10.4.16

 

 

A. Calpi Taças_n.jpg

 Galeria espaço AZ, Lisboa

 

 

 

 

Patente até 24 de Abril em Lisboa, a exposição "Colectiva" apresenta um vasto conjunto de obras confeccionadas por A. calpi desde o ano 2000 a partir de objectos abandonados, restos de colecção e materiais descartados.

 

A colecção de colagens, esculturas e assemblages, suportada por elementos de cenografia e decoração, inclui desde pequenos objectos até imponentes e delicados  "troféus" e "monumentos", erguidos dia a dia por A. calpi ao sabor do que se lhe ofereceu ao longo dum percurso criativo singular, marcado por incursões em géneros muito diversos e tendo por pano de fundo o amor pelo teatro e a alta cultura.

 

A quantidade e a diversidade de peças expostas, a sua laboriosa complexidade, e a forma como se encontram distribuídas pelos diferentes espaços da galeria conferem a esta primeira mostra a densidade de uma retrospectiva: meditação bem humorada e melancólica sobre a passagem do tempo e a vida dos objectos, cartografia dos estados de alma do artista, labirinto poético não isento de inquietação.

 

 

 

 

 

"Colectiva" de A. calpi

Curadoria: Eva Oddo [texto da exposição aqui]

 

Na Galeria espaço AZ aqui

Travessa Fábrica dos Pentes, 10

Lisboa

Exposição patente até 24 de Abril, Quinta a Domingo das 16H00 às 20H00

 

Acção dramática “Morre Pr’aí” / “Drop Dead” / “Die Hard” de 11 a 24 de Abril

 

Para adultos. Quintas, sábados, domingos e segundas às 19H30.

Nestes dias a galeria fecha às 19h30 e não será possível aceder depois desta hora.

Número limitado de lugares, sujeito a reserva por e-mail [colectivac@gmail.com].

 

 

 

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25.2.16

 

 

ALMANAQUE_arquivo_diarios_03.png

 

 

 

Recolher, preservar e divulgar as memórias de gente comum, reconhecendo que esses testemunhos de vida contribuem para o conhecimento da história e da identidade nacionais, é a missão do Arquivo dos Diários, associação cultural criada há dois anos, que lançou o concurso “Conta-nos e Conta Connosco”, destinado a enriquecer o seu acervo.

 

Agora que dispõe de uma equipa e de um espaço na Biblioteca de São Lázaro, graças a uma parceria com a Junta de Freguesia de Arroios, a associação está em condições de começar a reunir cartas e diários através dos quais os portugueses poderão contar a sua história. Diários, cartas, fotografias e filmes caseiros ou simples evocações feitas pelas pessoas são uma parte importante na construção da memória de cada um. Mas esses documentos servem também para ajudar a construir a narrativa de uma comunidade. A ideia é catalogar por temas tudo o que for recebido e, no futuro, disponibilizar o acervo num meio digital. 

 

Existem já em vários países europeus arquivos dedicados a recolher a memória popular, designadamente o Archivio Diarístico Nazionale, em Itália, que serviu de referência a Clara Barbacini e Roberto Falanga, fundadores deste projecto.

 

 

 

 

 

ALMANAQUE_arquivo_diarios_05.png

© Soraia Martins 

 

 

 

O principal obstáculo, admitem, é chegar às pessoas e mostrar-lhes que as suas memórias e objectos pessoais podem ajudar a desenvolver outros projectos interessantes, do cinema ao teatro, da ficção à investigação, ou simplesmente servir para consulta de quem tem curiosidade por histórias de outros tempos.

 

“Espero que os portugueses desmintam o pudor como traço da sua cultura”, diz Roberto. “Sei que vai ser complicado, mas desafiante. E acho que só o facto de alguém se questionar se deve ou não entregar [os diários e cartas da sua família] já é bom. Estimula o pensamento. Nesse tempo de reflexão o tema esteve ali, a ser considerado.”

 

Também sabem que poderá haver resistências à entrega de materiais e à publicação. “Sabemos que estamos a tocar assuntos muito delicados”, asseguram. Recordam o caso de uma mulher, vítima de violência doméstica, que ganhou em Itália um concurso semelhante ao agora lançado em Portugal e só anos mais tarde recebeu o prémio, depois de o marido morrer. Há também questões legais que podem colocar-se, por exemplo, no caso de pessoas que encontram ou compram materiais que não se importam de doar mas que dizem respeito a terceiros.

 

Tal como em Itália, está prevista a publicação anual de pelo menos um diário: quem entrega os seus materiais pode escolher participar num concurso aberto até 1 de Março próximo. Depois, um painel de dois júris – um popular e um técnico – escolherá um vencedor. Será publicado pela Penguin – Companhia das Letras.

 

As entregas podem ser feitas na Biblioteca de São Lázaro todos os sábados das 11h às 13h ou enviadas por correio e a associação tem um site com toda a informação em www.arquivodosdiarios.pt. Tem também uma página de Facebook aqui.

 

Arquivo dos Diários

Biblioteca de São Lázaro

Rua do Saco, 1  Lisboa 1169-107 (Freguesia de Arroios)  

 

 

Agradecimentos:

 

artigo de Vanessa Rato no jornal Público, artigo de Samuel Alemão em “O Corvo” e textos reunidos no site Arquivo dos Diários.

 

Fotos gentilmente cedidas por Arquivo dos Diários e Soraia Martins

 

 

 


15.9.13

 

Nas praias solitárias da ilha de Timor as frondes e as palmas sacodem já uns vagos restos de neblinas. Vale de Lahane acima vão fugindo esgarçadas pelos fustes mais altos; alcandoram-se, por fim, ameaçadoras, nas ramagens sombrias da verde floresta de eucaliptos. As linhas de cumiada cobrem-se de uma vegetação estranha. As árvo­res são as mesmas, os eucaliptos de tronco rugoso e escuro, mas em vez de folhas pegam-se aos ramos e raminhos os farrapos de musgo, cor do nevoeiro. Estranha paisagem, repito, como a de um país do Norte, onde a voz se escoa em surdina e o olhar descobre formas deambulantes e translúcidas, por entre a profusão de fetos arborescentes, polipódios, «ninhos de ave» e outras plantas que recordam os primei­ros tempos da Terra. Verdadeiramente, uma paisagem de sonho onde a solidão cami­nha a nosso lado e se insinua connosco nas profundidades inenarráveis do mistério. Quando, porém, o sol devassa aquela penumbra esverdeada e evapora de todo os nevoeiros, é ainda a solidão que nos espera, mas uma solidão alheia aos secretos apelos da vida. A natureza remoça, temporariamente, mas sem a omnipresença das seivas criadoras. E o mistério perdeu-se.

Era o tempo de abrir a alma aos quatro ventos, subir para as alturas e aspirar o ar fino e frio; de me sentir o senhor da Terra, «Rainai» de Timor, absorto... Das grandes alturas a vista imensa abarca montes e montes, serranias cruzadas, dois a três mil metros rolando, como as vagas de um mar fortemente encapelado. A ilha sente ainda a proximidade do anel de fogo que nas Flores e em Lomblem ascende em majestosos vulcões; do Tata-Mai-Lau posso abranger em dias claros de Setembro o maior comprimento, e de ambos os lados o mar sem fim, limitado ao Norte pelos maciços das restantes ilhas do grande arquipélago: Alor, Ataúro, Liran, Wetter, Kissar...

Mas ensimesmado pelo sortilégio vegetal da minha ilha havia de descer aos vales umbrosos onde me esperam tantas surpresas e deslumbramentos. Para que lado me dirigir? A costa norte é já sobejamente conhecida desde Maubara a Lautem. Com pequenas variantes, acidentes de rocha, sobretudo, a charneca doirada onde os eucaliptos de tronco estrangulado e alvadio, como de róseo marfim, os coqueiros da beira-mar, os «akadiros» e as palapas, — figuras extáticas do classicismo dos trópicos —, se misturam às acácias de para-sol, às casuarinas das margens dos ribeiros e ainda às manchas viridentes, contrastadas, dos bosques marítimos. Viria, passados tempos, a descobrir-lhe as surpreendentes belezas, quando, saciado dos vergéis e selvas misteriosas da costa sul, viesse repousar na sombra acariciante dos parques de tamarindo e jujubeiras? E ao ouvir o cristalino acento de um regato perdido na solidão ardente, saberia então olhar os elementos de que era feita a paisagem desprezada? E aprenderia a amar as grandes linhas sóbrias de uma praia solitária, de uma escarpa descida verticalmente no mar, de uma encosta onde a erosão abria profundas feridas, ...as colinas ondulantes e, sobretudo, a pureza luminosa que se filtrava na tarde calma pela folhagem clara da floresta aberta do Eucaliptus alba?



 

 

Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

"Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948

 

Foto: Ruy Cinatti (1947)

 

 


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13.9.13

 


 

A vegetação de Timor, ao contrário do que se imagina, não é composta, exclusivamente, por agrupamentos de natureza tropical, nem oprime o espírito ao ponto de nos considerarmos irremediavelmente à mercê do poder dos elementos da selva. A oito graus de latitude sul, a ilha oferece-nos o espectáculo incomparável de uma vegetaçãoo cintilante e vária que, conforme as regiões, se sintetiza em paisagens dos mais diferentes países do mundo. As florestas do «Eucalyptus obliqua»  transportam-nos à Nova Gales do Sul e à Tasmania, já perto do círculo antártico; os parques de «Tamarindus» e de «Ziziphus» a certos espaços do nosso Alentejo; os planaltos de Fuiloro lembram os campos e os bosques do norte da Europa, a verdura luminosa dos condados ingleses; e, na estação seca, as florestas de paus-rosa», dir-se-iam imitar os maciços arbóreos do Buçaco ou Gerez. A par disso é um prolongamento de Samatra, Java e outras ilhas de vegetação genesiaca, mas harmoniosamente equilibrada. Não admira que o espírito sensível de Alberto Osório de Castro fosse levado a confessar: «A flora de Timor, misteriosa e fremente, em mim, produz, por vezes o mesmo « grand songe terrestre», igual vertigem e ardente ebriedade pânica à que me dão certos poemas... » (Ruy Cinatti)



 

 

«Troncos colossais, majestosos, encordoados, de quatro a cinco metros de circunferência, raízes poderosas que se torcem sobre o pavimento da rua...» (Armando Pinto Correia)



«Os palavões brancos (Eucalyptus alba) das encostas xistosas do litoral, diziam-me já a soledade adusta do “Bush” australiano, não distante.» (Alberto Osório de Castro)


 

 

Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

"Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948


Fotos: Ruy Cinatti

 



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5.9.13

 


« De qualquer forma por que as populações timoresas se estudem..., o caos surge desnorteante e quase impenetrável, revelando-se a disparidade de raças que na ilha e fora dela se cruzaram para produzir os tipos e os dialectos que naquele país se encontram. Dir-se-ia que da mais ocidental das terras sundanesas até às Filipinas e destas para o sul, e deste até Timor e às Fidji, todos os povos se mestiçaram e emigraram de forma a criar a Babel de elementos somatológicos que é a ilha de Timor. » (Leite de Magalhães)




 

«As raparigas de Oékussi, de uma tez de âmbar gris claro, feições delicadas, lembram sundanesas ou burmesas de distantes origens indús.» (Alberto Osório de Castro)




Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

"Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948

 

Fotos: Ruy Cinatti (1947)



O Timor de Ruy Cinatti  de Peter Stilwell | PDF in Revista Camões nº14  aqui


História-Antropologia TIMOR LESTE  aqui 

 



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4.9.13

 

 

 

 


































«Mani-meta são os edifícios cujo pau de fileira se ornamenta, com pontas de búfalo, conchas marinhas e paus trabalhados em forma de pássaros. Assentam, como as construções sagradas, em oito prumos, os quatro primeiros cravados no terreno e segurando um tabuleiro, espécie de terraço sem paredes, onde se recebem visitas, as mulheres tecem panos e às vezes se cozinha.» (Armando Pinto Correia)



 


































«Julguei que, sendo aquela a mais distante e a menos conhecida das terras do nosso Império, todos os que por lá andaram, e porventura a sentiram e amaram como eu, se não podiam furtar ao dever nacional de contar à Metrópole um pouco do que sabem a respeito de Timor.» (Armando Pinto Correia)


Fotos: Ruy Cinatti (1947)



Timor, Páginas de um Diário Poético

Ruy Cinatti

in "Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo"

Números 36 e 37, ano de 1948


 


 

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1.9.13

... São quatro e meia da tarde. A chuva deve durar mais hora e meia. Não há nada a fazer. Sinto-me feliz, contente... Supor que me encontro tão longe de tudo!... Longe das complicações humanas, da vaidade dos cargos, da estupidez consagrada em frases de estereotipo... Para me sentir feliz, basta-me esta choupana desconjuntada e a companhia silenciosa dos indígenas. Encontro-me em perfeita comunicação com o ambiente, numa exaltação sossegada e plena. Encostado ao batente da porta, vou entretecendo ideias vagabundas, sempre à beira do sonho ou da sensação. A Natureza pensa e o homem segue os instintos de uma reminiscência obscura. Os indígenas conseguiram acender uma fogueira. Não posso dominar a comoção que me obriga a envolver os companheiros num olhar de profunda simpatia. Ei-los, acocorados, silenciosos, prontos a obedecer ao mais pequeno sinal. Não dizem nada, mas pensam decerto no «malaio» que os manda ao alto cimo das árvores para colher folhas e flores. Um deles pôs-se de joelhos e, de olhos dilatados, vai soprando a fogueira hesitante. Outro, dobra nos dedos adestrados a folha de begónia, dá-lhe a forma de um copo e estende o braço para a goteira aberta no telhado de capim. Como lhes estou agradecido!... Inteligentes, profundamente psicólogos, incapazes de esquecer, de uma dedicação sem limites. Pensar que estes desgraçados timorenses sofriam resignadamente a incompreensão de quase todos, tinham passado por uma guerra sem quartel... — E agora?!... Exceptuados os missionários, quem se importa com a alma do indígena?! Onde clamam as vozes de Afonso de Castro, de Celestino da Silva, de Armando Pinto Correia... de tantos outros, nobres e humildes que à terra de Timor deram a inteligência e o coração português? Existia uma certeza: mais cedo ou mais tarde a Verdade havia de vencer nas almas; a pureza, a justiça e outros poderes mais transcendentes ainda, seriam coroados pela realidade magnífica de um Timor novo. E a força dos jovens não temia os obstáculos, nem a lógica cerrada dos raciocínios interessados. Quem não sabia defender-se e muito menos atacar, só podia ter uma linha de conduta: seguir em frente, fiel a si próprio e às gerações inúmeras... «talent de bien faire»... «désir»...


 

Ruy Cinatti em Timor

 

A chuva diminui; o céu clareia um pouco. Desanuviam-se os pensamentos e baixa-se à realidade rítmica da vida. Os companheiros estão prontos. Vamos partir dentro de alguns instantes. Fragmentos de poesia afloram no meu espírito: «Ilha perdida de mistérios densa...» Vamos partir. Como sucedeu a Alberto Osório de Castro: «pelas cinco horas da tarde, sob um miúdo aguaceiro que se desfaz no radioso entardecer de nácar — róseo, flavo, verde de água, lilás».

 

E a conversa prossegue... o diálogo silencioso, por vezes iluminado, como em noites secas de Setembro, de fantásticas visões: o céu e o horizonte do mar fulgurando por detraz da fímbria em fogo das nuvens, som que o rolar do trovão seja mais que um surdo murmúrio distante. Diálogo traduzido em movimentos incompreensíveis, como os de um enamorado ainda hesitante, suspenso, não fosse com uma certeza mais fácil quebrar o encanto que a presença amada não teme. O descobrimento da árvore revelada nos sonhos, o Podocarpus imbricata, nos cimos da Mate-Bian, a montanha da alma dos mortos, depois de dois dias de procura estéril, em que o desejo foi mais forte que a vontade. A esperança segura, inabalável, de lá voltar um dia, para que na sombra esverdeada dos fetos arborescentes e junto da fonte glácida onde as colocásias molham os limbos lustrosos, possa reencontrar-me e jurar os votos de uma vocação definida: a de uma existência serena e silenciosa como a da floresta de paus-rosas, em Citrana, onde caminháramos durante horas seguidas. Onde, também, sem dar por isso, me tinha entregado à mais activa das missões: a de um homem para quem o florir da Natureza simboliza o resultado heroico de uma meditação e o trabalho fecundo ao fluir longo de um período de maravilhoso silêncio.

 

E posso ainda julgar descer à rua, para colher nos dedos transfigurados o véu de luar azul? Ou sequer as finas hastes de certas orquídeas de cachos estrelados, quando o cavalo teimoso me levava por sob a penumbra cinérea das casuarinas ? ... A neve perfumada dos cafésais em flor de Fatú-Bessi, a Sintra de Timor, de ravinas sombreadas pela «madre del cacao»... Quantas e quantas recordações se não levantam! É tocar ao de leve nas águas da memória, para que, sobrepostas e logo separadas em ondulações suavíssimas, ressurjam as imagens e a doce comoção que a saudade imensa reergue das brumas da ilha perdida.


Ruy Cinatti

in Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

Números 36 e 37 , 1948



Notas:


Imagem em Timor-Leste History Anthropology  aqui

Espólio de Ruy Cinatti na Biblioteca Universitária João Paulo II, Universidade Católica Portuguesa

 

 

Leia também O Timor de Ruy Cinatti  de Peter Stilwell | PDF in Revista Camões nº14/ 2001 aqui






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2.5.13

 

Num conjunto muito variado de textos, Eduardo Côrte-Real discorre com simplicidade e humor sobre a descoberta doutras paisagens, povos e mentalidades à luz dos seus autores de cabeceira e da sua história pessoal de filho do Império: 

 

"nesta parte do mundo [Macau], os portugueses fizeram-se à vida sozinhos, verdade que nem sempre se conta, só isso já dá a dimensão da aventura de quem vai para a China, para a civilização mais antiga de todas, agora um gigantesco casino, com Moulin Rouge e tudo" ... "Em Moçambique o apartheid era uma realidade, nunca tive um colega de escola preto e fiz lá o liceu todo. Naquele tempo, entretido a crescer, não me parecia estranho. Os únicos pretos com quem falávamos eram os nossos criados — sete."

 

O Médio Oriente, a Rússia e a China registados pelo autor nos finais do século XX também já não são hoje exactamente os mesmos, e nesse subtil desfasamento reside outro dos interesses deste livro. 

 

 

 

 

 índice de capítulos aqui

 

 

Tive a sorte de viver, longamente, em três continentes - África, Ásia e Europa. O persa de Homero, esse ainda desconhecido dos eu­ropeus e, no entanto, a viver ao nosso lado, foi o meu best friend nesses idos. Também gosto imenso da América, tanto do norte como de al­guns países do sul, daqueles onde não mora o pecado como no Brasil, a glória portuguesa. Gosto de árabes — o que é raro nos europeus — uma matriz complicadíssima porque política e religião são do mesmo grupo de conceitos neles. [...] Não há lares de terceira idade na China, o filho mais velho toma conta dos pais até eles morrerem. É assim. Praticar o Li (o bom caminho) não é muito diferente das éticas gerais, religiosas ou ateias. Individuo versus Universo é a questão do confucionismo chinês. O Ocidente individualista deusificou a Humanidade - mais interessante para filosofar — que a abstração dessa alma coletiva chinesa, nunca individual. No confucionismo não há salvação isolada, egoísta, nem alminhas. O historiador, o antropólogo, o humanista ocidental europeu, o jornalista, levo-os a todos como se fosse a escova de dentes, se possível sem eurocentrismos que são só excesso de peso. Não é só fazer a mala. É saber ao que vamos.

 

Eduardo Côrte Real

in Vagamente à procura de Pasárgada (Introdução)

© RCP Edições 2012 

 

Leia o poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira aqui

 

 

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27.3.13

 

 

 

Another Happy Day#1

© Rita Barros, até 15 de Abril 2013 em Lisboa* 

 

 

Displacement 2 é o diário de um luto. Em 2011 o Chelsea Hotel em Nova Iorque, catedral da cena underground dos anos 60, e onde Rita Barros vive desde 1984, foi vendido e fechado ao público. O edifício está em obras. Os residentes de longo prazo estão a ser alvo de acções de despejo e assistem impotentes ao desmoronamento gradual do seu quadro de vida, um quadro de boémia artística e de relacionamentos privilegiados porventura condenado à extinção nos tempos que vivemos hoje. A globalização tornou as grandes metrópoles mais parecidas umas com as outras e cidades como Nova Iorque e Londres tornaram-se muito caras. Deixou de haver lugar para a improvisação. Displacement 2 poderia chamar-se The Party is Over. Nunca mais o Chelsea Hotel  será a casa que Rita Barros retratou em 1999, no livro Quinze Anos: Chelsea Hotel.

 

Desde 2011 Rita Barros regista a "remodelação" do Chelsea e com ela a dissolução de todo o seu universo mais íntimo, através de pequenas acções dramatúrgicas que ela própria concebeu e interpreta, fiel ao espírito de liberdade artística e irreverência que presidiu ao mítico hotel. Nesta segunda série de fotografias, iniciada no verão de 2012, os tijolos do jardim do telhado, entretanto destruído, adquirem o estatuto metafórico da representação dos sólidos alicerces da casa então construída e agora transformados em desperdício, mas transformados também em arma de arremesso contra a dor da perda, pessoal e colectiva. 

 

 

 

 

*Até 30 de Abril 2013 
Loja da Atalaia 
Av. Infante D. Henrique, Armazém B, Loja 1, Cais da Pedra a S. Apolónia

1950 -­‐ 376 Lisboa

 

 

 

Notas:

 

Post adaptado de texto de António Calpi, na íntegra aqui

 

Uma fotografia do livro Quinze Anos: Chelsea Hotel neste blog aqui 

 

Entrevistas de Rita Barros aqui e aqui

 

in English here

 

 

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27.10.11

 

I remember one day long ago driving down Park Avenue on the way to Penn Station with a sheaf of notes for a Harvard lecture in the right-hand pocket of my raincoat, and in the left, a celluloid packet containing twelve photographs, with accompanying text, of one girl model spanking another on her bare bottom with a hairbrush. Given a choice, I would far rather have jettisoned the contents of the right-hand pocket: with this dichotomy I have spent my life. (Note the fearless candour of this amazing revelation.) (And note, too, the self-deprecating irony — 'fearless candour', 'amazing revelation' — with which I have phrased it, thereby showing what a self-critical person I am.) (And if you think that sounds self-congratulatory, let me answer you that I am well aware of my faults, which are numerous.) (And if that implies too much self- knowledge, may I add that, in fact etc. etc. etc.) Such is the art of autobiography.

 

Kenneth Tynan

in The diaries of Kenneth Tynan edited by John Lahr 

Bloomsbury Publishing, Plc, London

©2001 by Tracy Tynan

 

 

 

 

 

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30.6.10

 

 

 

 "TKM Lumumba Indépendance " Peinture de Tshibumba. Ca 1972.

 

 

 

My father and I have patched things up. He allowed me to accompany him to Leopoldville, where we got to see history in the making. We watched the Independence ceremonies from a giant rusty barge tied to the bank of the Congo River that was loaded with so many pushing, squirming people Mrs Underdown said we'd probably all go down like the Titanic. It was such an important event King Baudouin of Belgium, himself, was going to be there. It was childish, I know, but I got very excited when she told me that. I suppose I was picturing someone in a crown and an ermine-trimmed scarlet robe, like Old King Cole. But the white men sitting up on the stage were all dressed alike, in white uniforms with belts, swords, shoulder fringe, and white flat-topped military hats. Not a single crown to be seen. As they waited their turn to speak, dark sweat stains blossomed under the arms of their uniforms. And when it was all over I couldn't even tell you which one had been the King. […] After the King and the other white men spoke, they inaugurated Patrice Lumumba as the new Prime Minister, I could tell exactly which one he was. He was a thin, distinguished man who wore real eyeglasses and a small, pointed beard. When he stood up to speak, everyone's mouth shut. In the sudden quiet we could hear the great Congo River lapping up its banks. Even the birds seemed taken aback. Patrice Lumumba raised his left hand up and seemed to grow ten feet tall, right there and then. His eyes shone bright white with dark centers. His smile was a triangle, upcurved on the sides and reaching a point below, like his beard. I could see his face very clearly, even though we were far away.

'Ladies and gentlemen of the Congo' he said, 'who have fought for the independence won today, I salute you!'

The quiet crowd broke open with cheers and cheers. 'Je vous salue! Je vous salue encore!'

Patrice Lumumba asked us to keep this day, June 30, 1960, in our hearts forever and tell our children of its meaning. Everyone on the raft and the crowded banks would do what he said, I knew. Even me, if I ever get to have any children.

 

 

Barbara Kingsolver

in The Poisonwood Bible (Book II The Revelation – Leah) pp. 206-207

© Barbara Kingsolver, 1998

 

 

 

Aos leitores interessados recomendo vivamente este romance sobre a independência do Congo Belga e as três décadas que se lhe seguiram. A história é narrada a várias vozes, as da mulher e das filhas de Nathan Price, um baptista evangélico que leva a família para o interior do Congo Belga em 1959. A acção estende-se até à Angola dos anos 80. Um livro fascinante, que inclui extensa bibliografia sobre o tema. Em português: A Bíblia Envenenadaaqui.

 

Esta imagem e outras aqui


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9.12.09

 

 

 

 

 

 

Sem Título, 2009.  Gouache sobre papel

de Vasco Futscher

 

 

 

 

 

Quand une histoire est impossible, ils pensent que ce n’est pas la peine de la vivre.

 

En revanche dans les livres et les films, s’il n’y a pas cette impossibilité, ils trouvent aussitôt que l’histoire est ratée.

 

 

*

 

 

Une phrase un peu pompeuse, mais de temps en temps j’aime bien: « il y a dans mes rêves un homme qui s’appelle J’Existe. »

 

 

*

 

 

Il va mourir, et l’aumônier lui demande quel prénom il veut emporter avec lui. L’idée le séduit. Ça le réveille un peu. Il cherche. Hélas, il a beau draguer le passé, aucun prénom ne s’allume. Il revoit des visages, et rien d’autre. Tatouani avec ses yeux bridés: c’est éteint, ça ne miroite pas. Isabelle, la terrible infidèle: éteint. La douleur: éteinte. Les flamboiements des retrouvailles ; éteints. Lucie : éteinte. Poussière. Michèle: suréteinte. Gaby la folle: éteinte, détrempée par les larmes qu’il a versées pour elle et qui ont perdu leur sens aujourd’hui. Eh oui, tout est déjà mort, même si ces femmes sont sûrement florissantes de santé quelque part, même s’il est là devant la mort puisqu’un aumônier, tout de même, c’est la preuve. Et pourtant, il n’y a que lui de vivant. Alors, comme il faut dire un prénom, que c’est le jeu, il dit: « Paloma. » Il a toujours rêvé de rencontrer une femme qui s’appelle Paloma. Et celle-ci, elle est bien là. Il la voit.  Ah, on peut compter sur quelque chose. Tout ne part pas dans l’oubli.

 

 

*

 

Elle me parle du grand courage qu’il faut pour mettre au pied du mur quelqu’un qu’on aime et qui va vous dire non. Et ô combien ce courage est nécessaire si on veut avoir une chance d’entendre un oui.

 

 

* 

 

 

Et moi, pendant qu’absolument tout le monde me croyait seule dans mon chagrin au milieu de ce cimetière, je réalisais la part d’amour que les morts vous laissent.

 

 

*

 

 

Je pense, à un moment donné de ce livre, c’est-à-dire ici vers la fin, que je suis peut-être de ceux qui vivront l’amour sans personne.

 

 

*

 

 

Et puis, octobre, quelqu’un me rencontre.

 

Et je le laisse faire.

 

Alors tu vois.

 

 

Sophie Fontanel

in L’ amour dans la vie des gens

© Éditions Stock, 2003

 

 Mais sobre o livro e a autora

aqui

 

 

Recolha de aforismos e vinhetas, entre o desencanto e a candura, ou o diário de um desgosto sentimental transformado em inquérito sobre o amor.

 

 

Pintura: Vasco Futscher / trabalhos recentes aqui

 

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9.8.09

 

 

I didn't expect silence. We had always talked so much. She was my best friend as well as my sister: a little less than three years younger than me, the child I needed to protect when I was still a child (and my parents scarcely grown-ups themselves); yet I could not protect her now. When we knew that she was going to die, because the cancer had spread to her lungs and her liver, we spoke about how we would always talk to each other, even after her death. Neither of us had grown up believing in a conventional Christian afterlife (and anyway, I had given up on that unkind God after his failure to answer my prayers to save her); but, even so, it seemed impossible that we would ever be separated by silence, that our voices were contained only in our flesh and blood.
Yet in the weeks after her death, I heard nothing. At night there were just my own muffled screams in the pillow when I went to bed; or the memory that I tried to block out but which filled my head of her agonized breath on her last night, as she gasped for all that remained of life. And I could say nothing to her except, ‘I love you, I love you, I love you.’ ‘I love you too,’ she whispered, before she slipped away to a place where I could not follow.

Justine Picardie
in If the Spirit Moves You
© Justine Picardie, 2001

 

 

 

 Este e outros livros da autora aqui

 

 

Inconformada com a morte da irmã, esta jornalista britânica passou um ano a investigar aqueles que dizem comunicar com ‘o outro lado’. É o diário de um luto, transformado em inquérito sobre a vida depois da morte na era do cepticismo. Um livro honesto e comovente. 

link do postPor VF, às 13:30  comentar


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