15.2.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

Dores de cotovelo

 

 

Quando eu era novo, dor de cotovelo queria dizer dor de corno mas de maneira bem-educada. Se noivo ou namorado (ou noiva ou namorada) de repente suspeitava ou confirmava suspeita de traição da bem-amada (ou do bem-amado) o incómodo moral e físico que tal provocava: um sei bem quê que nasce sei bem onde, vem sei bem como e doe sei bem porquê (viro do avesso farrapo de Camões, em vez de procurar palavras minhas, porque o tempo não está para extravagâncias e, se não pouparmos em tudo, os guardas alemães e holandeses, gabarolas do superavit, que há meia dúzia de anos nos obrigam a fingirmos que somos como eles mais ainda se darão ao gosto de nos atormentar. Há quase um século e quase ao fundo do Hemisfério Sul, apanhado em apuros quejandos, o chileno Pablo Neruda escreveu “De outro, será de otro, como antes de mis besos/ Su voz, su cuerpo claro, sus ojos infinitos.” Pablito, chamavam lhe as criadas de casa dos pais, não estava obrigado por critérios de Maastricht e, antes de se meter a compor Odes compridas e apatetadas ao camarada Estaline, tinha talento a rodos. “Ya no la quiero es cierto pero talvez la quiero/Es tan corto el amor y es tan largo el olvido.”

 

Dores de cotovelo. Não sei se o termo ainda se usa no português falado pela gente nova: não vivo cá e o meu neto é holandês. Sem ser por mal, dou por mim agora a passar mais tempo com gente velha e aí descobri rudimentos de nova forma de correcção política. Parece que, para velhas e velhos se sentirem ainda integrados, se lhes deva falar – e falar deles – como se faz com as crianças, mas adaptando. “Ai, está a mirrar tão bem! Um dia destes está mais baixo que a avó.” “Então já lhe caíram mais dentinhos?” “Desde o Natal anda a esquecer-se de quase dez palavras por dia”, etc.  Adiante – se é esta a palavra indicada – e voltemos ao cotovelo.

 

Alentejano arguto, há muito amigo do coração – e, ao contrário de tantos conterrâneos seus, despachado, viajado e poliglota – embrenhado agora em vida de Cristo bem narrada por erudito sábio, encontra paralelos entre a Jerusalém que os romanos acabariam por arrasar e onde Jesus foi executado (para aclamação dos seus compatriotas que preferiram salvar Barrabás a salvá-lo a ele) e os sobressaltos violentas do nosso tempo, a chocarem fascismos. (Cesário Verde percebera: “A dor humana busca amplos horizontes/E tem maré de fel como um sinistro mar”). Segundo o meu amigo, e eu estou de acordo com ele, quando nós eramos novos – eu sou mais velho uma década e picos mas nessa altura a diferença parecia muito mais pequena do que parece agora: daí a dez anos o mais novo seria como o mais velho. A vida abria-se diante nós, estrada direita até onde a vista alcançasse. Agora, daqui a dez anos o mais novo será como nada que se já conheça hoje. Fecha-se diante de nós um cotovelo que, até lá chegarmos, não percebemos para onde se irá abrir.

 

Uma broncalina do camandro, diria o meu chorado António Garcia. Ou então: uma Bernardette do caboz.  

 

 

 

 

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29.8.16

 

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na loja do Público aqui 

 

 

Mais uma óptima colecção a preço acessível sobre a história do design em Portugal. A descobrir.

 

Colecção Designers Portugueses, constituída por 13 volumes, coordenada por José Bártolo, retrata a vida e obra de 13 grandes designers. 


COLECÇÃO DESIGNERS PORTUGUESES

Coordenação de José Bártolo

© 2016 Cardume Editores e Autores

 

 

1 João Machado  

2 Daciano da Costa

3 Sebastião Rodrigues  

4 João Abel Manta 

5 José Brandão  

6 Pedro Silva Dias 

7 Jorge Silva  

8 José Albergaria  

9 João Nunes 

10 Francisco Providência 

11 Ana Salazar  

12 Toni Grilo  

13 Bernardo Marques  

 

 

 
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5.3.16

 

 

T letter embroidered.jpg

 

 

tolerância
to.le.rân.ci.a

nome feminino

(do latim tolerantia)


A tolerância é uma atitude benévola e benigna, por vezes um tanto paternalista, que se manifesta tanto no plano individual como no plano social. No tempo da outra senhora era permitida e praticada em casas próprias para o efeito. Hoje requer-se que faça figura de valor universal. Seja como for, a tolerância confina e é limitada pelo território do intolerável. A tolerância que confina com mais tolerância torna-se uma tolerância sem limites, isto é, de onde o intolerável está ausente, e onde, portanto, tudo é aceitação, condescendência, complacência: essa tolerância corresponde a um estado gelatinoso e repugnante. E intolerável.

 

 

 

 

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25.2.16

 

 

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Recolher, preservar e divulgar as memórias de gente comum, reconhecendo que esses testemunhos de vida contribuem para o conhecimento da história e da identidade nacionais, é a missão do Arquivo dos Diários, associação cultural criada há dois anos, que lançou o concurso “Conta-nos e Conta Connosco”, destinado a enriquecer o seu acervo.

 

Agora que dispõe de uma equipa e de um espaço na Biblioteca de São Lázaro, graças a uma parceria com a Junta de Freguesia de Arroios, a associação está em condições de começar a reunir cartas e diários através dos quais os portugueses poderão contar a sua história. Diários, cartas, fotografias e filmes caseiros ou simples evocações feitas pelas pessoas são uma parte importante na construção da memória de cada um. Mas esses documentos servem também para ajudar a construir a narrativa de uma comunidade. A ideia é catalogar por temas tudo o que for recebido e, no futuro, disponibilizar o acervo num meio digital. 

 

Existem já em vários países europeus arquivos dedicados a recolher a memória popular, designadamente o Archivio Diarístico Nazionale, em Itália, que serviu de referência a Clara Barbacini e Roberto Falanga, fundadores deste projecto.

 

 

 

 

 

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© Soraia Martins 

 

 

 

O principal obstáculo, admitem, é chegar às pessoas e mostrar-lhes que as suas memórias e objectos pessoais podem ajudar a desenvolver outros projectos interessantes, do cinema ao teatro, da ficção à investigação, ou simplesmente servir para consulta de quem tem curiosidade por histórias de outros tempos.

 

“Espero que os portugueses desmintam o pudor como traço da sua cultura”, diz Roberto. “Sei que vai ser complicado, mas desafiante. E acho que só o facto de alguém se questionar se deve ou não entregar [os diários e cartas da sua família] já é bom. Estimula o pensamento. Nesse tempo de reflexão o tema esteve ali, a ser considerado.”

 

Também sabem que poderá haver resistências à entrega de materiais e à publicação. “Sabemos que estamos a tocar assuntos muito delicados”, asseguram. Recordam o caso de uma mulher, vítima de violência doméstica, que ganhou em Itália um concurso semelhante ao agora lançado em Portugal e só anos mais tarde recebeu o prémio, depois de o marido morrer. Há também questões legais que podem colocar-se, por exemplo, no caso de pessoas que encontram ou compram materiais que não se importam de doar mas que dizem respeito a terceiros.

 

Tal como em Itália, está prevista a publicação anual de pelo menos um diário: quem entrega os seus materiais pode escolher participar num concurso aberto até 1 de Março próximo. Depois, um painel de dois júris – um popular e um técnico – escolherá um vencedor. Será publicado pela Penguin – Companhia das Letras.

 

As entregas podem ser feitas na Biblioteca de São Lázaro todos os sábados das 11h às 13h ou enviadas por correio e a associação tem um site com toda a informação em www.arquivodosdiarios.pt. Tem também uma página de Facebook aqui.

 

Arquivo dos Diários

Biblioteca de São Lázaro

Rua do Saco, 1  Lisboa 1169-107 (Freguesia de Arroios)  

 

 

Agradecimentos:

 

artigo de Vanessa Rato no jornal Público, artigo de Samuel Alemão em “O Corvo” e textos reunidos no site Arquivo dos Diários.

 

Fotos gentilmente cedidas por Arquivo dos Diários e Soraia Martins

 

 

 


19.2.16

 

 

Os textos do Romanceiro português e respectivos registos sonoros, quando conservados, vão passar a estar disponíveis online e em acesso livre na plataforma Romanceiro.pt. A preservação deste património, através da digitalização, era urgente, já que a sua manutenção nos formatos em que se encontrava (cassetes áudio e fotocópias em papel) constituía uma séria ameaça à sua preservação. 

 

A plataforma digital será apresentada amanhã, pelas 16h, na Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé), pelo coordenador do projecto, o investigador Pedro Ferré.

 

O objetivo é tornar acessível ao grande público um arquivo sem par no contexto ibérico, que alberga já perto de 14000 imagens de documentos de grande relevo no âmbito da literatura patrimonial portuguesa, nomeadamente do Romanceiro de tradição oral, e cuja expansão está prevista.

 

Nos últimos anos, os investigadores do CIAC  Pere Ferré, Mirian Tavares e Sandra Boto trabalharam o acervo da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, que compreende 660 horas de gravação em 609 cassetes áudio ali depositadas, e onde estão guardadas 3632 versões inéditas de romances e acolhe 10096 versões de romances publicadas entre 1828 e 2010. A plataforma Romanceiro.pt é o resultado do projeto “O Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (1828-2010): sua preservação e difusão”, uma parceria entre a Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé) e o CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação/FCT (Universidade do Algarve / Escola Superior de Teatro e Cinema) com o mecenato da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Concurso de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais (2013).

 

 

 

 

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O Romanceiro é um género poético tradicional que circula desde os finais da Idade Média na memória dos povos de expressão portuguesa, galega, castelhana e catalã, difundindo-se desde então oralmente de geração em geração. Trata-se, portanto, de um património imaterial de uma vitalidade excepcional e de uma riqueza ímpar que importa preservar, numa altura em que a disseminação das novas tecnologias e dos media parece ter aniquilado talvez definitivamente a sua vitalidade e função no seio das comunidades rurais em que ainda permaneciam até há pouco tempo.

 

Remonta a 1421 o primeiro documento conhecido onde se fixa uma versão de um romance, o "Gentil dona, gentil dona", pela mão do estudante maiorquino Jaume de Olesa. Foi, contudo, o Romantismo que encetou o interesse sistemático por este género poético. Desde 1824, foram coligidas milhares e milhares de versões de romances em Portugal, em Espanha e nos países da diáspora portuguesa e espanhola, sem falar na memória romancística que os judeus expulsos da Península Ibérica nos finais do século XV transportaram com eles pelo mundo e que ainda hoje é preservada.

 

Poderíamos, para o caso específico português, referir-nos ao contributo das recolhas e publicações de versões de romances realizadas a cargo de nomes como Almeida Garrett, Teófilo Braga, Leite de Vasconcellos, Consiglieri Pedroso, Alves Redol, Michel Giacometti, Maria Aliete Galhoz, Manuel Viegas Guerreiro, entre tantos outros. Este arquivo alimenta-se, justamente, dos trabalhos de recolha e publicação do romanceiro tradicional português que estes e muitos outros interessados na literatura de tradição oral levaram e continuam a levar a cabo no presente.

 

 

 

Leia mais aqui e aqui

Entrevista com os investigadores aqui

No facebook aqui  

 

 

 

 

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23.12.15

 

 

 

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 Presépio de Estremoz. Alentejo, Portugal.   

Foto: Estúdio Novais, 1936 

 

 

 

 

 

 

 

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Natal

 

 

 

Há meio século, quando eu vivia em Oxford e ia muitas vezes a Londres (ou uns anos mais tarde quando eu vivia em Londres e ia poucas vezes a Oxford) o Luís de Sousa (que nessa altura vivia em Londres e agora vive em Oxford) contou-me que um professor de história de arte de cujo nome me esqueci e dava aulas já não sei em qual dos colégios da Universidade de Londres, quando chegava às escolas ou maneiras da pintura europeia das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX ensinava aos alunos: “No Impressionismo, pinta-se o que se vê; no Expressionismo, pinta-se o que se sente; no Neorrealismo, pinta-se o que se ouve” (as aulas eram em inglês e o professor dizia social realism em vez de neorrealismo mas é o mesmo).

 

A sentença ficou-me gravada no canto da memória onde estão arrumados os julgamentos estalinistas dos anos trinta na Rússia, quando centenas e centenas de funcionários do partido comunista da União Soviética, dos mais altos aos mais baixos na nomenklatura, em tribunal confessaram falsamente (com boa consciência) terem traído a pátria e o partido, às vezes ao serviço de potências estrangeiras, sendo condenados à morte e executados, para exemplo do povo em geral e opróbrio de suas famílias, bem como arrumada nesse canto está a lembrança de um dia no Outono de 1991 em Argel, em visita oficial, com a cidade, entre europeia e africana, pobre, mal cuidada mas ainda bonita ao sol, fazendo-me pensar que Lisboa seria assim se Vasco Gonçalves se tivesse aguentado uma dúzia de anos no poder – e como vai ser também guardado o momento contado por amiga que há dias num elevador apinhado de Luanda, ouviu jovem triste do MPLA responder ao “Então?” matinal de um colega, dizendo: “Sofremos felizes”. 

                                  

Sou um dos muitos portugueses que consideram que o país, logo a seguir ao 25 de Abril, ficou a dever a liberdade da democracia à visão e à coragem de Mário Soares. Durante quatro décadas não tive disso a menor dúvida e não a tenho agora. Pelo contrário: nas últimas semanas, maus augúrios levam-me a recear mais pobreza e mais demagogia inspiradas de cima – e a apreciar melhor ainda a barragem de bom senso e decência oposta por Soares a disparates de esquerda e de direita.

 

Mas é semana de Natal, não neva na província, esqueço estas coisas todas e lembro um poema (neorrealista?) de que gosto muito.

 

 

Natal

 

 

Foi numa cama de folhelho,

entre lençóis de estopa suja

num pardieiro velho.

Trinta horas depois a mãe pegou na enxada

e foi roçar nas bordas dos caminhos

manadas de ervas

para a ovelha triste.

E a criança ficou no pardieiro

só com o fumo negro das paredes

e o crepitar do fogo,

enroscada num cesto vindimeiro,

que não havia berço

naquela casa.

E ninguém conta a história do menino

que não teve

nem magos a adorá-lo,

nem vacas a aquecê-lo,

mas que há-de ter

muitos reis da Judeia a persegui-lo;

que não terá coroas de espinhos

mas coroas de baionetas

postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.

Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

 

 

 

Álvaro Feijó

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                        

    


25.11.15

 

 

 

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José Cutileiro.jpg

 

 

 

Chocalhos

 

 

 

A UNESCO, organização educacional, científica e cultural das Nações Unidas, a que muitos países pertencem, alguns, como nós, por inércia, outros devido a diligência burocrática própria de regimes que sistematicamente violam direitos humanos e julgam que a organização lhes confere respeitabilidade (falta-lhes a lucidez de Groucho Marx: “Eu teria vergonha de pertencer a um clube que me aceitasse como membro”) vai distinguir Portugal no universo do Património Cultural Imaterial da Humanidade - mais uma vez, pois já o tinha feito quanto ao Fado, ao Cante Alentejano e à Dieta Mediterrânica, neste caso sendo a distinção partilhada com Espanha, Marrocos, França, Itália, Grécia e, salvo erro, Tunísia.

 

Agora são os Chocalhos de Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo, distrito de Évora, a subir ao pódio (dizem-me que também ainda há artesãos vivendo de fazer chocalhos na Ilha Terceira dos Açores e em Trás-os-Montes mas foi a ‘comunidade representativa’ das Alcáçovas que meteram à liça e Alcáçovas será o nome que a distinção contemplará). À minha pergunta “Porquê Imaterial?” a resposta veio em duas partes. Primeira, que a UNESCO estabelece a terminologia para os seus programas, prémios e distinções e, a pedido, esclarece termos menos claros a quem, prima facie, não os entenda. Segunda, que é o som dos chocalhos que passa a Património Imaterial por pertencer ao que os antropólogos chamam “paisagens sonoras”, as quais vão mudando, esperando a UNESCO, presumo eu, que a entrada no Património da Humanidade ajude a suspender o desaparecimento progressivo do rumor chocalhal das calçadas da província portuguesa. Palpita-me que seja esforço vão – assim como os que são feitos quando o Estado decide usar dinheiro do contribuinte para salvar empresas cuja vocação é a falência. As Alcáçovas trazem-me outra memória: a mulher de Évora mais bonita do seu tempo (e de todos os tempos entre o seu tempo e o nosso de hoje) que lá viveu pequena, tão inteligente e tão direita que por esse dom e essa virtude mais vezes é lembrada do que pela beleza ímpar. Ainda hoje faz falta.

 

Na UNESCO confirmei uma certeza política e ganhei outra. No Verão de 1974 fiz parte da delegação portuguesa no nosso regresso à organização depois do 25 de Abril em reunião geral que durou várias semanas. Coube-me cobrir sessão noturna em que discursaram representante da Albânia e chefe estudantil do Chile, fugido dos algozes de Pinochet. O albanês demoliu primeiro o Capitalismo, depois o Comunismo Soviético e, quando estava quase a convencer-nos, rendeu elogio abjeto ao camarada Enver Hoxha. Entusiasta, o estudante gabou o paraíso que o país perdera com o fim brutal de Allende e do seu governo.

 

Saí para a noite de Paris confirmado no que pensava dos horrores da Albânia mas convicto de que, se o regime de Allende houvesse durado, o Chile teria passado por muitas e penosas baralhadas.

 

Vem a propósito lembrar isso quando cá se celebra – ou devia celebrar-se – o 25 de Novembro.

 

 

 

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27.9.15

 

 

 

 

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 Cristina de Carvalho Futscher Pereira

17 de Abril 1948 - 27 de Setembro 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ramo de Oiro

 

 

 

Estando eu à minha porta

Com três horas de serão

Vi passar Nossa Senhora

Com um ramo de oiro na mão.

 

 

Eu pedi-lhe uma folhinha

Ela disse-me que não;

Pedi, tornei-lhe a pedir,

Ela deu-me o seu cordão,

 

 

Que me dava sete voltas

À roda do coração.

Sete voltas não são nada

Ó Virgem da Conceição

 

 

Prendei vós esta alma toda

Prendei-ma com vossa mão

Que a metade inda é do mundo

Metade, que a outra não.

 

 

 

Plantai-me esse ramo de oiro

No meio do coração

Ficarei no vosso altar

Como vaso de eleição.

 

 

 

 

Romance popular incluído nos manuscritos garrettianos descobertos pela Cristina em 2004. O poema foi lido no seu funeral e editado numa pagela oferecida aos amigos.

 

 

 

Veja também os posts:

 

 

Efeméride

 

 

LFCL (desde 1952)

 

 

Carta a Garrett

 

 

Fado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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29.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 25 a 27

 

 

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© Henrique D'Korth Brandão

 

continua...

 

 

Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

6. páginas 16 a 18

7. páginas 19 a 21

8. páginas 22 a 24

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

 

 

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Exposição do Mundo Português

 

 

 

 

 

 

 

 

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24.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 22 a 24

 

 

 

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Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

6. páginas 16 a 18

7. páginas 19 a 21

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

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Exposição do Mundo Português

 

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22.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 19 a 21

 

 

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Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

6. páginas 16 a 18

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 Exposição do Mundo Português

 

 

 

 

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17.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 16 a 18

 

 

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Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

© Henrique D'Korth Brandão

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

 Exposição do Mundo Português

 

 

 

 


15.5.15

 

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

 

páginas 13 a 15

 

 

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Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

páginas 1 a 3 aqui

páginas 4 a 6

páginas 7 a 9

páginas 10 a 12

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

 

Exposição do Mundo Português 

 

 

 

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12.5.15

 

 

Capa_5_400px__81359_zoom.jpgaqui

 

 

Surge finalmente uma bonita colecção a preço acessível que vem colmatar a quase total ausência de obras de referência sobre a história do design contemporâneo em Portugal.

 

A Colecção Design Português, constituída por 8 volumes organizados cronologicamente, apresenta-se como a primeira história do design nacional desde o início do século XX até à actualidade nas mais diversas áreas de intervenção. Reúne os principais designers portugueses e descreve, em cerca de 800 páginas, a evolução do design, o seu contexto histórico, as modalidades da sua prática e os debates teóricos que acompanham a institucionalização desta disciplina.

O último volume sai hoje com o Público.

 


COLECÇÃO DESIGN PORTUGUÊS

Coordenação de José Bártolo

Edição ESAD e Verso da História, com a chancela do Ano do Design Português

Distribuição com jornal Público, todas as terças-feiras, até 12 de maio

 

 

Volume 1: 1900-1919 | Maria Helena Souto
Volume 2: 1920-1939 | Rui Afonso Santos
Volume 3: 1940-1959 | Maria João Baltazar
Volume 4: 1960-1979 | Victor M. Almeida
Volume 5: 1980-1999 | Helena Sofia Silva
Volume 6: 2000-2015 | José Bártolo
Volume 7: Cronologia 1900-1959 | José Bártolo
Volume 8: Cronologia 1960-2015 | José Bártolo

 

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10.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 10 a 12

 

 

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Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

páginas 1 a 3 aqui

páginas 4 a 6

páginas 7 a 9

 

© Henrique D'Korth Brandão

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 Exposição do Mundo Português

 

 

 

 

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8.5.15

 

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 7 a 9

 

 

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Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

páginas 1 a 3 aqui

páginas 4 a 6

© Henrique D'Korth Brandão

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

Mundo Port Guia Oficial

Exposição do Mundo Português

 

 

 

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3.5.15

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 4 a 6

 

 

 

 

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Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

páginas 1 a 3 aqui

© Henrique D'Korth Brandão

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 Exposição do Mundo Português 

 

 

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1.5.15

 

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 1 a 3

 


 

   

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Apresentaremos na íntegra as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

 

© Henrique D'Korth Brandão

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 Exposição do Mundo Português aqui

 

 

 

 

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1.1.15

 

 

 

cast thy bread.jpeg

Needlepoint Tapestry

© Mati Silverstein, 1976

 

 

UM BOM 2015

 

 

 

 

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29.12.14

 

Romanceiro Capa 1.jpg

 

Romanceiro

Manuscrito do Autor

[autógrafo de Almeida Garrett]

 

 

 

A compra pelo Estado Português do espólio garrettiano designado por “Colecção Futscher Pereira” [1], anunciada pelo Secretário de Estado da Cultura no dia 18 de Dezembro, fecha um ciclo iniciado há dez anos pela descoberta, por minha irmã Cristina Futscher Pereira (1948-2005), de manuscritos inéditos de Almeida Garrett que contribuem de forma decisiva para o estudo do Romanceiro português.

 

Fica deste modo assegurada a ampla divulgação deste espólio, o maior desejo de Cristina, além da permanência dos autógrafos em Portugal, nas melhores condições [2]. Por fim, e também importante, com esta aquisição a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas valoriza aos olhos do público a recolha pioneira de Garrett de temas da nossa tradição oral. São relatos de eventos históricos e histórias de amor, transgressão e violência, de grande suspense e final incerto, que mantêm plena actualidade no século XXI.

 

Para a família, a colecção permanecerá ligada à memória de Cristina, de Venâncio Augusto Deslandes e de iniciativas e amizades inspiradas pelo Autor [3]. Entregamos estes papéis com muita satisfação e um bocadinho de nostalgia.

 

 

 

*

 

 

 

 Notas: 

 

1.  A Colecção engloba mais de 400 páginas manuscritas, grande parte delas inéditas, compreendidas no período de 1839 a 1853/54.

Artigo de Luís Miguel Queirós no Público sobre a aquisição da colecção pelo Estado Português. 

 

2.  “O espólio agora adquirido será objecto de um contrato de depósito na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, enriquecendo, desta forma, o já importante espólio garrettiano de que [a instituição] dispõe”, de acordo com o comunicado divulgado pelo Gabinete do Secretário de Estado da Cultura citado pela Agência Lusa.

Espólio Garrettiano da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra [Youtube] 

 

3.

-  Blog garrettiano O Divino , 2004-2005

 

-  A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

Edição oferecida pelo "Diário de Notícias" aos leitores no 140º aniversário do jornal, a 29 de Dezembro de 2004

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

- No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro [Ermitão] 

Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana

Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. 

 

- As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’ [Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários]

Sandra Boto

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

  

 

 

 

Sobre a Colecção Futscher Pereira e Venâncio Augusto Deslandes leia também aqui 

 

 

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25.12.14

 

 

Natal Anunciador.jpg  Anunciador simbólico da missa do galo

 

 

País de tão poéticas tradições natalícias como o nosso, em verdade, nada precisa de ir buscar à casa alheia, nem sequer o maçudo e empanturrante Bolo-Rei — o francês Gâteau des Rois  — nem de incutir na imaginação da infância, agora dotada de precoce discernimento, o mito dos saptinhos na chaminé. Dêm brinquedos às crianças, muitos brinquedos, mas eduquem-nas na compreensão de que só pelas graças do Menino Jesus é que os pais conseguiram os meios de lhos oferecer.

 

E depois de tudo isto, ainda um apelo final é de fazer. Não haverá por aí alguém que se disponha a cometer o belo crime de atacar a serrote a Árvore de Natal e a estafar de uma vez para sempre esse intruso e barbaçudo Pai-Natal da floresta germânica, de blusão e botifarras?

 

Que belos dias passados na prisão para expiar esse delito!

 

 

Francisco Lage

in "O Natal Português na Igreja, no Teatro, na Tradição, na Rua e na Família"

Panorama, nº 4, III série , Dezembro 1956

 

Foto: Mário Novais

 

 

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22.12.14

 

Presépio Popular de Barcelos .jpg

 

Presépio popular de Barcelos

Panorama nº 24 - III Série - Dezembro de 1961

 

 

 

 

Associação Portugal à Mão aqui 

 

 

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19.12.14

 

 

 

Garrett desenho Júlio Gil.jpg

 

 

 

Protagonista e espectador de acon­tecimentos fundamentais na cul­tura, na política e na sociedade por­tuguesas, Garrett (1799-1854) viveu a transição do século XVIII para o século XIX, a viragem do Portugal velho para o Portugal novo. O exí­lio, o desempenho de funções diplo­máticas e outras actividades obrigaram-no a residir alguns anos na Inglaterra, na França e na Bélgica. Teve contacto directo com a vida social e política daqueles países e dos movimentos culturais de van­guarda.

 

Foi um dos principais colabora­dores de Mouzinho da Silveira na redacção e elaboração dos decretos para a reorganização das finanças públicas, da justiça, da divisão ad­ministrativa e que modificaram o sistema governativo. Pertence-lhe, também, uma das leis para a definição da propriedade literária e o direito de autor, contribuindo para a dignificação e independência da criação intelectual.

 

A modernidade começou, entre nós, com Garrett. As raízes da mo­derna poesia portuguesa, no enten­der de José Régio e depois de Óscar Lopes e António José Saraiva na História da Literatura Portuguesa, derivam da obra de Garrett. Prolongou-se até às gerações do Orpheu e da Presença. Sem o Gar­rett das Folhas Caídas não tería­mos João de Deus, nem António Nobre, nem Pascoais, toda a gran­de corrente lírica dos séculos XIX e XX , que retrata muito do comportamento do homem português.

 

Desde sempre o teatro ocupou lugar de relevo nas suas preocupa­ções. Quando Passos Manuel este­ve à frente do Governo (1836-1837) solicitou a intervenção de Garrett para renovar o teatro. Dois exem­plos: a colaboração para organizar o Conservatório e para construir um Teatro Nacional. Integraram-se nesta política cultural as peças que Garrett escreveu e onde recriou grandes ciclos da História de Por­tugal: a revolução de 1385, que res­tituiu a independência e levou ao trono o Mestre de Avis ( O Alfageme de Santarém ); a época dos Desco­brimentos, contemporânea do nas­cimento do teatro português ( Um Auto de Gil Vicente ); a perda da in­dependência em 1580, com 60 anos de ocupação espanhola ( Frei Luís de Sousa); e a governação pombali­na (A Sobrinha do Marquês).

 

Criou, igualmente, uma nova escrita nas Viagens na Minha Ter­ra. Atribuiu à palavra a nitidez do pensamento, a variedade do ritmo, uma arquitectura verbal em que a construção lógica se concilia numa expressão original. As Viagens na Minha Terra abriram caminho à língua e estilo de Eça de Queiroz. Do Carlos das Viagens resultou o Carlos de Uma Família Inglesa, de Júlio Diniz, e o Carlos d' Os Maias, de Eça de Queiroz, qualquer deles elegante, volúvel, sedutor. E não será difícil aproximar o Carlos das Viagens de outro Carlos também de Eça de Queiroz e da sua geração: Carlos Fradique Mendes, exemplo do homem requintado, medularmente europeu.

 

Entre nós, Garrett foi o primeiro a recolher o tesouro poético do povo português. Recuperou da tra­dição oral numerosas composições do Romanceiro, muitas das quais inéditas, conforme revela o DN, hoje, a propósito do espólio de Ve­nâncio Deslandes. Mas ainda lhe cabe um papel precursor nas áreas da etnografia, do folclore, dos estu­dos de antropologia. O que é preciso - salientou - é estudar as nossas pri­mitivas fontes poéticas, os romances em verso e as legendas em prosa, as fábulas e crenças velhas (...) no grande livro nacional, que é o Povo.

 

Lançou um movimento que se reflectiu até aos nossos dias. Cha­mou a atenção para os atentados à paisagem, aos monumentos, às bi­bliotecas e arquivos. Apesar dos aproveitamentos políticos, para al­gumas orientações do Integralismo Lusitano e do Salazarismo, Garrett iniciou a reabilitação e classifica­ção do património articulando as necessidades e interesses locais com a história, a geografia e o quotidiano, a fim de assegurar os fun­damentos da identidade do País.

 

Em tudo quanto fez Garrett, sem deixar de ser português, aproximou-se da Europa numa perspec­tiva aberta, dinâmica e plural, de sentido humanista.

 

 

António Valdemar

in [Garrett] "Um dos Precursores da Modernidade" 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

*

 

Imagem:

Desenho de Julio Gil  

Ilustração de Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett

Diário de Notícias, 24 de Janeiro de 1955

 

 

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13.12.14

 

APV still 378 blog

Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça gravam mulheres da Beira a cantar.

Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP 1968] 

 

 

[... ] Reco­lhendo a letra dos Romances desa­companhada da respectiva música, o autor das Viagens na minha terra fez obra incompleta, truncada. Não o culpemos muito por isso. Pode­ria ele ter procedido diferente­mente ? Garrett era, antes de mais nada, um poeta, um escritor, cer­tamente pouco familiarizado com o fenómeno musical. Não era fol­clorista (a disciplina do folclore achava-se então ainda nos limbos) para poder proceder à sua reco­lha (aliás feita indirectamente, através de comunicações de ter­ceiros) com verdadeiro método científico.

 

Lembremo-nos, ademais, que, nos países que de certo modo o impulsionaram no estudo da lite­ratura popular e que lhe minis­traram as ideias interpretativas desta, a Inglaterra e a Alemanha, ou, antes, o movimento romântico naquelas duas nações, também as coisas não principiaram doutro jeito e que só mais tarde ali se começou a. prestar a devida aten­ção às melodias populares e a con­siderar em conjunto o binómio poesia-música.

 

No entanto, ao próprio Garrett. não passou acaso despercebida a deficiência do seu trabalho e o quanto importaria, sob o ponto de vista prático, isto é, para o apro­veitamento artístico dos materiais fornecidos pela nossa poesia tra­dicional, associar esta às melodias que com ela nasceram ou que com ela fraternamente andam de par. Comentando, no mesmo 2.° volume do Romanceiro, o Romance da «Bela Infanta» (que classifica de chá­cara), diz que o introduziu, com algumas alterações indispensáveis, no 5.º acto d' O Alfageme de Santarém, fazendo-o «cantar por um coro de mulheres do povo, à hora do trabalho». E relata, entre satisfeito e pesaroso: «...observei o sensível prazer que tinha o pú­blico em ver recordar as suas anti­guidades populares, que nem ainda agora deixaram de lhe ser caras, Mas por mais que fizesse, não consegui que as cantassem a uma toada própria e imitante, quanto hoje pode ser, da melopeia antiga com que há séculos andam casa­das essas trovas. Ainda em cima, os cantores desafinavam e iam fora de tempo na música italiana e com­plicada que lhe puseram. Apesar de tudo, os espectadores avaliaram a intenção e a aplaudiram.»

 

Dos Romances compendiados por Garrett conhecemos nós hoje tão só as toadas da Bela Infanta, do Bernal- Francês, do Conde Yano (ou Conde Alberto), do Conde de Ale­manha, da Silvaninha, do Reginaldo, do Conde Nilo, da Donzela que vai à guerra (também conhe­cido por D. Martinho), da Nau Catrineta, de O cego, de Linda-a-pastora (ou O príncipe e a pastori­nha), do D. João e de A morena. (E possível que ainda um que outro deles haja por aí recolhido por algum curioso ou folclorista benemérito de que não temos no­tícia). Mas o ponto é saber-se se tais toadas são de facto as que, à altura da colação garrettiana, se cantavam com as letras que ali se referem. Não terá havido em muitas delas permutas e transposições? Já se verificaria então o fenómeno, hoje corrente, de a uma determi­nada toada se poderem atribuir vários romances ou de um destes ser cantado com melodias diferen­tes ? Que alterações ou transfor­mações se terão produzido nessas toadas no decurso de um século?

 

A coisa seria importante de sa­ber-se para a organização e estudo quanto possível documentado do nosso Romanceiro no ponto de vista poético-musical; mas crêmo-la já agora impossível de apurar-se.

 

A tarefa sistemática da recolha da poesia e música dos Romances nunca chegou a ser empreendida entre nós, e talvez já seja tarde para a tentar. E que prejuízo daí não resultou, a avaliar pelos belos mas desgarrados espécimes com que se consegue topar numa que outra publicação ou ouvir ainda (cada vez menos, infelizmente) da boca do próprio povo! (*)

 

O cometimento de Garrett ficou incompleto; mas saibamos fazer jus ao grande escritor, hoje, no ano do seu Centenário, por haver dado o sinal de partida, ao menos num aspecto do conhecimento, res­guardo e apreço do rico tesouro da nossa arte popular.

 

Fernando Lopes Graça

in  A propósito do Romanceiro de Garrett

Vol. III de Gazeta Musical (Academia de Amadores de Música) nr 51 Dezembro de 1954 

 

 

(*) Nota do Autor: — Já agora, consignemos aqui os Romances (na maior parte incompletos, outros com interpolações várias) que, acom­panhados de música, andam dispersos por várias publicações de que temos conheci­mento, fazendo, para algumas das toadas recolhidas, a prudente reserva da fideli­dade da transcrição musical (por exemplo, para os das colecções de Pedro Fernandes Tomás, a quem muito se deve neste capí­tulo, mas cujo rigor musical é frequente­mente duvidoso), e formulando votos por que a presente lista possa vir a ser acres­centada com comunicações dos nossos es­tudiosos da matéria.

I. O Conde de Alemanha, Reginaldo, O Capitão da Armada, Nau Catrineta, O Cego, Frei João, Jesus pobrezinho, in Pedro Fernandes Tomás: Velhas Canções e Romances Populares Por­tugueses (França Amado, Coimbra, 1913).

II. O duque de Alba, A noiva enganada, in Pedro Fernandes Tomás : Cantares do Povo (França Amado, Coimbra, 1913)

III. O Caçador, Pastora, Sta, Catarina, Milagre da Virgem, in Pedro Fernan­des Tomás: Canções Portuguesas do século XVIII à actualidade (Coim­bra, Imprensa da Universidade, 1934).

IV. D. João, D. Fernando, D. Angela, Deus te guarde pastorinha, Mineta, A menina cativa (?), in P.e Firmino A. Martins: Folklore do Concelho de Vinhais, 2º vol. (Lisboa, Imprensa Nacional, 1939).

V. O lavrador da arada, O homem rico, Conde Alardo, Santa Iria, in António Avelino Joyce: Revista Ocidente, IV.

VI. Lavrador da Airada, D. Silvana, Santa Iria, O príncipe e a pastorinha, Ora, valha-me Deus, Morena, O rei e a pastora, D. Martinho, in J. Diogo Correia: Cantares de Malpica (Livra­ria Enciclopédica de João Bernardo, Lisboa> 1938).

VII. O cego, Conde Nino, Conde Albano, Rosa, a pastorinha, Nau Catrineta, Dona Silvanas Irene (sem letra), Bernal Francês (sem letra), Lamenta­ções da freira (sem letra), Dona In­fanta, Gerinaldo, O lavrador da arada, in Gonçalo Sampaio: Cancioneiro Mi­nhoto, 2,a edição (Livraria Educação Nacional, Porto, 1944).

VIII. O lavrador da arada (três versões), Romance ("sem titulo), in Edmundo Arménio Correia Lopes: Cancioneirinho de Fozcoa (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926).

IX. Santa Iria, A nau Catrineta, in Fran­cisco de Lacerda: Cancioneiro Musi­cal Português   (Junta de Educação Nacional, Lisboa, 1935).

X. Rosa, a pastorinha, Confissão da Vir­gem, in Sales Viana: Cancioneiro Monsantino (Edições SNI, Lisboa).

XI. A bela Infanta, in Rodney Gallop: Portugal, a book of Folk-ways (Cam­bridge, at University Press, 1936),

XII. Silvaninha (var.), Bela Infanta, in Ro­dney Gallop: Cantares do Povo Por­tuguês (Livraria Ferin, Lisboa, 1937).

XIII. Reginaldo (ou Gerinaldo), O homem rico, in Fernando Lopes Graça: A Can­ção Popular Portuguesa (Publicações Europa-América, Lisboa).

 

Deve observar-se que certos destes Ro­mances se acham repetidos ou constituem lições diferentes do mesmo tema; estão neste caso, por exemplo, Mineta (O cego), Rosa, a pastorinha (O príncipe e a pastora, Pastora), Frei João (Morena), Jesus pobre­zinho (O lavrador da arada). Isto apenas quanto às letras, porquanto as melodias não se repetem.

 

 *

 

Notas:

 

1. Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP, 1968] de excerto reproduzido no documentário Uma visita aos afectos do compositor  [Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça © Sílvia Camilo 2014] 

Imagem gentilmente cedida por Sílvia Camilo a quem muito agradeço. 

 

2. O romance popular Linda-a Pastora com introdução de Garrett neste blog aqui

 

3. Artigo de Gonçalo Frota no Público O cante ouve-se com o corpo, diante das vozesaqui

 

4. Mais neste blog nas tags Lopes Graça e Garrett

 

 

 

 

 

 

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12.12.14

 

A descoberta de inéditos do Romanceiro de Almeida Garrett foi anunciada a 7 de Dezembro de 2004 pelo Diário de Notícias [1]. No dia 9 de Dezembro do mesmo ano, integrado num caderno dedicado ao Autor por ocasião dos 150 anos da sua morte, saiu no Público [2] o romance popular “Fonte da Cruz”. 

 

 

Fonte da Cruz título.jpg

 autógrafo de Almeida Garrett

 

 

As primeiras e últimas coplas deste romance são uma das mais antigas reminiscências de minha infância. Estou daqui vendo ainda o grupo de crianças que nos sentávamos no chão para o ouvir contar a uma certa pequena pouco mais velha que nós, filha de uma boa mulher que fora ama de leite de minha mãe. Isto é dizer que eu teria quatro anos, os mais velhos de entre nós seis ou sete, e a nossa cantora os seus oito ou nove anos. Era uma santa gente que morava para o Bom Jardim, no Porto, e vivia de pequeno mas honesto tráfico, protegidos por meus pais. A filha ia passar oito ou quinze dias no “Castelo”, pequena quinta nossa, situada daquém Douro. E era um dia de alegria o em que ela chegava, era choro que não acabava quando se partia. Porque ela sabia, além destes cantares ao divino, todas as xácaras da Silvana, da Bela Infanta, e mil outras histórias em prosa e verso, como as da «Maria Cortiço», da «Maria Sabida» do «Rei dos Ratos», «Gata Borralheira», «Rei Ramiro» além de infinitas aventuras de bruxos, lobisomens, moiras incantadas [3] , duendes, etc, cujos títulos individuais me não lembram; era um romanceiro vivo, uma segunda e mais completa edição daquela erudita e copiosa Brígida velha que, em outros lugares de minhas escrevinhaduras, tenho celebrado e citado.

 

Estas primeiras e últimas coplas eram as que só me lembravam quando a nossa lavadeira, que é uma boa mulher de Loures, aqui veio hoje, 15 de Abril de 1843, e a ouvi cantando a trova na cozinha donde a chamei e, sem grande dificuldade — coisa rara ! — pude obter que ma deixasse copiar, o que fielmente fiz, emendando apenas algum verso demasiado esticado ou curto demais: que poucos foram.

 

Fonte da Cruz

 

Deixa-me ir à fonte nova

Que nasceu ao pé da Cruz:

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

Um cego, que abriu a fonte

O cego já achou luz,

Que lhe deu água nos olhos

Da fonte da vera Cruz.

 

Fonte nova, fonte santa,

Fonte de amor que reluz!

Santa Maria ao pé dela,

San’ João com seu capuz.

 

Outra fonte fazem ambos

A chorar o seu Jesus.

—“ Minha mãe, esse é teu filho”

Diz o Salvador da Cruz,

 

“João, essa é tua mãe,

Que assim o quero e dispus

À hora da minha morte;

E cá vos fique esta luz:

 

Que o meu amor não tem fim,

E que entre vós dois o pus

Para se lavar o mundo

Na fonte da vera Cruz.”

 

Quem quer vir à fonte nova

Que se fez ao pé da Cruz?

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

 Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Notas

 

1. Almeida Garrett foi «o primeiro compilador do nosso Romanceiro, ou seja, de narrativas diversificadas, de vária índole, da nossa tradição oral popular, destinadas a serem meio recitadas, meio cantadas» explica a investigadora Ofélia Paiva Monteiro. O autor terá dedica­do grande parte da sua vida a esta recolha. «Entre 1843 e 1851, Garrett editou os três tomos do "seu" Romanceiro, dizendo na Introdução do segundo que a sua colecção viria a ser consti­tuída por cinco livros», lembra esta professora. Mas o elenco publicado só corresponde aos li­vros I e II. «Os manuscritos ago­ra achados parecem comportar o material compilado para os to­mos que não chegaram a vir a lume; e complementam mate­rial que já tinha sido dado a co­nhecer por um Cancioneiro, au­tógrafo garrettiano (que traz a indicação de ter sido começado em 1824)».

 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

 

2. "Fonte da Cruz", um poema recitado por uma lavadeira saloia de Loures, foi descoberto em Março [2004] pela família Futscher Pereira num espólio herdado, e mantém-se inédito. Este poema (também chamado "romance" ou "cancioneiro") da tradição oral popular tem origem medieval e Almeida Garrett reuniu-o no Livro III das "Lendas e Profecias", todo ele inédito. Começa com uma introdução, do próprio Garrett.

 

Público, 9 Dezembro 2004

 

3. Na transcrição dos manuscritos para o Público, desdobraram-se abreviaturas e pontuou-se raramente para compreensão dos textos, mantendo embora a redacção de palavras peculiares na ortografia garrettiana (como "incarregar" ou "incantadas". [Luís Augusto Costa Dias]

 

 

4. Sobre a divulgação dos manuscritos achados em 2004 leia também neste blog o post Long Live Garrett 

 

 

 

 

 

 

 

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7.12.14

 

FLG Faial.jpg

 Fernando Lopes Graça, Horta, Açores 1983 

 

 

 

Cumpriu-se faz agora dois anos a primeira etapa do projecto ambicioso dum grupo de amigos de Fernando Lopes Graça (1906-1994): trazer a público uma colecção de peças para piano que o compositor dedicou a amigos e eventos – as “Músicas Festivas” – e registá-la em múltiplos suportes, permitindo a criação de conteúdo não efémero.

 

Das 23 peças, 13 nunca tinham sido tocadas em público e 18 nunca tinham sido gravadas. A colecção inédita foi apresentada a 16 de Dezembro de 2012 num concerto do pianista António Rosado no Centro Cultural de Belém. Na mesma data saíram os CD "Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça", os quatro volumes das partituras (em suporte papel) e foram criados um sítio Web multilingue* e um álbum de fotografias e documentos no facebook.

 

Um duplo DVD agora lançado [o concerto no CCB, com introdução do musicólogo Rui Vieira Nery, e o documentário "Uma visita aos afectos do compositor"] completa este projecto multimédia, a vários títulos exemplar, constituído por cinco iniciativas produzidas e financiadas por um grupo muito pequeno de pessoas com apoios quase nulos.

 

O documentário "Uma visita aos afectos do compositor" — retrato intimista e muito cativante de Lopes Graça construído a partir de depoimentos, excertos musicais, fotografias, imagens em movimento e documentos reunidos ao longo da pesquisa — revela-nos com simplicidade e saber toda a riqueza da sua música (1), do seu legado intelectual e da sua personalidade, à luz do presente.

 

E nem de propósito, a coincidir com a recente consagração mundial do Cante Alentejano, este documentário vem recordar o papel pioneiro de Lopes Graça na música coral portuguesa e na recolha da nossa música tradicional (2), e inclui mesmo um apontamento extra sobre a digressão pelos Estados Unidos, pela mão do compositor, do grupo coral alentejano da Aldeia Nova de São Bento, a convite da Smithsonian Institution, por ocasião do bicentenário do país, em 1976.

 

Bem vindo às “Músicas Festivas” de Fernando Lopes Graça, disponível em DVD numa loja perto de si.

 

 

 

Notas:

 

 1. “Muita da sua reflexão vem de um trabalho de desconstrução dessas músicas tradicionais e de transposição de elementos que ele encontra nessa linguagem popular para uma esfera erudita em que depois cruza esses elementos com as referências cosmopolitas das vanguardas modernistas em que se integrou”. [Rui Vieira Nery na introdução]

 

2. Lopes Graça cria nos anos 40 o Coro da Academia de Amadores de Música. As suas harmonizações das Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas serão cantadas pelo Coro por todo o país. O interesse de Lopes Graça por este património tradicional e o trabalho que desenvolveu nesta área é comparável ao de Garrett com o Romanceiro, acerca do qual o compositor escreveu na revista Gazeta Musical um artigo que será abordado em futuro post.

 

 

 

 

separador_20DVD copy.jpg

 

*Na web em português aqui e EN-FRA-RU-ESP-HUN

 

trailer do documentário aqui

 

facebook aqui

 

 

 

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1.10.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O antigo regime e a revolução

 

 

Poucos anos antes ou poucos anos depois do 25 de Abril, num bar no Cais de Sodré onde o Albaninho Costa Lobo me levara a tomar um copo ao fim da tarde, entre fregueses compinchas do Albaninho, gente de negócios de barcos, havia um, devoto da memória de Salazar, que contou ter em casa discos com discursos dele que muitas vezes punha na grafonola e ouvia, a chorar.  

 

Tinha o falar franco e confiante dos praticantes de desporto (no caso, andebol no Sporting) e contava a sua história sem pompa nem pretensão. Lembrei-me hoje dessa passagem que me impressionara na altura. Nado e criado em casa de tradição republicana, que por Salazar nutria uma mistura de desprezo, desgosto e zanga; tendo por assim dizer posto entre parêntesis avô materno salazarista; dando-me com filhos de amigos dos pais de inclinação parecida e fazendo eu próprio amizades laicas e esquerdistas — nem eu nem os meus irmãos tínhamos sido baptizados — vivi a universidade, a morte do pai, a ida para Inglaterra, numa bolha oposicionista que não se desfez até à queda do regime. Vindo de Londres a Lisboa no começo de Maio de 1974, ao passar o controle de fonteira no aeroporto da Portela — “Seja bem-vindo a este país livre” disse o jovem guarda-fiscal ao devolver-me o passaporte — senti o que continua a ser a maior alegria da minha vida fora do foro privado.

 

Depois da revolução ter derrubado o antigo regime, porém, aprendi a ver Portugal de outra maneira. Episódios curiosos chegavam do mundo universitário: estudantes maoistas foram a Sintra convidar MS Lourenço para professor de filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, onde o regime anterior não o deixara ensinar. Acordo feito, até que à saída um dos maoistas perguntou “O Senhor Professor conhece o trabalho do camarada Estaline sobre lógica?” “Não, não conheço”. “Mas vai com certeza ler?” “Nem pouco mais ou menos”. Acordo desfeito. Alguns anos depois, numa aula prática com dez alunos, um deles contou a Mena Mónica de argumento espectacular num livro que vários deles tinham lido. “Num livro de quem?” perguntou a Mena. “Aqui da Joana”. Doutro mundo que eu também conhecera, o da agricultura alentejana, vinham notícias piores ainda e o que lá fui ver em 1976 mais me desencorajou. Portugal fora destapado, como dizia o meu chorado Horácio Menano. E dentro do tacho havia de tudo (incluindo alguns patriotas impolutos). Espartilhada pela Guerra Fria, a Revolução dos Cravos acabou em democracia (tal como a Primavera de Praga acabara em Inverno) e depressa me convenci de duas coisas. Primeira: não havia país mais parecido com Portugal depois do 25 de Abril do que Portugal antes do 25 de Abril. Segunda: ao contrário do que aprendera em casa dos pais, Salazar não tinha sido causa dos nossos males mas sim sua consequência.

 

5 de Outubro; 28 de Maio; 25 de Abril. Hoje, na União Europeia, com a tropa limitada aos seus deveres constitucionais, deixará de haver datas dessas e não teremos mais desculpas.

 

 

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27.9.14

 

 

Cristina Ténis 1965.jpg

 

 

Cristina Futscher Pereira

17 Abril 1948—27 Setembro 2005 

 

 

 

 

 

Caro Almeida Garrett

 

 

Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.

 

O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.

 

Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.

 

Mas o achado constituiu também um encontro.

 

A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno «templo», de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.

 

Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.

 

Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned you know what I mean? —, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.

 

Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.

 

Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.

 

Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.

 

O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é…), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através da quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.

 

Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.

 

Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual eu tive a honra e o gosto de participar.

 

Ele aí – aí?, aqui? – fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?

 

Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.

 

 

 

 

Notas:

 

Este texto fechou o blog O Divino em 2005. O blog garrettiano fora criado por Cristina em 2004 e foi retirado dos blogs do sapo cinco anos depois.

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Retentiva e Conteúdos em Português. 

 

 

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Long Live Garrett

 

Garrett inédito

 

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

Garrett leitor de Vicente

 

Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909)

 

 

Inéditos do romanceiro garrettiano neste blog na tag Garrett 

 

 

 

 

 

 

Lettre à Garrett (2005)

 

 

Cher Almeida Garrett,

 

Pardonnez-moi de vous interpeller ainsi, si soudainement, mais, croyez bien que je n’oserais pas vous importuner pour un rien. Partir, et partir tôt, est un drame que vous connaissez bien. Partir trop tôt. Je sais, donc, que vous comprendrez ce que j’ai à vous dire.

 

Votre nom et votre œuvre sont encore vénérés dans ce pays qui est le vôtre, même si on leur voue, en somme, l’estime accordée habituellement aux monuments. Révérés, mais en vérité, oubliés, ignorés et vandalisés. Rien de nouveau, nous le savons bien.

 

Imaginez-vous que les manuscrits inédits de votre Romanceiro ont été découverts dans un tas de papiers qui se trouvait chez Venâncio Deslandes, jadis directeur de l’Imprensa Nacional. Il n’est pas difficile d’imaginer les raisons qui auront conduit Monsieur Deslandes à rapporter le manuscrit chez lui mais nous ne saurons probablement jamais le fin mot de l’histoire qui explique qu’ils y soient restés jusqu’à ce que Cristina Futscher Pereira ne les déniche.

 

Mais cette découverte fut aussi une rencontre.

 

Car, dès cet instant, le destin de Cristina Futscher Pereira s’est mêlé à celui de ces documents. Et vous, mon cher Garrett, sachez que vous avez nourri son enthousiasme. Elle pressentait que ces manuscrits étaient une manifestation de sa bonne étoile et alla même jusqu’à construire ce petit temple d’où je vous écris, pour y partager les bonnes nouvelles avec tous ceux qu’elles intéresseraient.

 

Mais, (presque) personne ne se montra intéressé. Enfin, il y eu quelques lueurs d’intérêt pour ces documents, noblesse oblige , bien qu’elles fussent mornes et brèves. Qui sait, peut-être sommes-nous fatigués d’être un Pays, d’avoir une Histoire si pesante, au bilan si incertain.

 

Et puis, un Romanceiro, n’est-ce pas quelque chose de complètement has been, si old fashioned – you know what I mean? – quelque chose qui appartient à un monde qui n’est plus et qui a donc cessé de nous intéresser ? Bien sûr, il convient de le protéger et quelqu’un doit se charger de conserver ces choses. Ça pourrait venir à manquer, un jour, qui sait ?

 

Et pourtant, cher ami, vous avez bien peu de raisons de vous plaindre. En dépit de l’infortune pédagogique de Voyages , vous faites encore partie du canon, personne ne vous réfute l’épisode de Mindelo, la scène des théâtres vous est encore ouverte, le frac vert, la cravate colorée et le chapeau blanc provoquent encore bien des émois chez la gente féminine. De votre poésie, il reste Folhas Caídas (dont le pathos augmente quand on connaît l’histoire de la vicomtesse de Luz) et votre éloquence résonne encore vaguement au parlement. Tout le monde n’a pas la chance de pouvoir en dire autant.

 

Mais en réalité, votre œuvre est bien peu lue et, hélas ! , rares sont ceux qui parlent encore cette langue dans laquelle vous avez écrit ces pages si remarquables.

 

Poursuivons. J’ai connu Cristina à cause de vous. Disons que c’est l’écrivain illustre qui est à l’origine de notre rencontre. A peine m’avait-elle fait part de ses projets que je lui disais de ne rien attendre, ou si peu. Mais mon scepticisme a cédé face à l’énergie qui l’animait et à son désir d’éveiller un intérêt renouvelé pour votre personne, cher Garrett, et pour votre œuvre. Comment aurais-je pu refuser ?

 

Le résultat de cette collaboration est là, dans ces pages écrites dans l’éther (vous me pardonnerez, cher ami, de ne pas me risquer à la moindre explication...) mais aussi, dans ce riche échange épistolaire d’où est née une amitié certaine.

 

Cher Almeida Garrett, Cristina Futscher Pereira n’est plus.

 

Elle est partie trop tôt, comme vous. Avec elle, disparaît également cet espace qu’elle vous avait consacré et auquel j’ai eu l’honneur et le plaisir de participer.

 

Et lui là, – là ? Ici ? – reste pour témoigner de ces battements de cœur que vous avez provoqués tout au long de sa dernière année de vie. Cristina a fait ce qu’elle a pu jusqu’à ne plus pouvoir. Mais son exemple est là et, qui sait, peut-être fera-t-il des émules, peut-être sera-t-il repris ? N’est-il pas vrai que nous lui sommes tous redevables ?

 

C’est le devoir accompli - dont je me suis moi-même investi - que je vous salue, toujours plein d’estime et d’admiration.

 

 

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Si les morts et les époques se rejoignent et se mêlent comme dans La Tour de Barbela de Ruben A., vous finirez par faire la connaissance de Cristina. Je vous demande de lui accorder le traitement que l’on réserve aux amis sincères et dévoués.

 

 

 

Traduction de Laurence Corréard

 

 

 

Lettre à Garrett fut le dernier texte publié dans O Divino , un blog créé par Cristina en 2004.

 

 

 

 


20.8.14

 

 

 

 Tony Silva em "O Tal Canal" de Herman José, RTP 1983/1984 

 

 

 

 

 

O rame-rame

 

 

 “Que lentement passent les heures/Comme passe un enterrement./Tu pleureras l’heure où tu pleures/Qui passera si vitement/Comme passent toutes les heures” rimou Apollinaire na cadeia, acusado injustamente de cumplicidade no roubo da Gioconda do Louvre em 1911. (O Secretário de Estado das Belas Artes quisera matar-se. Roubo parecido na Europa de hoje levaria governante equivalente a dizer logo que a culpa não fora dele mas em 1911 havia honra — talvez até houvesse demais: três anos depois, os Imperadores da Alemanha, da Áustria e da Rússia, o Monarca constitucional do Reino Unido e o Presidente da República Francesa mandaram os europeus irem matar-se uns aos outros. E eles foram, a rir e a cantar). No devagar depressa dos tempos, chamou Marcello Mathias, com vénia a João Guimarães Rosa, aos diários que foi publicando.

 

Agosto vai escorregando pela ravina que leva a Setembro. Consta-me que de Carnide se vê um país cada vez mais triste: quem ande fora tem medo de cá voltar. Que da Quinta da Marinha se descobre que o mal chegar a alguns não faz bem a ninguém. Que entre os pobres de pedir as coisas vão melhor: já não os há como no tempo de Raúl Brandão e na versão moderna, com salários, subsídios e pensões abaixo da fasquia dos cortes e a vida levantada como um barco pela maré tecnológica — ecografias, mezinhas, baixas — mesmo se meninas e meninos forem para a escola em jejum esfomeado, nunca estiveram tão bem. Já quase todos têm posses para comer manteiga de vaca. Tirando o percalço de África e os descaros libertários e libertinos de Internet & Cia o Dr. Salazar, se voltasse agora, não estranharia muito o país.

 

Como no resto da Europa, falta grandeza. Dos nossos dois maiores políticos, Francisco Sá Carneiro morreu cedo demais e Mário Soares — a quem os portugueses devem mais do que a qualquer outra pessoa, incluindo o general Eanes, terem sobrevivido ao 25 de Abril em democracia — desbarata crédito em retórica disparatada de há dez anos para cá. Como no resto da Europa, quem manda tem a visão do saguão e o instinto da escada de serviço. Existirá alguém com cabeça e temperamento que nos arranquem deste rame-rame?

 

Há muitos anos, o dramaturgo Augusto Sobral inventou a “Adivinha” seguinte: “De meia tigela veio/E ficou meia tigela./Ficou a tigela em meio/Porque era meia tigela.” Podia ter sido inventada antes. Em 1963 pequeno proprietário, grande na sua aldeia alentejana, disse-me: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. E em 1834 a Câmara do seu concelho, miguelista como quase todas as câmaras durante a guerra civil, escreveu à Rainha D. Maria II afirmando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis”.

 

Fará mesmo falta animar a malta? Valerá a pena?

 

                                                                                                                                                                                                               

 

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