25.2.16

 

 

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Recolher, preservar e divulgar as memórias de gente comum, reconhecendo que esses testemunhos de vida contribuem para o conhecimento da história e da identidade nacionais, é a missão do Arquivo dos Diários, associação cultural criada há dois anos, que lançou o concurso “Conta-nos e Conta Connosco”, destinado a enriquecer o seu acervo.

 

Agora que dispõe de uma equipa e de um espaço na Biblioteca de São Lázaro, graças a uma parceria com a Junta de Freguesia de Arroios, a associação está em condições de começar a reunir cartas e diários através dos quais os portugueses poderão contar a sua história. Diários, cartas, fotografias e filmes caseiros ou simples evocações feitas pelas pessoas são uma parte importante na construção da memória de cada um. Mas esses documentos servem também para ajudar a construir a narrativa de uma comunidade. A ideia é catalogar por temas tudo o que for recebido e, no futuro, disponibilizar o acervo num meio digital. 

 

Existem já em vários países europeus arquivos dedicados a recolher a memória popular, designadamente o Archivio Diarístico Nazionale, em Itália, que serviu de referência a Clara Barbacini e Roberto Falanga, fundadores deste projecto.

 

 

 

 

 

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© Soraia Martins 

 

 

 

O principal obstáculo, admitem, é chegar às pessoas e mostrar-lhes que as suas memórias e objectos pessoais podem ajudar a desenvolver outros projectos interessantes, do cinema ao teatro, da ficção à investigação, ou simplesmente servir para consulta de quem tem curiosidade por histórias de outros tempos.

 

“Espero que os portugueses desmintam o pudor como traço da sua cultura”, diz Roberto. “Sei que vai ser complicado, mas desafiante. E acho que só o facto de alguém se questionar se deve ou não entregar [os diários e cartas da sua família] já é bom. Estimula o pensamento. Nesse tempo de reflexão o tema esteve ali, a ser considerado.”

 

Também sabem que poderá haver resistências à entrega de materiais e à publicação. “Sabemos que estamos a tocar assuntos muito delicados”, asseguram. Recordam o caso de uma mulher, vítima de violência doméstica, que ganhou em Itália um concurso semelhante ao agora lançado em Portugal e só anos mais tarde recebeu o prémio, depois de o marido morrer. Há também questões legais que podem colocar-se, por exemplo, no caso de pessoas que encontram ou compram materiais que não se importam de doar mas que dizem respeito a terceiros.

 

Tal como em Itália, está prevista a publicação anual de pelo menos um diário: quem entrega os seus materiais pode escolher participar num concurso aberto até 1 de Março próximo. Depois, um painel de dois júris – um popular e um técnico – escolherá um vencedor. Será publicado pela Penguin – Companhia das Letras.

 

As entregas podem ser feitas na Biblioteca de São Lázaro todos os sábados das 11h às 13h ou enviadas por correio e a associação tem um site com toda a informação em www.arquivodosdiarios.pt. Tem também uma página de Facebook aqui.

 

Arquivo dos Diários

Biblioteca de São Lázaro

Rua do Saco, 1  Lisboa 1169-107 (Freguesia de Arroios)  

 

 

Agradecimentos:

 

artigo de Vanessa Rato no jornal Público, artigo de Samuel Alemão em “O Corvo” e textos reunidos no site Arquivo dos Diários.

 

Fotos gentilmente cedidas por Arquivo dos Diários e Soraia Martins

 

 

 


3.10.15

 

 

 

Garrett CBP.jpg

 

   Garrett - Columbano (detalhe)

 

 

 

 

 

 

Carta de Almeida Garrett ao político e amigo Rodrigo da Fonseca Magalhães

 

"Pensa", escreve Garrett em 1846 ou 1847 ao seu amigo, nesta carta inédita que pertence à Biblioteca Nacional. "E se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secreto, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver." Estava-se em plena Guerra da Patuleia, que dividiu o país entre liberalistas e miguelistas, e Garrett oferece-se para ajudar. O "acordo", se existiu, manteve-se mesmo secreto. Não se sabe qual foi — se algum — o envolvimento de Garrett nos bastidores.

 

 

5a feira

 

[...]

Meu Rodrigo, aproveito esta ocasião para te pedir que estejas bem em guarda para te não deixares comprometer com certos sujeitos que nós sabemos. Olha que eles nada te podem dar, e se te pudes­sem dar alguma coisa, não ta davam. Se se chegam para ti é porque sabem que nada têm, e fazem de vampiros para vi­ver do teu sangue. E depois uma de duas, ou te hás-de desfazer deles, e chamam-te traidor, ou os aturas e alienas de ti os verdadeiros valores. No meio destas ruínas em que está Portugal tu podes ter uma bela missão.

 

Isto é como o terramoto de 55: nós não o fizemos, tu não o fizeste. E o que se incarregar de levantar a cidade caída não é responsável pelo que a deitou abaixo. Esta opinião e modo de ver não é meu, é de muita gente, e pode­remos fazê-lo ser do maior número se se for com tento e firmeza.

 

Tu bem sabes que eu não cos­tumo oferecer-me para nada; mas também sabes que sou amigo verdadeiro e eficaz quando a consciência da razão e da alma se juntam às minhas simpatias pessoais. Eu digo a todos que não sou de políticas, e que abdiquei, mas a ti digo-te que escolhi de propósito e de longamão esta posição insuspeita porque vi do princípio que por bastante tempo outra era impossível com proveito público. Creio que me não inganei. Assim vejo todos, e com todos falo em negócios que de outro modo não são tratáveis.

 

Se vires que podemos falar sério e com proveito nestas coisas, e que convém, dize e  falaremos. Os patuleus estão com mais senso do que os eu supunha.

 

Se se tenta alguma coisa, é preciso tentá-lo já, isto é, prepará-lo; e parece-me a mim que posso ajudar-te nal­guma coisa, especialmente porque cuidam que o não pretendo.

 

Ora eu realmente para mim aqui nada quero.

 

Adeus. Pensa, e se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secre­to, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver. E tu bem deves saber que eu não sou poeta em prosa, e que todos valem mais que eu, menos em lealdade e certeza que ninguém mais que eu vale. Teu dedicado amigo

 

JBAG

 

 

*

 

 

A 4 de Março de 1852, ao apresentar o texto do primeiro Acto Adicional à Carta Constitucional, por si redigido, Almeida Garrett proferiu o último discurso na Câmara dos Deputados. Este é um verdadeiro testamento político (a que deve juntar-se a alocução, também derradeira, na Câmara dos Pares, em 10 de Fevereiro de 1854), e nele se inclui este enigma de decifração de profundas convicções:

 

Eu também já perdi as minhas ilusões; também já não creio na maior parte das cousas em que acreditava; mas há uma única crença, é a crença na minha Pátria é na liberdade dela [...]. Mas quando a per­desse, sumia-a no fundo de minha alma para que ma não suspeitasse a Nação Portuguesa.

 

Das bancadas parlamentares que o aplaudiram (no registo dos taquígrafos, emotiva e efusivamen­te o fizeram), não podem contar-se aqueles que terão penetrado o sentido dissimulador, tão do agrado do escritor, que essas palavras contêm.

 

Ora, descrente das soluções e dos oportunismos que enchem páginas na história do nosso liberalis­mo, Garrett aprendeu a dissimular as mais fundas crenças, cobrindo-as sob um manto (ou jogo) irónico de "ilusões" e "crenças" com que manteve incólume uma postura de independência dos partidos e inte­resses particulares de então. Daí a fórmula, que não deixa de ser perturbadora e que podemos traduzir deste outro modo: se hoje deixei de pensar o que ontem posso ter pensado, não afirmo nem desminto tanto o que ontem posso ter pensado como, hoje, o ter deixado de pensá-lo.

 

Fórmula especiosa... e perturbadora! Afinal de contas, fórmula geral de uma "intimidade cons­trangida", que, com o tempo (sobretudo, por força de um tempo histórico vivido), aprendeu a escamo­tear em público as convicções mais íntimas, sem as apagar de todo. Mas quais terão sido estas?

 

Creio que, de um juvenil ponto de partida repu­blicano (de que o federalismo norte-americano foi "a pedra filosofal" dos sistemas políticos) e jacobino (de que as revoluções servem para "colocar os homens no seu lugar"), permaneceu uma dissimulada posição de defesa do que, no primeiro liberalis­mo português, podemos considerar os difusos interesses populares.

 

E, de forma irruptiva e mais ou menos velada, conforme as circunstâncias — nessa "posição in­suspeita" de quem já vira "que por bastante tempo outra era impossível com proveito público" (ver carta inédita junto) — , Garrett surgiu nos picos de maior radicalidade ao lado do partido popular e contra o oportunismo das facções.

 

No geral, manteve o princípio de conservação das liberdades e de estabilidade política que se não confunde com conservadorismo e não pode esconder as crenças subtilmente veladas pelas "endiabradas políticas" que "tudo absorve[ra]m" no nosso longo século XIX.

 

 

 

 

Luís Augusto Costa Dias

in Jornal Público, Caderno "150 anos da morte de Almeida Garrett ", 9 de Dezembro 2004

 

 


 

 

 

* Imagem: Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro concluido em 1926 [pormenor] . Passos Perdidos, Assembleia da República, Lisboa

 

 

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27.9.14

 

 

Cristina Ténis 1965.jpg

 

 

Cristina Futscher Pereira

17 Abril 1948—27 Setembro 2005 

 

 

 

 

 

Caro Almeida Garrett

 

 

Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.

 

O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.

 

Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.

 

Mas o achado constituiu também um encontro.

 

A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno «templo», de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.

 

Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.

 

Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned you know what I mean? —, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.

 

Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.

 

Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.

 

Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.

 

O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é…), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através da quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.

 

Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.

 

Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual eu tive a honra e o gosto de participar.

 

Ele aí – aí?, aqui? – fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?

 

Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.

 

 

 

 

Notas:

 

Este texto fechou o blog O Divino em 2005. O blog garrettiano fora criado por Cristina em 2004 e foi retirado dos blogs do sapo cinco anos depois.

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Retentiva e Conteúdos em Português. 

 

 

Leia também os posts

 

Long Live Garrett

 

Garrett inédito

 

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

Garrett leitor de Vicente

 

Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909)

 

 

Inéditos do romanceiro garrettiano neste blog na tag Garrett 

 

 

 

 

 

 

Lettre à Garrett (2005)

 

 

Cher Almeida Garrett,

 

Pardonnez-moi de vous interpeller ainsi, si soudainement, mais, croyez bien que je n’oserais pas vous importuner pour un rien. Partir, et partir tôt, est un drame que vous connaissez bien. Partir trop tôt. Je sais, donc, que vous comprendrez ce que j’ai à vous dire.

 

Votre nom et votre œuvre sont encore vénérés dans ce pays qui est le vôtre, même si on leur voue, en somme, l’estime accordée habituellement aux monuments. Révérés, mais en vérité, oubliés, ignorés et vandalisés. Rien de nouveau, nous le savons bien.

 

Imaginez-vous que les manuscrits inédits de votre Romanceiro ont été découverts dans un tas de papiers qui se trouvait chez Venâncio Deslandes, jadis directeur de l’Imprensa Nacional. Il n’est pas difficile d’imaginer les raisons qui auront conduit Monsieur Deslandes à rapporter le manuscrit chez lui mais nous ne saurons probablement jamais le fin mot de l’histoire qui explique qu’ils y soient restés jusqu’à ce que Cristina Futscher Pereira ne les déniche.

 

Mais cette découverte fut aussi une rencontre.

 

Car, dès cet instant, le destin de Cristina Futscher Pereira s’est mêlé à celui de ces documents. Et vous, mon cher Garrett, sachez que vous avez nourri son enthousiasme. Elle pressentait que ces manuscrits étaient une manifestation de sa bonne étoile et alla même jusqu’à construire ce petit temple d’où je vous écris, pour y partager les bonnes nouvelles avec tous ceux qu’elles intéresseraient.

 

Mais, (presque) personne ne se montra intéressé. Enfin, il y eu quelques lueurs d’intérêt pour ces documents, noblesse oblige , bien qu’elles fussent mornes et brèves. Qui sait, peut-être sommes-nous fatigués d’être un Pays, d’avoir une Histoire si pesante, au bilan si incertain.

 

Et puis, un Romanceiro, n’est-ce pas quelque chose de complètement has been, si old fashioned – you know what I mean? – quelque chose qui appartient à un monde qui n’est plus et qui a donc cessé de nous intéresser ? Bien sûr, il convient de le protéger et quelqu’un doit se charger de conserver ces choses. Ça pourrait venir à manquer, un jour, qui sait ?

 

Et pourtant, cher ami, vous avez bien peu de raisons de vous plaindre. En dépit de l’infortune pédagogique de Voyages , vous faites encore partie du canon, personne ne vous réfute l’épisode de Mindelo, la scène des théâtres vous est encore ouverte, le frac vert, la cravate colorée et le chapeau blanc provoquent encore bien des émois chez la gente féminine. De votre poésie, il reste Folhas Caídas (dont le pathos augmente quand on connaît l’histoire de la vicomtesse de Luz) et votre éloquence résonne encore vaguement au parlement. Tout le monde n’a pas la chance de pouvoir en dire autant.

 

Mais en réalité, votre œuvre est bien peu lue et, hélas ! , rares sont ceux qui parlent encore cette langue dans laquelle vous avez écrit ces pages si remarquables.

 

Poursuivons. J’ai connu Cristina à cause de vous. Disons que c’est l’écrivain illustre qui est à l’origine de notre rencontre. A peine m’avait-elle fait part de ses projets que je lui disais de ne rien attendre, ou si peu. Mais mon scepticisme a cédé face à l’énergie qui l’animait et à son désir d’éveiller un intérêt renouvelé pour votre personne, cher Garrett, et pour votre œuvre. Comment aurais-je pu refuser ?

 

Le résultat de cette collaboration est là, dans ces pages écrites dans l’éther (vous me pardonnerez, cher ami, de ne pas me risquer à la moindre explication...) mais aussi, dans ce riche échange épistolaire d’où est née une amitié certaine.

 

Cher Almeida Garrett, Cristina Futscher Pereira n’est plus.

 

Elle est partie trop tôt, comme vous. Avec elle, disparaît également cet espace qu’elle vous avait consacré et auquel j’ai eu l’honneur et le plaisir de participer.

 

Et lui là, – là ? Ici ? – reste pour témoigner de ces battements de cœur que vous avez provoqués tout au long de sa dernière année de vie. Cristina a fait ce qu’elle a pu jusqu’à ne plus pouvoir. Mais son exemple est là et, qui sait, peut-être fera-t-il des émules, peut-être sera-t-il repris ? N’est-il pas vrai que nous lui sommes tous redevables ?

 

C’est le devoir accompli - dont je me suis moi-même investi - que je vous salue, toujours plein d’estime et d’admiration.

 

 

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Si les morts et les époques se rejoignent et se mêlent comme dans La Tour de Barbela de Ruben A., vous finirez par faire la connaissance de Cristina. Je vous demande de lui accorder le traitement que l’on réserve aux amis sincères et dévoués.

 

 

 

Traduction de Laurence Corréard

 

 

 

Lettre à Garrett fut le dernier texte publié dans O Divino , un blog créé par Cristina en 2004.

 

 

 

 


6.4.14

 

 

 Jean Guitton

 

 

Cher Gyp,

 

As-tu une âme, mon petit chien?

 

J'ai séjourné, il y a bien longtemps, à Hickleton chez un grand seigneur anglais, Lord Hali­fax, que tu connais bien. Lord Halifax ne pou­vait se séparer de toi, son petit chien, qu' il avait appelé Gyp.

Gyp, je m'en souviens, tu prenais à cinq heures le thé avec lui. Tu étais de sa famille, comme l'est un frère. Mais ce qui m'a le plus surpris, c'est que lorsque tu es mort, ton maître t'a fait faire un petit cercueil et il t'a enterré près de l'église.

 

Un jour, je lui dis que sa conduite avec toi m'étonnait beaucoup : il te traitait comme si tu avais eu une âme, et donc une immortalité, Alors, le vieux lord me regarda en même temps qu'il te regarda. Il me dit : «Peut-être Gyp n'a-t-il pas d'âme (soul), mais Gyp a certainement un avenir (future). Car il a pour moi des mouve­ments d'amour — ici, ayant compris, tu aboyas — et tout mouvement d'amour est néces­sairement éternel, comme la beauté.»

 

Cette tendresse avait rapproché Maurice Genevoix de tes congénères, et de tous les ani­maux, en particulier des écureuils, qu'il affec­tionnait. Il disait que l'animal n'est pas une bête. Il est bien plus : l'animal, pour Genevoix, était un «préhomme ensoleillé».

 

Je crois à la souffrance des animaux. Il me suffit d'entendre la plainte des bêtes pour savoir qu'elles souffrent. Je ne suis pas comme Des­cartes qui, lorsqu'il donnait un coup de pied à un chien, le faisait sans aucune pitié, parce que le chien était pour lui une mécanique.

Saint Paul disait que les animaux gémissent avec la création tout entière.

 

Mais je crois à la souffrance des animaux d'un point de vue religieux. Car le Christ sur la croix était semblable à un agneau blessé. Selon saint Jean, le Christ est mort au moment même où l'on immolait les agneaux pour célébrer la pâque juive. Par son oblation, Jésus mettait fin aux autres sacrifices : il est devenu le seul Agneau.

Et de ce point de vue, je pense que l'animal qui souffre est associé d'une manière très lointaine à la Passion.

 

Et c'est pour toi, Gyp, que je me récite le quatrain de Gérard de Nerval:

 

 

Respecte dans la bête un esprit agissant:

Chaque fleur est une âme à la nature éclose.

Un mystère d'amour dans le métal repose,

Tout est sensible! Et tout sur ton être est puissant

 

 

 

Jean Guitton

in Lettres Ouvertes

© Éditions Payot & Rivages, 1993

 

 

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19.2.14

 

 

 

Portugueses prisioneiros dos alemães na Primeira Guerra Mundial (1916) Wikipédia

 

 

 

 

 

 

Duas lições da História

 

 

Lisboa tinham-na os mouros.

                                                                        

Quem a havia de tomar?

                                                                                

El-Rei D. Afonso Henriques

                                                                          

Com os Cruzados a ajudar.

 

 

 

O espírito dos Lusíadas fora assim afunilado no livro de leitura da terceira classe dos meninos e meninas portugueses, no começo dos anos 50 do século passado. Graças sobretudo a cartas de dois dos cruzados conhecem-se alguns pormenores do feito, praticado em 1147. As cartas não referem porém o episódio que ficou gravado para sempre na história militar lusitana, lembrado por pais a filhos, com nome de Largo na Baixa de Lisboa e tudo. Martim Moniz, fidalgo próximo de El-Rei, uma vez aberta fresta entre os batentes da porta principal da fortaleza, atravessou-se nela, dando a vida pela vitória. O seu corpo impediu que os mouros conseguissem voltar a fechar a porta, os cristãos entraram por ela e conquistaram a cidade.

 

 

A tradição não conta que na véspera à noite se teria travado viva discussão entre conselheiros de D. Afonso Henriques. Uns preconizariam o ataque directo à porta principal, aproveitando a passagem dos cruzados e antecipando a chegada de quaisquer reforços mouros vindos do sul. Outros porém, sustentariam que tal esforço seria vão e custoso em vidas, que o cerco acabaria por esfomear os sitiados e os levaria à rendição, e até que, entretanto, ficariam tão enfraquecidos que dentro de duas semanas se poderia fazer ataque surpresa à noite, escalando a parte mais baixa da muralha, nas traseiras do castelo. É plausível — se bem que as fontes utilizadas não sejam geralmente consideradas fidedignas por medievalistas — e, embora não diga de que lado se colocara Martim Moniz, sabe-se o que aconteceu depois e há uma lição a tirar.

 

 

A política externa conduzida quer à maneira europeia de hoje (“Não há rapazes maus”) quer à maneira universal de Clausewitz (de armas na mão, se preciso for) exige determinação, sentido de oportunidade e coragem. Se estes tivessem faltado a D. Afonso Henriques há 1867 anos o destino da cidade de Ulisses teria sido outro e não haveria heroísmo de Martim Moniz para nos inspirar.

 

 

Segunda lição. Em 1916, Portugal entrou na Grande Guerra contra os alemães. Tropas portuguesas combateram em África e no norte de França, tendo sofrido muitas baixas na batalha de La Lys onde as nossas forças se bateram ao lado dos ingleses. Conheci há muitos anos tenente-coronel  reformado, visita de casa de amigos açorianos, que nessa batalha comandara uma bateria de morteiros. Era uma santa pessoa. Tão bom e tão piedoso que, disse-me ele, de cada vez que atirava um morteiro contra os alemães, rezava pedindo a Deus para não matar ninguém.

 

 

Lição: guerras, que dão largas ao pior que há no homem, despertam também às vezes o melhor nele. Politicamente incorrecto? Talvez, mas é assim.

 

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29.11.13

 

 

 

 


A avaliar pelas aparências dir-se-ia que Aristides de Sousa Mendes era o próprio anti-herói. Senhor beirão, brasonado, proprietário, conservador, católico devoto com uma família extensa, nada parecia separá-lo dos seus pares. Como diplomata, a sua carreira, mesmo nos baixos, permaneceu perfeitamente dentro dos cânones até à aposentação compulsiva em 1940, aos 55 anos. Um homem maduro, com mundo, politicamente atento, avisado pela burocracia de Lisboa, estava agudamente consciente da retribuição que as suas acções iriam provocar.

De facto, diante dos milhares de refugiados apinhados junto ao Consulado Geral de Portugal em Bordéus, deu voz a essas preocupações:


Como informei toda a gente, o meu Governo recusou terminantemente todos os pedidos para concessão de vistos a todos e quaisquer refugiados. [...] Todos eles são seres humanos, e o seu estatuto na vida, religião ou côr são totalmente irrelevantes para mim. [...] Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião e estou certo que os meus filhos compreenderão e não me acusarão se, por dar vistos a todos e cada um dos refugiados, eu fôr amanhã destituído do meu cargo por ter agido [...] {contra} ordens que em meu entender, são vis e injustas. E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. […]


 

                


Ao agir no plano do real, acudindo na medida das suas possibilidades à situação dramática dos milhares de pessoas em perigo, sabendo que teria de enfrentar uma hierarquia que considerava o diplomata um militar à paisana, Aristides de Sousa Mendes gritava para Lisboa que a liberdade de consciência não é assunto de conveniência. O crime de Sousa Mendes fora tornar claro ao regime que as arquitecturas políticas sobre que assentava o seu perfil internacional e as suas linhas de defesa burocrática eram, realmente, apenas, construções.

O diplomata foi punido mas o “crime” foi abafado. E a maior parte das pessoas que se apresentaram às fronteiras portuguesas foram admitidas, na certeza de que a Espanha não as aceitaria de volta. Pretender que nada acontecera era a maneira mais expedita de reduzir o impacto do precedente e de lidar com a situação tida por desprestigiante de nem o Ministério do Interior nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros terem sabido evitar o acontecido. E a habilidade do regime em transformar o vício em virtude ressalta de um Editorial do Diário de Notícias de 14 de Agosto, uma lauda ao humanismo português, que Aristides de Sousa Mendes recortou e enviou ao MNE para juntar à sua defesa...

 

Manuela Franco

in "Razões e Humanidade" [texto na íntegra aqui]


Fotos  aqui  e Documentos aqui



 



 

 

Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial 

Exposição documental

 

Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 


site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

© 2013 Governo da República Portuguesa 

 

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25.10.13

 

Quarta Semana:

 

As acácias vermelhas estão a voltar. Nos tempos da colónia as ruas eram cheias de acácias vermelhas, diz quem ainda se lembra. Depois os indonésios arrancaram-nas todas. Porquê? Maldade pura, não há outra explicação. Não se pense que alguém exagerou nas descrições da crueldade dos indonésios em Timor. Foi o padre Felgueiras que me contou os piores horrores. 86 anos quase todos passados aqui, jesuita. Em Santa Cruz morreram duzentos jovens abatidos a tiro e muitos outros “desapareceram” como toda a gente sabe. Mas o que eu não sabia é que aos feridos, levados para o hospital militar, foi-lhes deitado ácido sulfúrico pela goela abaixo. É só um pequeno exemplo.

 

 

 

 

Timor-Leste é verde, tropical húmido e no entanto nas montanhas à volta de Dili praticamente não há árvores, num fenómeno de desertificação marcado e estranho. Com tanta chuva está a desertificar? É certo que a população empobrecida dá cabo de muitas árvores para lenha e que as cabras não ajudam, mas também não há assim tanta gente nem tantas cabras. Então? O exército indonésio durante 24 anos destruiu sistematicamente a floresta que abrigava as ferozes FALINTIL. Sem raízes que agarrem a terra, as chuvas torrenciais arrastam-na. Se acaso for reversível, vai demorar muitos anos e custar muito dinheiro para reflorestar. A propósito, quando depuseram as armas, as ditas ferozes FALINTIL eram uns 120 homens descalços e famintos com, por junto e a retalho, talvez 29 balas e umas espingardas enferrujadas. Mas davam conta da cabeça de um exército bem armado, bem vestido e bem alimentado. Fica sempre bem recordar os heróis.

 

 

 

 

 

Não sei se é porque nos gramam mesmo ou se é só porque abominam profundamente indonésios e australianos. Hoje um taxista pergunta-me “Australian?”, não, portuguesa. “Ah, desculpe” como se me tivesse insultado.

 

Pantai Kalapa, a praia dos coqueiros, a minha. Muitos esgotos a correr para o mar, impensável tomar banho. As marés vivas arrancaram grandes pedaços de coral que lançaram na areia; hoje ao passear apetecia-me apanhar não conchinhas mas enormes pedregulhos. Fica para a próxima maré viva.

 

... and I reluctantly say farewell to bloomy Dili...

 

 

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003.

 

Uma entrevista com Isabel Feijó sobre o seu trabalho em Timor aqui

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui

 

Fotos de Pedro Martins

 

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18.10.13

 

Quarta Semana:

 

Esta semana chegou finalmente a oportunidade de assistir a um discurso do presidente. Full treatment.

Presidente feliz com lágrimas, de acordo com o Público. De 2a a 5a decorrreu na “Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação” a primeira audiência pública sobre a guerra civil de 75 em que andaram todos a matar-se uns aos outros. Para quem não leu o Adelino Gomes, já várias vezes tinha sido marcada e outras tantas adiada. É um assunto do mais sensível já que muitos responsáveis políticos de hoje (tanto governo como oposição) foram responsáveis por grandes matanças na época. Desta vez fez-se mesmo. Era aguardado com enorme expectativa e durante as sessões Dili andou colada aos rádios para ouvir os depoimentos; os motoristas aqui do PNUD não saíam dos carros o dia inteiro, sintonizados na Rádio Timor-Leste, e quando saíam era para se juntarem em volta dum transistor. 

 

Note-se bem que isto na altura era Portugal. As nossas maravilhosas RTP, RDP e Lusa têm correspondentes em Dili. Adivinha quantos jornalistas portugueses estavam nas audiências? Quantos passaram por lá, nem que seja 5 minutos? Resposta – Um. Quem? Adelino Gomes que veio de propósito de Lisboa (no voo mais barato que encontrou e pagando do bolso dele as despesas em Dili...). Timor não é notícia. Como não estão a matar ninguém, não interessa para nada. Foram mortos uns milhares em 75 e nunca se falou disso? As feridas são fundas e a gente também teve responsabilidade. Mas o que é que isso interessa agora? Os jornalistas portugueses em Dili foram para a praia.

 

 

 

 

Aconselho vivamente a leitura dos artigos do Adelino Gomes, não posso acrescentar nada. Resta-me a minha própria comoção ao ver toda a gente a chorar com o discurso do Xanana (a começar pelo próprio, voz quebrada, olhos e nariz vermelhos, assoando-se, limpando a cara com o lenço, no meio das suas longas pausas habituais, desta vez mais longas ainda). Nem as moscas (abundantes) se ouviam.

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Foto de Pedro Martins

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui 

 

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10.10.13

Terceira Semana:

 

Esta semana a minha vida melhorou consideravelmente. Pantai Kalapa. Frase mágica, tipo abre-te sésamo! Entro num taxi, qualquer taxi, vocifero pantai kalapa e trazem-me direitinha ao hotel. Tornei-me uma mulher independente! Posso ir para qualquer lugar que, quais pedrinhas do polegarzinho, sei sempre voltar a casa. Claro que militantemente na defesa da língua portuguesa começo por dizer avenida de Portugal, passo em seguida a praia dos coqueiros mas na ausência absoluta de reacção, vergo-me ao peso da evidência e atiro-lhes com pantai kalapa. Há dias o taxista era um velho, disse hotel Esplanada. Reacção zero. Avenida de Portugal. Idem. Pantai Kalapa. “Ah...”. Passado mais um bocado. “Que horas são, por favor?” Mais um bocado. “E em Portugal que horas são?” Mais uma pausa. “Em Portugal está frio? Lá têm 4 estações?”. Riu-se como um perdido quando lhe disse que em Portugal estava um frio de rachar e ficou muito interessado em saber que as estações se chamam Primavera, Verão, Outono e Inverno.  Depois deve ter esgotado a sua memória do português porque não disse mais nada. Coitado e estava comovido. Eu também fiquei como é obvio. 

Os taxistas dão sempre pano para mangas em qualquer parte do mundo e Dili não é excepção. Um dia desta semana resolvi ir almoçar a um japonês no centro (o PNUD é um bocado fora, não é longe, mas andar na rua com sol a pino é impensável). Apanho um taxi cheio de penduricalhos de terços e santinhos. O motorista estava a ouvir música tipo igreja mas ao perceber que eu era portuguesa resolveu ser simpático e pôr uma cassette especial para mim. Quim Barreiros. Mais tarde vim a saber que a rádio da igreja transmitia abundantemente música pimba. O bispo foi alertado para o perigo de ter pessoas com uma grande boa-vontade em relação à língua portuguesa mas um total desconhecimento da dita e apressou-se a corrigir. Agora é mais música delicodoce ultrapirosa brasileira e portuga e canções de emigrantes género Linda de Susa.

 

 

 

 

Quanto à língua portuguesa, claro que não se pode dizer que aqui se fale muito, mas ainda assim fala-se muito mais do que esperava e sobretudo é verdade que fazem um enorme esforço para aprender. As empregadas do hotel, onde a língua de trabalho é o inglês, no princípio parecia que não falavam uma palavra lusa para além de bom dia e boa noite e obrigada, que de resto se diz também assim em tétum. Hoje, de repente ouço – boa noite senhora, como está? quer fazer já o seu pedido? já terminou, posso retirar? mais alguma coisa? Não sei o que se passou. Suponho que tivessem vergonha de falar tuga. Há um ano, os ministérios e o parlamento tinham dificuldades de entendimento medonhas porque uns falavam ou escreviam em indonésio, outros em inglês, outros em português outros em tétum. Hoje toda a legislação e documentos oficiais é escrita em português excepto a que sai do ministério das finanças que vem em inglês. Única excepção. 

 

Acontecimentos relevantes na semana? Dia dos Direitos Humanos no Estádio Nacional e passagem de testemunho da polícia ONU para a polícia de Dili. Nunca tinha visto um Presidente da República passar revista às tropas em t’shirt, mãos nos bolsos, sem saber o que fazer aos óculos escuros. Nem nunca vi nenhum PR em cerimónia oficial a subir as escadas aproveitando para ajeitar o tapete vermelho que estava perigosamente descomposto. 

 

E para acabar – o mercado. Um mercado no terceiro mundo tropical é sempre um fascínio de cores e cheiros e apetece logo ter uma casa para levar as frutas todas e experimentar ervas e legumes estranhíssimos e comer tomates com sabor e coisas dessas. Carne não, santo deus, as moscas!... abençoados supermercados com frigoríficos. Nem peixe, que o vendem na praia acabado de pescar.

 

 

 

 

E antes de ir para a cama, fiquem sabendo que aqui as osgas cantam e há uns lagartos vermelhos que falam. Não estou a brincar, pensei que eram passarinhos. Deve ser por estarmos perto de Darwin...

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Isabel Feijó e Pedro Martins

 

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2.10.13

 

Segunda Semana:

 

Pois não, não é fácil. Eu sabia que não ia ser fácil e não é. Timor? Os timorenses? O clima? Não!!! Tudo isso é de caras. A terra é simpática, as pessoas acolhedoras, totalmente incompetentes mas sempre com um sorriso tímido. O pior são os taxistas. Será que existe uma recomendação internacional para que qualquer pessoa que não perceba uma palavra de língua nenhuma a não ser a própria (mais ainda numa terra onde praticamente só os estrangeiros apanham taxis...) e não conheça a cidade, tenha justamente que ser taxista? E custa sempre um dólar. Um norueguês a puxar pró arrogante lá do PNUD diz que os “locals” só pagam meio dólar e que portanto se recusa a pagar mais. Diz ele que não se pode pactuar com a terrível exploração do pobre estrangeiro (a ganhar 10 ou 20 vezes o que ganha um ministro, note-se...). Santa paciência!...  Os “locals” não só pagam 50 cêntimos como andam aos 8 e 9 num taxi. Não quererá ele impor o número máximo permitido num veículo automóvel de quatro portas aos timorenses? Os “internationals” às vezes têm destas coisas.

 

A semana de trabalho foi tão preenchida que de repente parece que passou um mês inteiro. Tive reuniões com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, do Interior, da Educação, o Procurador-Geral, o Chefe do Estado Maior, isto para só mencionar os postos mais elevados da hierarquia. Mas não se pense que já corri a Administração timorense porque para a semana há mais... Presidente do Parlamento, do Conselho Superior da Magistratura mais alguns ministros e secretários de estado...

 

 

 

 

E depois tive um fim de semana inteiro para mim. Ufff! Ontem fui ao mercado de artesanato – umas 10 bancas, todas rigorosamente com os mesmos panos (de resto lindíssimos) no meio dos quais lá consegui encontrar um chapéu de palha. Que alívio! Temo ter dado um bocadinho nas vistas. A única cobertura de moleirinha aparentemente admitida nestas bandas é o boné de baseball e só os rapazes usam. Algumas senhoras usam guarda-chuvas, ou melhor, sombrinhas. Mas não me dá jeito nenhum. Depressa esgotei o comércio disponível naquela rua. Resolvi então ir até à Areia Branca, a tal praia onde se encontram pedaços de coral azul. E era isso mesmo que me apetecia fazer. Passear à beira mar e apanhar conchinhas.

 

 

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Pedro Martins

 

Uma entrevista com Isabel Feijó sobre o seu trabalho em Timor aqui

 

 

 

 


25.9.13

 

Primeira Semana:

 

Por muito que tenha seguido o drama de 99 pela TSF e visto montanhas de imagens do day after, confesso que não estava preparada para isto. Não ficou mesmo um edifício inteiro. Não se vê um telhado que não brilhe sem sequer um átomo de musgo. Com este calor e esta humidade quer mesmo dizer que estão acabadinhos de fazer. Mas muitas casas e edifícios publicos não têm telhado nenhum. Normalmente quando não têm telhado também não têm interior. Com pelo menos uma excepção – o palácio da Presidência da República, apropriadamente intitulado Palácio das Cinzas. Não tem telhado. Tem rés do chão e primeiro andar, mas só o rés do chão funciona, com umas placas de zinco a servir de tecto. Claro que já podia ter instalações decentes mas suponho que o PR queira dar o exemplo e só terá um palácio digno quando a população que ficou sem casa tiver onde morar. Mas digno é uma coisa, um telhadinho, não seria talvez um luxo excessivo... enfim... por estas e por outras é que não se pode deixar de ter uma imensa admiração por estes malucos. Pelo menos eu tenho, senão também não estava aqui.

 

 

 

 

 

 

E era pena, porque se está aqui muito bem. Para meu grande espanto em Dili há tudo. Não haverá muito queijo francês, mas há massa italiana, vinho português (e australiano), azeite de diversas proveniências, carne brasileira e mais o que se quiser de produtos chineses, tailandeses e etc., desta zona do mundo. Restaurantes dos mais diversos – timorenses, chineses, indianos, tailandeses, birmaneses, japoneses, australianos e portugueses - muitos e muito apreciados. Portugal do Minho a Timor não foi o Salazar que fez, foi a paixão timorense pelo bolinho de bacalhau. 

 

Mas e Dili, como é?...  A bem dizer ainda não percebi bem. Tem uma rua com comércio, sobretudo de chineses, tipo loja dos 300 e dezenas de timorenses a vender CDs e DVDs pirata. Mas parece-me que o comércio está muito espalhado. Não há construção em altura. O edifício mais alto deve ser a catedral. Muitas árvores. Casas dentro de muros com jardins. Muitas Nações Unidas (que gastam fortunas em pré-fabricados em vez de reconstruirem como os timorenses desejariam) com muitas medidas de segurança, muito arame farpado e muitos sacos de areia em volta. Compounds com muitos circuitos de video interno e muitas parabólicas. Muitas embaixadas e muitas residências de embaixadores. Bastantes ONGs. Quantidade de restaurantes do mais a armar ao pingarelho ao mais mixuruca. E os timorenses, onde vivem? Em barracas, na sua esmagadora maioria. Os bairros de barracas, embora tenham sofisticados esgotos construidos a céu aberto (brilhantes indonésios, bastava pôr uma tampa e talvez se diminuisse o número de mosquitos e respectiva malária e dengue!...), são normalmente os mais limpos. As mulheres, ou melhor, os seres do sexo feminino (a partir dos 3 anos) passam uma boa parte dos seus dias a varrer meticulosamente o seu espaço privado e envolvente. Para uma cidade que não tem serviços municipais (não tem sequer município), Dili é surpreendentemente limpa.

 

 

 

 

 

E para terminar, finalmente ontem confirmei que existe coral azul. Tinha há anos lido uma crónica da Sophia em que falava das maravilhosas ilhas de coral azul na Indochina. Desde então procurei por todo o lado (sobretudo guias turísticos da região) onde ficariam as tais ilhas de coral azul. Cheguei a concluir que era liberdade poética. Coral azul só existe na cabeça da senhora. Mas não. Existe. Na Praia da Areia Branca, a 10 km do centro de Dili, junto com búzios e beijinhos encontram-se abundantes pedaços de coral branco, vermelho e AZUL!!! Afinal era verdade! Grande Sophia!

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Pedro Martins

  

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27.7.13


Le ciel ne voyage pas, mais les pensées parcourent des distances incroyables. Riches en vaticinatons, elles se servent des visions ailées qui ne se posent que de rares fois.

Il arrive qu'elles stagnent dans les cerveaux humains. Quand elles s'élaborent dans la matière grise, l'enceinte où elles gravitent se dessèche et les empêche de se projeter dans le rêve. Alors les pensées ne libèrent pas leurs facultés créatrices; elles restent inanimées et privées de magie. En revanche, le vol que produit le rêve ne sait pas ce que veut dire la mort.

 

Silvia Baron Supervielle

in Lettres à des photographies (Lettre 74)

© Éditions Gallimard, 2013




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17.10.12

 

A tradicional Journée Portes Ouvertes do Liceu Francês inclui este ano uma exposição literária, e um encontro com antigos alunos que escreveram livros. Alguns desses antigos-alunos-escritores estarão no próximo Sábado à tarde no liceu para uma troca informal com os visitantes da exposição.  


Filipe Jarro, o organizador* deste encontro, tranquilizou-me desde logo na sua gentil carta-convite: "A minha escolha é abrangente (1 ano no liceu ou 15, 1 livro ou 15, 15 prémios ou nenhum, famoso/a ou não...) e todos contam". 


Pela minha parte, sinto-me feliz de participar com "Retrovisor" nas comemorações do 60º aniversário do LFCL e feliz também pela oportunidade de revisitar o liceu em clima de festa. As festas do LFCL são de boa memória e o LFCL tem muito para festejar. 




Notas:


Vão estar presentes Jean-Yves Mercury - Maria Antónia Palla - Carlos Domingos -Jaime Teixeira Mendes - Leonor Xavier - José Manuel de Morais Anes - Maria Helena Torrado - Filomena Marona Beja - Esther Mucznik - Raúl Mesquita - Lúcia Mucznik - Irene Flunser Pimentel - Isabel Alçada - Vera Futscher Pereira - Pedro Paixão - Clara Pinto Correia - Filipe Jarro - Sofia Marrecas Ferreira - Paulo Miguel Gérault Marrecas Ferreira -Teresa Lopes Vieira


 

Os livros expostos estarão à venda graças à participação da Nouvelle Librairie Francaise e os que se encontram esgotados estarão expostos em vitrines emprestadas pela Fundação Gulbenkian.



*Hoje poder-se-ia dizer "Curator", que opina o leitor?

 


 


26.9.12

 




Sintra (Portugal) 1938:

Seated are T. S. Eliot and Guilherme Pereira de Carvalho, editor of «Lisbon-Courier». — Middle row (from the left): Robert de Traz, Jacques de Lacretelle, Mme de Lacretelle, Mme. A Ferro [Fernanda de Castro], António Ferro — Upper row (from the left): Máximo Buontempelli, Aldo Bizarri, J. Silva Dias.

 


In 1938 T.S. Eliot came to Portugal at the invitation of the Secretariado de Propa­ganda Nacional and took part in the jury which awarded the Camoes prize to Gonzague de Reynold. In June 1943 — in the middle of World War II — Eliot sent the editor of the Portuguese magazine «Aventura» Ruy Cinatti a letter: 

 

 

I am convinced (I may say in explanation) that the ultimate unity of Europe cannot come through identity of political organization, or a legal-political federation, or a vague brotherly love, or an identity of interest among the masses of the people, but from the unity of the Christian Faith, and the unity in diversity of civili­zation and cultures which Christianity brought about in the past.

And for the latter, I believe that the literary periodicals of the highest standards in each European capital have a responsibility, not only to their readers at home, but to each other.

For a few years it seemed as if my hopes might approximate as nearly to realization as human hopes can; and there were half a dozen literary periodicals, some now extinct, some, alas! the same only in name, which could, in time, have done a great deal in spontaneous co-operation (1).

We know what happened; and we saw political divergences, which in part represented a normal reaction against the nineteenth century illusion that there must be one ideal form of government equally suitable for every nation, encroach upon the field of culture, until political variety became cultural disunion. In a situation in which the chief cultural effort of each country is to protect itself against the culture of others, such interchange as my review The Criterion and the other reviews I have in mind required, became impossible.

Those of us who were engaged in that attempt during the twenty years between the wars, may have resigned our personal hopes, but have not, I am sure, abandoned our aspirations. We trust that Europe will not follow the same course again; and we look for another literary generation to realize our frustrated ambitions.

 

 

in "Lisbon Courier"  nº 33, Dezembro 1948


Notes:


1. The Managing Editor of «Lisbon-Courier» [Dr. M. W. Clauss] had met T. S. Eliot in 1928 in London, in his former capacity as Managing Editor of the «Europaeische Revue». Until 1932 this monthly revue, published in German in Vienna, Leipzig, and Ber­lin by Austrian Prince Charles Antoine de Rohan, established a close cooperation and exchange of articles with the «Nouvelle Revue Française» (Paris), «Nuova Antologia» (Rome), Ortega's «Revista del Occidente» (Madrid) and, last but not least, Eliot's «New Criterion».

 

2.«Lisbon-Courier» published this photo and text in 1948 to mark the award of the Nobel Prize for Literature to T.S. Eliot.

 

3. T.S. Eliot and the other members of the jury of Camoes Prize-1938 here





 

 


Ruy Cinatti aqui



13.10.11

 

Every night when I was a boy, I sat and read in our living room, listening to my father writing letters. He wrote on his lap in longhand, with the letter paper backed by one of his long yellow legal pads, and the scratch and swirl of his black Waterman pen across the page sounded like the scrabblings of a creature in the underbrush. There were no pauses or crossings out, and in time I realized that I could even identify the swoosh of a below-the-line “g” leaping diagonally upward into an “h” and the crossing double zag of an ensuing “t,” and, soon after, the blip of a period. When he reached the bottom of the page, the sheet was turned over and smoothed down in a single, back-of-the-hand gesture, and the rush of writing and pages went on, while I waited for the declarative final “E” or “Ernest”— the loudest sound of all — that told me the letter was done. When the envelope had been addressed, licked, and sealed with a postmasterish thump of his fist, he would pluck a Lucky Strike out of its green pack and whack it violently four times against his thumbnail, like a man hammering a spike, then damply tongue the other end before lighting up. By the time the first deep drag appeared as a pale upward jet of smoke, another letter was in progress. I went back to my book. Sooner or later, the letters would be over, and he would be ready to read aloud to me. “Finished,” he would announce, picking up “Oliver Twist.” “Now, where were we?”

 

 

Roger Angell

in The King of the Forest

 

The New Yorker, Fevereiro de 2000 (The King of the Forest na íntegra aqui )

e em Let Me Finish © 2006 by Roger Angell

 

 

 



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21.9.11

 

 

Nul n'ignore, depuis Platon, Aristote et saint Augustin, combien la tâche est rude de faire le mal pour le mal. Une troupe de brigands s'invente des règles. Les lois de la mafia passent pour rigoureuses. L'homme qui se goinfre et se vautre poursuit ce qu'il estime le meilleur. De même celui qui torture et qui tue. L'amour du bien est le ressort de toutes les actions, y compris les plus viles.


Pourtant, l'hommage que rend sans cesse le vice à la vertu n'a rien qui rassure. Toutes les abominations de notre siècle ont été perpétrées pour la bonne cause, universalité de la classe, pureté de la race, service du bon Dieu... Les bonnes causes, remarque Soljénitsyne, fonctionnent en multiplicateurs du crime. Elles transforment l'activité artisanale d'un Landru en l'entreprise millionnaire et funèbre d'un Pol Pot. Athalie massacre par souci du Bien de l'État. Joad par respect de Dieu. Idéaux et idéologies aveuglent comme un «bandeau fatal». D'édifiantes prosopopées animent le crime de l'intérieur, ou de l'extérieur le dissimulent.


«Nous courons sans souci dans le précipice, après que nous avons mis quelque chose devant pour nous empêcher de le voir », écrit Pascal. Les classiques n'auraient jamais eu l'impudence d'annoncer la « fin des idéologies ». Une de perdue, dix de retrouvées.


Si la notion de classe ne rassemble plus, le phantasme de l’ethnie fait florès, la communauté des fidèles un tabac. Quand la science ne soutient plus les fariboles de lutte finale, la religion prend le relais. Les idéologies — le Grand Siècle les nommait imagination ou opinion — valent moins pour ce qu'elles racontent que par ce qu'elles interdisent d'appréhender. Leur force persuasive est soumise à variation, molle ou dure, universelle ou locale, mais tant qu'elles accomplissent leur travail de bouche-vue elles répondent à la demande.


De nos jours, les postmodernes concluent abusivement de l’effondrement du système soviétique à la mort absolue du marxisme. Ils se plantent définitivement quand ils extrapolent la fin des « grands récits ». Les miliciens serbes chantaient la bataille du champ des Merles (1389) en liquidant les civils croates de Vukovar (1991) et les Bosniaques de Srebrenica (1995). Les tueurs du Front islamique du salut égorgent les collégiennes et les chanteurs de raï tout en se disputant le titre de calife, d'émir et les traditions qui collent à ces vocables. Il ne faut jamais sous-estimer l'inépuisable plaisir des contes à massacrer debout et à jouir en rampant.


En matière d'idéologie, la fonction-récit reste subordonnée à la fonction-bandeau. Les nostalgies fallacieuses, l’avenir radieux, les lendemains qui chantent ou les cieux bienheureux sont livrés en prime. L'important est de ne pas prêter attention à la boue qui cerne et au sang que l'on verse.

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d’Allemagne et de France

[Lettre V , Pile dans le Noir! : Racine offusque les jolis coeurs — Paris oublie bergers et bergères entre 1660 et 1685 - Le Monde est un théatre— Les fils d'Oedipe font l'actualité—Il faut redevir classique]

© Éditions Robert Laffont, S.A., Paris, 1997.

 


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6.5.11

 

É um dos escritores que cito no meu livro, a propósito da criação do Círculo Eça de Queiroz. As suas memórias são incontornáveis para quem se interesse pela história dos nossos costumes no século XX. Esta sua bela carta a Marcello Caetano, que faz parte do IV volume de Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo, editado postumamente, tem obviamente um significado especial para mim. 

 

 

 

Salvador, Bahia, 15 de Outubro 1976

 

 

Meu querido Marcello

 

Tem sido minha sina escrever-lhe, principalmente nos últimos anos, os da sua Presidência, em parte talvez por propensão minha a expor as ideias mais facilmente por escrito do que de viva voz, em parte também pela dificuldade do diálogo. O que até há dois anos nunca supus foi que teria de lhe escrever para o exílio, como de Lisboa algumas vezes já fiz e como hoje volto a fazer desta doce terra da Bahia, que nos recorda dolorosamente a nossa grandeza passada e perdida. Não por qualquer sentimento nostálgico de já não sermos hoje, como há dois séculos, senhores da Bahia. Mas pela tristeza de meditarmos na civilização tão idêntica que estávamos a erguer nas terras de África e que criminosamente destruímos.

 

Tem hoje esta carta dois propósitos. O primeiro dizer-lhe quanto me comoveu voltar a vê-lo depois deste intervalo longo e tão fundo. Longo de trinta meses. Tão fundo que nele tombou sem remédio tudo que nas nossas vidas ficou para trás.

 

O segundo propósito é o de o esclarecer sobre a posição que Você se atribuiu e que ditou a sua atitude de não comparência à minha posse na Academia Brasileira de Letras e à minha conferência no Gabinete Português de Leitura. Manteve-se Você ausente duma e doutra cerimónia por considerar que, aceitando eu as atenções ou homenagens do Embaixador e dos cônsules de Portugal, pactuava com o regime que domina Portugal e era (tenho ideia que foram até aí as suas palavras) de qualquer maneira representante dele. As minhas palavras de repúdio de tal interpretação devem ser completadas, para que o equivoco não se mantenha a ensombrar uma amizade que qualquer diferença de critérios não deve prejudicar.

 

Vim ao Brasil a título inteiramente particular, sem qualquer auxílio ou intervenção do Estado Português, como escritor independente que sempre fui e continuo a ser. Essa independência não me trouxe quaisquer prémios no regime anterior e manteve-me inteiramente isolado enquanto passava a procissão dos aderentes no triste Carnaval, no trágico cortejo fúnebre da vida portuguesa dos dois últimos anos.

 

Mas se no Brasil o Embaixador e os cônsules de Portugal quiserem homenagear em mim o escritor independente que sou, entendi que seria grosseiro da minha parte repelir esses gestos de estima, vindos alguns da parte de amigos meus do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Fui vinte e cinco anos funcionário desse Ministério e nunca me considerei representante do regime — o qual, aliás, servi com independência que não excluiu a maior lealdade — mas representante do meu país, como na actual conjuntura considerei aqueles funcionários não representantes exclusivos dum determinado regime, o actual, cujas culpas não lhes cabem, mas representantes de Portugal.

 

Olhando para trás, para estes dois anos e meio decorridos, para o que sofri - e nesse rol contam-se alguns insultos —, para o que perdi, a fortuna honradamente amealhada ao longo de meio século de trabalho, a posição na TZR, que com tanta dedicação servi ao longo de trinta anos — e disso tudo nada me ficou, nem uma pensão de reforma —, olhando para trás sinto que tenho alguma autoridade para calar no Estrangeiro as minhas queixas, para não rasgar mais as feridas que despedaçaram a nossa pátria e dentro de nós tudo que nela amávamos, e manter com isenção e serenidade, neste Brasil que nos observa, uma certa esperança, débil que seja, em que Portugal, ferido quasi de morte, ainda encontrará condições de sobrevivência. E servindo como escritor o espírito português, eu sirvo Portugal.

           

De resto, considerando, sem qualquer equívoco, traidores à Pátria os militares que tinham por missão defendê-la e de 25 de Abril de 74 a final do ano passado procederam com desígnio implacável à sua destruição, não posso envolver nesse apodo os civis que no exercício hoje duma actividade política legítima procuram, melhor uns do que outros, servir o país no plano da governação. Portugal tem de ter quem o sirva, mesmo a braços com esta situação angustiosa que Você próprio não soube ou não pôde evitar-lhe.

 

Traidor, não posso considerar de forma alguma o seu cunhado, o Prof. Henrique de Barros, membro destacado do actual governo. E quando, antes de partir para os Estados Unidos, o meu filho João Filipe exerceu durante uns meses, já este ano, as funções de adjunto do secretário de Estado da Emigração, Sérvulo Correia, ele serviu o nosso país e não o bando de traidores que o apunhalaram.

Portugal precisa de todos os seus bons filhos. Infelizmente ainda se movimentam muitas ovelhas ranhosas no rebanho. Mas isso levar-nos-ia muito longe e transcende o objectivo desta carta, esclarecimento devido à sua amizade, que tanto prezo.

 

Lembre-nos a sua Irmã, com muita estima, e com as lembranças da Graça e minhas, abraça-o o velho, grato e dedicado amigo

 

 

Joaquim

 

 

 

Joaquim Paço d'Arcos

in  Correspondência e textos dispersos 1942-1979  aqui  

 

Selecção, organização e notas de João Filipe Paço d’Arcos e Maria do Carmo Paço d’Arcos

© Publicações Dom Quixote, 2008

© 2008, Joaquim Paço d’Arcos

 

 

Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo aqui

 

 

 

 


  

 

Jornal "Voz de Portugal"

 

 

 

JOAQUIM BELFORD CORRÊA DA SILVA (PAÇO D'ARCOS) nasceu em Lisboa, a 14 de Junho de 1908. Na sua infância e juventude acompanhou seu pai, oficial da Marinha, em diversos governos no Ultramar: em 1912, em Angola; em 1919, com 11 anos, atravessando os EUA para Macau, onde reside cerca de três anos, passando temporadas em Hong-Kong e visitando o Sul da China; anos mais tarde, secretário do Governo da Companhia de Moçambique, na Beira (1925-1927). Com 20 anos foi para São Paulo, no Brasil, como antiquário, exercendo também o jornalismo. Em França, em 1931, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Em Lisboa, foi empregado bancário, trabalhou na Companhia Nacional de Navegação e, em 1936, vai dirigir os serviços de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mantém-se nesse posto até 1960 e, ao longo desse quarto de século, entrecortado por inúmeras viagens aos mais variados pontos do globo, e por dramáticos acontecimentos mundiais, foi erguendo a sua abundante e vigorosa obra literária, com 50 títulos publicados, como romancista - donde se destacam os seis volumes de Crónica da Vida Lisboeta -, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, poeta. Os seus livros de memórias ficaram interrompidos no final do terceiro volume por ter falecido a 10 de Junho de 1979, em Lisboa. Este livro corresponde, afinal, a um IV volume de Memórias da Minha Vida e do meu Tempo, editado postumamente. 

 

 

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16.8.10


 

 

 

 

 

postal ilustrado de grande formato (22,85 cm x 15,16 cm)

1956

 

 

 

 

7 de Outubro 56

 

Minha querida Stella,


Desde que vi o Cinerama já não sou capaz de escrever postais mais pequenos!! (Digo-te que o Cinerama me pasmou completamente!) – A nossa viagem de barco correu muito bem, excepto o meu quase permanente enjôo – um nojo!! O serviço é óptimo e pessoal simpatiquíssimo. Tive muito bons companheiros de bordo – italianos e americanos. – A chegada a Nova-York é um colosso! N. York é esmagativo: irreal à força de formidável – com certeza apaixonante. Em 24 horas livres vi tudo o que pude, que foi bastante ainda assim. Adorei o palácio das Nações Unidas onde almocei com os Albano Nogueira, que foram encantadores. Vi o Metropolitan Museum etc., e tanta coisa vi que parece que estive lá 8 dias naquela Babilónia moderna! – A viagem de avião para aqui muito boa. Calculas como Vasco e eu estamos felizes de nos reencontrar. As pequenas óptimas e o Cinerama deslumbrou-as – mas de facto é de pasmo! San Francisco é lindo, simpático e cheio de requinte – as lojas são de endoidecer – nunca vi mais bonitas! Logo que possa escrevo carta. Estamos bastante bem instalados num “flat” mobilado e que não foi caro.

 

Milhões de beijos para os pequenos e para ti e Eduardo. Abraços do Vasco. Espero muito depressa notícias tuas.

Beijo do coração

 

Margarida

 

p.s. Vi a “Radio City” com as Rocket Girls – estupendo!

pps. Como vai a nossa Paulinha? Diz aos pequenos que cá os espero na terra dos cowboys!

 

 

 

 

 

 

Stella com os filhos Luís e Miguel

c. 1956

 

 


O postal faz parte de um conjunto de recordações que a minha tia Stella, no fim da sua vida, confiou à minha irmã Cristina. É o postal que publiquei há dias no post "The past is a foreign country", aqui.

 

 

Tentei descobrir aqui o que teremos visto em "Cinerama":


 

The first Cinerama film, This Is Cinerama, premiered on 30 September 1952, at The Broadway Theatre in New York. The New York Times judged it to be front-page news. Writing in the New York Times a few days after the system premiered, film critic Bosley Crowther wrote:


Somewhat the same sensations that the audience in Koster and Bial's Music Hall must have felt on that night, years ago, when motion pictures were first publicly flashed on a large screen were probably felt by the people who witnessed the first public showing of Cinerama the other night... the shrill screams of the ladies and the pop-eyed amazement of the men when the huge screen was opened to its full size and a thrillingly realistic ride on a roller-coaster was pictured upon it, attested to the shock of the surprise. People sat back in spellbound wonder as the scenic program flowed across the screen. It was really as though most of them were seeing motion pictures for the first time.... the effect of Cinerama in this its initial display is frankly and exclusively "sensational," in the literal sense of that word.


Although most of the films produced using the original three-strip Cinerama process were full feature length or longer, they were mostly travelogues or episodic documentaries such as This Is Cinerama (1952), the first film shot in Cinerama. Other travelogues presented in Cinerama were Cinerama Holiday (1955), Seven Wonders of the World (1955), Search for Paradise (1957) and South Seas Adventure (1958).

 



12.8.10

 

 

 

 

 

Bernardo Luís

San Francisco, 28 de Fevereiro de 1959

 

 

 

 

 

 

 

 

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5.7.10

 

 

Au Congo Belge

foto E. Lebied / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Bruxelas

 

 

Há dois anos que venho estudando – com um crescente interesse – os problemas africanos, e em especial os do Congo Belga e de Angola, porque não perdoaria a mim próprio tratá-los perante o Ministério com a leviandade com que outros, anteriormente, o têm feito. Estão-se passando em África coisas muito graves que, num futuro mais ou menos distante, poderão vir a afectar seriamente a nossa posição se não nos prevenirmos desde já contra os seus eventuais efeitos, revendo em diversos sectores a nossa política colonial, não como quase sempre se tem feito mas pela criação de um novo estado de coisas. (Tudo isto naturalmente, dito assim, cheira um pouco a profecias tipo Dr. Rakar. Espero porém que os relatórios que estou terminando deixem impressão diferente).

 

 

Vasco Futscher Pereira

Excerto de carta ao colega e amigo Amândio Pinto, 1954

in Retrovisor, um Álbum de Família

© RCP edições, 2009

 

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22.6.10

 

 

 

 

 

 

JOÃO FÉLIX

AV. KINDU Nº 19

LEOPOLDVILLE/EST

 

Léopoldville, 14 de Janeiro de 1958


Excelentíssima Minha Senhora

Dona Margarida Futscher Pereira

 

SAN FRANCISCO DA CALIFORNIA

 

 

 

 

Excelentíssima Senhora,

 

O cartão de Boas-Festas de V.Exa. e Seu Augusto Marido Excelentíssimo Senhor Doutor VASCO FUTSCHER PEREIRA surpreendeu-me e fiquei confirmando mais uma vez o que muitos membros da colónia portuguesa afirmavam, admirados pela maneira de ser de Vossas Excelências – simples e muito pacientes – pois foram exemplares durante o exercício das funções de Vossas Excelências neste posto consular de Léopoldville.

 

O vosso gesto para comigo tem sido objecto de muita admiração junto dos meus. Não sonhava, na minha qualidade de criado, receber um cartão de votos de um patrão e sobretudo de personagens como Vossas Excelências e longe deste continente!!!...

 

Toda minha família agradece e retribui os amáveis votos a Vossas Excelências.

 

Quanto a minha situação, a questão de terreno continua pendente. Estou bastante certo que, se o Senhor Doutor assim o desejar, terá um dia que vir a Léopoldville gerir mais uma vez este posto e serei o que fui de Vossas Excelências!...

 

Peço de joelho a Vossa Excelência Senhora Dona Margarida um grande favor se digne beijar as meninas que espero ver um dia crescidas e simples como os pais.

 

 

 

De Vosso muito humilde servo,

 

 

João Félix

 

 

 

 

 

Léopoldville, 1955

 

 



14.5.10

 

 

 

Carta de Teixeira de Pascoaes a Vasco Futscher Pereira

 

 

 

23 de Novembro de 1946

Amarante


Muito querido amigo e jovem confrade

Felicito-o e felicito-me pela entrevista, que está uma perfeição! Mas também desejo agradecer-lhe as suas amabilíssimas palavras, que eu, decerto, não mereço. Recebi uma carta da Estrelinha, que me deixou deslumbrado! Não lhe respondi, nem respondo. Responder a uma estrela um poeta da minha idade! É um impossível quasi metafísico!

Envio todos os meus respeitos a sua queridíssima esposa; e um imenso abraço ao seu muito querido sogro, que eu conto entre o pequenino número dos meus autênticos amigos.

Seu velho confrade muito grato e dedicado



Teixeira de Pascoaes

 


 

 

 

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

 

 


 

O poeta e escritor Teixeira de Pascoaes, pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, e o meu avô, Guilherme Pereira de Carvalho (1891-1966), eram amigos de longa data e as suas famílias conviveram muito. Teixeira de Pascoaes viveu toda a vida em Gatão, nos arredores de Amarante, não longe da Casa de Freitas, em pano de fundo deste blog. Veja outra fotografia do poeta, vinte anos antes, aquiQuanto a "Estrelinha",  veja uma foto dela aqui.



6.5.10

 

 

 

 

carta de Vitorino Nemésio a Margarida

 

 

 

 

Casaréus do Tòvim,

(Coimbra), 2 Set° 1942.

 

 

A sua carta deu-me muita alegria.  Acabo de lê-la.  Estou na aldeia há dois dias, rodeado de latadas morangueiras, com o vale do Mondego diante de mim, oliveiras derroda e às vezes a paz correspondente... (O meu Jorge partiu pela terceira vez um braço).  Mas basta de paisagem.  O que quero é fazer-lhe chegar rapidamente a minha gratidão por aquilo que me diz.  Vou guardar aquela polegada de cartão como uma das coisas mais honrosas da minha vida.

 

às vezes, lembrando-me do que tenho cá dentro para dizer, e que poderia sair em poema, romance ou "vida", e vendo a minha baça esterilidade de escritor, apetece-me soltar o "rai’s parto" dos carreiros que por aqui passam com os bois. Não é só o ofício de professor que me tira o tempo : são as mil e uma formas de dispersão para reforçar o orçamento.  Mas depois acontecem-me coisas como esta carta da Margarida, e penso de mim para mim que talvez valha a pena trocar uma hipótese de obra literária pela consolação de sentir que alguma coisa passou do meu entusiasmo a alguém.  "Talvez" !  Que mesquinho !  Mas "com certeza" !...

 

E até me vejo um velhinho de setenta anos, no esquife do limite de idade, coberto de flores e de cãs (essas minhas difíceis cãs de quarentão sem uma branca), e com uma borla, que ainda não comprei, toda orvalhada de lágrimas...  Haverá música para o "Antigamente a escola era risonha e franca" ?

 

Perdoe, Margarida ; não há direito de brincar assim numa carta como esta.

 

Repito que as suas palavras me comovem.  Estimo-as por virem de quem vême pela delicadeza com que escolheu as condições de isenção para mas mandar.

 

Desejo-lhe boas férias, — verdadeiras, alegres, sem sabedorias.

 

Minha Mulher retribui os seus cumprimentos.  Lembranças a seu Pai. E creia

 

na maior estima

 

Do seu muito amigo

 

 

Vitorino Nemésio

 

 

 

 


Em 1942, Margarida* acabara de se licenciar, com distinção, em Filologia Germânica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde Vitorino Nemésio fôra seu professor. Nesta altura, Vitorino Nemésio ainda não tinha publicado o romance Mau Tempo no Canal (1944).

 

Vitorino Nemésio é um dos nossos maiores poetas e escritores do século XX. No fim da sua vida, conquistou o público português com a crónica semanal  "Se Bem Me Lembro", programa transmitido pela RTP de 1969 a 1975 em horário nobre.

 

 

 

 

Vitorino Nemésio e alunos na Faculdade de Letras,

c. 1942**

 

 

 

*Uma fotografia de Margarida aqui

 

**Detalhe de fotografia reproduzida no livro Retrovisor, Um Álbum de Família.

À direita de Vitorino Nemésio está Maria da Graça Paço d'Arcos. À frente,no canto inferior direito, Maria Violante Vieira.

 

Mais sobre V.N. aqui

 



 

 


29.4.10

 

Em finais de Abril de 2009 saiu o livro “Retrovisor, um álbum de família” e nesse momento mudei de assunto neste blog, admitindo regressar mais tarde ao arquivo familiar para partilhar mais algumas curiosidades. Aos leitores interessados que não acompanham o blog desde o princípio sugiro a leitura dos posts “Um álbum de família” aqui e “Kill all your darlings” aqui.

 

 

Regresso pois ao livro “Retrovisor” neste aniversário, com a apresentação da resenha de José Cutileiro, que me honra e faz sentir feliz com a(s) história(s) que conta.

 

 

 

 

 

 

 

 

Serra do Marão, 1946

 

 

 

 

 

 

A thing of love is a joy forever

 

 

 

 

RETROVISOR

UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

de Vera Futscher Pereira

Editora: Rui Costa Pinto Edições

Lisboa, 2009

 

 

 

 

 

 

O QUE SENTI quando acabei de ler e ver "Retrovisor" chegou-me numa paráfrase do primeiro verso do Endymion de Keats (1), de que me sirvo agora para dar nome a esta resenha do livro. Da capa à contracapa é amor de filha, de irmã, de neta, de tia, de sobrinha, de viajante em vários mundos, que dá coração à aventura em que a autora se meteu, ajudada por legados de Pai e Mãe, escravos desde pequenos do tão certo secretário com quem a pena desafogavam e meticulosos na guarda de escritos assim feitos e de mais papelada.

 

Sobre esse espólio muito variado — de poesia lírica intimista a telegramas diplomáticos, passando por 'O livro do bebé' —, um acervo de fotografias e mais documentos coevos, o livro acompanha por algumas gerações uma família burguesa de Lisboa -, ou melhor, porque o nosso sistema de parentesco é cognático, várias famílias vindas do século XIX que em duas gerações afunilam até ao casal Margarida-Vasco e alargam depois noutras duas chegando às novas famílias dos seus filhos e netos. Margarida e Vasco são por assim dizer o epicentro, os heróis principais do livro, mas este demora-se também em mais gente que com eles teve a ver, da família chegada a amigos de passagem, em Portugal, no Brasil e noutras partidas do mundo. A autora entremeia na narrativa informações sintéticas datadas que nos recordam o que se ia entretanto passando, em paz ou em guerra, na história de Portugal e do mundo.

 

O livro está muito bem escrito, é graficamente bem-sucedido, folheia-se com gosto e como acontece com fotobiografias, a cujo género pertence, presta-se a ser lido de várias maneiras, desde ir olhando para os bonecos como se de um 'coffee table book' se tratasse — assim comecei eu — a escrutínio atento de fio a pavio, que me entreteve um serão em seus enredos romanescos. Embora me pareça que, para quem goste de História e de histórias bem contadas, o livro possa interessar mesmo quem não tenha conhecido qualquer dos seus personagens, enriquece com certeza a leitura ter privado com alguns deles, sobretudo com os principais. Por mim, não conheci Margarida, pessoa quasi inteiramente privada, de quem Ruy Cinatti me falou às vezes com grande ternura e cujos versos só agora li mas conheci um pouco Vasco, de quem fui colega, que em 1982 e 1983 foi meu ministro e que é de longe a figura pública mais importante entre as capas do volume (outra é o pai de Margarida, colaborador chegado de António Ferro quando este dirigia o Secretariado de Propaganda Nacional).

 

Encontramo-nos pela primeira vez num almoço al fresco na Gôndola, organizado para o efeito pelo Vasco Valente e o Fernando Andresen, estava eu em posto em Estrasburgo e Futscher em Nova Iorque. Chegou atrasado, como era seu costume, e contou-nos que na véspera à noite não conseguira falar ao telefone com a Malu, que ficara em Manhattan, devido a impossibilidade da Marconi estabelecer a ligação. Nas conversas que pela noite fora, em sucessivas tentativas, tivera com a operadora — de quem fora fazendo amiga e aliada - julgara identificar problemas de pessoal e de organização que levavam à insuficiência de serviço de que fora vítima. A seguir ao último ensaio vão de atingir Nova Iorque, metera pena ao tinteiro (era assim que gostava de escrever) e passara o resto da madrugada e a manhã a compor uma carta sugerindo soluções ao director da Marconi, que acabara de ir entregar na sede da companhia, já não me lembro em que rua da Baixa pombalina. Era um português transitivo.

 

A esse primeiro encontro seguiram-se outros, ao acaso de circunstâncias. Vindo do Conselho de Segurança, ficou em minha casa em Estrasburgo numa visita ao Conselho da Europa. E, ministro dos estrangeiros quando Francisco Balsemão era Primeiro-Ministro veio com ele numa viagem oficial a Maputo ao fim da qual negociou com Chissano, seu homólogo moçambicano, o comunicado de imprensa. Eu participara antes na negociação de outro comunicado de visita oficial a Moçambique, dessa vez do Presidente da República, sempre com Chissano do lado de lá, mas com outro ministro dos estrangeiros do nosso lado. Ambas as sessões foram correctas e eficazes mas na segunda, mal se sentara à mesa e haviam sido trocadas as cortesias de circunstância, Chissano tinha já, por assim dizer, absorvido dois valiums que o charme de Vasco infiltrara nele e passamos todos a seguir uma hora feliz.

 

Esse charme legendário, ao serviço de considerável intelecto e de uma curiosidade voraz, ajudou muitas vezes Vasco Futscher a levar a água ao seu moinho mas havia quem lhe fosse insensível. Nessas ocasiões o meu amigo ficava, como o desertor do poema de Desnos, a parlamentar com sentinelas que não compreendiam o que ele lhes queria dizer. Mas, do começo ao fim da vida, tal aconteceu-lhe muito raramente. Quando ele morreu dei por mim, que sou ateu tal como ele era, a imaginar a conversa com S. Pedro em que o Santo, seduzido, lhe abria as portas do céu.

 

Comunicações diplomáticas suas em momentos complexos da história portuguesa, páginas do seu diário, testemunhos de colegas e amigos nutrem a narrativa, recordando o diplomata excepcional que ele foi (e pondo muito justamente em relevo ter sido ele quem, em ocasião crítica, mantivera viva a causa de Timor-Leste nas Nações Unidas, tornando assim possível a independência negociada do país anos depois). Toda a gente que com ele - ou contra ele - trabalhou sentiu o cunho da sua personalidade invulgar na aplicação das regras intemporais da arte diplomática. O poder de uma pequena potência pode ser aumentado pelo talento eficaz de quem a represente e o exemplo de Vasco Futscher afinou a minha capacidade de avaliar o desempenho dos diplomatas. Desde então tenho para mim que um embaixador mau não representa o seu país, que um embaixador razoável representa o seu país – e que um embaixador bom disfarça o seu país.

 

O encanto e interesse de "Retrovisor" não se esgotam no que nos diz ou sugere sobre os dois personagens principais. Amor filial não impede a autora de contar feitos e mostrar caras de muitas outras pessoas, situando nos seus lugares e no seu tempo os múltiplos actores e actrizes desta saga, desde os que já morreram há muito tempo aos que agora começam as suas vidas. E aprendem-se coisas. Eu, por exemplo, não sabia que o Bernardo, meu antigo chefe de gabinete na União da Europa Ocidental, tinha sido campeão nacional de florete dos menos de 20 anos - e descobri que o primeiro Futscher chegado a Portugal, no século XIX, fora um austero suíço alemão protestante - e não, como eu imaginara do convívio com Vasco, um judeu céptico e bon vivant do Império Austro-Húngaro.

 

 

 

José Cutileiro*

in Negócios Estrangeiros . Nº 15 - Dezembro de 2009.  pp. 179-181

 

 

1. A thing of beauty is a joy forever.

 

* Embaixador

 

 

 

Na fotografia, da direita para a esquerda:

Vasco Futscher Pereira, Mª Helena Brion Pinto, Mª Madalena Brion de Vasconcelos, Margarida Futscher Pereira, Amândio Pinto, António Teixeira de Vasconcelos, Maria do Carmo Brion Sanches.

 

 

 


5.2.10

 


 

Dans Amour et Vieillesse, le « caprice » que l'anonyme jeune fille serait prête à consentir au vieux poète, quitte à se raviser aussitôt et à se laver de cette souillure avec un jeune amant de son âge, est refusé d'avance, au prix d'un déchirement d'entrailles, prévenant par ce sacrifice l'abjection et l'humiliation mortelles qui ne manqueraient pas de suivre un éventuel accouplement froid et contre-nature:

 

Je me dirais: à présent, à cette heure où elle meurt de volupté dans les bras d'un autre, elle lui redit ces mots tendres qu'elle m'a dits, avec bien plus de vérité et avec cette ardeur de la passion qu'elle n'a pu jamais sentir avec moi ! Alors tous les tourments de l’enfer entreraient dans mon âme, et je ne pourrais les apaiser que par des crimes.

 

Les biographes détectives n'ont pas manqué de faire sortir de l'ombre plusieurs autres jeunes femmes qui, après Cordélia, et à des dates différentes, ont de nouveau plongé Chateaubriand vieillissant dans les états violents de désir et de frustration, le faisant «délirer», comme avait déliré le Jeune René «accablé par une surabondance de vie », le «cœur parcouru des ruisseaux d'une lave ardente » et, Phèdre ou Sapho chrétiens au masculin, ne pouvant fixer cette impatiente soif de fusion amoureuse que sur un objet d'avance inaccessible et interdit. […] Entre autres idylles tardives avortées, on a retrouvé la correspondance que Chateaubriand échangea avec la jeune Léontine de Villeneuve, évoquée, sans être nommée autrement que «l'Occitanienne» -, au livre XXXI des Mémoires d'outre-tombe. […] Contemporaine de l'aventure fugitive avec l'Occitanienne, la liaison de Chateaubriand avec une jeune et libre amie de George Sand, Hortense Allart, fut bel et bien consommée, mais sans lendemain. Commencée à Rome en 1828, elle s'acheva à Paris l'année suivante par une séparation provisoire souhaitée par Chateaubriand : il eut du mal à admettre qu'elle était définitive. Les stigmates laissés par les dernières étreintes charnelles dont le vieil Anacréon chrétien ait joui en 1829, dans les bras d'Hortense, restèrent béants et saignants bien après que les deux ex-amants eurent passé un contrat de bonne amitié. En novembre 1834, songeant encore, soit à Hortense Allart passée à des amants plus jeunes et vigoureux, soit à quelque autre jeune «fleur» croisée, mais non cueillie, entretemps, il écrivait à Mme Récamier, devenue peu à peu, après leur brève flambée de passion réciproque des années 1817- 1819, l'amie, la confidente, l'ange du crépuscule :

 

J'étais si en train et si triste que j'aurais pu faire une seconde partie à René, un vieux René. Il m'a fallu me battre avec la Muse pour écarter cette mauvaise pensée ; encore ne m'en suis-je tiré qu'avec cinq ou six pages de folie, comme on se fait saigner quand le sang porte au cœur ou à la tête.

 

Prodigieuse fécondité littéraire de l'ironie noire de l’ éros chrétien selon René

 

Nouvel apport à Amour et Vieillesse. Deux ans plus tôt, à la date du 16 août 1832, après avoir attendu en vain Hortense Allart, à qui il avait donné rendez-vous en Suisse, vagabondant en solitaire dans les Alpes, il avait écrit dans un Journal reproduit au livre XXV des Mémoires :

 

Depuis longtemps, je ne m'étais trouvé seul et libre ; rien dans la chambre où je suis enfermé ; deux couches pour un voyageur qui veille et qui n'a ni amours à bercer, ni songes à faire. Ces montagnes, cet orage, cette nuit, sont des trésors perdus pour moi. Que de vie pourtant je sens au fond de mon âme ! Jamais, quand le sang le plus ardent coulait de mon cœur dans mes veines, je n'ai parlé le langage des passions avec autant d'énergie que je pourrais le faire en ce moment! Il me semble que je vois sortir du Saint-Gothard ma sylphide des bois de Combourg. Me viens-tu retrouver, charmant fantôme de ma jeunesse? As-tu pitié de moi? Tu le vois, je ne suis changé que de visage; toujours chimérique, dévoré d'un feu sans cause et sans aliment. Je sors du monde, et j'y entrais quand je te créai dans un moment d'extase et de délire. Voici l'heure où je t'invoquai dans ma tour. Je puis encore ouvrir ma fenêtre pour te laisser entrer. Si tu n'es pas contente des grâces que je t'avais prodiguées, je te ferai cent fois plus séduisante: ma palette n'est pas épuisée; j'ai vu plus de beautés et je sais mieux peindre. Viens t'asseoir sur mes genoux; n'aie pas peur de mes cheveux, caresse-les de tes doigts de fée ou d'ombre ; qu'ils rebrunissent sous tes baisers. Cette tête, ces cheveux qui tombent n'assagissent point, est tout aussi folle qu'elle était lorsque je te donnai l'être, fille aînée de mes illusions, doux fruit de mes mystérieuses amours avec ma première solitude! Viens, nous monterons encore ensemble sur nos nuages; nous irons avec la foudre sillonner, illuminer, embraser les précipices où je passerai demain ; viens, emporte-moi comme autrefois, mais ne me rapporte plus!

On frappe ma porte ; ce n'est pas toi! c'est le guide ! Les chevaux sont arrivés, il faut partir. De ce songe, il ne reste que la pluie, le vent et moi, songe sans fin, éternel orage.

 

Superbe poème en prose, asymptotique lui aussi d' Amour et Vieillesse. Mais ici, le salut par la poésie rachète, même brièvement, les souffrances du damné se sachant voué sans recours à refuser ou à se voir refuser « les joies de la vie ». Sur les ruines des voluptés sensibles se lève la délectation triomphante de se découvrir capable de prêter encore une fois sa voix à l'ensorcelante et voluptueuse partenaire imaginaire que son adolescence s'était inventée. «Mon mal vient de plus loin », aurait-il pu dire, comme la Phèdre de Racine, et les Mémoires d'outre-tombe nous font assister à la genèse du drame récurrent de sa vie amoureuse, et de la fécondité littéraire de son incurable souffrance. L'enfant de Combourg, surdoué par Éros et frustré d'amante réelle, avait appris à tromper sa solitude avec une geisha de rêve, la Sylphide. Compensant ces embrassements décevants, la Muse avait alors révélé au jeune Pygmalion un autre talent, non moins décevant au fond, pour lequel il était fait, le bonheur d'expression élégiaque, le chant de désir et de deuil, d'absence présente et de présence absente pour un objet insaisissable, ou aussitôt refusé que saisi.

 

 

Marc Fumaroli

in La saison en enfer de Chateaubriand 

(postface de Amour et Vieillesse de François René de Chateaubriand) pp. 35-43

© 2007, Éditions Payot & Rivages

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 


12.7.09

 

 

 

 

 

 

C'est aussi à Rome que je conçus, pour la première fois, l'idée d'écrire les Mémoires de ma vie; j’en trouve quelques lignes jetées au hasard, dans lesquelles je déchiffre ce peu de mots: « Après avoir erré sur la terre, passé les plus belles années de ma jeunesse loin de mon pays, et souffert à peu près tout ce qu'un homme peut souffrir, la faim même, je revins à Paris en 1800. »


Dans une lettre à M. Joubert, j'esquissais ainsi mon plan :


« Mon seul bonheur est d'attraper quelques heures, pendant lesquelles je m'occupe d'un ouvrage qui peut seul apporter de l'adoucissement à mes peines : ce sont les Mémoires de ma vie. Rome y entrera : ce n'est que comme cela que je puis désormais parler de Rome. Soyez tranquille; ce ne seront point des confessions pénibles pour mes amis : si je suis quelque chose dans l'avenir, mes amis y auront un nom aussi beau que respectable. Je n'entretiendrai pas non plus la postérité du détail de mes faiblesses ; je ne dirai de moi que ce qui est convenable à ma dignité d'homme et, j'ose le dire, à l'élévation de mon coeur. Il ne faut présenter au monde que ce qui est beau ; ce n'est pas mentir à Dieu que de ne découvrir de sa vie que ce qui peut porter nos pareils à des sentiments nobles et généreux. Ce n'est pas, qu'au fond, j'aie rien à cacher ; je n'ai ni fait chasser une servante pour un ruban volé, ni abandonné mon ami mourant dans une rue, ni déshonoré la femme qui m'a recueilli, ni mis mes bâtards aux Enfants-Trouvés*, mais j'ai eu mes faiblesses, mes abattements de coeur; un gémissement sur moi suffira pour faire comprendre au monde ces misères communes, faites pour être laissées derrière le voile. Que gagnerait la société à la reproduction de ces plaies que l'on retrouve partout ? On ne manque pas d'exemples, quand on veut triompher de la pauvre nature humaine.»


Dans ce plan que je me traçais, j'oubliais ma famille, mon enfance, ma jeunesse, mes voyages et mon exil: ce sont pourtant les récits où je me suis plu davantage.


J'avais été comme un heureux esclave : accoutumé à mettre sa liberté au cep, il ne sait plus que faire de son loisir, quand ses entraves sont brisées. Lorsque je me voulais livrer au travail, une figure venait se placer devant moi, et je ne pouvais plus en détacher mes yeux : la religion seule me fixait par sa gravité et par les réflexions d'un ordre supérieur qu'elle me suggérait.


Cependant, en m'occupant de la pensée d'écrire mes Mémoires, je sentis le prix que les anciens attachaient à la valeur de leur nom ; il y a peut-être une réalité touchante dans cette perpétuité des souvenirs qu'on peut laisser en passant. Peut-être, parmi les grands hommes de l'antiquité, cette idée d'une vie immortelle chez la race humaine leur tenait-elle lieu de cette immortalité de l'âme, demeurée pour eux un problème. Si la renommée est peu de chose quand elle ne se rapporte qu'à nous, il faut convenir néanmoins que c'est un beau privilège attaché à l'amitié du génie, de donner une existence impérissable à tout ce qu'il a aimé.

 

Chateaubriand

in Mémoires d’outre-tombe

Livre Quinzième, Chapitre 7 (Paris 1838)

 

* Ces allusions visent, bien entendu, le Rousseau des Confessions.

© Classiques Garnier Multimédia, Collection “Classiques Garnier”, Paris 1998

Imagem: Jean-Honoré Fragonard, Les Cascatelles de Tivoli. Musée du Louvre.

Outra citação da mesma obra neste blog, aqui

 

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11.3.09

 

 

 

 

 

 

 

 

Rio de Janeiro

Rua Farani 61 apt.514

 

4.2.62

 

Meu caro Futscher

 

Com diplomatas tudo pode acontecer, até que se lembrem dos Amigos; de qualquer modo os Amigos se lembram deles - até Pedro, que está no segundo ano de História, se lembra dos soldados que recebeu de presente. E os Amigos gostariam de saber dos diplomatas, como estão na carreira e se a Vida os tem tratado bem. Afinal, quando nos encontrámos foi para andarmos à volta do Cícero; hoje andamos os dois às voltas com política externa, coisa talvez ligeiramente mais interessante do que o Cícero; até o Cícero seria da mesma opinião se não fosse o vaidoso que era.

Aguardo uma linha sua, ouviu?

 

Afectuoso abraço

Agostinho

 

 

 

 

Vasco fez parte do grupo de jovens a quem, no princípio dos anos 40, Agostinho da Silva deu aulas particulares de latim, após ter sido afastado do ensino oficial.

Conheci bem o Professor Agostinho e esta carta fez-me recordar com nitidez a sua voz, e a sua personalidade afável e irreverente.

 

 

 

Agostinho da Silva

1906-1994

 

Excerto de uma biografia recente:

 

 

Regressa [de Paris] a Portugal em 1933, sendo colocado no Liceu de Aveiro como professor. Entusiasta, cria uma "caixa de apoio" aos estudantes mais pobres e promove outras acções incómodas para o Estado Novo. Ao fim de dois anos é exonerado, por se recusar a assinar a Lei Cabral: um documento que todos os funcionários públicos eram obrigados a subscrever, jurando não pertencerem a nenhuma sociedade secreta (leia-se: ao Partido Comunista ou à Maçonaria). Para além dele, só Fernando Pessoa e Norton de Matos ousariam contestar o diploma legal aprovado pela Assembleia Nacional.(...)

Desempregado, Agostinho começa a dar aulas no ensino privado e explicações particulares. Mestre Lagoa Henriques, Jorge de Melo, Manuel Vinhas e os irmãos Lima de Faria, serão alguns dos seus alunos. (...) Simultaneamente empenha-se em diversas actividades de produção e divulgação culturais: dá palestras públicas de Norte a Sul do país, cria o Núcleo Pedagógico Antero de Quental apostando em novos métodos pedagógicos (...), organiza exposições, escreve um sem número de biografias, colabora em jornais, organiza sessões culturais na rádio para  jovens e inicia a publicação dos famosos Cadernos de Informação Cultural sobre áreas tão diversas como religião ou arquitectura. Esses Cadernos - sobretudo dois deles, "O Cristianismo" e "Doutrina Cristã", (...) levam a que a sua biblioteca seja confiscada e inventariada pela PIDE e que conheça como destino a Prisão do Aljube. Ironicamente, a própria polícia política reconhece: "intransigente adversário do Estado Novo, com pronunciadas  tendências extremistas, embora tido como bom professor e honesto" (PIDE, folio 398, p.20)

Acusado de "comunista" por defender o regresso ao cristianismo primitivo e por se insurreccionar contra a deturpação que a Igreja fez dos ensinamentos de Cristo, simultaneamente desiludido com o governo do país e ansioso por liberdade, parte em 1944 para a América do Sul. Passa pelo Rio de Janeiro e São Paulo, instala-se no Uruguai, vive na Argentina, até regressar definitivamente ao Brasil onde permanecerá durante 22 anos, e onde ganhará fama pela sua personalidade e erudição.

 

Paulo Marques

in Agostinho da Silva, Servo dos Servos (1906-1994)

Cadernos Biográficos de Personalidades Portuguesas do Século XX

© Parceria A.M.Pereira e Público

 

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6.3.09

 

Carta de Ruy Cinatti para Margarida, 1946

 

 

A minha vida aqui tem sido um verdadeiro paradoxo. Sinto-me simultaneamente muito feliz e muito infeliz. Tudo que diz respeito aquilo que amedronta aqueles que vêm para Timor me encanta: a terra, o clima, a vida. Mas o trabalho é desolador. Já não falo na quantidade. Dias há que anda aí pelas 14 horas. Mas a natureza do trabalho é a mais oposta à minha múltipla vocação. (...) Valem-me aqueles momentos de contemplação verdadeiramente inefável da paisagem das minhas ilhas, “da minha ilha”.

 


O poeta-antropólogo Ruy Cinatti foi um nómada como os seus amigos Margarida e Vasco, mas nunca se perderam de vista. Deu uma ajuda importante a Margarida na preparação do seu segundo livro de poesia, "Bens Adquiridos" (Guimarães Editores,1974). Dos cinco poemas dela que escolhi para figurarem em "Retrovisor, um Álbum de Família", dois são dedicados a Ruy Cinatti.

 

 

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5.3.09

 


Carreço, c. 1950

 


 

Ruy Cinatti foi um dos amigos mais queridos de minha mãe, e queria dedicar-lhe um post, a seguir aos Monteiro Grilo, e ilustrá-lo com esta fotografia. No entanto, ao procurar documentos sobre Cinatti numa pasta, encontrei a carta que a seguir transcrevo, e me faz regressar a Ruben A.. A fotografia pertence à fotobiografia "O Mundo de Ruben A." (Assírio e Alvim).

 

Coimbra a dos poetas 5-N-42

 

Caro Vasco,

É com um prazer enorme que te escrevo estas linhas pois além de me fazerem lembrar de ti, um bom e franco amigo me leva a recordar a tua simpática comparência ao nosso castiço jantar. Foste de facto um bom amigo – “a real friend”.

Feita esta introdução académica e pompadouresca mas sincera no seu realismo e surrealismo, vamos contar-te o que este menino vindo de Lisboa viu e ouviu. Excedeu em tudo não poderei dizer, mas em quási tudo a minha expectativa, esta Musa do Mondego. Tirando duas ou mais cenas cómicas duma graça infinita que me aconteceram à chegada e no dia seguinte, tudo se tem passado num ambiente clássico e de bom gosto. Uma das cenas de que fui protagonista é esplêndida e por isso te conto. Ei-la: como sabes não conhecia nada de Coimbra, cheguei de noite com a etiqueta ao pescoço, que dizia Rua de Sta Teresa 33. Cheguei a casa. Comi e dormi como todo o mortal, (lá alguns mortais, coitados negam a utilidade dum bom bife e dum carrascão) Deixá-los viver.

Aqui começa propriamente a cena. Segunda-feira de manhã, oito e meia depois de perguntar à criada mais ou menos o caminho para a Faculdade, ou melhor a Universidade, saio de casa e dirijo-me a passos largos pelo tal caminho. Chego a um sítio lindo ao pé dos Arcos e do Jardim Botânico e indeciso fiquei com respeito ao rumo a tomar. Olhei as plantas mas não me senti botânico, vi um eléctrico que dizia Calhabé e pensei que iria para a cidade dos rapazes pois o nome é próprio para ser adorado pelos “enfants terribles”. Nisto aparecem três tipos em capa e batina e outro com uma pasta, fiquei radiante, já não poderia fazer figura fraca perguntando o caminho para a Universidade. Foi a Universidade que fez a cidade! (Não lhes perguntei nada) Segui-os a passo rápido, andei, andei já um pouco desconfiado quando de repente os “bichos” (nome dado aqui aos alunos do liceu) param e entram para um jardim, então eu leio na casa, escrito em grandes letras: Colégio Luiz de Camões, Externato e internato — Ambos os sexos!!!!!

Eis caríssimo Vasco o que foi o meu primeiro contacto com isto tudo. Ri,ri e tornei a rir. A minha chegada a Coimbra como vês foi brilhante e cómica. Conto-te algumas coisas que se passam  na Liberalium Artium Facultas e que tu companheiro de louros nessas coisas deves apreciar. Tenho professores esplêndidos. Damião Peres a H. Dos Descobrimentos que ultrapassou tudo o que pensava a seu respeito.

Maximino Correia a Psicologia Geral, com muito sistema nervoso e localizações mas falando de Bergson, Freud e escolas modernas. Não me posso ainda pronunciar a seu respeito. H-F-Moderna (teóricas) Joaquim de Carvalho que fez duas aulas de introdução ao estudo da F. Moderna e a alguns aspectos da Renascença, falando e dominando o assunto com uma claridade imensa. (Práticas) Magalhães Vilhena, ainda não tive aulas com ele mas já lhe falei, andou-me a apresentar a todos os tipos dos institutos estrangeiros. Foi simpático.

H. Moderna tenho um Dr. Brandão, ainda só houve apresentação ??? Arqueologia tive hoje a primeira aula é o Orlando Ribeiro, já sabes a classe dele.

H.F. Portugal (2º semestre) Joaquim de Carvalho. Numismática (2º semestre) Damião Peres.

Eis um resumo completo da minha actividade escolar em que tenho uns colegas que só se interessam por futebol e animatógrafo. A mentalidade e o interesse cultural aqui é baixíssimo. Espero sem ser vaidade que isto seja óptimo para mim. Tirando os tipos do Novo Cancioneiro que são excelentes de resto a Academia aqui não tem interesse nenhum.

Os teus exames? A Margarida e sua morada? Tu naturalmente com muito amor. Enfim tenho de acabar a carta pois graças a Deus tenho mais amigos a quem escrever. Espero em Deus que passes e venças sempre pois este é o meu maior desejo. Aguardo carta tua com grande ansiedade recebe muitos abraços e dá cumprimentos a tua família.

 

Teu sempre amigo e futuro padrinho,

 

 

Ruben

 

Carta de Ruben para Vasco

 

 

Poemas de Ruy Cinatti aqui

 

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