é um simulacro. A fala não é do boneco, mas sim de quem o manipula e lhe empresta a voz e as palavras. Por analogia, é o que acontece quando certas eminências falam por interposta inexistência, isto é, por intermédio de algum boneco vivo disposto a dar expressão à paixão desses Pigmaliões por si próprios. Entre políticos faz figura de artimanha e, como no circo, todos fingem que não se dá por ela. Ainda por cima, não raras vezes, o subterfúgio passa por sinal de inteligência.
 
 
 
 
 
 
 
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19.2.17

L-letter-decorated

 

 

 

locupletar
lo.cu.ple.tar
verbo transitivo e pronominal
(do latim locupletare, «enriquecer»)

 

O termo latino tende a desaparecer em favor da palavra bárbara («rico» tem etimologia gótica) com que se explica o significado do primeiro. Ainda utilizada no vocabulário jurídico brasileiro, no português europeu parece por vezes ultrapassar o significado de «ficar rico», «encher-se», «abarrotar-se» para significar também «abarbatar» ou «abarbatar-se», o que se abeira já de terrenos escorregadios. E, como é sabido, o locupletamento levanta demasiadas vezes um rol de interrogações sobre a sua origem. Como este dicionário pessoal é também um dicionário de autoridades, quem melhor do que Camilo para nos interpelar sobre temas pungentes em bom português: «No abatimento da minha pobreza estúpida ainda me resta o olho penetrante da consciência para ver e admirar a perspicácia dos homens que se locupletam, e mais ainda dos locupletados que conservam, com aplauso público, o rótulo da sua honestidade. Isto é que é saber, isto é que é a prova do grande alcance do intelecto humano!» (Vinte Horas de Liteira, 1864).

 

 

 

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12.2.17

 

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tento
ten.to
nome masculino
(do latim tentus, part. pass. de tenere, ter, segurar)

 

Cuidado, cautela, precaução, sentido, atenção, mas também, por extensão, tino, juízo, contenção. Palavra que tende a cair em desuso, como outras, cilindrada pelo estreitamento lexical que caracteriza o «português contemporâneo». Subsiste, apesar de tudo, na expressão «ter tento», ter cuidado ou juízo, e em particular na expressão idiomática «ter tento na língua», ter cuidado com o que se diz. Porém, a expressão subsiste largamente pela mesma razão que o «sim» supõe a existência do «não», isto é, o que justifica o uso é a ausência de tento. Por isso se usa sobretudo em contextos de advertência (tem tento na língua, para não dizeres disparates ou tem tento na língua para não falares de mais ou para não seres deselegante) ou de observação a posteriori (aquele não se safou porque não teve tento na língua). O termo subsiste porque o cuidado e o tino vão desaparecendo e o sinal disso é a incontinência verbal, observável desde logo no discurso público (o microfone é uma das formas modernas da tentação; o telemóvel parece que também). O «tento» dos comentadores desportivos, com o significado de «golo», tem um étimo diferente (talentum), embora também nesta área haja pouco tento, na outra acepção.

 

 

 

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4.2.17

 

A -in-the-form-of-a-tree

 

 

adaptação
a.dap.ta.ção
nome feminino
(de adaptar, originado no latim adaptare + suf. ção)

 

Violência de primeira grandeza é a adaptação. O grande imperativo da sobrevivência e, logo, da evolução das espécies. Existindo antes da palavra que a nomeia, esta cingiu-se com propriedade em volta da ideia, aferrolhando-se numa mecânica articulatória bem reveladora das dificuldades, plena de oclusões e explosões. A-dap-ta-te! – é o que nos dizem como se manuseassem um chicote, fazendo-o estalar secamente sobre os nossos costados para que aceitemos o que temos de aceitar. Para que tomemos a forma que o mundo tomar. Para nos conformarmos. Se não quisermos ficar para trás, perdedores, perdidos, sós. Se nos adaptarmos – se nos ajustarmos, resignarmos, abdicarmos, renunciarmos, sujeitarmos – o mundo perdoa-nos inadimplências e outros deslizes de menor monta. Permite-nos até anestesiar as dores dessa violência maior, que age primeiro no íntimo para depois alastrar, sofrendo mutações cada vez mais subtis, podendo resultar, como sabemos, na desfiguração. E não vale a pena pensarmos em criar carapaças demasiado rijas — acabaremos asfixiados dentro delas. Melhor seria deixar crescer uma tromba ou um quinto membro que permitisse colaborar a maior distância, tratando-se de indispensáveis incumbências presenciais. Isso ou outra forma de acomodação que evitasse a desconfiança devida aos inadaptados, e o consequente tratamento. Por outro lado, a saturação da adaptabilidade pode ser fatal se, sem nos darmos conta, acabarmos presos, esmagados no seu terrível aperto consonântico.

 

(retirado de um diário inédito)

 

 

 

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29.1.17

 

M hans-holbein-1523-death-letter-m-q75-500x498

 

melancolia
me.lan.co.li.a
nome feminino
(do latim melancholia)

 

Abatimento visceral, estado depressivo. A palavra latina veio do grego e designava originalmente a «bílis negra», um dos humores descritos por Hipócrates e Galeno, entre outros, configurando um dos temperamentos humanos básicos: o temperamento melancólico. Segregada pelo baço (spleen), a acumulação disfuncional da bílis negra nos órgãos internos, nomeadamente no cérebro, produziria um tal temperamento. A melancolia tem sido objecto ao longo dos séculos de largas reflexões, cuja notícia não cabe neste dicionário. Bastará recordar, e sem falar dos Antigos, a obra setecentista Anatomia da Melancolia de Richard Burton (cujas proposições, segundo o estudo clássico de Lily Campbell, muito terão contribuído para a definição da personagem Hamlet) ou o sentimento de spleen, a malaise omnipresente na poesia de Baudelaire e um dos seus traços essenciais. O rei D. Duarte descreve no seu Leal Conselheiro (c. 1438) a crise de melancolia por que passou: «Por quanto sei que muitos foram, são, e serão tocados deste pecado de tristeza que procede vontade desconcentrada, que ao presente chamam em mais dos casos doença de humor melancólico, do qual dizem os médicos que vem de muitas maneiras por fundamentos e sentimentos desvairados, - mais de três anos seguidos muito dele padeci, e por especial graça de nosso senhor deus me pôs de perfeita saúde.» Kierkgaard, Freud e tantíssimos outros autores a estudaram e se lhe referiram, em contextos e épocas diferentes. O autor polaco Marek Bienczyk acrescenta Pessoa à extensa lista, citando o «um nada que dói» do final de um poema de Álvaro de Campos. No entanto, um momento cuja referência é indispensável, pelo significado e alcance, é a gravura (1514) de Albrecht Dürer, precisamente intitulada Melancolia, que de algum modo se tornou o paradigma da condição melancólica. James Thomson, no poema The City of Dreadful Night, descreve a figura que é o centro da composição, concluindo «she gazes/With full set eyes, but wandering in thick mazes/Of sombre thought beholds no outward sight [olha/Com olhos totalmente fixos, mas errando por densos labirintos/De pensamentos sombrios não contempla uma visão exterior.] Num texto sobre a gravura de Dürer, Cioran observou que «c'est dans la mélancolie que l'homme est seul face à l'existence». Talvez seja nesse confronto que nasce uma espécie de tristeza que se origina nos ossos e se exprime num brando alcoolismo de silêncios.

 

 

 

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22.1.17
 

desenrascar

 

 
 
 
 
desenrascar
de.sen.ras.car
verbo
(pref. des + rasca + suf. ar)
 
 
Rasca ou rascada é, em primeiro lugar, a designação de um tipo de rede de arrasto e designou também um certo tipo de embarcação pequena. Não é de estranhar, portanto, que o termo nos tenha chegado com o significado de desenredar, desenvencilhar, desembaraçar, desemaranhar, desensarilhar, o que é natural tratando-se de redes, mas também, por extensão, de desencrencar, desencravar, desentalar, e, de forma geral, sair de um aperto, de uma dificuldade. Safar ou safar-se. O desenrascado é, por tal razão, o indivíduo desembaraçado, desenvolto. Ágil ou hábil. A lusa raça gosta de se ver como perita no «desenrascanço», em livrar-se de apuros, em improvisar uma forma de se safar. E vê isso como uma virtude. Mas uma ideia esconde a outra: um povo perito em desenrascar-se é o que está permanentemente enrascado. Perito, sim, em meter-se em enrascadas.
 
 
 
 
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14.1.17

 

R gold

 

 

restauração
res.tau.ra.ção
nome feminino
(do latim restauratio, -onis)
 
 
 
Reparação, recuperação, conserto, restabelecimento, reposição. A palavra entrou também na língua, por via francesa, para designar a indústria da confecção e fornecimento de refeições em local próprio e aberto ao público. Embora se tenha tornado usual a distinção entre a restauração e o restauro, por exigência dos restauradores de arte (os campistas também fazem questão de não confundir tendas com barracas, por exemplo...), no fundo as duas acepções são similares e a sua génese é comum. Trata-de recuperar ou restabelecer alguma coisa, uma condição física, uma cadeira, um edifício, uma pintura ou um regime político e económico. Restauram-se as forças como se restauram a independência, a monarquia ou a democracia. No primeiro caso, a restauração pode fazer-se através de uma refeição que «nos ponha como novos», isto é que nos faça sentir como antes nos sentíamos. A restauração repara e recupera um estado original (ou bastante próximo disso), seja nos regimes, seja nos móveis, seja nas forças físicas ou anímicas. A perturbação surge quando, após um período de carência nos concedemos uma refeição lauta ou requintada e, no final, a nossa satisfação se traduz em frases como «depois deste almoço, sinto-me outro». No fundo, talvez o objecto restaurado seja sempre um outro objecto, e talvez o que diferencia as boas das más refeições, a boa da má restauração, seja a capacidade de nos fazer sentir outros.
 
 
 
 
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7.1.17

 

 

B letter bricks

 

 

 

 

burgesso
bur.ges.so
nome e adjectivo masculino
(de origem obscura?)
 
 
 
A vida das palavras é realmente fascinante. A generalidade dos dicionários regista o termo dando-o como originado do nome do nadador britânico Thomas William Burgess, o segundo homem a fazer a travessia do Canal da Mancha a nado. O vocábulo usa-se na língua portuguesa como sinónimo de grosseiro, pouco inteligente, estúpido, ignorante, quer na variante vulgar, quer na pretensiosa. Bill Burgess ganhou uma medalha olímpica nos jogos de 1900, realizados em Paris, na modalidade de Pólo Aquático. Em 1904 fez a sua primeira tentativa de repetir o feito do Capitão Matthew Webb, em 1875, nadando de Dover a Calais. Após onze tentativas entre 1904 e 1908, Burgess realizou o feito, devidamente certificado, em Setembro de 1911. Além disso, foi o primeiro nadador a usar óculos de protecção para nadar, usando para tal os óculos que os pilotos de automóvel então utilizavam. O homem treinou posteriormente outros nadadores de sucesso. Como se chega então de Burgess, o nadador, a burgesso, o grosseiro e ignorante? Pela pujança necessária para realizar a travessia? Pela persistência que foi necessária? Pelo seu físico compacto? Não há, aparentemente, na biografia ou no carácter do indivíduo nada que justifique a necessidade ou o rumo do então neologismo. A verdade é que o termo existe, está registado e é usado. E não faltam burgessos que exemplifiquem as suas acepções. Vem logo à memória o Dâmaso Salcede de Os Maias, modelo de um tipo particular de burgesso que nunca perdeu seguidores involuntários e ainda ocupa, hoje, lugar cativo nas bancadas da oligarquia governante. Antes fossem nadadores. Digo, nadadores a sério.
 
 
 
 
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31.12.16

 

images

 

 

concisão

con.ci.são

nome feminino

(do latim concisio, -onis, «acção de cortar»)

 

 

 

Brevidade e clareza na expressão. Na oralidade, a concisão pode ser confundida com secura ou mesmo com rispidez, sobretudo num país em que o discurso derramado faz figura. Na escrita, a concisão pode ser uma disciplina, um propósito. Boileau, no século XVII, teorizou sobre o assunto: «Mais mon esprit tremblant sur le choix de ses mots,/ N'en dira jamais un, s'il ne tombe à propos,/ Et ne saurait souffrir, qu'une phrase insipide/ Vienne à la fin d'un vers remplir la place vide./ Ainsi, recommençant un ouvrage vingt fois,/ Si j'écris quatre mots, j'en effacerai trois.» Carlos Drummond de Andrade afirmou lapidarmente que «escrever é cortar palavras». Dizer do autor de um texto que não teve tempo de escrever pouco, é dizer que a concisão é resultado de um trabalho árduo. «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer», dizia William Carlos Williams a Denise Levertov, em meados dos anos 50. Já em 1921 António Ferro clamava: «Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem.» Para obter concisão submeta-se o texto à peneira da disciplina. O aforismo é, por excelência, o cúmulo da concisão na escrita, ainda que paradoxal, como este de Antonio Porchia, «As cadeias que mais nos prendem, são as cadeias que rompemos» ou este outro de Gustavo Corção: «o tempo é o único inimigo que ataca fugindo». No aforismo, a máxima concisão procura atingir a máxima expressão: a extrema concisão é talvez a obsessão da desmesura.

 

 

 

 

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24.12.16

 

 

S letter

 

 

sofrível
so.frí.vel
adjectivo de 2 géneros
(de sofrer + sufixo ível)
 
 
 
 
Aquilo que é suportável, que se consegue sofrer, aguentar. Noutros tempos, designava também uma classificação escolar que se situava entre o medíocre e o suficiente. É no fundo o que hoje se designa como «suficiente menos», que é o eufemismo de sofrível, tal como o insuficiente, com a gradação de mais ou menos, o é para os antigos medíocre e mau. Imaginam as inteligências pedagógicas que nos governam que é menos humilhante ter insuficiente menos do que mau. Contudo, o «mau» constitui uma classificação clara, sem ambiguidades, ao passo que o medíocre é uma notação envergonhada, usada, tal como o sofrível, como forma de castigo ou de favorecimento. Se o mau não tem apelo nem agravo, o medíocre é um limbo, nem carne nem peixe. Há quem não passe do medíocre, há quem não passe do sofrível. O suficiente, curiosamente, assume-se quase como uma nova expressão da aurea mediocritas horaciana, a pequena felicidade encontrada no que se tem, sem outra aspiração. Não confundir com o sentido religioso do Ich habe genug da cantata de Bach, que é um contentamento de outra natureza. É precisamente no caminho entre o medíocre e o sofrível/suficiente pequeno que se tem construído a danação do país, cuja pequenez geográfica parece ter-se entranhado ao longo dos séculos na alma dos seus habitantes.
 
 
 
 
 
 
 
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17.12.16

 

 

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traque
tra.que
nome masculino
(de origem onomatopaica)
 
Há coisas que não são convenientes como tema de conversa, mas vale a pena falar, ainda que por alto, da grande variedade de léxico associado à expulsão de metano do organismo por via anal, expressão que é por si só uma perífrase eufemística para designar o que toda a gente chama de outro modo. A nomenclatura das ventosidades intestinais é vasta, variada e muito precisa quanto ao ruído, ao odor e ao carácter de cada uma dessas, digamos assim, formas de expressão corporal: peidostraquesbufas. Cada uma destas variantes tem, por sua vez, expressões particulares. O traque designa, na origem, um género de estalido. Não o explosivo peido vernáculo (de ilustre etimologia latina), nem a insidiosa e fedorenta bufa, mas um estalo discreto e praticamente inodoro. Uma espécie de peido pífio, que não se descaracteriza apenas em vento e mau odor, mas se frustra em ruído inofensivo e pouco comprometedor. Faz lembrar muitos artistas, quer da política quer de outros universos mediáticos, cuja carreira, ideias e actos, anunciados com pompa e propalados com fúria, se esfumam, sem esplendor nem glória, num apagado estalido. Como um traque.
 
 
 
 
 
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10.12.16

 

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respiração
res.pi.ra.ção
nome feminino
(do latim respiratio, -onis)
 
 
Função fisiológica essencial para a vida através da qual o organismo recebe oxigénio e liberta dióxido de carbono por meio de sucessivas operações de inspiração e expiração. O ritmo destas pode ser condicionada por numeroso factores internos e externos. Dizemos que nos falta o fôlego ou a respiração se estamos cansados ou sofremos um choque, por exemplo. Usamos a palavra com uma forte carga simbólica quando, ao sair de um ambiente carregado ou de cortar à faca, dizemos que agora podemos respirar. Chamamos irrespirável a um ambiente politicamente claustrofóbico. Os políticos instalados tendem a manifestar uma respiração asmática. No temor, sustemos a respiração. No alívio, respiramos fundo. A respiração é uma ciência extraordinariamente exigente; na vida em geral, mas sobretudo no amor. Usamos a respiração como metáfora para designar um largo fôlego poético ou narrativo ou um certo fulgor volumétrico em arquitectura. E quem gosta de vinho sabe que tem de o deixar respirar para que liberte os aromas e se revele na sua plenitude.
 
 

 

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3.12.16

 

 

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influência
in.flu.ên.ci.a
nome feminino
(do latim influens, -entis, part. presente de influere, afluir)
 
Acção de alguma coisa sobre outra ou sobre alguém causando um determinado efeito, originando um determinado influxo. A influência pode ter uma origem cósmica: fala-se da influência dos astros sobre certos fenómenos físicos (a relação entre as fases da Lua e as marés, por exemplo), mas também sobre as personalidades e os comportamentos das pessoas, que é o domínio da astrologia. A influência, isto é o poder de agir ou de afectar coisas e pessoas, aumenta proporcionalmente à proximidade do poder e da autoridade, ou melhor, às situações muito diversas em que o poder e a autoridade se manifestam (o poder não é só o poder político ou económico, é também o poder social, que hoje tem origens muito diversas e inesperadas). Estamos longe de Hans Castorp, personagem central de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, que se submetia livre, voluntária e simbolicamente à influência alternada dos seus companheiros de sanatório, Setembrini e Naphta. Os influentes (título português de uma série televisiva francesa que no original se chama significativamente Les hommes de l'ombre) enquanto personagens obscuras ou eminências pardas sempre existiram e existirão. Entretanto, o mundo contemporâneo criou uma nova classe, que, pelo contrário, detesta a sombra: os influenciadores. Gente que pretende ocupar o tempo a influenciar o mundo, nomeadamente o mundo do consumo, no palco das chamadas redes sociais. Por exemplo. Uma espécie de «tráfico de influência» pré-pago. Enfim. E assim o poderoso banqueiro e a meninoca espevitada atingem os seus diferentes patamares de influência. O melhor testemunho sobre a amplitude do uso desta palavra é, porém, o de um lavrador de antanho, fantasista e aspirante a mulherengo, que, com o pudor dos homens simples, utilizava a expressão «estar com influência» para designar a erecção do pénis ou o estado de excitação que a ela conduz.
 
 
 
 
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26.11.16

 

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catita
ca.ti.ta
nome e adjectivo (dois géneros)
(de origem obscura)
 
As palavras de origem obscura são interessantes. Poder-se-ia dizer misteriosas, pelo menos em alguns casos. Catita usa-se para significar aperaltado, janota (um neologismo curioso que vem do tempo das invasões francesas); acrescentar aprimorado ou airoso já é, neste contexto, usar uma linguagem ela própria catita. Neste sentido pode-se falar de uma caligrafia catita, ou de automóvel (nunca um carro) catita, para dar exemplos de natureza diversa. «You know what I mean?», perguntaria neste ponto um falante de língua inglesa. Catita tem esta conotação de sujeito laboriosamente penteado e de gardénia na lapela, um pouco desgastado, mas sempre de ponto em branco, emproado, muitas vezes pesadamente. Transponha-se a ilustração para o feminino da forma julgada adequada. Um pouco o equivalente português de dandy, com um perfume de afectação, que alguns julgam ser o equivalente de requinte. Enfim, um peralta ou peralvilho (seja de sexo for, se acaso for de algum) genuíno ou apenas uma espécie de gente vulgar, mas acatitada segundo os ditames das montras ou dos influentes (palavra a que voltaremos em breve). Em suma, uns casquilhos.

 


19.11.16

 

 

Capital D iStock.jpg

 

 

despoletar
des.po.le.tar
verbo transitivo
(de des espoletar)
 
 
 
Termo originário do vocabulário militar, relacionado com a espoleta (do italiano spoletta), mecanismo cuja acção faz explodir os projécteis. Fora desse âmbito circunscrito, a palavra ganhou o significado de desencadear e assim viveu pacificamente por muito tempo. Um belo dia, alguém levantou a voz de maneira a fazer-se ouvir e afirmou que o significado corrente contradiz o sentido original e que, sendo um disparate, a acepção corrente deveria ser combatida e banida. A lexicografia nacional, apanhada em falta, ruborizou e tratou imediatamente de agir em conformidade. Um dicionário remeteu a acepção para o terceiro lugar na hierarquia interna das acepções. Porém, é essa terceira acepção que indica ser de «uso generalizado». Curioso. No entanto, as milícias lexicológicas e lexicográficas deixaram passar, por exemplo, o termo abrolhar desabrolhar, ambos com o mesmo significado. Ou esposar desposar. (Interessante perceber que aqui a diferença já existia no latim). Mas há muitos mais. Todos casos diferentes do «destrocar» e do «deslargar». Talvez em certos casos o prefixo «des» não seja bem um prefixo. Nalguns casos, talvez tenha servido para restabelecer, oralmente, a alternância entre consoante e vogal? Veja-se como o aportuguesamento de palavras como sport, deu em português desporto (bem diferente do esporte dos brasileiros). É coisa de origem popular? Sem dúvida. Os habituais sacerdotes do uso desta vez tiraram férias, juntando-se à crítica snob, geralmente muito ignorante - sin nobilitas -, que por aí pulula, apontando o dedo aos erros básicos da populaça ignara. Às vezes moem-nos (ou esmoem-nos) o juízo, sobretudo porque os erros próprios são geralmente de natureza muito mais grave. O melhor é dar uma volta para desmoer...
 
                                                                                                                      
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12.11.16

 

 

 

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escrever
es.cre.ver
verbo
(do latim scribere)

 

 

 

Palavra que designa o acto de representar o pensamento por meio de sinais gráficos. Porém, por alguma razão se diz, geralmente, «fazer a lista das compras» e não «escrever a lista das compras». Neste sentido escrever é mais do que simplesmente redigir ou tomar apontamento. Daí que se diga muitas vezes «aquele é um tipo que escreve» para designar alguém que vá para além do apontamento ou da lista do supermercado. Este estatuto de nobreza (pobre) pode ser relativizado e enunciado em tom menor. Dizia o Pacheco (refiro-me a Luiz Pacheco), com a sua contundência habitual, que «não sou escritor, sou um gajo que escreve». A escrita tem ainda, no entanto, um prestígio imbatível: passar a escrito é tornar alguma coisa mais definitiva, alguma coisa que seja apenas do domínio do pensamento ou das intenções. Passar a escrito é oficializar, é tornar perene e solene. Se apenas se está a «escrever a alguém», isso quer dizer que se lhe está a enviar correspondência. Apesar disso, vivemos no império da oralidade, que é o do efémero, do atropelo, do esquecimento. Há coisas, porém, porventura demasiadas coisas, que só a escrever se pensam, que só escrevendo se dizem — porque as dizemos primeiro para nós. De outro modo, falhando a minúcia da expressão, embaraça-se o tempo na pressa da conversa e o pensamento, desatento, precipita-se na superfície escorregadia das palavras e das circunstâncias.

 

 

 

 

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5.11.16

 

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toleirão
to.lei.rão
nome masculino
(de tolo + sufixo ão)
 
 
No fundo, o toleirão não é mais do que um grande tolo. Contudo, há considerações a fazer, pois o termo é usado também na acepção de pedante, vaidoso, presunçoso. Daí à arrogância é um pequeno passo. O toleirão pode ser uma ou todas estas coisas, mas distingue-se por sê-lo sempre com ostentação e acinte. A conclusão a tirar é que esta caracterização é sinal de tolice. E a tolice, não esqueçamos, pode equivaler também a falta de inteligência ou de perspicácia, ou expressão de ingenuidade, quando esta é fruto do carácter simplório ou até de uma radical perda da razão, que leva ao disparate e à ausência de raciocínio. Porém, não é nestes últimos casos que se encontram toleirões e toleironas. O toleirão recheia a tolice com a sua importância do mesmo modo que se enchem chouriços. Poderia até dizer-se que é um tipo enchouriçado de si próprio. Um grande tolo, portanto.
 
 
 
 
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29.10.16

 

 

CAPITAL-LETTER-M.jpg

 

 

 

marau
ma.rau
nome e adjectivo masculinos
(do francês maraud, «maroto»)

 

 

Galicismo interessante por ter entrado no léxico português com uma grafia semelhante à do francês e não com uma grafia que reflectisse um critério fonético, isto é que terminasse com o som «ô». Ou então é uma palavra que nos diz alguma coisa sobre a articulação do ditongo «au» num certo momento da história da língua que poderia perfeitamente ser o período das invasões francesas. Seja como for, o «maroto» francês tem em português tons mais carregados. O marau é o mariola, coisa italiana que significa patife, querendo dizer o malandro, talvez mesmo o malandrão. Mais do que biltre ou tratante, o marau é o que hoje se chamaria um «hooligan» de salão. É o corrécio, palavra que parece ter desaparecido dos dicionários, mas que a célebre saga dos irmãos Cavaco popularizou, para quem se lembra, que indica aquele que não obedece a ditames. O marau é um vadio, mas é também um malicioso. No fundo, o marau é uma figura de todos os tempos, um tipo que prefere a boa-vai-ela, que vive de expedientes e aparentemente ninguém controla. Hoje há também os maraus da política, sempre na linha da frente do proselitismo partidário, cães-de-fila parlamentares ou governamentais. São dados à incontinência verbal e à veemência. Geralmente, aparecem muito na televisão.

 

 

 

 

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22.10.16

 

 

234-initial-letter-I-q75-498x500.jpg

 

 

 

inócuo
i.nó.cu.o
adjectivo
(do latim innocuus)
 
 
Inofensivo, que não faz mal (nem bem). A palavra atraiu a personagem do inesquecível conto A palavra mágica, de Vergílio Ferreira, «por aquele sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas». Que sabor poderá ter hoje para o cidadão comum que não saiba o seu significado? Que sabor poderá ter a mais comum das palavras para o cidadão? Eis em que deveria consistir o ensino da língua, agora que estamos ortograficamente equipados para sermos devidamente equiparados. A verdade é que nada é verdadeiramente inócuo nos tempos que correm: quase tudo tem, para alguns, consequências negativas, prejudiciais, nocivas; outras, mais raras, não fazendo mal, chegam mesmo a fazer bem. Parece haver quem use a palavra como sinónimo de vacuidade, de supérfluo (termo articulado habitualmente como supérfulo, o que tem o «mérito» de repor a alternância entre vogais e consoantes) ou de futilidade. Não significa tais coisas, mas compreende-se a relação com uma espécie de categoria «vazia». Porém, sempre salvaguardando o facto de essas tais coisas poderem não ser inócuas, nem ter consequências inócuas. 

 

 

 

 

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15.10.16
 

D-Francesco_Torniello_da_Novara_Letter_D_1517_(rie

 

 
 
 
 
desplante
des.plan.te
nome masculino
(derivação regressiva de desplantar)
 
 
 
Na esgrima, o desplante é uma variante de equilíbrio que consiste na perda momentânea do ponto de gravidade quando o esgrimista faz recair o peso do corpo sobre um dos pés e a arma está na mão contrária. Na vida em geral, esta questão tem que ver com um outro ponto de equilíbrio (ou de desequilíbrio): é quando a audácia ou a ousadia vestem o manto do descaramento ou da falta de vergonha, do atrevimento de rosto insolente, da desfaçatez (mais uma boa palavra de feição castelhana). No fundo, o desplante fala-nos da ausência do lugar natural ou normal: desplantar é retirar uma planta pela raiz, arrancar, mas pode aplicar-se a pessoas, a grupos de pessoas, a povos inteiros. Na acepção de falta de vergonha, são muitas as marés que vão dar a essa costa.

 

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8.10.16

 

 

E letter.jpg

 

 

 

eternidade
e.ter.ni.da.de
nome feminino
(do latim aeternitas, -atis)
 
 
 
Qualidade do que dura e não tem fim: a vida eterna ou o sono eterno. Perpetuidade. Imortalidade. Associado ao significado transcendente de «para sempre», o termo pode também ser usado para designar o período variável de duração, literal ou simbólica, do que deixamos quando morremos. É quase sempre pura ilusão, no sentido português de «engano» (em espanhol, curiosamente, a palavra «ilusión» usa-se no sentido de expectativa, de esperança). Se aplicado à vida terrena, à vida de todos os dias (por exemplo, a chegada de um autocarro, a queda de um governo, o final de um filme ou de uma conversa especialmente aborrecidos), a noção de eternidade traduz-se, na maior parte das vezes, pela expressão de impaciência «nunca mais». 
 
 
 

 

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1.10.16

 

 

483-Troilus-and-Criseyde-II-In-May-initial-cap-q85

 

 

 

 

 

insónia
in.só.ni.a
nome feminino
(do latim insomnia)

 


Estado de privação do sono, também designado por espertina, pleno de inquietações fantasiosas (ou de fantasias inquietantes), acalentadas por lúcidos, embora lúgubres, fantasmas nocturnos, que o dia expulsou e se refugiaram na penumbra. Recanto da memória onde se guarda a banheira de Arquimedes. Para o insone, a noite torna-se crua, redonda, não literária, sem princípio nem fim, só noite.

 

 

 

 

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24.9.16

 

 

 

G letter.png

 

 

 

gerúndio
ge.rún.di.o
forma nominal do verbo, invariável, terminada em -ndo.
(do latim gerundium)

 

 

Os matizes do gerúndio em português prendem-se com o seu uso na forma simples ou na forma composta, dependendo (cá está) da sua posição relativa na frase. Algumas gramáticas, ao descreverem (ou descrevendo…) o emprego desta forma, falam até de «construções afectivas», motivo pelo qual a coisa deveria até estar muito na moda. Mas não. Parece haver uma tendência para preterir o gerúndio em favor de outras soluções que o não contemplem, por exemplo a sua substuição pelo infinitivo antecedido de preposição (exemplo «a cantar»), recuperando (cá está de novo) a ideia de que é uma coisa um pouco provinciana, rústica, ou ainda como forma de desvinculação do português do Brasil, o que só pode ser pura ignorância. Como se a região de Lisboa não constituísse, também ela, uma variante dialectal do português e não a língua sem rebarbas, rebrilhante de tão polida, que alguns dos seus falantes imaginam. Variante em que as noções de progressão indefinida ou de duração estão menos presentes de um modo tão expressivo. Felizmente que à pergunta sobre como vai a nossa vida, podemos responder: cá vai indo.

 

 

 

 

 


17.9.16

 

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algo
al.go
pronome indefinido
advérbio
(do latim aliquod, «alguma coisa»)

 

O étimo de «algo» é a forma neutra de aliquis, de onde se originou a palavra «alguém». A muito antiga palavra fidalgo constitui uma reminiscência dessa genealogia: resulta de fi(lho) + de + algo, sendo «algo» aqui equivalente a «alguém», como quando se diz aos filhos para estudarem para serem «alguém», ainda que desprovidos de fidalguia. Como pronome indefinido, significando «alguma coisa», o termo tem tido um incremento notável. O seu uso faz mesmo parecer que as formas «alguma coisa» ou «qualquer coisa» estão contaminadas de um plebeísmo a evitar; faz figura de linguagem elevada. Há mesmo quem adopte o termo em regime de exclusividade. A marca de chocolates Ferrero Rocher tem culpas no cartório. Todos se lembram daquele anúncio em que uma senhora diz ao motorista «Ambrósio, apetecia-me tomar algo», frase que tem aliás dado azo às mais descabeladas versões. Com ajuda da patroa do Ambrósio ou não, o certo é que «algo» parece ter caído no goto das massas falantes: «aconteceu algo» ou «tenho algo a dizer» ou «ele fez algo de bom». Os próprios dicionários impam, repletos de «algos». Não se tratando de obscenidade, modismo, ou incorrecção, é apenas causa de prurido ou caso de irritação, agravada quando alastra, como nódoa, à escrita e aos seus práticos. Menor favor dos utentes da língua parece merecer o uso do termo como advérbio – como na frase «Caro senhor, achei o seu texto algo insosso» –, no sentido de «um pouco» ou «um tanto». Enfim, é das tais coisas para as quais não se vê saída, ao contrário da Lanalgo, que tinha cinco entradas para uma saída feliz.

 

 

 

 

 

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10.9.16

 

 

O rose petals.jpg

 

 

 

omissão
o.mis.são
nome feminino
(do latim omissio, -onis)

 

 

O que se deixa de fazer ou de dizer. Esquecimento, voluntário ou involuntário. Silenciamento com que se modela a realidade e, por tal razão, recurso gramatical e estilístico muito presente na resposta a perguntas do tipo «O que fizeste hoje?» ou «Em que estás a pensar?». Lacuna. Falta. Ocultação. Apagamento. Técnica narrativa que consiste numa aceleração ou salto no tempo; exemplo clássico é, entre muitos outros, o início do terceiro capítulo de Os Maias: «Mas esse ano passou, outros anos passaram. Por uma manhã de Abril, nas vésperas da Páscoa, Vilaça chegava de novo a Santa Olávia.» Na economia da construção da verdade opera por supressão, que é uma forma de selecção. Mentira politicamente mais subtil ou juridicamente menos gravosa. Forma de cobardia.

 

 

 

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3.9.16

 

 

shield-with-police-p-letter.jpg

 

 

 

 

 

participação
par.ti.ci.pa.ção
nome feminino
(de participatio, -onis)

 

 

Como acção cívica ou expressão de cidadania designa o dever de intervir, de ajudar, de colaborar, de contribuir, de cooperar. Como exigência contemporânea significa falar, comentar, seguir, configurando uma espécie de obrigação de comunicar, muito para além do âmbito jurídico da participação, como a queixa ou a denúncia, ou do âmbito social, como a participação do nascimento, do casamento ou do óbito. A participação, como a comunicação, de que é causa e consequência, está na ordem do dia, na ordem de serviço da ordem geral. Dizem que faz bem à saúde. De pequeninas, as crianças aprendem os seus fundamentos e as escolas requerem impiedosamente a sua prática; as famílias reclamam-na, as empresas exigem-na e até a premeiam, os artistas praticam-na ou servem-na, os governos administram-na. Ficar calado e quieto a um canto pode ser interpretado como disfunção com direito a acompanhamento de psicólogo e subsequente reeducação. É preciso ter um certo cuidado.

 

 

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27.8.16

 

 

 

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borra-botas
bor.ra-bo.tas
nome com dois géneros e 2 números
(de borrar + bota)

 

Mesmo que tenha um dia designado o engraxador desastrado ou incompetente, o termo terá acabado por se aplicar à generalidade dos lustradores de calçado. Porém, a expressão «borra-botas» passou, em momento que não se consegue descortinar, a designar o indivíduo insignificante, miserável, sem valor, sem categoria nem dinheiro. Um desgraçado. Terá esta acepção sido originada a partir da profissão de engraxador em geral ou especificamente do mau engraxador? Não sabemos. Sabemos que, na escala social, o engraxador integrou sempre um escalão muito baixo, para mais tratando-se de um trabalho sujo que se realiza curvado sobre pés do cliente. Mas a ideia de que se tivesse originado uma expressão pejorativa para designar um mau profissional não deixa de ser uma ideia curiosa. Embora também perigosa, pois seríamos obrigados a reconhecer que, em certos momentos, ou em certas áreas, se vive rodeado de borra-botas. Por outro lado, o desaparecimento dos engraxadores, outrora numerosos e indispensáveis, deu maior relevo aos graxistas, também designados manteigueiros, uma outra classe de indivíduos que partilha com os borra-botas a acepção moderna de desprezível.

 

 

 

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