22.2.17

 

germany-flag-map-

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Uma Europa alemã?

 

 

 

Os Deuses estão outra vez zangados connosco, pensariam Reis e Pontífices olhando à volta e talvez mandassem sacrificar vacas ou virgens se os tempos fossem para tais estratagemas. Mas não são: já não é por aí que o gato vai às filhoses. Na Europa, o Vaticano resistiu enquanto pôde mas Angelo Roncalli, mais conhecido por João XXIII, a cuja memória Pasolini dedicou o filme O Evangelho segundo S. Mateus, convocou o Concílio Vaticano II e começou uma grande mudança, tão grande que sobreviveu aos rigores do Papa polaco e ganha ânimo novo com as larguezas do papa Francisco. O meu chorado Nuno Bragança, católico progressista como se dizia na altura mas entusiasta lúcido desse progresso, achava que se João XXIII houvesse vivido mais dez anos “tinha dado cabo de tudo”.

 

Mas o Vaticano não é membro da União Europeia e é por causa do estado desta que tanta gente hoje dorme mal. Ataques a “união cada vez mais chegada” dos europeus, prometida fará sessenta anos no mês que vem no preâmbulo de tratado assinado em Roma, têm sido bem-sucedidos e outros estão na calha. Primeiro, o chamado Brexit, em que aldrabões sem vergonha convenceram populações inglesas ignorantes e (pela primeira vez há um século) mais pobres do que os pais tinham sido, de que seriam mais ricas e poderosas fora da União Europeia do que dentro dela. Mentira patética mas, com determinação de manada de bisontes trotando para se afogar no mar, políticos e burocratas meteram mãos à obra e não se vê marcha atrás. Segundo, o chamado Presidente Trump, maluco com mau fundo, que baixou para abismos inéditos os níveis - moral e intelectual - exigidos pela função sem que tal pareça ofender a sua base eleitoral, considera a Alemanha perigo maior do que a Rússia, e está constitucionalmente ao abrigo de junta médico-psiquiátrica. Terceiro, no futuro próximo, eleição provável de populistas na Europa. Em Março o partido de Geert Wilders deverá vir à cabeça na Holanda. Como a hipocrisia holandesa – que deveria ser património cultural distinguido pela UNESCO – não o deixará governar, coligação de outros se encarregará de ir aplicando o seu programa à socapa. A seguir em França Marine Le Pen poderá ser Presidente e, querendo proteger a produção nacional e sair do Euro, fará o descabello do touro europeu, malferido pela estocada do Brexit.

 

A esperança está na Alemanha onde há eleições em Setembro. A insistência desta na manutenção indevida de enorme superavit e a sua cegueira luterana diante das dívidas que a austeridade, em lugar de aliviar, vai aumentando não deveriam animar ninguém a vê-la como base de sustentação do que restar da Europa. Mas quer Merkel quer Schulz são europeístas convictos e Senhora que ousou abrir os braços a todos os desgraçados do Médio Oriente saberá explicar aos seus que poderão deixar reestruturar a dívida grega sem sequer darem por isso.

 

Ao princípio a ideia fora europeizar a Alemanha. À vista está a germanização do que resta da Europa. É a vida.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

12.10.16

 

 

 

Famous_Germans_collage_2.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Deutschland über alles?

 

 

 

 

Ou não? Na eleição de António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas houve episódio esquisito. Depois de 5 votos a feijões todos ganhos por Guterres e antes do sexto, o governo da Bulgária retirou a sua candidata, Directora Geral da UNESCO, senhora socialista que tinha o apoio da Rússia e, por instigação de Angela Merkel, nomeou outra, Comissária Europeia, de direita. Guterres ganhou também a sexta votação e veio a ser escolhido por aclamação pelo Conselho de Segurança; a recém-vinda búlgara de direita teve ainda menos votos do que a búlgara de esquerda (que se mantivera em liça, indigitada por outro país). O curioso da história é Merkel ter decidido meter-se ao barulho quando a vitória de Guterres estava assegurada. Houve escolhas para Secretário-Geral da ONU renhidas, num caso pelo menos exigindo coelho tirado à última hora da cartola para fugir a impasse de vetos cruzados. Mas este ano não. Ou Merkel foi mal informada pelos seus de como as coisas se estavam a passar ou julgou que apesar de tudo a sua vontade prevaleceria (mais provavelmente, mistura de ambas as coisas). Não prevaleceu. Será o proverbial canário da mina?

 

Oxalá. Quem trate há muito tempo de coisas europeias - nos milhares de reuniões, entra o ano sai o ano, em que diplomatas, burocratas, políticos e técnicos de (hoje) 28 países concertam posições sobre toda a espécie de assuntos – conheceu três fases distintas quanto à participação da Alemanha. Na primeira, durante aí um quarto de século a seguir ao Tratado de Roma de 1957 - criador do processo formal que levaria à União Europeia - a Alemanha derrotada, saindo aos poucos da ruína, envergonhada, não mostrava preferências próprias nem levantava a voz, cultivava europeísmo em vez de patriotismo, e era seguidora disciplinada de quaisquer consensos. Na segunda, começada no fim dos anos 80, a Alemanha, primeiro com a capital ainda em Bona e depois, de novo inteira, em Berlim, começou a dar sinais cada vez mais fortes e frequentes de hegemonia e de gosto por a exercer. (O anúncio, em Dezembro de 1991,de que ia reconhecer a independência da Croácia sem esperar por acordo a Doze foi marco importante de autonomia política reconquistada). A terceira começou em 2010 com a crise financeira e a austeridade, declarada política obrigatória no Sul da Europa para quem quisesse receber ajuda de “Bruxelas” (que compensou primeiro perdas de bancos alemães e franceses), e foi anunciada em termos moralistas ofensivos pela formiga germânica às cigarras meridionais. Grande responsável pelo marasmo económico europeu tem sido acompanhada, também noutros campos, por arrogância crescente de quase todo o pessoal alemão que participa nos milhares de reuniões europeias.

 

O descontentamento de outros europeus perante esta situação absurda cresce; talvez leve Berlim a mudar de rumo. É urgente que o faça antes de tanta cegueira acabar de vez com reabilitação alemã que parecia há 10 anos ter vindo para ficar.

 

 

 

NB Há gente a mais agora a dar palpites sobre política internacional. E aconselhar a Alemanha, de dedo em riste, a partir de um pequeno blog lisboeta parece néscio. Mas será? Em 1914 quando se soube no Cartaxo que a Alemanha invadira a Bélgica, o director do jornal da vila saltou de cadeira de barbeiro meio escanhoado e saiu a correr, anunciando que ia escrever artigo a escavacar o Kaiser. E o facto, como lembrou o advogado e dramaturgo Amilcar Ramada Curto que contou depois a história, é que o Kaiser perdeu a guerra.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

7.9.16

 

 

angela_merkel.jpg

 

Angela Merkel

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

A questão alemã

 

 

 

 

 

No Domingo passado - a leitora terá dado por isso - partido da extrema-direita alemã passou à frente da CDU, vindo com 21% dos votos em segundo lugar, a seguir aos 30% dos Sociais Democratas vencedores e relegando para terceiro lugar, com 19%, o partido da Senhora Merkel, em eleições regionais no mais pequeno dos Länder, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, entalado entre o resto da Alemanha a Polónia e o Mar Báltico, que não conta mais do que 2% do eleitorado do país, fazia parte da República Democrática Alemã antes de reunificação e é o Land onde a Chanceler vota e é eleita. Esta coincidência, a seguir a três desempenhos notáveis em eleições regionais na Primavera da Alternativa para a Alemanha (24,3% em Saxe-Anhalt; 15,1% em Bade-Wurtemberg; 12,6% em Renânia-Palatinado) levou Frauke Petry, porta-voz do partido, a cantar “vitória” e a declarar que “os cidadãos perderam a confiança nos velhos partidos” (que, para ela, são todos menos a Alternativa).

 

Até às reacções hostis de muitos alemães à generosidade voluntarista e unilateral de Angela Merkel no acolhimento de imigrantes do próximo Oriente, sobretudo de imigrantes fugidos do horror sírio, a Alemanha fora, desde as grandes crises começadas em 2010 - a crise das dívidas soberanas e, mais tarde, a crise da imigração – ou, melhor ainda, desde o fim da segunda guerra mundial em 1945, o país europeu menos provável para berço de novo regime fascista, depois do surto triunfalista dos antigos na década de 30 e do seu esmagamento implacável na de 40, do século passado. Mais do que isso. Entre a derrota de 1945 e a reunificação de 1991 a Alemanha Ocidental, primeiro de rastos e depois, a pouco e pouco, levantando-se do chão por determinação tenaz (com ajudas de fora: estar proibida de se meter em grandes despesas militares; ver perdoado o grosso das dívidas de guerra incorridas na paz de Versailles de 1919 e a seguir à rendição incondicional de 1945 porque Washington, Londres e Paris precisavam dela forte contra a Rússia Soviética) tornara-se, de longe, a grande potência que melhor tratava potências médias e pequenas.

 

E era também a nação europeia que levava mais a sério a Europa (primeiro as Comunidades Europeias e, mesmo depois da reunificação lhe devolver Pátria própria, a União Europeia).

 

Helmut Kohl avisava: “Quem vier a seguir a nós [governar a Alemanha] não se lembrará da guerra”. Felizmente apareceu Merkel, que se lembrava da Alemanha de Leste. Mas a sua austeridade pôs a economia europeia na cauda do crescimento económico do mundo (e mostrou urbi et orbi que a dívida afinal ainda não estava paga).

 

A Alternativa assusta mas é cereja para bolo que não foi cozido. Julgo que o enxerto democrático continue a vingar no tronco teutónico. Que quanto a imigração a Alemanha ajude a civilizar os países do Leste europeu em vez de ceder à barbaridade destes. Que os alemães se convençam de que meio século sem lhes darem ouvidos não lhes dá direito a não ouvirem os outros.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

3.8.16

 

 

Bad-war.jpg

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Fim de festa

 

 

 

 

Saiu o ano, entrou o ano. No topo do Estado dois chatos tristonhos deram lugar a dois faroleiros alegres e parece que o povo gosta assim. Ao menos anda a gente distraída, Senhor Doutor. Não ficámos menos pobres mas passámos a viver com mais gosto, dizem-me médicos de Lisboa e mestres d’obras de província. E nesta aventura inédita a que chamamos Europa – já lá vai mais de meio século sem andarmos à estalada uns aos outros (e sem batermos em pretos) – há muitos que nos invejam por esse mundo fora, apesar do mal que gostamos de dizer de nós próprios. Mas será preciso acordarmos e ganharmos juízo porque a papa doce está a acabar.

 

Não acabaria nunca enquanto a União Soviética existisse e a Alemanha estivesse dividida. (Gosto tanto da Alemanha que prefiro que haja duas – lembrava o General De Gaulle). O medo que o Camarada Estaline e os seus herdeiros nos metiam nos ossos tinha efeito salutar nas nossas decisões de europeus do Ocidente: dava força e razão ao que nos unia, punha de lado o que nos afastava e a construção europeia não parava. Se idade e doença não tivessem levado tão depressa desta para melhor os dois predecessores imediatos de Gorbachev, a perestroika e o colapso da União Soviética só teriam chegado dez anos depois, com a União Europeia já pronta para entrega aos europeus, chave na mão, pelo empreiteiro Delors ao serviço do casal franco-alemão (gravado para todo o sempre na sabedoria das nações por Mitterrand e Kohl de mão dada em Verdun).

 

A reunificação alemã deu cabo desse casal. Como no drama de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, que dantes se estudava no liceu, o primeiro marido afinal ainda estava vivo. “Perdida, desonrada, infame” grita da filha inocente a bígama involuntária quando tal descobre, antes de se fechar num convento a expiar a culpa até ao fim da vida. Para a Alemanha Reunida, o centro da Europa passou a ser a Leste. Tem algum respeito ainda pelo Noroeste protestante, à cabeça os holandeses, heróis de Srebrenica e gente de contas certas; Inglaterra indispensável para equilibrar França que não só descobriu que não manda na Europa (tempo foi em que Kohl dizia que o Chanceler alemão, quando ia ver o Presidente francês, devia começar por fazer três reverências) mas também que nem sequer em si própria manda - com os ingleses a irem-se embora, como é que vai ser? – e os de Sul e Sueste que se arranjem, punidos com cegueira analfabeta, norteada por calendários eleitorais teutónicos. Até à reunificação, a Alemanha Ocidental expiara exemplarmente a sua gigantesca culpa (ajudada por perdão de dívida que afastava fantasias de ir para Leste) mas, depois de reunida, a tentação de ser alemã e não cidadã europeia cruza cada vez mais cabeças, deixando mais nódoas negras nos vizinhos.

 

Enquanto a Europa se afunda. Quando agora o Sultão de Istanbul acusa as potências ocidentais de conspirarem contra ele, as potências em vez de mandarem canhoneiras para o Bósforo desfazem-se em desculpas de mau pagador.

 

 

link do postPor VF, às 14:04  comentar

29.6.16

 

 

 

Pieter_van_der_Heyden.jpg

A Nave dos Loucos - Pieter van der Heyden (1562)

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

“E agora José?”

 

 

 

perguntou Yvonne por SMS (haver quem se lembre de Carlos Drummond a propósito da maioria dos britânicos decidirem de um dia para o outro sair da União Europeia dá logo algum conforto). É pergunta retórica mas eu respondo. Agora, Yvonne, das duas uma: se, dos outros europeus, aqueles a quem a Inglaterra faz falta dentro da União tiverem mais poder do que aqueles que suspiram de alívio por a verem sair dela, tudo irá menos mal no menos mau dos mundos possíveis. Se for ao contrário vamos ter, Você e eu, fim de vida muito mais incómodo do que aquele que havíamos antecipado.

 

Vai ouvir e ler agora toda a espécie de argumentos, vindos de um lado e do outro, mas não será o valor intrínseco de qualquer deles que ditará o futuro mas sim o resultado do confronto de forças indicado acima. É sempre assim. Por exemplo, durante a Guerra (como nós dizemos; para leitoras mais novas, a Segunda Guerra Mundial) uma tarde, no Norte de África, Duff Cooper tentava persuadir Churchill dos grandes méritos de De Gaulle (Churchill, primeiro-ministro britânico e De Gaulle, chefe exilado em Londres das forças francesas livres, não precisarão de apresentação; Duff Cooper foi ministro inglês próximo de Churchill, embaixador em Paris logo a seguir à guerra, biógrafo exímio de Talleyrand e polígamo natural: a mulher, Lady Diana Cooper tinha às vezes de consolar a sua principal amante francesa, Louise de Vilmorin, dos devaneios do marido). A certa altura Winston interrompeu Duff: “Não vale a pena insistires. Tu gostas dele e eu não (You like the man and I don’t)”.

 

É o que se está a passar. Felizmente para quem pense, como eu, que União Europeia, privada de Reino Unido, seria objecto político teratológico, girafa sem pescoço ou touro sem cornos, o chefe de fila dos que lamentam a saída e não a querem apressar é Angela Merkel, ao pé da qual resmungões anti-ingleses de vários partidos e pátrias, sedentos de divórcio litigioso, são pigmeus. Vale a pena ir demorando porque os jogos não estão feitos. O referendo não era vinculativo. Referendos europeus foram repetidos. Danos nos interesses de todos causados por tão egrégia insensatez cega os olhos. Brutidão xenófoba – a começar pelos ingleses – precisa de correcção exemplar. Talvez se possa ainda virar o bico ao prego.

 

Moralistas evocarão Bertolt Brecht: “É preciso dissolver o povo e eleger outro!”. Haverá lembranças diferentes. Em 1999, quando a OTAN ia bombardear a Sérvia, Robin Cook, MNE inglês, disse a Madeleine Albright, MNE americana, que os seus juristas (lawyers) achavam que tal era ilegal. “Get other lawyers” respondeu ela. E na Cidade e as Serras quando os dois homens de Madame de Trèves, o marido, o Conde de Trèves e o amante, o banqueiro judeu David Ephraim, querem convencer Jacinto a investir numa mina de esmeraldas no Ceilão e Jacinto pergunta enfadado Ele há esmeraldas no Ceilão? o banqueiro indigna-se: “Homem, há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!

 

Brexit? Ou talvez não?

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

22.6.16

 

 

 

Philippe Wojazer Reuters.jpg© Philippe Wojazer/Reuters

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Europa sem ingleses ? Não, obrigado

 

 

 

Desde o Tratado de Windsor - e da batalha de Aljubarrota – Portugal e a Inglaterra têm tido relações privilegiadas que resistiram ao ultimato inglês de 1890 e a pressão alemã durante a II Guerra Mundial para que a nossa neutralidade nos impedisse de aceitar a instalação de base militar inglesa (e, depois, americana) na Ilha Terceira dos Açores.

 

Potências marítimas, confrontadas por poderes continentais, demo-nos bem assim quando a Europa passou a ser o centro do mundo e também agora, que a União Europeia já não o é. Na quinta-feira (eleições e referendos são às quintas-feiras no Reino Unido), os ingleses - a escoceses e irlandeses do Norte o problema não se põe -, em inusitada manifestação colectiva de falta de bom senso, poderão optar por sair da União. Não acredito que o façam mas, se o fizerem, Portugal deveria começar a pensar em sair também.

 

Temos recebido muito da União, como tínhamos recebido muito das Comunidades Europeias que a precederam. Sem a Inglaterra, porém, a União será um animal político muito diferente do que é agora, contrário ao nosso interesse.

 

Com o Tratado de Roma de 1957, França, Alemanha, Itália e Benelux criaram a Comunidade Económica Europeia. O Reino Unido - isto é, a Inglaterra - não se quis então juntar aos seis fundadores. Poucos anos depois passou a querê-lo mas De Gaulle opôs-se. O alargamento a Reino Unido, Irlanda e Dinamarca fez-se em 1973; quando Portugal aderiu em 1986, já a Inglaterra era um dos ‘Quatro Grandes’. A chamada Construção Europeia fora possível porque, a seguir a seis anos de guerra, os europeus, sobretudo a Alemanha, estavam de rastos e URSS (potência atómica desde 1949) e EUA partilhavam o domínio do mundo em Guerra Fria. Os EUA protegiam a Europa Ocidental: defendiam-nos da Rússia - e defendiam-nos também uns dos outros. Sem uma Rússia que nos aterrorizava e uma Alemanha de rastos não se teria chegado à União Europeia.

 

A URSS colapsou e a Rússia revanchista de Putin não mete medo que se lhe compare. O terror soviético animava forças centrípetas vitais para a Europa; sem ele medram forças centrífugas de nacionalismo (patriotismo é amor aos nossos; nacionalismo é ódio aos outros, Romain Gary). Entretanto, a Alemanha levantou-se do chão, reunificou-se, fez do Eixo Franco-Alemão a trela com que Berlim puxa Paris, ajeitou os Tratados e, sem Inglaterra a bater-se por liberdade económica, defesa forte a Leste e Sul e bom senso em geral, acabaria obtendo em paz – mais por erros dos outros do que por desígnio próprio – o que lhe escapara nas guerras lançadas em 1914 e 1939: domínio incontestado da Europa.

 

Não há país mais longe do fascismo do que a Alemanha de hoje mas há vigências antigas. A saga da austeridade atasca a economia do Continente, afunda o Sul, divide Norte e Sul, com os alemães convencidos de estarem a fazer bem, por bem. Querem livrar-nos dos nossos Demónios e não entendem que a gente queira livrá-los dos Demónios deles. Assim não.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

1.6.16

 

 

 

atomic_mushroom_cloud-.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Cem anos depois

 

 

 

Ernst Jünger, autor de diários de guerra célebres na Alemanha e também em França – traduzidos na Bibliothèque de La Pléiade (Tomo I: 1914-1918; Tomo II: 1939-1945), sendo o primeiro considerado por muitos o mais belo livro de guerra e o segundo, onde o autor, já homem feito, hostil aos nazis, deixou para trás a excitação do combate e o horror das trincheiras para ser oficial durante a ocupação alemã de Paris, relata com a mesma franqueza a extrema dificuldade de conservar “a sua integridade num mundo onde verdade e moralidade já não têm qualquer expressão visível” – quando lhe haviam perguntado, nos anos de l’entre deux guerres, qual a impressão mais forte que lhe ficara da Grande Guerra, respondera “A pena de a termos perdido”.

 

Lembrei-me dessa resposta com as comemorações do centenário da batalha de Verdun que durou onze meses, matou oitocentos mil soldados sob as bandeiras alemã e francesa vindos de muitas pátrias - no caso da França bem para lá da Europa e da cristandade – e foi ganha sob a égide do Marechal Pétain que ficou herói nacional – quase à altura de Joana d’Arc no altar patriótico que cada francesa ou francês traz dentro da cabeça – até a Alemanha atacar de novo, 20 anos depois de humilhada pela paz de Versailles, tendo Pétain, guindado a Presidente da República, negociado rendição que deixou a Alemanha a ocupar o país e o governo francês, subalterno, sediado em Vichy. De Gaulle, de cujo filho mais velho Pétain fora padrinho, fugiu para Londres, de lá exortou à rebelião pela BBC, organizou a Resistência e foi condenado à morte à revelia. (Os comunistas só passaram a resistir aos nazis depois de Hitler invadir a Rússia em 1941). Com a vitória Aliada em 1945, De Gaulle, entretanto Presidente, amnistiou Pétain que de Leão de Verdun passara a traidor condenado à morte e acabou a vida preso da Ilha de Yeu. François Mitterand, Presidente socialista eleito em 1981, mandava pôr-lhe flores na campa nos aniversários da sua morte.

 

No Domingo, diante do ossuário monumental que guarda milhares de ossadas desconhecidas franco-alemãs, inaugurado em1932 (condenar o horror da Grande Guerra não impediu os chefes de se meterem noutra), François Hollande e Angela Merkel lembraram erros e crimes passados e avisaram de nuvens negras no futuro. De facto, novos fascismos e racismos de sempre atraem muita gente. Na Europa, fronteiras voltam: só a que separa Chéquia e Eslováquia não foi traçada a sangue. A guerra é tao antiga quanto o homem; a paz é uma invenção recente, disse jurista inglês a meio do século XIX.

 

Felizmente há a Bomba (nuclear) para moderar ímpetos mas quanto mais amigos animarem à toa redes sociais e mais jornais com pés e cabeça forem desaparecendo de bancas e écrans, maiores serão as probabilidades de gente que não sabe nada e julga saber tudo ser posta no poder em eleições livres e limpas e o usar muito mal. O puto coreano já é grande susto; meia dúzia de graúdos democráticos serão o fim da picada.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

2.3.16

 

 

Lord Ismay .jpg

Lord Ismay, 1º secretário-geral da OTAN, no seu gabinete, palais de chaillot,  1953

© OTAN/NATO

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Olhar por nós

 

 

 

 

Com segurança não se brinca. Seis anos de guerra sem quartel acabando em rendições incondicionais da Alemanha e do Japão em 1945 temperaram os Estados Unidos, deixando-os aptos a chefiarem aquilo a que chamávamos o Mundo Livre durante a Guerra Fria.

 

Em geração próxima – Churchill seria um dos vencedores de duas guerras mundiais; Hitler, um dos vencidos –, a seguir à vitória de 1918, o Senado desfizera os sonhos do Presidente Wilson, recusando que os EUA se juntassem à Sociedade das Nações. Entretanto, as condições leoninas impostas à Alemanha vencida ajudaram ao colapso da República de Weimar e ao triunfo eleitoral do nazismo. (Convém nestes dias de Trumps, Le Pens e Putins, lembrar que Hitler não tomou o poder pelas armas; apanhou-o do chão em eleições livres e limpas).

 

Assim, em 1945 a Alemanha, ou pelo menos a parte dela que coube ao Ocidente, foi poupada a exacções ruinosas. Pelo contrário, em 1953, quando até mesmo os franceses tinham percebido que o inimigo passara a ser a Rússia e deixara de ser a Alemanha, quase toda a dívida que restava das duas guerras lhe foi perdoada para a ancorar melhor ainda no Ocidente. Washington queria ter os pés bem assentes no chão: só depois de alguns europeus terem criado organização de defesa própria – a União da Europa Ocidental – os americanos se dispuseram a negociar com eles e alguns outros, quase todos democracias (Portugal era a excepção e a base das Lajes a razão dela - com segurança não se brinca) o Tratado de Washington, assinado em 1949. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) estabeleceu-se em 1952. A maior e mais reputada aliança militar do mundo contemporâneo desimaginou durante quarenta anos a URSS de aventuras insensatas e ganhou a Guerra Fria sem ter de dar um tiro (salvo em exercícios de fogos reais).

 

Desde essa altura houve quem achasse que devia acabar: amantes imprevidentes da paz, que não são poucos e nunca aprendem; anti-americanos primários, convencidos de que a Rússia deixara de ser problema e, sobretudo, a Rússia de Putin que diz ser o alargamento da OTAN a Leste uma provocação agressiva (dado que Geórgia e Ucrânia, vizinhos da Rússia que estão fora da OTAN, são atacados pelos russos, e outros vizinhos, dentro dela, não o são, é preciso ter lata).

 

Único instrumento colectivo de defesa de que dispomos, para além de continuar a meter respeito profilático desempenha outro papel crucial: refreia nacionalismos militaristas dos Aliados, pondo os europeus na bicha e não virados uns contra os outros. Defender-nos-á de eventuais invasores - terroristas, cibernéticos, nucleares, convencionais. (E, se o Kremlin ganhar um dia boa-fé, será interlocutora ideal na discussão de interesses europeus e americanos).

 

Só não serve para a vergonha actual: 500 milhões, prósperos e anafados, enxotando como pestíferos escassas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças fugidos de guerra nas suas terras, no engodo enganado dos valores europeus.

 

 

 

 

 

 


9.12.15

 

ouifrance.jpg

 França, 2015

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

De mal a pior

 

 

Os alemães hão de ser sempre alemães, os franceses franceses e os portugueses portugueses, porque não há outros. Dito isto (quanto aos portugueses, já fora dito pelo primeiro Duque de Palmela, homem avisado que nas suas memórias contou ter tido dois grandes fitos na vida: fazer de Portugal uma monarquia liberal e casar o filho primogénito com a herdeira mais rica do país), a Alemanha de Merkel é muito menos parecida com a Alemanha de Hitler do que a França de Hollande com a França de Pétain, mesmo que fotografias de Paris e Berlim em 1944 e 1945 possam sugerir o contrário (Paris libertada por De Gaulle e os aliados ocidentais, sem uma vidraça partida, com pequenas na rua a saltarem ao pescoço dos magalas; Berlim arruinada pelo exército vermelho, com as mulheres em casa cheias de medo de sair à rua, não fosse a soldadesca soviética violá-las).

 

Ou talvez por isso mesmo. Depois de expansão fulgurante no começo da guerra, triunfos nazis que alargaram o domínio do Reich e incharam o orgulho dos alemães, vieram derrotas no Norte de África e em Estalinegrado que mudaram o curso da guerra até ao suicídio de Hitler e à rendição incondicional, seguida da ocupação - zonas russa, americana, britânica e francesa -, da proibição de ter forças armadas, dos julgamentos de Nuremberga, da divisão em dois estados até ao colapso da União Soviética, da vigilância e culpabilização permanente pelos vencedores. A Alemanha foi martelada para ficar tenra, como se fazia dantes aos bifes. De tal maneira que, mesmo hoje, mais rica e poderosa que qualquer dos seus parceiros europeus (salvo - por não o querer - militarmente) é, de longe, a grande potência que melhor respeita os direitos humanos e que trata os pequenos com mais decência.

 

Na França, a história foi outra. Graças à coragem e ao génio político de De Gaulle, em 1945 figurou entre as vencedoras da guerra e não entre as vencidas, como o comportamento do regime de Pétain e da grande maioria dos franceses por ele governados teria amplamente justificado. Instalada nesse casulo (poetas e prosadores haviam dourado a Resistência) viveu décadas de fantasia, considerando-se equidistante dos Estados Unidos, a quem invejava o poder (e que De Gaulle detestava) e da Rússia Soviética por quem a esquerda francesa - a operária e a caviar – esteve longamente fascinada (Yves Montand e Simonne Signoret saíam malcriadamente de jantares se algum conviva sugerisse que o Gulag existia).

 

Desde a reunificação alemã, o conchego do casulo começou a estragar-se; a crise de 2008 deu-lhe bolada grande; refugiados e terroristas bateram mais e às 8 da noite de Domingo passado os resultados da primeira volta das eleições regionais mostraram, urbi et orbi, o descalabro a que a França chegou. O Front National, racista, xenófobo e protecionista poderá vir a ganhar 6 de 13 regiões e passou a ser o partido mais votado do país.

 

Por este andar, talvez Marine Le Pen ponha a cereja no bolo, conquistando o Eliseu em 2017.

 

link do postPor VF, às 07:47  comentar

10.11.15

 

 

andre-glucksmann.jpg

 

 

 

Que répliquer à l'hégélianisme spontané qui gouverne la une des journaux ? Comment ne pas concéder que l'histoire du monde juge tout le monde et emporte tout un chacun (Weltgeschichte ist Weltgericht)? Ma réponse est brutale, je te l'expédie sous forme d'une injonction pragmatique et sai­gnante : redevenons classiques. Pas naïvement classiques, bien sûr. Casse-cou jusqu'au bout, je n'aurai de cesse avant que tu m'entendes: revenons à Racine. Oui, résiste à l'incoer­cible désir de normalité qui pousse à s'immerger dans ce qui semble le cours des choses. Oui, prête au journal télévisé l'attention détachée, mais imprescriptible, que suscite une représentation d'Athalie ou d'Andromaque. Sur la scène, à l'écran, l'éclair du définitif risque à tout moment d'accrocher ton regard. Accrocher à quoi? La question est bonne. Garde la tête hors de l'eau, redeviens « classique », et tu ne seras jamais l'homme d'une seule époque.

 

Le classique habite deux patries, la sienne et une autre. La Florence des Médicis et la Grèce, la Rome du quintocento et celle d'Auguste. Le Siècle d'or espagnol, l'Angleterre d' Élisabeth, la France du Roi-Soleil, au choix, mais jamais sans son ombre glorieuse et antique. Les classiques cultivent le sentiment paradoxal mais banal d'une plongée dans l'histoire qui les élève et les enlève hors histoire. Ils s'autorisent de l'expérience immobilisée du temps qui passe. Ces esprits à double nationalité recherchent le temps perdu plus frénétiquement que l'existence de Dieu, quitte à reconnaître, avec Proust que, perdu pour perdu, le temps est cette recherche même, dont on ne sort que mort. Il n'y a pas de train pour Cythère, mon ami. Afin de vaincre l'angoisse des quais de gare, grignote une madeleine.

 

 

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d'Allemagne et de France

© Éditions Robert Laffont, S. A., Paris, 1997

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:22  comentar

30.9.15

 

 

 

Rui Ochoa.jpeg

Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:57  comentar

23.9.15

 

Doctor Faustus 1.jpg

 Doctor Faustus

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

De mal a pior

 

 

“Não compre um Junker, que já são feitos cá! Compre um Vaillant”, disse o homem dos electrodomésticos na Lapa há 30 anos porque a fé lisboeta no Made in Germany era inabalável, apesar de duas guerras mundiais perdidas por Berlim, na primeira com Portugal inimigo, na segunda com Portugal neutro – embora, estando a sorte da guerra a virar depois das derrotas alemãs no areal de El-Alamein e na estepe de Estalinegrado, o Dr. Salazar tivesse acedido a deixar instalar a base aérea das Lajes na Ilha Terceira dos Açores por ingleses e americanos. Mesmo assim, sua administração viria a receber com compunção a rendição internacional dos nazis aos aliados. No Palácio das Necessidades, o Secretário-Geral, quando o embaixador alemão se veio despedir, em lugar de, como fizera sempre que por ele fora visitado, vir com ele à porta do gabinete, acompanhou-o pelo corredor até ao cimo da escadaria.

 

Como toda a gente sabe – de médico, de louco e de comentador político todos temos um pouco (vem à ideia André Gide, nos anos vinte, assarapantado com o que via à sua volta, a dizer que em Paris as coisa tinham chegado ao ponto de haver mais artistas do que obras de arte) - durante o século XX, a Alemanha foi o Sempre-em-Pé da Europa. A narrativa –como dizem agora - corre assim. Os alemães quiseram mandar em nós pela força duas vezes, a primeira em 1914 e a segunda em 1939; das duas acabaram por levar no coco depois de tropelias criminosas, inéditas na Europa. As mais conhecidas aconteceram durante a segunda guerra mundial, tendo destaque incomparável com tudo o resto a tentativa de exterminação dos judeus – Holocausto, Shoa, os nomes são vários mas a atrocidade é a mesma – radicada em teorias criminosas e dementes, abraçadas por Hitler e seus sequazes, (mas calando fundo também em almas não-germânicas, sobretudo na Europa de Leste: por exemplo, algumas das matanças mais cruentas foram levadas a cabo na Letónia e na Roménia). Mas a primeira, aquela a que se chamava a Grande Guerra, teve também a sua quota de barbaridades logo desde o princípio: a destruição e incêndio da preciosa biblioteca da Universidade de Louvain, na Bélgica, pelos invasores alemães que nos primeiros dias da guerra se assustaram sem ninguém os ter provocado, deu o tom a muito do que se seguiu. A narrativa costuma além disso lembrar que a Paz de Versailles exagerou no castigo e tornou os alemães mais belicosos. E conta também que, depois de 1945, a Alemanha aprendera a lição e a pouco-e-pouco, sempre a bem, se fora transformando na maior potência europeia. Estava quase desculpada do passado mas a crise grega começara a empurrá-la para a mó (moral) debaixo quando, de surpresa, Angela Merkel abriu as portas aos refugiados. O Bem, afinal, sempre era alemão.

 

E agora o escândalo Volkswagen, o Carro do Povo, Das Auto que, com crime gigantesco e metódico, põe vidas em risco, ludibria administrações e retira autoridade às pregações morais de Berlim. Sempre-em-Pé ou Sísifo?

 

 

link do postPor VF, às 17:23  comentar

2.9.15

 

 

AM Picture Getty.jpg

Angela Merkel (Getty)

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Deutschland über Alles (a bem)

 

  

 

Na Islândia - país com pouco mais de 300.000 habitantes que já quis candidatar-se à União Europeia e depois mudou de ideias - o governo anunciara estar pronto a receber 50 migrantes, dos milhares que este verão demandam a Europa, mas onda de indignação generosa organizou o povo on line enquanto o Diabo esfrega um olho e há lá agora 10.000 ofertas de acolhimento. Há também muitas da Noruega e, dentro da União, a Suécia, apesar de renitência vistosa da sua nova direita, vem logo a seguir à Alemanha em disponibilidade – a grande distância, devido à escala: a Alemanha é o país mais populoso da Europa; os suecos são menos do que os portugueses.

 

No fundo da tabela da solidariedade estão alguns dos países dantes do lado da lá da Cortina de Ferro, dando a Hungria, proverbialmente xenófoba, mais nas vistas do que os outros por ter erguido muro de arame farpado na fronteira com a Sérvia e ter vedado nos últimos dias o acesso à estação central de caminho de ferro de Budapeste. Um mar de migrantes, famílias inteiras que, uma vez na Hungria, se preparavam para apanhar comboio para a Alemanha, pronta a receber quase um milhão e a não os devolver ao país pelo qual tenham entrado na União Europeia, confrontou a polícia na praça em frente da estação. Quando escrevo (terça-feira) por lá estão ainda. Imagens fortes nas televisões de todo o mundo, espelhando o egoísmo escandaloso dos europeus (Mauriac, mais uma vez: “Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a das pessoas sérias e é um horror”), egoísmo confortado pelos que sustentam, pimpões, que os europeus não têm obrigação de tratar de todos os males do mundo. (Creio que o primeiro a dizê-lo foi Michel Rocard). Também acho que não mas o problema não é esse. O problema é que a União Europeia não é, nem deveria ser, uma O.N.G. caritativa – é, ou deveria ser, um poder político.

 

Entretanto, o silêncio de Angela Merkel começava a ser ensurdecedor (pediam-lhe que mandasse na Europa mas como mandar, a seguir ao castigo da Grécia, sem evocar passo de ganso, cruzes gamadas, saudação nazi? Como ser Führer sem ser Hitler? Pediam-lhe também que mandasse nos seus mas era preciso sentir muito bem o vento para saber navegar com ele ou bolinar). Finalmente a Senhora decidiu-se, com bom coração e com boa cabeça - para além do que pareceria possível, deu à Europa a noção de que havia nesta um chefe. À evocação dos valores europeus - que explicita ou implicitamente incluem estado de direito, direitos do homem, decência cívica, solidariedade – juntou lembrança dos benefícios materiais trazidos pelos imigrantes aos países onde chegam (no caso do Velho Continente, mão de obra jovem que permita pagar pensões aos reformados).

 

É projecto político sine qua non para a Europa prosperar no mundo globalizado, meter respeito à Rússia, derrotar o Estado Islâmico e a sua insidiosa quinta coluna.

 

E para tornar a meter Montesquieu na calha. Ou Antero: “Razão, irmã do amor e da justiça”.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 18:39  comentar

22.7.15

 

 

 

 

Kohl 1.jpg

 

Helmut Kohl

Foto: AP

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Aprendizes de Feiticeiro

 

 

Abriu a caça à Europa. Enquanto a Alemanha esteve dividida e a União Soviética durou o projecto europeu floresceu. Mas desde a crise de 2008 e das más respostas que lhe fomos dando, começa a ver-se o túnel ao fundo da luz.

 

A França percebeu logo o perigo da Alemanha reunida (como a Inglaterra, tentou à última hora evitá-la mas Kohl foi apoiado por Gorbachev e Bush) a quem Mitterand forçou a engolir a moeda única (os alemães prefeririam manter o marco) na esperança de a travar um pouco. Estratagema vão, como a tragicomédia grega à boca de cena e a fraqueza económica geral europeia em pano de fundo mostram. Agora Hollande quer governo, orçamento e parlamento da zona euro, na esperança de que tal arranjo federal ajude a enquadrar o poder de Berlim. Que o projecto exclua a Inglaterra e enfraqueça a União Europeia não o preocupa desde que Paris ganhe mais voz contra Berlim do que a que tem hoje. Não sei se terá sucesso: talvez nem todos os utilizadores da moeda única estejam dispostos a juntarem-se a essa aventura. O papão, que fazia dantes os meninos comerem a sopa sem rabujarem, já não existe.

 

O pai da construção europeia foi Estaline, dizia Paul-Henri Spaak e nunca é demais repeti-lo. Acabado o terror incutido pela União Soviética, foi-se a propensão contra natura dos europeus a colaborarem uns com os outros. Durante 45 anos, permitira-lhes atingir a União Europeia mas quando Jacques Delors – 90 anos convictos de que o Presidente da Comissão deveria ser sempre um francês – e os seus discípulos lançaram o euro, esperando que as harmonizações necessárias para seu funcionamento fossem sendo acordadas pelos estados, já Yeltsin desmantelara o monstro e as capitais europeias, livres da canga da solidariedade e do interesse geral, retomavam hábito e gosto antigos de desconfiarem umas das outras.

 

O mau estar explodiu com a crise grega e mostrou coisa pior ainda. Desaparecido o medo salutar da União Soviética, uma noite de decisões brutais em Bruxelas restaurou em muitos corações o medo da Alemanha. Strauss-Kahn, um dos raros políticos em quem Angela Merkel confiara, achou as medidas contra a Grécia ‘quase mortíferas’; o filósofo Habermas, que 70 anos de diplomacia de reabilitação tinham sido deitados a perder.

 

É complicado. Toda a gente – incluindo muitos gregos – entende que, para o projecto europeu não se desmantelar, os gregos terão de passar a ser mais virtuosos. Menos gente – e quase nenhum alemão – entende que, também para o efeito, os alemães terão de passar a ser menos virtuosos. Durante a Guerra Fria, Bona, readmitida por De Gaulle ao convívio das pessoas de bem, deixara Paris mandar e não viera daí mal ao mundo. Desde a reunificação quem manda é Berlim. Na Alemanha a virtude tomou o freio nos dentes; se não aparecer outro Helmut Kohl, nacionalismos curtos de vistas darão cabo da riqueza e do poder da Europa.

 

Não seria o fim do mundo, muito menos da História. E tornaria a haver guerras entre nós.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:26  comentar

8.7.15

 

the-concert-in-the-egg.jpg

O Concerto no Ovo, Hieronymus Bosch (c.1450-1516)

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Europeus

 

 

 

«Ih patrão, um homem pra ser um homem tem de ter feitos de alarve!» explicou rapaz que se tinha atirado a um pego no Guadiana sem saber nadar durante festa de campo e fora salvo à justa.

 

Assim fizeram no Domingo os gregos que votaram ‘não’. Mas ao contrário de Guilherme Gião, da Herdade da Abegoaria, que achou graça ao rapaz, os patrões do Norte e do Centro da Europa não acharam graça nenhuma e, açulados pelos eleitores - as bases são sempre muito mais intolerantes do que as cúpulas – gostariam de continuar a tirar aos gregos coiro e cabelo (mas agora fia mais fino) não porque tal melhorasse economia grega ou europeia, pelo contrário, mas porque os gregos pecaram e têm de expiar os seus pecados.

 

Tal convém a Angela Merkel: por um lado, fazer o que os eleitores querem segura votos; por outro, tal como para o Pai Bush, a vision thing não é para ela (no dia da queda do Muro de Berlim, cidade onde vivia, em vez de ir molhar a sopa ou pelo menos assistir à destruição, foi à sauna - porque era dia de sauna) de maneira que quem precise de timoneiro para a viagem europeia terá de bater a outra porta. E há mais, lembrou-me amiga perspicaz: criada desde os 3 anos na República Democrática entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial – o heróico povo alemão, ajudado pelo heróico povo russo, derrotara o nazismo e derrotaria um dia o capitalismo – nunca sentira a culpa salutar que fizera Helmut Kohl ter uma regra: quando o Chanceler alemão encontra o Presidente francês, começa por fazer três reverências.

 

Nos dias de hoje, para ela, eleitores e partido vêm à frente da Alemanha e a Alemanha muito antes da Europa. Até à reunificação muitos alemães ocidentais consideravam-se europeus antes de alemães mas esse chão deu uvas. Deutschland über alles.

 

Não há, em princípio, mal nenhum nisso. Cosi fan tutte. Gregos, atirando-se à água sem saberem nadar para mostrarem que são homens. Polacos, cuja cavalaria atacou tanques alemães a sabre, em 1939. Suécia, que se deu à eutanásia há 80 anos mas se arma em sogra do mundo e prega moral. Portugal, convencido de que, apesar do tiro-liro-liro estar lá em cima e nós estarmos cá em baixo, não há de ser nada. Inglaterra, capital da excentricidade, de onde The Economist faz em cada número obituário de morto ilustre (nossos, lembro-me de Amália e Melo Antunes) e escolheu a semana passada não uma pessoa mas uma gata, célebre no Japão onde era chefe de estação e Vice-Presidente honorária de companhia de combóios e, diz The Economist, sabia que era divina.

 

Gente variada, os europeus. Não se dão mal uns com os outros desde que um deles não queira mandar no resto e pôr todos à sua imagem e semelhança. Ora, depois de mais de meio século caladinha, a Alemanha recomeçou a afirmar-se. Terceira investida em cem anos, desta vez a bem – mas se não a refrearem vai de novo criar cizânias. Não por mal mas por desejo irreprimível de meter tudo na ordem sem nunca perceber que a sua ordem possa não convir aos outros.

 

 

 

link do postPor VF, às 07:22  comentar

24.6.15

 

waterloo.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

A asneira da austeridade

 

 

Em tempo de vacas gordas, haver ricos conforta os pobres e vive tudo na paz do Senhor. Em tempo de vacas magras, o Diabo põe-se à coca e faz das suas. De entrada, a esperança teima: para o ano vai ser melhor, pensam muitos (e depois pensam poucos). Quando anos passam e quase nada melhora, o azedume rói as almas. O mau viver instala-se a pouco-e-pouco; cava-se um fosso entre o mundo cada vez mais pequeno dos ricos e o mundo cada vez mais vasto dos pobres e acaba por se estragar tudo — mesmo em lugar tão cordato e tão pouco dado a excessos quanto Portugal.

 

Estamos a chegar aí – tal como vários outros países europeus – graças a política de austeridade que de há quase cinco anos a esta parte os países que têm o euro como moeda resolveram adoptar. Em lugares do Sul animados por tradições de guerra civil, como a Espanha e a Grécia, a violência formiga à flor da pele. Mais acima no Continente, os países decisores ou por falta de visão (tais aqueles jogadores de futebol que olham para a bola em vez de olharem para o campo) ou por ignorância de história (a qual lhes diria que, em 1953, a Alemanha Ocidental ter um superavid primário foi crucial para a decisão de lhe reduzir drasticamente a dívida) estão a minar a segurança e o bem-estar dos europeus. É certo que em 1953 os europeus ocidentais tinham pavor salutar da URSS. Mas hoje a Europa inteira deveria ter medo geral profilático: da Rússia; da concorrência desregrada dos outros BRICS; do descalabro sanguinário do Próximo Oriente. Somos uma jangada de paz e decência em mar alto onde borbulham monstros.

 

E nem é hoje a Alemanha que nos empurra para o abismo. Finlândia, Holanda, Eslováquia, Eslovénia falam mais grosso ainda. Mas com chefe à altura de Adenauer, que puxou os seus do fundo do opróbio; ou de Churchill que salvou a Democracia das garras de Hitler e Estaline; ou de De Gaulle que, em 1945, fez da França vencida França vencedora – tudo iria ao sítio. Mesmo sem eles, talvez vá se Angela Merkel tiver unhas para essa guitarra. Talvez as tenha.

 

Escrevo da Nova Iorque dos pobres, onde houve festa da música no Solstício de Verão. No bistrot da esquina, com mesas cá fora, quarteto francês de jazz (The Blues Syndicate, amadores cinquentões) veio dar acompanhamento ao aperitivo e, depois de jantar, ao serão. “Perdemos Waterloo mas ganhámos os blues” disse o guitarrista entre duas peças. Quinta-Feira, à reconstituição comemorativa dos 200 anos da batalha tinham vindo o Rei dos Belgas, o Príncipe Carlos, descendentes de Napoleão, de Wellington, de Blücher, outros estadistas europeus. Os franceses têm mau perder e mandaram só o embaixador em Bruxelas. Os alemães fizeram o mesmo mas porque, desde a atrocidade nazi, ganhar dá-lhes amargos de boca — por muito antigo que o ganho haja sido.

 

Isso deveríamos todos aprender com eles. Na minha experiência, a Alemanha era o único grande país europeu que se portava decentemente com os pequenos e dizem-me que continua a sê-lo.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

link do postPor VF, às 07:06  comentar

13.5.15

 

 

M-K 3.jpgBons tempos

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Bom senso

 

 

 

Foi bom ver Ed Milliband e o Partido Trabalhista, livre da viragem à direita feita por Tony Blair, levarem no coco. Ficaram só com um deputado na Escócia, os Conservadores ganharam maioria absoluta na Câmara dos Comuns e Ed demitiu-se. É uma história moral, como fábula de Esopo. Há cinco anos, o candidato natural à chefia do partido a seguir à demissão de Gordon Brown era o irmão mais velho de Ed, David, que acabara de ser ministro dos estrangeiros e seguia a via social-democrata aberta por Blair. Mas Ed mancomunou-se com sindicatos esquerdistas, prometeu-lhes voltar ao passado quando o partido retomasse o governo (no Reino Unido, o chefe dos trabalhistas é escolhido por deputados e dirigentes sindicais). Ficou chefe da oposição em Westminster e David deixou a política.

 

Aliança de sindicatos trogloditas e irmão fratricida foi coisa feia e deu gosto vê-la acabar tão mal. De Ed não é preciso dizer mais nada: na nossa parte do mundo gente como ele tem mau nome desde que Caim matou Abel. Dos sindicatos convém acrescentar que, se a austeridade dos Tories de Cameron deixa muito a desejar (tal como a austeridade imposta pela Alemanha na zona euro) não é seguramente com receitas socialistas de anteontem, de ineficácia provada, que se poderá emendar o soneto. Quase toda a gente - salvo quase todos os alemães - sabe que é preciso mudar mas não para voltar a erros passados (embora a tentação de muitos seja grande, como o caminho feito por demagogos em outras áreas da vida política atesta – proteccionismo; xenofobia – fazendo lembrar os anos de pré-nazismo e pré-fascismo do século XX, só não havendo ainda arruaças em cidades da Europa graças aos 50% da despesa social do mundo gastos pelos europeus).

 

A austeridade foi e continua ser um erro caro mas a vasta maioria dos alemães continua a exigi-la e os governos dos outros países da União Europeia, não só os da zona euro, aceitam essa exigência. Desde 2010, os alemães, às arrecuas, depois de dizerem que não várias vezes, têm cedido ao bom senso. Mas mudam muito devagar e, sem guerras entre nós, a demora será grande. Enquanto a França mandou, os vícios francês e alemão neutralizaram-se. Mas desde a moeda única a França, com orçamentos em défice desde 1974, não consegue impor uma pitada de inflação e a Alemanha, desinibida, faz vigorar a sua visão caseira e moralista da economia. Virtude à solta que pode acabar mal.

 

Por cá, alguma grandeza daria jeito mas fracos reis fazem fraca a forte gente. Lembro a adivinha de Augusto Sobral:

 

De meia tijela veio

E ficou meia tijela.                                                                

Ficou a tijela em meio                                                              

Porque era meia tijela.

 

E o refrigerante imaginado pelo meu chorado Eduardo Calvet de Magalhães, antes de cá ter chegado a Coca-Cola: “ Capilé gaseificado – a bebida que lhe corre nas veias”.

 

 

 

Imagem: François Mitterrand e Helmut Kohl em Verdun, 1984 © Associated Press

 

 

link do postPor VF, às 10:22  comentar

25.3.15

 

Battle_of_Waterloo_Map.jpg

 

Mapa da batalha de Waterloo 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Waterloo

 

 

 

De imprevisto, a palavra poderia significar retrete em estância termal, na fala de algum condado do centro de Inglaterra, por exemplo, mas não - era nome de aldeia, então no sul da Holanda, que saiu da insignificância porque Wellington lá pernoitou e estabelecera quartel-general na véspera da última batalha que Napoleão travou, a 18 de Junho de 1815. Napoleão pernoitara a alguns quilómetros, na Ferme du Caillou, perto da aldeia de Plancenoit, onde estabelecera o seu quartel-general. (A cama de campanha ainda lá está e mostra que o Imperador nascido na Córsega era realmente pequenino). Se Napoleão tivesse ganho – e como dizia sem domínio do português idiomático, sueca que conheci: “Foi pela unha de um preto…” - a história dir-nos-ia da batalha de Plancenoit e a União Europeia haveria sido fundada século e meio mais cedo. 124 anos depois desse fiasco, foi a vez de alemão nascido na Áustria tentar a sua sorte mas tampouco se saiu bem. Como, entre a primeira e a segunda tentativa, a revolução industrial florescera, mortandade e prejuízo material na Europa foram incomparavelmente maiores nos 6 anos da Segunda Guerra Mundial do que na década das campanhas napoleónicas. De maneira que, com cidades e campos arruinados, ajuda material americana voluntariosa e terror salutar de Tio Zé Estaline & Herdeiros, os europeus para cá da Cortina de Ferro meteram-se à terceira tentativa, ainda em curso, de União Europeia. Três diferenças graúdas - e ligadas entre si - a separam das duas tentativas anteriores: está a ser feita a bem e não a mal, com votos e não com balas; hoje, nenhuma potência europeia tem poder que, sozinho, contasse no mundo; França e Alemanha, inimigos históricos, juntaram-se para serem “o motor da Europa”. Nem sempre tudo vai de vento em popa: tanta paz torna-se irritante sobretudo para quem, macho ou fêmea, seja novo e esteja desempregado. Desenvolveu-se indústria, assim uma espécie de app, para culpar Bruxelas de todas as nossas desgraças e querer extrair das pátrias - como um minério - bem-aventuranças de que a União nos privou. Se a economia recuperar ao ponto de criar empregos – e é um grande Se - não há de ser nada. Se não recuperar…

 

A Bélgica que na altura da batalha não existia ainda mas que hoje dela recolhe fama e proveito, prepara festejos de arromba, incluindo restituição de partes da batalha. A seguir à vitória, o Príncipe de Orange fez erguer a colina cónica com o leão em cima que desfeou para sempre a paisagem e passou a ser emblema do lugar. Desde o começo o sítio foi adaptado para celebrar e festejar. O curioso é que celebra Napoleão. Wellington era muito alto mas o grande homem era o outro.

 

O primeiro centenário caiu durante a Grande Guerra e mal se deu por ele. O terceiro terá porventura a batalha revivida por robots. E lá mais para diante, viajando-se para traz no tempo, talvez Napoleão, Wellington, o cavalo Copenhague e o resto do pessoal tornem a dar um ar da sua graça à morne plaine .

 

 

Imagem: aqui

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:36  comentar

25.2.15

 

 

inverno-arcimboldi-giuseppe-arcimboldo.jpg

L'inverno (1569), Giuseppe Arcimboldo

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

O fim da picada?

 

 

Angela Merkel, levando à ilharga François Hollande – o eixo franco-alemão redime Berlim de crimes imperdoáveis – viu as coisas mais de cima do que os seus contabilistas, pôs a mão por baixo de Tsipras, a Grécia não saiu do euro e ainda não foi agora que a construção europeia se desmoronou.

 

Por um triz. Nacionalismos antigos estalaram o verniz fresco da Casa Europeia. Para os alemães, a Grécia reduziu-se a dois séculos de aldrabices (em meados do século XIX desconfiava-se na Europa do teor de moedas de ouro cunhadas por Atenas); para os gregos, a Alemanha reduziu-se ao horror nazi (na Primavera de 1944, escritor berlinense foi denunciado, julgado e decapitado por ‘propósitos derrotistas’ e a viúva recebeu conta de 585 marcos para pagamento das despesas). Agora, inexperiência, má criação e má-fé do novo governo grego, e inabalável curteza de vistas dos burocratas financeiros alemães (recusando-se a perceber que a dívida grega explodiu devido a medidas mal pensadas impostas pela troika; que sem o fim da austeridade não haverá recuperação – para sair de um buraco a primeira coisa a fazer é parar de cavar – e que a dívida grega deverá ipso facto ser revista) animam falso combate entre Norte virtuoso e Sul pecador da Europa. Esperemos que nos próximos meses a obstinação insensata alemã se atenue e os gregos provem que passaram a ser de fiar.

 

Infelizmente esta bulha não é confortada por qualquer visão estratégica da União, porque tal visão não existe. A vontade de defender a Pátria e os orçamentos de defesa mirram de ano para ano. A Sudeste, as barbaridades do Califado – ou estado islâmico do Iraque e da Síria – alarmam os europeus por medo de terrorismo praticado por cá, levam a alguma coordenação policial mas não a medidas de uma Europa que quisesse e soubesse defender os seus interesses e gerir zangas internas sem se enfraquecer.

 

E a Leste é pior ainda. Desde o fim da União Soviética, o Ocidente esqueceu-se da Rússia, esperando que os russos quisessem vir a ser como nós – estado de direito, direitos humanos, respeito pelos vizinhos. Não o quiseram e hoje, sob a égide ávida de grandeza Imperial de Putin (que alguns entre nós admiram) a Rússia ameaça a nossa segurança. A Ucrânia está ser despedaçada: o eixo franco-alemão insiste em Minsk que só pode haver solução política e entretanto a Rússia estabelece militarmente as partes dessa solução que lhe convêm. Em 2008, Geórgia; no ano passado, Crimeia; uma vez o resto da Ucrânia fatiado sem que ninguém lhe trave o passo, talvez a Rússia se vire contra um dos bálticos (a pretexto de proteger minoria russa), apostada em que a OTAN não lhe bata de volta. Os Aliados, com Washington, Londres, Paris, Berlim e Varsóvia à frente, deveriam lembrar ao Kremlin que o artigo 5 do Tratado de Washington (ataque a um é ataque a todos) não foi abrogado.

 

Havia mais sagacidade nos antigos do que na nossa correcção política bem pensante. Se queres paz, prepara guerra, diziam.

 

 

link do postPor VF, às 09:10  comentar

24.12.14

 

flight-into-egypt-1.jpg

 Fuga para o Egipto, Giotto 1311

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Boas Festas

 

 

 

A quadra de presentes é propícia ao calibrar das posses de cada um e sente-se no ar um perfume de luta de classes de que não me lembrava há muito tempo (“consciência de classe que parecia adormecida”, escreve-me amiga em Portugal). Apesar de distracções na televisão, na telefonia, nos jornais, na internet, nas redes sociais - guerra sem quartel entre sunitas e xiitas; tropelias de Putin; aquecimento global provocado pelo homem (brinca, brincando, crescemos de dois mil para sete mil milhões em pouco mais de meio século: europeus, porém, somos cada vez menos); epidemias que resistem a remédios - mau viver insidioso alastra em cada vizinhança.

 

Como só más notícias se vendem – e compram – entram-nos desgraças pela casa dentro amanhadas “de cinco maneiras diferentes”, como os linguados do restaurante Sua Excelência quando o Queiroz recitava o menu. Contra mim falo, mas parece às vezes haver hoje mais comentadores do que coisas a comentar. Entretanto, espreguiçando-se estremunhada, a luta de classes que ninguém é capaz de definir mas em que muitos gostam de acreditar – um bocadinho assim como a Graça de Deus – arreganha os dentes. Já tínhamos passado por isso e eu julgava que o assunto estivesse arrumado. Nem pouco mais ou menos.

 

Os muito ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Muita gente na finança – banqueiros e para-banqueiros, grandes, médios e pequenos – tomou o freio nos dentes desde que a União Soviética colapsou e deixou de ter medo fosse do que fosse. Sem perceber que o fim do comunismo não fora a irradicação de uma doença mas sim o fracasso de um remédio – nunca é demais repeti-lo – abandonou o cuidado dos outros. Mas enquanto os Estados Unidos, arrancando com um programa de estímulo, saíram da crise que lá começara em 2008, a Europa, com a grilheta da austeridade a arrastar-lhe os pés, abeira-se da deflação. Irlanda, Grécia e Portugal devem mais do que deviam quando os programas de ajuda começaram - e nunca poderão pagar. Uma falsa convicção germânica de virtude obnubila responsáveis políticos e fá-los insistir no mau caminho.

 

Quando a economia, em vez de crescer, mirra, e os filhos vivem pior do que viveram os pais, os europeus, desabituados há muito tempo de tais desconfortos, tornam-se agressivos. Xenofobia pavoneia-se em França, na Alemanha, na Grã-Bretanha; protecionismo empobrece as nações. Quando não haja estrangeiros nem infiéis para bode expiatório avança a “luta de classes” - exemplo da tentação universal de fazer passar inveja por virtude - com tradição em Portugal, primeiro às escondidas da PIDE, depois posta ao léu pela Revolução dos Cravos. Esquecida a seguir – e lembrada agora.

 

A menos que os políticos entendam, percam medo da Alemanha, esqueçam austeridade e se metam a ajudar a economia com bom senso e coragem precisos, o que espera a Europa é - com vénia a Mestre António Garcia - uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz.

 

Boas Festas, mesmo assim.

 

link do postPor VF, às 11:42  comentar

10.12.14

 

 

kohl.jpg

Helmut Kohl

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

E se o povo ordena mal?

 

 

Na Baviera a CSU, irmã da CDU do resto da Alemanha, causou sensação há dias. Estudo apresentado à direcção do partido propunha que imigrantes fossem obrigados a falar alemão – mesmo em casa, quando estivessem só entre si. Até alguns bávaros ficaram perplexos e no resto do país houve indignação — salvo em partidos, pré-partidos, associações, confrarias de uma extrema-direita nacionalista e xenófoba, que pululam de há uns anos a esta parte, mais no que dantes fora a Alemanha Oriental. (“O patriotismo é o amor dos seus; o nacionalismo é o ódio aos outros” escreveu luminosamente Romain Gary).

 

A Baviera é próspera e tem outras boas coisas – automóveis BMW; braços abertos no acolhimento a Ingmar Bergman que lá pôs em cena teatro e ópera sete anos, expatriado até o fisco sueco lhe pedir desculpa por o ter feito escandalosamente prender sem razão – mas a aliança da sua direita com o resto da direita alemã nem sempre é fácil. Uma vez, num almoço de fim de Wehrkunde em Munique, ouvi Helmut Kohl, ainda Chanceler, somando aos convivas da sua mesa os anos que levava de vida política, enumerar a certa altura: “sete anos com Franz-Joseph Strauss como Vice-Chanceler — contam por catorze”.

 

Depois de algumas décadas a seguir à guerra (de 39-45) sem vestígios disso, o populismo começa a morder a Alemanha, agora reunida, não ainda com o sangue na guelra que mostra em França, na Hungria ou no norte de Itália, mas Berlim tem responsabilidade especial e se o borbulhar fascizante continuar talvez Angela Merkel dê uma guinada ao leme do seu (nosso) barco. Levando a sua chefia sem distracções causadas por “essa coisa da visão”, como diria o pai Bush, munida de antenas que captam ondas emitidas pelo povo e imune a sobressaltos que traíssem pulsões ou sentimento, deu nos últimos anos duas grandes guinadas, uma disparatada mas demagogicamente fácil, outra sábia mas politicamente complicada. A disparatada foi aproveitar desastre nuclear no Japão para decretar, à beira de eleições, o fim da energia nuclear na Alemanha. A sábia – e corajosa – foi opor-se ao gangsterismo aventureiro de Putin, que em má hora cometera o erro de lhe mentir, contra a opinião maioritária da sua gente, propensa a achar que o lugar dela é entre o Ocidente e a Rússia, e de industriais famintos de “business as usual”. A sua firmeza, desta vez, deu coluna vertebral à Europa no confronto com Moscovo.

 

Se populismo xenófobo continuar a grassar na Alemanha — e se Angela Merkel perceber que o marasmo económico o anima — talvez a Chanceler dê mais uma guinada. Resolva espaldar o Banco Central Europeu na sua missão de subir a inflação até quase 2%, permitindo-lhe comprar dívida pública, apesar dos tratados — outra vez contra os instintos do povo.

 

Se assim for, diz-me entendido nestas matérias, poder-se-á sair da crise com União e países viáveis. Se assim não for, depois de ter falhado a mal em 1918 e em 1945, a Alemanha agora terá conseguido dar cabo da Europa a bem.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 10:22  comentar

22.10.14

 

Economist Merkel.jpg

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Deutschland über alles?

 

 

As duas grandes guerras da primeira metade do século XX foram manifestações trágicas da impossibilidade de fazer conviver Alemanha unida e forte com as outras grandes potências do Velho Mundo. A chamada construção europeia começada com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço — destinada a impedir que Alemanha e França se fossem armando uma contra a outra — a seguir à rendição incondicional de Berlim em 1945 foi congeminada por democratas franceses e antinazis alemães (mormente Robert Schuman e Jean Monnet, do lado de cá do Reno, e Konrad Adenauer, do lado de lá) longe das disposições draconianas da paz de Versailles de 1919 que haviam ajudado Hitler a subir ao poder. Durante meio século fez caminho seguro e chegámos à União Europeia.

 

Na Europa Ocidental, o progresso parecia imparável. As circunstâncias eram propícias. Medo salutar de Estaline provocara a invenção das Comunidades Europeias e da OTAN e, depois dele morto, a União Soviética continuara a meter respeito; os Estados Unidos garantiam guarda-chuva nuclear e, primus inter pares na Aliança Atlântica, desimaginavam os aliados das suas brigas históricas. A Alemanha, primeiro de rastos e ocupada militarmente e a seguir dividida (De Gaulle dizia gostar tanto dela que preferia que houvesse duas) não tinha poder político mesmo depois da República Federal — folgada por limitação de despesas militares e por perdão de dívidas de guerra — ter construído grande poder económico (o milagre alemão).

 

A reunificação conseguida por Kohl com licença de Gorbachev, apadrinhamento de Bush e susto de Mitterrand e Thatcher, mudou as coisas. Tornou a haver poder político alemão. Pela primeira vez, famosamente no fim de 1991 durante a crise jugoslava, impondo reconhecimento prematuro da independência da Croácia aos seus onze parceiros da CEE. E desde então, sem tréguas, até ao beco onde a zona euro está metida. A crise começada em 2008, exacerbada em 2010 pela constatação do estado calamitoso das finanças gregas, acordou veia moralista implacável em Berlim. Desde os anos 20 do século XX, para os alemães, a inflação é pecado mortal. Para os franceses, uma pitada dela é o sal da economia. Como a Alemanha é mais forte — apesar de infraestruturas em péssimo estado, burocracia paralisante e defesa pelas ruas da amargura — tem vindo a impor austeridade aos seus parceiros do sul, empobrecendo toda a zona euro e empurrando-nos para a deflação. Se Merkel for iluminada pela visão de Bismark, de Kohl ou de Schmidt dará guinada para o crescimento. Se não for, pela terceira vez em 100 anos a Alemanha, mesmo em paz, terá sido incapaz de dar bom viver aos vizinhos.

 

NB – Amiga cujo saber prezo acha que o mal é outro. As nações são ovos cozidos e com ovos cozidos não se fazem omeletes (De Gaulle dixit). Fazem-se bons pratos; muitos se cozinharam desde 1957. Mas o euro, tal como concebido e imposto, foi conto do vigário que lesou muita gente e espevitou forças centrífugas na União. Quiçá.

 

 

 

link do postPor VF, às 07:28  comentar

15.10.14

 

 

M. de V. p&b.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Quislings?

 

 

Em 1640, Miguel de Vasconcellos, valido da Duquesa de Mântua, regente do Reino, morreu atirado de uma janela. Em 1945, Philippe Pétain, herói da guerra de catorze, viu a sua pena de morte comutada por De Gaulle e veio a finar-se em prisão perpétua (todos os anos Mitterand, já no Eliseu, mandava pôr um ramo de flores na sua campa no dia do armistício de 1918). Também em 1945, Vidkun Quisling — que, ao governar a sua Noruega natal por conta do ocupante nazi, deu nome genérico a esses traidores ambíguos — foi fuzilado numa prisão de Oslo. Guerras de independência desapareceram da Europa de hoje. Agora, fronteiras e soberanias esfumam-se e o domínio de Berlim sobre as decisões fiscais de outras capitais, impondo políticas de austeridade que estão a estalar pelas costuras e quase a matar o cavalo do inglês, é tão grande que amigo sábio chama à zona euro Alemanha Magna. Até quando?

 

Há dias Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, rapaz quase sempre pimpão demais para meu gosto, acertou em cheio no alvo. Acossado, como outros governantes do sul, por visão teutónica paranoide que faz da inflação pecado mortal — disposta a correr o risco, presumivelmente virtuoso, de deflação — disse: “Prefiro uma França com 4% de défice a uma França com Marine Le Pen presidente.” A questão é essa e é isso que a Alemanha parece incapaz de perceber. Convicta da bondade dos seus valores; de que, no seu seio, nazismo, fascismo, nacionalismo agressivo não brotarão de novo e incapaz de perceber outros povos, insiste em considerar diferenças entre o norte e o sul como combate entre o bem e o mal que será ganho quando nós, meridionais, reconhecermos o nosso erro. Entretanto a deflação está à porta, a crise morde a própria Alemanha e, com coro que vai da Casa Branca ao FMI e ao Papa a pedir estímulos à economia e não só prestações para o tonel das Danaides de dívidas impagáveis talvez Merkel e Schäuble se desimaginem da cruzada moralizante antes que esta arruíne de vez a Europa.

 

Não foram eles que desregularam demais o sistema financeiro nem foram eles que fizeram do euro nossa moeda sem o cuidado devido. A culpa da crise foi doutros — mas é culpa deles que o remédio escolhido agrave a doença em vez de a curar. Será que, por fim, se juntarão a Mario Draghi do Banco Central Europeu, dispostos a “fazer o que for preciso” para salvar o euro (e os europeus)? Provavelmente tarde e a más horas.

 

E por agora? Os Quislings de hoje? Os que seguem regras ditadas por Berlim via Bruxelas porque senão não há agiota que empreste dinheiro em conta aos países que governam? Poder-se-iam inspirar em Mitterand que começou por servir Vichy, quando sentiu no ar um perfume de vitória aliada se mudou para a resistência e acabou por chegar à Presidência da quinta República, onde ficou catorze anos? Duvido. A História não se repete. Não há génios políticos tortos em todas as gerações nem, quando a austeridade acabar, os povos irão pedir as cabeças dos capatazes de Berlim.

 

link do postPor VF, às 09:33  comentar

24.9.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Nous avons tous des trous dans les chaussettes”

 

 

Assim me surpreendeu o médico das pernas quando eu lhe disse que, no osteopata, antes de o vir ver a ele, reparara no buraco da peúga. Lembrei-me do historiador A. J. P. Taylor para quem a convicção amarga da decadência da civilização vinha do facto de, dantes, os professores de história terem pessoal doméstico e agora serem eles a lavar a sua roupa. O agora dele era há 50 anos em Oxford; receios de decadência da civilização ainda não atingiam Portugal onde os professores universitários tinham criadas de servir e o resto vinha à proporção: na minha mocidade conheci camponês analfabeto e canalizador semiletrado inteligentíssimos bem como catedrático de filosofia burro como uma porta. No agora de hoje, Portugal está muito mais perto da Europa do que estava nessa altura. “Que ele seja médico não me espanta; o que me espanta é que tenha aprendido a ler”, sentença cruel que ouvi ao nosso médico de família (cujos atestados, a partir de 1947, começavam: ‘Francisco Pulido Valente, professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa compelido à reforma por motivos políticos’) punha o dedo na ferida: em Portugal licenciava-se quem tivesse família com dinheiro para lhe pagar os estudos, mesmo que levasse 20 anos neles. Era a vida, diria o Engenheiro Guterres.

 

Hoje, a decadência da civilização toca todos os europeus, os do Norte, protestantes e mais ricos; os do Sul, católicos romanos ou ortodoxos e menos ricos, mordendo até a economia alemã. A Alemanha manda. Antes da reunificação, a inflação já era, para Bona, pecado mortal mas quem mandava era a França, onde uma pitada de inflação fora sempre o sal da economia. Desde 2008 Sarkozy e Hollande foram incapazes de lembrar convincentemente a Merkel que, a seguir à guerra de 39/45, a Alemanha só fora aceite à mesa das nações decentes por a França lhe ter estendido a mão. Com a economia estagnada sob a batuta austera de Berlim, vendo mirrar o seu quinhão do comércio mundial, quase desarmada num mundo cada vez mais agressivo e desordeiro, uma vasta classe média europeia, ensanduichada entre tantos desempregados que o welfare state se torna insustentável e 1% de ricos-ricos a quem cabe percentagem escandalosa da riqueza total, passou a ver o túnel ao fundo da luz: pela primeira vez desde que alguém se lembre os filhos irão ser mais pobres do que os pais. E — a acreditar no médico das pernas que viu mais pés sem sapatos do que a leitora ou do que eu — toda a gente tem buracos nas peúgas. Pequenezes de fim de civilização.

 

Escócia

   

Sensatez e tolerância na Escócia (e no Reino Unido) merecem celebração. Como merece o discurso de 13 minutos de Gordon Brown que, entre políticos que falam como quem venda apólices de seguro, elevou o debate a tom Shakespeareano. Por fim, a Rainha, constitucionalmente calada, tem, pela mãe, 50% de sangue escocês, pelo pai 50% de sangue alemão e, quer por um quer por outro, 0% de sangue inglês. Magia da realeza. 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 07:57  comentar

10.9.14

 

 

 

© Thomas Peter/Reuters

 

 

 

 

 

 

Mau jeito e má-fé

 

 

Há pouco mais de vinte anos, quando a Federação Jugoslava de que o Marechal Tito, durante a Guerra Fria, forjara reputação de farol de liberdade numa Europa Oriental talhada e adubada por Estaline (embora, quanto a virtude, a Jugoslávia fosse assim como pequena que trabalhasse num bordel, saísse, abrisse casa por conta própria e chamasse ao novo estabelecimento colégio de freiras) começara a desmoronar-se e rebentaram guerras locais, uma entre sérvios e croatas, a chamada comunidade internacional agitou-se, um entusiasta declarou que chegara “a Hora da Europa”, entrou-se na contradança de cessar-fogos e uma missão de monitores europeus fazia relatórios diários. Fixei o começo de um: “Cease fire holding despite major violations”.

 

Em 1992, os monitores europeus não eram os únicos interessados em que as pazes fossem feitas. A Alemanha pró-croata e a França pró-sérvia, encastradas na construção europeia — se não fosse esta, disse Mitterand, alemães e franceses ter-se-iam pegado outra vez — moderaram instintos e tradições. Os ingleses ficaram quase de fora; os americanos começaram por apoiar Belgrado porque não queriam dar mau exemplo à União Soviética; quando esta colapsou desinteressaram-se e depois, como é seu costume, inventaram mais um caso de bem contra o mal (o bem eram os muçulmanos bósnios e o mal, os sérvios).Todas as potências, até os russos de Gorbatchev e de Ieltsin, queriam a paz na região. Guerra só queriam mesmo sérvios e croatas — e eram poucos para arreliarem o mundo.

 

Matavam-se uns aos outros com afã, mas pararam quando os mandaram parar. Disputaram-se nas Kraínas, com a mesma etimologia de Ucrânia: terra de fronteira. As histórias são parecidas: na Ucrânia como nos Balcãs, durante a II Guerra Mundial, comunistas e nazis locais pintaram a manta, deixando nas memórias um duro génio de vinganças. Agora, separada da Mãe Rússia pela primeira vez desde que S. Vladimiro baptizou os russos em Kiev, a Ucrânia divide-se entre um Leste pró-moscovita e um Oeste pró-ocidental, o primeiro ainda mais longe de um estado de direito do que o segundo. O país é vasto mas, se os grandes deste mundo quisessem, a sarrafusca acabava e arranjos de paz seriam negociados. Um dos grandes, porém, quer que a sarrafusca continue.

 

É a Rússia de Putin, vingador de humilhações imaginadas que não quer paz na Ucrânia se não for ele a mandar. A tomada descarada da Crimeia (crime nos nossos dias mas bagatela comparada com tantos feitos militares passados) e mentiras igualmente descaradas do Kremlin, guindaram-no aos olhos dos seus à galeria dos grandes estadistas russos. Para nossa segurança futura é preciso travá-lo.

 

Pregar-lhe moral é igual ao litro. Meter-lhe medo sem ameaça de uso da força, tem feito pouca mossa. Mas é por aí, Alemanha à frente, que teremos de ir, apertando sanções até obtermos o efeito pretendido. E se, afinal de contas, tiver de haver mesmo guerra, preparados para a ganharmos. Somos homens ou somos rapazes?

 

 

 

link do postPor VF, às 10:26  comentar

25.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um murro na mesa das voltas da História

 

 

Amigo meu (e dele) disse-me há dias que José Manuel Barroso deveria ter dado um murro na mesa para impedir o descalabro causado pelas políticas europeias de austeridade. A imagem é tentadora para quem ache, como nós, que Barroso vale muito mais do que poderá às vezes ter parecido ao longo da crise — e que o ramalhete de medidas que dá pelo nome de austeridade, em vez de tirar a Europa do buraco onde o carro-adiante -dos- bois dos apóstolos da moeda única a metera, a afundou ainda mais. (Só evangelistas de Goldman Sachs e nem todos — Mario Draghi, por exemplo, escapou ao sortilégio — acham que tudo vai pelo melhor, pelo melhor dos caminhos possíveis).

 

Infelizmente, se num momento de insensatez Barroso tivesse dado tal murro na mesa, além de provavelmente ter partido o punho não haveria mudado de um grau o rumo decidido pelos governos nacionais que são os patrões da União Europeia. A austeridade, nos termos em que foi concebida e aplicada a seguir à descoberta do estado calamitoso das contas gregas, correspondeu à vontade da Alemanha (que entrançou defesa dos seus próprios bancos com pregação de cruzada calvinista) e nenhum outro estado da União se lhe opôs. (A maioria dos governos era de centro-direita mas havia-os também de centro-esquerda). O que Barroso fez, com determinação e eficácia, foi pôr os meios e poderes de que a Comissão dispõe a trabalharem para ajuda dos países da eurozona que tinham de se entender sobre medidas comuns necessárias à salvação do euro e à  imunização deste a crises futuras semelhantes. Sem descurar o mercado interno, de todos. Não houve um dia de folga, um segundo de distracção e os resultados estão à vista.

 

Em tudo há modas; de vez em quando visionários encalham na realidade e a moda muda. Há três anos, quando se descobriu que havia erros fatais no estudo (de dois professores de Harvard) que inspirara os aiatolas da austeridade, o edifício estremeceu e já teria caído sem a teimosia prepotente da Alemanha. Barroso lembrou então que há limites políticos e sociais ao que teóricos advoguem e que sem solidariedade não haveria União Europeia; Berlim agastou-se (vários eurocratas também). Mas o pêndulo começara a ir em sentido inverso e assim continuará por algum tempo. Traduzido para inglês, o economista francês Thomas Piketty, focando a atenção na desigualdade, está a ser ouvido em lugares inesperados. Um condottiere chamado Matteo Renzi começa a meter respeito à Alemanha. O Papa jesuíta virou franciscano. A Europa está a mudar.

 

Mas quem sabe o futuro? Escrevo a uma légua da planura de Waterloo onde, fez na quarta-feira passada 199 anos, um projecto de união europeia capotou, desterrando o tenente corso que se guindara a Imperador para o exílio de Santa Helena. O lugar está sempre cheio de peregrinos, desde generais russos a freiras sicilianas. Tabuletas de restaurantes, inscrições em monumentos, sinais de estrada prestam homenagem a Napoleão Bonaparte.   

 

   

 

Imagem aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 08:10  comentar

18.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem rei nem roque

 

 

Senhor antigo, dos verões de Sintra, indignava-se com a maneira como nos vestiam: “Filho meu, aos quinze anos, calça comprida, chapéu e gravata!”

 

Lembrei-me dele por causa da sucessão do meu amigo Zé Manel na Comissão de Bruxelas. Como está hoje quase esquecido, a União Europeia foi inventada para acabar de vez com guerras entre alemães e franceses que fizeram milhões de mortos. Tarefa difícil porque a guerra está-nos na massa do sangue (21 anos depois do “Nunca Mais!” jurado a seguir à Primeira Guerra Mundial, começou entusiasticamente a Segunda) mas facilitada em 1945 por duas razões. A Alemanha, rendida sem condições e dividida, deixaria por muitos anos de poder apoquentar fosse quem fosse. E terror salutar de Estaline fazia europeus ocidentais entenderem-se como nunca se tinham entendido antes (nem depois: se não houvesse União Europeia não a teríamos inventado agora). Plano Marshall e guarda-sol nuclear ajudavam a firmar a construção; Washington nessa altura sabia o que queria.

 

De caminho, criou-se o Parlamento Europeu que, desde 1979, passou a ser eleito por sufrágio universal. O que se passou a seguir não tem pés nem cabeça. Como, de 5 em 5 anos, a percentagem de votantes nele ia descendo sempre, os governos nacionais — eleitos, esses sim, com participações significativas de votantes — outorgavam-lhe cada vez mais poderes, na esperança de ganharem eleitores. Mas 9 eleições em 45 anos só os foram perdendo. E, por fim, o paradoxo deu nó-cego. O Parlamento — de calça comprida, chapéu e gravata como os crescidos — alegando, de má-fé, mais legitimidade democrática do que os governos, arroga-se o direito de designar o novo presidente da Comissão. Muitos governos, desta vez cheios de bom senso, não irão nisso. O ambiente é de cortar à faca. A decisão final será de Ângela Merkel (as coisas são o que são: o domínio da Europa que Berlim não ganhou em 11 anos de duas guerras mundiais conquistou-o desde a reunificação em 15 anos de paz). Se ela pender para os governos o Parlamento chumbará o candidato e abrirá crise constitucional que durará muito tempo. Se pender para o Parlamento não haverá crise constitucional mas o crédito das instituições europeias nos mundos dos negócios e da política levará rombo irreparável (sem falar da provável saída do Reino Unido, privando-nos da sua sensatez e deixando-nos à mercê de rigidezes alemãs e fantasias francesas).

 

Briga de comadres num canto do mundo apostado em perder o poder que ainda tenha? Talvez. Mas tudo seria menos grave se os Estados Unidos continuassem convencidos de que a sua hegemonia era boa, não só para americanos e seus amigos mas também para o mundo em geral. Duas presidências catastróficas seguidas talvez levem os yankees a recolherem a penates — embora separações assim sejam como divórcios quando há filhos pequenos. Certas obrigações perduram, diz-me amiga perspicaz que a vida moderna doutorou em fraldas antes de doutorar em filosofia. Deus a ouça.

 

 

 

   

  

link do postPor VF, às 09:52  comentar

11.6.14

 

 

Yalta, 1945

A Crimeia era a sala de visitas do Kremlin

 

 

 

 

 

 

Olivença sur mer?

 

 

Pedro Monjardino (pai do João e do Carlos) era homem sábio que usava regras simples para primeira abordagem de problemas complicados. Por exemplo, quando no hospital, no consultório, na clínica, alguém espavorido o avisava “Ai Senhor Doutor vem aí um maluco!”, Pedro que era alto e forte, pegava numa cadeira, levantava-a no braço direito e esperava. Das vezes que tal aconteceu, o tresloucado acalmou e deixou-se levar a bem.

 

O Ocidente – a que os alemães ainda pertencem – embora mais lento e menos decidido do que o meu chorado Pedro, conseguiu fazer o homem do Kremlin vislumbrar a bordoada que levaria se não ganhasse juízo. De há semanas para cá Putin começou a emendar a mão; as relações entre Kiev e Moscovo irão melhorar — Países Bálticos e Moldova darão suspiros de alívio — porque entendimento entre os dois é inevitável (e benéfico quer para eles, quer para nós). Mas levará o seu tempo porque ambos vêm de muito longe. Ministro ucraniano explicou-me um dia: “Na universidade estudávamos materialismo dialéctico, marxismo-leninismo, planificação económica, história dos regimes comunistas, Marx, Engels, Lenine, em suma, sabíamos tudo sobre como transformar um regime capitalista num regime comunista. Mas não sabíamos nada sobre o contrário”.

 

Não se irá, porém, a caminho de paz perpétua de Kant enquanto durar a ocupação da Crimeia pela Rússia. Nem é sarilho fácil de resolver. Por um lado, com desplante pré-moderno, a Rússia quebrou compromissos internacionais solenes que tinha assumido quando da independência da Ucrânia após o colapso da União Soviética e a comunidade internacional não pode senão condená-la. Foi golpe dado à legalidade nas relações entre estados que se procura promover desde a fundação das Nações Unidas — com ânimo novo depois do colapso da União Soviética — para bem de toda a gente e de todos os países. Por outro lado, a vasta maioria dos habitantes da Crimeia (salvo cerca de 10%, tátaros que Estaline perseguiu, deportou e entretanto voltaram) sente-se russa. A Crimeia faz parte do imaginário da Mãe Rússia. Não lhes passará pela cabeça voltar à Ucrânia.

 

A Crimeia não fora conquistada pela Ucrânia, fora-lhe oferecida pela Rússia em 1954 e houve casos no mundo mais ou menos comparáveis, como Macau. Quando Robin Cook disse a Madeleine Allbright que os advogados dele pensavam que o bombardeamento da Sérvia em 1999 era ilegal ela respondeu-lhe que arranjasse outros advogados. Assim, na Crimeia, se Putin indemnizasse pelos estragos e não se tornasse a portar mal (dois grandes ses), dever-se-ia encontrar saída airosa para a crise: talvez outro Krutschef ucraniano pudesse oferecer agora a Crimeia à Rússia, recebendo parte da sua riqueza energética em contrapartida. Talvez advogados pudessem negociar arranjo viável que salvasse faces e enchesse bolsos.

 

A Crimeia é grande e rica demais para ficar num limbo, espécie de Olivença à beira do Mar Negro, de que Moscovo e Kiev pudessem fingir que se esqueciam.

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 06:40  comentar

4.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

E agora, José?

 

 

Verso de Carlos Drummond de Andrade, que às vezes me vem à cabeça depois de chatices. Desta vez, das eleições europeias. Conhecido meu de Oxford receia que historiadores futuros lhes chamem o toque de alvorada que não acordou a Europa (“wake up call” poder-se-ia traduzir por “campainha de despertador” mas seria pouco solene e muito individualista). A avaliar por recriminações, hesitações e ausência de decisões dos chefes europeus reunidos em Bruxelas a 27 de Maio, dois dias depois da divulgação dos resultados, o receio do homem de Oxford é capaz de ser fundado.

 

Ou talvez não seja. Com história 30 vezes mais curta do que a da Santa Sé, o “processo europeu” começa a assemelhar-se-lhe na capacidade de resistir quer a golpes dados de fora — por exemplo, a agressividade russa na sua vizinhança próxima e no fornecimento de energia — quer a golpes dados de dentro — por exemplo, ‘não’ em referendos na Holanda e na França em 2005; instauração precipitada da moeda única e, a partir de 2010, uso moralista e contraproducente de austeridade para acudir ao estrago daí resultante. Palpita-me que a minoria eurofóbica agora instalada em Estrasburgo, com brigas internas e propostas de medidas nocivas para os países, não será, por definição, cavalo de Troia, e dará mais incómodo do que prejuízo.

 

Mas exame de consciência ou autocrítica ou catarse de quem dirige a Europa política (28 governações de potências pequenas e médias, três das quais infelizmente convencidas de que ainda são grandes, mais a intendência semi-politizada de Bruxelas) é urgente. Desde que o colapso da União Soviética lhes tirou dos ossos o medo de Deus e, do mesmo passo, a Alemanha geopolítica ressuscitou, reunificada, têm dado muito má conta do recado. O voto populista de Maio, à direita e à esquerda, meteu-lhes um susto mas — tal como, na primavera de 1914, os governantes das grandes potências europeias julgavam que, saídos em paz de várias crises graves na última década, dessa vez também não haveria de ser nada — arriscam-se a não fazer o preciso, já e bem.

 

Nós, os da União, somos 7% da população mundial e criamos 25% da riqueza. Mercado de 500 milhões de habitantes, com comércio externo florescente, ditamos também ao resto do mundo as regras de concorrência. E procuramos fortalecer-nos mais ainda, metendo economia digital e energia no mercado interno. O futuro deveria ser nosso.

 

Mas o gigante económico é anão político, cheio de desentendimentos, sem uma voz única para o exterior. Quanto a defesa, se fossemos atacados e ninguém nos acudisse ou nos rendíamos logo ou nos matavam todos num Credo.

 

Não apareceu ainda quem desse o tom certo. Merkel é sinónimo de austeridade. Cameron quer tanto agradar aos seus que não se dá ao respeito. Hollande, nem os seus o querem. Renzi? E, antes de escolherem o novo feitor, deveriam explicar o que cada um de nós perderia sem o poder económico da União e o que ganharia se visionários da Europa ideal metessem a viola no saco.

 

 

link do postPor VF, às 10:06  comentar

21.5.14

 

 

 

Anúncio do cognac feito pela família de Jean Monnet, inventor da Europa moderna

 

 

 

 

 

Votos, omeletes e ovos cozidos

 

 

De Gaulle menosprezava a construção europeia: as nações eram ovos cozidos e com ovos cozidos não se faziam omeletes.

 

Salvador da França juntamente com os comunistas contra o governo de Vichy, tratando depois da vitória a Alemanha de Bona com magnanimidade (gostava tanto da Alemanha que dizia preferir que houvesse duas), deixou o poder sobre quezílias da paz em 1946, atravessou o deserto em Colombey-les-Deux-Églises de onde o foram buscar em 1958 para presidir à República e salvar segunda vez a Pátria. Em 1969 voltou para Colombey e, morrendo a fazer uma paciência de cartas em 1970, foi poupado à reunificação alemã.

 

Quando Mitterand, inquilino do Eliseu da altura, se deu conta do risco desta já não havia nada a fazer – no Kremlin, Gorbachev fora persuadido por um Kohl determinado como Bismark e pródigo como o Emir do Qatar; de Washington, Bush pai forçara a mão a Londres e Paris. Chirac, sucessor de Mitterand, percebera que tinha acabado a papa doce e começara tentativas de reintegração da França na estrutura militar da OTAN que Sarkozy finalizaria enquanto, colando-se a Angela Merkel, fingia que ainda mandava na Europa. François Hollande tentou entrada de leão mas terá saída de sendeiro.

 

A União que vai a votos esta semana para o Parlamento Europeu não é a do tratado de Maastricht. Não por termos passado de 12 a 28 países mas por duas outras razões. A União Soviética colapsou e acabou o medo dela que unia o Ocidente (Putin é incómodo mas não mete medo comparável porque, por um lado, não prega ideologia subversiva e, por outro, conta com quinta coluna de industriais alemães, banqueiros ingleses e vendedores de armamento franceses ao pé dos quais os partidos comunistas mais estalinistas do Ocidente durante a Guerra Fria eram brincadeiras de criança). E à nossa Alemanha Ocidental com a capital em Bona, discreta para se fazer perdoar pelo Holocausto e mais crimes, sucedeu país da Europa Central com capital em Berlim que retomou alento, herdou tiques geoestratégicos (do reconhecimento da Croácia em 1992 até ao moralismo luterano/calvinista com que sufocou os países do Sul 20 anos depois), manda mais na União do que qualquer outro mas continua uma democracia exemplar.

 

Hoje, em autocarros de Bruxelas, anúncios exortam-nos a votar para escolher “o governo da Europa”. É propaganda mentirosa (o governo da Europa está nas capitais dos países e não nas instituições de Bruxelas) mas não é só propaganda. Na selva da globalização nós, os europeus, só nos safaremos unidos. E contra nacionalismos populistas a União só terá força se os povos sentirem que precisam dela. O caminho passa também pelo Parlamento Europeu por pouco votado, frívolo, irresponsável e distante que nos pareça hoje.

 

Perante concorrência desenfreada e impiedosa do resto do Mundo está-se a descobrir que os ovos afinal talvez não estivessem tão cozidos como isso tudo. A omelete não será baveuse mas, se não a quisermos comer, morreremos de fome.

 

 

 

 



pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
contador sapo