11.10.17

 

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José Cutileiro

 

 

 

Voltas do Mundo

 

 

 

Na segunda-feira de manhã, a telefonia do carro lembrou-me que fazia 50 anos desde a morte de Che Guevara. 50 anos, dantes, eram um ror de tempo, mais do que a vida de muita gente (o meu Pai, por exemplo, morreu com 44, tinha eu 21); hoje os números são outros: casa-se bem mais tarde, muitas mulheres dão à luz pela primeira, e geralmente última vez por volta dos 40. Foi a pílula – a pastilha, dizia amiga minha, também aí há 50 anos, mas nunca ouvi mais ninguém usar a palavra com esse significado, de maneira que não figurará em dicionários de sinónimos: a excentricidade morreu com quem a inventou.

 

No começo de Outubro de 1967 eu vivia em St. Antony’s College, Oxford, e dava-me com economista francês, Jean-Marc Fontaine, chegado há pouco de Sciences-Po. Carregado de todos os preconceitos anti-ingleses que qualquer francês que se prezasse, fosse ele sans-culotte, ci-devant ou mistura dos dois, trazia consigo desde as batalhas de Azincourt, de Waterloo, teve todavia de ir reconhecendo, com relutância, os grandes méritos do que lhe davam agora a ler na pérfida Albion (embora a maneira de pensar fosse tão diferente da sua que lhe acontecia chegar ao fim do primeiro capítulo de um livro com a sensação de ter chegado ao fim do livro). Só na Páscoa seguinte, depois de discussão épica no correio de North Parade, ao virar da nossa rua, julgou entender. “Pourquoi ces types sont, d’une façon générale, si stupides mais leurs intellectuels sont, quand-même, assez astucieux? C’est que, pour eux, penser ce n’est pas naturel. It’s a job. You either do it well or you don’t do it at all”.

 

Jean-Marc era um romântico e quando a notícia chegou pela televisão, e a seguir nas capas de jornais, a preto e branco, com o Che deitado de costas morto, nu da cintura para cima, lembrando Cristo famoso pintado por Mantegna na Renascença, e soldados bolivianos armados em pano de fundo, que geralmente as redacções tiravam da fotografia, achou que era preciso mandar pêsames à embaixada de Cuba em Londres. Ele ia mandá-los, não era comunista mas o Che era figura impar que merecia homenagem e eu deveria mandá-los também. Eu tampouco era comunista; nem sequer tinha a simpatia por Cuba revolucionária que muitos lhe estendiam só por serem anti-americanos – eu não o era – mas também não chegava aos rigores dos que falam dos comunistas como de peste bubónica. O comunismo não foi uma doença; foi um remédio que falhou; o manifesto dos dois alemães (como o Sermão da Montanha do nazareno) não queria dar cabo do mundo, queria endireitá-lo. Deu para o torto; a emenda foi pior do que o soneto - mas o Che morreu convencido do contrário. Mandei os pêsames – e não parei de me arrepender. Passei a receber em quantidade e com regularidade exasperantes toda a espécie de propaganda impressa daquela ditadura de ilhéus, crassa e mentirosa, enquanto estive em Oxford. Três anos depois, quando mudei para Londres, o Colégio passou a devolver tudo e perderam-me o rasto.

 

 

 

 

 

 

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23.8.17

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Sacanas e bananas

 

 

 

Passam-se anos sem eu ver o Duro. Desde novos, privámos em passagens animadas da vida e ele conhece-me melhor a mim do que eu o conheço a ele - ou pelo menos é isso que eu sinto. (Outro com quem acontecia o mesmo era o meu chorado Zé Cardoso Pires e eu achava que tal se devia ao Zé ser romancista e eu não; com o Duro essa explicação não colhe). Encalhámos um no outro há dias e lembrei-me – lembro-me sempre que nos encontramos - de encalhe anterior, também no verão, à porta do Balaia, depois do 25 de Abril mas antes do Balaia ter virado Club Med.

 

“Voltaste?”. Fazia-o ainda pela finança internacional, em Londres ou numa das costas dos Estados Unidos.

 

“Não! Só quando as condições estiverem cumpridas”.                                                                                  

“Quais condições?”                                                                                                                                                  

“Salazar no poder; Marcelo Caetano na oposição; Freitas do Amaral na clandestinidade!” (Freitas do Amaral, nessa altura, considerava-se e era considerado de direita).

 

A mi me gustan las cosas asi: los hombres hombres; el trigo trigo!” afirma camponesa andaluza numa peça de teatro de Lorca. Camponesa que havia de ser, como o Duro, pessoa de um só princípio, de um só rosto, uma só fé, de antes quebrar que torcer. Como seria também o médico cujo nome me escapa, membro do Partido Comunista Português no tempo da clandestinidade, preso duas ou três vezes, esbofeteado pela Pide, que encontrei em casa da Mimi e do Fernando Bandeira de Lima, amigos dos meus Pais (ele também maltratado na António Maria Cardoso) e que, ao falar eu de inspector da Pide inteligente me interrompeu, indignado, porque a inteligência era um dom das almas superiores e, por isso, nenhum Pide podia ser inteligente.

 

Ainda haverá gente assim. O Duro é fino como um coral; o amigo dos Bandeira de Lima era burro; o que nos chegou da camponesa de Lorca não dá para saber – mas tudo seres morais e isso escasseia agora no pessoal político. Não só por cá (já lá vamos); falha no cimo mesmo do que chamávamos “O Mundo Livre”: Trump, palhaço pouco esperto, ignorante e malfazejo terá de ser corrido depressa; no Reino Unido não se vê hoje ninguém; em Berlim, automóveis poluentes e superavit escandaloso são demais para que a mediocridade da Senhora disfarce a Alemanha. Talvez Macron, se fizer os franceses perderem egoísmo e peneiras.

 

E nós? No tempo de Salazar o escritor José Rodrigues Migueis dizia que Portugal era um país de bananas governado por sacanas. Democracia e Europa trouxeram-nos harmonia: hoje somos, governados e governantes, bananas assacanados - ou sacanas abananados se a leitora preferir.

                                                                            

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16.8.17

 

 

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Greta Garbo em Ninotchka

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Elogio dos coca-bichinhos

 

 

 

Num fim de tarde sombrio do fim do Outono de 1967, em sala aquecida a gás da cave victoriana de Saint Antony’s College, Oxford, assistia eu a uma das cinco palestras sobre Marx dadas pelo Professor Chemin Abramsky, sumidade que vinha às quintas-feiras de Londres iluminar os nossos espíritos, quando ele declarou que Marx se dera imediatamente conta da importância para a história da Europa da Comuna Francesa como tal. “Engels”, acrescentou, “foi mais lento. Levou-lhe cerca de quinze dias”. (Talmúdico e germânico, Abramsky lera, inter alia, toda a correspondência entre os dois).

 

Percebi nesse instante que a vida académica onde há três anos me metera não era para mim mas passariam ainda mais sete – e revolta vitoriosa, por fartura das guerras coloniais, de maioria esmagadora de oficiais milicianos e do quadro das forças armadas portuguesas – até a deixar. Sem o espírito coca-bichinhos porém, não haveria ciência e sem ciência não teríamos, por exemplo, nem aspirina, nem aviões, nem o numérico. Outro exemplo: sem inclinação coca-bichinhos a meter ombros à sua visão, o frade de Brno não teria aguentado oito anos de registo da fecundação cruzada de ervilhas de cheiro - e não haveria genética moderna. Nada é simples. Quando Vasco Pulido Valente era candidato a Saint Antony’s, Raymond Carr, director do colégio perguntou-me se o meu amigo era realmente bom. “É um homem muito inteligente” respondi. “Com certeza. Mas porque é que um homem muito inteligente haveria de fazer investigação pormenorizada?”

 

Até hoje nunca ninguém soube o futuro e continuamos a não o saber. Mas, graças aos progressos da ciência (incluindo nesses progressos a liberdade de estudar o que se quiser e de publicar livremente os resultados desses estudos) tampouco agora temos sobre o passado as certezas que tínhamos. Por um lado, mais uma vez, a liberdade de levantar dúvidas – “If you think your mother loves you, check it”, dizia o chefe da redacção ao estagiário nos grandes anos da imprensa escrita americana – por outro lado, cada vez mais coca-bichinhos auferem tempo e dinheiro para satisfazer a sua curiosidade diligente.

 

Para a vasta maioria de nós todos incluindo, presumo, a leitora, o colapso da União Soviética e o fim dos regimes comunistas da Europa Oriental foram um alívio para quem lá vivia e um sossego para nós também. Salvo – e, machista, a nossa opinião em geral não reparou nisso – quanto à satisfação sexual das mulheres. Em 1917, mesmo antes do Bolchevismo, tiveram o voto na Rússia; na URSS e satélites depressa ganharam direitos e liberdades económicas e sociais que as libertaram de muitas dependências e jugos do homem. Estaline fez marcha atrás; mas embora menos na URSS, na Albânia e na Roménia onde também houve retrocessos, a situação feminina europeia do lado de lá era muito melhor do que do lado de cá – para mais fruição e prazer das próprias, também sexual. Tudo medido e avaliado agora por coca-bichinhos e coca-bichinhas.

 

 

 

 

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7.6.17

 

 

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Berlim, 1989

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Birras ou guerra?

 

 

Poucos ricos, muito ricos; muitos pobres, muito pobres; fosso entre os dois a crescer: assim vai o nosso mundo. É receita para grande desastre, estimulada pela ganância de Wall Street e de outras praças financeiras – em toda a parte, cada vez mais PDGs são premiados por lucros a curto prazo. A diferença entre o que ganham os administradores executivos de grandes companhias e o que ganham os empregados menos bem pagos destas duplicou várias vezes desde o tempo há quarenta anos em que toda a gente parecia estar mais feliz do que alguma vez estivera (e do que está agora), nos Estados Unidos da América e na Europa Ocidental (e a tendência não dá sinais de abrandar, pelo contrário).

 

Tempo houve em que na Áustria políticos cristãos-democratas e sociais-democratas se alternavam no poder e distribuíam pelas clientelas respectivas benesses e prebendas financiadas pelo contribuinte. Com toda a gente, ou quase, sentada à mesa do orçamento, não havia revolucionários, ou sequer conspiradores. A Áustria viveu sob acordo entre a União Soviética e os três grandes do Ocidente, também vencedores da segunda guerra mundial e, se só ela estava proibida, por tratado, de aderir à Aliança Atlântica, aos outros neutros da Europa – Irlanda, Suécia, Finlândia – a União Soviética metia respeito igual ao que metia aos membros europeus da Aliança. Para cá da cortina de ferro e do arranjo sui generis da Jugoslávia, todos nos íamos governando – ou sendo governados – de maneira parecida.

 

Agora temos saudades – ninguém, por enquanto, inventou e pôs em prática coisa melhor, pelo contrário. À geração já matura mas ainda activa dos nossos dias, cabe o duvidoso privilégio – contrariando a experiência de três gerações anteriores consecutivas – de deixar os filhos mais pobres do que os pais tinham sido (excepto, mais uma vez, entre os muito ricos). A chamada terceira via de Tony Blair e do professor da London School of Economics que o inspirou – a arte de diminuir as pensões de velhinhas pobres com boa consciência, chamava-lhe cínico na nossa praça – acabou por não convencer ninguém. A social-democracia alemã – e a sueca – cansaram os eleitores. Transformado em poder por François Mitterrand, que não era socialista mas era artista, o socialismo francês deu cabo do comunismo estalinista francês, apoderou-se da noção de estado-jiboia que tudo come à sua volta e acabou por rebentar: nas eleições legislativas deste mês nem chegará a dez por cento dos votos. Simultaneamente, a direita francesa desconjuntou-se. Os americanos elegeram Trump. Os povos mais ricos e bem tratados do mundo, como meninos mimados, fazem birras.

 

O homo sapiens, também conhecido por bicho homem, gosta do mal e precisa dele dizia, salvo erro, George Orwell e, certamente, algum Doutor da Igreja. Como se meio século de paz não chegasse, vieram demãos de correcção política e a besta zangou-se.

 

Esperemos que cheguem dois ou três grandes sustos para a meterem nos eixos – sem guerra.

 

 

 

 

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20.4.16

 

 

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 Sam Nujoma

 

 

 

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Windhoek

 

 

 

Nome bem posto: o vento não amaina na capital da Namíbia onde em 1990, depois de muitos anos de luta anti-colonial, tomou posse o primeiro presidente, Sam Nujoma. Outros chefes de movimentos independentistas de colónias britânicas – Julius Nyerere da Tanzânia (traduziu The Merchant of Venice para suaíli – nunca lhe perguntei se, nessa versão, Shylock em vez de ser judeu era indiano – inventou uma utopia socialista africana e arruinou o país sem derramamento de sangue) ou Oliver Tambo da África do Sul que durante a prisão de Mandela dirigiu o A.N.C. mantendo-o amarrado a visão marxista revolucionária, ou Robert Mugabe do Zimbabué, católico da libertação africano que de entrada seguiu o conselho do moçambicano Machel e não tocou nos bens dos brancos e depois fez marcha atrás transformando a agricultura mais rica de África numa miséria escandalosa, ou outros ainda – durante os anos da luta tratavam o camarada Nujoma um pouco por cima da burra por não o acharem tão inteligente e tão culto quanto eles eram.

 

Independências africanas foram vindo, Pretória percebeu que tinha de acabar com o apartheid. Antes livrou-se da Namíbia, antiga colónia alemã cuja ocupação as Nações Unidas haviam condenado. Depois de muitas peripécias, de Nova Iorque veio o finlandês Matti Ahtisaari, por Pretoria estava o Administrador-Geral Louis Pienaar, do mato e do exílio vieram lugares-tenentes de Nujoma. Entre o fim das conversações e a independência visitei os protagonistas. Pienar e Ahtisari contaram-me a mesma história, o primeiro como cangalheiro a ler-me uma certidão de óbito e o segundo como parteira que me narrasse um nascimento. Esperando a coroação, Nujoma, de fato de safari e sandálias, estava à vontade na moradia onde me recebeu, mobilada tão à pressa que vaso de planta grande ao lado dos sofás novos tinha ainda a etiqueta do preço: 8 rands e 99.

 

Num jantar em Joanesburgo meses depois, jornalista contou-me ter amigo dentista de que agricultor rico da Namíbia era cliente. (A vasta maioria dos grandes proprietários rurais da Namíbia são afrikaners). Homem de uns 70 anos estivera no consultório com o filho uma semana antes: tudo ia pelo melhor, sem quaisquer desmandos ou empecilhos à sua actividade que a independência tivesse trazido. A certa altura quisera referir-se ao Presidente, não se lembrara do nome e perguntara ao filho: “Como é que se chama o cafre que trata da política?”

 

Na sua simplicidade Nujoma percebera uma coisa enorme que escapara à finura dos outros (e a muitos sociais democratas europeus): com o fim do comunismo acabara a razão de ser de muitas práticas social-democratas. Que o capitalismo tenha de se modificar e depressa, não há a menor dúvida; que se insista para o fazer numa espécie de comunismo laite não tem pés nem cabeça. Aumenta o mau viver, desacredita a classe política, desanima os empresários, enxota os investidores: pior do que a austeridade, atrasa o futuro. Quando é que a esquerda europeia tomará juízo?

 

 

 

 

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27.1.16

 

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Execução de Giordano Bruno 

 

 

 

 

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Velhice do velho continente

 

 

 

Nunca houve tanta gente quanta a que há agora. Somos hoje mais do que a soma de todos os homens e mulheres que viveram e morreram no planeta, desde que o Homo sapiens apareceu até ao fim do século XIX.

 

A maioria da população da Terra é gente nova mas, quando se vai por continentes há uma excepção: a nossa. Há hoje na Europa mais gente velha do que gente nova; diz quem percebe destas coisas que a tendência vai reforçar-se no futuro previsível. A nossa gente nova sobrevive, às aranhas, desanimada, eviscerada por desemprego altíssimo (embora haja casos a contrapelo, até em Portugal: conta The Economist da semana passada, num estudo especial sobre a juventude no mundo, que cá vive e trabalha uma rapariga, génio da informática, que criou empresa inovadora sua e tem clientes por toda a parte do mundo). A Europa, cujos dirigentes políticos passaram gerações a dá-la como exemplo de maneira de viver às outras nações, esquecendo que o milagre europeu assentava, por um lado, em medo salutar de Estaline e dos seus sucessores enquanto a União Soviética durou, medo que aconselhava as pessoas a terem juizinho em casa não fosse o caldo entornar-se (quem se lembre ou conte com quem lho saiba contar, traga à mente três datas emblemáticas lusitanas do século XX - 25 de Abril, 11de Março, 25 de Novembro - e medite sobre o bom-senso) e assentava também, por outro lado, na apólice do seguro de vida garantido pela aliança militar com os Estados Unidos chamada vulgarmente NATO, contra eventuais agressores exteriores, isto é, a dita União Soviética, seguro que dissuadiu o Kremlin de tais maus pensamentos, sendo a Guerra Fria ganha sem ter de se dar um tiro.

 

Tudo isso já lá vai. Em 2008 a doença financeira trouxe para tratamento a austeridade. Emenda pior do que o soneto mas é pior ainda quando xicos-espertos, animados pelo grego da moto, bancam num jeitinho a dar que eles saberão explicar aos alemães. Dessa, nós por cá ainda não estamos livres.

 

Entretanto inépcia do poder americano e cobardia dos confortos europeus deixaram à solta a atrocidade síria cujos fugitivos estão a escavacar pretensões morais europeias, acordando o pior em muitos corações: da brutalidade da Hungria à hipocrisia da Dinamarca. Quando Angela Merkel abriu a porta aos infelizes que não se tivessem afogado pelo caminho, esqueceu-se que a alma das pessoas de bem é um horror.

 

Há pior, por toda a parte. A grande ilusão comunista foi remédio que falhou. A julgar pelos feitos do Estado Islâmico, pelos budistas a irem ao pelo aos muçulmanos na Birmânia, pelo apoio dos evangélicos americanos a Donald Trump, a fé religiosa não nos tirará de apuros.

 

Montesquieu, Voltaire, a razão? Tem-se tentado, sem ela não teríamos chegado a separar a igreja do estado, ingrediente sine qua non de decência de vida. Está a ser agora muito atacada (exactamente por causa disso). Talvez gente nova, europeia ou outra, entre robots e inteligência artificial, encontre outra vez rumo.

 

 

 

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14.10.15

 

 

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 O Rei Jorge V de Inglaterra e um mendigo no Derby

 

 

 

 

 

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Broncalina do camandro?

 

 

 

“De resto, cá vamos andando – agora observando este impasse da política portuguesa, com um misto de incredulidade e apreensão. Vamos lá ver como é que o António Costa faz o seu jogo – francamente não gostava de estar no lugar dele. A Social-Democracia está numa situação impossível um pouco por todo lado, não é? Como diria o seu amigo designer de quem fez o obituário há uns meses, é uma broncalina do camandro…” desabafou correspondente lisboeta, em e-mail sobre outro assunto.

 

Está, sim senhor – desde o fim da União Soviética, embora nem toda a gente tenha dado por isso. Os regimes comunistas foram logo ao ar (tirando a Coreia do Norte e Cuba) mas quase só Tony Blair percebeu que a social-democracia também estava condenada. Ela existira como mal menor – os dirigentes sindicais vendiam metade da alma ao Diabo para serem aceites pelo patronato mas a outra metade chegava para lhes dar credibilidade junto dos seus e toda gente vivia em paz e sossego na prosperidade ocidental – mas, com o mal maior extinto, o mal menor deixou de ter razão de ser. Blair, Brown (e Mendelson, a cabeça pensante do partido) adoptaram a “terceira via” (a arte de cortar pensões a velhinhas com boa consciência, chamava-lhe um cínico); não tivesse havido a desastrosa guerra do Iraque talvez ainda hoje governassem o Reino Unido. De resto sociais-democratas só se aguentam na Alemanha como parceiros menores, em coligação com Merkel e, na Suécia, depois de quase meio século de poder, desapareceram há anos do governo.

 

A partir da “terceira via”, terá de se inventar melhor senão está o caldo entornado, porque as desigualdades económicas hoje são excessivas. Os ricos estão cada vez mais ricos: nos Estados Unidos, por exemplo, enquanto os rendimentos de operários estagnaram ou diminuíram, entre 1978 e 2012 o pagamento dos CEO das grandes companhias aumentou 876%! Como Marx lembrou, alterações quantitativas acabam por levar a alterações qualitativas e se a tendência continuar não é preciso perspicácia de Papa ou de trotskista para prever balbúrdia.

 

O desabafo do meu amigo lisboeta também se preocupa com o jogo que fará o Secretário-Geral do Partido Socialista português. Para isso, 1974 devia ser exemplo. A URSS era forte, os amanhãs que cantam pareciam evidentes a muitos, havia no PS muita gente à esquerda de Mário Soares e o marxista-leninista Manuel Serra disputou-lhe o lugar. Acordados com Soares, alguns militantes (entre eles Victor Cunha Rego, Vasco Pulido Valente) apresentaram moção social-democrata, colocando ao centro Soares que derrotou Serra e manteve rumo sensato, decente e patriótico, ganhando eleições em 1975 e 1976 e, de caminho, salvando o país. Bem para lá do talento táctico o que deu força a Soares foi a sua crença inabalável na democracia parlamentar e na Europa (a cuja porta bateu logo que primeiro-ministro). Quem tiver crença menos forte quer numa quer noutra, se alcançar por fim poder político fará muito mal a Portugal.

 

 

 

 

 

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30.9.15

 

 

 

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Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

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O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

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19.11.14

 

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Ricos e pobres? Outra vez?

 

 

You never actually own a Patek Philippe. You merely look after it for the next generation — “Nunca se é de facto dono de um Patek Philippe. Olha-se meramente por ele até à geração seguinte”. Anúncio reconfortante de marca suíça de relógios de luxo, fundada em 1851, posto em jornais e revistas de língua inglesa. Nem sempre acontece mas é boa lembrança.

 

La propriété c’est le vol — “A propriedade é o roubo” sentença alarmante do agitador francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) que, diz o Dicionário Prático Ilustrado de Lello & Irmão – Editores, “preconizava revolução social que salvaguardasse a igualdade dos indivíduos e a sua liberdade; este socialismo libertário e antiestadístico opõe-se ao marxismo”. Verdades como punhos. Os marxistas do meu tempo de estudante em Lisboa consideravam Proudhon um pateta perigoso – não havia o próprio Marx chamado às ideias dele ‘A Miséria da Filosofia’? — mas, na santa simplicidade dos seus verdes anos, gostavam de achar que a propriedade (salvo a deles) era mesmo roubo. Tique fundo que muitos guardaram toda a vida. Há poucos anos, grande figura do socialismo espanhol, génio político estimado em todo o mundo, a quem perguntei se novo ministro conservador do seu país fizera a fortuna ou a herdara, respondeu: “É igual; se não foi ele a roubar foi o avô!”

 

Na Europa Ocidental da Guerra Fria, rica, cheia de bazófia moral, protegida de males interiores pela prudência de patrões, sindicatos e governos — não fosse o urso soviético inspirar bicharada local — e de males exteriores pelo escudo invisível do arsenal nuclear americano — não fosse o urso soviético perder a cabeça e pisar terreno proibido — nessa Europa Ocidental as famílias clientes do relojoeiro de Genebra e os igualitários de pacotilha tocados pelo filósofo de Besançon, coincidiam contentes e arranjava-se sempre um resto de petisco para quem tivesse chegado atrasado à mesa.

 

Bons tempos que já lá vão — amigos bálticos, polacos, checos, eslovacos e húngaros me perdoem — e não se vê jeito de poderem voltar, mesmo quando as leitoras mais novas já forem velhinhas. Sem Mal contra o qual se medir, o nosso Bem vacila e desconcentra-se. A União Soviética deu cabo de si própria e, por muito que Putin barafuste, agrida e ofenda não consegue meter-nos o medo que deveríamos ter dele. Acabou o inimigo comum e com ele de nós se foi o que faz a alma poder ser de herói (para roubar linhas ao homem da Abel Pereira da Fonseca). Quanto aos americanos — dizia Churchill — encontram sempre a solução boa de um problema depois de terem tentado todas as outras. Desta vez ainda vão nessas.

 

O colapso do comunismo não foi a erradicação de uma doença, foi o fracasso de um remédio. Por não termos percebido isso entrámos numa voragem que alarga o fosso entre ricos e pobres e nos volta uns contra os outros como não havia acontecido desde os anos que levaram à subida de Mussolini e Hitler ao poder e, mais perto de cá, à Guerra de Espanha.

 

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22.10.14

 

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Deutschland über alles?

 

 

As duas grandes guerras da primeira metade do século XX foram manifestações trágicas da impossibilidade de fazer conviver Alemanha unida e forte com as outras grandes potências do Velho Mundo. A chamada construção europeia começada com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço — destinada a impedir que Alemanha e França se fossem armando uma contra a outra — a seguir à rendição incondicional de Berlim em 1945 foi congeminada por democratas franceses e antinazis alemães (mormente Robert Schuman e Jean Monnet, do lado de cá do Reno, e Konrad Adenauer, do lado de lá) longe das disposições draconianas da paz de Versailles de 1919 que haviam ajudado Hitler a subir ao poder. Durante meio século fez caminho seguro e chegámos à União Europeia.

 

Na Europa Ocidental, o progresso parecia imparável. As circunstâncias eram propícias. Medo salutar de Estaline provocara a invenção das Comunidades Europeias e da OTAN e, depois dele morto, a União Soviética continuara a meter respeito; os Estados Unidos garantiam guarda-chuva nuclear e, primus inter pares na Aliança Atlântica, desimaginavam os aliados das suas brigas históricas. A Alemanha, primeiro de rastos e ocupada militarmente e a seguir dividida (De Gaulle dizia gostar tanto dela que preferia que houvesse duas) não tinha poder político mesmo depois da República Federal — folgada por limitação de despesas militares e por perdão de dívidas de guerra — ter construído grande poder económico (o milagre alemão).

 

A reunificação conseguida por Kohl com licença de Gorbachev, apadrinhamento de Bush e susto de Mitterrand e Thatcher, mudou as coisas. Tornou a haver poder político alemão. Pela primeira vez, famosamente no fim de 1991 durante a crise jugoslava, impondo reconhecimento prematuro da independência da Croácia aos seus onze parceiros da CEE. E desde então, sem tréguas, até ao beco onde a zona euro está metida. A crise começada em 2008, exacerbada em 2010 pela constatação do estado calamitoso das finanças gregas, acordou veia moralista implacável em Berlim. Desde os anos 20 do século XX, para os alemães, a inflação é pecado mortal. Para os franceses, uma pitada dela é o sal da economia. Como a Alemanha é mais forte — apesar de infraestruturas em péssimo estado, burocracia paralisante e defesa pelas ruas da amargura — tem vindo a impor austeridade aos seus parceiros do sul, empobrecendo toda a zona euro e empurrando-nos para a deflação. Se Merkel for iluminada pela visão de Bismark, de Kohl ou de Schmidt dará guinada para o crescimento. Se não for, pela terceira vez em 100 anos a Alemanha, mesmo em paz, terá sido incapaz de dar bom viver aos vizinhos.

 

NB – Amiga cujo saber prezo acha que o mal é outro. As nações são ovos cozidos e com ovos cozidos não se fazem omeletes (De Gaulle dixit). Fazem-se bons pratos; muitos se cozinharam desde 1957. Mas o euro, tal como concebido e imposto, foi conto do vigário que lesou muita gente e espevitou forças centrífugas na União. Quiçá.

 

 

 

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31.8.14

 

 

  Simon Leys / Pierre Ryckmans

 

 

 

La Chine a connu ces dernières années de prodi­gieuses transformations. Elle est en passe de devenir une super-puissance — sinon la super-puissance. Dans ce cas, elle sera — chose inouïe — une super­puissance amnésique. Car, jusqu'à présent, sa miracu­leuse métamorphose s'effectue sans mettre en ques­tion l'absolu monopole que le Parti communiste continue à exercer sur le pouvoir politique, et sans toucher à l'image tutélaire du président Mao, sym­bole et clé-de-voûte du régime. Et le corollaire de ces deux impératifs est la nécessité de censurer la vérité historique de la République populaire depuis sa fon­dation : interdiction absolue de faire l'histoire du maoïsme en action - les purges sanglantes des années 1950, la gigantesque famine créée par Mao (dans un accès de délire idéologique) au début des années 1960, et enfin le monstrueux désastre humain de la «Révolution culturelle » (1966-1976). Treize ans après la mort du despote, le massacre de Tianan-men (4 juin 1989) est encore survenu comme un post-scriptum ajouté par les héritiers, pour marquer leur fidélité au testament laissé par l'ancêtre fonda­teur. Mais ces quarante années de tragédies histo­riques (1949-1989) ont été englouties dans un « trou de mémoire » orwellien: les Chinois qui ont 20 ans aujourd'hui ne disposent d'aucun accès à ces infor­mations-là — il leur est plus facile de découvrir l'his­toire moderne de l'Europe ou de l'Amérique que celle de leur propre pays.

 

Quelle sorte d'avenir peut-on bâtir sur l'ignorance obligatoire du passé récent? «Ce qui peut constituer le plus grand obstacle empêchant la Chine de devenir un pays moderne au meilleur sens du mot, c'est sa volonté de maquiller et de récrire l'Histoire, tout par­ticulièrement, l'histoire de la "Révolution cultu­relle" », remarquait tout récemment le journaliste Jonathan Mirsky, perspicace observateur de l'actua­lité chinoise.

 

Mais la métaphore la plus éloquente de la situa­tion présente est encore ce Coma de Pékin évoqué par Ma Jian: le protagoniste du roman (une création particulièrement puissante de la littérature chinoise contemporaine) est un jeune manifestant décerveié par une balle perdue de Tiananmen, qui flotte, para­lysé, muet, sourd et aveugle, dans un coma sans fin.

 

 

Simon Leys

in Le Studio de l'inutilité

[Relire l'histoire de la « Révolution culturelle », Intoduction à la réédition des Habits neufs du président Mao (Ivrea 2009)]

© Flammarion 2012

 

 

Mais sobre o Autor aqui e aqui

 

 

 

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9.7.14

 

 

 

 

 

João e o Papa

 

 

“Só quando estiverem cumpridas as condições” respondeu-me João, emigrado a seguir ao 25 de Abril, daí a um par de verões no Algarve, à pergunta voltaste à Pátria? “Salazar no poder, Marcelo Caetano na oposição, Freitas do Amaral na clandestinidade!”. (Para leitoras novas: nesses dias Freitas do Amaral era um político de direita).

 

As pessoas e os pianos pioram com a idade. Não tenho visto o João mas consta-me que a sua visão das desigualdades do mundo se agravou e é hoje igual à da gente do Tea Party nos Estados Unidos (ou da falecida Margaret Thatcher, nos dias em que a fúria contra os sindicatos a cegava): a culpa de haver pobres é dos pobres porque Deus assim quis. É disparate quase tão estúpido quanto a culpa de haver pobres ser dos ricos mas pouco lhe fica atrás. A crise veio açular opiniões extremas de ambos os lados — quando as coisas azedam procura-se inspiração na tradição revolucionária europeia e passa a falar-se do “outro lado da barricada”.

 

Na Europa onde, para quem a imagine do Sudão do Sul, só há ricos, o tempo das vacas gordas — quando se sabia que o dia de amanhã seria melhor do que o dia de hoje tal como o dia de hoje fora melhor do que o dia de ontem — não era tempo propício a invejas nem rancores. Mas campeiam agora no tempo das vacas magras em que entrámos circa 2010 e que entendidos garantem ser para a vida como eram dantes os fatos feitos em bons alfaiates e os automóveis Rolls Royce.

 

A direita pré-industrial e pré-cristã de João e dos Tea-Parties que odeiam os pobres assusta mas a exaltação franciscana da pobreza traz riscos próprios. Bernard Shaw escreveu que o primeiro pecado era ser pobre — se alguém lhe dizia que era inculto porque era pobre estava a desculpar um mal com outro pior, assim como se dissesse: sou coxo mas é da sífilis.

 

O Papa Francisco sente os pobres e quer ajudá-los mais do que fizeram os seus dois últimos predecessores, obcecados por comunismo e por sexo, condenando diferenças abissais entre pobres e ricos que se têm acentuado nos últimos decénios — aumento de desigualdades que, pensa o Papa, pensa gente de outras fés e pensam agnósticos e ateus, está a tornar o mundo mais injusto e mais perigoso. Francisco tem verberado a tirania da autonomia dos mercados e condenado proezas do capitalismo, com carradas de razão. Desde o colapso da União Soviética e o fim da ameaça comunista o capitalismo tomou o freio nos dentes em muitos momentos e lugares causando grande dano a milhões de pessoas e, salvo em raros casos nos Estados Unidos, ninguém foi preso e condenado por isso até agora. Continuou, porém, a ser, como tinha sido antes, o maior diminuidor de pobreza e criador de liberdade jamais inventado desde que o mundo é mundo.

 

Em 1323, um século depois da morte de S. Francisco de Assis, o Papa declarou herético quem pretendesse que Jesus vivera em pobreza absoluta e fez executar alguns franciscanos mais entusiastas. A alma humana é um abismo e estas coisas nunca são simples.

 

 

 

 

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5.5.14

 

 

O partido exigia não apenas todo o nosso tempo, como sentia que a nossa entrega só era total se também puséssemos à sua disposição os nossos bens. «É forçoso dizer que grande numero de camaradas (...) procuram modos de vida cómodos; estabelecem por vezes para a sua vida privada padrões de existência abastada e não se importam, nalguns casos, de esbanjar dinheiro inutilmente», escrevia-se numa resolução do comité central. Pior, pecado maior: «alguns camaradas não prescindem e até esperam ansiosamente as férias, não se preocupando com o cumprimento das suas tarefas partidárias e revolucionárias» algo inaceitável, pois «a luta de classes e a revolução jamais poderão ir de férias». A simples ideia de ter férias tinha assim «natureza burguesa e não proletária» e o seu efeito seria semelhante «ao causado pela introdução de droga, ou pela corrupção moral num exército em guerra». Era pois necessário ser muito rigoroso, em nome da «robustez revolucionária», com coisas como «as esquisitices com a comida e com o dormir» ou o «vício de viajar comodamente». Tudo porque «ser comunista não é só um comprometimento, é, antes e acima de tudo, uma transformação real e constante». Ser comunista também implicava «montar a sua vida de acordo com os interesses do Partido e da Revolução», subordinar «incondicional­mente os interesses individuais aos superiores interesses do Partido» de forma a realizar a «condição de fiel ser­vidor do povo pobre». Ser comunista é «sê-lo em todos os momentos, em todas as tarefas e para a vida inteira». Por isso, «o egoísmo pessoal, a vida privada, o tempo li­vre, o aconchego familiar são umas vezes obstáculos, ou­tras vezes desculpas para não se dar ao partido aquilo de que precisa».

 

Exigia-se assim uma espécie de renúncia absoluta ao mundo exterior, uma renúncia que não era imposta pe­las condições concretas da luta política — em ditadura, quando era necessário passar à clandestinidade para fu­gir à perseguição da polícia, a renúncia à vida normal era inevitável —, mas por opção tomada para a vida. Entre­tanto, reforçavam-se os mecanismos destinados a impor o «centralismo democrático» com um objectivo que seria assumido por alturas do II Congresso, em 1977: «conse­guir a homogeneização das ideias e práticas proletário-revolucionárias, marxistas-leninistas», e «romper com resistências que subsistem na aplicação da linha táctica». Ou seja, para uniformizar o pensamento dos militantes, calando todas as vozes internas dissonantes.

 

 

*

 

Ainda hoje, quando olho para a forma muitas vezes arrogante como a esquerda jacobina olha para todos os demais, quando sinto como no debate público todos os que não se filiam, de uma maneira ou doutra, na tradição estatista e dirigista da esquerda sofrem uma espécie de capitis deminutio por, supostamente, não se preocuparem também com o bem da sociedade, recordo a lógica mistificadora da "superioridade moral".

 

 

José Manuel Fernandes

in Era uma vez...a revolução

© 2012 José Manuel Fernandes e Alêtheia Edições

 

 

 

 

 

 

 

 

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12.3.14

 

 

 

 

 

 

 

Prepotências, roubalheiras, aldrabices

 

 

Em 2008, corriam os Jogos Olímpicos de Pequim, a Rússia capturou militarmente à Geórgia duas partes do seu território — a Ossétia do Sul e a Abkhásia — de estatuto autónomo e muitos habitantes russófonos. Bush, em Washington, protestou menos do que Obama agora perante Ucrânia e Crimeia. Nós, os da União Europeia, com Sarkozy à frente, inventámos uma “mediação” que nada devolveu à Geórgia, sossegou a Rússia e nos deixou de consciência tranquila. Para o conforto ensimesmado dos europeus (5%, 25% e 50% da população, do produto e da despesa social mundiais, respectivamente) foi como se a crise da Geórgia não passasse de tempestade num copo d’água.

 

Com o Kremlin, continuou-se business as usual. A França vendeu à Rússia navios de guerra que a ajudaram no emprego e na balança de pagamentos; a Alemanha, a Itália e a Holanda pouco fizeram para diminuírem a sua dependência energética da Rússia; Londres e os paraísos fiscais cobertos pelo Reino Unido —  das Ilhas do Canal às Ilhas Cayman — continuaram a gerir e a lavar bem os milhões dos oligarcas (e preços de casas em Londres chegaram à estratosfera). Do outro lado do Atlântico, Barack Obama — que tal como Jimmy Carter com Brejnev, parece convencido de que no fundo, no fundo, Putin reconhece que ele tem razão — meteu-se há anos a tentar pôr no são as relações com a Rússia e com tal inépcia o fez que, em vez de ganhar lealdade de um novo amigo levou o Kremlin a perder o respeito que, antes dele, ainda tinha pela Casa Branca. Entretanto, com a Geórgia no papo, Vladimir Vladimirovich sente-se seguro na sua missão histórica de recuperar a grandeza russo-soviética. Como se diz por lá: comer abre o apetite.

 

E agora, por causa de zaragatas na Ucrânia e na Crimeia, lugares longínquos sobre os quais quase todos os europeus — ainda não refeitos de Lehman Brothers / dívidas soberanas / banca à nora — sabem pouco e mal, porque muito do que nos chega é propaganda russa, espera-se que os nossos governos e o americano se unam e façam recuar o Kremlin. Há de ter que ver. Sem chefia americana e com vendilhões a encherem os nossos templos, receio que as medidas que forem tomadas fiquem aquém do  preciso para fazer a Rússia largar a Crimeia.

 

Na Guerra Fria confrontavam-se capitalismo e comunismo. Hoje de um lado estão estados de direito com sufrágio universal e do outro o feixe de brutalidades, roubos e mentiras que dá pelo nome de capitalismo de Estado. Os europeus que sabem na carne dessa poda — Bálticos; ex-Pacto de Varsóvia — procuram que combatamos por todos os meios ao nosso alcance a opressão asfixiante e corrupta que a Rússia quer impor à Ucrânia, com sanções imediatas que doessem mesmo ao Kremlin e promessa a Kiev de adesão à União Europeia. Alemães, britânicos, franceses, outros, arrastam os pés.

 

Nem Estados Unidos nem União Europeia mandarão os seus morrer pela Ucrânia. Mas com visão, coragem e determinação poder-se-ia travar Putin sem guerra — por enquanto.

 

 

 


12.2.14

 

 

Lo mismo.

Goya - Los Desastres de la Guerra - No. 03 

 

 

 

 

 

O sem-fim

 

 

A Guerra de Espanha fora a derrota da democracia pelas forças negras do fascismo ou fora a última Cruzada? Mobilizado como médico militar nos Açores, o pai visitava colega de curso preso na Ilha Terceira por ter combatido numa Brigada Internacional. Amigo dos irmãos da mãe, filho de notário de Évora, morrera abatido no avião de caça franquista que se voluntariara para pilotar. Paixões extintas?

 

A Segunda Guerra Mundial veio a seguir, 21 anos depois de acabar a Primeira (tão má que os franceses lhe chamaram, esperançados, “la der des der”, a última das últimas). Poucos anos depois de nazismo e fascismo perderem em 1945, começou a Guerra Fria entre democratas e comunistas que acabou com o colapso da União Soviética em 1991. (Não passou a Quente por Washington e Moscovo disporem de arsenais nucleares capazes de destruírem várias vezes a humanidade, dando juízo a cabeças políticas e militares. O Dr. Strangelove ficou-se pelo cinema. Mas quando Zawahiri, chefe de Al Queda, excomunga grupos seus que matam na Síria, por serem indisciplinados e agirem por conta própria, a violência serve a anarquia. Bombas atómicas nas mãos de anarquistas fanáticos seriam realmente um grande perigo).

 

Depois do fim da Guerra Fria um académico americano julgou que a História tinha acabado: íamos todos ser capitalistas e democráticos. Por seu lado Vladimir Putin declarou que o desaparecimento da União Soviética fora a maior catástrofe geopolítica do século XX. O americano estava enganado — a História voltou em força — mas o engano não teve a menor importância. A convicção de Putin, essa, é assustadora quer quanto ao que se imagine ser a evolução interna da Rússia regida pela sua batuta quer quanto à atitude da Rússia em relação ao “estrangeiro próximo”. Ainda a História. No começo do Código da Imperatriz Catarina, redigido no século XVIII, diz-se que a Rússia é grande demais para ser governada por mais do que uma só pessoa. E, quer antes quer depois de S. Vladimiro os converter ao cristianismo em Kiev, os russos só aceitaram as fronteiras que têm quando alguém do outro lado lhes bateu o pé e disse: daqui não passam!

 

A Ocidente nada de novo. Em França e Espanha governos incapazes de convencerem os seus do que era economicamente possível — como Schroeder fez — armaram-se em modernos noutras questões — homossexualidade, aborto — e despertaram Pétainismos e Franquismos latentes que agora pintam a manta. Alemães —  que fizeram de súcia com a Rússia pipeline no Mar Báltico para evitar a Polónia — não querem incomodar muito Moscovo. Ensimesmados, os ingleses afastam-se da Europa e deixam de ser ponte para os americanos. Em suma, os europeus preferem fugir a chatices a pensar no futuro. Washington, virada também para dentro por Congresso demente e Presidente frouxo, já não mete o respeito que metia ao mundo.

 

Em Kiev o frio não arrefece os espíritos. A janela de oportunidade fecha no fim dos jogos de Sochi. Alguém ajuda os ucranianos a baterem o pé?

 

 


29.1.14

 

 

 

 Albrecht Dürer

 

 

 

 

 

 

Rodas da Fortuna

 

 

Por não ter podido ir às cerimónias fúnebres na África do Sul, a Raínha de Inglaterra mandou celebrar em Março, na Abadia de Westminster, um serviço religioso em memória do seu amigo Nelson Mandela, o único político que lhe telefonava directamente: “Olá Elizabeth. Como está o Duque?” 

 

Quando recebi a notícia tinha acabado de ler entrevista com Winnie Mandela, contando 9 meses de prisão em Joanesburgo in illo tempore, durante os quais a torturaram. Em Robben Island, lembra-nos a revolucionária, ex-segunda mulher de Mandela, os presos nunca foram torturados e tantos anos lá fechados sem jornais, sem telefonia, sem televisão, sem visitas, haviam-nos cortado do mundo. Quando o marido fora solto não percebia o que se passava cá fora. Por isso embarcara na reconciliação com os brancos, mal tocando nas desigualdades económicas e deixando a África da Sul com enormes problemas por resolver. Quem percebera fora ela e considera-se “avó espiritual” de Julius Malema, ex-chefe dos Jotas do ANC, expulso do partido por extremismo, que formou o seu próprio movimento, quer luta de classes a sério e ressuscitou canção revolucionária, popular no auge do apartheid, que incita a matar os boers à metralhadora.

 

Nelson Mandela era um génio político e um modelo moral mas não teria sido solto para acabar com o apartheid se o Muro de Berlim não tivesse caído. O desaparecimento da inspiração e do apoio soviéticos abriu caminho à transição pacífica que ele (com ajuda de De Klerk) conduziu magistralmente. O ANC, porém, ficou sem bússola política. Na África do Sul a maioria negra, oprimida e humilhada, pudera arrimar-se a três espaldares: racismo, cristianismo (quase todas as variedades locais) e marxismo-leninismo. O racismo conseguiu alguns aderentes que fundaram o PanAfrican Congress mas cedo se apagou perante marxistas e cristãos. Estes coalesceram no ANC que, fundado em 1912, sonhava, desde o estabelecimento do apartheid em 1948, levar o país ao socialismo. Com a dissolução da União Soviética esse sonho acabou. Mandela percebera tudo. Quem não percebera fora Winnie e, agora, o seu “neto espiritual”.

 

A gente não se deve espantar porque estavam em boa companhia: só há dias François Hollande anunciou sem rir — nem chorar — que se convertera à social-democracia: isto é, que deixaria de tentar arruinar o capitalismo e passaria a negociar para os seus fatia cada vez maior do bolo. Que o Presidente da França tenha levado tanto tempo a perceber, dá que pensar.

 

Tudo isto seria menos importante se capitalistas europeus e americanos tivessem — ao menos eles — percebido. Mas não. Também há poucos dias, um dos maiores bancos mundiais, multado milhões de dólares por falcatruas escandalosas que lesaram milhões de pessoas, aumentou de milhões o bonus anual do seu presidente. Casos assim enchem a gente de fé.

 

Na Europa das vacas magras avisam-nos que vacas gordas, gordas, nunca mais voltarão. E os Malemas deste mundo vão oleando as metralhadoras. 

 

    


8.1.14
 

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 Charlie Chaplin

 
 

 

 

 
 
Sempre houve ricos e pobres
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Assim suspirava a Avó Berta quando eu, adolescente, primeiro me intrigara e depois me indignara com a vinda regular de alguns mendigos à porta de sua casa. Eram os pobres dela. As senhoras do seu tempo tinham cada uma os seus mas acontecia às vezes que os netos delas, encandeados pelo faróis de Marx e Lenine, achavam que a assistência competia ao estado e que esmolas dadas por donas de casa burguesas a pedintes proletários atrasavam a Revolução e a chegada da sociedade sem classes.

 

Visto de agora, tudo isto não passa de uma ninhada ou duas de asneiras. Mas o que realmente espantaria a Avó Berta se ainda estivesse connosco é que a distância entre a riqueza dos ricos e a pobreza dos pobres seja hoje não só maior do que era no tempo dela mas também maior do que alguma vez foi desde que o mundo é mundo. Quer entre países ricos e países pobres – quer, com raríssimas excepções, dentro de cada país.

 

 

O aumento da distância entre a riqueza dos países disparara dramaticamente a partir do século XVIII com a revolução industrial na Europa, acentuara-se com a emergência dos Estados Unidos como potência económica; começara a diminuir em tempos mais recentes, com a ascensão industrial do Japão, da China, dos chamados “Tigres Asiáticos”, mas ainda hoje a desigualdade entre países continua a ser maior do que a desigualdade entre os habitantes de cada país.

 

 

Nos países desenvolvidos as desigualdades internas têm-se acentuado. Os números dos Estados Unidos são instrutivos. O PIB quadruplicou nos últimos 40 anos (e quase duplicou nos últimos 25) mas quem ganhou com isso foi quem estava na mó de cima e, muito mais ainda, no cimo da mó de cima. Em 2012, 1% da população recebeu 22% do rendimento do país; 0,1% recebeu 11%. Estatísticas mostram que, desde 2009, só se verificaram melhorias de rendimento nesse 1% dos contribuintes. Como hoje se mede tudo, sabe-se também que, desde há quase um quarto de século, o rendimento médio no país não mudou mas que o americano médio leva hoje menos dinheiro para casa do que levava há 45 anos.

 

 

A fractura social, chamemos-lhe assim, começou no tempo de Reagan com cortes nos impostos dos ricos e regulação cada vez menos rigorosa do sector financeiro, foi alargada pelos seus sucessores e conforta preconceito norte-americano: a culpa de ser pobre é do pobre. Preconceito da esquerda europeia igualmente absurdo – a culpa de ser pobre é dos ricos – levou bordoada fatal com a queda da União Soviética. Na grande rebaldaria que se instalou, o liberalismo teve mais olhos do que barriga. Por fim, sem sentido nem visão da história e fundados em ciência errada, os promotores da austeridade envenenaram os europeus com o remédio que lhes estão a dar.

 

 

O susto espalha-se para lá dos suspeitos do costume. O Papa indigna-se com o capitalismo. E eu percebo o alentejano que dizia de uma comadre que ela era boa rapariga mas tinha “aquela coisa do lucro”.

 

 

A cruzada contra os pobres está a fazer mal ao mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

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18.12.13

 

 

 

NYSE 

 

 

 

 

 

Sem Marx nem Reagan

 

 

Nos restaurantes imaginativos que há agora as palavras “ Marx” e “Reagan” deveriam ser escritas a giz branco sobre a ardósia preta do menu, na secção “Sabores do Dia”.

 

Estão os dois na moda — se se pode chamar moda à péssima fama que ganharam — Marx já lá vão duas décadas; Reagan apenas há um lustre. 24 anos depois do derrube do Muro de Berlim anunciar o fim da grande ilusão da esquerda, inchada como um balão pelo génio do panfletário de Trier, e 9 anos depois da morte de Ronald Reagan, paladino bem disposto do triunfo do privado sobre o público, dos empresários sobre os burocratas – “o governo não é parte da solução, é parte do problema” —  25 desde que deixara de ser Presidente dos Estados Unidos, 19 depois de anunciar que sofria de Alzheimer e — desta vez para mal dos seus pecados — 5 anos passados sobre a falência de Lehman Brothers, damos connosco desamparados no meio dos órfãos dos dois, convencidos alguns deles de que o pai ainda está vivo.

 

Estado a mais, decorrendo das prescrições do judeu alemão londrino e de Lenine, seu Paulo de Tarso, pôs metade do mundo de pantanas (os chineses sobreviveram ao pior porque negócio e jogo lhes estão na massa do sangue). Na nossa parte do mundo, Estado a menos, como pregava o cowboy da Califórnia, acabou por deixar a rapaziada bancária e para-bancária tomar o freio nos dentes - ainda por cima com chorudos bónus anuais a desencorajarem quem tentasse prever para lá do curto prazo.

 

In medio stat virtus - mas como chegar lá? A “Regra de Volker”, aprovada nos Estados Unidos, conjunto de medidas destinadas a impedir os bancos de arriscarem demais, como é costume de Obama começou por declaração eloquente aos americanos e acabou em mil páginas cheias de ambiguidades que vão dar rios de dinheiro a advogados sem morigerarem ganâncias em Wall Street. Dinheiro é poder. E, disse em 1640 D. Luísa de Gusmão, mais vale ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida. Regulamentar a banca sem matar a galinha de ovos de ouro não é para idealistas nem para demagogos. Mas terá de haver correcções. A finança nunca tomou tão grande proporção da actividade económica; os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres; as classes médias, motor da Europa desde o fim da Idade Média, atacadas por todos os lados estão a deixar de poder cumprir o seu papel. A Alemanha, esquecida do perdão das dívidas de guerra de 1953, mostra falta de solidariedade chocante. Se ao menos um presidente francês ameaçasse acabar com o Eixo Franco Alemão, retirando a Berlim o atestado de bom comportamento que readmitiu a Alemanha no concerto das nações.

 

O mundo à nossa roda não perdoa. Num discurso a partidários do Presidente Yanukovich arrebanhados até Kiev, o primeiro ministro da Ucrânia disse que tomar o caminho da Europa era apoiar o casamento gay e mais imoralidades ofensivas da alma ucraniana. Putin acha bem. Foi em Kiev que S. Vladimiro baptizou os russos e o Kremlin não quer largar a presa.

 

 

 

Post Scriptum  Ainda Portugal e o apartheid. Numa manhã de Verão de 1990, estava eu numa sala de espera da sede do ANC em Joanesburgo antes de ser recebido por Nelson Mandela quando a porta se abriu, um preto alto, atlético e sorridente entrou e me perguntou: “É o embaixador de Portugal?”. “Sou”. “Desculpe irromper assim mas soube que estava cá e tinha de vir dizer-lhe muito obrigado! Não calcula quanto apreciámos o que nos mandou. Tornou os nossos serões agradáveis e entretidos. Não podia deixá-lo sair de aqui hoje sem lhe apertar a mão e lhe agradecer pessoalmente”.

 

Eu tinha-o reconhecido: era Tokio Sexwale, chefe de relações públicas do ANC, que passara 13 anos preso em Robben Island. Álvaro Mendonça e Moura, encarregado de negócios de Portugal durante muitos meses, entre a partida do meu predecessor e a minha chegada à África do Sul, havia-lhe mandado, e aos seus colegas de cativeiro, cassetes de futebol português, nomeadamente a da final da Taça dos Campeões entre o Porto e o Bayern de Munique que o FCP ganhara em 1987. Era isso que ele agora viera agradecer-me.

 

Não arriscaria generalidades sobre as relações entre Portugal e a Africa do Sul, ou sobre as relações entre os emigrantes portugueses e os nativos de variadas cores do país que os acolhe. Mas uma coisa posso assegurar: nos últimos tempos do apartheid as relações entre as autoridades portuguesas e a direcção do ANC não poderiam ter sido mais cordiais do que foram. 

 

 

 

Imagem: aqui 

 

 

 


14.12.13

 

 

 

 

 

Com a chegada do Bloco-Notas de José Cutileiro ao Retrovisor, e a pensar nos seus leitores, dediquei umas horas a arrumar a casa, ou seja a criar novas categorias ou etiquetas, as chamadas tags. A primeira crónica — O baú do Kremlin — inaugurou as categorias Alemanha, Rússia e Capitalismo.

 

Acrescentei ColonialismoComunismoCristianismoNazismoTerrorismo 

e Estados Unidos, temas que têm sido abordados neste blog e que faz agora todo o sentido terem tag própria.  

 

Tenho sido económica nas tags porque comecei com categorias o mais latas possível, que permitem agregar material muito diverso e se vão destacando na chamada nuvem de tags (na coluna da direita) à medida que cresce o seu conteúdoMuitos dos escritores citados neste blog estão assim simplesmente agrupados na tag Autores

 

Boa parte do material dos espólios familiares está em ÁlbumÁlbuns, Casas, Recordações.

 

Próximas "gavetas" a arrumar melhor serão Photographia, Fotografia e Snapshot. Na primeira estão guardados os textos de Autor sobre fotografia e as imagens até aos anos 20 do século XX.

 

Para encontrar um nome nos arquivos aconselho pesquisar neste blog, no topo da coluna direita.

 

 

Boa navegação!

 

 

A crónica O baú do Kremlin aqui

 

O Bloco-Notas de José Cutileiro sai à quarta-feira.

 

 

 

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10.3.13

 

 

 

R.B. Kitaj  The Rise of Fascism, 1975–1979 Pastel, coal and oil on paper

© Collection of R.B. Kitaj Estate

 

 



... la méditation sur le totalitarisme, c'est-à-dire sur la négation totale de l'homme et de ses droits, conduit Hannah Arendt à ratifier la critique réactionnaire des droits de l'homme. Cet itinéraire est singulier.

 

Singulier peut-être, mais imposé par la force des choses. Du déracinement des apatrides à l'internement concentrationnaire, la négation de l'humain a pris la forme de la désolation, c'est-à-dire de la privation de sol, de l'expérience radi­cale et désespérée d'une absolue non-apparte­nance au monde. Il faut un monde à la liberté. Ce n'est pas n'importe où, n'importe comment, mais au sein d'un peuple, dans un certain milieu vital, à l'intérieur d'une communauté politique, que l'homme peut vivre en tant qu'homme parmi les hommes, c'est-à-dire «exprimer des opinions signifiantes et mener des actions effi­caces1». Voilà ce que nous apprend, a contra­rio, un siècle dévasté par la volonté totalitaire de dissoudre le monde humain dans le progrès de l'Histoire. Lutte des races, ou lutte des classes, il n'y  a  de  lois  dans  l'univers  totalitaire que comme lois du mouvement : il n'y a de réel que le processus historique, il n'y a de vivant que l'humanité en marche et, au bout du compte, il y a la formule glaçante de l'Angkar (l'organisa­tion des Khmers rouges): « Te perdre n'est pas une perte, te conserver n'est d'aucune utilité 2. » Sous le règne de l'Homme, les hommes finissent par être tous superflus. En d'autres termes, la négation ontologique de l'individu accom­pagne l'anéantissement du monde dans le fleuve du devenir. C'est l'événement donc, et non le caprice, qui a conduit Hannah Arendt à refuser de choisir entre l'ordre et le mouvement. Elle a vu le mouvement engloutir simultanément toute stabilité et toute initiative.


Oui, Hannah Arendt est conservatrice, car elle a peur. Elle n'a pas peur pour ses biens. Ayant éprouvé la fragilité de la permanence, elle a peur pour le monde. Proche ici de Simone Weil, elle a peur pour cette chose belle, gra­cieuse, fragile et périssable qu'est la patrie non mortelle des mortels que nous sommes. Elle a peur pour la loi positive qui entoure tout nou­veau venu de barrières et, en même temps, assure la liberté de mouvement, la possibilité qu'il advienne quelque chose de nouveau et d'imprévisible. Elle a peur pour la trame symbo­lique, la communauté de sens qui nous relie non seulement à nos contemporains mais aussi à ceux qui sont morts et à ceux qui viendront après nous. Elle a peur pour le passé, pour le temps humain, pour la continuité qu'instituent les objets et les œuvres, pour le cadre durable au sein duquel peuvent se déployer l'action et la création.


Non, Hannah Arendt n'est pas conservatrice, car elle n'aspire pas davantage au rétablissement de l'ordre qu'à l'instauration d'une société organique où les tâches s'accompliraient naturelle­ment, sans discussion, sans invention, sans projet, indépendamment des volontés indivi­duelles. Il ne s'agit, en aucune façon, pour elle, de restreindre la faculté d'agir à ce que la tradi­tion prescrit ou de fondre la multiplicité des per­sonnes dans l'unité substantielle de je ne sais quel Volksgeist. Le monde dont elle a le souci est bien un héritage, mais cet héritage ne se pré­sente ni comme un modèle de comportement, ni comme une identité collective. Arendt est simplement payée pour savoir que l'autonomie n'est pas donnée comme une nature, qu'elle n'est pas une propriété inaliénable de chacun de nous. Le siècle lui a appris à faire la différence entre les conditions d'une vie humaine et les conditionnements ou les aliénations de la liberté. Burke : l'homme est d'abord un héritier. Paine : l'homme est d'abord un individu. Arendt : le déshérité ne peut pas accéder à une existence individuelle.



 

Alain Finkielkraut 

in L'ingratitude (IV. L'impudence des vivants) 

Conversation sur notre  temps avec Antoine Robitaille


pp. 156-158

© Éditions Gallimard, 1999 et 2000


Notes:


1. Hannah Arendt, Les origines du totalitarisme, l'impérialisme, Seuil,1984, p.286


2. Cité dans Le livre noir du communisme, Robert Laffont, 1997, p.654




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29.1.13

 

 

 

 27 May 1977 -French writers Bernard-Henri Lévy and André Glucksmann

converse on the set of the television show Apostrophes

Photo: © Sophie Bassouls/Sygma/Corbis



J'ai, pour commencer, été qualifié de philosophe à mon corps défendant. J'avais certes parcouru la suc­cession d'examens et de concours qui vous sacrent professeur de ladite discipline. Je n'estimais pas que les palmes du « philosophe » pussent pour autant être déposées sur mon front. Je croyais que les détenteurs de ce titre prestigieux se comptaient sur les doigts de la main : Platon, Aristote, Descartes, Kant, Hegel. Peut-être Heidegger l'avait-il mérité du temps de sa jeunesse mais il compromit son titre en appelant étu­diants et collègues à suivre le Führer. Pis encore, cha­cun ayant droit à l'erreur, il avait, après la capitulation du Reich, tenté, trente longues années, comme un gros chat, d'enterrer ses déjections dans le sable de sa théorie. Du moins me semble-t-il après lecture attentive. Passons.


Si, jeune homme, je plaçais la barre de la « grande philosophie »  très haut, trop  haut  pour moi, mes contemporains au contraire la situaient très bas, plus bas que terre, car la prétention à la «sagesse» était passée de mode. Ils se voulaient alors savants et objec­tifs; ils s'affichaient sociologues, structuralistes, lin­guistes, économistes, dépositaires de savoirs plutôt qu'animés du désir de savoir. Le marxisme-léninisme, version École normale supérieure, régnait. Le vent tourna, dans les années 75-80, quand beaucoup de mes semblables se mirent à signer «psychanalyste et philo­sophe», «mathématicien et philosophe», biologiste et... historien et... écrivain et philosophe. La 2 CV Citroën se vit sacrer dans les gazettes «voiture philo­sophique». Que s'était-il passé? En déboulonnant les idoles du marxisme hégémonique dans l'intelligentsia parisienne, peut-être ai-je contribué à ce renverse­ment. Lorsque de bonnes plumes rejoignirent mes blasphèmes, Bernard-Henri Lévy et les médias bapti­sèrent un peu abruptement cette cohorte provisoire et volatile  «nouvelle  philosophie».  Si la science du matérialisme historique pliait sous les coups, force était de conclure que la volée de bois vert administrée, au nom de la philosophie, sur les adeptes de la dicta­ture du prolétariat n'était pas aussi  frivole  qu'on aimait à le dire.


Je ne laissai pas d'être surpris du retentissement de mon essai intitulé La Cuisinière et le Mangeur d'hommes sous-titré insolemment : «Essai sur le marxisme, l'Etat et les camps de concentration». Le voisinage des termes sonna comme un coup de carabine dans un ciel serein. Mon éditeur avait laissé dormir le manus­crit dans son tiroir pendant plus de six mois, anticipant la diffusion médiocre d'un texte qui heurtait ses convictions de gauche. Sorti le 15 juillet 1975, sans intervention télé, un seul passage radio sur Europe dans la folie des départs en vacances, mais soutenu par un bouche-à-oreille flatteur et imprévu, porté par quelques articles spontanés et enthousiastes de gens que je ne connaissais pas ou mal (1) , il tourna très vite au best-seller.


Des dizaines de milliers d'exemplaires s'arrachèrent dans les librairies et s'échangeaient sur les plages. C'était drôle, curieux, inattendu. J'avais écrit dans l'isolement le plus extrême, sans souci du public, juste pour exprimer la rage et le désir que je partageais avec quelques amis de «ne pas mourir idiot». Le brûlot véhiculait une révolte à fleur de peau contre le plus grand mensonge du siècle : le communisme. Il était rédigé par quelqu'un qui y avait goûté dans son enfance et que le Tout-Paris estimait «de gauche». Je jouissais d'une «bonne réputation». ... 



André Glucksmann

in Une rage d'enfant

[Chapitre 8. A quoi sert la philosophie ? * pp. 172-174]

Hachette Littératures

© Plon, 2006

 

1. Remerciements à Maurice Clavel, Jean Daniel et Bernard-Henry Lévy.

 

* Où il est suggéré que se connaître soi-même, c'est connaître Typhon en nous. D'où l'utilité des infos de 20 heures et l'examen des liaisons dangereuses: Freud et Junon, Alcibiade et Socrate, le prince Potemkine et le neveu de Rameau, Poutine et moi.

 


aqui

 

 

 

 

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24.1.13




Paris, Mai 1968:

 Photo: © Serge Hambourg


[...] Depuis trois jours, les étudiants parisiens manifestent violemment. Le jour, ils entre­prennent de dépaver le boulevard Saint-Michel. La nuit, ils font la fête. Puisque la police occupe la Sorbonne, Daniel Cohn-Bendit tient salon sur la place, un millier d'étudiants l'entourent, assis sagement en tail­leur sur le basalte, disposés à résister si les forces de l'ordre tentent de nettoyer les lieux. Un sondage conforte leur optimisme, paru dans la presse du matin: la population de Paris trouve les protestataires plutôt sympathiques, quoi que dise le gouvernement, malgré le boss du parti communiste qui dénonce «l'anarchiste allemand » fauteur de troubles, donc le complot de l'étranger et la CIA.


Le «rouquin sublime» tient le mégaphone lorsqu'un vieil homme très digne, très droit, une cape noire jetée élégamment sur l'épaule, fend la foule. Il vient, dit-il, «saluer» les révoltés. Il tient à désavouer publiquement son parti. Mazette! Une gloire natio­nale s'avance. Son nom circule comme une traînée de poudre, «Aragon!». Les étudiants sont médusés, « le » poète de la Résistance française, l'étoile du sur­réalisme et l'ancien porte-drapeau des intellectuels staliniens a sauté le pas. Il sourit à la foule, salue, pro­nonce quelques paroles bienveillantes et, tel un dieu vivant, savoure par avance l'ovation.


Dany interrompt le début de messe, reprend sans ménagement le mégaphone, et, avec la gouaille qui lui colle à la peau, lance au grand écrivain stupéfait « Très bien! tu es avec nous, mais, avant que nous ne soyons avec toi, réponds de ton passé ! Tu as chanté "Hourrah l'Oural" quand des millions et des millions de Soviétiques étaient déportés, exterminés par le NKVD. Explique tes élégies à la gloire de Staline ! Tu n'as pas le droit de tromper à nouveau.» Et le jeune «mal élevé», qui eût tant plu à l'Aragon surréaliste, enchaîne sans pitié : «Aragon! tu as du sang sur tes cheveux blancs.» Le prince des poètes, livide, s'est figé. Pas un son ne sort de sa bouche, une grimace vient tordre son beau visage. Il tourne les talons et repart penaud. Courbé sous le poids de ses men­songes? La magie de l'insolence venait d'assener une belle leçon d'histoire. De celles qui permettent de comprendre, trente-cinq ans après, la jeunesse orange d'Ukraine et les roses de Géorgie. De quoi moins s'étonner quand Tbilissi ovationne Bush contre Poutine.


Ne voyez pas là un négligeable incident de parcours. L'originalité et l'éclat du Mai français tenaient à sa rupture, encore balbutiante et souvent inconsciente, avec l'idéologie communiste. Ailleurs, en Europe, il en allait tout autrement.[...]

 


André Glucksmann

in Une rage d'enfant

[Chapitre 6. La tentation de Combray * pp.130,131]

Hachette Littératures

© Plon, 2006


Où l'on rencontre Mai 68, Jean-Paul Sartre et Tante Léonie. Qui donne congé à l'Histoire touche à une éternité pas belle à voir. Comment en soixante ans, Paris a zappé du discours de la victoire au discours de la défaite. Dans une Europe degré zéro, les guerres des mémoires tiennent lieu d'aphrodisiaque. 




Image: Student leader Daniel Cohn-Bendit raises his arm for silence to allow poet Louis Aragon to talk to students on a megaphone.Courtesy of Serge Hambourg ici  

 





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11.1.13

 

 

 

 Milan Kundera

 

 

Après 1948, pendant les années de la révolution communiste dans mon pays natal, j'ai compris le rôle éminent que joue l'aveuglement lyrique au temps de la Terreur qui, pour moi, était l'époque où «le poète régnait avec le bourreau» (La vie est ailleurs). J'ai pensé alors à Maïakovski; pour la révo­lution russe, son génie avait été aussi indispensable que la police de Dzerjinski. Lyrisme, lyrisation, dis­cours lyrique, enthousiasme lyrique font partie inté­grante de ce qu'on appelle le monde totalitaire; ce monde, ce n'est pas le goulag, c'est le goulag dont les murs extérieurs sont tapissés de vers et devant lesquels on danse.


Plus que la Terreur, la lyrisation de la Terreur fut pour moi un traumatisme. À jamais, j'ai été vac­ciné contre toutes les tentations lyriques. La seule chose que je désirais alors profondément, avide­ment, c'était un regard lucide et désabusé. Je l'ai trouvé enfin dans l'art du roman. C'est pourquoi être romancier fut pour moi plus que pratiquer un «genre littéraire» parmi d'autres; ce fut une attitude, une sagesse, une position; une position excluant toute identification à une politique, à une religion, à une idéologie, à une morale, à une collec­tivité; une non-identification consciente, opiniâtre, enragée, conçue non pas comme évasion ou pas­sivité, mais comme résistance, défi, révolte. J'ai fini par avoir ces dialogues étranges: «Vous êtes communiste, monsieur Kundera ? — Non, je suis romancier.» «Vous êtes dissident? — Non, je suis romancier. » «Vous êtes de gauche ou de droite? — Ni l'un ni l'autre. Je suis romancier. »


Dès ma première jeunesse, j'ai été amoureux de l'art moderne, de sa peinture, de sa musique, de sa poésie. Mais l'art moderne était marqué par son «esprit lyrique», par ses illusions de progrès, par son idéologie de la double révolution, esthétique et poli­tique, et tout cela, peu à peu, je le pris en grippe. Mon scepticisme à l'égard de l'esprit d'avant-garde ne pouvait pourtant rien changer à mon amour pour les œuvres d'art moderne. Je les aimais et je les aimais d'autant plus qu'elles étaient les premières victimes de la persécution stalinienne; Cenek, de La Plaisanterie, fut envoyé dans un régiment dis­ciplinaire parce qu'il aimait la peinture cubiste; c'était ainsi, alors: la Révolution avait décidé que l'art moderne était son ennemi idéologique numéro un même si les pauvres modernistes ne désiraient que la chanter et la célébrer ; je n'oublierai jamais Konstantin Biebl : un poète exquis (ah, combien j'ai connu de ses vers par cœur!) qui, communiste enthousiaste, s'est mis, après 1948, à écrire de la poésie de propagande d'une médiocrité aussi consternante que déchirante; un peu plus tard, il se jeta d'une fenêtre sur le pavé de Prague et se tua; dans sa personne subtile, j'ai vu l'art moderne trompé, cocufié, martyrisé, assassiné, suicidé.


Ma fidélité à l'art moderne était donc aussi pas­sionnelle que mon attachement à l'antilyrisme du roman. Les valeurs poétiques chères à Breton, chères à tout l'art moderne (intensité, densité, ima­gination délivrée, mépris pour «les moments nuls de la vie»), je les ai cherchées exclusivement sur le ter­ritoire romanesque désenchanté. Mais elles m'im­portaient d'autant plus. Ce qui explique, peut-être, pourquoi j'ai été particulièrement allergique à cette sorte d'ennui qui irritait Debussy lorsqu'il écou­tait des symphonies de Brahms ou de Tchaïkovski; allergique au bruissement des laborieuses araignées. Ce qui explique, peut-être, pourquoi je suis resté longtemps sourd à l'art de Balzac et pourquoi le romancier que j'ai particulièrement adoré fut Rabelais.



Milan Kundera

in Les testaments trahis

[sixième partie Oeuvres et Araignées [# 7,  pp. 185-187]

© Milan Kundera / Editions Gallimard 1993



 

 


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9.1.13

 

 

 

 Danilo Kis



FIDÈLE À RABELAIS

ET AUX SURRÉALISTES

QUI FOUILLAIENT LES RÊVES




Je feuillette le livre de Danilo Kis, son vieux livre de réflexions, et j'ai l'impression de me retrouver dans un bistro près du Trocadéro, assis en face de lui qui me parle de sa voix forte et rude comme s'il m'engueulait. De tous les grands écrivains de sa génération, français ou étrangers, qui dans les années quatre-vingt habitaient Paris, il était le plus invisible. La déesse appelée Actualité n'avait aucune raison de braquer ses lumières sur lui. «Je ne suis pas un dissident», écrit-il. Il n'était même pas un émigré. Il voyageait librement entre Belgrade et Paris. Il n'était qu'un «écrivain bâtard venu du monde englouti de l'Europe centrale». Quoique englouti, ce monde avait été, pendant la vie de Danilo (mort en 1989), la condensation du drame européen. La Yougoslavie: une longue guerre sanglante (et victorieuse) contre les nazis; l'Holocauste qui assassinait surtout les Juifs de l'Eu­rope centrale (parmi eux, son père); la révolu­tion communiste, immédiatement suivie par la rupture dramatique (elle aussi victorieuse) avec Staline et le stalinisme. Si marqué qu'il ait été par ce drame historique, il n'a jamais sacrifié ses romans à la politique. Ainsi a-t-il pu saisir le plus déchirant: les destins oubliés dès leur nais­sance; les tragédies privées de cordes vocales. Il était d'accord avec les idées d'Orwell, mais com­ment aurait-il pu aimer 1984, le roman où ce pourfendeur du totalitarisme a réduit la vie humaine à sa seule dimension politique exactement comme le faisaient tous les Mao du monde? Contre cet aplatissement de l'exis­tence, il appelait au secours Rabelais, ses drôle­ries, les surréalistes qui «fouillaient l'inconscient, les rêves». Je feuillette son vieux livre et j'en­tends sa voix forte et rude: «Malheureusement, ce ton majeur de la littérature française qui a commencé avec Villon a disparu.» Dès qu'il l'eut compris, il a été encore plus fidèle à Rabelais, aux surréalistes qui «fouillaient les rêves» et à la Yougoslavie qui, les yeux bandés, avançait déjà, elle aussi, vers la disparition.


Milan Kundera

in Une rencontre* p.160-161

© Milan Kundera 2009 - Éditions Gallimard 2009                                                

 

 

 

* ... rencontre de mes reflexions et de mes souvenirs; de mes vieux thèmes (existentiels et esthétiques) et mes vieux amours (Rabelais, Janacek, Fellini, Malaparte...)...






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21.9.11

 

 

Nul n'ignore, depuis Platon, Aristote et saint Augustin, combien la tâche est rude de faire le mal pour le mal. Une troupe de brigands s'invente des règles. Les lois de la mafia passent pour rigoureuses. L'homme qui se goinfre et se vautre poursuit ce qu'il estime le meilleur. De même celui qui torture et qui tue. L'amour du bien est le ressort de toutes les actions, y compris les plus viles.


Pourtant, l'hommage que rend sans cesse le vice à la vertu n'a rien qui rassure. Toutes les abominations de notre siècle ont été perpétrées pour la bonne cause, universalité de la classe, pureté de la race, service du bon Dieu... Les bonnes causes, remarque Soljénitsyne, fonctionnent en multiplicateurs du crime. Elles transforment l'activité artisanale d'un Landru en l'entreprise millionnaire et funèbre d'un Pol Pot. Athalie massacre par souci du Bien de l'État. Joad par respect de Dieu. Idéaux et idéologies aveuglent comme un «bandeau fatal». D'édifiantes prosopopées animent le crime de l'intérieur, ou de l'extérieur le dissimulent.


«Nous courons sans souci dans le précipice, après que nous avons mis quelque chose devant pour nous empêcher de le voir », écrit Pascal. Les classiques n'auraient jamais eu l'impudence d'annoncer la « fin des idéologies ». Une de perdue, dix de retrouvées.


Si la notion de classe ne rassemble plus, le phantasme de l’ethnie fait florès, la communauté des fidèles un tabac. Quand la science ne soutient plus les fariboles de lutte finale, la religion prend le relais. Les idéologies — le Grand Siècle les nommait imagination ou opinion — valent moins pour ce qu'elles racontent que par ce qu'elles interdisent d'appréhender. Leur force persuasive est soumise à variation, molle ou dure, universelle ou locale, mais tant qu'elles accomplissent leur travail de bouche-vue elles répondent à la demande.


De nos jours, les postmodernes concluent abusivement de l’effondrement du système soviétique à la mort absolue du marxisme. Ils se plantent définitivement quand ils extrapolent la fin des « grands récits ». Les miliciens serbes chantaient la bataille du champ des Merles (1389) en liquidant les civils croates de Vukovar (1991) et les Bosniaques de Srebrenica (1995). Les tueurs du Front islamique du salut égorgent les collégiennes et les chanteurs de raï tout en se disputant le titre de calife, d'émir et les traditions qui collent à ces vocables. Il ne faut jamais sous-estimer l'inépuisable plaisir des contes à massacrer debout et à jouir en rampant.


En matière d'idéologie, la fonction-récit reste subordonnée à la fonction-bandeau. Les nostalgies fallacieuses, l’avenir radieux, les lendemains qui chantent ou les cieux bienheureux sont livrés en prime. L'important est de ne pas prêter attention à la boue qui cerne et au sang que l'on verse.

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d’Allemagne et de France

[Lettre V , Pile dans le Noir! : Racine offusque les jolis coeurs — Paris oublie bergers et bergères entre 1660 et 1685 - Le Monde est un théatre— Les fils d'Oedipe font l'actualité—Il faut redevir classique]

© Éditions Robert Laffont, S.A., Paris, 1997.

 


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6.8.11


Encore aujourd'hui, toute une vie plus tard, il suffit d'un instant de rêverie éveillée, n'importe où, n'importe quand, ou d'un instant de distraction délibérée afin de m'évader d'une conversation oiseuse, d'un récit mal fagoté, d'un spectacle médiocre, pour que brusquement, sans rapport apparent avec les préoccupations ou les désirs circonstanciels, se déploie dans ma mémoire un envol d'éclatante blancheur d'images au ralenti. Ailes de mouette, à l'aube, derrière les baies vitrées d'une chambre d'hôtel, en Bretagne ? Focs des voiliers sous la lumière d'étain de la baie de Formentor ? Brouillards laiteux, effilochés par les vents tournoyant dans le détroit d'Eggemogging ?


Il m'arrive de ne pas identifier ces images. Je reste alors au seuil de leur lisibilité, remué par une émotion indéfinissable : quelque chose de fort et de vrai demeure caché, m'échappe et se dérobe. Quelque chose se défait, sitôt surgi, comme un désir inassouvi. Mais il arrive aussi qu'elles se précisent, qu'elles cessent d'être floues, de me flouer.


Je reconnais le long couloir de l'appartement de la rue Alfonso-XI, à Madrid, résonnant du bruit de nos courses, des portes ouvertes à la volée. Je reconnais dans la pénombre d'un soir de la fin de l'été les meubles précieux recouverts de housses blanches. Et c'est alors que réapparaissent, liés au souvenir enfantin, étrangement gouvernés par lui, tous les autres : un envol de pigeons, place de la Cybèle ; les mouettes de Bretagne ; les voiles de Formentor ; les brouillards de Little Deer Isle. Et le souvenir d'Odile, voltigeant à travers un salon parisien, arrachant joyeusement les linceuls éclatants des fauteuils et des canapés, les transformant en oriflammes du plaisir annoncé, tout en chantant à tue-tête l'air du toréador de Bizet.


Au « Petit Schubert », boulevard du Montparnasse, quelques jours après mon arrivée à Paris, j'avais eu Odile M. dans mes bras. Je me suis demandé si quelqu'un n'allait pas subitement surgir pour me l'enlever. À Eisenach, dans le vieil hôtel où les Américains avaient installé un centre de rapatriement, l'officier français des commandos m'avait enlevé Martine. Mais au « Petit Schubert » le temps a passé, il ne se passait rien. Rien d'autre que la lumière allumée dans les yeux d'Odile, la présence accrue de son corps. Elle était toujours dans mes bras. Elle ne semblait appartenir à personne. Personne ne semblait avoir sur cette jeune femme droit de préemption ou de cuissage. Elle allait être à moi.


Les jours ont passé, les semaines: elle était à moi. Mais sans doute faut-il renverser ce rapport d'appartenance. C'est moi qui lui appartenais, plutôt, puisqu'elle était la vie et que je voulais appartenir à la vie, pleinement. Elle a réinventé pour moi, avec moi, les gestes de la vie. Elle a réinventé mon corps, un usage de mon corps, du moins, qui n'était plus strictement celui d'une économie de survivance, qui était celui du don, du gaspillage amoureux.


Pourtant, malgré elle, malgré moi, malgré l'exubérance de cet été du retour, la mémoire de la mort, son ombre sournoise, me rattrapait parfois. Au milieu de la nuit, de préférence.

 

Jorge Semprún

in  L’Écriture ou la Vie    p.200-201

© Éditions Gallimard 1994

 

Para Isabel Feijó (4 Janeiro 1959 - 5 de Agosto 2011) 

 



11.6.11

 

 

 

 

 Rui Chafes, O teu coração está a dormir, não o acordes demasiado cedo*  (2008)

 

 

 

[...] Tenho consciência de que, em idênticos cruzamentos da história, os abismos são muitos e de que algumas gerações que nos precederam, a pretexto de largar para grandes voos, caíram em grandes precipícios. Trata-se duma espécie de «Patologia das Sociedades Civilizadas», título que parece do Dr. Segismundo Freud, se é que não será mesmo dele. Algumas vezes, a rebelião contra as incomodidades sociais exprime-se, inesperadamente, pela sua identificação com as ideologias racionais. Quando, na Alemanha dos fins dos anos 20, princípios dos anos 30, a situação económica se deteriorou, muitos marxistas esfregaram as mãos de contentes porque as profecias de Karl Marx se iriam cumprir. O que aconteceu foi o que se viu: a ânsia duma mudança urgente, as aspirações unicamente dirigidas para o bem-estar material não se ligaram aos desejos de liberdade mas ao fenómeno inverso; ao medo da liberdade; as pessoas identificaram-se com uma forma de dependência duma atitude existencial que trocava a liberdade pelo paternalismo e pela protecção. Elas estavam sensíveis aos apelos feitos ao seu lado emocionalmente irracional, místico e infantil, porque esses apelos vinham reforçar a necessidade de se apegarem a figuras de autoridade que prometiam uma «nova vida».

 

Isto é só para dizer que, ao lado desses abismos, há uma forma sadia de encarar o romantismo, atitude a que, se fosse possível, eu chamaria «ingenuidade controlada», o que equivale a dizer que, muitas coisas em que a gente acreditava estão certas, só que mais ninguém acredita nelas e elas, em certa medida, viviam dessa crença. O Diabo, as almas do outro mundo e todos os fantasmas em geral, habitam um espaço de que eles não são os representantes maiores: esse espaço constituído pelo misterioso e pelo irracional vive da nossa própria crença e não estão dispostos a conviver com quem os recusa. Isto faz parte duma questão maior que é a de uma longa e não sei se eterna contradança entre a natureza e a cultura, nomeadamente quando ela incorporou uma excessiva dose de Razão. Não podemos dispensar a culturização do mundo, mas a verdade é que, desde que a Razão se apoderou dela, a cultura está prestes a destruir-nos, porque não há maior barbárie do que a da loucura da Razão. É então que a natureza reúne as suas forças e dá um grito. Neste mundo, racionalizado e politizado até à exaustão, o romantismo é capaz de ser esse grito que visa um «para além» do político. Hoje, não necessitamos de nenhum discurso político nem que seja o da «desconstrução» do conceito hegeliano do Estado. Necessitamos, isso sim, de um clima de interrogação onde seja possível analisar a metamorfose das condições interiores da alma. Eu sei: a gente diz «alma» e vocês riem-se mas, o que temos mais para enfrentar a barbárie?

 

 


António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

* peça fotografada por LMD, 2010 (aqui); no âmbito da exposição KHORA, Fundação Carmona e Costa

 

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26.2.11

 

 

 

 

Warsaw Pact invasion of Czechoslovakia in August of 1968

Photo: Ladislav Bielik  aqui

 

 

 

At Wenceslas Square at the center of Prague, below the bullet-scarred facade of the National Museum, tens of thousands of people with transistors to their ears milled around in streets filled with crushed automobiles and pieces of masonry that had been shot down from the surrounding buildings. Walls were covered with painted slogans. Trucks draped with Czechoslovak flags rammed into the Russian tanks and the air rang with the sound of intermittent gunfire.


Standing in the crowd, I felt that this was the supreme moment of our lives. During the night of the invasion, when we lost everything, we found something that people in our world hardly dare to hope for: ourselves and each other. In all those faces, in all those eyes, I saw that we all thought and felt alike, that we all strove for the same things.


Prague resisted in every way it could. Street signs disappeared or were turned around so that the invaders were unable to find their way through the city. License plate numbers of Soviet Security cars were painted in large digits on the walls. Radio and, later, television broadcasts were transmitted from makeshift facilities that were moved from place to place, eluding the Russians. At the same time, the train carrying Russian radio station-detector equipment was lost on its way to Prague. For days it was shunted from siding to siding by Czechoslovak railwaymen. And throughout the city, hungry Russian soldiers who could not get a crumb of food or glass of water from the population wandered through streets where all the traffic signs pointed in one direction: back to Moscow.

 

 

Heda Margolius Kovály

in  Under a Cruel Star – A Life in Prague 1941-1968

Translated from the Czech by Franci Epstein and Helen Epstein with the autor

Holmes & Meier, New York

© Heda Margolius Kovály, 1986

 

 

 

 

 

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28.11.09

 

 

 

 

Frontière mexicaine, côté San-Diego, Californie, USA.


photo Daniel Mermet - mars 2008

 

 

 

Qu'est-ce qu'être moderne ? C'est être mécontent. Dans l'histoire des sociétés humaines, nos démocraties présentent, en effet, ce trait unique, magistralement mis en lumière par François Furet : « La capacité infinie à produire des enfants et des hommes qui détestent le régime social et politique dans lequel ils sont nés, haïssent l'air qu'ils respirent alors même qu'ils en vivent et qu'ils n'en ont pas connu d'autre (1). »

 

Avec l'écroulement sans gloire du modèle communiste, on a cru que le temps était venu du retour des enfants prodigues et de la grande réconciliation. La preuve ayant été faite, tout au long de ce siècle, expérimental et sanglant, sanglant parce que expérimental, qu'il n'y avait pas d'alternative à la démocratie parlementaire, on est allé jusqu'à dire que l’histoire trouvait son achèvement dans le règne sans partage des principes libéraux. C'était oublier qu'en mettant l'égalité des individus à la source du vivre-ensemble, la démocratie se condamnait pour toujours à l'insatisfaction. Quand chacun comprend d'emblée les relations humaines comme des relations entre égaux, les hiérarchies ne disparaissent pas: ce qui tombe c'est leur aura; ce qui arrive, c'est qu'on cesse de les prendre pour argent comptant. S'il y a toujours des puissants et des misérables, des supérieurs pour commander et des subordonnés pour obéir, nulle métaphysique n'est là pour garantir ou pour enchanter cette répartition. L'ordre social ne reflète plus l'ordre naturel. Alors que dans l'univers aristocratique, le réel est soutenu par l'invisible et l'inégalité des hommes par la puissance des cieux, en démocratie, à l'inverse, il n'y a pas d'arrière-monde et tous les hommes sont égaux, sauf dans la réalité. D'où le mécontentement. D'où l'impossibilité de clore l'histoire sur le bonheur de vivre dans un tel système.


La conjoncture, de surcroît, est mauvaise. Et le triomphe de la démocratie, morose. L'agonie du communisme, en effet, a coïncidé avec la crise de l'État social. Le rêve d'une classe moyenne universelle s'est dissipé presque en même temps que l'utopie de la société sans classes. Il n'y a certes plus d'alternative à l'Est, mais à l’Ouest, quoi de nouveau sinon la sortie de l’âge d'or où la croissance se conjuguait avec la protection sociale et le plein emploi ? L'heure est à la mondialisation des échanges, à l'abandon progressif de la plupart des formes d'encadrement légal ou de contrôle sur l'économie privée, aux gains de productivité pour rester compétitif, au creusement des inégalités entre les gagnants et les perdants, les ayants droit et les autres: chômeurs, travailleurs précaires, immigrés clandestins.

 

 

Alain Finkielkraut

in Une voix vient de l’autre rive   pp.55-56-57

©Editions Gallimard, 2000

 

 

Nota

1) François Furet, Le Passé d’une illusion, p.31

 

Imagem: aqui

 

 

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26.10.09

 

 

 

 

 

 

Untitled 1982

Jean Michel Basquiat

 

 

 

 

À la lumière des guerres, crises et révolutions, la modernité européenne s'est révélée porteuse du pire comme du meilleur. Ses armes magiques — la politique sécularisée, l’économie rationalisée, l’innovation scientifique et intellectuelle — sont des techniques et à ce titre «capables des contraires» (Aristote). Elles placent les contemporains devant la responsabilité de bien ou mal en user. Dès qu'on reconnaît que les marchés, les États et autres prestigieuses organisations modernes sont, et ne sont que des outils susceptibles d'améliorer ou de détériorer la vie en commun, il faut conclure qu'en dernière instance ni l'État, ni le marché, ni les techniques en général ne se contrôlent eux-mêmes. Ces créations humaines ne comportent aucun système de freinage incorporé. Force est alors de concocter une procédure extrinsèque de contrôle et de limitation, dont l'opinion publique, toute faillible qu'elle soit, se retrouve, dans la cité occidentale, responsable.

 

Longtemps tête pensante de la modernité civilisée et par là même vouée aux contraires, l'Europe se projeta simultanément école du progrès, des guerres et des révolutions. Ayant plongé avec armes et bagages dans les horreurs du XXe siècle, elle connut le vertige absolu de l'étripement des nations qu'elle redoubla par les barbaries totalitaires. Guerre extérieure, guerre civile, guerre dans chaque conscience, c'est l'enchaînement déjà détaillé par Thucydide. De la tuerie extérieure à la folie intérieure, le cycle infernal menace en permanence de se répéter. […]

 

Le contrat dissuasif, qui fonde la Communauté européenne, est triple. Antifasciste d'abord, le spectre de Hitler rappelant que la pulsion de mort hante les sociétés évoluées, éduquées, industrialisées, et combien elle prend aisément, par temps de crise, le dessus. Anticommuniste ensuite, la communauté s'est édifiée à l'ombre du rideau de fer. Anticoloniale enfin, cette clause non écrite s'imposa tacitement quand chaque nation découvrit à ses frais qu'une participation à l'aventure européenne exige qu'on se libère de ses enlisements outre-mer. Dans les trois cas, la perspective d'une catastrophe commune impose de rigoureuses limites aux conflits des nations, à la lutte des classes et aux guerres de race et de religion. Dès 1848, Marx a très précisément formulé l'alternative sur laquelle butèrent les élites européennes un siècle plus tard : l' affrontement ouvre « soit sur une transformation révolutionnaire de la société tout entière, soit sur la ruine commune des classes en lutte» (le Manifeste). Tandis que le XIXe siècle, Marx en tête, n'avait d'yeux que pour le premier terme de l'alternative, la «transformation révolutionnaire», le XXe apprit à ses dépens ce qu'il en coûte de négliger le second volet: la «ruine commune», témoin les dizaines de millions d'Européens disparus dans les tourmentes, prolétaires, bourgeois, paysans, intellectuels mêlés. Bien que l'habituelle rhétorique politique chante l'optimisme et la confiance retrouvés, une insondable méfiance historiquement motivée fonde le nouveau contrat européen : tout pouvoir à l'État et à la patrie ? Nenni, voyez 1914. Tout pouvoir au parti et à l'idéologie ? Plutôt crever! Les forces politiques, économiques, syndicales, sociales, etc., se contrôlent-elles réciproquement ? Tant mieux. Ou bien se neutralisent et se paralysent-elles? À chaque citoyen, dans la mesure de ses possibilités, de prendre ses responsabilités.

 

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan  p. 240-241-242

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

 

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