4.2.17

 

 

 

traje romântico.jpg

 traje masculino - século XIX

 

 

 

 

 

Para em tudo ser grande, este homem singular a quem os seus contempo­râneos chamaram «o divino», como a Pla­tão, foi um dos maiores, senão o maior ele­gante do seu tempo. Poeta do amor, tão belo, que se um dia os Amores descessem à terra fariam o ninho num verso seu; ora­dor tão eloquente, que o seu verbo evocava o daqueles atenienses maravilhosos que, envoltos no seu pálio branco, arrastando as suas sandálias doiradas, discutiam sob os loureiros roxos dos jardins de Academo: diplomata, homem do mundo, grande do ir mo, ministro de Estado — Garrett levou trinta anos de vida a espalhar em volta de si, como braçados de rosas, a elegância, a harmonia, a beleza e a graça. Por onde quer que passasse, a Moda curvava-se diante dele. Ministro na Bélgica, foi tão grande o sucesso pessoal da sua elegância que por toda a parte, nas montras, nos cartazes, nos jornais de Bruxelas aparecem as «capas à Garrett», os «chapéus à Garrett», as «jóias à Garrett». Regressando a Lisboa em 1846, de tal forma o seu tipo inconfundível se impôs, tanto o imitaram e o copiaram, que todos os retratos em miniatura pintados por Guglielmi parecem, pelo talhe das bar­bas, pelo jeito das cabeleiras, peias peque­nas moscas, pelos próprios folhos das cami­sas, o retrato de Garrett. Como Brummell, tudo na sua elegância era simples, mas tudo era perfeito e minucioso. Vestia-se em In­glaterra. Mandava vir de Londres as casa­cas, as meias, os sapatos de baile, as luvas de Jouvin, a libré verde do groom, a suit of clothes com que passeava em Sintra, até os seus assombrosos pijamas matinais de xa­drez branco e vermelho, cuja pantalona afunilava em meia como a dos arlequins. Bulhão Pato descreve o trajo com que ele se apresentava nas Câmaras, o mesmo que usava nas lutas da eloquência e nas entre­vistas de amor: «Casaca verde-bronze com botões de metal amarelo recortado sobre veludo verde; colete branco, deslumbrante, grandes bandas; calça de flor de alecrim; camisa finíssima, encanudada; luvas ama­relas.» Quando tinha de pronunciar algum dos seus monumentais discursos, não es­quecia nenhum pequeno pormenor de ele­gância: ele, que não usava rapé, levava sem­pre consigo uma pequena tabaqueira de ouro para o ajudar nos gestos; e nunca, antes de começar a falar, deixava de esfre­gar as mãos para as fazer mais pálidas. Como a sua nobre figura dominava então a assembleia! Que harmonia de atitudes! Que elegância majestosa, só comparável à de Lamartine! Iluminava-se, crescia, arre­batava. E, entretanto, Garrett não era belo. Garrett lutava com a falta de dotes natu­rais. O milagre da sua elegância foi, sobre­tudo, uma obra de arte, de paciência e de génio. Tudo nele era postiço, desde o es­partilho até ao chinó, desde os dentes até às ancas, desde o chumaço dos ombros até ao bucho das pernas. Quando à noite reco­lhia a casa, depois de um baile ou de uma recepção, desmanchava-se como um puzzle. E o que tem graça, é que era ele o primeiro a rir-se dos ridículos a que o obrigavam, não só os seus defeitos físicos, mas as própria exigências da moda de 1840. Uma noi­te, o criado de quarto de Garrett adoeceu e teve de ser substituído por outro — um pobre rapaz boçal chegado da província. Quando o «divino», quase de madrugada, de calção e meia, regressava de um baile dos marqueses de Viana — o primeiro baile de Lisboa em que apareceram camélias do Japão — foi já o criado novo que, pela pri­meira vez, se apresentou para o despir. — «Começamos pelo chino, percebe?» — disse-lhe Garrett, tirando a cabeleira pos­tiça e enfiando-a na boneca. O pobre rapaz, que nunca tinha visto arrancar os cabelos da cabeça com tanta facilidade, ficou va­rado de espanto. Depois, o poeta tomou um pequeno espelho, abriu a boca, fez saltar a dentadura e deu-a ao criado: — «Tome lá os dentes. Meta-os num copo de água.» O assombro do pobre homem subiu de ponto. Imperturbável, Garrett des­piu a casaca em «busto de abelha», o colete de reflexos de prata, o espartilho, e apon­tou os chumaços das espáduas: — «Tire-me os ombros.» Em seguida, puxou uma ca­deira, assentou-se: — «Agora, tire-me as barrigas das pernas.» O criado, muito pá­lido, coberto de suores frios, teve naquele instante a impressão de que o amo ia desfazer-se todo. (Garrett percebeu, levantou-se, avançou para ele e disse-lhe, olhando-o fixamente: — «Agora, desatarrache-me a cabeça devagarinho.» O pavor do ingénuo provinciano foi tal que abalou pela porta fora e nunca mais ninguém o viu. Este epislódio pinta a figura do poeta muito melhor do que todos os retratos e todas as carica­turas. No fim da vida, no período agudo da paixão pela Ignota Dea das Folhas Caí­das, Garrett esqueceu-se por vezes de que já tinha mais de cinquenta anos e de que nem todas as idades suportam as modas excessivamente audaciosas. Quando sobra­çava a pasta dos Negócios Estrangeiros, apareceu um dia em conselho de ministros com umas extravagantes calças de qua­dradinhos brancos e roxos, que fizeram sensação em Lisboa e que chegaram a despertar receios de natureza política. — «Então, como vão esses negócios da Fa­zenda?» — perguntou o poeta ao seu colega Rodrigo da Fonseca, estendendo-lhe afec­tuosamente a mão. — «Mal, muito mal — respondeu o espirituoso Rodrigo. — Sobre­tudo, os negócios da fazenda das tuas cal­ças. Se tu apareces assim no Parlamento, deitas o governo a terra!» A sua última preocupação foi a de mandar gravar por toda a parte, na baixela de prata, nos sine­tes de uso, nas pedras dos anéis, o seu es­cudo de armas rodeado das insígnias da grã-cruz e bailiado de Malta. A morte, po­rém, que tantas vezes tem piedade do génio, não o deixou ser ridículo por muito tempo. Dois anos depois, o divino Garrett, prín­cipe dos príncipes da elegância portuguesa, rodeado de flores, compondo ainda ao es­pelho a sua última toilette, morria vítima das duas mais terríveis doenças que se conhecem no mundo: a política e o amor. Sem dúvida, foram estes os corifeus da elegância romântica em Portugal — os «in­ternacionais», aqueles cujas jóias e cujas casacas nos fizeram, por um momento, quase tão admirados na Europa do sé­culo XIX, como os coches de D. João V nos tinham feito célebres na Europa do século XVIII. Mas, ao lado destes, quan­tos outros! Quanto janota ilustre fascinou Lisboa, nessa longa parada de elegâncias que ia da plateia de S. Carlos até aos sa­lões da Regaleira, do Marrare de Poli­mento até às alamedas doiradas do Passeio Público! De quantos está ainda fresca a memória, elegantes pragmáticos, devotos fiéis do ritual da Moda, capazes de se dei­xar insultar para não desfazer um só caracol da cabeleira, de se deixar matar para não desmanchar uma só prega das calças! Alguns passam, flagrantes e vivos, diante dos meus olhos.

 

 

Júlio Dantas in O heroísmo, a elegância, o amor*

Edições Roger Delraux

© Maria Isabel Dantas, 1980

 

 

 

* Conferências proferidas no Brasil em 1923 pelo autor, a convite da Academia Brasileira de Letras, por proposta do romancista Coelho Netto:

 

O Heroísmo: O Mosteiro da Batalha

 

A Elegância: Os Elegantes do Romantismo

 

O Amor: Mulheres que Camões amou

 

 

Nota:

 

O meu agradecimento a Manuel Sant'Iago Ribeiro, que me deu a conhecer estas conferências.

 

A imagem é do blog Des bobines et des songes 


 

 


24.9.16

 

 

 

G letter.png

 

 

 

gerúndio
ge.rún.di.o
forma nominal do verbo, invariável, terminada em -ndo.
(do latim gerundium)

 

 

Os matizes do gerúndio em português prendem-se com o seu uso na forma simples ou na forma composta, dependendo (cá está) da sua posição relativa na frase. Algumas gramáticas, ao descreverem (ou descrevendo…) o emprego desta forma, falam até de «construções afectivas», motivo pelo qual a coisa deveria até estar muito na moda. Mas não. Parece haver uma tendência para preterir o gerúndio em favor de outras soluções que o não contemplem, por exemplo a sua substuição pelo infinitivo antecedido de preposição (exemplo «a cantar»), recuperando (cá está de novo) a ideia de que é uma coisa um pouco provinciana, rústica, ou ainda como forma de desvinculação do português do Brasil, o que só pode ser pura ignorância. Como se a região de Lisboa não constituísse, também ela, uma variante dialectal do português e não a língua sem rebarbas, rebrilhante de tão polida, que alguns dos seus falantes imaginam. Variante em que as noções de progressão indefinida ou de duração estão menos presentes de um modo tão expressivo. Felizmente que à pergunta sobre como vai a nossa vida, podemos responder: cá vai indo.

 

 

 

 

 


30.8.16

 

 

Untitled-1.jpgFernando Guedes (1929-2016)

 

 

 

 

Ignoro se têm sido muito ou pouco estudadas eventuais afinidades do nosso modernismo com o dos Britânicos, para além da comum recusa do sentimentalismo (mas talvez não a procura radical da despersonalização e do distanciamento, que quase só encontramos em Pessoa; a estética imagista só terá verdadeira expressão portuguesa com Alberto de Lacerda, mas esta poderá ser uma opinião controversa), mas não resisto a chamar a vossa atenção para os conselhos que William Carlos Williams, um outro americano que foi figura de proa do Imagismo, dava à poeta inglesa Denise Levertov, em 1954, repercutindo ainda nesse momento, de forma bastante fiel, o ideário imagista de Pound e Eliot em 1914. Dizia ele: «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer».

 

O crítico britânico Harold Monro, num livro intitulado Some Contemporary Poets, publicado em 1920, conta a história de um jovem poeta americano recém-chegado dos Estados Unidos que procurou Eliot a fim de lhe mostrar os seus trabalhos. Este, ponderou longamente em silêncio um poema e, erguendo finalmente os olhos, terá dito: «Precisou de 97 palavras para o fazer; eu acho que poderia tê-lo feito em 56». Mas nada disto era novo e os próprios imagistas não se cansavam de o afirmar: «Estes princípios não são uma novidade; caíram em desuso. Eles são o essencial de toda a grande poesia».

 

É claro que estamos no plano estilístico da precisão. Mas creio que poderíamos articular isto, independentemente dos particulares relativos à diferença de contextos, com o que António Ferro — fundador e referência desta Casa — escrevia, em 1919, em Leviana (publicado em 1921):

 

«O excesso de pormenores embrulha a concepção, a intenção. Já que não podemos simplificar a vida, simplifiquemos a literatura. A literatura, como a vida, está atravancada. Há que descongestioná-la: um só quadro numa parede, dois ou três móveis em cada sala. Simplifiquemos! Simplifiquemos! A falta de espaço é cada vez maior. Há que fazer peças com poucas personagens, romances com poucas páginas, telas com poucas tintas. Seleccionar! Seleccionar! Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem».

 

Como é sabido, The Waste Land, o poema de Eliot que Fernando Guedes considera o mais visionário do século xx, foi drasticamente reduzido na sua dimensão pela mão de Pound, que na dedicatória de Eliot é justamente designado como il miglior fabbro.

 

***

 

Há muito que Fernando Guedes se interessa por estes dois autores, Eliot e Pound. Poeta, ligado à Távola Redonda, nessas «folhas de poesia», cuja publicação se iniciou em Janeiro de 1950, apresentou e traduziu ambos (possivelmente pela primeira vez entre nós, como ele próprio notou na sessão de apresentação do livro). Eliot fora distinguido com o Nobel em 1948; Pound, internado num hospital psiquiátrico, recebera o Prémio Bollingen, em 1949. Posteriormente, no final da década, Fernando Guedes haveria de dirigir uma outra revista que logo no título – Tempo Presente – evocava Eliot (O tempo presente e o tempo passado/ São ambos presentes talvez no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tempo passado) e que no segundo número apresentava traduções de Pound e saudava a sua libertação, ocorrida no ano anterior.

 

Deste modo, o que Fernando Guedes faz nestas quatro comunicações é arrumar de forma condensada o seu próprio percurso de leitor de Eliot e Pound ao longo de décadas e apresentar a sua visão sobre o lugar de cada um deles na poesia do século xx. Partindo de uma perspectiva, que foi antes de mais geracional, de reavaliação da modernidade face à tradição, de indagação estética (o tal percurso partilhado em fraterna amizade com Fernando Lanhas), mas também ideológica na marcação das suas distâncias, Fernando Guedes engloba no seu interesse por estes poetas a dinâmica concisa e complexa da estética imagista, a relação com as artes plásticas, e, muito particularmente, a sua ressonância mítica e religiosa.

 

 

Jorge Colaço

 

Excerto de um texto lido no Círculo Eça de Queirós no dia 4 de Setembro de 2014 a propósito do livro de Fernando Guedes T. S. Eliot e Ezra Pound – uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras, publicado nesse mesmo ano.

 

 

O artigo de Jorge Colaço  Na morte de Fernando Guedes (1929-2016)  aqui.

 

Algumas obras de Fernando Guedes disponíveis na Wook aqui

 

 

 

 

 

 

 

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24.8.16

 

 

 

transatlantic phone call 1927.jpg

Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

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4.5.16

 

 

GUILLAUMET Henri1.jpg

 o avião de Henri Guillaumet

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Mar Morto e cavalinhos

 

 

 

Começo a escrever ao meio-dia da Quinta-Feira 28 de Abril. Quando a leitora me ler, a Vera, minha senhoria e decoradora de interiores na net (com o bloco aninhado no seu blog, as ilustrações são propostas por ela), terá saído da Portela na madrugada de Sábado para estar ao fim do dia na Jordânia, mais precisamente numa margem do Mar Morto, a interpretar em conferência de ONG dedicada a crianças e famílias, ficando por lá até ao próximo Sábado. Poderia, mesmo assim, ter posto o bloco no blog no começo da semana mas havia preferido que eu lhe mandasse o texto antes de partir porque, technologically challenged fora de casa, só com a malinha dos pertences, talvez não conseguisse encontrar boneco apropriado. Respondi-lhe que sem horas de fecho estritas me era muito mais difícil escrever para qualquer publicação, que o desafio me agradava e que ela poderia contar comigo.

 

Pensei na tarefa e prefigurei a táctica. Decidi antecipar trabalho no morto a publicar no Expresso de Sábado e, com efeito, acabei de o escrever ontem e mandei-o esta manhã (28) com mais de 24 horas de avanço sobre a deadline afim de ficar à vontade ao redigir o bloco. Lembrei-me de Guillaumet, aviador colega e amigo de Saint-Exupéry, cujo avião-correio caíra nos Andes deixando-o ileso mas sozinho na neve, sem comunicações. Cá em baixo deram-no por perdido mas três dias depois encontrou gente e foi salvo, para grande alegria de todos, exausto mas feliz. “Ce que j’ai fait, je te le dis, jamais aucune bête ne l’aurait fait!” declarou. Sabia que se parasse para descansar se deixaria dormir na neve e nunca mais acordaria; por isso não parara de andar. Era homem novo, os pilotos têm treino físico muito exigente mas, francês de nascimento e formação, fora o que entendia ser um triunfo do espírito sobre a matéria que lhe deslumbrara a mente. N’est pas français qui veut. Sendo o homosapiens o único animal com capacidade cerebral para o cálculo que Guillaumet fizera no cimo dos Andes, tinha provavelmente razão. Como eu tive ao avançar esta semana para Quarta-Feira a escrita do In Memoriam.

 

Un soneto me manda hacer Violante começou famosamente Lope de Vega, enfiando considerações sobre a arte do soneto em geral e o método da feitura daquele soneto em particular para rematar no 14º verso: contad si son catorce, y está hecho! mas eu estou ainda em 2.310 batidas – com espaços - faltando-me por isso 690 e não me parece que seja por aqui que o gato irá às filhoses. Mas uns versos puxam por outros e com o estado em que a Europa se apresenta agora, a rebolar para o fascismo, vem-me à cabeça Manuel Bandeira, no Jockey Club do Rio de Janeiro, em 1936:

 

Os cavalinhos correndo,                                                                                                          

E nós, cavalões, comendo.                                                                                                        

A Itália falando grosso,                                                                                                          

A Europa se avacalhando.

 

Cavalinhos, cavalões, o refrão vai-se repetindo, a beleza de Esmeralda faz esquecer Mussolini e outros males do mundo, enlouquecendo o poeta, tudo como deve ser, porque Manuel Bandeira sofria daquilo que o António Alçada achava ser também maleita minha: a mania de viver em epopeia amorosa.

 

Por razões técnicas longas de explicar a contagem de batidas neste texto não é evidente mas palpita-me estar pelas 3.000. Até Quarta-Feira que vem.

 

 

 

 

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3.6.15

 

 

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Europa, filha do rei de Tyr, raptada por Zeus 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Irmãs da namorada de Zeus

 

 

 

Há anos, no Itamaraty, perguntei a diplomata brasileiro como era o Paraguai. “É assim como o México” respondeu ele “mas, como não mudam de 7 em 7 anos, roubam menos”. Era o presidente que não mudava; pouco tempo depois o ditador Stroessner foi corrido – para exílio no Brasil – pelo que hão de ter passado a roubar mais. Mas o pior não é isso: há mês e meio, miúda de dez anos, grávida depois de violada pelo padrasto, foi levada ao hospital pela mãe pedindo que a fizessem abortar. As autoridades, espaldeadas pela igreja católica, disseram que não (prendendo a mãe como cúmplice). Em vários outros países da América Latina, as gravidezes juvenis também são muito mais frequentes do que na Europa e mais difíceis de prevenir por uma mistura de ignorância, machismo e doutrina católica.

 

Passando para outra das irmãs da namorada de Zeus e para outros desmandos: na sexta-feira passada, federações nacionais de futebol, sobretudo de África, votaram sem hesitação para renovar o mandato de Sepp Blatter à frente da FIFA, apesar de indignação de muitos entendidos e de outras federações. (Michel Platini, presidente da europeia, exortou publicamente Blatter a não se recandidatar). Como a investigação de crimes graves veio do FBI, esboça-se movimento para caracterizar o caso como expressão de imperialismo americano atrabiliário contra costumes, diferentes mas honrados, de gente menos rica e menos forte por esse mundo fora.

 

Um que logo se manifestou nesse sentido, alto e bom som, foi Vladimir Putin que, de súcia com o alto clero da igreja ortodoxa, continua a restringir cada vez mais as liberdades na Rússia – no rosário de repressões: há dias fundações que recebam dinheiro do estrangeiro foram consideradas inimigas da nação e do estado – para consolidar a sua cleptocracia; deverá saber ou suspeitar de trafulhices na escolha do seu país para acolher mundial de futebol e verá também oportunidade de reforçar a sua excelente imagem interna, fomentada por controle quase total de jornais, telefonias e televisões e por serviço de segurança levado ao nível do KGB.

 

O que me levou a outra irmã da Europa, a Ásia, de que a Rússia também faz parte embora não esgote, muito longe disso, as malevolências dela. Igualmente em notícias dos últimos dias, encontramos emigrantes, refugiados de tentativas de genocídio, postos à deriva no alto-mar com promessas de nova vida sem que países que os poderiam ajudar mexam um dedo para tal fazer, da Tailândia à Austrália (esta já na Oceânia, última irmã de Europa). Assim escancarada, a indiferença pelo próximo nesses países não encontra termos de comparação na Europa de hoje. Entretanto, sobre a terra e sobre o mar dessa parte do mundo, acena a presença totalitária e impiedosa da China.

 

No começo e no fim do dia, lembremo-nos da sorte que tivemos em nos ter calhado a filha do Rei de Tyr, raptada por Zeus (disfarçado de touro para escapar à vigilância ciumenta da mulher – o Mediterrâneo mudou pouco).

 

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

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20.8.14

 

 

 

 

Vasco Luís Futscher Pereira

3 de Fevereiro de 1922 — 20 de Agosto de 1984

 

 

 

Brasília, 10 de Agosto [1974]

 

Almoço com o Vasco Futscher no Clube Naval.

 

Rosto glabro e redondo e olhar de sapo por detrás duns óculos onde palpita viva e ágil a retina bombeada do míope. Grande falador de riso fácil e de uma extrema simpatia natural. Tudo lhe desperta curiosidade.

 

Ostenta um instintivo gosto pela vida alimentado, ao contrário de muitos, pela cultura e a inteligência. Uma ponta de obesidade confere-lhe uma certa inteireza física acentuando-lhe a espontânea jovialidade. Quando sorri, e sorri com frequência, as bochechas sobressaem à maneira dum boneco animado, arredondando-lhe a face e a expressão reboluda do olhar.

 

A primeira impressão é a de que não poderia ter havido melhor escolha. Calhado para o Brasil, como outros o são para a Finlândia ou a Indonésia. O Brasil, que não conhece, surge-lhe como uma experiência inteiramente nova que ainda o anima e seduz, pois é homem, se não me engano, de entusiasmos repentinos.

 

Diz-me, no entanto, ter ficado horrorizado com o que lhe contou o Castelinho1, com quem jantou há dias, acerca da intensidade e polivalência aqui da repressão política a cargo simultaneamente de diversos organismos, que agem por conta própria, cada um dis­pondo de sua gente e actuando por sua iniciativa.

 

[...]

 

Voltando ao Brasil, falei-lhe da relação essencialmente freudiana que ainda hoje liga - ou separa? - o Brasil e Portugal. Quem teimar em encarar este país com o olhar peregrino do portuga, e não perceber a ambiguidade de sentimentos que o brasileiro nutre para connosco, arrisca-se a cometer grossa asneira e a nada entender desta terra e desta gente.

 

Na verdade, nada mais ilusório do que partir do princípio de que a matriz lusíada, por si só, será suficiente para preservar os laços da tão apregoada comunidade luso-brasileira.

 

[...]

 

O embaixador limitou-se a ouvir-me e apenas citou, como prova do contrário, dois exemplos: o caso do Estado de São Pauloe a proliferação de clubes Eça de Queirós disseminados por todo o Brasil. «Veja só o imenso capital de simpatia que isso representa para connosco se o soubermos aproveitar com um mínimo de in­teligência.»

 

Levantou-se — já não sei que horas eram... e quantos cafés ha­víamos ingurgitado — e com um sorriso paternal, pousando-me a mão no ombro: «Deixe lá, homem, não se preocupe, não seja tão pessimista, ainda há por aí muito caturra que gosta de nós.»

 

 

Marcello Duarte Mathias

in Os Dias e Os Anos

© D. Quixote 2010

 

 

1.Carlos Castelo Branco, mais conhecido por Castelinho, ao tempo influente editorialista do Jornal do Brasil.

 

2. Nessa altura, o Estado de São Paulo um dos jornais mais prestigiados, inseria em substi­tuição das partes censuradas, consoante a maior ou menor extensão das mesmas, extrac­tos de Os Lusíadas, assinalando assim os cortes de que era objecto.

 

 

Foto: Francisco Silva Fernandes

 

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17.8.14

 

Duas fotografias do álbum do Brasil, de finais do século XIX. O álbum pertenceu a meu tio-avô António Guilherme de Barros Pereira de Carvalho (1893-1939) e chegou-me do Brasil setenta anos depois da sua morte pela mão generosa de Maria Amália Fragelli, que o conservou depois do desaparecimento da única descendente directa de António Guilherme, Stella Maria Pereira de Carvalho

 

           

 

 Brasil, finais do séc. XIX

 

 

 

 

Aninhas, finais do séc XIX

 

 

A menina encostada ao mastro pode ser Ana Maria Barros da Costa Morais, prima de António Guilherme e de Guilherme Júnior, meu avô materno, cujo retrato se encontra na página anterior do álbum e aqui.

 

 

 

 

 

 

Leia mais sobre O álbum do Brasil

 

 

 

Outras fotografias do álbum do Brasil nos posts

 

dispersed relatives

 

A Écloga e a Epopeia (2)

 

Criança (1896)

 

Casa da Mogada (2) 

 

Criança (c.1890)

 

 

 

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30.4.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais uma Guerra Mundial?

 

 

As comemorações de 1914 (ano do começo da Guerra que pôs Fim à Paz, como lhe chama Margaret MacMillan num livro magistral sobre as suas causas) em televisões, telefonias, editoras, revistas, e o à vontade pré-modernista de Vladimir Putin, cujo apetite russo de território evoca o Lebensraum nazi, levam-me a sentir que a nossa paz, o caldo de cultura da construção europeia, ficou de repente muito menos garantida.

 

Até ao fim da Guerra Fria, medo salutar da União Soviética fizera os europeus gastarem dinheiro em defesa (sempre menos do que deviam mas os Estados Unidos, embora queixosos, cobriam a diferença). Quando a União Soviética colapsou inventou-se o “dividendo da paz”. Governantes de quase todos os países europeus — menos Reino Unido e França — ignorantes ou esquecidos da história reduziram orçamentos de defesa a proporções ridículas com a justificação de que o colapso soviético eliminara o inimigo e não havia outro à vista. Agora há — mas há também quem não o queira ver.

 

A questão não é de meios — é de falta de vontade. 1945 foi há 69 anos, 1991 há 23 e, a quem não faça regime, a paz engorda. A Guerra Fria acabou sem tratado que ajustasse regras: essa ambiguidade ajuda Putin a pintar a manta, jogando na curteza de vistas cobarde dos europeus. Grandes patrões têm ido a Moscovo garantir-lhe pessoalmente ‘business as usual’. Apesar disso, os governantes da União Europeia (e todos os do G7), perante o desplante reafirmado do patrão do Kremlin e exortados por Washington têm alinhavado sanções contra a Rússia — começando pelos cortesãos do Czar — a pouco e pouco mais consequentes mas muito longe de causarem a dor precisa para parar provocações com que Putin nos põe à prova.

 

Se impusermos mais sanções económicas e se, simultaneamente, tornarmos bem visível por exercícios militares, patrulhas aéreas, etc., conduzidos na Polónia e nos países bálticos, a capacidade bélica da OTAN e a nossa disposição de recorrermos a ela se um dos Aliados for atacado, ganharemos. Sanções económicas trar-nos-iam prejuízos de curto prazo, exigindo explicação a eleitores mas seriam tão gravosas para a Rússia que Putin teria de encolher as garras. A capacidade de sofrimento do povo russo é grande (nenhum outro teve tantos mortos nas duas guerras mundiais) e a propaganda do Kremlin dissemina catadupas de aldrabices mas no nosso tempo tudo se conhece, se compara e o regime iria mudando. Depois, à Ucrânia e seus demónios daríamos o jeito possível, até com ajuda da Rússia.

 

Se não dermos um murro na mesa já, será depois difícil parar Putin sem guerra. E entretanto o nosso poder no mundo vai levando rombos. Quando votámos agora contra a Rússia na ONU, Brasil, India, África do Sul abstiveram-se. Os nossos valores em direito internacional e direitos do homem não serão universais mas que ao menos sejamos capazes de lutar por eles, com menos retórica e mais acção. Como disse um presidente americano: falar baixinho e trazer um grande cacete.

 

 

 

 

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22.1.14

 

 

Pax Americana, 1988, Winston Smith 

 

 

 

 

 

 

 

Adeus Pax Americana

 

 

A “capacidade inimaginável de mentir sem pejo” dos nossos políticos alarma amiga minha (e devia alarmar toda a gente: se os valores em que assenta a decência de viver forem esquecidos teremos vendido a alma ao Diabo). Mas será o fim da raça — anunciado prematuramente em 1934 por  Pessoa, em 1875 por Eça e, alguns séculos atrás, pelo Velho do Restelo? A minha amiga receia que sim. Eu tenho dúvidas. A Espanha, a partir-se aos bocados, não tem queixada para nos abocanhar e à Europa de Bruxelas falta vocação de Pátria. Para o mal e para o bem, não há de ser nada.   

 

Seja o que for que por aqui medre, porém, terá, mais o resto da Europa e os outros 4 Continentes, de aprender a viver sem os Estados Unidos como Senhores do Mundo. Haviam passado a sê-lo desde o colapso da União Soviética. A 11 de Setembro de 2001 levaram grande bordoada – pior do que o bombardeamento japonês de Pearl Harbour em 1941 porque o Havai é um arquipélago no Pacífico e Nova Iorque e Washington são o coração do país – outras bordoadas, pequenas e não tão pequenas, externas e internas, se foram seguindo. O mundo está-lhes a escapar das mãos e eles já não sentem tantas ganas de o agarrar. Ora, se de vez em quando a Pax Americana importunou muitos de nós, o incómodo de viver com ela não era nada comparado com o incómodo de sem ela viver.

 

Patrão fora, dia santo na loja –  ou, mais a propósito, guerras sem fim. Sem Washington a meter-se decisivamente nas questões, desavenças agravam-se, feridas em vez de sararem infectam. Sofrimento indescritível — e evitável — aflige cada vez mais gente. A tragédia humanitária da Síria que indecisões americanas deixaram avolumar à nossa beira para lá de remédio programável e plausível é a que dá mais nas vistas. Mas não faltam outras pelo mundo fora.

 

Não existe potência capaz de desempenhar papel comparável ao que fora até há pouco o da América. A China, de que às vezes alguns se lembram, vem carregada de dificuldades de sua própria invenção. Capitalismo desenfreado em regime de partido único criou classe média — e milhares de milionários — exigindo voz na coisa pública e prenunciando grandes sobressaltos. Desenvolvimento selvagem criou desastres ecológicos duradouros. A política “um filho só” criou distorções demográficas que levarão gerações a corrigir. E a capacidade militar chinesa não dará para Pequim distrair mal-estar em casa com aventuras fora.

 

A Rússia continua a ser “O Alto-Volta com bombas atómicas” (Helmut Schmidt dixit). A Índia é uma democracia mas desigualdades abissais – até entre homens e mulheres – atrasam-lhe ambição de bem-estar geral, quanto mais de hegemonia. O Brasil do rolezinho está longe de poder ajudar a pôr o mundo em ordem. E a Europa, com a História, zangada, a voltar a galope sobre a desunião cavada pela austeridade, perdeu a vez.

 

Em mundo sem rei nem roque teremos de olhar melhor por nós. Começando — talvez dissesse a minha amiga — por dar crédito e autoridade à virtude.

 

 

Imagem: aqui

 

 

    

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14.7.13

 

Manuel de Jesus Belmarço c. 1890 

 

 

 

O jornal Público noticiou há dias que a Casa Belmarço em Faro, adquirida em tempos pela Câmara da cidade para ali instalar o Tribunal da Relação, foi posta à venda pelo Estado. A casa foi mandada construir por meu bisavô sob projecto do arquitecto Norte Júnior e inaugurada em 1912.

 

Manuel de Jesus Belmarço (1857-1918)  fez fortuna no Brasil como negociante de cereais e café. Casou com Maria Luísa Navarro de Andrade e tiveram quatro filhos, três dos quais nasceram no Brasil. Viveu com a família em S. Paulo e após regressar a Portugal, em 1899, construiu uma casa em Lisboa, na Avenida da Liberdade, e esta em Faro, a cidade onde nascera. O filho mais velho, Vidal Alberto Belmarço (1891-1961) e a mulher, Amélia Salter de Sousa Belmarço (1886-1964) viveram nesta casa até ao fim da vida.

 

 

 

 

                                     

 

 a notícia recente aqui

in English read here

 

a Casa Belmarço na Wikipedia aqui

Arquitecto Manuel Josquim Norte Júnior aqui 

 

 

 

 

 

 Trapiche Belmarço e sua ponte de madeira, na cidade de Santos aqui

© Museu do Porto de Santos - Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp)

 

 

Fotos antigas do Porto de Santos na Fundação Arquivo e Memória de Santos  aqui

 

 

 

 

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2.5.13

 

Num conjunto muito variado de textos, Eduardo Côrte-Real discorre com simplicidade e humor sobre a descoberta doutras paisagens, povos e mentalidades à luz dos seus autores de cabeceira e da sua história pessoal de filho do Império: 

 

"nesta parte do mundo [Macau], os portugueses fizeram-se à vida sozinhos, verdade que nem sempre se conta, só isso já dá a dimensão da aventura de quem vai para a China, para a civilização mais antiga de todas, agora um gigantesco casino, com Moulin Rouge e tudo" ... "Em Moçambique o apartheid era uma realidade, nunca tive um colega de escola preto e fiz lá o liceu todo. Naquele tempo, entretido a crescer, não me parecia estranho. Os únicos pretos com quem falávamos eram os nossos criados — sete."

 

O Médio Oriente, a Rússia e a China registados pelo autor nos finais do século XX também já não são hoje exactamente os mesmos, e nesse subtil desfasamento reside outro dos interesses deste livro. 

 

 

 

 

 índice de capítulos aqui

 

 

Tive a sorte de viver, longamente, em três continentes - África, Ásia e Europa. O persa de Homero, esse ainda desconhecido dos eu­ropeus e, no entanto, a viver ao nosso lado, foi o meu best friend nesses idos. Também gosto imenso da América, tanto do norte como de al­guns países do sul, daqueles onde não mora o pecado como no Brasil, a glória portuguesa. Gosto de árabes — o que é raro nos europeus — uma matriz complicadíssima porque política e religião são do mesmo grupo de conceitos neles. [...] Não há lares de terceira idade na China, o filho mais velho toma conta dos pais até eles morrerem. É assim. Praticar o Li (o bom caminho) não é muito diferente das éticas gerais, religiosas ou ateias. Individuo versus Universo é a questão do confucionismo chinês. O Ocidente individualista deusificou a Humanidade - mais interessante para filosofar — que a abstração dessa alma coletiva chinesa, nunca individual. No confucionismo não há salvação isolada, egoísta, nem alminhas. O historiador, o antropólogo, o humanista ocidental europeu, o jornalista, levo-os a todos como se fosse a escova de dentes, se possível sem eurocentrismos que são só excesso de peso. Não é só fazer a mala. É saber ao que vamos.

 

Eduardo Côrte Real

in Vagamente à procura de Pasárgada (Introdução)

© RCP Edições 2012 

 

Leia o poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira aqui

 

 

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17.12.12

 

 

 

Quatro panorâmicas e figuras aguareladas de usos e costumes das cidades ou regiões representadas:

1a Panorâmica—Configuração da Entrada da Barra de Goa; 2/1 Panorâmica—Perspectiva da Praça de Dio vista do mar; 3ª Panorâmica—A entrada do Rio de Janeiro; 4ª Panorâmica—Vista da Ilha de Moçambique, tirada do seu porto. Séc. XVIII.

 

in Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo

 

 

Nota:

Documento apresentado em exposição no Museu Militar de Lisboa integrada nas comemorações do V Centenário da Morte do Infante Dom Henrique, 1960.

 

 

  

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31.12.11

 

 

 

e votos de um Bom 2012.

 

 

 

Imagem: Mercado de Belém do Pará, 2009

 

 

 

 

 


24.8.11

 

 

 

 

 

Brasil, última década do século XIX

 

 

 

Veja o álbum a que pertence esta fotografia aqui e aqui

 

   

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24.6.11

 

 

São João Baptista, Brasil, séc XIX

 

 

Por manhã de São João,

Manhã de fresca alvorada,

A Virgem-Santa passeia

Deredor da fonte clara.

Venturosa da donzela

Que à fonte for buscar água

Por manhã de São João

Manhã de benta alvorada !

 

Baixou a filha do rei                                                

Da alta torre onde estava,                                                

Vestiu vestido de seda,

Calçou sapato de prata,

Pegou em cântaro de oiro

Para a fonte caminhava.

 

Ao chegar ao pé da fonte                                       

Com a Virgem se encontrava :                        

— « Deitai-me a benção, Senhora,

Que me deis um bom marido             

Com quem seja bem casada ! »

— « Casada sereis , donzela,

Bem casada e bem medrada.                                    

Três filhos haveis de ter,

Todos três de capa magna.

Um há de ser papa em Roma        

O outro primaz em Braga ;                        

O mais pequeno de todos                        

Dá-lo-eis à Virgem Sagrada :

Que se há de chamar João.                

João de Deus o seu nome,

Pastor da minha manada.

Aos pobres que não têm pão,

Aos doentes sem pousada

Ele há de dar casa e cama

Em honra desta alvorada.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Nota: este romance popular foi originalmente publicado no blog garrettiano O Divino, em Dezembro de 2004 

Imagem: Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

 

                         

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13.6.11

 

 

 

St Anthony

Chiselled and carved wood;polychromy;19th century; Northeast; 14,5 x 85 cm

 

 

St. Anthony's surname is Padua, the name of the town where he died and was buried in 1231. He was born, however, in Lisbon around 1195, and was known as St. Anthony of Lisbon. Canonized one year after his death, he was worshipped only in Padua until the end of the 15th century when he began to be worshipped throughout Portugal and, finally, all over the world.

 

 

The attributes distinguishing him are, most often, the Boy Jesus sitting or standing on a book, which image is best known to us, since it was spread abroad by the baroque art of the Counter-Reformation, He may aiso carry in his hand lilies - symbol of purity -, a monstrance, grapevine branch and a crucifix. He may carry on his back a bag of breadrolls, when he is called St. Anthony of the Poor, or of Picuá. He always appears dressed in the habit of his Franciscan Order, brown or gray, belted with a cord, young and beardless, with a monk's tonsure. Rosaries generally hang from his belt.


 

St. Anthony is more invoked for romantic problems. That is when the Boy Jesus is taken from his arms until the "miracle" happens. His reputation and notoriety as the marrying saint must have come from colonial origins, when marriage and procreation, and consequent demographic growth, were obligatory for the success of Portuguese domination and occupation in the new lands.

 

 

Cristina Ávila

Silvana Cançado Trindade

Geography of the sacred in colonial Minas Gerais

in Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

Outra imagem de Santo António e um inédito do Romanceiro Garretiano aqui

 

 

 

 

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12.6.11

 

 

 

 São Cosme e São Damião. Objetos de devoção popular.

 


O caso é que, antigamente, o sagrado andava misturado com o profano através da nossa vida quotidiana e tínhamos notícias constantes de um mundo que, em rigor, era habitado por Deus e os santos, os anjos e os demónios, as almas dos eleitos e dos condenados.

 

A relação com os santos era uma espécie de panteísmo. Na imensa policlínica das almas, só Deus Nosso Senhor era de clínica geral e os santos tinham especialidades e, de tal modo que, se você perdia uma libra, era melhor pedir o seu achamento a Santo António do que ao próprio Deus, Nosso Senhor. Este politeísmo assegurava a presença do sagrado: o ateísmo — fiquem sabendo — começa com a teoria e a prática do Deus único.

 

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias aqui

© Editorial Presença

 

 

 

Imagem: Madeira recortada e policromada; sec. XIX; Diamantina (Minas Gerais) - 76 x 35,5 cm.

in Objetos da Fé, Oratórios Brasileiros (coleção Angela Gutierrez)

Catálogo apresentado no Museu de São Roque em Lisboa durante o evento "Lisboa Capital Europeia da Cultura",Março de 1994

 

 

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10.6.11

 

 

 

 

 

 

José Pedro Croft, sem título (1988)

ferro, 11x 57 x 57*

 

 

 


[...] A Pátria, sobretudo para aqueles que vivem dentro dela, é uma realidade que nem sempre é fácil consciencializar. Sou daqueles que recuperam com facilidade as fatalidades da fortuna e, talvez por isso, fico muito grato a todos os acasos que fizeram de mim o que sou. A verdade é que não desgosto de mim assim e arranjei comigo próprio uma tal cumplicidade que nunca me zango comigo. Sem vaidade, acho que o acaso nos dá o primeiro verso e que nos cabe a nós fazer o poema.

 

Por isso, gosto de ter nascido na Covilhã, acontecimento que se deu sem me terem pedido opinião. Gosto de Portugal e da língua portuguesa e de tudo aquilo que nos diziam quando éramos pequeninos e nunca ninguém me ouvirá um queixume por ter nascido português.

 

No entanto, nem sempre fui assim: no tempo do antigo regime vivi com alguma ansiedade a condição de ser português. Não tínhamos liberdade e aguentámos uma guerra colonial que era para mim uma vergonha. O Governo tinha tomado conta de todos os valores patrióticos e religiosos e por isso era com muita dificuldade que eu conseguia ter orgulho do meu país. A tentação queirosiana é muito grande e demoramos um pouco a descobrir o que tem de provinciano isto, de gostar de Paris. Como noutro lugar direi, devo ao Brasil as pazes que fiz com a minha Pátria.

 

Hoje, não tenho dúvida que a nossa relação com uma terra e com um povo molda decisivamente aquilo que somos e constitui até uma das poucas barreiras que nos restam para opor à massificação inevitável. Esta relação não é um folclore, nem um anacronismo piegas, nem o tique do tal optimista que vai creditando a seu favor tudo o que lhe vai acontecendo. O que sucede é que a nossa ligação à terra é capaz de ser uma descoberta tardia, nomeadamente para aqueles que, como eu, acreditaram sofregamente nas «luzes» e, por isso, durante algum tempo, tiveram a veleidade de apresentar a sua candidatura a «cidadãos do mundo».

 

Aquilo a que as selectas da instrução primária chamavam «a nossa terra», que os mestres-escola impunham como tema de redacção, é afinal uma realidade que se impõe com veemência e denodo. Não quero esconder que muitos intelectuais que prezo e admiro — o exemplo que me ocorre é o de Krishnamurti — consideravam a Pátria como factor de impedimento à solidariedade humana que deve caracterizar o processo do futuro. O que acontece, é que a sua ideia de Pátria, que, aliás, estava conforme ao entendimento geral da sua época, não tem nada que ver com a Pátria que hoje nos interessa. Naquele tempo, a Pátria tinha dentro de si um fundo belicista que, a partir da defesa da fronteira, pretendia a expansão e o domínio de outros povos. Ora, hoje, a Pátria não pode ser nada disso, mas ao contrário é a consciencialização e o desenvolvimento de uma cultura específica — quase diria de uma «maneira de ser» — que é necessário pôr em diálogo com os outros povos e culturas para a realização do universal. Assim, não é fácil definir a Pátria. Diria que é um tecido de sentimentos, emoções e ideias que cada vez está mais ligado à nossa sobrevivência «cultural» se, com esse nome, quisermos designar a própria sobrevivência do «ser» expresso através daquilo que nos distingue dos outros. Como é que isto se vai resolver num futuro bastante próximo, não sei, porque a identidade de um homem como a identidade de um povo são fenómenos que julgo incompatíveis com a massificação. 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias   p.154-155

© Editorial Presença aqui

 

 

 

* Fotografia de Laura Castro Caldas

Catálogo Arte na Colecção Contemporânea da Fundação Luso-Americana, CAM-FCG, Lisboa 1992

 



30.5.11

 

Não só eram os diplomatas brasileiros parecidos entre si, como éramos também parecidos com todos os diplomatas do mundo – mas um mundo que consistia em uns quarenta países, dentre os quais talvez uma dúzia ou pouco mais que de fato contassem. Integrávamos uma elite, uma comunidade global que compartilhava estilos e práticas. Essa crème de la crème internacional se entendia em francês, a língua diplomática par excellence. Compreende-se esse tribalismo elitista. Era prático que agissem todos sob um mesmo código e que, literal e metaforicamente, falassem a mesma língua.

[...]
Havia, no culto geral ao formalismo e na exigência de que a liturgia das relações entre Estados fosse estritamente cumprida, a preocupação de não permitir que o Brasil, que em muitas dimensões contava pouco, pudesse ser menoscabado. Para eles, o representante e o representado se confundiam. Os vultos itamaratianos eram cosmopolitas que retinham uma brasilidade essencial; eram cidadãos do mundo e patriotas à flor da pele.

[...]

O Itamaraty era um reduto de personalidades – e excentricidades. Como nas grandes famílias, o comportamento esdrúxulo, quando não biruta, era considerado parte inescapável da variedade da espécie e a sua tolerância como um imperativo do convívio social. Só a extrema desagradabilidade no trato e a improbidade com a coisa pública eram tidas como inaceitáveis. As peculiaridades das opções sexuais, os excessos com a bebida, um comportamento boêmio ou errático, tudo o mais era visto com indulgência civilizada.

[...]

O Itamaraty não foi logo para Brasília. A cumplicidade entre o corpo diplomático estrangeiro, que não queria ir, e a diplomacia brasileira, que em sua maioria preferia ficar, fez com que se passassem mais de dez anos. Só no verão de 1970 que uma série de caravanas de caminhões e funcionários empreendeu, finalmente, sua marcha para o oeste.

 

O casarão da Rua Larga ficou com muitos de seus móveis e objetos, que não combinariam com a estética da nova sede. Ficaram os arquivos, a biblioteca e a mapoteca. O edifício passou depois por um longo período de vacas magérrimas. Não por desamor, talvez, mas

pela razão oposta: a necessidade de quebrar os laços afetivos entre os lugares, as coisas e as pessoas. Era preciso, pela rejeição do que tinha sido, estabelecer as bases de uma nova fidelidade.

 

O velho nome do palácio, contudo, não foi abandonado. Não há um Palácio do Catete em Brasília, nem um das Laranjeiras, menos ainda um da Guanabara. O nome Itamaraty não foi descartado – como que para dizer que a trajetória de nosso relacionamento com o mundo é um rio ininterrupto; e que, mesmo em circunstâncias inteiramente diversas, a nossa continua, estamos no mesmo endereço.

 

 

Marcos de Azambuja

in Casa bem assombrada,  o Itamaraty antes da sua ida para Goiás

Revista Piauí, março de 2011

 

o texto na íntegra no blog Diplomatizzando aqui

 

  

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29.5.11

 

 

 

Palácio do Itamaraty, Rio de Janeiro

 

 

 

[...] Com a sua fachada neoclássica, a Casa continua virtualmente sem mudanças há mais de 150 anos. Só variou o matiz de sua pintura externa, que ao longo dos anos viajou de um rosa pálido até um siena intenso. Dá ainda para a rua sem recuo, mas tinha, naqueles tempos, o mais democrático dos acessos. Posteriormente, a sua guarda ficou, e perdura até hoje, a cargo dos Fuzileiros Navais – corporações ambas, a deles e a nossa, criadas quando da chegada providencial de dom João VI a estas praias. Não havia, ou não se percebia, ou não ameaçava a gente de boa paz, a violência urbana. Naquele tempo, no Rio, só me assaltavam dúvidas.

 

Ainda se entra, a pé, pela mesma e longa galeria flanqueada pelos bustos dos heróis da independência das Américas, e os de alguns penetras de outras safras e procedências. Existe outra entrada, só usada em dias de gala. Ela leva ao saguão que se abre para a bela escadaria e conduz ao andar superior. Por ela subiu o Império para comemorar, dançando, o fim da Guerra do Paraguai, na noite em que a princesa Isabel e o conde d’Eu receberam para um grande baile os oficiais que, vitoriosos, voltavam à Corte.

 

Havia, e há, uma terceira entrada. É a exclusiva para automóveis, que contorna o edifício e leva à garagem, ao estacionamento e aos demais prédios que integram o nosso quadrilátero diplomático. Mas naquele tempo havia pouquíssimos automóveis. Chegávamos quase todos a pé.

Fiz longa essa descrição da Casa e do seu entorno porque acho que uma parte da cultura do Itamaraty derivava de nossa situação na cidade e de nossa planta. Em Brasília, mais tarde, os espaços e as vistas iriam permitir sonhar e antever um novo Brasil. No Rio, estávamos ancorados no âmago mesmo da cidade, e não era possível escapar do que, de fato, éramos e tínhamos sido. A história e o presente, mais do que o futuro, nos definiam. Em Brasília, havia aspirações.


 

Ser diplomata não é uma vocação primária. Nunca encontrei criança que quisesse ser diplomata ao crescer. Também não é emprego fácil de definir. David Silveira da Mota, colega que foi um grande profissional, contava que sua filha, no colégio, uma vez foi perguntada sobre o que fazia seu pai. A professora ia repetindo a pergunta a todos os alunos e recebia respostas simples e claras. Quando chegou a vez da menina, ela, hesitante, confessou: “Meu pai é diplomata. Faz discursos em francês.” Era o mais perto que ela conseguia chegar dos mistérios da profissão. Chega-se a ela mais por exclusão de alternativas e por avaliação de conveniências do que por uma irresistível convocação.

 

 

 

 

Marcos de Azambuja

in Casa bem assombrada,  o Itamaraty antes da sua ida para Goiás

 

in Revista Piauí, março de 2011

 


Leia o texto na íntegra no blog Diplomatizzando aqui

Revista Piauí aqui


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27.5.11

 

 

 

 

[...]  E, novamente, tudo bem com Portugal. Esse é um comentário que traduz com fidelidade, a intenção dos sucessivos gestos diplomáticos trocados essa semana entre Brasília e Lisboa, de onde o Primeiro Ministro Mário Soares chegou a destacar parte importante do lançamento de seu programa de governo, para reiterar uma maior aproximação com o Brasil.

 

Na verdade, os telegramas – e só agora, depois de um mês divulgados – entre os presidentes Geisel e Ramalho Eanes, refletem uma disposição de abertura política que não se verificava desde o final de 1974, quando Portugal tentava inaugurar seus primeiros tempos de vida democrática, com a consolidação das diferentes tendências políticas que iriam resultar na vitória da oposição socialista, com o governo do primeiro-ministro Mário Soares.

 

Amigo pessoal do chanceler Azeredo da Silveira, o chefe do Governo português terá potencialidade suficiente para sensibilizar o Governo brasileiro. No momento, é o lado de cá quem é chamado a dar uma certa dose de confiança a Portugal, reestabelecendo — com a necessidade de um conteúdo mais pragmático — o clima que criou a agora esvaziada comunidade luso-brasileira.

 

Sob outra forma, o Brasil poderá ser essencial para Portugal, na solução de questões resultantes da herança de problemas com as ex-colónias africanas — com quem o Itamaraty vem conseguindo manter um entendimento mais do que razoável; um deles seria a grande quantidade de imigrantes que se dirigiram para o território português, e agora não encontram colocação no disputado mercado da mão-de-obra daquele país.

 

A praxe diplomática dos telegramas, dessa vez, chegou a trazer uma novidade, que foi a não divulgação — quando seria de interesse — do texto enviado pelo chanceler Azeredo da Silveira a Mário Soares quando ele fala que o Brasil acompanhava com "especial" interesse os novos tempos que esperam Portugal.

 

[...] Agora, é esperar pelas novidades que se anunciam na aproximação bilateral — admitidas por autoridades dos dois países — que farão esquecer os tempos em que o atual embaixador de Lisboa, Vasco Futscher Pereira, era obrigado a conversar com os jornalistas no pátio externo do Itamaraty. Isso aconteceu quando nem tudo era claro na política interna dos respectivos governos.

 

 

Pedro Redig

Editoria de Política, Jornal Diário, Brasília 07 de Agosto de 1976

 

 

 

 

 

 

Ministério das Relações Exteriores do Brasil

Palácio do Itamaraty, Brasília

 

 

 

Os anos que o meu pai passou como embaixador de Portugal em Brasília (1974-77) foram muito complicados em matéria de relações entre os dois países, que poderão mesmo ter estado à beira de uma ruptura. Quem conhece bem a história, por a ter vivido, é o Embaixador José Paulouro das Neves, que citei há tempos aqui, e o Embaixador António Pinto da França, então Cônsul Geral no Rio de Janeiro, que citei no meu livro, a propósito do ofício de diplomata. António Pinto da França tem escrito interessantes memórias e, quem sabe, talvez venha um dia a debruçar-se sobre esse período conturbado. Sei que o meu pai tinha uma grande admiração pela diplomacia brasileira, que considerava das melhores do mundo. 

 

 

 

 

 

Notas:

obras de António Pinto da França aqui 

 

 o artigo citado neste post está aqui

 

 

 

 

 

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21.5.11

 

 

 

 

Copacabana, Rio de Janeiro, Anos 70 

 

 

A resenha de Clóvis Brigagão (aqui) fez-me recordar o Brasil, precisamente no ano de 1976, quando lá fui a primeira vez. A beleza do Rio de Janeiro e ouvir falar português naquele país do novo mundo causaram-me grande impressão, assim como me emocionou contemplar, dali, Portugal e a Europa.

O meu álbum de família, como muitos daqui, passa pelo Brasil; Santos e S. Salvador, onde alguns dos meus bisavós prosperaram nos negócios, a Bahia, onde nasceu meu avô materno, o Rio de Janeiro da infância de minha avó paterna:  país irmão, "terra de exílio", "porto seguro", às vezes as duas coisas, e outras mais, em tantos momentos da nossa história.


 

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17.5.11

 

 

 

aqui

 


O Cláudio Abramo era um grande jornalista brasileiro e um querido amigo meu. De uma delicadeza, de uma inteligência, de uma argúcia raras. Ele era um aristocrata anarquista, mas tinha a mania que era de esquerda e de esquerda revolucionaríssima. Mas a sua figura, a sua educação e os seus modos não davam para tanto.

Ele tinha um lugar de chefia na Folha de São Paulo. Não me posso esquecer do dia em que fui ter com ele ao jornal e pediu a uma menina servente dois cafés. A menina trouxe os dois cafés numa bandeja, mas tropeçou logo à entrada e espalhou os cafés por cima da mesa. Coitadinha, de atrapalhada, pôs-se a chorar. O Cláudio levantou-se e tentou consolá-la com uma ternura e uma delicadeza que nunca mais esquecerei:

— Ó filhinha, isto não tem importância. Nós é que te pedimos desculpa de te fazer vir aqui com os cafés...

A pequena lá ficou menos nervosa, veio limpar a mesa e trouxe outros cafés. A delicadeza desta cena do «revolucionário» com a menina dos cafés nunca mais me saiu da cabeça e é essa a memória que me ficou do Cláudio.

Quando veio o 25 de Abril, o primeiro telefonema que recebi foi dele. Queria que eu fosse trabalhar para a Folha, em São Paulo, pois estava preocupado com a minha sorte em Portugal. Tranquilizei-o. Disse-lhe que ficaria por aqui, que finalmente íamos ter liberdade mas se, por um acaso, viesse uma «democracia popular», que aí sim. Que já não tinha idade nem condição social para viver numa coisa dessas e que não me esqueceria da sua oferta.

Mas o Cláudio não ficou tranquilo. Como o Victor Cunha Rego tinha trabalhado com ele na Folha, resolveu telefonar ao Victor. Disse-lhe:

— Ó Victor, por favor, vocês não matem o António Alçada!...

O Victor respondeu-lhe:

— Vamos lá agora matar o António Alçada! Era o que faltava. A gente não vai matar ninguém...

Então, veio a revolução ao cimo daquele aristocrata nato e disse de lá meio agastado:

— Não matam ninguém! Então que raio de revolução é essa que não vai matar ninguém...

 

 

António Alçada Baptista

in  A Pesca à Linha, Algumas Memórias

© Editorial Presença aqui

 

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13.5.11

 

 


 

"Voz de Portugal", Nº 2.467

Rio de Janeiro, 24 de Setembro de 1976

 

 

VOZ de PORTUGALO recente discurso feito à Nação através da televisão pelo Primeiro-Ministro Mário Soares, causou em Portugal — como aliás também no Brasil, em todos quantos o leram — um forte impacto, pela franqueza e coragem com que nele se abordava a crise em que o país se debate. Mas o diagnóstico que o Primeiro-Ministro fez da situação econômica portuguesa é tão grave, que pode pôr-se em dúvida se ele não terá gerado mais pessimismo do que a confiança no futuro, que é indispensável que Portugal readquira. Que pensa V. Excelência disto?

 

 

 

VASCO FUTSCHER — Em minha opinião, era preciso dizer ao país serenamente, mas sem meias verdades, tudo aquilo, exatamente, que o Primeiro-Ministro lhe disse. E que se a crise da economia portuguesa nunca deixou de ser focada em diferentes tons, e num ou noutro sentido, por todas as forças políticas, desde há um ano para cá, a verdade — ainda que aparentemente paradoxal — é que a larga maioria do povo português ainda não sentiu, diretamente, os efeitos negativos. Graças às grandes reservas de ouro acumuladas pelo regime anterior ao 25 de abril, foi até agora possível conseguir internacionalmente todos os empréstimos externos que solicitamos e evitar assim medidas restritivas ou quaisquer dificuldades de abastecimento público. Certo que temos vivido com uma alta taxa de inflação, e que a vida está hoje muito mais cara do que há cerca de dois anos. Mas os grandes aumentos salariais concedidos nestes dois anos — muitos inteiramente justificados, mas muitos outros, também, completamente irrealistas — por tal modo melhoraram o poder aquisitivo do povo, que pode dizer-se que este nunca, desde há muito, auferira um nível de vida tão alto como aquele de que beneficiou desde 25 de abril de 74.

 

Tudo estaria certo se a produção não tivesse sido afetada e tivesse aumentado, porque então teríamos apenas procedido a uma mais justa distribuição da renda nacional. Mas não foi isso o que se deu: não tem sido o produto do trabalho do país que tem sustentado o enorme acréscimo das despesas nacionais. Estas apenas têm podido ser cobertas através da progressiva descapitalização do Estado, a que é agora imperioso e inadiável por cobro.

 

A esta luz, julgo que a alocução do Dr. Mário Soares terá tido sobretudo em vista preparar psicologicamente a nação para as medidas que, com caráter urgente, o governo terá de adotar para sobrevivermos. Como o próprio Dr. Mário Soares frisou, mais importante para qualquer país do que o ouro em cofre, é o trabalho e a sua capacidade de produção. O que hoje é inadiável para recuperar a economia, e recriar uma atmosfera de ordem e disciplina, absolutamente incompatível com greves selvagens, com ocupações ilegais, com o absentismo que hoje se verifica em largos setores da vida económica, com manipulações partidárias disfarçadas de movimentos de "justa luta pelos direitos dos trabalhadores", com reivindicações salariais completamente irrealistas e, enfim, com a política de avales até agora prosseguida pelo Estado e que, como era previsível, em vez de estimular a produtividade, encorajou sobretudo o absentismo e o parasitismo, por os trabalhadores saberem as empresas protegidas contra o risco de falência.

 

A curto prazo, julgo que será impossível restaurar a nossa vida económica e restabelecer os índices de produção industrial e agrícola que havíamos atingido antes de abril de 74. Mas a condição de base para isso se tornar possível é a restauração de um clima de ordem e disciplina nacionais, e creio que é essa tarefa que o governo se consagrará prioritariamente, não numa perspectiva partidária, mas — como o próprio Dr. Mário Soares o disse claramente — numa perspectiva nacional.

 

 


6.5.11

 

É um dos escritores que cito no meu livro, a propósito da criação do Círculo Eça de Queiroz. As suas memórias são incontornáveis para quem se interesse pela história dos nossos costumes no século XX. Esta sua bela carta a Marcello Caetano, que faz parte do IV volume de Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo, editado postumamente, tem obviamente um significado especial para mim. 

 

 

 

Salvador, Bahia, 15 de Outubro 1976

 

 

Meu querido Marcello

 

Tem sido minha sina escrever-lhe, principalmente nos últimos anos, os da sua Presidência, em parte talvez por propensão minha a expor as ideias mais facilmente por escrito do que de viva voz, em parte também pela dificuldade do diálogo. O que até há dois anos nunca supus foi que teria de lhe escrever para o exílio, como de Lisboa algumas vezes já fiz e como hoje volto a fazer desta doce terra da Bahia, que nos recorda dolorosamente a nossa grandeza passada e perdida. Não por qualquer sentimento nostálgico de já não sermos hoje, como há dois séculos, senhores da Bahia. Mas pela tristeza de meditarmos na civilização tão idêntica que estávamos a erguer nas terras de África e que criminosamente destruímos.

 

Tem hoje esta carta dois propósitos. O primeiro dizer-lhe quanto me comoveu voltar a vê-lo depois deste intervalo longo e tão fundo. Longo de trinta meses. Tão fundo que nele tombou sem remédio tudo que nas nossas vidas ficou para trás.

 

O segundo propósito é o de o esclarecer sobre a posição que Você se atribuiu e que ditou a sua atitude de não comparência à minha posse na Academia Brasileira de Letras e à minha conferência no Gabinete Português de Leitura. Manteve-se Você ausente duma e doutra cerimónia por considerar que, aceitando eu as atenções ou homenagens do Embaixador e dos cônsules de Portugal, pactuava com o regime que domina Portugal e era (tenho ideia que foram até aí as suas palavras) de qualquer maneira representante dele. As minhas palavras de repúdio de tal interpretação devem ser completadas, para que o equivoco não se mantenha a ensombrar uma amizade que qualquer diferença de critérios não deve prejudicar.

 

Vim ao Brasil a título inteiramente particular, sem qualquer auxílio ou intervenção do Estado Português, como escritor independente que sempre fui e continuo a ser. Essa independência não me trouxe quaisquer prémios no regime anterior e manteve-me inteiramente isolado enquanto passava a procissão dos aderentes no triste Carnaval, no trágico cortejo fúnebre da vida portuguesa dos dois últimos anos.

 

Mas se no Brasil o Embaixador e os cônsules de Portugal quiserem homenagear em mim o escritor independente que sou, entendi que seria grosseiro da minha parte repelir esses gestos de estima, vindos alguns da parte de amigos meus do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Fui vinte e cinco anos funcionário desse Ministério e nunca me considerei representante do regime — o qual, aliás, servi com independência que não excluiu a maior lealdade — mas representante do meu país, como na actual conjuntura considerei aqueles funcionários não representantes exclusivos dum determinado regime, o actual, cujas culpas não lhes cabem, mas representantes de Portugal.

 

Olhando para trás, para estes dois anos e meio decorridos, para o que sofri - e nesse rol contam-se alguns insultos —, para o que perdi, a fortuna honradamente amealhada ao longo de meio século de trabalho, a posição na TZR, que com tanta dedicação servi ao longo de trinta anos — e disso tudo nada me ficou, nem uma pensão de reforma —, olhando para trás sinto que tenho alguma autoridade para calar no Estrangeiro as minhas queixas, para não rasgar mais as feridas que despedaçaram a nossa pátria e dentro de nós tudo que nela amávamos, e manter com isenção e serenidade, neste Brasil que nos observa, uma certa esperança, débil que seja, em que Portugal, ferido quasi de morte, ainda encontrará condições de sobrevivência. E servindo como escritor o espírito português, eu sirvo Portugal.

           

De resto, considerando, sem qualquer equívoco, traidores à Pátria os militares que tinham por missão defendê-la e de 25 de Abril de 74 a final do ano passado procederam com desígnio implacável à sua destruição, não posso envolver nesse apodo os civis que no exercício hoje duma actividade política legítima procuram, melhor uns do que outros, servir o país no plano da governação. Portugal tem de ter quem o sirva, mesmo a braços com esta situação angustiosa que Você próprio não soube ou não pôde evitar-lhe.

 

Traidor, não posso considerar de forma alguma o seu cunhado, o Prof. Henrique de Barros, membro destacado do actual governo. E quando, antes de partir para os Estados Unidos, o meu filho João Filipe exerceu durante uns meses, já este ano, as funções de adjunto do secretário de Estado da Emigração, Sérvulo Correia, ele serviu o nosso país e não o bando de traidores que o apunhalaram.

Portugal precisa de todos os seus bons filhos. Infelizmente ainda se movimentam muitas ovelhas ranhosas no rebanho. Mas isso levar-nos-ia muito longe e transcende o objectivo desta carta, esclarecimento devido à sua amizade, que tanto prezo.

 

Lembre-nos a sua Irmã, com muita estima, e com as lembranças da Graça e minhas, abraça-o o velho, grato e dedicado amigo

 

 

Joaquim

 

 

 

Joaquim Paço d'Arcos

in  Correspondência e textos dispersos 1942-1979  aqui  

 

Selecção, organização e notas de João Filipe Paço d’Arcos e Maria do Carmo Paço d’Arcos

© Publicações Dom Quixote, 2008

© 2008, Joaquim Paço d’Arcos

 

 

Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo aqui

 

 

 

 


  

 

Jornal "Voz de Portugal"

 

 

 

JOAQUIM BELFORD CORRÊA DA SILVA (PAÇO D'ARCOS) nasceu em Lisboa, a 14 de Junho de 1908. Na sua infância e juventude acompanhou seu pai, oficial da Marinha, em diversos governos no Ultramar: em 1912, em Angola; em 1919, com 11 anos, atravessando os EUA para Macau, onde reside cerca de três anos, passando temporadas em Hong-Kong e visitando o Sul da China; anos mais tarde, secretário do Governo da Companhia de Moçambique, na Beira (1925-1927). Com 20 anos foi para São Paulo, no Brasil, como antiquário, exercendo também o jornalismo. Em França, em 1931, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Em Lisboa, foi empregado bancário, trabalhou na Companhia Nacional de Navegação e, em 1936, vai dirigir os serviços de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mantém-se nesse posto até 1960 e, ao longo desse quarto de século, entrecortado por inúmeras viagens aos mais variados pontos do globo, e por dramáticos acontecimentos mundiais, foi erguendo a sua abundante e vigorosa obra literária, com 50 títulos publicados, como romancista - donde se destacam os seis volumes de Crónica da Vida Lisboeta -, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, poeta. Os seus livros de memórias ficaram interrompidos no final do terceiro volume por ter falecido a 10 de Junho de 1979, em Lisboa. Este livro corresponde, afinal, a um IV volume de Memórias da Minha Vida e do meu Tempo, editado postumamente. 

 

 

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30.4.11

 

 


Gaby Photo, Léopoldville, 1954*


  

 

Comemoro hoje o segundo aniversário da publicação de "Retrovisor, um Álbum de Família" com a resenha de Clóvis Brigagão, amigo de longa data, que acompanhou de perto o meu projecto e, pelo caminho, me deu bons conselhos. O texto não chegou a sair no jornal mas aqui não podia faltar, passe a imodéstia. 
 

 

 

RETROVISOR – Um Álbum de Família

Vera  Futscher  Pereira

Lisboa,  Rui Costa Pinto Edições, 2009

 

 

 

Nessa encantadora e elegante obra de arte literária, Vera Futscher Pereira revela-nos o âmago de um álbum familiar. Ali estão as origens remotas da família e de seus negócios, alguns deles exercidos em Salvador da Bahia e no Rio de Janeiro, de um Brasil ainda bucólico. Ali estão também os caminhos pacientemente construídos no presente e, finalmente, a oferta generosa do futuro à nova prole.  Mais além do legado fotobiográfico, o que apreciamos é a tecedura criativa, muito bem elaborada, através de uma trama 'a descoberto' ... Retrovisor é totalmente aberto às aventuras e desventuras que o leitor, intruso?, quer saborear a cada página.  

À sua arte se junta, sem descontinuidade, o delicado e sensível ofício, tenaz e reluzente, que adquire sentido como ato de amor declarado a tecer, fio a fio, palavra a palavra, o retrato privado da família Futscher Pereira: a lusofonia cosmopolita. Essa ilustrada fotografia familiar ganha sabor e notável dimensão ao incorporar na narrativa o rico contexto histórico com variados comentários do desenrolar sociológico, político, cultural e, porque não, psicológico desses dois tempos, o privado e o público. É pura prosa poética, sob a bela e brilhante composição gráfica, que a autora presenteia ao público, sem pieguice ou maneirismos.

Ao lado da estória da vida dos avós, dos parentes próximos, principalmente dos pais, Vasco e Margarida, de si mesma e dos dois irmãos Cristina e Bernardo, a navegar pelo mundo afora, a autora abre suas páginas aos acontecimentos do dia-a-dia – através de textos tanto seus como de vários comentaristas. Cabe aqui um parêntese sobre o significado dos textos. Primeiro os da própria escritora, alinhavados com graça e sensibilidade, como « ... a tentativa de reagrupar pessoas e lugares dispersos pelas rupturas da vida - e pela própria passagem do tempo ». Narra, de forma concisamente confortável, como andavam as coisas da família, da política portuguesa e do mundo, dos movimentos culturais, artísticos e literários, criados pela geração nascida nos anos 20 do século passado, mas que ainda ressoa aqui e agora, a desvendar as várias circunstâncias que percorrem as páginas, sem perder o fio da meada, num português refinado e claro. Anoto outras contribuições textuais: notas, telegramas, cartas e registros diplomáticos do embaixador Vasco Futscher Pereira, sempre impecáveis, em múltiplos sentidos e em especial notas, artigos e recortes de jornais sobre seu tempo como Embaixador em Brasília (75-77). Os poemas extraídos dos dois livros de Margarida Futscher Pereira: Lugar Comum e Bens Adquiridos, portuguesmente poéticos, como este: « temos que trilhar/piso difícil/para aprender/a saudade sem mácula» (p. 165). O artigo de Bernardo Futscher Pereira publicado em O Jornal (21/05/1982) “Reagan e Brejnev Trocam Galhardetes”, análise política intocável sobre a pressão da opinião pública nos estertores da Guerra Fria. Além de vários outros textos sempre muito bem contextualizados, destaco os diretos, firmes e literariamente muito bem escritos, de Maria Filomena Mónica de seu livro A Evolução dos Costumes em Portugal, 1961-1991.       

Como forma de ilustração da estória familiar, que une geração e vida cultural – onde o mundo entra e participa dessa saga - a autora concebe, com gracioso apuro, uma obra que frui livre, a extrair toda a riqueza e vantagens literárias e estéticas de seu Retrovisor. Além de ser obra de leitura muito cativante e prazerosa, ela é recomendada para os estudos de sociologia e antropologia familiar, para cursos de artes gráficas, letras e jornalismo e até mesmo para os que gostam, estudam e pesquisam épocas e interações das relações humanas. Do abrir ao fechar as páginas de Retrovisor, o espelho recompõe todas as figurações, os textos, as imagens e, principalmente, as pessoas que de forma comovente, humana e precisa, Vera Futscher Pereira consagra em suas essencialidades.

 

 

Clóvis Brigagão

cientista político e escritor, brasileiro, viveu em Lisboa entre 1975-1979.

 


*Foto de capa de "Retrovisor" (Cristina, 1954)
 


14.2.11

 

 

 

 

 

 

 

 

neste terceiro ano de actividade bloguística talvez valha a pena fazer um balanço. Começo por explicar aos visitantes recém-chegados que me lancei nisto para anunciar um livro que tinha acabado de escrever e ia publicar daí a uns meses, em edição de autor (saiu em Maio de 2009). Não podendo contar com grande visibilidade nem distribuição, a oportunidade de usar uma montra gratuita e interactiva era bastante tentadora. Também desejava mobilar o "vazio", quase inevitavel após a finalização de um projecto que me ocupava há muito tempo.

 

 

Um blog, além de servir para mostrar imagens e curiosidades que tinham ficado na gaveta, permitia seguir com os mesmos temas - recordações, álbuns de família, fotografias, curiosidades - e explorá-los mais livremente, sem as mesmas preocupações de coerência, cronologia, fio narrativo, ou o que fosse. Com a ajuda de autores favoritos, fui assim construindo este 'arquivo', procurando casar o álbum de família com as minhas leituras e os assuntos que me interessam.

 

Valeu a pena: julgo que este Retrovisor contribuiu para criar interesse no outro, cuja edição impressa (500 exemplares) se encontra quase esgotada. Volta e meia sinto a satisfação de 'acrescentar um conteúdo'  que ficará guardado na net. Tive a alegria inesperada de reencontrar amigos que perdera de vista e fiz novos contactos na blogosfera.

 

 

Ultimamente este blog recebia 20 a 30 visitas por dia, o que, não sabendo se é muito se é pouco, me contentava. Há dias o Retrovisor mereceu um destaque dos "blogs do sapo", que fez disparar o número de visitas, uma agradável surpresa, veremos se muda alguma coisa. A média de comentários é que é baixa, menos de um por post. Gostava de receber mais feedback, em particular dos visitantes regulares, que sei que há alguns, pelo menos em Portugal, França, Bélgica, Brasil e Estados Unidos. Aos leitores que se têm manifestado, por comentário ou e-mail, nunca agradeço o suficiente.

 

 

Muito obrigada a todos pela visita!

 

 

Imagem: cartão de Dia dos Namorados, E.U.A., anos 50

 

mais sobre este blog e o livro na tag "retrovisor"

 


3.2.11

 

 

 

 

este número da revista aqui

 

 

O meu pai faria anos hoje. Havia de achar graça e ficar todo satisfeito com esta escolha de capa da "Relações Internacionais". Vem ela a propósito da recente eleição de Portugal para o cargo de membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, por um mandato de 2 anos.

 

Esta fotografia foi tirada em Maio de 1979, mês em que coube a Portugal assumir pela primeira vez a presidência do CS, era ele nosso embaixador na ONU.

Recentemente apareceu na televisão, por duas vezes, na série de programas de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial transmitidos pela RTP. Em Dezembro último foi recordado pelo Embaixador Paulouro das Neves no final de uma entrevista ao “Diário de Notícias”:

 

 

A missão de um diplomata é diferente hoje?


Creio que não. [...] A essência não mudou. Quando eu estava em Brasília, no tempo do PREC, aprendi com o embaixador Futscher Pereira que um diplomata tem o dever de dizer a verdade sem ofender as autoridades do país onde está, e dizer a verdade ao Governo do seu país correndo o risco de o ofender. Isto mantém-se hoje.

 

 

 

 

A entrevista do Embaixador Paulouro das Neves na íntegra aqui

 

Mais sobre a série de reportagens de Joaquim Furtado aqui

 

IPRI aqui

 

 



27.5.10

 


 

 

Margarida de Barros Pereira de Carvalho (1892-1968)

Baía, Brasil, c. 1896

 

 

 

Descubra o álbum que contém esta fotografia no post "O álbum do Brasil" aqui, e outras fotografias do mesmo álbum clicando na tag "brasil".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Casa da Mogada, no Concelho de Guimarães, de onde era natural a minha bisavó Maria do Carmo de Barros de Faria e Castro , pertencia a esta antes do seu casamento com Guilherme Pereira de Carvalho. Coube em herança a Margarida de Barros Pereira de Carvalho, a terceira dos sete filhos do casal.

 

 

 

 

 

 

Maria do Carmo de Barros de Faria e Castro (1868-1926)

e Guilherme Pereira de Carvalho (1864-1927)

(fotografia reproduzida no livro Retrovisor, um Álbum de Família)

 

 

 

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