9.8.17

 

Operator

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Gemeinschaft e Globalização

 

 

 

O sabonete fugira-me das mãos (os portugueses nunca deixam cair coisas – estas “fogem-lhes das mãos”, dizia o Alexandre O’Neill), baixei-me para o apanhar e dei comigo estatelado de costas no duche do hotel (com a água fechada). Chamei em vão pela Myriam; a construção de hotéis leva a peito o isolamento acústico. Quando, hora e meia depois, ela acordou e telefonou a pedir ajuda, mulher nova comandando homem também novo, empregados do hotel simpáticos e sorridentes, puseram-me de pé num instante com eficácia profissional.

 

Uma hora depois, telefonei a pedir informação sobre o horário do pequeno almoço. A recepcionista deu-ma e perguntou-me a seguir se o Senhor Embaixador estava melhor. Numa lufada de amor da Pátria chegou-me cena passada há quase 83 anos em Évora. Na noite em que eu nasci, em casa dos meus avós maternos, o Pai fez chamada para amigo em Lisboa a dar a notícia. Os telefonemas interurbanos nessa altura pediam-se a uma central (a que chamavam Troncas). Pouco depois de acabada a conversa o telefone tocou; era a menina de Troncas que fizera a chamada, para dar os parabéns ao Senhor Doutor.

 

Aconchegos difíceis de imaginar em lugares protestantes e puritanos, onde pecariam por inconfidências inadmissíveis. Presumo que seja a regularidades assim que alguns antropólogos chamam “vigências”, certezas que não mudam através do tempo apesar do resto mudar tanto à nossa volta.

 

Mas antes, de papo para o ar no chão entre as 6 e as 7 e meia da manhã, tinha-me lembrado de outra coisa. Há poucos anos, prémio Nobel (1974) da medicina belga com 95 anos, viúvo, que fazia ainda 40 piscinas de 20 metros por dia, sentiu-se mal em casa, caiu e, até a mulher-a-dias chegar 14 horas depois, não foi capaz de se levantar. Ficou furioso, indignou-se com limitações postas na Bélgica à eutanásia que lá é legal mas tem de ser autorizada e tanto barafustou (e tão grande era o seu prestígio) que depressa lhe deram licença e pôde ir-se embora em paz, cercado por família que muito lhe queria. Acreditava – como eu acredito – que, depois de morto, nada dele sobreviveria.

 

Entretanto vou tendo notícia de outras coisas: numa aldeia do Paquistão, conselho dos anciãos decidiu que menina de 17 anos, cujo irmão tinha violado outra menina de 17 anos, fosse ela própria violada, não dizendo a notícia por quem. Em Canton, Mississippi, numa fábrica da Nissan, 3.500 operários, homens e mulheres, quase todos negros, votaram quinta e sexta-feira passada e rejeitaram, por maioria de 60%, a sindicalização. O sindicato em questão – United Automobile Workers - acusou Nissan de ameaçar e intimidar os operários; alguns destes evocaram caso de corrupção de chefe sindicalista. O Sul dos Estados Unidos continua ainda menos sindicalizado do que o resto do país.

 

O mundo é vário – e áspero demais em muitos lugares. Continuo a preferir a decência europeia que inclui hoje muitas vezes a liberdade de casar com quem se queira e o direito de morrer em paz.

 

 

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26.10.16

 

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In real time e sem anestesia

 

 

 

Às vezes parece estarmos a assistir assim ao fim do projecto europeu. Na sexta-feira passada, em lágrimas, a ministra do comércio externo canadiana, saindo de encontro com o presidente do governo valão (região do sul da Bélgica cujos habitantes falam francês), governo que à última hora decidiu bloquear acordo comercial de grande alcance, começado a negociar há 6 anos entre a União Europeia e o Canadá, fez a declaração seguinte (cito-a em francês como ela falou):

 

« Au cours des derniers mois nous avons travaillé très fort avec la Commission européenne et avec beaucoup des pays des membres-états de l’Union européenne, y compris l’Allemagne, la France, Autriche, la Bulgarie, la Roumanie. Le Canada a travaillé vraiment et moi personnellement j’ai travaillé très fort.

 

Mais il semble évident pour moi, pour le Canada, que l’Union européenne n’est pas capable maintenant d’avoir un accord international même avec un pays qui a des valeurs si européennes comme le Canada, et même avec un pays si gentil et avec beaucoup de patience comme le Canada.

 

Le Canada est déçu. Moi personnellement je suis très déçue. J’ai travaillé très fort. Mais je pense que c’est impossible. Nous avons décidé de retourner chez nous et je suis très, très triste et c’est une chose emotionelle pour moi. La seule bonne chose que je peux dire c’est que demain matin je serai chez moi avec mes trois enfants ».

 

É bonito - e triste - mas afinal, sábado de manhã (altura em que escrevo estas linhas: por razões longas de enumerar devo acabar hoje o texto que irá para o ar – ou o éter ou a web, não sei como dizer – na próxima quarta-feira) a senhora está ainda em Bruxelas a negociar com o presidente do Parlamento Europeu antes de voltar para casa ainda hoje e talvez, depois desta peripécia, tudo fique pronto a tempo do jovem Trudeau (filho do velho Trudeau que já morreu e também foi primeiro ministro do Canadá) assinar na quinta-feira em Bruxelas, como previsto, o novo acordo. Esperemos que sim – mas o episódio é característico da doença que mina a Europa desde que a URSS acabou. O medo dela dava pulsões centrípetas aos países das Comunidades Europeias que iam ajudando a União a fazer-se. Agora cada um trata de si e liga pouco aos outros, como era costume dantes. O poder comercial da Europa vem da Comissão negociar com terceiros em nome dos países membros. Este verão, sob enorme pressão da Alemanha e doutros, contra a opinião dos seus serviços jurídicos, a Comissão deixou que nações pudessem negociar também. Levou mais tempo e estava quase feito quando a estrutura constitucional belga permitiu que os valões se metessem a desmancha-prazeres. O precedente vai enfraquecer a Europa.

 

E dá mais uma história belga. Má. A maioria flamenga, de economia mais rica, está furiosa e eu lembrei-me do meu colega belga de Estrasburgo, em 1979. « Tu sais ce que c’est que la pollution ? Un wallon dans la Meuse. Et la solution ? Tous les wallons dans la Meuse! ».

 

 

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13.4.16

 

 

 

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Em April, águas mil.

 

 

 

Gente mais lida do que o comum dos mortais deste maravilhoso país que tão generosamente acolhia no seu seio o meu chorado A. B. Kotter (Ei Bi para os amigos), inglês da Várzea de Colares - mais lida e mais provinciana (os piores sãos que acham que o não são, como disparou um dia a Teresa Gouveia, irritada já não me lembro com qual deles) quando, diante dos incómodos e contradições pós-equinociais do quarto mês do ano, gosta mais de dizer “Abril é o mês mais cruel” e, de preferência, dizê-lo em inglês - April is the cruellest month - papagueando a primeira e mais célebre linha do mais célebre poema moderno do século XX na língua do Bardo, The Waste Land, publicado em Londres em 1922, escrito por americano de Missouri com tal mania de ser inglês que se naturalizou, protestante, na Church of England mais precisamente depois da vinda para Inglaterra, e com tanta vontade de ser Católico Apostólico Romano que só a liturgia da High Church o contentava, educado em Harvard e vindo continuar os seus estudos de lógica formal em Merton College, Oxford, visitando também muito Bertrand Russell em Londres, que não só lhe ensinou lógica mas também lhe seduziu a mulher, muito neurótica, a quem aventuras como essa infelizmente não salvaram nem o casamento nem a saúde e acabou sozinha num hospício, enquanto o marido se foi inclinando cada vez mais para o vers libre (a mãe, numa carta a Russell, contava não dar nada por essa fantasia e esperava que ela passasse deixando o terreno à reflexão filosófica: quando T.S. Eliot veio a receber o prémio Nobel da literatura em 1948 já a Senhora tinha morrido) acompanhando muito com outro americano, Ezra Pound - que viraria fascista antes da Segunda Guerra Mundial havendo sido internado – cuja mestria poética é universalmente reconhecida, reviu e emendou The Waste Land que Eliot lhe dedicou chamando-lhe Il miglior fabbro.

 

Chuva e sol no dia de ontem levaram às ruminações acima, com 8 horas passadas no aeroporto de Lisboa, chamado singelamente da Portela (o meu nome preferido é Figo Maduro, mais aerogare do que aeroporto porque as pistas são as da Portela). Chegara a Lisboa na véspera com saída de Zaventem, aeroporto de Bruxelas, por corredores e salas improvisadas e erigidas muito depressa depois das atrocidades de 22 de Março, com pessoal dedicadíssimo que ia tratando uma a um, com vigilância atenciosa, quem rumava aos aviões. Menos de um quinto das descolagens diárias normais estão programadas e pôr a zona de embarques novamente como nova poderá levar nove meses. Depois do que se soubera de ineficácias belgas, a caminho e logo a seguir aos ataques terroristas, entrei no Airbus da TAP com admiração respeitosa e grata por aquela gente.

 

Ontem, à volta, balde de água fria. Sobre a diligência do resto do pessoal e perante indignação geral no país, os controladores aéreos belgas meteram-se a greves intermitentes que já estavam programadas. A espécie humana dá uma no cravo, outra na ferradura.

 

 

 

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30.3.16

 

 

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 Aeroporto de Zaventem, Bruxelas, 2016

 

 

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Avé Marias e pelouros

 

 

 

“E com muitas Avé Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo” conta Fernão Mendes Pinto do combate da sua nau contra o junco do pirata Cimilau, no mar da China. Embora o homem da Peregrinação tivesse veia mitómana à Luis Stau Monteiro – chamavam-lhe mesmo Fernão, mentes? Minto! – esta tem pinta verídica (com os nossos que lá ficaram convencidos de que iriam dali para o Céu).

 

Convicções semelhantes nutre rapaziada (e, em muito menor número - mas não querem valer menos que os homens - raparigada) que ultimamente, ao grito de Alá é grande!, se faz explodir, a si própria e a muita gente à sua volta, em vários lugares da Europa: o último tendo sido Bruxelas. Europa onde quase todos eles (e elas) nasceram, e em cujos reformatórios e prisões, a que delitos comuns mais ou menos violentos os haviam levado, foram convertidos ao Islão radical. São a carne de canhão do Estado Islâmico, mandados para o matadouro por teólogos e por tecnocratas que, esses, não se suicidam para ganharem atalho directo ao Paraíso.

 

Em suma, estão em guerra contra nós. Não só contra nós: o Estado Islâmico é, primeiro que tudo, um ariete sunita contra chitas e outros hereges muçulmanos, a seguir contra judeus mas, por variadas razões, a sua sanha contra europeus e norte americanos tomou posição de proa. Havia 15 sauditas entre os 19 kamikazes do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e em Washington; agora a primeira explosão na aerogare de Bruxelas foi na bicha da American Airlines, a segunda, logo a seguir, num Starbucks a 50 metros. Estados Unidos e União Europeia - aquilo a que se costumava chamar o Ocidente – são alvo predilecto dessa guerra. E aí temos um problema.

 

Entendidos falarão logo de guerras assimétricas: nisso, terroristas calham pior ainda do que guerrilheiros; a OTAN, joia da nossa coroa, foi inventada para nos proteger de ataque convencional da Rússia, a começar na Alemanha. Tal investida nunca chegou: ganhámos a Guerra Fria sem ninguém dar um tiro; houve quem quisesse acabar com a OTAN nessa altura, o bom senso prevaleceu, depressa precisámos dela para peacekeeping robusto (na Bósnia e no Kosovo), está bem preparada para meter o devido respeito à Rússia belicosa de Putin. Os Aliados que a integram sabem que têm também de acudir aos perigos do Sul e estão a meter mãos à obra.

 

O problema é outro. Quanto a armas químicas, o Presidente dos Estados Unidos traçou uma linha vermelha para além da qual o governo sírio não poderia passar. Este passou mesmo e não lhe aconteceu nada. Os aliados dos Estados Unidos estremeceram, Putin rejubilou e Obama insiste em dizer que assim é que deve ser. A ministra dos negócios estrangeiros da Europa - em tudo menos em título - durante uma visita oficial a Amã, quando soube das atrocidades de Bruxelas desatou a chorar diante de jornalistas. “Um fraco rei faz fraca a forte gente” escreveu o Vate que sabia destas coisas e perdera um olho a guerrear contra os mouros.

 

 

 

 

 

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6.1.16

 

 

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Vontade nacional

 

 

 

“… parecer-me-ia muito interessante que escrevesse sobre um dos mais difíceis factores mensuráveis (?) do poder de um Estado - a vontade nacional. Onde está a nossa vontade nacional? Existe? Para onde caminha? O que se espera da nação? Ainda somos um estado-nação?”

 

Bom conselho de politóloga, se nos quisermos pôr a pau perante o que são Mundo, Europa, euro, democracia, desemprego, temperaturas, Maomé, Cristo, Buda, terroristas, velhos, refugiados, mulheres veladas e sem véu, passado, futuro. Embora eu olhe para o assunto de outro jeito por achar que a ciência política não ajuda muito a entendê-lo (nem a entendermo-nos a nós por via dele). Já a História ajuda, se for bem contada como foi, por exemplo, a da guerra do Peloponeso; histórias ajudam também, tal a de Anna Karenina ou as de outras infelicidades; versos; frescos; estátuas; música – e fica um ror sem fim por entender. Não é só coisa de hoje e de aqui. “Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução” escreveu o brasileiro Carlos Drummond de Andrade no dia de Natal de 1928.

 

Seremos ainda um estado-nação? Duas vezes na vida julguei entender do que é que essa questão trata. Primeira. Quando fui embaixador em Moçambique, cinco anos depois da independência, tinha na residência três criados moçambicanos. Lourenço, Jacinto e Salomão garantiam-me o serviço da casa; eu mantinha-os livres da sua liberdade. Um estado fizera reverência à boca de cena e retirara-se para deixar outro estado tomar conta do palco. Uma nação esboroara-se. Mas, quanto a nós os quatro, o ritual que nos regia continuava a ordenar o nosso mundo. (But to the four of us the center/ Holds escrevi eu então, a rematar versos de circunstância).

 

Segunda. O massacre islamita de 13 de Novembro passado, em Paris, foi planeado ao pormenor por residentes, alguns deles franco-árabes, do bairro bruxelense de Molenbeeck, lugar com tradição jiadista antiga – de lá saíram os assassinos do comandante Massoud do Afeganistão em 2001 – e ruas onde a polícia há décadas não põe pé. As polícias secretas europeias passam constantemente informações umas às outras e a investigação do massacre de Novembro mostrou que as autoridades belgas não tinham usado, ou tinham usado pateticamente mal, informação recebida; bem aproveitada poderia provavelmente ter impedido o massacre. Porque não há na Bélgica vontade nacional: flamengos e valões detestam-se; de alto abaixo, múltiplos níveis de decisão comunicam pouco e mal entre si; a disfunção do estado é permanente.

 

Em Maputo percebi que, em transições, anseio de ordem protegida encontrará maneira de se satisfazer, mesmo à custa de incongruências, porque de dentro para fora - do lugar onde dói – estas contam pouco.

 

Em Bruxelas percebi que boa-vai-ela tolerante de antijacobinos como eu não sabe defender-se de quem queira dar cabo dela. Caricatura premonitória de Europa sem estados-nação?

 

Entretanto, e como dantes, nós por cá todos bem.

 

 

 

 

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18.11.15

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Uma invenção recente

 

 

“A guerra é tão antiga quanto a humanidade” disse jurisconsulto inglês em meados do século passado: “A paz é uma invenção recente”. Ilustrando a razão dessa sentença deflagraram, já no século XX, as duas maiores guerras de sempre – até agora. Nós, na União Europeia, nascida como Fénix de brasidos deixados pelo fim da segunda depois da rendição incondicional da Alemanha nazi, parecíamos convencidos de que desta vez a paz era a valer e, sobretudo desde o colapso da União Soviética, achámos que não valia a pena gastar dinheiro em defesa, preferindo sacrificar esta a aumentos na saúde e noutros mimos, possíveis em tempo de paz. (Como escreveu outro inglês, Duff Cooper, ministro no governo de guerra de Churchill, autor de óptima biografia de Talleyrand e embaixador britânico em Paris em 1945 que saiu um dia abruptamente de restaurante explicando que a vida era curta demais para um mau almoço: “A ideia de que cortar nas despesas militares diminuirá os riscos de guerra é tão absurda como pensar que para reduzir o número de roubos se devam fechar as esquadras de polícia”). 

 

A inércia do bem-estar é muito forte. Em matéria de defesa - e de política externa, sem a qual não se saberia ao certo quem defenderia o quê de quem – nada parecia alarmar os nossos povos ou os nossos governos: nem Putin na Ucrânia, nem o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, nem o caos na Líbia depois de lá termos borrado a pintura. (Há alguns meses, antigos países de Leste e antigas Repúblicas bálticas da U.R.S.S., com memórias ainda vivas do bafo do urso no pescoço, conseguiram que a OTAN mostrasse os dentes lembrando que existia - sensatez milagrosa manteve a OTAN pronta a servir, agora com Secretário-Geral à altura - mas, no geral da União, não se pensava nestas coisas ou pensava-se nelas com pouco zelo). 

 

No fim da semana passada, da noite para o dia, as coisas mudaram com os ataques terroristas em Paris, comandados de Racca no Estado Islâmico do Iraque e da Síria e planeados no bairro bruxelense de Molenbeek, à esquerda de quem vá do Jardim Botânico para a Basílica, depois do canal, bairro que já pertencerá ao imaginário do Islão radical - também foram lá planeados o assassinato do comandante afegão antitaliban Massud, 2001, e os quase 200 assassinatos da gare de Atocha em Madrid, 2004 - em partes do qual a policia belga não se atreve a entrar.

 

François Hollande declarou que a França estava em guerra; Angela Merkel acrescentou que o acolhimento aos refugiados deveria continuar como antes. Por uma vez, desde há muito tempo, o eixo franco-alemão falou de cima, com razão e com coragem. Para continuar a existir a Europa precisa de absorver centenas de milhares de jovens que não tem na sua força de trabalho e precisa de saber defender-se de quem a atacar.

 

Vozes já se levantaram – também em Portugal - clamando que uso de força contra o Estado Islâmico não se deve permitir. Há gente que nunca aprende e gente que esquece o que tinha aprendido.

 

 

 


1.11.15

 

 

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 La Blessure (2004 França/Bélgica)

de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval

 

 

O melhor filme que vi nesta edição do Doclisboa é uma recriação notável das condições de acolhimento e de vida de imigrantes africanos em França.

Um texto sobre o filme e mais fotografias na revista Courte-Focale aqui.

 

A crítica de Jacques Mandebaum no Le Monde aqui

A text in English here.

 

 

 

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25.3.15

 

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Mapa da batalha de Waterloo 

 

 

 

 

 

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Waterloo

 

 

 

De imprevisto, a palavra poderia significar retrete em estância termal, na fala de algum condado do centro de Inglaterra, por exemplo, mas não - era nome de aldeia, então no sul da Holanda, que saiu da insignificância porque Wellington lá pernoitou e estabelecera quartel-general na véspera da última batalha que Napoleão travou, a 18 de Junho de 1815. Napoleão pernoitara a alguns quilómetros, na Ferme du Caillou, perto da aldeia de Plancenoit, onde estabelecera o seu quartel-general. (A cama de campanha ainda lá está e mostra que o Imperador nascido na Córsega era realmente pequenino). Se Napoleão tivesse ganho – e como dizia sem domínio do português idiomático, sueca que conheci: “Foi pela unha de um preto…” - a história dir-nos-ia da batalha de Plancenoit e a União Europeia haveria sido fundada século e meio mais cedo. 124 anos depois desse fiasco, foi a vez de alemão nascido na Áustria tentar a sua sorte mas tampouco se saiu bem. Como, entre a primeira e a segunda tentativa, a revolução industrial florescera, mortandade e prejuízo material na Europa foram incomparavelmente maiores nos 6 anos da Segunda Guerra Mundial do que na década das campanhas napoleónicas. De maneira que, com cidades e campos arruinados, ajuda material americana voluntariosa e terror salutar de Tio Zé Estaline & Herdeiros, os europeus para cá da Cortina de Ferro meteram-se à terceira tentativa, ainda em curso, de União Europeia. Três diferenças graúdas - e ligadas entre si - a separam das duas tentativas anteriores: está a ser feita a bem e não a mal, com votos e não com balas; hoje, nenhuma potência europeia tem poder que, sozinho, contasse no mundo; França e Alemanha, inimigos históricos, juntaram-se para serem “o motor da Europa”. Nem sempre tudo vai de vento em popa: tanta paz torna-se irritante sobretudo para quem, macho ou fêmea, seja novo e esteja desempregado. Desenvolveu-se indústria, assim uma espécie de app, para culpar Bruxelas de todas as nossas desgraças e querer extrair das pátrias - como um minério - bem-aventuranças de que a União nos privou. Se a economia recuperar ao ponto de criar empregos – e é um grande Se - não há de ser nada. Se não recuperar…

 

A Bélgica que na altura da batalha não existia ainda mas que hoje dela recolhe fama e proveito, prepara festejos de arromba, incluindo restituição de partes da batalha. A seguir à vitória, o Príncipe de Orange fez erguer a colina cónica com o leão em cima que desfeou para sempre a paisagem e passou a ser emblema do lugar. Desde o começo o sítio foi adaptado para celebrar e festejar. O curioso é que celebra Napoleão. Wellington era muito alto mas o grande homem era o outro.

 

O primeiro centenário caiu durante a Grande Guerra e mal se deu por ele. O terceiro terá porventura a batalha revivida por robots. E lá mais para diante, viajando-se para traz no tempo, talvez Napoleão, Wellington, o cavalo Copenhague e o resto do pessoal tornem a dar um ar da sua graça à morne plaine .

 

 

Imagem: aqui

 

 

 

 

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31.8.14

 

 

  Simon Leys / Pierre Ryckmans

 

 

 

La Chine a connu ces dernières années de prodi­gieuses transformations. Elle est en passe de devenir une super-puissance — sinon la super-puissance. Dans ce cas, elle sera — chose inouïe — une super­puissance amnésique. Car, jusqu'à présent, sa miracu­leuse métamorphose s'effectue sans mettre en ques­tion l'absolu monopole que le Parti communiste continue à exercer sur le pouvoir politique, et sans toucher à l'image tutélaire du président Mao, sym­bole et clé-de-voûte du régime. Et le corollaire de ces deux impératifs est la nécessité de censurer la vérité historique de la République populaire depuis sa fon­dation : interdiction absolue de faire l'histoire du maoïsme en action - les purges sanglantes des années 1950, la gigantesque famine créée par Mao (dans un accès de délire idéologique) au début des années 1960, et enfin le monstrueux désastre humain de la «Révolution culturelle » (1966-1976). Treize ans après la mort du despote, le massacre de Tianan-men (4 juin 1989) est encore survenu comme un post-scriptum ajouté par les héritiers, pour marquer leur fidélité au testament laissé par l'ancêtre fonda­teur. Mais ces quarante années de tragédies histo­riques (1949-1989) ont été englouties dans un « trou de mémoire » orwellien: les Chinois qui ont 20 ans aujourd'hui ne disposent d'aucun accès à ces infor­mations-là — il leur est plus facile de découvrir l'his­toire moderne de l'Europe ou de l'Amérique que celle de leur propre pays.

 

Quelle sorte d'avenir peut-on bâtir sur l'ignorance obligatoire du passé récent? «Ce qui peut constituer le plus grand obstacle empêchant la Chine de devenir un pays moderne au meilleur sens du mot, c'est sa volonté de maquiller et de récrire l'Histoire, tout par­ticulièrement, l'histoire de la "Révolution cultu­relle" », remarquait tout récemment le journaliste Jonathan Mirsky, perspicace observateur de l'actua­lité chinoise.

 

Mais la métaphore la plus éloquente de la situa­tion présente est encore ce Coma de Pékin évoqué par Ma Jian: le protagoniste du roman (une création particulièrement puissante de la littérature chinoise contemporaine) est un jeune manifestant décerveié par une balle perdue de Tiananmen, qui flotte, para­lysé, muet, sourd et aveugle, dans un coma sans fin.

 

 

Simon Leys

in Le Studio de l'inutilité

[Relire l'histoire de la « Révolution culturelle », Intoduction à la réédition des Habits neufs du président Mao (Ivrea 2009)]

© Flammarion 2012

 

 

Mais sobre o Autor aqui e aqui

 

 

 

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23.2.14

 

Congopresse Study photographs, 1930-1960 

Photographs taken by Congopresse photographers in the Belgian Congo. Accompanying the images are French and Flemish language captions which include specific information on locations and photographers, though often without dates.

 

 

Léopoldville, 1 Juillet 1948

H. Goldstein / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

A Léopoldville,le 1er juillet 1948, un Te Deum a été chanté en plein air devant le monument au roi Albert 1er, par S.E. le Cardinal Van Roey, Archevêque de Mâlines, Primat de Belgique, à l'occasion de 1'anniversaire de la proclamation de l' Etat Indépendant du Congo. Aussitôt après fut inauguré le monument aux Pionniers qui, il y a cinquante ans, construisirent le Matadi à Léopoldville, le premier chemin de fer de la Colonie. 

 

Léopoldville, 1 Juillet 1948

H. Goldstein / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

Te Deum: vue de la place et du boulevard Albert 1er

 

Léopoldville, 1 Juillet 1948

H. Goldstein / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

Les enfants des travailleurs indigènes de L'Otraco, organisme qui assure la gestion du chemin de fer, défilent devant les autorités à la fin de la cérémonie.

 

 

 

Sobre a minha colecção de fotografias Congopresse leia o post "No Congo" aqui e veja mais fotos clicando na tag "Congo".

 

 

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10.2.14

 

Congopresse Study photographs, 1930-1960 

Photographs taken by Congopresse photographers in the Belgian Congo. Accompanying the images are French and Flemish language captions which include specific information on locations and photographers, though often without dates.

 

 

 

 

Port de Léopoldville (sans date)

Photo: J. Mulders / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

Port de Léopoldville 1948

H. Goldstein / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

Le 2 Juillet 1948, le M.V. "Général Olsen", le premier bateau de grand tonnage a moteur Diesel mis en service sur le fleuve Congo, et le S.W. "Reine Astrid" ont fait une excursion sur le Stanley-Pool. ils avaient à leur bord les personnalités invitées aux fêtes du 50ème anniversaire de l'inauguration du chemin de fer du Bas-Congo.

 

 

Emate, Congo (sans date)

Photo: E. Lebied / Congopresse 

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

Pour ravitailler en combustible les bateaux qui parcourent le fleuve et les grandes rivières du Congo, d'innombrables "postes à bois" ont été établis le long des rives. Le bois abattu dans les forêts voisines s'y entasse au bord de l'eau, par centaines de stères. Au poste d'Emate une équipe de travailleurs ravitaille un grand stormwheeler.

 

Emate, Congo (sans date)

Photo: E. Lebied / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

Le SW "Reine Astrid" renouvelle sa provision de combustible au poste à bois d'Emate.

 

 

 

 

Photos:

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

 

Sobre a minha colecção de fotografias Congopresse leia o post "No Congo" aqui e veja mais fotos clicando na tag "Congo"

 

Agence Congo Presse hoje aqui

 

 

 

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3.2.14

 

 

 

Luc Tuymans

Reconstruction (Reconstitution), 2000.

© 2000, Friedrich Christian Flick Collection, photo courtesy David Zwirner, New York

 

 

Les dix tableaux qui constituent la série «Mwana Kitoko: Beautiful White Man» (Mwana Kitoko: Bel Homme blanc») ont trait à l'histoire du régime colonial belge au Congo et à l'assas­sinat de Patrice Lumumba en 1961. Premier homme politique nommé Premier ministre de l'ac­tuelle République démocratique du Congo à la suite d'élections démocratiques, Lumumba fut assassiné moins de sept mois après que son pays eut arraché son indépendance à la Belgique. Leader charismatique qui s'éleva avec vigueur contre les brutalités historiques du joug belge et appela à l'unité nationale, il représentait une menace pour les ambitions néocoloniales de la Belgique et des Etats-Unis, qui visaient à maintenir un contrôle politique et économique sur ce pays riche en ressources. On a pu rattacher la fomentation de son assassinat au gou­vernement belge, à la cia et aux hommes politiques sécessionnistes congolais; le mystère qui entoure les circonstances de sa mort reflète l'obscurité des réseaux de pouvoir en lice.

 

Dans «Mwana Kitoko», Tuymans interroge l'aptitude de la peinture à répondre aux événements traumatiques du passé récent et à les refléter de façon critique. Les œuvres sont tirées de sources iconographiques disparates, qui vont d'anciens films de propagande à des photos, prises par l'artiste, de scènes imaginaires et reconstituées, qui soulignent l'influence que les événements historiques continuent d'exercer sur le présent. La série comporte tout un éventail de styles et de genres, depuis le portrait formel jusqu'à l'instantané pris en passant. Exposées ensemble, ces images hétéroclites montrent que les récits historiques sont toujours formés de fragments contingents, incertains et discutables.

 

in Luc Tuymans (Catalogue de l' Exposition Luc Tuymans - Retrospective

Sous la Direction de Madeleine Grynsztejn et Helen Molesworth

Palais des Beaux-Arts de Bruxelles, 2011

@2011 Ludion & BOZAR

 

 

 

 

*

 

 

 

 

 

Léopoldville c. 1950

Foto: Gaby Foto, Leo

Fotografia do meu espólio familiar (ver mais na tag "Congo")

 

 

 

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1.2.14

 

 

 

Kinshasa, 2000

© Marie-Françoise Plissart

Plaizier Bruxelles

 

 

Veja também neste blog o post Kinshasa - Récits de la Ville Invisible

 

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10.1.14

 

 

 

Luanda, Angola 

© Royal Museum for Central Africa

 

This staged picture was shot in a studio on the African West Coast, and shows Henry M. Stanley describing his travels to the Portuguese Expedition (Ivens, Capelo, Serpa Pinto) at Luanda, [August or September 1877].

 
This oval-framed photograph, mounted on cardboard, with pencil inscription, is kept in the Henry M. Stanley Archives (King Baudouin Foundation Collection held in trust at the RMCA).

 

 

veja aqui o livro "Exploradores Portugueses e Reis Africanos"

 

 

 

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4.1.14

 

Maître SYMS

"Article 15"*, 1992

Courtesy: Gallery Lucien Bilinelli, Brussels

© Plazier, Brussels 

 

 

Écoutez mes bêtes,

la conjoncture de la 2ème République

ne permet pas de vous héberger!

Allez vous débrouiller

 

Snif... Maitre nous sommes ici pour vous!

Pourquoi tu nous abandonnes comme ça?

Où pouvons nous aller

 

 

 

Visitei recentemente o Musée Royal de l'Afrique Centrale, em Bruxelas, agora fechado durante 4 anos para obras de remodelação. Queria ver pela última vez as colecções na versão século XIX. A crónica de José Cutileiro no primeiro dia do ano — Nuers e Dinkas — serve-me agora de pretexto para regressar a África com mais umas curiosidades (ver tag Congo).

 

O artigo e o breve documentário recomendados abaixo são antigos mas permanecem actuais.

 

 

*Article 15:

 

After a series of deflationary measures announced by the Zairean government in September 1983, prices for basic commodities rose by 30 to 40 percent while salaries remained unchanged. This further reduced the standard of living of the average Zairean. A schoolteacher in Kinshasa, for example, makes $13 per month. A civil servant with a university diploma, earns $25 per month.

 

''With such salaries,'' a Western diplomat explains, ''you can't make both ends meet. To survive most Zaireans make ample use of what is known here as Article 15.'' In clearer terms this means many Zaireans give way to corruption: teachers sell diplomas. No official form is available from a civil servant without a tip.

 

O artigo Zaire, An African Nation rich in natural resources but plagued by political instability and economic stagnation na íntegra aqui 

 

Defined as 'Manage by Yourself', the mythical article 15 founded an 'informal' economy in Zaire. Squatting in the grey mud of the market Place, black 'Mamas' barter for survival, singing as they prepare their wares. They manage to supplement their husbands' earnings by running a 'black market'.

 

O documentário The Definition of Poverty - DRC  April 1996 aqui

 

 

 

 

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14.7.12





Bather posing for photo - Ostend c. 1913


Imagem: Library of Congress Prints and Photographs Division Washington, D.C. 20540 USA aqui
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6.7.12

Voiture baignoire, 1876 (29 Juillet après-midi) 

 

James Ensor (1860-1949)

imagem:© SABAM Belgium 2011

 

 

James Sidney Ensor (Ostend, 13 April 1860-19 November 1949) was the son of an English father and a Belgian mother. The family operated a souvenir and curiosity shop in Ostend and boarded rooms out to summer guests. [...] His seascapes, still lifes, naturalistic figure pieces and tableaux from the life of the young, modern bourgeois woman, such as the celebrated The Oyster-eater from 1882, unquestionably belong to the major works of the European Realism and plein air movements.

 

Ensor aqui 

 

 

Mais sobre estas barracas de praia  - "bathing machines"  aqui 

 

 

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1.7.12

 

 

 

Beach games at the Belgian Coast (1890-1960)

até 16 de Setembro de 2012 aqui


Musée de La Photographie Charleroi

 aqui

 

 

 

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25.4.11

 

 

 

Luc Tuymans

Within, 2001

222,9 x 242,9 cm

 

 

 

Lorsque l'on apprend qu'il a peint Within de mémoire, la cage devient une image mentale, surgissant de coins obscurs et douloureux de la mémoire et de l'imagination. Cet arrière-plan vide a l'air meurtri, tant par sa couleur que par le traitement agressif de la couche picturale (Tuymans a tailladé la surface du tableau avec le manche du pinceau). On ignore, en tant que spectateur, de quel côté de la cage on se trouve (sur ce point, le titre semble particulièrement de mauvais augure). Et en l’absence d'oiseau pour indiquer l'échelle dans cette immense toile, on peut penser qu'il s'agit d'une cage capable de nous enfermer. En fait, Tuymans semble convoquer son souvenir comme une sorte de piège silencieux: «Les tableaux, pour faire de l'effet, doivent avoir la formidable intensité du silence, d'un silence ou d'un vide rempli. L'observateur devrait rester figé devant le tableau, transi. Une sorte de terreur de l'image [...], le silence avant la tempête. Il ne s'agit pas de susciter des sentiments de mélancolie, mais une certaine impression de déjà-vu*.»

 

 

Prudence Peiffer

in catálogo  Luc Tuymans – retrospective

Palais des Beaux Arts de Bruxelles aqui

18 Fevereiro-8 maio 2011

                         

 

 

* Josef Helfenstein, «The Drawing, Raw Material, and Basic Plan of the Work: An Interview with Luc Tuymans», dans Helfenstein et al., Luc Tuymans: Prémonition, Zeichnungen/Drawings, Berne, Kunstmuseum Bern et Benteli Verlag, 1997, p. 55.

 

 

 


 

 


14.2.11

 

 

 

 

 

 

 

 

neste terceiro ano de actividade bloguística talvez valha a pena fazer um balanço. Começo por explicar aos visitantes recém-chegados que me lancei nisto para anunciar um livro que tinha acabado de escrever e ia publicar daí a uns meses, em edição de autor (saiu em Maio de 2009). Não podendo contar com grande visibilidade nem distribuição, a oportunidade de usar uma montra gratuita e interactiva era bastante tentadora. Também desejava mobilar o "vazio", quase inevitavel após a finalização de um projecto que me ocupava há muito tempo.

 

 

Um blog, além de servir para mostrar imagens e curiosidades que tinham ficado na gaveta, permitia seguir com os mesmos temas - recordações, álbuns de família, fotografias, curiosidades - e explorá-los mais livremente, sem as mesmas preocupações de coerência, cronologia, fio narrativo, ou o que fosse. Com a ajuda de autores favoritos, fui assim construindo este 'arquivo', procurando casar o álbum de família com as minhas leituras e os assuntos que me interessam.

 

Valeu a pena: julgo que este Retrovisor contribuiu para criar interesse no outro, cuja edição impressa (500 exemplares) se encontra quase esgotada. Volta e meia sinto a satisfação de 'acrescentar um conteúdo'  que ficará guardado na net. Tive a alegria inesperada de reencontrar amigos que perdera de vista e fiz novos contactos na blogosfera.

 

 

Ultimamente este blog recebia 20 a 30 visitas por dia, o que, não sabendo se é muito se é pouco, me contentava. Há dias o Retrovisor mereceu um destaque dos "blogs do sapo", que fez disparar o número de visitas, uma agradável surpresa, veremos se muda alguma coisa. A média de comentários é que é baixa, menos de um por post. Gostava de receber mais feedback, em particular dos visitantes regulares, que sei que há alguns, pelo menos em Portugal, França, Bélgica, Brasil e Estados Unidos. Aos leitores que se têm manifestado, por comentário ou e-mail, nunca agradeço o suficiente.

 

 

Muito obrigada a todos pela visita!

 

 

Imagem: cartão de Dia dos Namorados, E.U.A., anos 50

 

mais sobre este blog e o livro na tag "retrovisor"

 


18.7.10

 

 

 

 

 

© Marie-Françoise Plissart

 

 

 

Descubra o livro Kinshasa, récits de la ville invisible de Filip De Boeck, Marie-Françoise Plissart e Jean-Pierre Jacquemin, clicando no título.

 

2 artigos recentes:

 

"Cinq décennies de descente aux enfers" aqui

 

"Au Congo, anniversaire au coeur des ténèbres" aqui

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8.7.10

 

 

Brussels is not unique. In Berlin, there are no museums or monuments to the slaughtered Hereros, and in Paris and Lisbon no visible reminders of the rubber terror that slashed in half the populations of parts of French and Portuguese Africa. In the American South, there are hundreds of Civil War battle monuments and preserved plantation manor houses for every exhibit that in any way marks the existence of slavery. And yet the world we live in — its divisions and conflicts, its widening gap between rich and poor, its seemingly inexplicable outbursts of violence — is shaped far less by what we celebrate and mythologize than by the painful events we try to forget. Leopold's Congo is but one of those silences of history.

 

The Congo offers a striking example of the politics of forgetting. Leopold and the Belgian colonial officials who followed him went to extraordinary lengths to try to erase potentially incriminating evidence from the historical record. One day in August 1908, shortly before the colony was officially turned over to Belgium, the king's young military aide Gustave Stinglhamber walked from the Royal Palace to see a friend in the Congo state offices next door. The midsummer day seemed particularly warm, and the two men went to an open window to talk. Stinglhamber sat down on a radiator, then jumped to his feet: it was burning hot. When the men summoned the janitor for an explanation, he replied, "Sorry, but they're burning the State archives." The furnaces burned for eight days, turning most of the Congo state records to ash and smoke in the sky over Brussels. "I will give them my Congo," Leopold told Stinglhamber, "but they have no right to know what I did there."

 

 

Adam Hochschild

in King Leopold’s Ghost p. 294

A Story of Greed, Terror and Heroism in Colonial Africa

© Adam Hochschild, 1998

 

 

 

 

em português aqui

 

 

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5.7.10

 

 

Au Congo Belge

foto E. Lebied / Congopresse

© Royal Museum for Central Africa, Bruxelas

 

 

Há dois anos que venho estudando – com um crescente interesse – os problemas africanos, e em especial os do Congo Belga e de Angola, porque não perdoaria a mim próprio tratá-los perante o Ministério com a leviandade com que outros, anteriormente, o têm feito. Estão-se passando em África coisas muito graves que, num futuro mais ou menos distante, poderão vir a afectar seriamente a nossa posição se não nos prevenirmos desde já contra os seus eventuais efeitos, revendo em diversos sectores a nossa política colonial, não como quase sempre se tem feito mas pela criação de um novo estado de coisas. (Tudo isto naturalmente, dito assim, cheira um pouco a profecias tipo Dr. Rakar. Espero porém que os relatórios que estou terminando deixem impressão diferente).

 

 

Vasco Futscher Pereira

Excerto de carta ao colega e amigo Amândio Pinto, 1954

in Retrovisor, um Álbum de Família

© RCP edições, 2009

 

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3.7.10

 

 

 

 

 

 

 

 

Au moment ou éclate la Seconde Guerre mondiale, le colonialisme est à son apogée. Pourtant le déroulement de cette guerre, son impact symbolique sur la réalité amorcent la déroute et la fin du système colonial.

 

Comment et pourquoi cela s'est-il passé ainsi ? Une brève incursion dans les méandres obscurs d'une pensée raisonnant en catégories raciales explique bien de choses. En effet, le thème central, l'essence, la racine des relations entre les Européens et les Africains, la forme principale que ces rapports prennent à l'époque coloniale, c'est la différence de race, de couleur de peau. Toute relation, tout échange, tout conflit peut être traduit en termes « Blanc-Noir », le Blanc étant, bien sur, supérieur au Noir, meilleur, plus fort que lui. Le Blanc est un monsieur, un maître, un sahib, un bwana kubwa, un seigneur incontesté et un souverain […]

 

Or voilà que soudain les Africains, qui ont été enrôlés dans les armées britannique et française, voient que dans cette guerre à laquelle ils participent en Europe, le Blanc frappe le Blanc, que les Blancs se tirent dessus et se détruisent leurs villes mutuellement. C'est la révélation, la stupéfaction, le choc. Les soldats africains dans l'armée française voient que leur puissance coloniale, la France, est vaincue et battue. Les soldats africains dans l'armée britannique voient que la capitale de l'empire, Londres, est bombardée, ils voient que les Blancs sont pris de panique, que les Blancs fuient, supplient, pleurent. Ils  voient des Blancs déguenillés, affamés, mendiant du pain. Et au fur et à mesure qu'ils progressent vers l'est de l'Europe et qu'ils combattent, aux côtés de Blancs anglais, des Blancs allemands, ils tombent çà et là sur des colonnes de Blancs vêtus d'uniformes rayés, des hommes-squelettes, des hommes-lambeaux.

 

Le choc que subit l'Africain lorsque les images de la guerre des Blancs lui défilent sous les yeux est d'autant plus fort que les habitants de l'Afrique — à de rares exceptions près, et dans le cas du Congo belge sans exception aucune — n'étaient pas autorisés à aller en Europe ni même à sortir du continent. L'Africain ne pouvait juger de la vie des Blancs que d'après les conditions luxueuses dont ces derniers jouissaient dans les colonies.

 

Dernier point: au milieu du XXe siècle, I'habitant de I'Afrique n'est informé que par ce que lui raconte son voisin, le chef de son village ou l'administrateur colonial. Par conséquent, il ne connait du monde que ce qu'il voit dans son environnement proche ou entend lors de conversations le soir au coin du feu.

 

Nous allons bientôt retrouver tous ces combattants africains de la Seconde Guerre mondiale, de retour au pays, dans les rangs de divers mouvements et partis luttant pour l'indépendance. Ces organisations poussent comme des champignons après la pluie. Elles ont diverses orientations, poursuivent des objectifs différents.

 

 

Ryszard Kapuscinski

in Ébène Aventures africaines pp. 32-33

traduit du polonais par Véronique Patte

© Ryszard Kapuscinski,1998/Librairie Plon 2000

 

 

Imagem de soldado africano na Segunda Guerra Mundial:  aqui

 

 

 

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30.6.10

 

 

 

 "TKM Lumumba Indépendance " Peinture de Tshibumba. Ca 1972.

 

 

 

My father and I have patched things up. He allowed me to accompany him to Leopoldville, where we got to see history in the making. We watched the Independence ceremonies from a giant rusty barge tied to the bank of the Congo River that was loaded with so many pushing, squirming people Mrs Underdown said we'd probably all go down like the Titanic. It was such an important event King Baudouin of Belgium, himself, was going to be there. It was childish, I know, but I got very excited when she told me that. I suppose I was picturing someone in a crown and an ermine-trimmed scarlet robe, like Old King Cole. But the white men sitting up on the stage were all dressed alike, in white uniforms with belts, swords, shoulder fringe, and white flat-topped military hats. Not a single crown to be seen. As they waited their turn to speak, dark sweat stains blossomed under the arms of their uniforms. And when it was all over I couldn't even tell you which one had been the King. […] After the King and the other white men spoke, they inaugurated Patrice Lumumba as the new Prime Minister, I could tell exactly which one he was. He was a thin, distinguished man who wore real eyeglasses and a small, pointed beard. When he stood up to speak, everyone's mouth shut. In the sudden quiet we could hear the great Congo River lapping up its banks. Even the birds seemed taken aback. Patrice Lumumba raised his left hand up and seemed to grow ten feet tall, right there and then. His eyes shone bright white with dark centers. His smile was a triangle, upcurved on the sides and reaching a point below, like his beard. I could see his face very clearly, even though we were far away.

'Ladies and gentlemen of the Congo' he said, 'who have fought for the independence won today, I salute you!'

The quiet crowd broke open with cheers and cheers. 'Je vous salue! Je vous salue encore!'

Patrice Lumumba asked us to keep this day, June 30, 1960, in our hearts forever and tell our children of its meaning. Everyone on the raft and the crowded banks would do what he said, I knew. Even me, if I ever get to have any children.

 

 

Barbara Kingsolver

in The Poisonwood Bible (Book II The Revelation – Leah) pp. 206-207

© Barbara Kingsolver, 1998

 

 

 

Aos leitores interessados recomendo vivamente este romance sobre a independência do Congo Belga e as três décadas que se lhe seguiram. A história é narrada a várias vozes, as da mulher e das filhas de Nathan Price, um baptista evangélico que leva a família para o interior do Congo Belga em 1959. A acção estende-se até à Angola dos anos 80. Um livro fascinante, que inclui extensa bibliografia sobre o tema. Em português: A Bíblia Envenenadaaqui.

 

Esta imagem e outras aqui


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28.6.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Théoriquement, mais théoriquement seulement, le colonialisme règne en Afrique depuis la Conférence de Berlin (1883-1885) au cours de laquelle quelques États européens, essentiellement l'Angleterre et la France, mais aussi la Belgique, l'Allemagne et le Portugal, se sont partagé le continent tout entier, jusqu'à la libération de l'Afrique dans la seconde moitié du XXe siècle. En fait, la pénétration coloniale a commencé bien plus tôt, dès le XVe siècle, et elle n’a cessé de progresser au cours des cinq siècles suivants. La phase la plus honteuse et la plus brutale de cette conquête fut le commerce des esclaves africains, qui dura plus de trois cents ans. Trois cents ans de traques, de rafles, de poursuites et d'embuscades organisées par des Blancs, souvent avec la complicité d'Africains et d'Arabes. Entassés dans des cales de navires, des millions de jeunes Africains ont été déportés dans des conditions cauchemardesques au-delà de l'océan Atlantique afin d'y édifier, à la sueur de leur front, la richesse et le pouvoir du Nouveau Monde.

 

 

Ryszard Kapuscinski

in Ébène Aventures africaines pp. 31-32

traduit du polonais par Véronique Patte

©Ryszard Kapuscinski,1998/Librairie Plon 2000

 

Imagem encontrada aqui

 

 


8.6.10

 

 

 

 

 

 

Léopoldville, 1953

 

 

 

Não sou de maneira nenhuma indiferente ao lugar onde nasci, apesar de o ter deixado com dois anos de idade e nunca mais ter voltado. O cenário das fotografias e recordações da minha primeira infância ocupa naturalmente o seu espaço no meu imaginário, e nas minhas fidelidades.

 

Nos documentos de identificação, comecei por ser natural de Léopoldville, Congo Belga. Depois da independência, em 1960, chamou-se República Congolesa, República Democrática do Congo, ou Congo-Kinshasa; em 1971 passou a chamar-se Zaire e hoje é de novo República Democrática do Congo.

 

Li muita coisa sobre o Congo enquanto estava a escrever Retrovisor, um Álbum de Família e partilharei neste blog algumas passagens das minhas leituras, como habitualmente. No capítulo que dediquei ao Congo não incluí citações porque tinha material de sobra. Considero a descriçao feita pelo meu pai do meio colonial belga no seu relatório para MNE um dos textos mais interessantes do livro, talvez por ser tão pouco lisongeiro para os belgas como para os portugueses. Mostrarei neste blog mais algumas fotografias da agência "Congopresse", das quais possuo mais de uma dezena e cujos direitos de reprodução me foram gentilmente oferecidos pelo "Africa Museum de Tervuren".

 

 

Em Bruxelas, onde tenho passado boa parte da minha vida adulta, o Congo tem múltiplas presenças que têm aprofundado o meu interesse e a minha ligação com a terra onde nasci, o lugar que ainda não deixou de ser o Coração das Trevas de África.

 

 



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