20.8.17

 

Disponível para consulta no  Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

 

 Daniel Rocha

 

Hoje, como no início da carreira de Futscher Pereira, os telegramas rosa são os recebidos e os telegramas verdes são os expedidos. O espólio ocupa 14 prateleiras do Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Foto Daniel Rocha

 

  

Estudar este espólio, disse o ministro [dos Negócios Estrangeiros] que é ele próprio um académico, vai permitir ver “como se exerce a profissão de diplomata, como se cresce e se amadurece passando pelos postos C., e como se faz política externa em Portugal — que tem sido sempre um pouco singular”. Foi justamente isso que a filha Vera mais gostou de descobrir ao mergulhar no universo profissional do pai: “Ver o que realmente faz um diplomata. Tem-se aquela ideia do croquete. Como a história da menina a quem perguntam: ‘O que faz o teu pai?’ e ela responde: ‘É diplomata e faz discursos em francês.’ Aqui percebe-se que ser diplomata é sobretudo a descrição e a análise do que se está a passar nos países. Foi ver os bastidores de uma profissão que é tão secreta.”

 

Em momentos separados e a milhares de quilómetros de distância, ela em Lisboa, ele em Dublin, os dois irmãos usam exactamente a mesma expressão. “Estava sentado em cima dos papéis quando já há historiadores interessados em ver”, conta Bernardo. “Até que percebemos que estávamos aqui sentados em cima dos papéis e que assim os papéis morrem”, diz Vera. O filho-embaixador tem uma razão extra: “Sendo eu próprio investigador nas horas vagas [é autor de A Diplomacia de Salazar (1932-1949), de 2012, e Crepúsculo do Colonialismo – A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961), que acaba de ser lançado], não me sentiria bem perante os meus colegas académicos dispondo daquele espólio e não o pondo à disposição deles também. Se o meu pai guardou isto tudo, é porque achava que os documentos tinham valor histórico. Não era apenas para nós podermos saber o que ele tinha feito como diplomata.”

 

Leia na íntegra o artigo de Bárbara Reis no jornal Público 

 

 

 

 

 

Vasco e Malu com Nancy e Ronald Reagan

Vasco e Malu Futscher Pereira com Nancy e Ronald Reagan em Washington

 

 

 

* * *

José de Freitas Ferraz* :

 

Ele, na realidade, foi o diplomata mais completo que eu conheci. Na medida em que era um homem extremamente inteligente e culto, tinha uma enorme capacidade de análise, escrevia muitíssimo bem, ainda hoje se quiserem podem ver, e para além disso era extremamente gregário, era extremamente afável, era extremamente simpático, ele tinha uma necessidade terrível de ter gente à volta e tinha também a seu favor o facto de, na realidade, a embaixada em Washington para ele ser o terceiro posto que ele fazia nos EUA. [...] O que aconteceu nesse período, nos períodos em que ele tinha estado nos outros postos ia coleccionando amigos e quando chegou a Washington já tinha uma rede importante e uma rede que desenvolveu.

 

Ele tinha uma, algo que eu aprendi na altura e os colegas também, que era : ele não tolerava "nós". Ele que era extremamente simpático e afável, não tolerava que num jantar oficial, numa recepção, nós, nos apanhasse a falar uns com os outros. Porque ele explicava que vocês estão aqui para trabalhar, portanto fazem o obséquio de falar com os convidados.

 

E ele, por seu lado, se eu estivesse numa ponta da sala, era um prazer ver o Vasco Futscher Pereira e a Malu a trabalhar, como os americanos diziam, “working the crowd”, praticamente cobrindo digamos 60 ou 100 convidados que eles lá tinham.

 

 

*

Bernardo Futscher Pereira:

 

Sempre guardou cuidadosamente e transportou consigo pelo mundo a sua correspondência com o ministério, as inúmeras cartas que trocou com colegas e amigos, os recortes de imprensa em que se apoiaram os seus relatórios. É todo este manancial de documentos, com a única exceção dos que são de natureza estritamente pessoal e familiar, que hoje simbolicamente entregamos à guarda do Arquivo Histórico-Diplomático.

 

E não haverá certamente melhor sitio para o depositar do que no Arquivo Histórico Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Faço-o com particular gosto por ser eu próprio um utilizador assíduo do arquivo e conhecer o seu valor ímpar para o estudo da história diplomática de Portugal – ou seja para a história de Portugal.

 

Sempre procurou transmitir a importância de fazer as coisas bem feitas. Punha um grande apuro em tudo o que fazia, e em particular naquilo que escrevia, num estilo que se esforçava para tornar límpido e elegante. Não era pessoa timorata, que se acanhasse perante os seus superiores ou que deixasse de exprimir, de forma delicada mas firme, os seus pontos de vista. Estava à vontade com toda a gente.

 

Teve uma vida muito atribulada, mas nunca se deixou abater pelas preocupações. Pelo contrário, procurou sempre gozá-la tanto quanto podia. Tinha tempo para tudo. Aliás, costumava dizer: “não ando com pressa na vida”. 

 

Discípulo de António Sérgio e Agostinho da Silva, creio que se via como um humanista. O amor pela cultura manifestava-se numa devoção pelos livros, não como objetos – não era bibliófilo nesse sentido embora adorasse todas as artes decorativas, incluindo a encadernação – mas como expressão do que de mais profundo e elevado a razão e a arte podem criar.

 

 

 

*

 

*Presidente do Instituto Diplomático

 

 

Agradecimentos: Margarida Lages, José de Freitas Ferraz, Bárbara Reis, jornal Público 

 

 

 

 

 

 

 

 

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15.3.09

 

 

 

 

 

Maria Violante Vieira

1.11.1915 -  27.1.1997

 

 

 

Tinha o dom de ouvir os outros, porque se interessava verdadeiramente por eles e porque raramente falava de si própria. Julgo que mantinha essa sua reserva, ou pudor, mesmo com os amigos mais íntimos. Era inteligente e generosa.

 

Para minha irmã Cristina, em particular, a sua presença reconfortante, num período particularmente difícil para a nossa família, tornou-a numa figura de referência. Data desses tempos, ou seja do princípio dos anos 60, esta fotografia tirada por Cristina, no Monte Estoril, ou talvez em Sesimbra, onde Maria Violante se refugiava por vezes no Hotel do Mar.

 

 

Tita - como os sobrinhos e nós lhe chamávamos - tinha uma vida de trabalho intensa. Geria com a irmã, Maria Antónia Vieira Gagean, as empresas que haviam herdado do pai, a Papelaria Progresso e a Papelaria da Moda, e o escritório Vialga, representante da  Parker em Portugal. Ali foram empregues os talentos de criadores tão diversos como o designer Manuel Rodrigues e o poeta Alexandre  O'Neill, que cunhou 'slogans' publicitários para a famosa marca de canetas, segundo acabo de descobrir na tocante biografia de Maria Antónia Oliveira (Publicações Dom Quixote 2007).

 

No início dos anos 70, Maria Violante estabeleceu um primeiro contacto com a UNICEF para trazer para Portugal os cartões de Natal desta agência mundial de ajuda às crianças mais desprotegidas. Na sequência desse contacto, fundou a associação “Amigos da Unicef". Em 10 de Abril de 1979 foi oficialmente criado o Comité Português para a Unicef, ao qual passou a dedicar-se inteiramente, desempenhando o cargo de Presidente até ao final da sua vida.

 

Foi em casa de Maria Violante, um pequeno apartamento com vista para o Tejo, próximo do Jardim do Príncipe Real, que Cristina e eu estivémos pela última vez com o Professor Agostinho da Silva, seu companheiro dos últimos anos. Pouco tempo depois, no dia de Natal de 1996, ou na véspera, não sei, fomos as duas vê-la ao hospital. Foi uma visita muito breve, o tempo de uma carícia e de uma troca de olhares de despedida.

 

 

Visite a Unicef Portugal aqui

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13.3.09

 

O Agostinho da Silva foi homem mais culto, mais lido, com uma sólida base de grego e latim, que da conversa fazia um permanente diálogo. O obscuro e o nebuloso – tão bem explicado pelos meus professores de liceu – encontrava nele um filtro de transparência, cuja contribuição para a clareza se tornava um verdadeiro dom, sobretudo num país de gente complicada. Ensinava-nos a não perder tempo, a completar iniciativas que se discutiam. Ouvia as nossas asneiras como quem lê o Discurso do Método em voz alta. Sentia o meio donde vínhamos, um meio onde todos estão contentíssimos com a sua ignorância, como tão bem dizia a Sophia, uma sociedade em que é preciso trabalhar pouco para ganhar dinheiro e se encontra uma falta de respeito pelo trabalho intelectual dos outros. (...) O Agostinho lia-me um diálogo de Platão como quem está ali em baixo, na taberna da esquina que dá para a Academia das Ciências, entra e ouve uma conversa. Lia, olhava para nós, e vendo que percebíamos continuava para a frente. Depois dialogava. Com o escopro e o martelo ia abrindo brechas na minha cabeça, modelando, não à sua maneira  – e esta a sua enorme mensagem – , mas sim ia abrindo lenhos cá por dentro, ranhuras que só os meus olhos pudessem ver (...) Trazia livros, não nos obrigava a comprar nada. A Filosofia, a História, a Literatura, a Arte tinham um denominador comum – o Homem. Era o exemplo como homem que ele queria apresentar quando nos vinha dar aulas.

 

 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura, Autobiografia II

Parceria A.M. Pereira, 1966

 

Leia outro excerto da mesma obra aqui

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11.3.09

 

 

 

 

 

 

 

 

Rio de Janeiro

Rua Farani 61 apt.514

 

4.2.62

 

Meu caro Futscher

 

Com diplomatas tudo pode acontecer, até que se lembrem dos Amigos; de qualquer modo os Amigos se lembram deles - até Pedro, que está no segundo ano de História, se lembra dos soldados que recebeu de presente. E os Amigos gostariam de saber dos diplomatas, como estão na carreira e se a Vida os tem tratado bem. Afinal, quando nos encontrámos foi para andarmos à volta do Cícero; hoje andamos os dois às voltas com política externa, coisa talvez ligeiramente mais interessante do que o Cícero; até o Cícero seria da mesma opinião se não fosse o vaidoso que era.

Aguardo uma linha sua, ouviu?

 

Afectuoso abraço

Agostinho

 

 

 

 

Vasco fez parte do grupo de jovens a quem, no princípio dos anos 40, Agostinho da Silva deu aulas particulares de latim, após ter sido afastado do ensino oficial.

Conheci bem o Professor Agostinho e esta carta fez-me recordar com nitidez a sua voz, e a sua personalidade afável e irreverente.

 

 

 

Agostinho da Silva

1906-1994

 

Excerto de uma biografia recente:

 

 

Regressa [de Paris] a Portugal em 1933, sendo colocado no Liceu de Aveiro como professor. Entusiasta, cria uma "caixa de apoio" aos estudantes mais pobres e promove outras acções incómodas para o Estado Novo. Ao fim de dois anos é exonerado, por se recusar a assinar a Lei Cabral: um documento que todos os funcionários públicos eram obrigados a subscrever, jurando não pertencerem a nenhuma sociedade secreta (leia-se: ao Partido Comunista ou à Maçonaria). Para além dele, só Fernando Pessoa e Norton de Matos ousariam contestar o diploma legal aprovado pela Assembleia Nacional.(...)

Desempregado, Agostinho começa a dar aulas no ensino privado e explicações particulares. Mestre Lagoa Henriques, Jorge de Melo, Manuel Vinhas e os irmãos Lima de Faria, serão alguns dos seus alunos. (...) Simultaneamente empenha-se em diversas actividades de produção e divulgação culturais: dá palestras públicas de Norte a Sul do país, cria o Núcleo Pedagógico Antero de Quental apostando em novos métodos pedagógicos (...), organiza exposições, escreve um sem número de biografias, colabora em jornais, organiza sessões culturais na rádio para  jovens e inicia a publicação dos famosos Cadernos de Informação Cultural sobre áreas tão diversas como religião ou arquitectura. Esses Cadernos - sobretudo dois deles, "O Cristianismo" e "Doutrina Cristã", (...) levam a que a sua biblioteca seja confiscada e inventariada pela PIDE e que conheça como destino a Prisão do Aljube. Ironicamente, a própria polícia política reconhece: "intransigente adversário do Estado Novo, com pronunciadas  tendências extremistas, embora tido como bom professor e honesto" (PIDE, folio 398, p.20)

Acusado de "comunista" por defender o regresso ao cristianismo primitivo e por se insurreccionar contra a deturpação que a Igreja fez dos ensinamentos de Cristo, simultaneamente desiludido com o governo do país e ansioso por liberdade, parte em 1944 para a América do Sul. Passa pelo Rio de Janeiro e São Paulo, instala-se no Uruguai, vive na Argentina, até regressar definitivamente ao Brasil onde permanecerá durante 22 anos, e onde ganhará fama pela sua personalidade e erudição.

 

Paulo Marques

in Agostinho da Silva, Servo dos Servos (1906-1994)

Cadernos Biográficos de Personalidades Portuguesas do Século XX

© Parceria A.M.Pereira e Público

 

mais sobre Agostinho da Silva aqui

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10.1.09

 

 

Vasco Luís e Gonçalo Luís c. 1941

 

O meu pai teria aqui uns dezoito ou dezanove anos. Gonçalo, seu primo-direito, era um pouco mais velho. Um como outro eram filhos únicos e cresceram quase como irmãos. Escolheram ambos a carreira diplomática mas não o mesmo curso. O meu pai estava matriculado em Coimbra, em histórico-filosóficas, mas julgo que só lá ia para os exames pois trabalhava em Lisboa. Deve ter sido por esta altura que leu La Chartreuse de Parme, Les Liasons Dangereuses e Dom Quixote de la Mancha. Foi uma época de grandes descobertas pela mão do professor Agostinho da Silva, entre outros mestres.

 

A fotografia, por não ser inédita, não fará parte de “Retrovisor, um Álbum de Família”. Foi publicada em 1984 no catálogo de uma exposição de pintura do meu pai. É da autoria de Francisco da Silva Fernandes, amigo de toda a vida dos meus pais e toda a vida fotógrafo amador apaixonado.

 

Se é a primeira vez que visita este blog, leia também aqui. 

 

 

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