25.12.16

 

 

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Nativity, 1470-1475 - Piero della Francesca

 

 

 

 

 

 

 

 

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14.9.16

 

 

 

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@ Percy Jackson 

 

 

 

 

 

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Deuses

 

 

 

 

Em igreja desafectada num lugarejo da Beira profunda, pedindo-se a vizinha chave para a abrir, amigos dos Pais descobriram estatueta magnífica de S. Sebastião do século XVII. Um ano depois, estando por perto, pediram outra vez à vizinha para lhes abrir a igreja – e não viram o S. Sebastião. Perguntaram se alguém o teria levado (passava-se isto há uns 80 anos e começara já a compra por dez reis de mel coado de obras de arte achadas na província portuguesa por citadinos astutos - pilhagem comparável às das Invasões Francesas do começo do século XIX, com a vantagem de as obras assim preservadas terem ficado em Portugal) mas nada da igreja fora entretanto vendido. De entrada, a vizinha nem percebia bem de que é que eles estavam a falar até, de repente, se fazer luz no seu espírito: “A gente capemo-lo e fizemos uma Santa Teresinha!”

 

O catolicismo cultivou os Santos e as Santas, alguns plasmados de anteriores figuras pagãs, amortecendo assim o choque brutal do monoteísmo - a invenção mais traumática e funesta da humanidade - na vida de cada um (e cada uma) de nós que com ele tivesse de lidar. Santos e Santas são cortesãos celestes, com acesso directo a Deus menos ou mais facilitado, desde Santos e Santas modernas sem cultos enraizados nas mentes dos fiéis às hipóstases mais celebradas da Senhora sua Mãe. Beatas (e beatos) estabelecem as suas intimidades. Uma de Reguengos, a quem mãe aflita com doença de filho viera pedir intervenção de Nossa Senhora de Fátima (de que a beata possuía imagem a que rezava), respondeu-lhe: “Deixa estar filha que eu, em chegando a casa, caio-me lá com a minha Periquita!”. Às vezes, como entre humanos, as coisas dão para o torto: o meu amigo Fernando viu numa igreja de Luanda mulher de pé em cima de um banco insultando em kiluanda imagem de Nossa Senhora do Carmo, por esta não ter cumprido a sua parte de um acordo.

 

As coisas passavam-se assim com Deuses e Deusas quando toda a gente tinha vários. Era o caso - para escolher sociedade evoluída - da civilização romana com quem os cristãos tiveram problemas, não por terem Deus diferente, tal não aquecia nem arrefecia os romanos, mas por não admitirem existência de Deuses dos outros. A intolerância não foi inventada pelos monoteístas mas foi dotada por eles de superioridade moral. Desde as origens no Próximo Oriente as chacinas não pararam. Mas salvo em casos especiais – judeus ortodoxos, Tea Partiers americanos, waabistas - as três grandes religiões reveladas parecem hoje menos viradas para o proselitismo, mormente a Hebraica quiçá por ter sido mais maltratada do que as outras duas. A Cristã chega a roçar o agnosticismo. Mais novo, o Islão dá fiéis cheios de sangue na guelra. Se algum dos seus entusiastas, fanático do chamado Estado Islâmico, nos perguntar o que fizemos do Deus a quem chamam Alá, em cujo nome matam e esfolam, devemos responder que o capámos e fizemos um Nosso Senhor Jesus Cristo, user-friendly para crentes e descrentes.

 

 

 


9.3.16

 

alentejo 4

 

 

 

 

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Alentejo

 

 

 

Robert Lowell dava aula no colégio de All Souls em Oxford. Um estudante quis saber o que é que ele pensava de literatura “engagée”. Que era uniformemente má. O estudante insistiu: “E o livro de Norman Mailer sobre o Vietname?” “O livro de Norman Mailer sobre o Vietname não é sobre o Vietname é sobre Norman Mailer”.

 

Isto à laia de introito ao Alentejo prometido de Henrique Raposo, que é mais sobre Henrique Raposo do que sobre o Alentejo, sem por isso perder qualidade. Li-o com gosto e curiosidade e fico à espera de investigação sistemática e pormenorizada sobre temas nele aflorados – passado de violência e suicídio, por exemplo – para ficarmos a saber melhor o que por lá houve e haja ainda. O que Raposo publicou é estimulante mas é pouco e impressionístico.

 

Sobre suicídio, tinha-me telefonado faz já algum tempo porque há quase meio século publiquei monografia sobre outra parte do Alentejo e oficiais do mesmo ofício gostam de comparar notas. Não pude ser-lhe de grande utilidade: sim, também havia suicídios por onde eu tinha andado – as mulheres normalmente atiravam-se a poços com as saias atadas para não flutuarem; os homens davam tiro de caçadeira na boca, o gatilho puxado pelo dedo grande do pé – e disso já ele sabia. Só agora, lendo o livro, percebi porque é que o fenómeno do suicídio lhe fez tanta impressão e não ma tinha feito a mim. Henrique Raposo tem objecção moral ao suicídio e eu não. Além disso, nado e criado nos arredores de Lisboa, foi tentar perceber a terra donde vinham os seus pais a partir de instituições e valores morais muito marcadas pelas do Norte de Portugal. Para muitos alentejanos, o suicídio, por mal que possa fazer a gente próxima do suicida e por distúrbio na comunidade que cause, não constitui ofensa a Deus porque Deus não existe. E as razões da sua prevalência em terras transtaganas - as estatísticas parecem inequívocas, embora se deva lembrar que, em lugares onde o suicídio seja grande pecado e socialmente muito mal visto, certidões do óbito possam não o mencionar – terão, julgo eu, fundamento histórico simples.

 

Enquanto a cristianização do Norte de Portugal coube ao clero secular de dioceses e paróquias, a cristianização do Alentejo foi sobretudo feita por Ordens religiosas. Se a densidade populacional era mais baixa no Sul do país do que no Norte, a densidade de pessoal religioso era muito mais baixa ainda e, com a extinção das ordens religiosas do Liberalismo, a situação piorou. No começo da República, as coisas não se passaram muito mal: mais padres no Alentejo do que no Norte do país aceitaram ser pagos pelo Estado. Mas em 1960, menos de metade das paróquias tinham pároco no Alentejo: “país de missão”, chamava-lhe a Igreja. Não creio que, entretanto, tenha mudado muito.

 

 

NB Alentejo prometido é interessante e bem escrito. Mesmo que o não fosse, a agressão alentejana a autor e livro por pimpões e pimponas ofendidas, no século XXI e na Europa Ocidental, deixa este alentejano de boca aberta.

 

 

 

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24.2.16

 

 

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 All Souls College, Oxford

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ao correr da pena

 

 

 

E.P., que se pronunciava I Pi porque estávamos em Inglaterra e o homem era inglês, Edward Evan Evans-Pritchard no passaporte (os ingleses são anti-jacobinos saudáveis e nem cartões de identidade admitem), Professor de Antropologia Social e Fellow de All Souls na Universidade de Oxford, nesse tempo o mais conceituado oficial do seu ofício em todo o país, baptizado na fé dos pais, dos avós, dos bisavós e por aí acima até ao reinado de Henrique VIII que mandara Roma às urtigas e fundara a igreja anglicana, convertera-se ao catolicismo contra a maré, já homem crescido. Eu vinha de país católico, fora recomendado ao Instituto de Antropologia de Oxford por Ruy Cinatti (que, ao mesmo tempo, me persuadira a mim a ir para Oxford, pois eu ia matricular-me em University College, Londres. Deste fixei regulamento se se faltasse a exame: apresentar atestado de doença ou when appropriate certidão de óbito; o caso mais extremo de insolência funcionária de que me lembre), o Ruy era católico exigente, quase jansenista - “Eu com o Antigo Testamento entendia-me; depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló, estragou tudo!” – enquanto eu me dizia agnóstico mas, quem sabe, talvez fosse mesmo ateu. Pérolas a porco. Sem nunca termos falado dessas coisas, I Pi sabia.

 

Um dia, no pub, a tomar half-a-bitter, disse-me: “Sabe, para se ser católico (to be a Roman catholic) é preciso ser-se muito estúpido ou então muito inteligente”. Deixando-me na ‘no man’s land’ intermédia que me cabia, pediu-me para o ajudar com livro de memórias que lhe mandara pelo correio Hortense Powdermaker, antropóloga americana do seu tempo, que também fora aluna de Malinowski (Malinowski era polaco, de nacionalidade alemã em 1914, fazia trabalho de campo em ilhas no Pacífico do Império Britânico, e fora lá internado durante os quatro anos da guerra, depois ensinara na London School of Economics, deixando-nos uma obra prima “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Conhecia a sua arte de alto a baixo: “A antropologia ensina o administrador a tirar terra ao indígena seguindo os costumes do indígena”.) I Pi ia ser operado às cataratas. “O que é que quer que eu veja?” “Procure-me no índice”. Encontrei várias entradas, li-lhas, gostou do que ouviu, disse que Hortense era boa rapariga e acrescentou pormenores salazes da relação dela com Malinowski. Em coscuvilhice, intriga, ofensas e maledicência, pior do que um departamento universitário nem as cúpulas de um partido político (“enquanto há morte há esperança”) nem as/os prima-donas de uma companhia de ópera. Henry Kissinger acha que essa intensidade desmedida é devida à pequenez do que está em jogo.

 

À leitora que tenha chegado aqui acrescento: se de médico e de louco todos temos um pouco, agora de comentador também. Somos mais do que as coisas a comentar e declaro uma trégua. A Inglaterra sai ou entra? Qual dos Costas tem razão? Obama é mesmo um banana? Deixo palpites para outro dia e fico-me pelas caturrices de I Pi.

 

 

 

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2.12.15

 

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Giovanni Francesco Rustici (ca. 1495)

 

 

 

 

 

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Civilização

 

 

 

André Malraux, escroque francês de génio que se distinguiu nas letras (L’Espoir, La Métamorphose des Dieux), na guerra contra o fascismo (Brigada Internacional em Espanha), na guerra contra o nazismo (Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial) e na política (ministro da cultura de De Gaulle que, quando o amigo François Mauriac, prémio Nobel da literatura, lhe perguntou como conseguia aturá-lo, respondeu: “Malraux c’est mon vice”), escreveu: “Nós somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem.”

 

Era bom, era. O “nós” de Malraux referia-se a um grupo de pessoas muitíssimo mais pequeno do que aquelas que a nossa “civilização” abrange. Apesar de nas escolas actualizadas dos países mais desenvolvidos se aprender que o Big Bang, origem de nós e de tudo o resto, se deu há 13,8 biliões de anos, nada se sabendo do nada que houvesse antes, a vasta maioria da gente – sem chegar aos excessos de literalismo bíblico dos evangélicos americanos (ou, noutra variante de monoteísmo, igualmente candidata a civilização, ao literalismo corânico dos salafistas sauditas) – conforta-se com mitos de criação e redenção que – tal como água de Fátima desde que seja fervida – não fazem mal a ninguém, a não ser se, como acontece agora entre os salafistas, exijam a matança dos infiéis. (Há uns séculos também éramos assim: “E com muitas Ave Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num credo” conta Fernão Mendes Pinto, com o desembaraço de um tempo em que não havia ONG dedicadas aos direitos do homem nem governos empenhados na salvaguarda do estado de direito).

 

No século XX os europeus (e os chineses) foram apanhados em cheio por novo mito, na aparência tão radicalmente diferente das restantes fés – também vinha curar os nossos males mas tudo se passaria neste mundo - que podia ser tomado por outra coisa. Raymond Aron chamou-lhe o ópio dos intelectuais. O estardalhaço foi enorme mas o paraíso não se instalou na Terra. Gato por lebre, dirão alguns, mas o problema é que a lebre, ou melhor, as lebres também não dão conta do recado. Ao mesmo tempo que ser marxista passou a opção privada (assim como ser vegetariano ou filatelista), fés mais antigas - duradouras por nunca terem caído na esparrela de se considerarem ciência - reapareceram no esplendor da sua intolerância. E no mundo globalizado de hoje podem chegar a toda a parte. Na Birmânia, maioria budista maltrata sem dó nem piedade minoria muçulmana. 1.300 anos de cizania sangrenta entre sunitas e xiitas levaram o mês passado à matança de Paris, inspirada, planificada e executada por salafistas.

 

A Europa, adubada pelo Iluminismo, separou a igreja do estado: não matamos nem morremos por mitos religiosos. Considerá-la fortaleza cristã é disparate nocivo. A sua força vem da tolerância. É para defesa desta contra intolerâncias (budista, sunita, xiita, calvinista, católica romana, marxista, o que for) que precisamos de nos armar até aos dentes.

 

 

 

 

 

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7.10.15

 

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Não há de ser nada…

 

 

 

Melhor: talvez até possa ser tudo. A crise da imigração, encarada ao gosto de cada um, de Helsínquia a Bucareste, de Londres a Paris, pelos políticos mais demagógicos das nossas praças – a Hungria que arrancara arame farpado cortante da sua fronteira para pessoas poderem fugir dela para o Ocidente em 1989, repô-lo agora para impedir outras pessoas de entrarem nela a caminho da Alemanha, que as quer acolher – estimula políticos que agitam espantalhos julgados de efeito seguro junto de eleitores assustados. A Europa é cristã, dizem eles, a mourama está à porta e, se a deixarmos entrar, o Estado Islâmico vai, pelo menos, encher isto tudo de terroristas, ou talvez até tomar conta do governo de um ou outro dos nossos países (como o escritor francês Michel Houllebecq imaginou para a França num romance de ficção histórica de sucesso). No Médio Oriente há quem sonhe com tais triunfos: em 1992 o Chico Quevedo, nosso embaixador em Ancara, viu numa manifestação de apoio aos muçulmanos dos Balcãs cartaz que rezava: “Não deixaremos que a Bósnia se transforme numa segunda Andaluzia”.

 

Mas o sonho não passa disso, do sonho de escassos entusiastas, e a ideia de que se poderão ressuscitar guerras religiosas na Europa - espantalho plantado por muitos desses demagogos - é profundamente disparatada. O que caracteriza a Europa – a União Europeia e os seus Estados Membros – não é ser cristã, embora o tenha sido durante séculos, a sua cultura esteja impregnada de cristianismo e parte considerável dos seus habitantes pertençam a igrejas cristãs: católicas, ortodoxas, protestantes. O que caracteriza a Europa é ninguém nela poder ser preso ou perseguido em justiça devido às suas crenças ou práticas religiosas. A separação entre estado e igreja é radical – mesmo quando haja uma igreja oficial e o chefe do estado seja também o chefe dessa igreja como acontece em Inglaterra (conhecida, além disso, por ser considerada o berço da democracia e nos ter dado a Magna Carta). Quem poderá ter problemas aqui não serão os europeus mas alguns dos recém vindos do Islão que abracem variedades deste intolerantes de outras crenças: esses, se não se adaptarem, terão de se ir embora. Guerras religiosas já as corremos do nosso seio há muito tempo.

 

Quanto à questão de fundo: os imigrantes precisam da Europa e a Europa precisa dos imigrantes. Para manter o equilíbrio de hoje entre população activa e o resto, a Alemanha necessita 500.000 migrantes por ano até 2050. Há demografias menos atrapalhadas mas, com diferenças de grau, o problema é de todos. Cabe aos políticos encaminharem as coisas de maneiras que nos convenham e, guiando-me pelo passado, julgo que tal acontecerá. Por duas razões: 1 Na Europa, quando as coisas vão bater no fundo aparecem chefes à altura (Churchill; De Gaulle; Soares em 1975). 2 Desde o começo, a construção europeia progrediu de zaragata em zaragata - e a crise da imigração vai obrigá-la a dimensão política que lhe tem faltado.

 

 

 

 

 

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30.9.15

 

 

 

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Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

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O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

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26.8.15

 

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Fés

 

 

 

Foi no século XX que se descobriu que o Bispo Pedro de Santa Maria, um dos mais zelosos inquisidores espanhóis, tinha nascido judeu, chegara a rabino em família de rabinos, e só aos trinta anos virara católico. Quem se espante, não devia. No mundo de twitters, Facebook, selfies, ponha os olhos nos rapazes e nas meninas que em Bordéus, Manchester, Santa Comba Dão – poderá acontecer lá também - troquem confortos multiculturais do estado social europeu pela certeza sangrenta que oferece o Estado Islâmico do Iraque e da Síria. (Alexandre O’Neill sabia que a sociedade de consumo iria dar para o torto: Sonetos garantidos por dois anos./E é muito já leitor, que mos compraste/Para encontrar a alma que trocaste/Por rádios, frigoríficos, enganos…)

 

Poderemos mais pacatamente lembrar-nos dos neocons americanos que desencaminharam George W. Bush ou de alguns liberais europeus apologistas da austeridade. Viveram, uns e outros, juventudes embebidas nas extrema-esquerdas dos respectivos países. Muito inteligentes e lidos, na minha experiência do seu convívio partilham uma pecha. Sem folga entre certezas ideológicas da juventude que repudiaram e certezas ideológicas da idade madura que abraçaram, são incapazes de perceber que as vidas das pessoas não se regem nem por umas nem por outras. Quase dão razão ao alentejano orgulhoso, baixo com cara de homem alto, que um dia me perguntou: “O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba?”

 

Geralmente são incorruptíveis - o que no Portugal de hoje os torna bentinhos – mas não confundir alhos com bugalhos. Não esquecer que incorruptíveis também foram Robespierre, em França; Salazar, em Portugal; o Mullah Omar, no Afeganistão. Vão fazendo muito mal ao mundo porque a sua paranoia doce os leva, num passe de mágica, de premissas incontestáveis a conclusões dementes.

 

Florescem muito bem em tempos de crise. Em Les Dieux ont Soif (Os Deuses têm Sede), romance de Anatole France passado na Revolução Francesa durante o Terror, Évariste Gamelin, pintor, membro do Comité de Salvação Pública, jacobino apaniguado de Robespierre, cruza-se num jardim de Paris com mãe burguesa nova e bonita acompanhada por filho pequeno brincando com uma bola que rola até aos pés do pintor. Este devolve-a, recebe sorriso contente e grato da burguesa e a seguir pensa, com tristeza resignada, que para que aquela criança viesse a ser feliz em crescida, talvez fosse preciso guilhotinar a mãe.

 

A jantar com liberal iluminado – marxista duro nos seus verdes anos - e católico reflectido, daqueles a quem o Dr. Mário Soares chamava “a direita inteligente”, tornei a confirmar o meu preconceito. Não há mais erudito, racional (e bem educado) do que o liberal mas, fosse ele a mandar, galoparíamos para a chamada luta de classes com vigor inédito desde a guerra de Espanha. O católico constante sabia que, embora o Bem esteja sempre longe, muito mal pode ser evitado usando de bom senso, decência e - lembrai-vos? - amor do próximo.

 

 

 

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19.8.15

 

 

belmonte4--644x362.jpgJuan Belmonte

 

 

 

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Melhores dias?

 

 

Paul Kruger, presidente da república do Transvaal, derrotada pelos ingleses na Guerra dos Boers, e Grã Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição (nos anos a seguir ao ultimato inglês não morríamos de amores em Portugal pelo nosso aliado mais antigo, além de que havia por toda a Europa grande simpatia pelos africânder, que só passaram a maus depois de inventado e imposto o apartheid em 1948) finou-se exilado na Suíça em 1904, convencido de que a Terra era plana: forte leitor da Bíblia e fraco leitor de tudo o resto, passara pelos feitos de Fernão de Magalhães e Galileu Galilei como cão por vinha vindimada e ficara-se pela interpretação que dera ao evangelho.

 

Presumo que hoje, por causa de fotografias tiradas de naves espaciais, não ficaria na sua. Nenhum dos 17 candidatos a candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos na eleição do ano que vem (17 quando escrevo; quando a leitora me ler poderá já haver mais) até agora o fez. Ora como, por um lado, parte deles é gente cujo catecismo, sem interferência exterior, a levaria a essa crença e todos eles são gente pronta a declará-la mesmo que não a sintam se tal fizesse ganhar votos em Novembro de 1916 na Cintura Bíblica do Sul dos Estados Unidos, é de supor que, pelo menos nisso, o Partido Republicano profundo – a gente da Festa do Chá; a gente que iça a bandeira da Confederação esclavagista batida na guerra do Norte contra o Sul em 1865 – se curvou a algumas evidências científicas que travejam hoje o entendimento do mundo.

 

Reconheço ser difícil. Tirar a Terra do centro do mundo e pô-la a transladar à roda do Sol deu tonturas metafísicas no século XVII mas isso é café pequeno comparado com o que nos cabe a nós. Sabemos hoje que há no Universo milhões de nebulosas como a nossa – a Via Láctea - as quais têm cada uma milhões de estrelas, a milhões de anos-luz umas das outras, muitas com planetas orbitando-as. É difícil de imaginar. Simples questão de magnitude ou, olhando para a Terra, de insignificância? Parece que não. Eu sou ateu mas católicos com cabeças bem melhores do que a minha dizem-me que nada disso torna mais ou menos provável o Deus de Abraão, Isaac e Jacob.

 

Porque a gente pensa em muitas outras coisas. Há anos, em impressos da Universidade da Califórnia, quem se matriculasse punha uma cruz em “macho” ou “fêmea”. Hoje tem 6 escolhas: macho, fêmea, gay, transsexual macho, transsexual fêmea, outra – tal é a largueza do reino de Deus. Além disso, cada pessoa tem vida e morte suas e que se lixem os biliões de estrelas. Juan Belmonte, com problema numa perna, inventou o toureio parado (aquele que vigora há quase 100 anos). Não foi morto na praça por um touro como o seu mais mexido rival, Gallito. Cortou a coleta e, glória nacional, aos 70 anos apaixonou-se por rejoneadora colombiana linda, 50 anos mais nova: ela deu-lhe tampa e ele deu um tiro na cabeça. (A pequena depois dizia que não tinha sido bem assim mas assim ficou para a História).

 

 

 

 


27.3.15

 

 

My Years in Angola (1950-1970) 

Andries Peter van der Graaf

 

Other posts:

My Years in Angola (1950-1970)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

My Years in Angola (5)

 

 

nestles-milk-banner

 

 

 

 

In the '50s, business with Nestlé was developing very well, for which we held the monopoly. At first condensed milk was the main product, then milk powder replaced it, as well as all sorts of baby food. We were not able to remain sole agent, in part as a result of pressure exerted by C.U.F. (Companhia União Fabril) on S.P.L. (Sociedade Produtos Lacteos).

 

 

 

 

 

 

 

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S.P.L. (Sociedade Produtos Lacteos)

 

 

For many years it was only possible to import milk products from Portugal (significantly more expensive than Dutch milk powder, for example) as no import licenses were issued for foreign milk. Later on, this situation changed. Only in later years was fresh milk available in the cities, and also sterilized milk, mainly from Cela.

 

 

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Cela, Angola c. 1960

 

Cela is a colony for white Portuguese settlers, situated in a highly fertile area of Central Angola, along the Cuvo River, most probably formerly a river bed.

 

 

12 Colonization project at Cela

 

 

Cela c.1960

 

 

A lot of money was squandered in Cela because things were done in a disorganized fashion (land planning took place when work had been on-going for over ten years, thousands of head of cattle were imported from Denmark and which were unable to adapt to the climate, colonists were recruited in Portugal more on the basis of connections than suitability). Still, it was an interesting project, to which we also contributed a good deal. One big client was the colonists' Cooperative, though unfortunately they were always short of cash, and couldn't pay their debts.

 

 


10 House of a colonist at Cela

 

Cela c.1960

 

Cooperation is not a strong point in the Portuguese. They are too individualistic for that, they say so themselves. The only Cooperative with which we had no financial problems was one in which the members were mostly Germans. Here and there in Angola there were some groups of Germans, among them the Mannhardt brothers, for example in Calulu, where they very successfully grew coffee.

 

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A.P. van der Graaf visiting a coffee plantation

 

8 With Dutch padre

 Kees, Betty and Joyce with Dutch Padre

 

Sometimes missionaries came to buy goods from us and I was invited by them to come and have a look at their mission services. These were at Dondi, some 80 miles from Nova Lisboa. It was a Protestant mission, "Congregational", American and Canadian. This was a big mission, providing teaching in a number of subjects including agriculture and other trades, as well as providing medical care, including a leper colony. It covered a large area, many brick buildings in which the various services, hospitals and workshops were housed. 

 

 

 

 

IGREJA LUTAMO 1

 

 

Dondi Mission, Angola

 

Means School, 1950's

 Means School, Dondi, 1950's

 

 

 

What I remember best is the choir singing led by one of the American missionaries. The Bantu have an exceptional sensitivity to sound and rhythm, and the choir master had, I thought, brought them to a high level of performance.

 

Listen here to Angolan Umbundu music 

 

See here ruins of Dondi mission (Images of Angola - Noel Henderson-James, 2011)

 
 

 

... to be continued...

 

 

 

Andries Pieter van der Graaf

Jan/Feb 1974
Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

Album "Vintage Angola" on Flickr 

 

 

 

Notes:

 

Read post # 1:  My Years in Angola (1950-1970) here

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e disponibilizaram fotografias do espólio do autor.

 

Images and Photos:

NestléLeite Condensado

S.P.L.: Restos de Colecção

Means School, Dondi: Nancy Henderson-James

Music:

Angolan Umbundu Music: Nancy Henderson-James

 

 

 

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11.3.15

 

 

 

Bentiu, UNMISS Camp.jpg

 Bentiu, UNMISS camp

 

 

 

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Em terras do Preste João

 

 

Sexta-feira passada, em Adis Abeba, sede da União Africana, capital da Etiópia (onde há muitos séculos reinou Preste João, rei cristão que os nossos navegadores esperaram em vão encontrar) conversações de paz entre governo e rebeldes do Sudão do Sul, o mais jovem país independente do mundo, acabaram sem acordo, apesar de terem sido prorrogadas de um dia – declarou num comunicado o primeiro-ministro etíope, Hailemariam Desalegn, lamentando não ter sido possível tirar as duas partes do desentendimento onde se tinham metido quanto a: justiça durante a transição, partilha do poder e segurança. Três dias antes, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptara por unanimidade resolução impondo sanções a qualquer das partes que prejudicasse esforços de restauração da paz no Sudão do Sul mas não fora ao ponto de proibir compra de armas pelas facções em guerra: a tribo Dinka, leal ao presidente Salva Kir e a tribo Nuer, fiel ao antigo vice-presidente Riek Machar, que juntas fazem mais de 50% da população do país. (Percebe-se que o Conselho de Segurança não tenha tocado no comércio de armas: os seus cinco membros permanentes – China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – são grandes exportadores de armamento e já têm razões de sobra para se desentenderem).

 

Muito antes das achegas tecnológicas e cosmopolitas – armas automáticas; assento na Assembleia Geral das Nações Unidas – Dinkas e Nuers, andavam nus, não sabiam ler, pastoreavam bois e batiam-se muitas vezes uns contra aos outros à lançada. Assim os encontraram os ingleses que trouxeram administradores, negociantes, missionários e mais espingardas (as primeiras tinham chegado com os árabes); continuaram a bater-se sob governo de Cartum no Sudão independente e agora, que o feitiço do petróleo e teimosia metafísica cristã ou animista levaram o sul à independência, depois de mais de 20 anos de guerra civil – o Sudão “do norte” é muçulmano – à bulha permanecem. Até agora colonização e globalização não tocaram muito em valores e crenças (a religião Nuer, de resto, não fica atrás dos Evangelhos e dos doutores da Igreja em profundidade e sofisticação) mas morre muito mais gente dum lado e doutro. E há milhares e milhares refugiados.

 

O Sudão do Sul é longe da Europa mas pelo meio não há muitos oásis de paz. Não é só porque da paz não veem notícias. Se se pintarem num mapa lugares de conflito aberto ver-se-á como estes abundam e persistem ou, quando acabam, deixam chagas ruins de sarar (para eles não há, como houve para a Europa ocidental a seguir a 1945, nem Plano Marshall nem OTAN, a seguir a resultado indiscutível).

 

Alguns são perto demais para ficarmos no nosso conforto irresponsável (Ucrânia malferida por Putin; atrocidades do Califado no Médio Oriente). Os europeus têm de passar a gastar mais em defesa, de se reforçar na OTAN e, até terem uma política de defesa comum, de reestabelecerem, todos eles, serviço militar obrigatório. Para começar.

 

 

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18.2.15

 

 

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 Foto Sonda Cassini

 

 

 

 

 

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Agora e na hora da nossa morte

 

 

António Alçada Baptista travou-me o braço e disse-me enquanto atravessávamos o foyer do teatro Maria Matos onde nessa tarde havia uma recepção: “Estou a escrever um livro porreirinho sobre Deus”. Eu chegara de Oxford uma hora antes para meia dúzia de dias na Pátria, não nos víamos há meses e assim recebi anúncio da Peregrinação Interior. Da boca do cavalo, dir-se-ia em inglês.

 

Tempo mais simples do que o nosso de hoje. Três séculos intensos de zaragatas europeias tinham acabado em muitos lugares por separar a Igreja do Estado; blasfémia era pecado mas deixara de ser crime. A fé de cada um - como os gostos de cada um - não se discutia. O nazismo fora derrotado e destruído; o comunismo estava cantonado até que o seu próprio peso o fizesse desmoronar. Na Europa Ocidental vingavam decência entre governantes e governados e comedimento na partilha do latifúndio, inéditos na história.

 

O Portugal de O Tempo e o Modo esperava pelo 25 de Abril e o Deus do António era o Deus hebraico de Abraão, Isaac e Jacob, mais tarde também de Jesus Cristo e, mais tarde ainda, de Abu Al Cassem Ben Abdalá Ben Al Mutalibe (Maomé significaria O Glorificado). Os estragos feitos ao longo da história pelo monoteísmo começavam a ser esquecidos em ambiente que André Malraux apreendera bem: “Somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem”.

 

Éramos. Talvez ainda se escrevam livros porreirinhos sobre Deus, nos quais a leitora encontre apreciação da vida, benevolência e tolerância, longe de polémicas teológicas – longe, na aparência, de qualquer teologia. Mas onde hoje mais ouvimos falar de Deus, é nos feitos do Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou de Boko Haram na Nigéria, um Deus antropomórfico, primitivo, cruel, sangrento, cujos fiéis oferecem à outra gente conversão ou morte – ou começam matando, se mais jeito der. Nova Iorque, Washington, Londres, Madrid, Paris, Copenhague – a procissão ainda vai no adro. E, em partes da cristandade – por exemplo, na Rússia – igrejas opressivas recuperam poder temporal.

 

Entretanto, a ciência vai mudando o conhecimento do mundo de maneiras tão inesperadas e com tal rapidez que o presente – e não apenas o passado – às vezes é como se fosse país estrangeiro, com língua e hábitos diferentes dos nossos. Mudanças de paradigma sucedem-se em cascata. E a passagem de novas teorias, intuições, palpites, de mentes científicas para entusiasmos leigos faz-se num momento e sem filtro, devido à panóplia de meios de comunicação hoje ao dispor de cada um.

 

Nesta mistura adúltera de tudo, diz-me amigo entendido em coisas americanas, lá quase todos os movimentos feministas debatem o género da divindade, ao ponto de usarem o feminino nas orações. E que Deus seja um robot, nem macho nem fêmea, dados os progressos em inteligência artificial, etc., será decerto sugerido um dia destes. Separando de uma penada o físico do moral; o que é do que deveria ser. Até à guinada seguinte…

 

 

 

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22.12.14

 

Presépio Popular de Barcelos .jpg

 

Presépio popular de Barcelos

Panorama nº 24 - III Série - Dezembro de 1961

 

 

 

 

Associação Portugal à Mão aqui 

 

 

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12.12.14

 

A descoberta de inéditos do Romanceiro de Almeida Garrett foi anunciada a 7 de Dezembro de 2004 pelo Diário de Notícias [1]. No dia 9 de Dezembro do mesmo ano, integrado num caderno dedicado ao Autor por ocasião dos 150 anos da sua morte, saiu no Público [2] o romance popular “Fonte da Cruz”. 

 

 

Fonte da Cruz título.jpg

 autógrafo de Almeida Garrett

 

 

As primeiras e últimas coplas deste romance são uma das mais antigas reminiscências de minha infância. Estou daqui vendo ainda o grupo de crianças que nos sentávamos no chão para o ouvir contar a uma certa pequena pouco mais velha que nós, filha de uma boa mulher que fora ama de leite de minha mãe. Isto é dizer que eu teria quatro anos, os mais velhos de entre nós seis ou sete, e a nossa cantora os seus oito ou nove anos. Era uma santa gente que morava para o Bom Jardim, no Porto, e vivia de pequeno mas honesto tráfico, protegidos por meus pais. A filha ia passar oito ou quinze dias no “Castelo”, pequena quinta nossa, situada daquém Douro. E era um dia de alegria o em que ela chegava, era choro que não acabava quando se partia. Porque ela sabia, além destes cantares ao divino, todas as xácaras da Silvana, da Bela Infanta, e mil outras histórias em prosa e verso, como as da «Maria Cortiço», da «Maria Sabida» do «Rei dos Ratos», «Gata Borralheira», «Rei Ramiro» além de infinitas aventuras de bruxos, lobisomens, moiras incantadas [3] , duendes, etc, cujos títulos individuais me não lembram; era um romanceiro vivo, uma segunda e mais completa edição daquela erudita e copiosa Brígida velha que, em outros lugares de minhas escrevinhaduras, tenho celebrado e citado.

 

Estas primeiras e últimas coplas eram as que só me lembravam quando a nossa lavadeira, que é uma boa mulher de Loures, aqui veio hoje, 15 de Abril de 1843, e a ouvi cantando a trova na cozinha donde a chamei e, sem grande dificuldade — coisa rara ! — pude obter que ma deixasse copiar, o que fielmente fiz, emendando apenas algum verso demasiado esticado ou curto demais: que poucos foram.

 

Fonte da Cruz

 

Deixa-me ir à fonte nova

Que nasceu ao pé da Cruz:

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

Um cego, que abriu a fonte

O cego já achou luz,

Que lhe deu água nos olhos

Da fonte da vera Cruz.

 

Fonte nova, fonte santa,

Fonte de amor que reluz!

Santa Maria ao pé dela,

San’ João com seu capuz.

 

Outra fonte fazem ambos

A chorar o seu Jesus.

—“ Minha mãe, esse é teu filho”

Diz o Salvador da Cruz,

 

“João, essa é tua mãe,

Que assim o quero e dispus

À hora da minha morte;

E cá vos fique esta luz:

 

Que o meu amor não tem fim,

E que entre vós dois o pus

Para se lavar o mundo

Na fonte da vera Cruz.”

 

Quem quer vir à fonte nova

Que se fez ao pé da Cruz?

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

 Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Notas

 

1. Almeida Garrett foi «o primeiro compilador do nosso Romanceiro, ou seja, de narrativas diversificadas, de vária índole, da nossa tradição oral popular, destinadas a serem meio recitadas, meio cantadas» explica a investigadora Ofélia Paiva Monteiro. O autor terá dedica­do grande parte da sua vida a esta recolha. «Entre 1843 e 1851, Garrett editou os três tomos do "seu" Romanceiro, dizendo na Introdução do segundo que a sua colecção viria a ser consti­tuída por cinco livros», lembra esta professora. Mas o elenco publicado só corresponde aos li­vros I e II. «Os manuscritos ago­ra achados parecem comportar o material compilado para os to­mos que não chegaram a vir a lume; e complementam mate­rial que já tinha sido dado a co­nhecer por um Cancioneiro, au­tógrafo garrettiano (que traz a indicação de ter sido começado em 1824)».

 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

 

2. "Fonte da Cruz", um poema recitado por uma lavadeira saloia de Loures, foi descoberto em Março [2004] pela família Futscher Pereira num espólio herdado, e mantém-se inédito. Este poema (também chamado "romance" ou "cancioneiro") da tradição oral popular tem origem medieval e Almeida Garrett reuniu-o no Livro III das "Lendas e Profecias", todo ele inédito. Começa com uma introdução, do próprio Garrett.

 

Público, 9 Dezembro 2004

 

3. Na transcrição dos manuscritos para o Público, desdobraram-se abreviaturas e pontuou-se raramente para compreensão dos textos, mantendo embora a redacção de palavras peculiares na ortografia garrettiana (como "incarregar" ou "incantadas". [Luís Augusto Costa Dias]

 

 

4. Sobre a divulgação dos manuscritos achados em 2004 leia também neste blog o post Long Live Garrett 

 

 

 

 

 

 

 

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8.10.14

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

O passado é um país estrangeiro

 

Já sabíamos e descobrimos agora que o futuro também o é. Não o futuro que havia dantes, oculto ou fantasiado por visionários. Mas o futuro que há hoje ao lado dos lares de terceira idade onde os protagonistas do passado agonizam (“em suma, somos os velhos, cheios de cuspo e de conselhos”), praticado por gente nova, homens e mulheres que falam outra língua, têm outros modos, fazem outras contas, tecem a revolução numérica, colonizam o país estrangeiro armado à nossa volta e, sem a gente entender bem como eles e elas sejam, única esperança que nos resta da Pátria vir a ter melhores dias — desde que dons e virtudes diferentes dos nossos, neles e nelas afinados, cheguem para as encomendas.

 

“E com muitas Avé-Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo”, rematou Fernão Mendes Pinto o relato da abordagem do junco do pirata Similau nos mares da China. (Ao tempo não havia Nações Unidas, nem Comissão dos Direitos do Homem, nem Tribunal Criminal Internacional). “Fartar, vilanagem!” gritou Álvaro Vaz de Almada, amigo de D. Pedro, aos áulicos do Rei que o acabavam à espadeirada em Alfarrobeira - em vez de, como fariam pimpões de agora, ameaçar mandá-los para a Haia. Durante pelo menos dois mil anos os europeus matavam e morriam de alma-e-coração; hoje, depois de meio século de Pax Atomica e de room service, não nos sentimos tentados a fazê-lo.

 

Juntamente com os americanos começámos a bombardear do ar os homens sanguinários e vestidos de preto que estão a devastar outra vez Síria e Iraque, assassinam barbaramente gente de outras seitas, querem massacrar todos os infiéis, tentam impor ao mundo o Islão mais fanático, estreito e cruel de que há notícia (pior ainda do que os outros monoteísmos) e, de vez em quando, degolam um dos nossos na televisão porque precisam de se convencer de que são homens e não rapazes. Ora os entendidos sabem que só com bombardeamentos aéreos não se conseguirá acabar com o Califado e se corre mesmo o risco de reforçar o seu prestígio e a sua atracção perante uma juventude muçulmana europeia alienada, que se sente cada vez mais excluída. Seria preciso mandar infantaria - “boots on the ground”, diz-se expressivamente em inglês – mas não há país ocidental que o queira fazer. Como, além disso, o moral e a competência das tropas locais deixam muito a desejar (à excepção das dos Kurdos, a quem o Tratado de Versailles de 1919 não concedeu pátria e nunca ninguém deu mimos) a aniquilação rápida do Estado Islâmico do Iraque e da Síria que seria higiénica e pedagógica para o futuro do mundo inteiro parece, no mínimo, muito improvável.

 

Se a História fosse uma corrida de estafetas regulada pelo Comité Olímpico Internacional não nos deixariam passar testemunho assim às gerações seguintes. Mas não é, o mal está feito e só nos resta esperar, como do jovem guerreiro cantado por Homero: “Que se possa dizer dele quando voltar da guerra: mas este é muito melhor do que era o pai.”

 

 


27.8.14

 

 

 

Brasão da Cidade de Évora

 

 

 

 

 

 

Decapitações

 

 

O brasão da minha cidade natal representa guerreiro a cavalo que levanta na mão direita um montante e segura na esquerda as cabeças, cortadas de fresco e agarradas pelos cabelos, de um homem e de uma mulher. É Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que para recair nas boas graças do rei D. Afonso Henriques que o banira da corte lhe ofereceu a tomada de Évora aos mouros. Para isso meteu-se a namorar a filha do vigia que, de uma torre fora de portas, indicava à noite, por sinais de fogo, se hostes que se aproximassem da cidade eram amigas ou inimigas. Ganha a confiança de ambos, organizou bando de gente sua, um serão degolou pai e filha, assinalou à cidade chegada de amigos, o bando cavalgou pela porta escancarada da muralha, matou os defensores num Credo e — Real, Real por El-Rey de Portugal! — Évora passou a ser nossa. Foi um dos momentos altos da reconquista cristã da Península.

 

Consta-me haver agora em Évora quem queira mandar o Sem Pavor para o caixote do lixo da História e inventar brasão que não ofenda correcção política. Espero que tal nunca aconteça. A correcção política liofiliza ditos e feitos de cada um, no afã de transformar a hipocrisia em virtude, e em Portugal agora o efeito é muito pior ainda do que em lugares que não tenham escolhido, como nós, a mediocridade para ambição e a subalternidade como regra de vida. Em anos passados, menos rasteiros, a despedida do trabalho ouvida a uma mulher a dias — “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe” —  já me parecera às vezes lema plausível para a política externa portuguesa. Desde então as coisas só têm vindo a piorar, incluindo a nossa aquiescência à adesão da Guiné Equatorial à CPLP que alia incongruência linguística e ganâncias despudoradas a incómodo moral, escusado para quem se proclamou democracia em 1976 e aderiu à Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Há quem goste de dizer que democracias são invenções ocidentais e que há outras maneiras de governantes e governados viverem a contento de todos. Mas a questão não é essa. É que, inter alia, o presidente fundador da Guiné Equatorial, país paupérrimo até à descoberta do petróleo, matou ou forçou ao exílio um terço da população, tendo crucificado adversários políticos dos dois lados de estrada que leva a Malabo e o sobrinho igualmente meio louco que o mandou assassinar e lhe sucedeu, além de manter a opressão brutal não se livra da fama de ter comido (literalmente) opositor exilado em Madrid que resolvera, insensatamente, voltar à pátria. Eu sei que tivemos o casal Ceaucescu em Queluz - mas que Diabo…

 

Voltando a decapitações. Lamentavelmente, as reacções dos Estados Unidos e da Europa às façanhas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria e do seu Califa de Rolex no punho têm sido sobretudo retóricas, o que é erro perigoso. Os americanos começaram bombardeamentos; esperemos que os continuem; que aliados aptos a fazê-lo se lhes juntem e que deixem por fim o EIIS como Roma deixou Cartago – arrasada e sem ninguém. 

 

 

 

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16.7.14

 

 

 

 Gustave Doré

 

 

 

 

Terra Santa

 

 

As coisas vão de mal a pior do lado de Bethlehem, a Belém original onde nasceu Jesus Cristo, sagrada para os três grandes monoteísmos do mundo, agarrados ao mesmo Deus. Apesar – ou por causa – disso o lugar não é pacífico. Há anos, amiga minha que passou o Natal em casa de belenenses, no sossego relativo de entre-duas-intifadas, logo no primeiro serão assustou-se com sirenes de ambulância na praça da Igreja da Natividade, mas o anfitrião disse-lhe para não ligar. “São os coptas e os ortodoxos”, explicou. “Estão sempre à briga. Não se matam mas partem cabeças”.

 

Sem a importância, o renome e os rastos de desgraça de xiitas e sunitas (nos nossos dias só partem cabeças), cada um insiste não só em que Deus há só um mas também que só a sua maneira de O amar é boa: todos os outros cristãos são hereges. Talvez, mas na Europa e nos demais Continentes já muito raramente cristãos partem cabeças uns dos outros por isso. (Falta de fé? Progresso moral?). Quantos aos monoteístas detentores da patente original, séculos de diáspora, de pogrons, de autos de fé, de antissemitismo, culminando na eficácia germânica do Holocausto e a criação de Estado próprio, mal aceite pela vizinhança, ensinaram-nos a defenderem-se primeiro de terceiros. (Embora não haja país com debates sectários mais vibrantes do que Israel).

 

É entre os mais novos da turma, os maometanos, que pendências internas fazem hoje mais estragos. O conflito ente xiitas e sunitas começou logo a seguir à morte de Profeta, no século VII da nossa era e, ao longo da História, teve altos e baixos de importância, segundo peripécias da força de outros poderes. A partir do século XIII o Islão viveu uma “contra-Renascença” que, a arrepio das suas melhores tradições, o afastou do progresso científico e do esclarecimento humanista que triunfaram na Europa. Colonizados por europeus e pelo Império Otomano, os povos do Norte de África e da Arábia viram-se distribuídos por novos estados, delineados por um francês e um inglês a seguir à Guerra de 14-18. O arranjo manteve-se até ao estabelecimento de “Califado” sunita, que rouba terra a Iraque e Síria, e renovadas aspirações curdas de independência. Em 1948, estabelecera-se o Estado de Israel, facilitado por culpa europeia e norte-americana, que expulsou populações. Israel foi bode expiatório para os potentados xiita (Irão) e sunita (Arábia Saudita) e seus vassalos, que içavam perante o mundo a bandeira do sofrimento palestino.

 

Está tudo a mudar. Riade e Teerão temem-se mais um ao outro do que temem Telavive. Os dois abominam o Califado, cuja crueldade consegue ofender padrões locais. A extrema-direita israelita é insuportável mas o Cairo espera ferventemente que Israel destrua o Hamas (compinchas dos seus Irmãos Muçulmanos). Salvo na Tunísia, as Primaveras Árabes acabaram. Vista de Telavive, a Europa é um vasto cemitério. Os EUA de Obama metem pouco respeito.

 

Em Bethlehem, brigas de ortodoxos e coptas continuarão a ser oásis num deserto ardente.

 

 

 

 

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9.7.14

 

 

 

 

 

João e o Papa

 

 

“Só quando estiverem cumpridas as condições” respondeu-me João, emigrado a seguir ao 25 de Abril, daí a um par de verões no Algarve, à pergunta voltaste à Pátria? “Salazar no poder, Marcelo Caetano na oposição, Freitas do Amaral na clandestinidade!”. (Para leitoras novas: nesses dias Freitas do Amaral era um político de direita).

 

As pessoas e os pianos pioram com a idade. Não tenho visto o João mas consta-me que a sua visão das desigualdades do mundo se agravou e é hoje igual à da gente do Tea Party nos Estados Unidos (ou da falecida Margaret Thatcher, nos dias em que a fúria contra os sindicatos a cegava): a culpa de haver pobres é dos pobres porque Deus assim quis. É disparate quase tão estúpido quanto a culpa de haver pobres ser dos ricos mas pouco lhe fica atrás. A crise veio açular opiniões extremas de ambos os lados — quando as coisas azedam procura-se inspiração na tradição revolucionária europeia e passa a falar-se do “outro lado da barricada”.

 

Na Europa onde, para quem a imagine do Sudão do Sul, só há ricos, o tempo das vacas gordas — quando se sabia que o dia de amanhã seria melhor do que o dia de hoje tal como o dia de hoje fora melhor do que o dia de ontem — não era tempo propício a invejas nem rancores. Mas campeiam agora no tempo das vacas magras em que entrámos circa 2010 e que entendidos garantem ser para a vida como eram dantes os fatos feitos em bons alfaiates e os automóveis Rolls Royce.

 

A direita pré-industrial e pré-cristã de João e dos Tea-Parties que odeiam os pobres assusta mas a exaltação franciscana da pobreza traz riscos próprios. Bernard Shaw escreveu que o primeiro pecado era ser pobre — se alguém lhe dizia que era inculto porque era pobre estava a desculpar um mal com outro pior, assim como se dissesse: sou coxo mas é da sífilis.

 

O Papa Francisco sente os pobres e quer ajudá-los mais do que fizeram os seus dois últimos predecessores, obcecados por comunismo e por sexo, condenando diferenças abissais entre pobres e ricos que se têm acentuado nos últimos decénios — aumento de desigualdades que, pensa o Papa, pensa gente de outras fés e pensam agnósticos e ateus, está a tornar o mundo mais injusto e mais perigoso. Francisco tem verberado a tirania da autonomia dos mercados e condenado proezas do capitalismo, com carradas de razão. Desde o colapso da União Soviética e o fim da ameaça comunista o capitalismo tomou o freio nos dentes em muitos momentos e lugares causando grande dano a milhões de pessoas e, salvo em raros casos nos Estados Unidos, ninguém foi preso e condenado por isso até agora. Continuou, porém, a ser, como tinha sido antes, o maior diminuidor de pobreza e criador de liberdade jamais inventado desde que o mundo é mundo.

 

Em 1323, um século depois da morte de S. Francisco de Assis, o Papa declarou herético quem pretendesse que Jesus vivera em pobreza absoluta e fez executar alguns franciscanos mais entusiastas. A alma humana é um abismo e estas coisas nunca são simples.

 

 

 

 

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18.5.14

 

 

  Alix de Saint-André

 

La puerta se abre a todos,

enfermos y sanos

no sólo a católicos,

sino aun a paganos, a judíos, herejes,

ociosos y vanos;

y más brevemente, a buenos y profanos.

 

                                                     Poema del siglo XIII

 

 

 

On peut se croiser, mais on n'habite plus dans le même monde que les automobilistes. Pendant qu'on tournicote sans fin sur nos sentiers, de village en village, ils foncent tout droit d'une ville à l'autre. Si j'avais voulu ne pas me perdre et gagner du temps, j'aurais pu aussi longer les routes nationales. Il y en a toujours une pas loin, les panneaux sont sans mystère, cela va plus vite et c'est plus court. Mais le raccourci se paye cher: on s'explose les articulations et les pieds à marcher sur la chaussée, on respire le parfum des pots d'échappement, et l'on passe à côté de l'essentiel. Des lieux et des gens. Le chemin n'est pas fait pour aller vite d'un point A à un point B, il est fait pour se perdre, et perdre du temps.  Ou prendre  son  temps,  si l'on veut. Retrouver un monde à taille humaine et ses humains habitants. Ses animaux et ses végétaux. Chaque nouvelle erreur est une nouvelle ren­contre, chaque pas sur un sentier en creuse davantage l'existence sur la croûte terrestre, et l'on zigzague autour de la modernité à quatre kilomètres à l'heure. A la vitesse (si l'on peut dire!) du pas humain. Dans un autre espace-temps.

 

Le chemin nous fait vivre dans un monde parallèle. A la fois tout près des villes, et au milieu de nulle part. Un monde de petits sen­tiers et de hameaux qui festonne les grandes routes. Un monde de maisons d'hôtes et de gîtes ruraux, où évolue aussi une population paral­lèle, qui a plaisir à être là où elle est. A vous montrer combien c'est beau chez elle. Et qu'il n'y a rien de meilleur que sa cuisine... Car si le chemin ne pousse pas au mysticisme, il ne passe pas davantage par l'ascèse, Dieu merci! Jésus a commencé sa carrière miraculeuse en changeant l'eau en vin aux noces de Cana. Et non seule­ment sa mère était là, mais c'est elle qui l'y a poussé... L'avantage parfois douloureux de redé­couvrir la faim et la soif donne aussi l'occasion de se mettre à table chaque fois avec grand appétit, et sans aucun souci de régime : un vrai miracle!

 

Alix de Saint-André

in  En avant, route!

©Éditions Gallimard, 2010

 

 

 

 

 

 

 

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18.4.14

 

 

 

Goa? séc. XVII
Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra
Arquivo Nacional de Fotografia / Carlos Pombo da Cruz Monteiro

 

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6.4.14

 

 

 Jean Guitton

 

 

Cher Gyp,

 

As-tu une âme, mon petit chien?

 

J'ai séjourné, il y a bien longtemps, à Hickleton chez un grand seigneur anglais, Lord Hali­fax, que tu connais bien. Lord Halifax ne pou­vait se séparer de toi, son petit chien, qu' il avait appelé Gyp.

Gyp, je m'en souviens, tu prenais à cinq heures le thé avec lui. Tu étais de sa famille, comme l'est un frère. Mais ce qui m'a le plus surpris, c'est que lorsque tu es mort, ton maître t'a fait faire un petit cercueil et il t'a enterré près de l'église.

 

Un jour, je lui dis que sa conduite avec toi m'étonnait beaucoup : il te traitait comme si tu avais eu une âme, et donc une immortalité, Alors, le vieux lord me regarda en même temps qu'il te regarda. Il me dit : «Peut-être Gyp n'a-t-il pas d'âme (soul), mais Gyp a certainement un avenir (future). Car il a pour moi des mouve­ments d'amour — ici, ayant compris, tu aboyas — et tout mouvement d'amour est néces­sairement éternel, comme la beauté.»

 

Cette tendresse avait rapproché Maurice Genevoix de tes congénères, et de tous les ani­maux, en particulier des écureuils, qu'il affec­tionnait. Il disait que l'animal n'est pas une bête. Il est bien plus : l'animal, pour Genevoix, était un «préhomme ensoleillé».

 

Je crois à la souffrance des animaux. Il me suffit d'entendre la plainte des bêtes pour savoir qu'elles souffrent. Je ne suis pas comme Des­cartes qui, lorsqu'il donnait un coup de pied à un chien, le faisait sans aucune pitié, parce que le chien était pour lui une mécanique.

Saint Paul disait que les animaux gémissent avec la création tout entière.

 

Mais je crois à la souffrance des animaux d'un point de vue religieux. Car le Christ sur la croix était semblable à un agneau blessé. Selon saint Jean, le Christ est mort au moment même où l'on immolait les agneaux pour célébrer la pâque juive. Par son oblation, Jésus mettait fin aux autres sacrifices : il est devenu le seul Agneau.

Et de ce point de vue, je pense que l'animal qui souffre est associé d'une manière très lointaine à la Passion.

 

Et c'est pour toi, Gyp, que je me récite le quatrain de Gérard de Nerval:

 

 

Respecte dans la bête un esprit agissant:

Chaque fleur est une âme à la nature éclose.

Un mystère d'amour dans le métal repose,

Tout est sensible! Et tout sur ton être est puissant

 

 

 

Jean Guitton

in Lettres Ouvertes

© Éditions Payot & Rivages, 1993

 

 

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29.3.14

 

 

 

Le Métis de Dieu

Ficção/ Drama

 

Domingo, 30 de Março 2014 às 17h30

 Cinema S. Jorge, Sala Manoel de Oliveira 

 

 

A surpreendente história de Jean-Marie Lustiger, filho de emigrantes judeus polacos, em França, que manteve a sua identidade cultural judaica mesmo depois de se converter, ainda jovem, ao catolicismo e de ser ordenado padre. Subindo rapidamente na hierarquia da Igreja, Lustiger foi nomeado Arcebispo de Paris pelo Papa João Paulo II, em 1981, e estabeleceu uma nova postura que respeitasse a sua dupla identidade enquanto judeu católico, o que lhe granjeou amigos e inimigos de ambas as facções.

 

Após a exibição do filme haverá um debate com a participação de Padre José Tolentino de Mendonça e Rabino Eliezer di Martino moderado por António Marujo.  

 

 

Entrevista com o realizador Ilan Duran Cohen aqui

 

 

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23.2.14

 

Congopresse Study photographs, 1930-1960 

Photographs taken by Congopresse photographers in the Belgian Congo. Accompanying the images are French and Flemish language captions which include specific information on locations and photographers, though often without dates.

 

 

Léopoldville, 1 Juillet 1948

H. Goldstein / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

A Léopoldville,le 1er juillet 1948, un Te Deum a été chanté en plein air devant le monument au roi Albert 1er, par S.E. le Cardinal Van Roey, Archevêque de Mâlines, Primat de Belgique, à l'occasion de 1'anniversaire de la proclamation de l' Etat Indépendant du Congo. Aussitôt après fut inauguré le monument aux Pionniers qui, il y a cinquante ans, construisirent le Matadi à Léopoldville, le premier chemin de fer de la Colonie. 

 

Léopoldville, 1 Juillet 1948

H. Goldstein / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

Te Deum: vue de la place et du boulevard Albert 1er

 

Léopoldville, 1 Juillet 1948

H. Goldstein / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

Les enfants des travailleurs indigènes de L'Otraco, organisme qui assure la gestion du chemin de fer, défilent devant les autorités à la fin de la cérémonie.

 

 

 

Sobre a minha colecção de fotografias Congopresse leia o post "No Congo" aqui e veja mais fotos clicando na tag "Congo".

 

 

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1.1.14

 

 Gerhard Richter, Neger (Nuba), 1964, 145 x 200 cm, Oil on Canvas, Courtesy of Gagosian Gallery © Gerhard Richter, 2012

 

 

 

 

 

 

 

Nuers e Dinkas

 

 

Do Sudão do Sul, 193° membro da ONU, chegam más notícias. O novo país, paupérrimo sobre ricas reservas de petróleo, de população dantes dada a religiões não-reveladas, mas mais ou menos cristianizada por missionários europeus e americanos durante o Condomínio Anglo-Egípcio, ficando integrado no Sudão desde a descolonização de 1956, entrara em guerras sangrentas com o governo muçulmano de Cartum durando mais de 20 anos para conseguir independência que o libertasse das tribos islamizadas e esclavagistas do norte. Guerras por fim ganhas pelo sul, tendo causado 2 milhões de mortos, esperava-se que houvessem cimentado sentimento nacional entre as duas grandes tribos pastoralista e guerreiras do país, os Nuers e os Dinkas (que há menos de um século andavam nus, viviam do gado, se administravam sem governo e combatiam à lança).

 

Esperança vã. Eleições deram maioria à tribo maior, os Dinkas; o Presidente eleito convidou um Nuer, para vice-presidente - mas correu com ele em Julho e a curta paz acabou. Em 9 dos 10 estados federados do país grassam guerrilhas, reprimidas com tortura e massacre de civis. Dinkas e Nuers resvalam para guerra com 50.000 civis a pedirem protecção à ONU (que dobrou para 12.500 a força que lá colocara). A conselheira de segurança do Presidente dos Estados Unidos fez às partes as exortações piedosas do costume – renúncia à violência; diálogo – mas Washington, sobretudo desde o show de Obama na Síria, não mete o respeito que metia.

 

O Sudão do Sul é ao lado da Republica Centro-Africana, à beira de guerra civil entre maioria cristã e minoria muçulmana que começaram a matar-se uns aos outros. Como a expedição ao Mali foi a coisa que menos mal lhe correu desde que é presidente de França, Hollande mandou logo tropa para Bangui, onde estão também forças da União Africana. Soldados do Chade, muçulmanos, já foram assassinados por cristãos locais. Perante o descalabro, Samantha Power, embaixadora americana na ONU, fez uma visita relâmpago a Bangui onde exortou toda a gente a portar-se bem prevenindo que os Estados Unidos “estavam atentos”. Autora premiada de livro sobre genocídio (que enferma da pecha americana de ver o mal e o bem a preto e branco), conselheira de Obama, sumida enquanto Hillary Clinton foi Secretário de Estado (dissera, julgando que um microfone estava desligado, que Hillary era “um monstro”) voltou à cena sem ter aprendido nada.

 

Se os Estados Unidos perderam de vez o jeito de agarrar o mundo pela pele do pescoço, como se agarra um gato – jeito que lhes ganhou duas guerras mundiais e a guerra fria - a megalomania de Putin, a convicção de superioridade dos chineses, agitar-se-ão para ocupar o lugar vazio. Nenhuma delas o conseguirá mas para os europeus vão ser tempos duros. Sem América forte e decidida não haverá ordem no mundo. E sem ajuda americana os europeus nem terão o preciso – reabastecimento aéreo, munições de precisão, espionagem – para mandar fazer pazes em brigas africanas.

 

 

Ano Novo feliz!

 

 

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22.12.13

 

 

 

   João Bénard da Costa

 

 

 

[...] Naquele tempo, as crianças como eu não recebiam os presentes na noite da véspera. Os adultos escondiam cuidadosamente da nossa vista o que tinham comprado em nome do Menino Jesus (Pai Natal não existia ainda). Deitavam-nos, prevenindo que noite, muito noite, o Menino desceria pela chaminé da lareira da sala, para pôr as prendas nos sapatinhos que lá tínhamos deixado, antes de ir para a cama. Só as podíamos ver de manhã. E — não fosse o diabo tecê-las — avisavam-nos que ai de nós se quiséssemos entrar lá, antes de eles lá nos levarem, de manhã e nunca muito de manhãzinha, pois que pais deitam-se tarde e não se levantam cedo.

 

Pela calada da nossa noite, enfeitavam a sala e distribuíam por oito sapatos (éramos quatro, nessa altura) as compras do Menino. Depois, a casa levantava a âncora para a travessia da noite, como me lembro de ter lido em Gide.

 

Mas a excitação fazia-me (fazia-nos) acordar muito cedo. Logo que via o Outão diante de mim, percebia que a hora era próxima. Os minutos pareciam horas. Sombreados e luzeiros fixavam-se — como numa pintura — e não os via moverem-se. Se o Menino não tivesse vindo? Se não acontecesse nada? Terrível era a tentação de me levantar e ir espreitar, mas o medo da desobediência e do tabu, tolhia-me. Houvesse uma Eurídice por perto, não sei se teria resistido. Mas, como já disse, não havia.

 

Até que a porta se abria e me chamavam, com inconfundível alegria. Na sala, rompíamos os quatro ao mesmo tempo e, por mais esperado que fosse, o milagre era, de ano em ano, maior. Tudo aquilo, tudo aquilo só para mim. E era tão forte que um ano houve em que perguntei à minha Mãe como é que havia gente que não acreditava em Deus. A prova, irrefutável, era aquele maná caído do céu nos meus sapatos, coincidindo quase exactamente com tudo quanto eu tinha pedido.

 

Depois, muito depois, chegou o tempo de eu fazer de Menino Jesus para os meus filhos e depois, muito depois, o tempo de. obrigado pelo tempo deles, fazer de Pai Natal para os meus netos. Mas sempre que vejo as crianças precipitarem-se para o monte de embrulhos, maravilhosos e maravilhados, repete-se-me a antiquíssima questão e a antiquíssima certeza. A manhã de Natal de outrora, a noite de Natal de hoje é a prova da existência de Deus.

 

A mais absurda das provas? Obviamente, não vou argumentar. Mas já me apeteceria discutir se será mais absurda que as chamadas «provas racionais», nomeadamente as do santo de Aquino. Sosseguem que não vou por aí.

 

Apetece-me continuar em registo mágico, que é o registo destes musgos e destes presépios, destas palhinhas e destes reis. Sophia contou-me (Os Três Reis do Oriente) que Gaspar. Belchior e Baltazar viram a estrela que «mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria». E reconheceram-na logo «porque ela não podia ser de outra maneira». Quem reconhece a alegria das crianças, como quem vê a «carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência», não pode reconhecer estas coisas sem Te ver. «Como poderei suportar o que vi se não te vir?». É o oposto e é o mesmo.[...]

 

 

João Bénard da Costa

In Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, 1º volume pp.386-387 

[crónica Uma frincha na janela, 26-12-2003] 

© Assírio & Alvim

 

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14.12.13

 

 

 

 

 

Com a chegada do Bloco-Notas de José Cutileiro ao Retrovisor, e a pensar nos seus leitores, dediquei umas horas a arrumar a casa, ou seja a criar novas categorias ou etiquetas, as chamadas tags. A primeira crónica — O baú do Kremlin — inaugurou as categorias Alemanha, Rússia e Capitalismo.

 

Acrescentei ColonialismoComunismoCristianismoNazismoTerrorismo 

e Estados Unidos, temas que têm sido abordados neste blog e que faz agora todo o sentido terem tag própria.  

 

Tenho sido económica nas tags porque comecei com categorias o mais latas possível, que permitem agregar material muito diverso e se vão destacando na chamada nuvem de tags (na coluna da direita) à medida que cresce o seu conteúdoMuitos dos escritores citados neste blog estão assim simplesmente agrupados na tag Autores

 

Boa parte do material dos espólios familiares está em ÁlbumÁlbuns, Casas, Recordações.

 

Próximas "gavetas" a arrumar melhor serão Photographia, Fotografia e Snapshot. Na primeira estão guardados os textos de Autor sobre fotografia e as imagens até aos anos 20 do século XX.

 

Para encontrar um nome nos arquivos aconselho pesquisar neste blog, no topo da coluna direita.

 

 

Boa navegação!

 

 

A crónica O baú do Kremlin aqui

 

O Bloco-Notas de José Cutileiro sai à quarta-feira.

 

 

 

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31.12.12

 

 


postal (2012)


Radio Presenter Sister Melianise Gabreus, Les Cayes, Haiti
© Paolo Woods
World Press Photo 2012 aqui





25.12.12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22 x 38 x 23 cm 

Image from the CD-Rom The Madre de Deus Crib

photographs: José Pessoa/Cintra&Castro Caldas

© Instituto dos Museus e da Conservação / Museu Nacional do Azulejo  2007

 

on-line collective catalogue of Portuguese Museums  MatrizNet



 

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20.12.12

 

 

 Timor, anos 20 do séc. XX?

 


Jesus mouris iha manu kokoreek!  Jesus nasceu ao cantar do galo!

A luz do petróleo incendiava a casa de estrelas. E íamos, toda a gente, a família e os que viviam connosco em família, festejar o nascimento de Jesus que o galo anunciara.[…] Recebíamos presentes trazidos do bazar e que tinham entrado em casa às escondidas. Não eram bem brinquedos, mas coisas que nos enfeitavam — tecidos bonitos, alfinetes de ouro, chinelas bordadas...

A Princesa minha mãe morreu, era menina ainda. Mas o Natal ficou nos meus olhos e na minha alma como afirmação de que Jesus passeara por toda a ilha de Timor tal como o fizera desde Belém a Jerusalém.

 

*

 

Na linha de cultos lunissolares, que imprimiu e imprime sinais e marcas indeléveis na alma dos Timorenses, a consubstanciação de Maromak como ente supremo, Deus, não representava qualquer oferta de paz ou de alívio. Pelo contrário o conhecimento, a consciência de Maromak impunha receio e inquietação. […] Carregado de superstições, crente da existência de espíritos vagueando, dominado pela vontade e atitudes de bruxos e feiticeiros, responsabilizado pelos oráculos ou sacerdotes, o Timorense não pôde despir-se de todas as suas vestes ancestrais para com simplicidade tornar-se cristão. Isso explica em grande parte que ainda hoje se prenda tanto à terra e considere os objectos mais variados e lugares, montes, rios, árvores e casas como tabus ou luliks. De facto, entre o Homem e a Terra, e entre o presente e o passado há tão intimas e tão vivas alianças que dir-se-ia ser fácil fazer reviver todas as gerações do passado. De crenças totemísticas, há também animais luliks ou tabus, o que explica a atitude suave de todo o timorense para com os animais. Deve assinalar-se, para melhor acentuar a importância dos luliks na vida dos autóctones de Timor, que tabu significa exactamente uma prática supersticiosa da Oceânia que dá carácter sagrado a determinado ser ou a determinada coisa, proibindo o contacto com ele ou o seu uso. [...] O Cristianismo só o entendem na medida em que lhes garante o caminho para encontrar a Deus, mas querem, na busca, ter presente o melhor e mais subtil do seu passado. Por isso os uma-luliks ou templos permanecem na sua beleza estranha e misteriosa encastoados na paisagem grandiosa da ilha e cultuados pelos que têm os pés mergulhados no húmus mais fundo e mais rico daquele chão. Muitas das cerimónias dos uma-luliks, as de maior relevo, conduzem os crentes a um tal estado de histerismo que findam em incontroláveis orgias. As famílias autóctones cristãs já se despegaram dessas orgias, porque receberam a suavidade da Presença de Jesus e a magnitude da Sua mensagem. [...] Como no tempo em que eu era pequeno e a Princesa minha mãe menina, os autóctones cristãos dessa ilha suave e viril, fruto de uma inexplicável simbiose de beleza e força, cultuarão o Menino Jesus na noite de Natal. E tal como eu, também os meninos de agora ouvirão das bocas de suas mães as palavras de anúncio do Anjo Gabriel:

Ave Maria, graça barak liu iha Ita-Boot; Maromak ho Ita-Boot; Ita-Boot di'ak liu feto hotu-hotu; Ita-boot nia Oan, Jesus, di’ak liu.

Santa Maria, Maromak nia Inan, haro-han ba Na'i Maromak tan ba ami-ata salan, oras ne'e ho oras ne'ebé ami-ata becik atu mate. Amen.

 

 

Fernando Sylvan aqui

Excertos de “Iha Kalan Boot – Jesus Mouris –  Iha Manu Kokoreek” 

Foto (data desconhecida) e texto publicados em Panorama Revista de Arte e Turismo nº 24-III Série-Dezembro de 1961 - Edição do SNI, Lisboa

 


 

 

 



26.9.12

 




Sintra (Portugal) 1938:

Seated are T. S. Eliot and Guilherme Pereira de Carvalho, editor of «Lisbon-Courier». — Middle row (from the left): Robert de Traz, Jacques de Lacretelle, Mme de Lacretelle, Mme. A Ferro [Fernanda de Castro], António Ferro — Upper row (from the left): Máximo Buontempelli, Aldo Bizarri, J. Silva Dias.

 


In 1938 T.S. Eliot came to Portugal at the invitation of the Secretariado de Propa­ganda Nacional and took part in the jury which awarded the Camoes prize to Gonzague de Reynold. In June 1943 — in the middle of World War II — Eliot sent the editor of the Portuguese magazine «Aventura» Ruy Cinatti a letter: 

 

 

I am convinced (I may say in explanation) that the ultimate unity of Europe cannot come through identity of political organization, or a legal-political federation, or a vague brotherly love, or an identity of interest among the masses of the people, but from the unity of the Christian Faith, and the unity in diversity of civili­zation and cultures which Christianity brought about in the past.

And for the latter, I believe that the literary periodicals of the highest standards in each European capital have a responsibility, not only to their readers at home, but to each other.

For a few years it seemed as if my hopes might approximate as nearly to realization as human hopes can; and there were half a dozen literary periodicals, some now extinct, some, alas! the same only in name, which could, in time, have done a great deal in spontaneous co-operation (1).

We know what happened; and we saw political divergences, which in part represented a normal reaction against the nineteenth century illusion that there must be one ideal form of government equally suitable for every nation, encroach upon the field of culture, until political variety became cultural disunion. In a situation in which the chief cultural effort of each country is to protect itself against the culture of others, such interchange as my review The Criterion and the other reviews I have in mind required, became impossible.

Those of us who were engaged in that attempt during the twenty years between the wars, may have resigned our personal hopes, but have not, I am sure, abandoned our aspirations. We trust that Europe will not follow the same course again; and we look for another literary generation to realize our frustrated ambitions.

 

 

in "Lisbon Courier"  nº 33, Dezembro 1948


Notes:


1. The Managing Editor of «Lisbon-Courier» [Dr. M. W. Clauss] had met T. S. Eliot in 1928 in London, in his former capacity as Managing Editor of the «Europaeische Revue». Until 1932 this monthly revue, published in German in Vienna, Leipzig, and Ber­lin by Austrian Prince Charles Antoine de Rohan, established a close cooperation and exchange of articles with the «Nouvelle Revue Française» (Paris), «Nuova Antologia» (Rome), Ortega's «Revista del Occidente» (Madrid) and, last but not least, Eliot's «New Criterion».

 

2.«Lisbon-Courier» published this photo and text in 1948 to mark the award of the Nobel Prize for Literature to T.S. Eliot.

 

3. T.S. Eliot and the other members of the jury of Camoes Prize-1938 here





 

 


Ruy Cinatti aqui




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