23.4.16

 

 

 

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bofetada

bo.fe.ta.da

Nome feminino

(de bofete + ada)

 

A definição geral é a de um golpe facial assente, ou plantado, com a palma da mão. Também as há dadas com a parte de trás da mão, tomando nesse caso, popularmente, o nome de mosquete ou mesmo de safanão. Porém, quando se dão ou se prometem bofetadas, que não sejam «sem mão» ou «de luva branca», formas mais sofisticadas e exemplares, há que ter em conta a imensa variedade de matizes e subtilezas que este gesto envolve, conforme quem o desfere, a sua origem social, o nível cultural, a idade, a região do país, o contexto desencadeador e o estilo pessoal; e, claro, o grau de violência com que é desferido ou, até, a zona atingida, como no caso da orelhada, de boa tradição alentejana, o sopapo ou o trompázio.
Deste ponto de vista, bofetada é até o termo mais suave, mais cândido, mais «totó» ou «nini» se quisermos, juntamente com a palmada ligeira que é o bofete ou a tapa, termos mais açucarados e outro-atlânticos. Muito abaixo portanto do clássico tabefe (de origem árabe), breve e enérgico, com a mesma secura eloquente do estalo e da estalada. Talvez por isso todos estes se apliquem indiferentemente a crianças e adultos, homens e mulheres, cidadãos e cidadãs, homo ou hétero, bi ou poli, e até mesmo a transgéneros.
A bofetada popular tem uma variedade de expressões. Umas de carácter impiedoso, que revelam a intenção e a força usada (ou a usar) como chapada, lambada, lampana ou latada; outras são eufemismos estilosos, maneirismos, e revelam mais sobre quem as pronuncia do que outra coisa: pastilha, galheta, bilhete, bolacha ou bolachada, estampilha e sorvete. De resto, a variação de intensidade ganha particular nitidez no mundo, ou melhor, no mar de diferenças que existe entre a sardinha e a solha, passando pela sarda.
Lugar à parte, pela sua riqueza expressiva, mas também pelo seu desuso corrente, tem a palavra sinapismo como sinónimo de bofetada: impregnada dos ardores da mostarda, ela é, entre todas, a única que remete para remédio ou tratamento.

 

 

 

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6.4.16

 

 

 

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Monumento aos soldados portugueses mortos na 1ª Guerra Mundial

António Teixeira Lopes (1928)

La Couture, França

 

 

 

 

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O primeiro pecado é ser pobre

 

 

 

Assim escreveu Bernard Shaw, irlandês saído da minoria protestante da ilha, no começo do século passado acrescentando que quando alguém diz “sou inculto mas é porque sou pobre” está a desculpar um mal com outro pior. É como se estivesse a dizer sou coxo mas é da sífilis. Escreveu também que o dinheiro não dava felicidade mas dava uma coisa tão parecida que só um perito era capaz de as distinguir. Amiga minha a quem anos de vida nos Estados Unidos instilaram bom senso revivificante nas sinóvias morais instaladas em menina e moça pelas Doroteias gosta de lembrar às vezes com algum schadenfreude que “mais vale ser rica e saudável do que ser pobre e doente”. Conheci no Alentejo profundo Senhora chamada Antónia, mulher de taberneiro-seareiro com pendor filosófico, tão enérgica, metódica, esperta e diligente na lida do seu negócio, trazendo a taberna num brinco enquanto o marido preguiçava, que eu achava que ela, tal como Wolfgang (Amadeus Mozart), Pablo (Ruiz Picasso) e William (Shakespeare) não deixava “criar gordura ao músculo do dia”.

 

Fora Portugal assim… Mas não é. Se o meu entusiasmo lírico era evidente, já o Senhor Teófilo, compadre dela e secretário da Junta de Freguesia, se queixava: “É boa rapariga, a Antónia – é pena ter aquela coisa do lucro.” Aquela coisa do lucro… O lucro ser coisa má é convicção que parece permear o país de alto abaixo e de lado a lado, desde a direita das sacristias tradicionais (as Misericórdias, por exemplo, limitavam rigorosamente o juro – baixo - a que emprestavam dinheiro) até à esquerda dos sindicatos modernos (“La propriété c’est le vol” foi Proudhon quem o disse primeiro mas não era por isso que Marx o detestava). “Hoje fiz manhã de rico!”, expressão que ouvi também no Alentejo a jovem funcionário do Grémio da Lavoura com quem encalhei no café central da terra, sentado diante de um café com leite e de uma torrada às onze da manhã, deixaria qualquer milionário americano, por um lado, indignado por se pensar que as manhãs dele eram assim e, por outro, relutante diante de sugestões de investimento num lugar onde se julgava que os ricos assim eram – talvez por ser o caso dos indígenas ricos. A América dos negócios ficara inquieta quando descobrira que Ronald Reagan descia ao seu escritório na Casa Branca às 9 da manhã, em vez de ser às 7 como qualquer protestante anglo-saxónico branco que se prezasse.

 

Algures entre a apresentação de Os Lusíadas a D. Sebastião e as três invasões francesas perdeu-se o fio à meada. O pai dizia que não somos descendentes dos que foram à Índia: somos descendentes dos que cá ficaram. Em tudo. Quarta-feira passada lembrei-me de Fernão Mendes Pinto, dizimando chineses a poder de Avé-Marias e pelouros; hoje lembro-me de um tenente-coronel reformado adorável, muito de casa do meu primeiro sogro, que na batalha de La Lys comandara uma bateria de morteiros. Contou-me que sempre que mandava um para o outro lado rezava para não matar ninguém.

 

 

 

 

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9.3.16

 

 

 

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edição FFMS 2016

 

 

Quando as notícias deram conta, a propósito do livro de Henrique Raposo, das manifestações daquela «vocação do energúmeno» de que Nemésio fala no seu belíssimo prefácio a um livro sobre Polémicas Portuguesas[1], desta vez sob a forma de auto-de-fé, senti que talvez tivesse de contrariar a minha aversão a meter o nariz onde não sou chamado. Ou admitir que havia chamamento, afinal.

 

É que de imediato reconheci o espírito – ou, melhor, a falta dele – que estava por detrás das ditas manifestações, e quase por instinto decidi que queria estar na apresentação pública do livro (e na altura nem sabia que Rentes de Carvalho usaria da palavra!). A minha vivência alentejana difere, no tempo, no espaço e na duração, da experiência de Henrique Raposo: é mais antiga, mais interior (em sentido duplo), mais longa e abrangente. Mas talvez igualmente distanciada e crítica.

 

Estimo a ousadia de Henrique Raposo, que não conheço pessoalmente, e creio que ele dá corpo a algumas intuições certeiras. Estimo igualmente a genica com que procura um paradigma diferente na abordagem do Alentejo e das suas mitologias. Mas também penso que é por vezes demasiado ligeiro, até abusivo, nas generalizações, e, malgré lui, dominado por um certo romantismo.

 

A minha ideia de ir à apresentação era, em primeiro lugar, marcar presença (coisa que só para mim contaria), aliás logo justificada ao notar a presença façanhuda e pesporrente de algumas personagens entre a assistência. Conheço bem o género. Depois, chegar à fala com o autor e dizer-lhe: parabéns pelo seu livro, que li com interesse, também eu sou alentejano, não há como ver-me livre disso e lido bem com a coisa, e gostaria um dia de trocar impressões sobre um certo número de ideias, factos e memórias.

 

Fiquei-me pela presença. O resto fica aqui dito.

 

Jorge Colaço

 

[1] Direcção de Artur Anselmo, 2 vols., Verbo, 1964 e 1967.

 

 

 

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alentejo 4

 

 

 

 

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Alentejo

 

 

 

Robert Lowell dava aula no colégio de All Souls em Oxford. Um estudante quis saber o que é que ele pensava de literatura “engagée”. Que era uniformemente má. O estudante insistiu: “E o livro de Norman Mailer sobre o Vietname?” “O livro de Norman Mailer sobre o Vietname não é sobre o Vietname é sobre Norman Mailer”.

 

Isto à laia de introito ao Alentejo prometido de Henrique Raposo, que é mais sobre Henrique Raposo do que sobre o Alentejo, sem por isso perder qualidade. Li-o com gosto e curiosidade e fico à espera de investigação sistemática e pormenorizada sobre temas nele aflorados – passado de violência e suicídio, por exemplo – para ficarmos a saber melhor o que por lá houve e haja ainda. O que Raposo publicou é estimulante mas é pouco e impressionístico.

 

Sobre suicídio, tinha-me telefonado faz já algum tempo porque há quase meio século publiquei monografia sobre outra parte do Alentejo e oficiais do mesmo ofício gostam de comparar notas. Não pude ser-lhe de grande utilidade: sim, também havia suicídios por onde eu tinha andado – as mulheres normalmente atiravam-se a poços com as saias atadas para não flutuarem; os homens davam tiro de caçadeira na boca, o gatilho puxado pelo dedo grande do pé – e disso já ele sabia. Só agora, lendo o livro, percebi porque é que o fenómeno do suicídio lhe fez tanta impressão e não ma tinha feito a mim. Henrique Raposo tem objecção moral ao suicídio e eu não. Além disso, nado e criado nos arredores de Lisboa, foi tentar perceber a terra donde vinham os seus pais a partir de instituições e valores morais muito marcadas pelas do Norte de Portugal. Para muitos alentejanos, o suicídio, por mal que possa fazer a gente próxima do suicida e por distúrbio na comunidade que cause, não constitui ofensa a Deus porque Deus não existe. E as razões da sua prevalência em terras transtaganas - as estatísticas parecem inequívocas, embora se deva lembrar que, em lugares onde o suicídio seja grande pecado e socialmente muito mal visto, certidões do óbito possam não o mencionar – terão, julgo eu, fundamento histórico simples.

 

Enquanto a cristianização do Norte de Portugal coube ao clero secular de dioceses e paróquias, a cristianização do Alentejo foi sobretudo feita por Ordens religiosas. Se a densidade populacional era mais baixa no Sul do país do que no Norte, a densidade de pessoal religioso era muito mais baixa ainda e, com a extinção das ordens religiosas do Liberalismo, a situação piorou. No começo da República, as coisas não se passaram muito mal: mais padres no Alentejo do que no Norte do país aceitaram ser pagos pelo Estado. Mas em 1960, menos de metade das paróquias tinham pároco no Alentejo: “país de missão”, chamava-lhe a Igreja. Não creio que, entretanto, tenha mudado muito.

 

 

NB Alentejo prometido é interessante e bem escrito. Mesmo que o não fosse, a agressão alentejana a autor e livro por pimpões e pimponas ofendidas, no século XXI e na Europa Ocidental, deixa este alentejano de boca aberta.

 

 

 

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13.1.16

 

 

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 Foto: Catherine Boutaud

 

 

 

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Mouros

 

 

Há anos, amigo tripeiro assistia a jogo de futebol entre Boavista e Salgueiros quando o árbitro alfacinha apitou para mandar marcar um livre. A claque castigada não gostou e um entusiasta gritou, furioso contra o árbitro: “Ah mouro, se num fossemos nós ainda andavas de lençol à cabeça!”

 

O brasão de Évora ostenta cavaleiro medieval a galope, na mão direita um montante levantado, na esquerda, agarradas pelos cabelos, duas cabeças - de homem velho e mulher nova - degoladas de fresco. Celebra o feito de Geraldo Geraldes, por alcunha O Sem Pavor, fidalgo expulso da corte de D. Afonso Henriques que para voltar às boas graças do Rei decidira ajudá-lo a tomar Évora aos mouros. De torre no campo que se via da muralha, vigia fazia sinais de fogo diferentes conforme hostes que se aproximassem à noite fossem amigas ou inimigas. Geraldo meteu-se a namorar a filha do vigia, ganhou a confiança do pai, uma noite combinou com compinchas henriquinos que viessem preparados para conquista e saque, quando eles se aproximaram matou o pai e a filha, deu sinal de fogo de chegada de amigos, a porta da cidade foi escancarada e os cristãos tomaram Évora enquanto o Diabo esfrega um olho. (É o que a lenda diz. Reparei outro dia que hoje, no brasão, as cabeças aparecem em baixo, separadas uma da outra, nada indicando ter sido o cavaleiro a cortá-las. Esboço de correcção política?).

 

Durante alguns dos anos da República (1910 – 1926), o jornal O Eco de Reguengos publicava as actas das sessões da Câmara Municipal da (então) vila. Numa delas a discussão sobre já não sei que questão animara de tal maneira que a certa altura o Presidente deu um murro na mesa, exclamando: “Irra, meus Senhores. Isto não é Marrocos!”

 

O que me traz memória menos antiga. Em 1987, era eu director político no MNE, a minha secretária veio dizer-me que o embaixador de Marrocos me queria ver urgentemente. Pedi-lhe para transmitir que se fosse muito urgente eu o poderia receber às quatro e meia; se não fosse, agradecia-lhe que viesse no dia seguinte. Era mesmo muito urgente e às quatro e meia lá estava. Homem inteligente, bem-educado, bom conversador, foi falando até que às cinco horas eu lhe perguntei qual era o assunto urgente. Não havia nenhum: tinha-lhe apetecido conversar comigo porque em Lisboa não sentia a falta de Marrocos, ao contrário do que sempre lhe acontecera noutros postos (incluindo Marselha, onde fora cônsul). Estava entre nós como na terra dele; trocar impressões comigo acentuava esse sentir-se em casa.

 

Evocações trazidas pelo réveillon de Colónia. Não se poderia ter passado aqui nem portugueses constam dos suspeitos de lá. Lembro-me de Paula Rego, aos 20 anos, vinda de Londres, contar em casa da minha mãe dos olhares malcriadamente ostensivos que os homens em Lisboa deitavam sempre na rua a partes do seu corpo. Tempo foi. Uma das maiores mudanças a que assisti na minha vida foi as mulheres terem passado a ser tratadas quase como seres humanos em Portugal. Quase.

 

 

 

 

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30.12.15

 

 

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Mudança climática

 

 

 

 

Véspera de Natal com 15° Celsius à sombra em Montemor-o-Novo e sol a luzir no céu azul entre farrapos de nuvens e édredons espaçados e espessos de nevoeiro de que não me lembro por estas partes e de que não conheço as causas (mais água por esses campos fora desde a barragem da Alqueva?) mas não chegam a escangalhar a amabilidade do tempo, rara há muitos anos por esta quadra.

 

O meu amigo Olivier, belga francofone, quadragenário de fresca data, vegetariano, ecologista, preocupado com o futuro do planeta Terra (Le septième planète fut donc la Terre… etc.), com três filhas pequenas (a mais velha, chinesa, adoptada por ele e pela primeira mulher, irlandesa, as seguintes nascidas da actual mulher, cambojana) sente-se culpado com inverno tão ameno que deveria obrigar os europeus a fazerem tudo quanto pudessem contra o aquecimento global mas, como a ausência de frio lhes sabe bem, os torna mais desleixados ainda do que já eram nesta matéria de vida ou de morte (em Bruxelas, na véspera de lá sair para Portugal, ouvi na telefonia que o dia anterior fora o dia de Dezembro mais quente registado desde que se passara a tirar a temperatura aos dias).

 

A Conferência de Paris – frivolidade perdulária para candidatos a candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, pessoas cuja ignorância militante é escandalosa e deletéria; insuficiência desprezível para ecologistas puros e duros; mas, para gente sensata versada nestas coisas (e não só por quem pontifique, no contentamento da mediocridade, “o óptimo é inimigo do bom”), o passo possível e indispensável para tentar prevenir males no tempo dos nossos filhos e netos que não seriam remediáveis – trouxe um desafio inédito. O problema de escolher entre prazer imediato e prazer futuro é tão velho quanto a humanidade ou, pelo menos, quanto a filosofia (ou, para quem rume no sentido oposto, como muitos biólogos contemporâneos gostam de fazer, buscando animais com razão, sentimento, previsão e escolha – golfinhos? elefantes? outros? – mais antigo do que o homem e porque não: em alturas em que resvalei do ateísmo para o agnosticismo ocorreu-me que, se eu tivesse alma, o meu chorado cão Nero haveria de, à maneira dele, ter alma também) e foi bem abordado por filósofos ingleses do século XVIII, ditos utilitaristas, dos quais o mais conhecido era Jeremy Bentham (que ainda impressiona, embalsamado, numa sala de University College, Londres).

 

O dilema é simples: ceder à tentação do momento ou prescindir desse prazer para obter outro, mais sólido, num futuro determinado. Bom senso e experiência sugerem que a segunda via é mais prometedora, mas puxa-nos demais o pé para a primeira. O que é inédito – salvo talvez em dinastias antigas – é sofrermos não pelo nosso futuro, mas pelo futuro de gerações vindouras. A pessoas narcisistas e hedonistas, como nos dizem que somos agora, vivendo em quase 200 países diferentes, nem sempre ocorrerá a culpa generosa do meu amigo Olivier.

 

 

 

 

 

 

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23.12.15

 

 

 

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 Presépio de Estremoz. Alentejo, Portugal.   

Foto: Estúdio Novais, 1936 

 

 

 

 

 

 

 

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Natal

 

 

 

Há meio século, quando eu vivia em Oxford e ia muitas vezes a Londres (ou uns anos mais tarde quando eu vivia em Londres e ia poucas vezes a Oxford) o Luís de Sousa (que nessa altura vivia em Londres e agora vive em Oxford) contou-me que um professor de história de arte de cujo nome me esqueci e dava aulas já não sei em qual dos colégios da Universidade de Londres, quando chegava às escolas ou maneiras da pintura europeia das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX ensinava aos alunos: “No Impressionismo, pinta-se o que se vê; no Expressionismo, pinta-se o que se sente; no Neorrealismo, pinta-se o que se ouve” (as aulas eram em inglês e o professor dizia social realism em vez de neorrealismo mas é o mesmo).

 

A sentença ficou-me gravada no canto da memória onde estão arrumados os julgamentos estalinistas dos anos trinta na Rússia, quando centenas e centenas de funcionários do partido comunista da União Soviética, dos mais altos aos mais baixos na nomenklatura, em tribunal confessaram falsamente (com boa consciência) terem traído a pátria e o partido, às vezes ao serviço de potências estrangeiras, sendo condenados à morte e executados, para exemplo do povo em geral e opróbrio de suas famílias, bem como arrumada nesse canto está a lembrança de um dia no Outono de 1991 em Argel, em visita oficial, com a cidade, entre europeia e africana, pobre, mal cuidada mas ainda bonita ao sol, fazendo-me pensar que Lisboa seria assim se Vasco Gonçalves se tivesse aguentado uma dúzia de anos no poder – e como vai ser também guardado o momento contado por amiga que há dias num elevador apinhado de Luanda, ouviu jovem triste do MPLA responder ao “Então?” matinal de um colega, dizendo: “Sofremos felizes”. 

                                  

Sou um dos muitos portugueses que consideram que o país, logo a seguir ao 25 de Abril, ficou a dever a liberdade da democracia à visão e à coragem de Mário Soares. Durante quatro décadas não tive disso a menor dúvida e não a tenho agora. Pelo contrário: nas últimas semanas, maus augúrios levam-me a recear mais pobreza e mais demagogia inspiradas de cima – e a apreciar melhor ainda a barragem de bom senso e decência oposta por Soares a disparates de esquerda e de direita.

 

Mas é semana de Natal, não neva na província, esqueço estas coisas todas e lembro um poema (neorrealista?) de que gosto muito.

 

 

Natal

 

 

Foi numa cama de folhelho,

entre lençóis de estopa suja

num pardieiro velho.

Trinta horas depois a mãe pegou na enxada

e foi roçar nas bordas dos caminhos

manadas de ervas

para a ovelha triste.

E a criança ficou no pardieiro

só com o fumo negro das paredes

e o crepitar do fogo,

enroscada num cesto vindimeiro,

que não havia berço

naquela casa.

E ninguém conta a história do menino

que não teve

nem magos a adorá-lo,

nem vacas a aquecê-lo,

mas que há-de ter

muitos reis da Judeia a persegui-lo;

que não terá coroas de espinhos

mas coroas de baionetas

postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.

Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

 

 

 

Álvaro Feijó

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                        

    


25.11.15

 

 

 

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Chocalhos

 

 

 

A UNESCO, organização educacional, científica e cultural das Nações Unidas, a que muitos países pertencem, alguns, como nós, por inércia, outros devido a diligência burocrática própria de regimes que sistematicamente violam direitos humanos e julgam que a organização lhes confere respeitabilidade (falta-lhes a lucidez de Groucho Marx: “Eu teria vergonha de pertencer a um clube que me aceitasse como membro”) vai distinguir Portugal no universo do Património Cultural Imaterial da Humanidade - mais uma vez, pois já o tinha feito quanto ao Fado, ao Cante Alentejano e à Dieta Mediterrânica, neste caso sendo a distinção partilhada com Espanha, Marrocos, França, Itália, Grécia e, salvo erro, Tunísia.

 

Agora são os Chocalhos de Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo, distrito de Évora, a subir ao pódio (dizem-me que também ainda há artesãos vivendo de fazer chocalhos na Ilha Terceira dos Açores e em Trás-os-Montes mas foi a ‘comunidade representativa’ das Alcáçovas que meteram à liça e Alcáçovas será o nome que a distinção contemplará). À minha pergunta “Porquê Imaterial?” a resposta veio em duas partes. Primeira, que a UNESCO estabelece a terminologia para os seus programas, prémios e distinções e, a pedido, esclarece termos menos claros a quem, prima facie, não os entenda. Segunda, que é o som dos chocalhos que passa a Património Imaterial por pertencer ao que os antropólogos chamam “paisagens sonoras”, as quais vão mudando, esperando a UNESCO, presumo eu, que a entrada no Património da Humanidade ajude a suspender o desaparecimento progressivo do rumor chocalhal das calçadas da província portuguesa. Palpita-me que seja esforço vão – assim como os que são feitos quando o Estado decide usar dinheiro do contribuinte para salvar empresas cuja vocação é a falência. As Alcáçovas trazem-me outra memória: a mulher de Évora mais bonita do seu tempo (e de todos os tempos entre o seu tempo e o nosso de hoje) que lá viveu pequena, tão inteligente e tão direita que por esse dom e essa virtude mais vezes é lembrada do que pela beleza ímpar. Ainda hoje faz falta.

 

Na UNESCO confirmei uma certeza política e ganhei outra. No Verão de 1974 fiz parte da delegação portuguesa no nosso regresso à organização depois do 25 de Abril em reunião geral que durou várias semanas. Coube-me cobrir sessão noturna em que discursaram representante da Albânia e chefe estudantil do Chile, fugido dos algozes de Pinochet. O albanês demoliu primeiro o Capitalismo, depois o Comunismo Soviético e, quando estava quase a convencer-nos, rendeu elogio abjeto ao camarada Enver Hoxha. Entusiasta, o estudante gabou o paraíso que o país perdera com o fim brutal de Allende e do seu governo.

 

Saí para a noite de Paris confirmado no que pensava dos horrores da Albânia mas convicto de que, se o regime de Allende houvesse durado, o Chile teria passado por muitas e penosas baralhadas.

 

Vem a propósito lembrar isso quando cá se celebra – ou devia celebrar-se – o 25 de Novembro.

 

 

 

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28.10.15

 

 

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Jacob van Ruisdael 

 

 

 

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E agora, José?

 

 

 

“Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há” respondeu-me há meio século grande proprietário de aldeia alentejana minúscula – peixe grande em redoma pequena – a quem eu perguntara como eram as relações com o poder - com o Governo Civil de Évora; com os ministérios em Lisboa – no tempo da República (nessa altura o Estado Novo apodrecia no marcelismo e não era preciso dizer Primeira porque só tinha havido uma). Homem letrado para o seu tempo, o seu lugar e a sua condição - mesmo que o modo conjuntivo lhe escapasse às vezes - deixou-me essa pérola de sabedoria cartesiana: quem não estivesse bem sob uma ditadura (ou não estivesse bem numa democracia…) tinha obrigação de saber que se agisse em consequência o faria por sua conta e risco. Era por assim dizer a tábua rasa onde se jogava. Valeu até à semana passada.

 

Acabado este parágrafo, copio para a leitora o que velho amigo acaba de me escrever. “O País que é o nosso perdeu mesmo a vergonha. Depois de 4 anos abúlicos perante uma violência estúpida e destrutiva de pessoas, bens, património e instituições a noviciada esquerda unida prepara-se para nos servir de bandeja dentro de meia dúzia de meses mais 4 ou 8 anos de coligação PAF que acabará definitivamente com o que temos para terminar honradamente as nossas vidas. Se isto não é o finis Patria do G. Junqueiro não sei o que será”.

 

Carradas de razão: a seguir aos desmandos da obsessão neo-liberal, iremos sofrer golpadas populistas do pior oportunismo e nos próximos votos, que depressa nos irão pedir, a direita ganhará forte e feio, deixando o PS Pasokificado, como agora se diz (não esquecer que durante esta campanha eleitoral o único partido que propunha a união das esquerdas não elegeu um único deputado). Mas eu talvez acrescentasse que, com Guerra Junqueiro ou sem ele, a Pátria ganhou o costume, desde há uns 150 anos para cá, de ser vista de vez em quando a chegar ao fim por alguns dos seus filhos mais insignes. Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill - e agora cabeças pensantes que escrevem para jornais e receiam que a crise de estima e de confiança nos partidos políticos se agrave mais, a seguir às faltas de tento, de patriotismo e de maneiras exibidas por quase todas as chefias nacionais e partidárias desde as eleições de 4 de Outubro, e ponha em perigo a democracia. (Tem sido um espectáculo triste, de que somos todos responsáveis. No tempo do Dr. Salazar, quando as coisas iam mal, achava-se que a culpa era dele – ou, para os salazaristas, do reviralho e de Moscovo. Passou a ser nossa).

 

Mas os portugueses hão de ser sempre os mesmos porque não há outros, como dizia o primeiro Duque de Palmela, a quem chamavam em Lisboa o Inglês-Mor – ou, pelo menos, assim me contou um dia o Vasco Pulido Valente. O que não torna cada finis Patria menos desagradável. Pelo contrário. No que atravessamos agora sinto-me, pela primeira vez na vida, sem saber qual é a lei que há. Muito grave.

 

 

 

 

 

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21.10.15

 

 

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Sala de Actos do Colégio do Espírito Santo, Évora

 

 

 

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Aldeia da roupa branca

 

 

 

Amiga do coração, voltando de sessão solene universitária, passada algures em sala bonita na província deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio – assim escreveria o meu chorado A.B. Kotter, da Várzea de Colares - saíra dela tão bem impressionada que me disse “[H]oje senti-me muito feliz e orgulhosa de Portugal”.

 

Conto isto aqui à leitora metendo A.B. Kotter pelo meio porque há muitas maneiras de se ser do país de onde se é e há também diferenças marcadas de país para país. Num dos Diários do Marcello Mathias, não me lembro qual deles e é de memória que arrisco, Marcello está de visita a uma catedral inglesa (Salisbury?) quando o espaço da igreja e inscrições várias nas suas paredes, algumas sobre mortos pela Pátria em guerras contra estrangeiros, o levam de repente a perceber que ser inglês is a full time job.

 

Ser português nem sempre parece tal. Nós somos menos intensos; dá-nos a coisa nalguns dias, noutros não tanto. Por exemplo, na derrocada de honra e de bom senso que, desde a noite do passado dia 4, no rescaldo das eleições legislativas, alguns insistem em nos apresentar como construção do futuro – de um futuro cheio de amanhãs que cantam – é só em oásis de tempo ou de espaço que muita gente portuguesa se poderá agora sentir bem com Portugal.

 

O avesso – como na roupa – da apregoada brandura dos nossos costumes, refractária a guerras civis, revoluções e motins por tudo e por nada, que, sem alarde ou vanglória, cometeu o maior feito histórico do país desde 25 de Abril de 1974 – a absorção pacífica de centenas de milhares de retornados de África, muitos dos quais nunca cá tinham posto pé - revela-se no bom modo com que o país sustentou quatro anos de austeridade sem tugir nem mugir. É o reverso da medalha.

 

Ora longos períodos de apatia cívica definham a fibra do respeito por si próprio, da mesma maneira que, mutatis mutandis, longos períodos de imobilidade física vão definhando as fibras do tecido muscular e chegam, por vezes, a fazer desaparecer os músculos. Assim enfraquecida, incapaz de perceber bem quem é, atordoada pelo rumor da vida a dar socos na porta cada vez mais ensurdecedor de há século e meio para cá, desde que telégrafo, e depois telefone, telefonia, televisão, internet, redes sociais e o mais que virá, se verá, ouvirá e sentirá, mudaram de alto abaixo a nossa residência na Terra – nos foram dilacerando da tribo sem nos armar em cidadãos do mundo – a gente tenta agarrar-se à aldeia, enterrar a cabeça como as avestruzes. Na aldeia de cada um às vezes tudo parece possível: o novo primeiro ministro do Canadá vai deixar de bombardear o Estado Islâmico; os trabalhistas britânicos escolheram Corbyn para chefe; em Portugal uma suposta ‘esquerda unida’, apesar de diferenças de crença que tornam tal união impossível, entende que o povo a quer para governo, apesar dos resultados do voto de 4 de Outubro não indicarem isso de todo. Terá a nossa aldeia perdido a vergonha?

 

 

 

 

 


12.8.15

 

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Passado; futuro

 

 

 

“Os ricos são como os ciganos. São todos primos uns dos outros” pontificava há cinquenta anos Senhora do Alentejo nem cigana nem rica. O Minho era diferente – ciganos quase não havia; disparidades entre ricos e pobres eram de menor monta - e diferente continuou a ser. Há 41 anos, em conversa fora de Portugal, Senhor minhoto - que também já lá vai - explicava “Nós, na Ribeira Lima, temos duas coisas em comum: sumos todos fidalgos e sumos todos parentes”.

 

Salpicos do que inspirou Orlando Ribeiro a descobrir Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico? Com certeza - mas há bem mais do que isso. Por muito mal que os melhores de entre nós às vezes deem por ela, que a suponham nas vascas da agonia (“Pátria para sempre passada; memória quase perdida”, acabou Eça de Queiroz O Crime do Padre Amaro, em 1875), a besta teima em não morrer. Mesmo debaixo de vergonhas que a façam sofrer, de varas no cachaço a ver se lhe baixam a cabeça para dar melhor lide a quem a queira desfeitear (novo Acordo Ortográfico; admissão da Guiné Equatorial na CPLP) não lhe receio fim à vista. Mas está a chegar a terra ignota ou, se preferirmos o arrimo do mastro da epopeia, a entrar outra vez por mares nunca dantes navegados.

 

À balbúrdia sanguinolenta seguira-se a noite negra do fascismo - para usar chavões predilectos dos inimigos jurados de uma e de outra porque ao longo das décadas gente menos intensa, isto é, a maioria, estava perto do poeta Alberto de Monsaraz que dizia viver em país ocupado mas ter boas relações com o ocupante. Íamos seguindo canones estabelecidos nas metrópoles europeias: a certa altura, devido à preeminência da França, a República esteve na moda - e vá República! Depois com Hitler (Olimpíadas de Berlim e tudo), Mussolini a marchar sobre Roma, veio a moda do fascismo (mais no sul da Europa, mas também na Finlândia e, sem poder mas com estardalhaço, mesmo em Inglaterra), os militares do 28 de Maio entusiasmaram-se – e vá Fascismo! (Na versão portuguesa, Estado Novo, que nunca esteve à altura, até porque o país era agrícola e não industrial e Salazar gostaria que ele assim ficasse: “Entre o comércio, a indústria e a agricultura prefiro a agricultura”). Quando chegou a vez dos capitães de Abril, a moda na Europa era a da Democracia (como Mário Soares percebeu e Álvaro Cunhal e Henry Kissinger não) – e vá Democracia!

 

Hoje não há apetites de mudança de regime mas é outro mundo. A República jacobina desacreditara a esquerda; o Estado Novo fascizante desacreditara a direita. A Democracia vingou sobre o segundo descrédito – o partido mais à direita chamou-se, Orwelianamente, Centro Democrático Social – entretanto URSS e comunismo foram ao ar, Tony Blair arrumou o socialismo, a virtude bem-pensante perdeu poleiro. Quem será levado a sério? Quem irá dar à besta ganas de ganhar às outras feras? O comunismo não era doença: era remédio que falhou. O capitalismo, menos mau, precisa conserto grande. Onde dorme e se exila o futuro vigor?

 

 

 

 

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15.4.15

 

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Fofocas

 

 

 

Na semana passada a Vera tinha-me prevenido – “Aqui ninguém pensa em guerra; têm medo de outras coisas mas guerra não lhes passa pela cabeça” – e eu modificara o texto mandado antes, procurando colocar o público em terreno que me conviesse.

 

Êxito mitigado. Leitora entre as happy few a quem eu mando o Bloco já paginado - escusam de o ir buscar elas (e eles) ao web, assim como dantes se faziam de livros pequenas tiragens fora do comércio, com exemplares numerados e impressos em melhor papel – pilar de discernimento na minha vida, foi a primeira a disparar: “Acho que estás a precisar de apanhar um bocadinho de sol, de ver o Guincho… ” Leitor com a cabeça mais bem arrumada que encontrei fora de grandes universidades inglesas e norte-americanas surgiu a seguir: “Almocei umas iscas de leitão muito simpáticas e estava bastante contente da vida, quando quiçá por praga rogada pela mãe do reco, me chega este murro do real para dificultar a pacífica digestão. Irra lá terei de chupar uma Rennie, para tentar recolocar-me no paraíso artificial.”

 

A leitora já foi sobrinha por afinidade do leitor - e também minha por, digamos, contra-afinidade. A família de pai, mãe, filhos, filhas, cognaticamente alargada, apesar das muitas bordoadas levadas desde que a minha geração chegou à idade de descasar, continua a ser o núcleo indestrutível e indispensável da vida dos portugueses (como verificou elegantemente num pequeno estudo empírico a Dra. Isabel Marçano, que não conheço nem sei se lê estes Bloco-Notas).

 

Em Portugal, a seguir à família, talvez o mais importante corrimão de escada seja o lugar de onde se venha, aquilo a que o emigrante Alves – conheci-o em Maputo mas a diáspora começara em França – chamava “a minha parvónia”, no meu caso Évora, Alto Alentejo. Deste, na semana passada, disseram também de sua justiça patrício e patrícia do meu mundo de correspondentes. Ele percebia o “desânimo que te provoca a cultura de mercearia europeia que não tem um só motivo para que qualquer jovem (e os respectivos progenitores) aceitasse morrer por ela”. Ela foi sucinta : “Que grande texto!” – tinha gostado da substância e da forma. Devo acrescentar que, já antes destes encómios, se eu tivesse de organizar duas bichas alentejanas, uma de homens e outra de mulheres, pô-los-ia à cabeça de cada uma delas.

 

Como os do Tejo para cima não têm no meu coração canto menos acolhedor do que os transtaganos (ou os algarvios), perguntei se teria sido pessimista a estrangeira que conhece o direito e o avesso da Europa comunitária e conhece Portugal sem a ternura difusa dos residentes estrangeiros (ricos) nem a raiva uns aos outros dos indígenas (ricos e pobres). Achou que eu não fora pessimista mas fora brutal. “Brutal como Al Capone ou como o Sermão da Montanha?” inqueri . “Como o Sermão da Montanha.”

 

Fiquei todo babado pois o mesmo me palpita que na altura tenha dito ao Filho Nossa Senhora, acrescentando à parte para Santa Ana: “Ai este rapaz, este rapaz…”

 

 

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4.2.15

 

 

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Évora-Monte, berço do Portugal moderno

 

 

 

 

 

 

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Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

 

 

Numa taberna grega, o ambiente é tenso e competitivo, com zaragatas à flor da pele. Numa taberna portuguesa vigora camaradagem: se dois fregueses brigam, os outros, em vez de tomarem partido, metem-se a separá-los.

 

A Grécia moderna começou em 1830, arrancando-se ao Império Otomano com ajuda de brigada romântica internacional (Lord Byron morreu lá); importou para rei um príncipe alemão (cujo descendente foi corrido do trono com a junta dos coronéis em 1974); a seguir à Primeira Guerra Mundial más relações com a Turquia deram limpeza étnica; a seguir à Segunda, guerra civil violenta — ganha à justa e ainda hoje razão de ódios — fê-la entrar para a OTAN e não para o Pacto de Varsóvia.

 

O Portugal moderno começou em 1834, na Convenção de Évora Monte (mas com 7 séculos atrás, lembrados de mãe para filha) que pôs termo a guerra civil, vivida à portuguesa. Em Lamego as forças vivas houveram-se de maneira a que nem liberais nem miguelistas locais fossem mal tratados, estivesse quem estivesse na mó de cima no país. Em Monsaraz, miguelista até ao fim, a seguir à Convenção a Câmara escreveu à Rainha D. Maria II protestando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fieis”. Em 1965, proprietário alentejano a quem perguntei como eram as relações com o governo de Lisboa durante a República respondeu-me: “Isto, senhor doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. Só depois de democrata, em 1976, Portugal foi autorizado a candidatar-se às Comunidades Europeias mas assinámos o Pacto do Atlântico em 1949. Com coisas sérias não se brinca.

 

Ao contrário dos gregos — e talvez dos espanhóis que armaram, entre 1936 e 1939, guerra civil assanhada — não vamos eleger demagogos de extrema-esquerda para governo. Nem de extrema-direita: escapámos-lhes agora apesar de austeridade e muito estrangeiro por cá e, há quarenta anos, apesar de mais de meio milhão de retornados. O acolhimento aos retornados foi momento alto da nossa história; a aceitação da austeridade imposta pela Alemanha, um dos mais baixos. A sua moralidade é um embuste e, se Berlim não der por isso a tempo, a Alemanha conseguirá o que não lograra duas vezes no século XX: destruir a Europa.

 

Com Aliado na OTAN em apuros, Barrack Obama deu aviso à navegação. A Grécia tem de mudar muita coisa mas é difícil quando o nível de vida baixou 25%. A longo prazo sociedade e sistema político não aguentarão. A melhor maneira de reduzir défices é obter crescimento.

 

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro há mais de meio século ajudou-me a perceber o país, bem como Ensaios Etnológicos de Jorge Dias e Structure and Growth of the Portuguese Economy de Xavier Pintado. Muitas coisas mudaram mas muitas mais estão na mesma.

 

A Grécia clássica inventou a filosofia. Certo. E há muitos anos, numa taberna de Campo de Ourique, ouvi um bêbado perguntar a outro: “Eu só quero que você me diga uma coisa: merda é verbo?”

 

 

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31.12.14

 

 

 

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A noite europeia

 

 

 

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Bom 2015

 

 

Quando um pobre come galinha um dos dois está doente – sabedoria do Alentejo nos tempos do meu pai e do pai dele. No meu tempo apareceram os frangos de aviário, tão prezados no começo que depois de cozinhados as estalajadeiras os vendiam mais caros do que se fossem criação do campo. No tempo do meu filho, ciência com ardores impiedosos de fé havia ganho as almas e os frangos de ar livre tornaram outra vez a ser manjar de rico, ficando os de aviário para a arraia-miúda – no Alentejo como em toda a parte. (Frangos doentes passaram a ser destruídos na origem.)

 

Entretanto, nos Estados Unidos e na Europa, desregulamento progressivo da finança permitiu a esta ir-se apoderando da indústria, valorizando cada vez mais o lucro e valorizando cada vez menos o trabalho; em 2008 o cântaro que tantas vezes tinha ido à fonte partiu-se e o Ocidente entrou em crise; para o tirar do buraco, do lado de lá do Atlântico Norte estimulou-se a economia, o banco central levou a peito baixar o desemprego e hoje, em prosperidade, os Estados Unidos (tendo-se de caminho metido a produzir gás de xisto) vão à frente dos outros poderes do mundo como a lebre de uma corrida de galgos. Na Europa escolheu-se a austeridade e o banco central europeu tem como único encargo estatutário a inflação (apesar de Mario Draghi, mesmo aporrinhado pelos alemães, ter dito que faria o que fosse preciso – what it takes – para salvar o euro). A emenda foi pior do que o soneto. Não há meio de se sair do buraco e, entretanto, talvez empresa de private equity, bem alavancada, veja futuro na venda ao desbarato de frangos doentes aos pobres.

 

A recuperação económica do mundo é atrasada pela inépcia da Europa – que não tem outra força para se impor de maneira diferente. Cresceu em paz no casulo da Guerra Fria, profilaticamente protegida do mal de fora pelo arsenal nuclear americano e do mal de dentro por medo salutar de Estaline. Depois do colapso da União Soviética passou a gastar muito menos em defesa do que o pouco que já gastava e europeus convictos julgaram que iam pregar ao mundo a paz perfeita. Chão que nem uvas deu. O que hoje se vê à roda, em estepes da Ucrânia, oásis da Mesopotâmia, deltas da Birmânia, é, sim, guerra perpétua, só dominável com guerra ou ameaça de guerra. Ora na Europa só França e Reino Unido têm capacidade militar que não envergonhe patriotas e, se as armas são fracas, os corações são mais fracos ainda. Diz directora de escola internacional em Bruxelas: “O nosso propósito deveria ser instilar nas crianças adaptabilidade e flexibilidade”. Em tal bolha de relativismo, a coragem, a integridade, a capacidade de topar quem fale barato, parecem ter valor menor.

 

Guerras – hoje coisas más – eram populares. Bisavó de amiga minha alentejana dizia que de vez em quando era preciso uma “para desquintar o pessoal”. Se não formos capazes de impedir que as façam contra nós, ao menos que as saibamos ganhar. Senão a papa doce acaba mesmo.

 

Ano Novo Feliz.

 

 

Imagem aqui

 

 

 

 

 


7.12.14

 

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 Fernando Lopes Graça, Horta, Açores 1983 

 

 

 

Cumpriu-se faz agora dois anos a primeira etapa do projecto ambicioso dum grupo de amigos de Fernando Lopes Graça (1906-1994): trazer a público uma colecção de peças para piano que o compositor dedicou a amigos e eventos – as “Músicas Festivas” – e registá-la em múltiplos suportes, permitindo a criação de conteúdo não efémero.

 

Das 23 peças, 13 nunca tinham sido tocadas em público e 18 nunca tinham sido gravadas. A colecção inédita foi apresentada a 16 de Dezembro de 2012 num concerto do pianista António Rosado no Centro Cultural de Belém. Na mesma data saíram os CD "Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça", os quatro volumes das partituras (em suporte papel) e foram criados um sítio Web multilingue* e um álbum de fotografias e documentos no facebook.

 

Um duplo DVD agora lançado [o concerto no CCB, com introdução do musicólogo Rui Vieira Nery, e o documentário "Uma visita aos afectos do compositor"] completa este projecto multimédia, a vários títulos exemplar, constituído por cinco iniciativas produzidas e financiadas por um grupo muito pequeno de pessoas com apoios quase nulos.

 

O documentário "Uma visita aos afectos do compositor" — retrato intimista e muito cativante de Lopes Graça construído a partir de depoimentos, excertos musicais, fotografias, imagens em movimento e documentos reunidos ao longo da pesquisa — revela-nos com simplicidade e saber toda a riqueza da sua música (1), do seu legado intelectual e da sua personalidade, à luz do presente.

 

E nem de propósito, a coincidir com a recente consagração mundial do Cante Alentejano, este documentário vem recordar o papel pioneiro de Lopes Graça na música coral portuguesa e na recolha da nossa música tradicional (2), e inclui mesmo um apontamento extra sobre a digressão pelos Estados Unidos, pela mão do compositor, do grupo coral alentejano da Aldeia Nova de São Bento, a convite da Smithsonian Institution, por ocasião do bicentenário do país, em 1976.

 

Bem vindo às “Músicas Festivas” de Fernando Lopes Graça, disponível em DVD numa loja perto de si.

 

 

 

Notas:

 

 1. “Muita da sua reflexão vem de um trabalho de desconstrução dessas músicas tradicionais e de transposição de elementos que ele encontra nessa linguagem popular para uma esfera erudita em que depois cruza esses elementos com as referências cosmopolitas das vanguardas modernistas em que se integrou”. [Rui Vieira Nery na introdução]

 

2. Lopes Graça cria nos anos 40 o Coro da Academia de Amadores de Música. As suas harmonizações das Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas serão cantadas pelo Coro por todo o país. O interesse de Lopes Graça por este património tradicional e o trabalho que desenvolveu nesta área é comparável ao de Garrett com o Romanceiro, acerca do qual o compositor escreveu na revista Gazeta Musical um artigo que será abordado em futuro post.

 

 

 

 

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*Na web em português aqui e EN-FRA-RU-ESP-HUN

 

trailer do documentário aqui

 

facebook aqui

 

 

 

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17.9.14

 

 

 

 

 Cosimo de Medici 

 

 

 

 

 

Progresso?

 

 

“Quem saiba a língua sabe a cultura e quem saiba a cultura entende as pessoas” dizia o professor de antropologia social em Oxford. Por estudar gente do meu país —  e da minha província natal — em vez de estudar gente de fala, lugar, manhas e fé diferentes das minhas, eu tinha meio caminho andado. Sobre isso, para Evans-Pritchard  (EP como a gente lhe chamava), não havia a menor dúvida. Concordei.

 

Hoje não concordaria. A conversa foi há cinquenta anos e cinquenta anos agora não são o que eram cinquenta anos há cinquenta anos. As diferenças entre passado e presente são maiores do que alguma vez haviam sido desde o Big Bang, ou, para tentar entender, desde que a consciência humana inventou e mediu espaço e tempo. Mais perto de nós, longe dos mistérios do tempo cósmico e dos buracos de traça do tempo histórico, no tempo pessoal de cada um, a velocidade da mudança acelerou como nunca acontecera. A língua falada pelos netos afasta-se da língua falada pelos avós e o confronto entre as duas roça a incompreensão. A escrita, desde os tijolos gravados da Caldeia ao processador de palavras que estou a usar, passando pela Bíblia de Gutenberg, o Dicionário de Moraes, a cartilha de João de Deus, fora acompanhando e resistindo, guardando e deitando fora, mantendo-se viva ao contrário do latim e do grego clássico. Hoje é diferente.

 

“[O] blog está a perder fluidez: trazes muitos temas colaterais à colação. A net exige uma escrita mais linear, frases mais curtas e menos ornamentos de erudição sobre o assunto principal” escreveu-me leitor fiel a quem Verão dantesco revelou que amigos do peito eram, afinal, amigos de Peniche, afastando-o algumas semanas de rotinas que incluíam a leitura destes Bloco-Notas. “Eu não sou especialista mas estive a vê-lo com os meus filhos [que o são] e aquilo que observo foi deles que o ouvi”.

 

Devem ter razão mas a pressa competitiva, inventando maneiras cada vez mais curtas e rápidas de dar recados para espalhar notícias antes da concorrência ou ganhar milhões em fracções de segundo, está a afunilar a língua, reduzindo ou conseguindo mesmo eliminar ambiguidades, preferindo certezas a dúvidas, acção a reflexão, usando, para referir maneiras de agir ou reagir, metáforas que reflectem métodos financeiros, investigação económica, práticas comerciais e se afastam cada vez mais do ciclo das estações, tal como no supermercado se encontra sempre agora fruta que não é da época. (A popularidade de Twitter, que restringe comunicações a 142 caracteres, atesta gosto pela brevidade mas não era bem disso que Tchekov falava quando dizia: “escrever bem é escrever com concisão”).

 

O banqueiro Cosimo de Medici, dono da melhor biblioteca de Florença e o mais sábio dos irmãos, detestava a invenção de Gutenberg. Os livros não se comparavam em qualidade com os seus incunábulos. A cultura acabara.

 

Enganava-se mas quem saiba a língua hoje não sabe por isso a cultura nem entenderá melhor as pessoas. Como fazem agora os antropólogos?

 

 

 

 

 

  

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27.8.14

 

 

 

Brasão da Cidade de Évora

 

 

 

 

 

 

Decapitações

 

 

O brasão da minha cidade natal representa guerreiro a cavalo que levanta na mão direita um montante e segura na esquerda as cabeças, cortadas de fresco e agarradas pelos cabelos, de um homem e de uma mulher. É Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que para recair nas boas graças do rei D. Afonso Henriques que o banira da corte lhe ofereceu a tomada de Évora aos mouros. Para isso meteu-se a namorar a filha do vigia que, de uma torre fora de portas, indicava à noite, por sinais de fogo, se hostes que se aproximassem da cidade eram amigas ou inimigas. Ganha a confiança de ambos, organizou bando de gente sua, um serão degolou pai e filha, assinalou à cidade chegada de amigos, o bando cavalgou pela porta escancarada da muralha, matou os defensores num Credo e — Real, Real por El-Rey de Portugal! — Évora passou a ser nossa. Foi um dos momentos altos da reconquista cristã da Península.

 

Consta-me haver agora em Évora quem queira mandar o Sem Pavor para o caixote do lixo da História e inventar brasão que não ofenda correcção política. Espero que tal nunca aconteça. A correcção política liofiliza ditos e feitos de cada um, no afã de transformar a hipocrisia em virtude, e em Portugal agora o efeito é muito pior ainda do que em lugares que não tenham escolhido, como nós, a mediocridade para ambição e a subalternidade como regra de vida. Em anos passados, menos rasteiros, a despedida do trabalho ouvida a uma mulher a dias — “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe” —  já me parecera às vezes lema plausível para a política externa portuguesa. Desde então as coisas só têm vindo a piorar, incluindo a nossa aquiescência à adesão da Guiné Equatorial à CPLP que alia incongruência linguística e ganâncias despudoradas a incómodo moral, escusado para quem se proclamou democracia em 1976 e aderiu à Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Há quem goste de dizer que democracias são invenções ocidentais e que há outras maneiras de governantes e governados viverem a contento de todos. Mas a questão não é essa. É que, inter alia, o presidente fundador da Guiné Equatorial, país paupérrimo até à descoberta do petróleo, matou ou forçou ao exílio um terço da população, tendo crucificado adversários políticos dos dois lados de estrada que leva a Malabo e o sobrinho igualmente meio louco que o mandou assassinar e lhe sucedeu, além de manter a opressão brutal não se livra da fama de ter comido (literalmente) opositor exilado em Madrid que resolvera, insensatamente, voltar à pátria. Eu sei que tivemos o casal Ceaucescu em Queluz - mas que Diabo…

 

Voltando a decapitações. Lamentavelmente, as reacções dos Estados Unidos e da Europa às façanhas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria e do seu Califa de Rolex no punho têm sido sobretudo retóricas, o que é erro perigoso. Os americanos começaram bombardeamentos; esperemos que os continuem; que aliados aptos a fazê-lo se lhes juntem e que deixem por fim o EIIS como Roma deixou Cartago – arrasada e sem ninguém. 

 

 

 

Imagem aqui 

 

 

 


13.8.14

 

 

 

 Paula Rego - A dança

 

 

 

 

 

Quem sabe, sabe.

 

 

Entre as duas guerras (a de 1914-1918 e a de 1939-1945, lembro às leitoras mais novas), a propósito da explosão de exibicionismos que borbulhavam nas années folles, André Gide (francês e Prémio Nobel da literatura em 1947, lembro às leitoras menos dadas a leituras) dizia ver à sua volta mais artistas do que obras de arte. Nessa altura não havia nem internet nem twitter nem facebook nem blogs e, com o que hoje se chamam plataformas a coisa mais parecida seria o cinema, que Meliès e os manos Lumière tinham solto em Paris e vingara na Europa e nos Estados Unidos como a prole de um casal de coelhos na Austrália — mas hedonismo, egotismo e narcisismo são antigos e para lhes dar asas cada uma sempre usou o que tivesse à volta (ensimesmada: quando perguntaram às águas do lago se Narciso era mesmo belo, estas responderam que não sabiam porque quando ele vinha olhar-se nelas, elas aproveitavam para se olharem a si próprias nos olhos dele — ou, pelo menos, foi o que Oscar Wilde contou, não sei se antes se depois de ter conhecido Gide em Paris, onde viria a morrer. O mundo é pequeno).

 

De artistas e de obras de arte pouco ou nada sei mas há mais de dez anos virei comentador e, de silêncios aconchegados, longe da balbúrdia pátria, vou mandando bocas. Agora, chegado no começo do mês de Bruxelas, lendo os jornais e olhando para o que Conchita Cintrón chamava la pantalla chiquitita, suspeito que neste maravilhoso país que tão generosamente acolhia Freddy Kotter no seu seio a algazarra dos comentadores cobre de uma espécie de smog as coisas a comentar. Não é que estas faltem — desde o esforço vão do governo para transformar os portugueses em alemães (por via fiscal, ainda por cima) com Herr Gaspar, primeiro, e Frau Albuquerque, depois, a encaminharem-nos com um vasculho, como dantes os vendedores de perus pelas ruas de Lisboa, até à sanha súbita contra várias gerações da família Espírito Santo, reminiscente do azar dos Távoras — mas, bombardeadas pela cacofonia pátria, essas coisas e outras de menor porte deformam-se como as nossas caras na galeria de espelhos de uma feira de diversões.

 

Disse à Vera, dona do blog, que estava a pensar deixar de escrever o Bloco-Notas mas ela disse-me que eu não podia fazê-lo e que o mundo agora era assim, que todos podiam deitar palavra e que havia leitoras para tudo quanto se escrevesse. É, com efeito, um pouco tarde para protestar contra o ensino obrigatório, contra enciclopédias que anunciam à cabeça não garantirem que a informação que nos dão seja verdadeira e contra o ulular desafinado dos comentários de nós todos. Mas eu sou um pequeno-burguês de Évora e às vezes sinto-me como patrício meu, sentado sobre tábuas pousadas em tripés na primeira fila de um circo de província. A gaiola dos leões desconjuntou-se, o público saltou para fugir, e o meu patrício com as partes pudendas entaladas entre duas tábuas, sem se poder levantar, gritou: “Sentem-se, caralho, que os leanitos nã fazem mal”!  

 


25.4.14

 

 

 

Foto: Eduardo Gageiro

 

 

 

 

 

 

Aurora Clara de Abril

 

 

Assim chamaram à menina recém-nascida encontrada na roda dos expostos da Vila de Monsaraz por homens saídos para o trabalho em madrugada luminosa desse mês, em ano do terceiro quartel do século XIX — não me lembro qual. Nem o ano nem o dia, mencionado na acta duma sessão da Câmara. Há uma probabilidade em trinta de ser 25 e como quando li a acta não reparei (faltava ainda essa achega à nossa leitura do passado), pode ser que tenha sido mesmo.

 

Tal coincidência daria alegria à elevada percentagem de portugueses que acha o 25 de Abril a data mais importante da nossa história e que, como quase toda a gente, é supersticiosa. Eu não sei remontar tanto e na celebração do dia fico-me por três vinhetas, com as suas luzes próprias. Cada uma vale o que vale.

 

Por ordem cronológica.

 

Em 1975, poucos dias antes das eleições para a Assembleia Constituinte, amigo meu, minhoto, estava de passagem na casa de Ponte da Barca quando três criadas velhas da mãe — tão velhas que ainda eram naturalmente analfabetas e, por isso, mais sagazes e reflectidas do que muito doutor moderno — lhe vieram falar. Queriam perguntar ao Menino: “Como é que se vota na lei antiga?”.

 

Na Primavera de 1978, eu era primeiro representante permanente português no Conselho da Europa em Estrasburgo – lá chegado no ano anterior porque antes de viver em democracia Portugal não podia ser admitido (durante o regime dos Coronéis, a Grécia tivera de sair) — Victor Cunha Rego era nosso embaixador em Madrid, falávamos ao telefone e eu disse-lhe que tinha aprendido do pai que Portugal era um país maravilhoso, habitado por uma maioria de gente boa e generosa, do qual uma minoria de gente má e mal formada tomara conta, chefiada pelo pior deles todos, o ditador Salazar. “Pois é” respondeu o Victor. “Eu também fui educado por um pai assim. E é grave, aos 50 anos, um homem descobrir que o pai era parvo”. Com o 25 de Abril, Victor e eu tínhamos passado de vítimas a cúmplices; da oposição ilegal à máquina do novo poder. E quem tivesse a mão na massa começava a descobrir que Salazar não era só causa dos nossos males; era também, e sobretudo, sua consequência.

 

Em 2008, Sofia Pinto Coelho convidou-me para programa de televisão dela que, de cada vez, tinha o mesmo fio condutor. A Sofia pegava numa pessoa e confrontava-a com passagem do seu passado. A mim coube-me ser levado a vila alentejana onde há quase 40 anos trabalhara como antropólogo e a que chamara Vila Velha em livro que publiquei. Fui filmado a falar com pessoas amigas que não via há muito tempo, entre elas a Ema, analfabeta e ainda muito bonita. A Sofia pediu-me para eu lhe perguntar se a vida agora era melhor ou pior do que quando eu lá estivera. A Ema olhou-me espantada e respondeu: “Não passamos fome!”

 

As velhas de Ponte da Barca, o Victor e a Ema já morreram. Não me cabe adjudicar mas, quando começa a haver outra vez gente com fome em Portugal, talvez a resposta da Ema capture o mais importante do 25 de Abril.

 

 

 


23.12.13

 

 

Fatias de família (Alto Alentejo)

 

 

Pão                                 500 gramas

Açúcar                           500 gramas

Ovos                              4

Pau de canela              q.b.

Canela em pó              q.b.

Vinho                            1/2 decilitro

 

 

 

Corta-se o pão em fatias e aloura-se um pouco no forno. Dispõem-se numa travessa funda e regam-se com o vinho açucarado a ferver e temperado com o pau de canela.

 

Quando estiverem molezinhas retiram-se as fatias do molho e escorrem-se. Põe-se ao lume, numa caçarola, o resto do açúcar e um pouco de água até ganhar ponto. Depois vão-se mergulhando as fatias nos ovos batidos, uma a uma, e fritando na calda do açúcar. Estando todas cozinhadas, regam-se com o resto da calda e polvilham-se com canela.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português. Porto: Livr. Tavares Martins, 1962, p. 633

 

 

 

 

 

 

 

 

As 1001 receitas deste livro foram coligidas e experimentadas ao longo de muitos anos por Maria Adelina e Joaquim Monteiro Grillo — o poeta Tomaz Kim — e meus pais, Margarida e Vasco Futscher Pereira. A edição, em 1962, deveu-se a Maria Adelina — Nita Monteiro Grillo — cuja dedicação ao projecto o levou a bom porto.

 

 

É recordado como o melhor livro de Cozinha Portuguesa no blog Prosimetron aqui e aqui.

 

 

 

 

 

 

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21.12.13

 

 

  

Figuras de barro de Estremoz 

foto:  capa de Revista Panorama nº 12, III Série, Dezembro 1958

 

 

 Bom Natal

 

 

 

 

 

Outro presépio de Estremoz neste blog aqui

 

Mais sobre bonecos de barro aqui e aqui

 

Blog do Museu Municipal de Estremoz aqui 

 

 

 

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20.8.12

 

 

  

Portugal, c. 1915

 

Foto: Ricardo Santos & Filho - Évora

 

 

Mais uma fotografia curiosa de meu tio-avô paterno António Correia Caldeira Coelho (1888-1977). Que festa terá sido esta? Ele é o homem de bigode e chapéu de aba redonda, sentado no centro do grupo. A fotografia é colada sobre cartolinaiVeja uma fotografia dele em 1907, aqui, e em 1910, aqui

 

 

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25.12.10

 

 

 

 

Foto: Presépio de oito figuras

Estremoz, Portugal

 

 

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14.1.09

 

 

Nos corredores da Faculdade surgia o neo-realismo, receita de um estado novo ao contrário. Eu lia. Comprava esse movimento de sinceros e insinceros, sangue na estrada, miséria no lar, justiça que se impunha. O Alentejo dava porcos e neo-realismo, e passados mais de vinte anos continuava ainda a dar mais porcos e neo-realismo, tal o atraso de subdesenvolvimento em que nos encontramos. A cobertura quase total, os críticos mais apaixonados, tudo que não estivesse na defesa do povo, era condenado. Eu estaria para sempre condenado — um apátrida das letras. Mal sabia que daí a meses o acaso, mais uma vez na vida, me faria mudar de rumo. Iria encontrar em cheio, no domínio do poder literário, a força antídota e semelhante à situação política — aguardava-me em Coimbra a maçonaria poderosa e crescente do neo-realismo. O público estava já habituado ao ersatz, os editores caldeiravam a ração sem razão, não sabiam, dava-lhes dinheiro, como o algodão de Angola, o café e os diamantes. Havia que emborcar, e estar calado, saíndo fora da linha resultava levar na cabeça. E do Alentejo continuava a desembarcar mais prosa e mais suinagem. Tudo era verdade, quem não estivesse dentro da ordem nova, um excomungado. Havia que pertencer a uma ordem maçónica. Estar junto, amancebar o nosso espírito. Talvez a exigência da época, pensava eu. Qual época qual carapuça, sim a exigência mesquinha do português de querer tudo arregimentado. Essa a triste conclusão. O intelectual português passou séculos de perseguição e de miséria, não pode ter grandeza, a grandeza é produto da liberdade. No útero da sua natureza andrógina ele ainda ouve os sons da Inquisição, o silêncio da procissão dos autos-de-fé. Como haviam de aceitar um artista? Um artista só se aceita quando há liberdade de expressão. Foi assim que receberam Eça de Queirós, que sentiram Raul Brandão. Se eles ainda respirassem, seriam pasto para se queimarem vivos, tanto por parte dos neo-realistas como dos estado-novistas, ambos totalitários, ambos negadores de uma verdade de expressão que se sobrepunha à sua receita. Como podia eu ter consciência de culpa de um crime que não praticava?

A resposta foi dada pelo Cinatti ao publicar a revista Aventura. Ele não fazia cerimónia para dizer a verdade, menos ainda o Jorge de Sena, o Carlos Queirós, a Sophia, o José Blanc de Portugal, o Casais e tantos outros que colaboravam — "uma cidadela fundamentada na Amizade".

 


 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura (vol.II)

 

 

 

Dedicatória aos meus pais

do segundo volume da autobiografia de Ruben A.

1966

 

 

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