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Berlim, 1945 

 

 

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E se afinal não fossemos tão bons?

 

 

 

“Dê um beijinho a este Senhor, que era muito amigo do seu bisavô”. Quinze anos - doze a parecerem quinze que a gente nova agora deita muito corpo? - a miúda obedeceu à mãe e estendeu-me bochecha salpicada por grãos de areia pois vinha de fazer surf no Guincho.

 

Longevidade e caldeirada de classes, sexos, ocupações e idades estão a esvaziar de autoridade aforismos do século passado. “O passado é outro país. Lá, fazem as coisas de maneira diferente” – lá e cá também, na manta de retalhos fruta cores a que chamamos presente. “A longo prazo, estaremos todos mortos” – era bom, era: agora, a longo prazo, muitos de nós estarão ainda por cá, meio cegos e meio surdos, a vermos passar a banda.

 

Tudo isto em União Europeia rasgada nos últimos anos por querelas de dinheiro entre a formiga Norte e a cigarra Sul e agora, perante maré de refugiados, entre Oeste generoso de vistas largas e Leste egoísta de vistas curtas. Tão entretidos nisto andamos que parecemos esquecidos de que o milagre que nos aconteceu (mais de meio século de paz; abandono de costumes milenários de provocar, enganar e atacar vizinhos) foi fruto de circunstâncias. Em 1945, nenhum de nós podia com uma gata pelo rabo; tínhamos medo salutar de um inimigo comum, a URSS; amigo comum grande, os EUA, deu-nos dinheiro do Plano Marshall e protecção militar. As circunstâncias agora são outras: somos uma parte próspera do mundo; Putin é velhaco mas não mete medo que se compare ao que metia Estaline; os EUA – a hiperpotência, chamou-lhe Hubert Védrine – já não precisam tanto da Europa quanto precisavam durante a Guerra Fria, ajudam-na menos e esperam mais dela.

 

Escrevi milagre avisadamente. Há dias, numa excelente conferência internacional (daquelas que há quase vinte anos a Fundação Oriente promove no Convento da Arrábida, muito tempo presididas por Peter Carrington e agora por Chris Patten) ouvi três oradores do Japão, da China e da Índia (um diplomata, um académico e um homem de negócios respeitado no circuito das relações internacionais) dissertarem sobre as relações dos respectivos países. Ouvi-os fascinado – foi, para um europeu, viajar para trás no tempo. Governos, oposições formais ou não e as populações em geral, mais ou menos manipuladas pelos governos, vivem em desconfiança dos vizinhos e medo de guerra (há sempre um Belzebu de estimação. Para os indianos é o Paquistão – e ambos têm bombas atómicas). Questões de fronteiras, terrestres (India/China) e marítimas (China/Japão e alguns outros) são regularmente levantadas, mesmo quando não haja tensões. No dia em que o Presidente chinês começou visita de estado à India, avião militar chinês violou o espaço aéreo indiano. A 8.000 metros de altitude, ninguém deu por isso salvo quem trate dessas coisas, mas Nova Deli foi lembrada de que o assunto não está esquecido.

 

Nós dantes também éramos assim, com cláusulas secretas em tratados e tudo, e se não tomarmos juízo, depressa o voltaremos a ser.

 

 

 

 

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5.8.15

 

 

 

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Jerónimo Bosch 

 

 

 

 

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Bases e cúpulas

 

 

 

«Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a alma das pessoas honestas e é um horror!» disse François Mauriac. Lembro-me deste desabafo muitas vezes, a ler jornais ou a ver televisão. E, com o patrão do Mundo distraído desde o fim da Guerra Fria, no regabofe da loja a maldade humana borbulha à rédea solta.

 

A Rússia é governada pelo chefe de uma cleptocracia que mente com quantos dentes tem na boca, veta decisão da ONU que criaria tribunal para tratar do abate criminoso de avião malaio sobre a Ucrânia porque os responsáveis foram guerrilheiros pró-russos, ocupa territórios vizinhos (Crimeia; partes da Geórgia), ameaça os países bálticos, provoca a OTAN, manda assassinar inimigos políticos, fomenta na Rússia sentimento paranoide de perseguição pelo Ocidente e apesar disso tudo, ou melhor, graças a isso tudo, goza de popularidade altíssima no país.

 

Na gigantesca panela de pressão que é hoje a China, onde partido comunista único quer fazer vingar capitalismo selvagem em estufa, sem conceder direitos cívicos e políticos, as contradições – como diziam os marxistas – parecem cada vez mais próximas de fazerem saltar a tampa mas talvez seja pensamento desejado (assim o meu chorado Gérard traduzia wishful thinking) de europeus nostálgicos de mando. A bolsa de Shangai conheceu há dias grande queda, as autoridades não sabem como tratar dos fundamentos da questão, confirmando inépcia de que se suspeitava, o crescimento sustentado chinês com que o mundo inteiro conta poderá estar comprometido. Para dificultar ainda mais emendas necessárias a qualquer hipótese de decência política futura, Pequim desencadeou perseguição redobrada aos pouquíssimos advogados de direitos humanos que insistem em praticar no Império do Meio, ajudando quem proteste contra ditadura sufocante. E, para animar xenofobia, sempre útil a quem governe, está a transformar em ilhas penhascos do Mar da China, assustando Japão, Vietname, Camboja, Filipinas. O povo gosta e é sagaz contentar o povo.

 

Nos Estados Unidos, país democrático que festeja a Magna Carta com mais entusiasmo do que os ingleses, entre 17 candidatos (por enquanto) a candidato do partido Republicano à presidência do país em 2016, sondagens põem à frente Donald Trump, bilonário populista xenófobo deliberadamente ofensivo e malcriado cujo pensamento tosco e vulgaridade de sentimentos e maneiras entusiasma os militantes do partido, que são os grandes animadores de primárias.

 

Na Europa onde se vive com mais saúde, segurança e decência política do que no resto do mundo, as bases enervam-se, acusam as cúpulas de elitismo, destestam imigrantes, admiram ditadores estrangeiros, são contra “a Europa”, e enfraquecem-nos no confronto com o resto do mundo. Bases, como sempre, bem piores do que as cúpulas e, se os nossos chefes políticos não lhes souberem deitar a mão, brotarão nesta península da Eurásia (7% da população; 25% do produto; 50% da despesa social) os Hitlers e os Mussolinis vindouros.

 

N.B. O parágrafo acima não se aplica a Portugal. Por razões que historiadores futuros entenderão melhor do que nós, desde o 25 de Abril o país, de bom modo e sem estimular extremismos políticos, desempenhou duas tarefas que muitos achavam acima das suas capacidades: integrou mais de meio milhão de retornados e sobreviveu a programa europeu de austeridade. De se lhe tirar o chapéu.

 

 

 

 

 

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3.6.15

 

 

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Europa, filha do rei de Tyr, raptada por Zeus 

 

 

 

 

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Irmãs da namorada de Zeus

 

 

 

Há anos, no Itamaraty, perguntei a diplomata brasileiro como era o Paraguai. “É assim como o México” respondeu ele “mas, como não mudam de 7 em 7 anos, roubam menos”. Era o presidente que não mudava; pouco tempo depois o ditador Stroessner foi corrido – para exílio no Brasil – pelo que hão de ter passado a roubar mais. Mas o pior não é isso: há mês e meio, miúda de dez anos, grávida depois de violada pelo padrasto, foi levada ao hospital pela mãe pedindo que a fizessem abortar. As autoridades, espaldeadas pela igreja católica, disseram que não (prendendo a mãe como cúmplice). Em vários outros países da América Latina, as gravidezes juvenis também são muito mais frequentes do que na Europa e mais difíceis de prevenir por uma mistura de ignorância, machismo e doutrina católica.

 

Passando para outra das irmãs da namorada de Zeus e para outros desmandos: na sexta-feira passada, federações nacionais de futebol, sobretudo de África, votaram sem hesitação para renovar o mandato de Sepp Blatter à frente da FIFA, apesar de indignação de muitos entendidos e de outras federações. (Michel Platini, presidente da europeia, exortou publicamente Blatter a não se recandidatar). Como a investigação de crimes graves veio do FBI, esboça-se movimento para caracterizar o caso como expressão de imperialismo americano atrabiliário contra costumes, diferentes mas honrados, de gente menos rica e menos forte por esse mundo fora.

 

Um que logo se manifestou nesse sentido, alto e bom som, foi Vladimir Putin que, de súcia com o alto clero da igreja ortodoxa, continua a restringir cada vez mais as liberdades na Rússia – no rosário de repressões: há dias fundações que recebam dinheiro do estrangeiro foram consideradas inimigas da nação e do estado – para consolidar a sua cleptocracia; deverá saber ou suspeitar de trafulhices na escolha do seu país para acolher mundial de futebol e verá também oportunidade de reforçar a sua excelente imagem interna, fomentada por controle quase total de jornais, telefonias e televisões e por serviço de segurança levado ao nível do KGB.

 

O que me levou a outra irmã da Europa, a Ásia, de que a Rússia também faz parte embora não esgote, muito longe disso, as malevolências dela. Igualmente em notícias dos últimos dias, encontramos emigrantes, refugiados de tentativas de genocídio, postos à deriva no alto-mar com promessas de nova vida sem que países que os poderiam ajudar mexam um dedo para tal fazer, da Tailândia à Austrália (esta já na Oceânia, última irmã de Europa). Assim escancarada, a indiferença pelo próximo nesses países não encontra termos de comparação na Europa de hoje. Entretanto, sobre a terra e sobre o mar dessa parte do mundo, acena a presença totalitária e impiedosa da China.

 

No começo e no fim do dia, lembremo-nos da sorte que tivemos em nos ter calhado a filha do Rei de Tyr, raptada por Zeus (disfarçado de touro para escapar à vigilância ciumenta da mulher – o Mediterrâneo mudou pouco).

 

 

 

 

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8.4.15

 

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Ave-Marias e Pelouros

 

 

 

“Com muitas Ave-Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo” conta Fernão Mendes Pinto da abordagem ao junco do pirata Cimilau no Mar da China. Os europeus começavam meio milénio de domínio do mundo que estamos a ver acabar “in real time” e sem anestesia.

 

Hoje, Ave-Marias, não sei se chegaríamos ao fim duma, quanto mais de muitas que a fé é pouca e preguiçosa neste recanto temperado do hemisfério Norte — 5% da população, 20% do produto e 50% da despesa social do mundo não se cansa de lembrar Angela Merkel. E pelouros dos nossos dias – armas “state of the art” – custam dinheiro que povos europeus amantes da paz (e de que os deixem em paz) preferem gastar noutras coisas enquanto Rússia e China aumentam substancialmente todos os anos os seus orçamentos de defesa — isto é, de ataque. Continuamos a depender da protecção dos Estados Unidos para nos defender de quem nos queira atacar (ou para que quem tal queira, pense duas vezes e não ataque). Mas é menos certo hoje do que durante a Guerra Fria que ataque a qualquer Aliado seja inexoravelmente tomado por Washington como ataque aos Estados Unidos. Nós — portugueses e outros — estamos muito menos seguros do que estávamos quando a União Soviética existia. Pior ainda, aqui e agora, as pessoas não vislumbram guerra - como não a vislumbraram em 1913…

 

Assim, ganhar força para a luta não vai ser fácil. Na União Europeia e arredores, a combater como Fernão Mendes Pinto, só me ocorrem as hostes do ISIS, as arrebanhadas localmente e as brigadas internacionais emigradas da Europa, rapazes e raparigas que encontraram sentido a dar à vida. A fé é outra mas a mistura de vigor espiritual e engodo material é a mesma. Nos dois casos, creem que Deus os ajudará a limpar a face da terra de infiéis e, com especiarias que abarrotavam o junco do Cimilau ou com petróleo de Mosul, enchem os cofres da causa.

 

E batermo-nos por quem? A União Europeia é uma grande cooperativa de produção e consumo, capaz de nos dar o melhor viver quantificável do mundo mas incapaz de levar seja quem for a morrer ou matar por ela. Para Super-Pátria não dá. Na Europa já se morreu e matou por Deus, por Príncipes e por fim por Pátrias. Hoje, abafadas pelo cobertor comunitário, as pulsões que estas nos dão são como dores fantasmas em membros amputados. Mas é o que há.

 

E, quando a guerra vier, como derrotar a barbaria sem criar outra? Primeiro, é preciso estarmos convencidos de que temos razão e eles não a têm. Segundo, querermos vitória e só vitória. Terceiro, sabermos que ‘quem mata primeiro, ganha’ (lição aprendida em Pretória do motorista Vasco, que usava pistola porque ia e vinha todos os dias do township onde vivia). Quarto, reforçarmos a OTAN (até porque, sem os americanos, quem mandaria?). E, quinto, pormos botas no terreno (só com aviões e drones não se irá lá).

 

E se nos furtarmos a guerra assim? Em vez de passarmos de cavalo para burro passaremos de cavalo para burro morto.

 

 

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26.11.14

 

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 Nuba, 1962-77 © Leni Riefensthal

 

 

 

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Contas às vidas

 

 

Leitora atenta acha que reflexão sobre os ricos e os pobres tem muito que se lhe diga e é bastante complicada aos seus olhos. “É que para mim os ricos somos nós todos aqui no Ocidente, brancos, a quem não falta água quente para tomar banho e comidinha no prato, assediados por aqueles que se metem em barcaças e morrem à média de 5 por dia para tentar cá chegar (números de 2007, hoje devem ser mais). Assim, aos meus olhos, é tudo relativo em termos de desigualdade aqui por estas nossas bandas”.

 

Nem de propósito. Estudo apresentado quinta-feira passada por um grande banco suíço e uma agência de conselho a afortunados mostra que os cerca de 211.000 “ultra-ricos” deste mundo continuaram a prosperar em 2014 e detêm hoje 13% da riqueza mundial. O seu número aumentou de 6% e o seu património de 7%, chegando ao equivalente do dobro do PIB dos EUA. Estes ricos-ricos — patrimónios superiores a 30 milhões de dólares por bico — representam só 0,004% da população adulta mundial e compraram 19% dos produtos de luxo vendidos o ano passado. Enriqueceram ainda mais graças à boa saúde das bolsas — apesar de conflitos geo-políticos, tensões sócio-económicas, volatilidade dos mercados financeiros. Embora na Ásia vivam 46.635 deles — e tenham este ano aumentado em África mais do que noutra partes do mundo — concentram-se nos Estados Unidos (74.865) e na Europa (61.820).

 

Como, graças ao Estado providência, o fosso entre pobres e ricos na Europa é e será por muito tempo muito menos fundo do que noutros continentes, a minha amiga parece ter razão e os europeus deveriam ter vergonha e deixarem de se lamuriar.

 

Só que, como ela diz, a reflexão é complicada. Há quase 50 anos, tinha Portugal um Império Colonial e a Guerra Fria pautava o mundo, já a destruição criadora fazia das suas ao ponto do Luís Monteiro se gabar de ser um “nouveau-pauvre”. (Se estava convencido disso ou não, não sei. O Luís - de “Um homem não chora” e de “Felizmente há luar” - era mitómano, o que emaranhava a conversa: “A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo a ver se ainda queima, e ainda”). Seja como for, riqueza e pobreza extremas assustam à primeira vista mas depois a gente habitua-se; números como os que vão acima são difíceis de entender, como seriam os da fome e do analfabetismo — não é da leitura de estatísticas que bem estar ou mal estar vem. Os termos de comparação são o ano passado e o vizinho do lado. Os europeus veem que os seus vizinhos estão todos tão mal ou pior do que eles e percebem que — pela primeira vez há um par de séculos — os filhos vão passar pior do que os pais (sem sequer, ao contrário do que acontece noutros cantos do Mundo, fé descabelada em Deus que lhes engane a fome).

 

Uma achega mais à complicada reflexão. Enquanto, desde 2008-10, a Europa se atasca, roçando agora a deflação, milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro passaram a comer todos os dias e para elas o século XXI é cornucópia de abundância.

 

 

 

 

   

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12.11.14

 

Mother-and-Child-with-Orange-1951.jpgMother and Child with orange, Picasso 1951

 

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Tiago, 4 anos; Europa, 2.500 desde o Século de

 

Péricles.

 

 

 

Garantem-nos que desta vez é mesmo a decadência do Ocidente e a passagem da Europa de cavalo a burro. Em tempo real, sem anestesia. E com rol de queixas: aquecimento global; envelhecimento debilitante; deflação; Ébola e outras pandemias; Rússia que quanto mais come mais vontade tem de comer; sarracenos matando-se uns aos outros em nome de Deus com sanha que tínhamos esquecido (e a decapitar alguns de nós para nos avivar a memória); China – Perigo Amarelo! - a dar má vizinhança marítima e a despejar sobre nós cada vez mais bugigangas que fabrica; zaragatas que dantes não havia ou de que não nos dávamos conta; os bárbaros às portas da cidade — tudo afogado no saber digital como pêssego em calda. Que mundo vamos nós deixar aos nossos filhos? — afligem-se pais e mães.

 

O pai do Tiago fez a pergunta contrária: “Que filhos vamos nós deixar ao mundo?”. Estavam a passar uns dias connosco e nisto de pais com filhos pequenos ficou-me de exemplo a resposta recebida há 20 anos da mulher do meu chefe de gabinete. Era domingo, ainda não havia telefones portáteis, eu precisava de falar com ele, liguei o número de casa e inqueri quando ela atendeu: “Como vai a mãe feliz de duas crianças extraordinárias?” “Desculpe, Senhor Embaixador. A mãe extraordinária de duas crianças felizes.”

 

Tiago é uma criança feliz e a felicidade é contagiosa. O restaurante onde os levámos na sexta-feira tem três salas e a certa altura parlamentou com o pai licença de ir espreitar a que não se via bem da nossa, perto da cozinha. Voltou de olho a brilhar - “Há uma festa!” anunciou, disse que lhe tinham dado um beijinho e quis lá tornar com a mãe. Foram, voltaram, o jantar continuou e de repente, pelas minhas costas chegou à nossa mesa redonda grande fatia de bolo de chocolate, trazida ao Tiago num prato de sobremesa por mulher bonita, alta, de longos cabelos louros, confiante, rendida ao sedutor de 4 anos, e que a seguir voltou, alegre, para a sua festa de anos.

 

E a decadência do Ocidente? Há cada vez mais velhos na Europa e, como Helmut Wohl me disse já há muitos anos, os violinos e os vinhos melhoram com a idade; os pianos e as pessoas pioram. Por muito que se queira contentar a terceira idade, o contentamento não é natural nela. Infelizmente, como em quase todos os países europeus — com saudável excepção da França — todos os anos morrem mais pessoas do que nascem, o velho continente ocupa lugar cada vez mais pequeno no mundo. Mas, enquanto houver mães e pais admiráveis de crianças felizes, que não perguntem que mundo vão deixar aos filhos mas que filhos vão deixar ao mundo, crianças contentes na descoberta da vida desmentirão a decadência do Ocidente.

 

Em Portugal há mais. Tiago e os pais ficaram cá em casa por eu ser padrinho da mãe dele. Amigo que os trouxe do aeroporto não pôde depois levá-los por ir a Lisboa ao baptismo de um sobrinho. Retornados em 75, austeridade agora, férias — a família cobre tudo.

 

 

 

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31.8.14

 

 

  Simon Leys / Pierre Ryckmans

 

 

 

La Chine a connu ces dernières années de prodi­gieuses transformations. Elle est en passe de devenir une super-puissance — sinon la super-puissance. Dans ce cas, elle sera — chose inouïe — une super­puissance amnésique. Car, jusqu'à présent, sa miracu­leuse métamorphose s'effectue sans mettre en ques­tion l'absolu monopole que le Parti communiste continue à exercer sur le pouvoir politique, et sans toucher à l'image tutélaire du président Mao, sym­bole et clé-de-voûte du régime. Et le corollaire de ces deux impératifs est la nécessité de censurer la vérité historique de la République populaire depuis sa fon­dation : interdiction absolue de faire l'histoire du maoïsme en action - les purges sanglantes des années 1950, la gigantesque famine créée par Mao (dans un accès de délire idéologique) au début des années 1960, et enfin le monstrueux désastre humain de la «Révolution culturelle » (1966-1976). Treize ans après la mort du despote, le massacre de Tianan-men (4 juin 1989) est encore survenu comme un post-scriptum ajouté par les héritiers, pour marquer leur fidélité au testament laissé par l'ancêtre fonda­teur. Mais ces quarante années de tragédies histo­riques (1949-1989) ont été englouties dans un « trou de mémoire » orwellien: les Chinois qui ont 20 ans aujourd'hui ne disposent d'aucun accès à ces infor­mations-là — il leur est plus facile de découvrir l'his­toire moderne de l'Europe ou de l'Amérique que celle de leur propre pays.

 

Quelle sorte d'avenir peut-on bâtir sur l'ignorance obligatoire du passé récent? «Ce qui peut constituer le plus grand obstacle empêchant la Chine de devenir un pays moderne au meilleur sens du mot, c'est sa volonté de maquiller et de récrire l'Histoire, tout par­ticulièrement, l'histoire de la "Révolution cultu­relle" », remarquait tout récemment le journaliste Jonathan Mirsky, perspicace observateur de l'actua­lité chinoise.

 

Mais la métaphore la plus éloquente de la situa­tion présente est encore ce Coma de Pékin évoqué par Ma Jian: le protagoniste du roman (une création particulièrement puissante de la littérature chinoise contemporaine) est un jeune manifestant décerveié par une balle perdue de Tiananmen, qui flotte, para­lysé, muet, sourd et aveugle, dans un coma sans fin.

 

 

Simon Leys

in Le Studio de l'inutilité

[Relire l'histoire de la « Révolution culturelle », Intoduction à la réédition des Habits neufs du président Mao (Ivrea 2009)]

© Flammarion 2012

 

 

Mais sobre o Autor aqui e aqui

 

 

 

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30.7.14

 

 

 

Barack+Obama+Barack+Obama+Golf+Mid+Pacific+9s6H4jz

 

 Barack Obama       foto: Bauer Griffin 

 

 

 

 

 

 

“Patrão fora…

 

 

…dia santo na loja!” Quando o dizer foi inventado os dias santos eram os únicos feriados que havia. Sem vigilância do patrão, cada um portava-se como lhe dava na real gana. (Na escola também, quando faltava o professor. Lembro-me, no pátio da Valsassina, de intervalo das 11 que nunca mais acabava, até que um voltou da secretaria eufórico: “É pá, não há aula! Morreu a mãe do gajo!”). Se a loja do mundo tem patrão, é Obama e, de há uns tempos para cá, anda tão distraído que há quem julgue que ele esteja fora.

 

De entrada quase ninguém deu por isso. O mundo estava farto de George W. Bush, a querer impor democracia aos outros, sem dor ou com dor, como charlatães de feira dantes arrancavam dentes; da sucessão de desastres militares que lhe couberam por causa disso; da sua fala de pobre de espírito – tornara-se caricatura de presidente americano, desenhada por estudante marxista burro. Em Janeiro de 2009, Obama era alívio que chegava, elegante, sereno, prometendo paz e decência. Discursava bem, com mais jeito para falar à gente do que qualquer dos seus predecessores de que alguém se lembrasse. “É um enlevo ouvi-lo” dizia-me admirador do tempo da primeira campanha eleitoral.

 

Depois de 5 anos de desilusão crescente, o ex-admirador diz agora: “Teria sido “speech-writer” ideal de presidente com jeito para mandar nos seus”. Nos seus e nos outros, acrescento eu, assustado por Putin em Moscovo, Xi na China, feixe de pimpões no Médio Oriente e mais malfeitores a granel, em confrontação com Obama em Washington e com Merkel no ramalhete pusilânime e indeciso dos europeus de que ela é a flor principal. “Lá vamos, cantando e rindo” cantava-se na Mocidade Portuguesa do meu tempo. Salvo jiadistas nas Arábias e entusiastas do Tea Party nas profundezas dos Estados Unidos, não ouço ninguém cantar assim agora.

 

Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos no começo da ascendência destes, fixou a regra de comportamento: “Falar baixinho e andar com um grande cacete”. Passado mais de um século, depois de duas guerras mundiais que aumentaram poder e persuasão dos Estados Unidos no mundo, e da guerra fria cujo resultado vindicou definitivamente a superioridade do capitalismo sobre o comunismo como criador de riqueza e de liberdade, e deixou os Estados Unidos a Hiperpotência, estamos a entrar em terra ignota: Obama na Casa Branca com béu-béu de pirolito e sem querer usar cacete.

 

A China acordou, outros espreguiçam-se. Milénios a fio poderes mudaram e a questão não é essa. A questão é que o alheamento de Obama, a falta de mão firme ao leme, desacredita o poder do Ocidente, garantia de relações entre governantes e governados e entre homens e mulheres muito mais humanas e decentes do que as que escapem à sua influência. Meninas infibuladas, prisioneiros de guerra decapitados, funcionários corruptos abatidos por balas na nuca — com a autoridade de Washington a sumir-se, faltas de respeito e provocações multiplicam-se por esse mundo fora.

 

 

 

 

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22.1.14

 

 

Pax Americana, 1988, Winston Smith 

 

 

 

 

 

 

 

Adeus Pax Americana

 

 

A “capacidade inimaginável de mentir sem pejo” dos nossos políticos alarma amiga minha (e devia alarmar toda a gente: se os valores em que assenta a decência de viver forem esquecidos teremos vendido a alma ao Diabo). Mas será o fim da raça — anunciado prematuramente em 1934 por  Pessoa, em 1875 por Eça e, alguns séculos atrás, pelo Velho do Restelo? A minha amiga receia que sim. Eu tenho dúvidas. A Espanha, a partir-se aos bocados, não tem queixada para nos abocanhar e à Europa de Bruxelas falta vocação de Pátria. Para o mal e para o bem, não há de ser nada.   

 

Seja o que for que por aqui medre, porém, terá, mais o resto da Europa e os outros 4 Continentes, de aprender a viver sem os Estados Unidos como Senhores do Mundo. Haviam passado a sê-lo desde o colapso da União Soviética. A 11 de Setembro de 2001 levaram grande bordoada – pior do que o bombardeamento japonês de Pearl Harbour em 1941 porque o Havai é um arquipélago no Pacífico e Nova Iorque e Washington são o coração do país – outras bordoadas, pequenas e não tão pequenas, externas e internas, se foram seguindo. O mundo está-lhes a escapar das mãos e eles já não sentem tantas ganas de o agarrar. Ora, se de vez em quando a Pax Americana importunou muitos de nós, o incómodo de viver com ela não era nada comparado com o incómodo de sem ela viver.

 

Patrão fora, dia santo na loja –  ou, mais a propósito, guerras sem fim. Sem Washington a meter-se decisivamente nas questões, desavenças agravam-se, feridas em vez de sararem infectam. Sofrimento indescritível — e evitável — aflige cada vez mais gente. A tragédia humanitária da Síria que indecisões americanas deixaram avolumar à nossa beira para lá de remédio programável e plausível é a que dá mais nas vistas. Mas não faltam outras pelo mundo fora.

 

Não existe potência capaz de desempenhar papel comparável ao que fora até há pouco o da América. A China, de que às vezes alguns se lembram, vem carregada de dificuldades de sua própria invenção. Capitalismo desenfreado em regime de partido único criou classe média — e milhares de milionários — exigindo voz na coisa pública e prenunciando grandes sobressaltos. Desenvolvimento selvagem criou desastres ecológicos duradouros. A política “um filho só” criou distorções demográficas que levarão gerações a corrigir. E a capacidade militar chinesa não dará para Pequim distrair mal-estar em casa com aventuras fora.

 

A Rússia continua a ser “O Alto-Volta com bombas atómicas” (Helmut Schmidt dixit). A Índia é uma democracia mas desigualdades abissais – até entre homens e mulheres – atrasam-lhe ambição de bem-estar geral, quanto mais de hegemonia. O Brasil do rolezinho está longe de poder ajudar a pôr o mundo em ordem. E a Europa, com a História, zangada, a voltar a galope sobre a desunião cavada pela austeridade, perdeu a vez.

 

Em mundo sem rei nem roque teremos de olhar melhor por nós. Começando — talvez dissesse a minha amiga — por dar crédito e autoridade à virtude.

 

 

Imagem: aqui

 

 

    

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15.1.14

 

 

 

 

 

 

 

Azar dos Távoras

 

 

A minha amiga Graça correu muito mundo. Quando nos vimos depois da passagem de ano disse-me: “Kung hei fatchoi”, acrescentando que assim lhe desejavam bom ano novo (chinês) quando ela por lá vivia e que a resposta a dar era “Laisi tai loi”, em tradução livre —  sentimentalmente conforme com o original — “passa p’ra cá o dinheiro”. Os chineses que conheceu só pensavam em duas coisas: na família (pai, mãe, marido, mulher, filho ou filha. A chamada “família extensa” — empecilho à iniciativa privada em África, na América Latina, no sul da Europa — desaparecera do seu universo) e no dinheiro.

 

O Partido Comunista Chinês governa sem estados de alma quanto a estado de direito, direitos do homem e outras predilecções ocidentais, e favorece liberdades e tropelias que levem à criação de riqueza. Milionários medram como cogumelos e bilionário é o estatuto mais apetecido pelos milhões de rapazes e raparigas denodados que constroem o futuro. Essa ganância antiga, desde Confúcio mais ou menos enquadrada por tentativas de a apertar num colete de forças moral, permitiu à China resistir a tentativas europeias de colonialismo, às guerras do ópio, ao marxismo-leninismo e à selvajaria de Mao Tse Tung.

 

O Presidente Xi, Imperador do nosso tempo, começa a virar a China outra vez para fora, depois de 500 anos ensimesmados dentro da Grande Muralha. Nos mares, a sul e a leste, crescem tensões sino-nipónicas. A Academia Chinesa de Turismo anunciou que, em 2012, 82 milhões de chineses tinham visitado o estrangeiro, que o número continuará a crescer e  que em 2020 serão 200 milhões. A propensão ocidental à culpabilização não será a melhor arma contra a ignorância chinesa do arrependimento.

 

Século XX comparável ao que a China teve deixou a Rússia pelas ruas da amargura: alcoolismo a aumentar, esperança de vida a diminuir e economia incapaz de aproveitar riqueza natural em gás e petróleo para se diversificar. Talento rufião de Putin para enrolar Obama na Síria e para assediar vizinhos pequenos — com os chineses não se mete — obrigam-nos a prestar atenção à Rússia.

 

Além disso, entre 1990 e 2010 o número de gente vivendo em extrema pobreza (menos de US $1,25 por dia) no mundo inteiro diminuiu de metade. Nunca tanta gente viveu tão bem quanto vive agora. Em muitos outros países além da China — Brasil, India, Indonésia, África do Sul, México, por aí fora – mais e mais pessoas estão a passar à classe média, achando-se com direito a conforto cada vez maior e a levantar a voz na coisa pública. Nunca as mulheres estiveram menos dependentes da vontade dos homens das suas famílas — até em muitos países islâmicos e em pequenas bolsas de cristianismo misógino.

 

Entretanto os europeus queixam-se. A austeridade agravou as perspectivas de recuperação económica e deu uma machadada na solidariedade europeia. Desde 1957 nunca sofremos concorrência tão forte do resto do mundo nem, azar dos Távoras, tivemos chefes políticos tão medrosos e curtos de vista.

 

 

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