17.8.16

 

 

Aniki-Bobó-1942.jpg

Aniki-Bóbó, 1942

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Contas do Porto

 

 

 

A primeira vez que fui ao Porto estranhei que me aceitassem o dinheiro. Ia em trabalho e ao fim de meio dia na cidade parecia-me evidente que um escudo de Famalicão ou de Ponte da Barca incorporava muito mais capital e trabalho do que um escudo de Almodôvar ou de Vendas Novas. Eu tinha quase trinta anos, isto é, foi há muito tempo: antes da adopção do euro como moeda nacional ter atirado os escudos para museus de numismática onde já se mostravam réis e cruzados e maravedis; antes de, a seguir ao 25 de Abril, se terem mudado nomes às coisas pensando-se que assim se mudava a natureza destas (mas a Ponte 25 de Abril é a mesmíssima ponte que a Ponte Salazar e o país que adiante e atrás dela se vê não pertence nem mais nem menos ao povo do que pertencia no dia 24 de Abril de 1974); antes da morte do Doutor Salazar por mor de ter caído da cadeira de lona onde gostava de se sentar no forte de Santo António do Estoril - por ordem cronológica invertida destes acontecimentos.

 

Mais atrás ainda. Eu era elitista, sulista e arrogante. Aos 15 anos fora aprender a pintar no atelier de António Pedro, em Campo de Ourique, onde pintores do primeiro grupo surrealista português, a que ele pertencia, elaboravam um cadavre exquis (quadro colectivo de que cada autor só ia vendo a sua parte). Pedro era sábio: não me meteu em cavalarias tão altas; mandou-me fazer retrato a óleo de um boi de loiça das Caldas. Passados meses desisti de vir a ser pintor; depois Pedro foi para o Porto onde fundou e dirigiu durante anos o Teatro Experimental. Num fim de tarde de inverno chuviscoso encalhámos os dois um no outro numa paragem de autocarro na Praça dos Restauradores, em Lisboa. Depois de saudações efusivas, “Mestre” perguntei-lhe eu “Como é que se pode viver no Porto?”. António Pedro era alto, de traços finos, óculos e barbicha bem aparada. Lá de cima respondeu-me com bonomia: “Oh filho: o Porto é uma cidade de província da Europa. E Lisboa não é nada”.

 

Depois de longa ausência, entrecortada por visitas curtas com fito certo, passei o último fim da semana a flanar no Porto e o efeito desta vez foi fulgurante. Lança autoestradas para fora como os polvos lançam tentáculos, por cada uma delas se entra na cidade e se deita até à Ribeira, sem léguas de subúrbios pelo meio. E a actividade permanente que já há mais de meio século me parecera de outro mundo, acentuou-se ainda mais e varia nas muitas novas coisas que se vão fazendo. Estamos, diz-se agora, todos ligados pela internet mas haverá lugares mais intensos na ligação do que outros. O dinheiro, a moeda, hoje não me dá problemas, porque já nem é deles nem é nossa. Mas há outra coisa, mais funda. O Porto, pensei, é Portugal acordado. E que o tripeiro ainda ature o alfacinha talvez devesse espantar muita gente (escrevo à vontade por não ser nem um nem outro).

 

Mário Cesariny de Vasconcelos pôs o dedo na ferida de maneira incómoda: “Lisboa, capital do Porto”. Injusto? Talvez mas por aqui me fico.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 21:46  comentar

25.5.16

 

 

Soares e Cavaco.jpg

 Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Canários na mina

 

 

 

 

A Palma de Ouro do Festival de Cannes foi atribuída ao realizador inglês Ken Loach pelo filme “I, Daniel Blake”. Também este ano, o prémio Pritzker (espécie de Nobel da arquitectura, criado por família multi-milionária de Chicago, já recebido duas vezes por portugueses: Siza Vieira e Souto de Moura) foi atribuído ao chileno Alexandro Aravena. As duas atribuições têm uma coisa em comum: ao contrário do que costuma acontecer ambas recompensam mais as preocupações sociais dos contemplados do que as suas contribuições arte pela arte, por assim dizer, aos misteres respectivos. Loach conta história desventurosa de um desempregado; Aravena tem projectado para acolher o melhor possível na cidade migrantes pobres do campo. O filme e as construções não ficarão necessariamente entre as mais altas obras-primas do cinema ou da arquitectura.

 

Mas foram premiados, neste ano da graça de 2016, por júris diferentes de artistas, em diferentes continentes, de competência incontestável, porque, às vezes, artistas percebem o futuro melhor que economistas, antropólogos, historiadores, cientistas políticos (longe vá o agoiro…), matemáticos, banqueiros, sindicalistas, mulheres-a- dias, leitoras de sinas ou leitoras de genomas, tal como os cães começam a uivar por pressentirem terramotos antes dos humanos os sentirem ou os canários postos em minas para assim darem o alarme, morrem asfixiados antes dos humanos cheirarem o gás e, com sorte, poderem escapar a tempo das explosões.

 

Como cães em tremores de terra e canários ao fundo de minas, os prémios dos júris de Cannes e de Chicago lembram-nos uma coisa enorme. Desde que o colapso da União Soviética e a emergência dos bilionários chineses passaram certidão de óbito ao comunismo como remédio para os males sociais deste Mundo, o capitalismo tomou o freio nos dentes. Zelo excessivo e mal orientado está a cavar fosso cada vez mais largo entre grupo muito pequeno e muito rico por um lado, e vastas classes baixas e médias com perspectivas de prosperidade cada vez mais ténues e incertas, por outro lado. Coisa de que já sabíamos mas contra a qual, nas sociedades do Sul da Europa, incluindo a nossa, aparecem agora a lutar estudantes e sindicalistas convencidos da bondade do remédio que falhou. O fosso alarga-se. Entretanto em França, na Áustria, na Hungria, nos Países Baixos, a pouco e pouco na Alemanha, a inacção da gente de bem deixa germinar os fascismos do futuro próximo. E nos Estados Unidos, amigo judeu alemão que morreu há dias e lá tinha arribado com Franklin Roosevelt presidente horrorizava-se de ver bruto ignaro como Trump convencer tanta gente a pô-lo na Casa Branca. Uma broncalina do camandro – ou então uma Bernardette do caboz.

 

 

NB – Em Portugal não há extrema-direita porque a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva em 1987 foi mata-borrão que apanhou tudo. E não há extrema-esquerda porque Mário Soares, ao dissolver a Assembleia da República em 1985, lhe tirou o caldo de cultura.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

1.11.15

 

 

La Blessure 3.jpg

 La Blessure (2004 França/Bélgica)

de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval

 

 

O melhor filme que vi nesta edição do Doclisboa é uma recriação notável das condições de acolhimento e de vida de imigrantes africanos em França.

Um texto sobre o filme e mais fotografias na revista Courte-Focale aqui.

 

A crítica de Jacques Mandebaum no Le Monde aqui

A text in English here.

 

 

 

link do postPor VF, às 23:31  comentar

29.6.15

 

 

 

La vida es un sueño y los sueños sueños son. Calderón cut a play's title out of that old Spanish proverb. Life is a Dream. The rest translates: 'Dreams are dreams.'

 

On the fifth of March 1933, the banks of the nation closed. Led more by a nose for drama than by the concern proper to a son, I hustled uptown to see how the 'old man' was weathering the crisis; my curiosity was not altogether sympathetic.

 

His business was located at 295 Fifth Avenue, the Textile Building, a hive of importers, wholesalers like himself, dark-complexioned men, immigrants all, most of them Armenians but some Anatolian Greeks, as well as a few Persians, Syrians and Egyptians. These men had come overseas from the East, propelled by a dream: that here their throats would not be cut. Working in the dust of carpets, living alone in dark back rooms, depriving themselves of pleasures, they'd put the dollars together, year after year, obeying the voice in the air of America; to accumulate money; that was safety, that was happiness. They married late, unromantically, going back to their native lands, as my father had, to find a proper woman out of their own tradition, ten, fifteen, twenty years younger, then made children as quickly as possible in half-paid-for homes while dutifully continuing to feed their accounts in banks whose doors, that morning, had remained locked.

 

Generally these men entered my father's store only when they had a customer whose needs they weren't able to meet from their own stock. They'd escort this buyer to Father's place and there pick up, in place of a profit, a commission. These encounters were rare since they were a last resort. My father's competitors paid each other no casual visits. But when I walked in that morning, there they were, a dozen or more, sitting cross-legged on piles of three-by-five Sarouk or Hamadan 'mats', clumped together in static postures, like hens roosting. Motionless, inanimate, they seemed to be waiting – but for what? Occasionally a few mournful words would be mumbled, a puzzled complaint. No response was expected, none offered.

 

Skirting the motionless figures, I circled back to the small desk where I was supposed to tend the accounts-due books. With business as bad as it had been, there'd been little to do that summer. I'd typed a few letters: 'Your immediate check would be sincerely appreciated' or 'We will regretfully be forced to place your account in the hands of our lawyers.' But most of the time I'd tilted up the large stock of our book and hidden The Brothers Karamazov behind it. This had been noticed, of course, and reinforced the general opinion that I was a young man without a future.

 

On this morning I sat idle, like the others, studying the assembly of merchants, men whose skins had once been a rich olive and were now pale from worry and the cold light that concrete walls shed. They're like shipwrecked sailors, I thought, thrown up on a desert and waiting for someone to rescue them.

 

Actually my father's business had gone 'kaput' - his word — three years before, in 1929, when the market collapsed. He'd put the yield of a life's labour into a stock issued by the National City Bank. Bought at just over 300, climbing as millions cheered past 600, it then rumpled with all the others down the mountain of high finance, like the boulders of an avalanche, to 23. At that time, he'd thought of his disaster as something for which he was in some way responsible; he must have done something wrong, made some awful mistake. Had he been outsmarted? Had he been cheated?

 

But now, in 1933, on the day the banks closed, surrounded as he was by men who shared the catastrophe — no one smarter, no one luckier, he knew them all to be as ordinary as he was - Father must have begun to accept that what had happened was more serious than any mistake he could have made. The men around him were all bleeding from the same invisible lesions. In a few years many of them would be out of business. They all shared a dread of what was coming.

 

 

Elia Kazan

in  A Life   p.102-103

© Elia Kazan 1988

 

 

Elia Kazan.jpg

 

 

On board the Keiser Wilhelm which brought us to America (1913)



link do postPor VF, às 08:44  comentar

29.4.15

 

Major_Barbara_1.jpg

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Contas à vida

 

 

 

É pena que a juventude se desperdice nos jovens, disse Bernard Shaw e quanto mais os anos passam melhor o entendo. É claro que cabeças afinadas sempre deram por isso embora só muito raramente na altura devida – foi o caso de Paul Nizan, ao começar o seu Aden Arabie: “Tinha vinte anos. Não deixarei ninguém dizer que é a idade mais bela do mundo”.

 

Morre jovem o que os Deuses amam é um preceito da sabedoria antiga disse Fernando Pessoa de Mário de Sá-Carneiro, preceito que, como outros, aguentara os dois milénios e meio que vão de Homero até nós mas é posto em causa por progressos da ciência e pelo mandamento cristão de amar o próximo como a nós mesmos. Além disso, dantes as transições eram espaçadas – ao ponto de, entre os Dayaks do Borneo, por exemplo, se morrer duas vezes – e sabia-se de onde se vinha e para onde se ia. E nem toda a gente pode ter razão ao mesmo tempo, ao contrário do que pretendia Montaigne quando escreveu que antes do cristianismo ou fora do alcance deste, quem tivesse sido bom seria salvo por Deus, fossem quais fossem as suas crenças. É o que lógicos chamam a falácia de Montaigne e dela não há saída: ou o Deus em que eu acredito é o verdadeiro ou não é - ponto final, parágrafo. (A globalização de constituições democráticas vem dar mais outra demão à pintura. Ter certezas na cabeça e querer também paz sobre a terra para os homens – e mulheres - de boa vontade com outras certezas na cabeça é pedir trabalhos de Hércules e sofrimentos de Job. Democracia dá trabalho e a preguiça é um dos pecados mortais).

 

E os velhos? Se Deus não gostasse de velhos porque deixaria haver cada vez mais? E o que eles gostam da vida! Não me esqueço de cardíaco negro no hospital de Santa Maria, de olhos fechados, impávido qual estátua jacente, enquanto professor explicava a sua doença a futuros médicos. Quando chegou à terapêutica o moribundo abriu um olho, levantou um braço, anunciou “Eu dou-me bem é com a aminofilina”, baixou o braço, fechou o olho, calou a boca e voltou a esperar a morte. Eutanásia compulsória? E a aminofilina? Vai ser o bom e o bonito.

 

Amparo-me em muleta de Shaw também para acabar. Na peça Major Barbara (major da Salvation Army) o pai da heroína é industrial de armamento e o namorado é idealista de esquerda. Discutem à porta da fábrica. Não resisti a emprestar as suas palavras a protagonistas de peripécias europeias dos nossos dias.

 

                                   Varoufakis

 

O senhor julga que eu trocava a minha consciência pelo seu dinheiro?

 

                                     Schäuble

 

E o senhor julga que eu trocava o meu dinheiro pela sua consciência?

 

Sempre houve ricos e pobres, suspirava a Avó Berta - e emigrantes afogados no Mediterrâneo, talvez acrescentasse agora, que o caruncho do tédio esfarela a Disneylândia de Direitos Humanos que construímos durante a Guerra Fria para chamar a Rússia à pedra; Rússia que - não haverá nada a fazer? – insiste em ser ainda muito pior do que nós.

 

 

 

Imagem aqui

 

link do postPor VF, às 07:04  comentar

13.12.14

 

APV still 378 blog

Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça gravam mulheres da Beira a cantar.

Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP 1968] 

 

 

[... ] Reco­lhendo a letra dos Romances desa­companhada da respectiva música, o autor das Viagens na minha terra fez obra incompleta, truncada. Não o culpemos muito por isso. Pode­ria ele ter procedido diferente­mente ? Garrett era, antes de mais nada, um poeta, um escritor, cer­tamente pouco familiarizado com o fenómeno musical. Não era fol­clorista (a disciplina do folclore achava-se então ainda nos limbos) para poder proceder à sua reco­lha (aliás feita indirectamente, através de comunicações de ter­ceiros) com verdadeiro método científico.

 

Lembremo-nos, ademais, que, nos países que de certo modo o impulsionaram no estudo da lite­ratura popular e que lhe minis­traram as ideias interpretativas desta, a Inglaterra e a Alemanha, ou, antes, o movimento romântico naquelas duas nações, também as coisas não principiaram doutro jeito e que só mais tarde ali se começou a. prestar a devida aten­ção às melodias populares e a con­siderar em conjunto o binómio poesia-música.

 

No entanto, ao próprio Garrett. não passou acaso despercebida a deficiência do seu trabalho e o quanto importaria, sob o ponto de vista prático, isto é, para o apro­veitamento artístico dos materiais fornecidos pela nossa poesia tra­dicional, associar esta às melodias que com ela nasceram ou que com ela fraternamente andam de par. Comentando, no mesmo 2.° volume do Romanceiro, o Romance da «Bela Infanta» (que classifica de chá­cara), diz que o introduziu, com algumas alterações indispensáveis, no 5.º acto d' O Alfageme de Santarém, fazendo-o «cantar por um coro de mulheres do povo, à hora do trabalho». E relata, entre satisfeito e pesaroso: «...observei o sensível prazer que tinha o pú­blico em ver recordar as suas anti­guidades populares, que nem ainda agora deixaram de lhe ser caras, Mas por mais que fizesse, não consegui que as cantassem a uma toada própria e imitante, quanto hoje pode ser, da melopeia antiga com que há séculos andam casa­das essas trovas. Ainda em cima, os cantores desafinavam e iam fora de tempo na música italiana e com­plicada que lhe puseram. Apesar de tudo, os espectadores avaliaram a intenção e a aplaudiram.»

 

Dos Romances compendiados por Garrett conhecemos nós hoje tão só as toadas da Bela Infanta, do Bernal- Francês, do Conde Yano (ou Conde Alberto), do Conde de Ale­manha, da Silvaninha, do Reginaldo, do Conde Nilo, da Donzela que vai à guerra (também conhe­cido por D. Martinho), da Nau Catrineta, de O cego, de Linda-a-pastora (ou O príncipe e a pastori­nha), do D. João e de A morena. (E possível que ainda um que outro deles haja por aí recolhido por algum curioso ou folclorista benemérito de que não temos no­tícia). Mas o ponto é saber-se se tais toadas são de facto as que, à altura da colação garrettiana, se cantavam com as letras que ali se referem. Não terá havido em muitas delas permutas e transposições? Já se verificaria então o fenómeno, hoje corrente, de a uma determi­nada toada se poderem atribuir vários romances ou de um destes ser cantado com melodias diferen­tes ? Que alterações ou transfor­mações se terão produzido nessas toadas no decurso de um século?

 

A coisa seria importante de sa­ber-se para a organização e estudo quanto possível documentado do nosso Romanceiro no ponto de vista poético-musical; mas crêmo-la já agora impossível de apurar-se.

 

A tarefa sistemática da recolha da poesia e música dos Romances nunca chegou a ser empreendida entre nós, e talvez já seja tarde para a tentar. E que prejuízo daí não resultou, a avaliar pelos belos mas desgarrados espécimes com que se consegue topar numa que outra publicação ou ouvir ainda (cada vez menos, infelizmente) da boca do próprio povo! (*)

 

O cometimento de Garrett ficou incompleto; mas saibamos fazer jus ao grande escritor, hoje, no ano do seu Centenário, por haver dado o sinal de partida, ao menos num aspecto do conhecimento, res­guardo e apreço do rico tesouro da nossa arte popular.

 

Fernando Lopes Graça

in  A propósito do Romanceiro de Garrett

Vol. III de Gazeta Musical (Academia de Amadores de Música) nr 51 Dezembro de 1954 

 

 

(*) Nota do Autor: — Já agora, consignemos aqui os Romances (na maior parte incompletos, outros com interpolações várias) que, acom­panhados de música, andam dispersos por várias publicações de que temos conheci­mento, fazendo, para algumas das toadas recolhidas, a prudente reserva da fideli­dade da transcrição musical (por exemplo, para os das colecções de Pedro Fernandes Tomás, a quem muito se deve neste capí­tulo, mas cujo rigor musical é frequente­mente duvidoso), e formulando votos por que a presente lista possa vir a ser acres­centada com comunicações dos nossos es­tudiosos da matéria.

I. O Conde de Alemanha, Reginaldo, O Capitão da Armada, Nau Catrineta, O Cego, Frei João, Jesus pobrezinho, in Pedro Fernandes Tomás: Velhas Canções e Romances Populares Por­tugueses (França Amado, Coimbra, 1913).

II. O duque de Alba, A noiva enganada, in Pedro Fernandes Tomás : Cantares do Povo (França Amado, Coimbra, 1913)

III. O Caçador, Pastora, Sta, Catarina, Milagre da Virgem, in Pedro Fernan­des Tomás: Canções Portuguesas do século XVIII à actualidade (Coim­bra, Imprensa da Universidade, 1934).

IV. D. João, D. Fernando, D. Angela, Deus te guarde pastorinha, Mineta, A menina cativa (?), in P.e Firmino A. Martins: Folklore do Concelho de Vinhais, 2º vol. (Lisboa, Imprensa Nacional, 1939).

V. O lavrador da arada, O homem rico, Conde Alardo, Santa Iria, in António Avelino Joyce: Revista Ocidente, IV.

VI. Lavrador da Airada, D. Silvana, Santa Iria, O príncipe e a pastorinha, Ora, valha-me Deus, Morena, O rei e a pastora, D. Martinho, in J. Diogo Correia: Cantares de Malpica (Livra­ria Enciclopédica de João Bernardo, Lisboa> 1938).

VII. O cego, Conde Nino, Conde Albano, Rosa, a pastorinha, Nau Catrineta, Dona Silvanas Irene (sem letra), Bernal Francês (sem letra), Lamenta­ções da freira (sem letra), Dona In­fanta, Gerinaldo, O lavrador da arada, in Gonçalo Sampaio: Cancioneiro Mi­nhoto, 2,a edição (Livraria Educação Nacional, Porto, 1944).

VIII. O lavrador da arada (três versões), Romance ("sem titulo), in Edmundo Arménio Correia Lopes: Cancioneirinho de Fozcoa (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926).

IX. Santa Iria, A nau Catrineta, in Fran­cisco de Lacerda: Cancioneiro Musi­cal Português   (Junta de Educação Nacional, Lisboa, 1935).

X. Rosa, a pastorinha, Confissão da Vir­gem, in Sales Viana: Cancioneiro Monsantino (Edições SNI, Lisboa).

XI. A bela Infanta, in Rodney Gallop: Portugal, a book of Folk-ways (Cam­bridge, at University Press, 1936),

XII. Silvaninha (var.), Bela Infanta, in Ro­dney Gallop: Cantares do Povo Por­tuguês (Livraria Ferin, Lisboa, 1937).

XIII. Reginaldo (ou Gerinaldo), O homem rico, in Fernando Lopes Graça: A Can­ção Popular Portuguesa (Publicações Europa-América, Lisboa).

 

Deve observar-se que certos destes Ro­mances se acham repetidos ou constituem lições diferentes do mesmo tema; estão neste caso, por exemplo, Mineta (O cego), Rosa, a pastorinha (O príncipe e a pastora, Pastora), Frei João (Morena), Jesus pobre­zinho (O lavrador da arada). Isto apenas quanto às letras, porquanto as melodias não se repetem.

 

 *

 

Notas:

 

1. Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP, 1968] de excerto reproduzido no documentário Uma visita aos afectos do compositor  [Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça © Sílvia Camilo 2014] 

Imagem gentilmente cedida por Sílvia Camilo a quem muito agradeço. 

 

2. O romance popular Linda-a Pastora com introdução de Garrett neste blog aqui

 

3. Artigo de Gonçalo Frota no Público O cante ouve-se com o corpo, diante das vozesaqui

 

4. Mais neste blog nas tags Lopes Graça e Garrett

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:09  comentar

7.12.14

 

FLG Faial.jpg

 Fernando Lopes Graça, Horta, Açores 1983 

 

 

 

Cumpriu-se faz agora dois anos a primeira etapa do projecto ambicioso dum grupo de amigos de Fernando Lopes Graça (1906-1994): trazer a público uma colecção de peças para piano que o compositor dedicou a amigos e eventos – as “Músicas Festivas” – e registá-la em múltiplos suportes, permitindo a criação de conteúdo não efémero.

 

Das 23 peças, 13 nunca tinham sido tocadas em público e 18 nunca tinham sido gravadas. A colecção inédita foi apresentada a 16 de Dezembro de 2012 num concerto do pianista António Rosado no Centro Cultural de Belém. Na mesma data saíram os CD "Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça", os quatro volumes das partituras (em suporte papel) e foram criados um sítio Web multilingue* e um álbum de fotografias e documentos no facebook.

 

Um duplo DVD agora lançado [o concerto no CCB, com introdução do musicólogo Rui Vieira Nery, e o documentário "Uma visita aos afectos do compositor"] completa este projecto multimédia, a vários títulos exemplar, constituído por cinco iniciativas produzidas e financiadas por um grupo muito pequeno de pessoas com apoios quase nulos.

 

O documentário "Uma visita aos afectos do compositor" — retrato intimista e muito cativante de Lopes Graça construído a partir de depoimentos, excertos musicais, fotografias, imagens em movimento e documentos reunidos ao longo da pesquisa — revela-nos com simplicidade e saber toda a riqueza da sua música (1), do seu legado intelectual e da sua personalidade, à luz do presente.

 

E nem de propósito, a coincidir com a recente consagração mundial do Cante Alentejano, este documentário vem recordar o papel pioneiro de Lopes Graça na música coral portuguesa e na recolha da nossa música tradicional (2), e inclui mesmo um apontamento extra sobre a digressão pelos Estados Unidos, pela mão do compositor, do grupo coral alentejano da Aldeia Nova de São Bento, a convite da Smithsonian Institution, por ocasião do bicentenário do país, em 1976.

 

Bem vindo às “Músicas Festivas” de Fernando Lopes Graça, disponível em DVD numa loja perto de si.

 

 

 

Notas:

 

 1. “Muita da sua reflexão vem de um trabalho de desconstrução dessas músicas tradicionais e de transposição de elementos que ele encontra nessa linguagem popular para uma esfera erudita em que depois cruza esses elementos com as referências cosmopolitas das vanguardas modernistas em que se integrou”. [Rui Vieira Nery na introdução]

 

2. Lopes Graça cria nos anos 40 o Coro da Academia de Amadores de Música. As suas harmonizações das Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas serão cantadas pelo Coro por todo o país. O interesse de Lopes Graça por este património tradicional e o trabalho que desenvolveu nesta área é comparável ao de Garrett com o Romanceiro, acerca do qual o compositor escreveu na revista Gazeta Musical um artigo que será abordado em futuro post.

 

 

 

 

separador_20DVD copy.jpg

 

*Na web em português aqui e EN-FRA-RU-ESP-HUN

 

trailer do documentário aqui

 

facebook aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 09:52  comentar

13.8.14

 

 

 

 Paula Rego - A dança

 

 

 

 

 

Quem sabe, sabe.

 

 

Entre as duas guerras (a de 1914-1918 e a de 1939-1945, lembro às leitoras mais novas), a propósito da explosão de exibicionismos que borbulhavam nas années folles, André Gide (francês e Prémio Nobel da literatura em 1947, lembro às leitoras menos dadas a leituras) dizia ver à sua volta mais artistas do que obras de arte. Nessa altura não havia nem internet nem twitter nem facebook nem blogs e, com o que hoje se chamam plataformas a coisa mais parecida seria o cinema, que Meliès e os manos Lumière tinham solto em Paris e vingara na Europa e nos Estados Unidos como a prole de um casal de coelhos na Austrália — mas hedonismo, egotismo e narcisismo são antigos e para lhes dar asas cada uma sempre usou o que tivesse à volta (ensimesmada: quando perguntaram às águas do lago se Narciso era mesmo belo, estas responderam que não sabiam porque quando ele vinha olhar-se nelas, elas aproveitavam para se olharem a si próprias nos olhos dele — ou, pelo menos, foi o que Oscar Wilde contou, não sei se antes se depois de ter conhecido Gide em Paris, onde viria a morrer. O mundo é pequeno).

 

De artistas e de obras de arte pouco ou nada sei mas há mais de dez anos virei comentador e, de silêncios aconchegados, longe da balbúrdia pátria, vou mandando bocas. Agora, chegado no começo do mês de Bruxelas, lendo os jornais e olhando para o que Conchita Cintrón chamava la pantalla chiquitita, suspeito que neste maravilhoso país que tão generosamente acolhia Freddy Kotter no seu seio a algazarra dos comentadores cobre de uma espécie de smog as coisas a comentar. Não é que estas faltem — desde o esforço vão do governo para transformar os portugueses em alemães (por via fiscal, ainda por cima) com Herr Gaspar, primeiro, e Frau Albuquerque, depois, a encaminharem-nos com um vasculho, como dantes os vendedores de perus pelas ruas de Lisboa, até à sanha súbita contra várias gerações da família Espírito Santo, reminiscente do azar dos Távoras — mas, bombardeadas pela cacofonia pátria, essas coisas e outras de menor porte deformam-se como as nossas caras na galeria de espelhos de uma feira de diversões.

 

Disse à Vera, dona do blog, que estava a pensar deixar de escrever o Bloco-Notas mas ela disse-me que eu não podia fazê-lo e que o mundo agora era assim, que todos podiam deitar palavra e que havia leitoras para tudo quanto se escrevesse. É, com efeito, um pouco tarde para protestar contra o ensino obrigatório, contra enciclopédias que anunciam à cabeça não garantirem que a informação que nos dão seja verdadeira e contra o ulular desafinado dos comentários de nós todos. Mas eu sou um pequeno-burguês de Évora e às vezes sinto-me como patrício meu, sentado sobre tábuas pousadas em tripés na primeira fila de um circo de província. A gaiola dos leões desconjuntou-se, o público saltou para fugir, e o meu patrício com as partes pudendas entaladas entre duas tábuas, sem se poder levantar, gritou: “Sentem-se, caralho, que os leanitos nã fazem mal”!  

 


29.3.14

 

 

 

Le Métis de Dieu

Ficção/ Drama

 

Domingo, 30 de Março 2014 às 17h30

 Cinema S. Jorge, Sala Manoel de Oliveira 

 

 

A surpreendente história de Jean-Marie Lustiger, filho de emigrantes judeus polacos, em França, que manteve a sua identidade cultural judaica mesmo depois de se converter, ainda jovem, ao catolicismo e de ser ordenado padre. Subindo rapidamente na hierarquia da Igreja, Lustiger foi nomeado Arcebispo de Paris pelo Papa João Paulo II, em 1981, e estabeleceu uma nova postura que respeitasse a sua dupla identidade enquanto judeu católico, o que lhe granjeou amigos e inimigos de ambas as facções.

 

Após a exibição do filme haverá um debate com a participação de Padre José Tolentino de Mendonça e Rabino Eliezer di Martino moderado por António Marujo.  

 

 

Entrevista com o realizador Ilan Duran Cohen aqui

 

 

link do postPor VF, às 22:54  comentar

28.3.14

 

 

Documentário de Lewis Cohen

Sábado, 29 de Março 2014 às 16h30

Cinema S. Jorge, Sala Manoel de Oliveira

 

 

The kidnapping and brutal murder of a young French Jew, Ilan Halimi, kicks off a roller coaster quest to bring his tormenters and killers to justice, along with an enlightening search through history to discover the origins and reasons for perpetuation of the age-old myth of Jews as the world’s financial purse string holders. Jews & Money is a probe into the myth about Jews, and where and when it took root. Why is the Jew so often cast as the banker or trader, pawnbroker or movie mogul? Of all the medieval moneylenders, why is only Shylock remembered? How did the Rothschilds become the symbols of international capitalism? And why does a simple cell phone salesman get pegged as rich, and die for it?

 

A debate with the participation of Richard Zimler, Manuela Franco, Jorge Martins and Marina Pignatelli will follow the screening.​

  

 

Ilan Halimi

1982-2006

 

 

Em 2006, um jovem vendedor judeu é raptado nos arredores de Paris por um bando de criminosos, que exigem um resgate de meio milhão de euros convencidos de que “todos os judeus são ricos”. Não era o caso.

 

Este documentário investiga quando e onde estarão as raízes desse mito, por que razão o banqueiro, o comerciante, o dono da loja de penhores ou o grande empresário da indústria cinematográfica são tantas vezes representados por judeus? Entre tantos agiotas medievais, por que motivo é Shylock o único que ainda hoje é recordado? Como é que os Rothschild se tornaram os símbolos do capitalismo internacional? E porque é que um modesto vendedor de telemóveis passa por rico, morrendo por causa disso?

 

Após a exibição haverá um debate com a participação de Richard Zimler, Manuela Franco e Jorge Martins moderado por Marina Pignatelli.   

 

 

link do postPor VF, às 11:40  comentar

22.3.14

 

 

 

 

De 27 a 30 De Março de 2014 serão apresentados em Lisboa, no cinema S. Jorge, filmes e documentários recentes, na sua maioria em estreia absoluta. Desde dramas históricos até comédias comoventes e sessões para escolas e famílias, a programação é pautada por debates, propostas de literatura, experiências gastronómicas e, a fechar o evento, a participação especial de um DJ Klezmer.

 

A escolha dos filmes desta segunda Mostra leva-nos numa viagem por diversos países, épocas e facetas não exploradas da Grande História, da Bielorrússia à Patagónia. Uma Grande História que talvez se exprima com a maior eloquência nos breves 16 minutos mudos da curta-metragem Sapatos. Encontramos também Mengele, retratado em O Médico Alemão, de Lucía Puenzo, e deparamo-nos com rapazes e raparigas palestinianos e israelitas a Dançar em Jaffa, que nos ensinam que é possível amar o inimigo. Rosinha tece o seu enredo à volta dos trágicos acontecimentos de Março de 1968 na Polónia, num argumento interpretado pelos mais talentosos actores e actrizes polacos da actualidade. Já numa Berlim mais contemporânea, Os Mortos e os Vivos lança-nos no encalço de Sita, uma jovem que é confrontada com um terrível segredo de família. Paixão e traição são também os temas fortes que marcam o filme alemão Fim de Temporada.

 

Seguem-se duas grandes obras de produção israelita, O Casamenteiro num tom de humor muito especial, e A Vida é Engraçada, um filme que surpreende pela humanidade e imperfeição das suas personagens, em que todos nos poderemos rever.

 

Encerra o cartaz O Cardeal Judeu, filme baseado na extraordinária vida do cardeal francês Jean-Marie Lustiger. A projecção será seguida de uma troca de ideias entre o Padre José Tolentino de Mendonça e o Rabino Eliezer di Martino.

 

Para completar, ao longo da Mostra decorrerá uma feira do livro, onde poderemos encontrar os mais variados títulos de autores judeus e/ou temáticas judaicas, uma sessão dedicada à Rede de Judiarias de Portugal, e ainda provas de vinhos, degustação de chocolates e diversos produtos Kosher.

 

Consulte o programa completo aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 15:14  comentar

8.1.14
 

charlot_1.jpg

 Charlie Chaplin

 
 

 

 

 
 
Sempre houve ricos e pobres
page11image8040
page11image8312
page11image8584
page11image8856
page11image9128
 
page11image10496

Assim suspirava a Avó Berta quando eu, adolescente, primeiro me intrigara e depois me indignara com a vinda regular de alguns mendigos à porta de sua casa. Eram os pobres dela. As senhoras do seu tempo tinham cada uma os seus mas acontecia às vezes que os netos delas, encandeados pelo faróis de Marx e Lenine, achavam que a assistência competia ao estado e que esmolas dadas por donas de casa burguesas a pedintes proletários atrasavam a Revolução e a chegada da sociedade sem classes.

 

Visto de agora, tudo isto não passa de uma ninhada ou duas de asneiras. Mas o que realmente espantaria a Avó Berta se ainda estivesse connosco é que a distância entre a riqueza dos ricos e a pobreza dos pobres seja hoje não só maior do que era no tempo dela mas também maior do que alguma vez foi desde que o mundo é mundo. Quer entre países ricos e países pobres – quer, com raríssimas excepções, dentro de cada país.

 

 

O aumento da distância entre a riqueza dos países disparara dramaticamente a partir do século XVIII com a revolução industrial na Europa, acentuara-se com a emergência dos Estados Unidos como potência económica; começara a diminuir em tempos mais recentes, com a ascensão industrial do Japão, da China, dos chamados “Tigres Asiáticos”, mas ainda hoje a desigualdade entre países continua a ser maior do que a desigualdade entre os habitantes de cada país.

 

 

Nos países desenvolvidos as desigualdades internas têm-se acentuado. Os números dos Estados Unidos são instrutivos. O PIB quadruplicou nos últimos 40 anos (e quase duplicou nos últimos 25) mas quem ganhou com isso foi quem estava na mó de cima e, muito mais ainda, no cimo da mó de cima. Em 2012, 1% da população recebeu 22% do rendimento do país; 0,1% recebeu 11%. Estatísticas mostram que, desde 2009, só se verificaram melhorias de rendimento nesse 1% dos contribuintes. Como hoje se mede tudo, sabe-se também que, desde há quase um quarto de século, o rendimento médio no país não mudou mas que o americano médio leva hoje menos dinheiro para casa do que levava há 45 anos.

 

 

A fractura social, chamemos-lhe assim, começou no tempo de Reagan com cortes nos impostos dos ricos e regulação cada vez menos rigorosa do sector financeiro, foi alargada pelos seus sucessores e conforta preconceito norte-americano: a culpa de ser pobre é do pobre. Preconceito da esquerda europeia igualmente absurdo – a culpa de ser pobre é dos ricos – levou bordoada fatal com a queda da União Soviética. Na grande rebaldaria que se instalou, o liberalismo teve mais olhos do que barriga. Por fim, sem sentido nem visão da história e fundados em ciência errada, os promotores da austeridade envenenaram os europeus com o remédio que lhes estão a dar.

 

 

O susto espalha-se para lá dos suspeitos do costume. O Papa indigna-se com o capitalismo. E eu percebo o alentejano que dizia de uma comadre que ela era boa rapariga mas tinha “aquela coisa do lucro”.

 

 

A cruzada contra os pobres está a fazer mal ao mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 00:59  comentar

9.2.13

 

 

 

Portugal c. 1935

 

 

A minha Mãe tinha muito gosto e paciência para nos mascarar no Carnaval. No castelo de S. Jorge houve uma festa comemorativa das Guerras Peninsulares, (século XIX) um grupo de jovens oficiais e soldados foram vestidos à época das tropas de D. Pedro e D. Miguel, e nesse ano o meu irmão foi vestido a «rigor» como oficial de Caçadores 7.

Eu que só tinha quatro anos, levava um vestido império azulão, uma touca com paradis verdadeiros, tudo no mesmo tom. Como o vestido era comprido, não era fácil brincar, sem descoser e por vezes rasgar. A Mãe à noite cosia e remediava os "estragos".

Nos dias de Carnaval íamos às matinés ou então à "amostra" a casa dos Tios, Avós e outras pessoas amigas. O meu Irmão tinha um porte impecável, nada saía do lugar, era um oficial verdadeiro, com a sua cartola muito alta e a "canana" para os apontamentos (que eram feitos com um lápis pequenino). Quase sempre ganhava o 1o prémio nos cinemas S. Luís, Capitólio, e outras salas de espectáculo. Éramos um par muito bem mascarado mas eu desmanchava-me sempre, e no fim da tarde a diferença entre o aprumo do Luiz e o meu desalinho era bem visível.

 

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in Memórias e Saudades

Publicado em 2011

 

Um bonito álbum, muito bem escrito e ilustrado, de uma Senhora que ao fazer oitenta anos reuniu recordações do antigamente para os filhos, netos e bisnetos. Publicaram-se apenas três exemplares neste formato. 

 

 


Nota:
O álbum Memórias e Saudades foi-me gentilmente cedido por Maria do Rosário Sousa Machado, a quem muito agradeço. 
 
 
link do postPor VF, às 10:15  comentar

9.1.13

 

 

 

 Danilo Kis



FIDÈLE À RABELAIS

ET AUX SURRÉALISTES

QUI FOUILLAIENT LES RÊVES




Je feuillette le livre de Danilo Kis, son vieux livre de réflexions, et j'ai l'impression de me retrouver dans un bistro près du Trocadéro, assis en face de lui qui me parle de sa voix forte et rude comme s'il m'engueulait. De tous les grands écrivains de sa génération, français ou étrangers, qui dans les années quatre-vingt habitaient Paris, il était le plus invisible. La déesse appelée Actualité n'avait aucune raison de braquer ses lumières sur lui. «Je ne suis pas un dissident», écrit-il. Il n'était même pas un émigré. Il voyageait librement entre Belgrade et Paris. Il n'était qu'un «écrivain bâtard venu du monde englouti de l'Europe centrale». Quoique englouti, ce monde avait été, pendant la vie de Danilo (mort en 1989), la condensation du drame européen. La Yougoslavie: une longue guerre sanglante (et victorieuse) contre les nazis; l'Holocauste qui assassinait surtout les Juifs de l'Eu­rope centrale (parmi eux, son père); la révolu­tion communiste, immédiatement suivie par la rupture dramatique (elle aussi victorieuse) avec Staline et le stalinisme. Si marqué qu'il ait été par ce drame historique, il n'a jamais sacrifié ses romans à la politique. Ainsi a-t-il pu saisir le plus déchirant: les destins oubliés dès leur nais­sance; les tragédies privées de cordes vocales. Il était d'accord avec les idées d'Orwell, mais com­ment aurait-il pu aimer 1984, le roman où ce pourfendeur du totalitarisme a réduit la vie humaine à sa seule dimension politique exactement comme le faisaient tous les Mao du monde? Contre cet aplatissement de l'exis­tence, il appelait au secours Rabelais, ses drôle­ries, les surréalistes qui «fouillaient l'inconscient, les rêves». Je feuillette son vieux livre et j'en­tends sa voix forte et rude: «Malheureusement, ce ton majeur de la littérature française qui a commencé avec Villon a disparu.» Dès qu'il l'eut compris, il a été encore plus fidèle à Rabelais, aux surréalistes qui «fouillaient les rêves» et à la Yougoslavie qui, les yeux bandés, avançait déjà, elle aussi, vers la disparition.


Milan Kundera

in Une rencontre* p.160-161

© Milan Kundera 2009 - Éditions Gallimard 2009                                                

 

 

 

* ... rencontre de mes reflexions et de mes souvenirs; de mes vieux thèmes (existentiels et esthétiques) et mes vieux amours (Rabelais, Janacek, Fellini, Malaparte...)...






Mais sobre este  livro aqui

 

Mais sobre Danilo Kis aqui



link do postPor VF, às 10:22  comentar

6.12.12

 

 

 

António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 

 

A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].

 

Sou suspeita, já que António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que os meus avós pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna.

 

Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de se ter convencido de que "nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.

 

Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Resta-nos agora esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum produtor do cinema clássico de Hollywood.

 

 

 

ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"

 

2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui

 

4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui

 

5. Fundação António Quadros aqui e aqui

 

6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 

 

 

 

 

 


12.4.12

 

 

 


Untitled Film Still #33, 1979

até 11 de Junho de 2012  aqui.

 

 

link do postPor VF, às 10:08  comentar

10.1.12

 

 

 

 

Fritz Lang and Thea von Harbou in their Berlin apartment. (Circa 1923)

 

foto: Waldemar Titzenthaler in Berliner Interieurs,Enno Kaufhold (Berlin 1999)


  

veja a série "Home Is Where the Heart Is" aqui

 

 

link do postPor VF, às 12:00  comentar

10.4.11

 

 

 

 

 

 

 

Running on empty, Sydney Lumet, EUA, 1988

 

link do postPor VF, às 00:05  comentar

23.3.11

 

 

 

 Gata em Telhado de Zinco Quente (Richard Brooks, E.U.A. 1958)

 

 

 

mais aqui e na tag "Elizabeth Taylor"

link do postPor VF, às 14:46  comentar

11.1.11

 

 

 

O cineasta António-Pedro Vasconcelos, que tinha 35 anos há 35 anos, recorda os tempos em que era difícil ser jovem num País vigiado e em que nem se podia beijar a namorada em público, mas onde também era impossível ser um velho intelectual activo e respeitado num regime que perseguia inteligência e liberdade.

 

Não é fácil explicar a um jovem de hoje - que julgará que o querem gozar quando se conta que a primeira televisão do realizador foi comprada a prestações para ver um jogo internacional do Benfica ou que chegou a pôr no "prego" (essa instituição antiga, onde se deixavam objectos, fosse a máquina de escrever ou o par de sapatos, como garantia do dinheiro emprestado) a aliança de casamento e o esquentador da casa de banho - o que era ter 21 anos no Portugal das décadas de 50 e de 60.

 

Só a partir de 1966/67 é que começa a surgir um maior consumo (televisão, semáforos, novos cafés) e, naturalmente, o boom da publicidade, que deu emprego a muita gente, dos escritores (O'Neill, Sttau Monteiro, Alves Redol, Ary dos Santos) aos cineastas (Fernando Lopes, José Fonseca e Costa e António-Pedro Vasconcelos, que filmou uma centena de anúncios).

 

O pior era, contudo, esse "ambiente de Feira Cabisbaixa, como tão bem definiu [no livro de poemas] o Alexandre O'Neill". Expulso de um café por beijar a namorada ou a conversar olhando sempre para a mesa do lado e tentando perceber se havia algum informador da PIDE a ouvir o que se dizia, com uma censura que só deixava projectar “Os Quatrocentos Golpes” depois de fazer 14 cortes no filme de Truffaut, ao sair dessa Lisboa provinciana, fechada e vigiada para Paris da liberdade e da vivacidade o choque era enorme.

 

Um jovem português de hoje, além de não sentir a vergonha ("era quase humilhante, a não ser que se tivesse, como cartão de visita, o estatuto de exilado, desertor, resistente") de ser identificado com o País da ditadura e da guerra colonial - o que era inevitável até 1966, "quando tudo mudou por causa do Eusébio no Mundial de Inglaterra" -, também não sente o mesmo contraste entre Portugal e o resto da Europa.

 

"Assediado para entrar no PCP, como toda a gente da minha geração (até porque os comunistas dominavam o Cineclube Universitário e a revista Imagem), apesar de ter ideais revolucionários, não aderi (nem nenhum dos meus amigos da época) porque li, quando era muito novo, um livro sobre os Processos de Moscovo e fiquei a saber o que era o estalinismo."

 

No fundo, a forma do seu grupo de amigos se manifestar era, por exemplo, distribuírem-se por uma sala onde era projectado um filme português daquela época e começar a patear - como fizeram no Éden, a 6 de Maio de 1960, na estreia de “O Cantor e a Bailarina”, de Armando de Miranda, acabando todos na esquadra.

 

"Um lado tenebroso do regime é que os intelectuais ou se exilavam, como o Jorge de Sena, ou então desistiam, morriam por dentro".

 

Um dos primeiros contemplados com os subsídios da Gulbenkian, em 1971 rodou Perdido por Cem, em torno de Artur, um rapaz da província (interpretado por José Cunha) que aproveita uma boleia de Rui (papel confiado a José Nuno Martins) para se escapar para Lisboa. Numa das cenas, filmada em directo na Pastelaria Suíça, no Rossio, o protagonista "lia Musil e olhava para as pessoas que por ali estavam, quase só homens, todos de chapéu, vestidos de negro, cinzento ou azul escuro, com um aspecto taciturno, como se fosse a Feira Cabisbaixa do O'Neill".

 

 

Fernando Madaíl

in "Diário de Notícias", 25 de Abril de 2009, na íntegra aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

Cartaz do filme Perdido por Cem

de António Pedro Vasconcelos (Portugal 1972).

 

 

 

um post recente sobre António Pedro Vasconcelos e a sua obra aqui

 

 

 


7.1.11

 

 

Eis-me pronto a retomar Santos, o Velho. Imagine-se: quatro dezenas de garotos com possibilidades Nopa reunidos numa sala estreita. Ali, um só programa: catequese e aceleradamente. Isto a teoria. E imagine quem puder minha pessoa de criança frágil, caixilhos de solidão acolchoada contra micróbios e correntes de ar. Eu de olhos e ouvidos por abrir lançado em semelhante maralhal. Não faço a mais pequena ideia sobre se havia outras crianças de famílias fofas nessas aulas, onde reinavam padres e senhoras devotadas, alindando os interiores dos candidatos ao encontro com a Terceira Pessoa da Trindade. O que recordarei enquanto recordar é a incursão de espanto e derrelicto quando Lisboa-a-louca me acometeu, de lados vários, por interposta amostragem da minha geração em Madragoa.

 

Num país católico porque sim, só pais possessos de frenético niilismo ousam desafiar o aparente brinde que a máquina religiosa concede às vielas quando organiza actos desses, colectivos, em que ao filho de ricos é ordenado misturar-se temporariamente aos muitos filhos da mãe. Destarte, a catequese de o Velho, Santos, tornou-se uma mini-Sorbonne Maio 68. Aos meus olhos esparvoados por veludos, o desvairamento das crianças ditas populares foi um disparo de canhão batendo em cheio num museu de porcelanas. Certa Lisboa veio-me assim: um sacerdote, ou uma senhora de antepassados convenientes, debitando Dogmas a um cardume de rapazes loucos por que chegasse a hora em que, findas as aulas a sexos separados, o encontro com as catecúmenas nos corredores do velhíssimo edifício permitisse o desporto, ainda incipiente, do apalpão à tripa forra. Para ganhar balanço nessa direcção surpreendente, os rapazes desmultiplicavam-se em palavrões sussurrados, gestos franceses, e até mesmo em onanismo sorridente, pastoral. Depressa percebi: para me entender com esta, para mim nova, espécie de pessoas, eu carecia da mais sumária iniciação na bronca. Humanismos.

 

Voltando a casa, repensava o visto e o ouvido, esforço aplicado de reter o que ensinasse a navegar águas desconhecidas. Criança sem irmãos nem ir à escola excepto para exames, sentia-me, não a boiar, mas a cair num fundo. A toda a hora e transe eu procurava não esquecer aquelas palavras e modos de as juntar que eram a única moeda convertível em intercâmbio humano no país madragoante. Podia uma de duas: ou refugiar-me atrás de noções pias e, assim escorado, olhar aquela malta inquietante como quem despreza um bando de perdidos; ou recorrer a esforços inventados para tomar o rumo oposto. Tive o instinto do vital. Isto é: havia aquela gente e o seu mundo: pois cabia-me chegar ao ponto de não me acantonar, sonso, mas de alinhar. Certa noite, já deitado, comecei, baixinho, recapitulação de quantas imprecações ouvira nos últimos dias, ensaiando mesmo alguns tiques de pronúncia sem os quais, já percebera, falaria estrangeiradamente, o vexame. Uma criada ouviu o meu murmúrio, veio escutar à porta. Não tardou que arremetesse quarto adentro, numa indignação:

«E eu a pensar que o menino estava a rezar !» Custou-me arrancar-lhe a promessa de nada dizer à minha mãe.

 

Que a maioria destas crianças não tomava a catequese a sério era mais do que evidente. Que iriam quase todas à cerimónia como um molho de pombos bravos dá volta nos ares antes da trovoada rebentar, era fatal. Mas que, apesar dos palpáveis factos e contra eles, o corpo docente insistisse, isso é que me deixava estupefacto. Por maior que fosse o descalabro em matéria de disciplina colectiva e compostura individual, a teima dos treinadores de liturgia e Lei era digna de registo. Padres e senhoras disparavam, contra a impermeabilidade de uma humanidade que desconheciam, sorrisos maleáveis como cobras de água, mas tão ineficazes como as turras duma varejeira na vidraça que a separa do ar livre. Na minha intestinidade caíam, caladinhas, as sementes primeiras duma descoberta que anos mais tarde brotaria em viço verde: o universo onde eu fora parido, amamentado e agasalhado, era de cegos.

 

 

 

Nuno Bragança

in  A Noite e o Riso pp.108-111

Moraes Editores, Lisboa, 1969

 

 

 

 

 

 

 

Capa de António Mendes de Oliveira

 

 

 

 

aqui

 

 

 


4.1.11

 

 

 

Rui Gomes e Isabel Ruth em "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha.

(Col. Cinemateca Portuguesa)

 

 

Os Verdes Anos é o primeiro filme das produções Cunha Telles que, pode dizer-se, começavam com o pé direito: o filme seria premiado em Locarno, o nome de Paulo Rocha surgia nas principais revistas de cinema europeias como uma revelação.

Visto hoje, Os Verdes Anos têm o grande mérito de ser um documento precioso sobre Lisboa do príncipio dos anos 60, o seu provincianismo, o desespero e a sufocação de uma geração jovem. Para o cinema, o filme revelava ainda a sensibilidade de um compositor (Carlos Paredes) que construiu um tema musical que ficaria célebre (...).

Pela primeira vez depois de muitos anos este filme sintonizava-se com a realidade portuguesa, espelhava-a. Era um vento de mudança no cinema que por cá se fazia. Mas a mudança não estava só na respiração temática. Acontecia também (...) na respiração fílmica, na atenção aos movimentos de câmara, à realidade plástica dos planos, aos tempos.

Mais de vinte anos depois, Os Verdes Anos, não ganharam cãs, sabemo-lo... O que quer dizer que o Cinema Novo que nele se propunha o era, de facto.

 

Jorge Leitão Ramos,

in Dicionário do Cinema Português 1962-1988

Ed. Caminho, Lisboa, 1989

 

 

 

 

Isabel Ruth em "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha.

(Col. Cinemateca Portuguesa)

 

 

Paulo Rocha era, por essa altura, relativamente marginal a quaisquer grupos. Estivera, é certo, por esses anos, perto de alguns dos universitários católicos que mais inovaram em matéria de gostos críticos, mas nunca teve nessas estruturas papel de evidência. Depois, vagueara pela França, com uma bolsa do IDHEC e estagiara com Renoir em Le Caporal Epinglé. Ao voltar, em 1962, trabalhou com Oliveira no Acto da Primavera e na Caça. Quando se decidiu passar à realização, foi buscar a esse grupo de católicos dois dos mais relevantes colaboradores: Nuno Bragança (1929-1985) que viria a ser um dos expoentes da nova literatura portuguesa dos anos 60 e 70 e o poeta Pedro Tamen (1934). O primeiro adaptou o argumento e escreveu os diálogos; o segundo foi autor da letra da canção leitmotiv do filme, musicada por Carlos Paredes (...).

Ainda, Verdes Anos, é o filme que melhor dá a ver Lisboa e Portugal como espaços de frustração, espaços claustrofóbicos, sem saídas, onde tudo se frustra e tudo agoniza numa morte branda.

 

João Bénard da Costa

in Histórias do Cinema, Sínteses da Cultura Portuguesa

Europália 91, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa

 

 

Textos e fotos reproduzidos de Amor de Perdição.pt aqui

 

 

 

 

"Os Verdes Anos", de Paulo Rocha (Portugal 1963)

 



9.12.10

 

 

 

Les Demoiselles de Rochefort, de Jacques Demy (França, 1967)

 

 

Há em Demy uma arte do signo que frequentemente faz pensar em Brecht ou no Barthes das «Mitologias». O «em-cantado», claro, é a distanciação, mas a distanciação é também — Barthes mostrou-o a propósito de Brecht — a incandescência dos signos, a arte de os conduzir à sua máxima potência, sem os consumir. (...)


O cinema «em-cantado» é cinema mudo-falado. Todos os grandes filmes modernos, e é nisso, realmente, que Demy é «moderno», perverteram as funções do falado, em nome de um poder expressivo que foi o mudo. Trata-se de fazer reaparecer através (e contra) a insipidez informativa da palavra (dos «diálogos») a força expressiva da voz (das «palavras») que provém da gestualidade, do corpo. O melodrama possui esse poder: fazer explodir a palavra em gritos, em cantos, em lamentações, enfim em música e em emoções.

 

Pascal Bonitzer

in Cahiers du Cinema, nº 41. Novembro de 1982

Tradução de João Lopes

in Jacques Demy, Cinemateca Portuguesa, Dezembro 1983

 

 

um excerto de Les Parapluies de Cherbourg aqui


link do postPor VF, às 00:16  comentar

30.11.10

 

 

“Salut les copains” era a revista que as francesas liam no liceu francês. Embora algumas estrêlas da “geração yéyé” tenham alcançado popularidade além fronteiras, e tiveram-na sem dúvida nenhuma em Portugal, a sua projecção foi restrita à excepção do caso de Serge Gainsbourg, cujo “Je t’aime moi non plus” esteve no topo dos “charts” britânicos, conquista lendária celebrada no recente biopic do compositor.

 

Eu era fã de Françoise Hardy, Sylvie Vartan, Adamo, Polnareff, para nomear apenas alguns, mas a música vinda de Inglaterra e da América já exercia uma atracção irresistível. Com a chegada do programa “Em Órbita”, transmitido pelo Rádio Clube Português, a pop francesa desapareceu aos poucos do meu radar, mas não as canções, a moda, os filmes e os livros que vinham de França.

 

 

sobre o programa "Em órbita" leia aqui

 

 

 

 

 

 

L'interjection yéyé est, au départ, la transcription française du yeah, une déformation de «ye», qui ponctue les chansons de rock et de twist américaines. Les paroliers ont préféré « yé » à une traduction plus littérale en ouais. De là , « yéyé » désigna le courant musical.

Le 22 juin 1963, entre 150 000 et 200 000 jeunes se retrouvent place de la Nation à Paris, pour fêter le premier anniversaire du magazine Salut les copains. A l'exception de Johnny Hallyday, aucune idole ne va pouvoir atteindre le podium. Il y a trop de monde et la sécurité n'est pas garantie.

Quelques jours plus tard, dans une chronique publiée dans le journal Le Monde, le sociologue Edgar Morin baptise ces jeunes les yéyé. Par extension yéyé désigne donc aussi un phénomène de mode des années 1960.

 

Les artistes du Yé-yé:

 

* Claude François * César et les Romains * Christophe * Dalida * Françoise Hardy * France Gall * Sheila * Sylvie Vartan * Chantal Goya * Frank Alamo * Eddy Mitchell * Johnny Hallyday *Jacques Dutronc * Michel Polnareff * Liz Brady * Cosette * Dani * Gillian Hills * Jacqueline Taïeb * Jocelyne * Michèle Richard * Pierre Lalonde * Ronnie Bird * Les Surfs * Richard Anthony * Serge Gainsbourg.

 

Leia a história da revista "Salut les copains" aqui

 


8.11.10

 

 

 

Guilherme Pereira de Carvalho (1891-1966)

óleo s/tela de Arpad Szenes (aqui)

 

 

 

 

Em casa dos meus avós no Saldanha havia uma salinha com as paredes forradas de fotografias, de personalidades estrangeiras que visitaram Portugal no tempo em que o meu avô trabalhava no SPN/SNI (Secretariado Nacional de Informação) e de artistas portugueses e estrangeiros de teatro e variedades, o universo que mais o fascinava.

Arpad Szenes ofereceu-lhe este retrato em 1940.

 

Guilherme Pereira de Carvalho foi um dos colaboradores directos de António Ferro desde a criação do Secretariado de Propaganda Nacional, em 1933, e permaneceu no Palácio Foz até se reformar, em finais dos anos 50. Foi também director de uma revista, a "Lisbon Courier", que já evoquei aqui e a que regressarei em breve para mostrar mais algumas curiosidades, agora que um primo me emprestou gentilmente os vários volumes encadernados da sua colecção.

 

 

 

 

 

 

 

 

Walt Disney com António Ferro e Guilherme Pereira de Carvalho

Brasil, 1942?

 

 

 

sobre a casa do Saldanha leia aqui

 

Uma foto do Saldanha nos anos 60 aqui

 

 


28.10.10

 

 

 

 

 

 

Revista Cinémonde, anos 60

 

 

 

Muito lá de casa eram todos aqueles de quem, lá em casa, havia retratos em imensas gavetas, que foram a primeira das minhas explorações predilectas, a primeira das minhas paixões predilectas. Esgotados os retratos de família, até ao mais remoto primo, havia centenas (não exagero) de fotografias de personagens que, nem que fosse por um dia, tinham sido muito de casa. Senhores barbudos, velhas com grandes chapéus, virgens pálidas, jovens olheirentos. Fotografîas com dedicatórias retóricas: «Ao Exm.° Senhor F... offereço como prova de estima». Insaciável, eu queria saber os nomes de todos e em toda a casa de que era muito pedia para ver essas gavetas e esses retratos. Se os crescidos não tinham mais que fazer, identificavam-nos para meu deleite e, em dias mais fastos, contavam-me, para cada um ou de cada um, histórias de espantar.

 

Foi numa dessas casas, de que eu era muito, que, um dia, quando já esgotara todas as gavetas e já sabia de cor e salteado os nomes dos habitantes delas, alguém me passou para a mão um exemplar da «Marie Claire». Era um número antigo, provavelmente de 1940, porque me lembro de saber que a revista interrompera a publicação depois de os alemães entrarem em Paris. E fui parar a duas páginas — que passaram para mim a ser as páginas centrais — em que estavam retratos de 15 actrizes e 15 actores, arrumados, ao alto para as senhoras e ao baixo para os senhores, por ordem das respectivas alturas.

[...]

Esqueci a maior parte dos retratados nas gavetas, à medida que fui deixando de as abrir ou que se fecharam as casas que habitavam em efígie. As actrizes e os actores, em truque bem digno da arte deles, elevaram-se desses rectângulos, em que figuravam em corpo inteiro, nas páginas da «Marie Claire», para grandes planos que me ficarão a acompanhar para todo o sempre. Estáticos, nessa primeira visão, animaram-se depois nos muitos, muitos filmes que vi com eles.

[...]

Por uns apaixonei-me eu, por outros não. Muitos forram hoje a casa em que vivo. Todos passaram a ser muito lá de casa. E foi só um princípio. Com eles trouxeram, como os demónios expulsos da parábola evangélica, não mais 30, mas mais 300, uns vindos ainda mais de trás, antepassados dessa galeria dos «thirties», outros herdeiros deles, ramos da mesma árvore, filhos ou netos dos altos e baixos da «Marie Claire».

 

 

João Bénard da Costa

in Muito lá de casa (O Problema da Habitação) aqui

©Assírio e Alvim e João Bénard da Costa, 1993

 

 

 

link do postPor VF, às 11:08  comentar

25.10.10

 

 

 

 

Praça Duque de Saldanha, Lisboa, anos 60

 

 

 

A mudança para casa dos meus avós fez-nos recuar no tempo e conhecer uma Lisboa ainda rural, apesar de estarmos na Praça Duque de Saldanha, frente aos modernos cinema e café Monumental, em pleno centro de Lisboa. Ainda passavam eléctricos pelo Saldanha, que iam até ao Campo Grande. Ainda vi pastores com rebanhos a atravessar a avenida da República.

Os meus avós viviam no primeiro andar do edifício que se vê no postal, a “casa do anjo”, num apartamento muito grande. Tinham três empregadas internas – uma cozinheira, uma criada de fora, e a Arminda, que estava ao serviço da minha avó desde os catorze anos e agora tinha mais de setenta. Que idade tinham os meus avós nesta altura? Ela sessenta e dois, ele era dez anos mais velho.

Aos sábados o barbeiro do meu avô vinha a casa, a roupa era lavada por lavadeiras, o leite era trazido por uma leiteira. Foi com a nossa chegada que a minha avó comprou um frigorífico. As compras faziam-se na praça. O telefone tinha um pequeno cofre acoplado no qual era preciso carregar numa moeda, creio que de cinco tostões, para estabelecer a ligação. A minha avó governava a casa com a dispensa fechada à chave e distribuía mensalmente às empregadas doses de açúcar, ovos e sabão.

 

Os meus avós maternos pareciam-me antiquados e algo severos mas aos poucos percebi que -  tal como o liceu francês – “tinham mundo”. Conviviam muito com parentes e amigos e foi com eles que descobri a minha família alargada.

 

 

Uma fotografia dos meus avós maternos aqui

Se é a primeira vez que visita este blog leia também o post "terra de exílio" aqui


17.10.10

 

 

 

 

 

Revista Jours de France, 1963

 

 

A revista “Jours de France” transporta-me no tempo para a casa dos meus avós maternos em Lisboa, onde vivi grande parte dos anos sessenta.

A ofuscante beleza insolente de BB nesta capa da JdF ilustra perfeitamente a mudança, ou melhor dizendo o salto, da década de 50 para a de 60, no mundo ocidental, e mesmo em Portugal, apesar de ser "fácil exagerar as semelhanças", como sublinha Maria Filomena Mónica num texto que citei no meu livro.

 

1963 foi o ano do filme “Le Mépris”, de Jean-Luc Godard, porventura aquele que melhor captou toda a magia de Brigitte Bardot, menina fina e bem educada da alta burguesia francesa cujo talento e extraordinária beleza a transformariam na maior 'sex symbol' dos anos 60.

 

 

 

 

 

 

9.10.10

 

 

 

 

 

 

em breve num cinema perto de si

 

 

This is the west, sir. When the legend becomes fact, print the legend.

 

Fiel à máxima citada por John Ford num diálogo de The Man Who Shot Liberty Valance,  Joann Sfar oferece-nos em Gainsbourg (Vie Heroïque) um punhado de momentos lendários da vida do prodigioso poeta-compositor da música popular francesa Serge Gainsbourg: um percurso 'chiaroscuro' iluminado neste "conto" pelas fabulosas interpretações de Eric Elmosnino, no papel de Gainsbourg, e Laetitia Casta e Lucy Gordon, nos papéis de Brigitte Bardot e Jane Birkin, entre outros.

Porquê um final feliz?

J. Sfar: “Porque não considero que Gainsbourg tenha estragado a sua vida. Se houve maldição, foi provocada, escolhida. O tipo fez tudo o que queria e deixou muitas coisas boas. Ter-me ia sido muito difícil não deixar uma mensagem optimista. É a minha maneira de ser.” *

Gainsbourg (Vie Heroïque) é exibido em Lisboa no dia 16 de Outubro às 19h30 na sala 1 do Cinema São Jorge.

Dossier do Ypsilon aqui

 

 

 


 

Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot

desenho de Joann Sfar**

 

 

* Joann Sfar em entrevista a Jean-Pierre Fuéri na revista "Casemate" (hors série ciné), Janeiro de 2010

**na mesma revista

 

mais sobre Joann Sfar aqui

 

Leia a crítica "Serge and the soul of modern France" aqui

 

 

link do postPor VF, às 15:31  comentar

2.10.10

 

 

 

 


 

 

 

 

Par où s'est-il approché le triste, le long, l'interminable orage de la fin des années soixante ? Si amer et si confus qu'on ne sait s'il dure toujours ou s'il s'aggrave encore. Est-ce par ici, le long des couloirs de cet hôpital où mourut l'ami le plus cher, celui auquel je pense chaque jour depuis que nous nous sommes laissés seuls, il y a vingt ans, vingt-cinq ans, je ne me rappelle jamais la date ? Ou est-ce par là, juste un peu plus tard, quand on parlerait d'une chambre en désordre, d'un téléphone, d'une couverture avec dessous la plus belle fille du monde ? Ou est-ce par là encore, lorsque les salles obscures s'abandonnèrent au soleil noir venu du Nord que dispensait une lanterna magica aux éclats de voix mystérieux et rauques, et qu'on sentit, soudain, la beauté sourde de sa lumière cruelle.

 

 

 

Frédéric Mitterrand

in Tous Désirs Confondus

© RAPHO/TOP - ACTES SUD, 1988

 

 

 

outros excertos da mesma obra aquiaqui

 

 

Imagem: Capa da revista "Paris Match", 8 de Agosto de 1962


Leia também aqui


link do postPor VF, às 16:34  comentar


pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo