27.9.15

 

 

 

 

Cristina-2002.jpg

 

 

 Cristina de Carvalho Futscher Pereira

17 de Abril 1948 - 27 de Setembro 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ramo de Oiro

 

 

 

Estando eu à minha porta

Com três horas de serão

Vi passar Nossa Senhora

Com um ramo de oiro na mão.

 

 

Eu pedi-lhe uma folhinha

Ela disse-me que não;

Pedi, tornei-lhe a pedir,

Ela deu-me o seu cordão,

 

 

Que me dava sete voltas

À roda do coração.

Sete voltas não são nada

Ó Virgem da Conceição

 

 

Prendei vós esta alma toda

Prendei-ma com vossa mão

Que a metade inda é do mundo

Metade, que a outra não.

 

 

 

Plantai-me esse ramo de oiro

No meio do coração

Ficarei no vosso altar

Como vaso de eleição.

 

 

 

 

Romance popular incluído nos manuscritos garrettianos descobertos pela Cristina em 2004. O poema foi lido no seu funeral e editado numa pagela oferecida aos amigos.

 

 

 

Veja também os posts:

 

 

Efeméride

 

 

LFCL (desde 1952)

 

 

Carta a Garrett

 

 

Fado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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20.8.14

 

 

 

 

Vasco Luís Futscher Pereira

3 de Fevereiro de 1922 — 20 de Agosto de 1984

 

 

 

Brasília, 10 de Agosto [1974]

 

Almoço com o Vasco Futscher no Clube Naval.

 

Rosto glabro e redondo e olhar de sapo por detrás duns óculos onde palpita viva e ágil a retina bombeada do míope. Grande falador de riso fácil e de uma extrema simpatia natural. Tudo lhe desperta curiosidade.

 

Ostenta um instintivo gosto pela vida alimentado, ao contrário de muitos, pela cultura e a inteligência. Uma ponta de obesidade confere-lhe uma certa inteireza física acentuando-lhe a espontânea jovialidade. Quando sorri, e sorri com frequência, as bochechas sobressaem à maneira dum boneco animado, arredondando-lhe a face e a expressão reboluda do olhar.

 

A primeira impressão é a de que não poderia ter havido melhor escolha. Calhado para o Brasil, como outros o são para a Finlândia ou a Indonésia. O Brasil, que não conhece, surge-lhe como uma experiência inteiramente nova que ainda o anima e seduz, pois é homem, se não me engano, de entusiasmos repentinos.

 

Diz-me, no entanto, ter ficado horrorizado com o que lhe contou o Castelinho1, com quem jantou há dias, acerca da intensidade e polivalência aqui da repressão política a cargo simultaneamente de diversos organismos, que agem por conta própria, cada um dis­pondo de sua gente e actuando por sua iniciativa.

 

[...]

 

Voltando ao Brasil, falei-lhe da relação essencialmente freudiana que ainda hoje liga - ou separa? - o Brasil e Portugal. Quem teimar em encarar este país com o olhar peregrino do portuga, e não perceber a ambiguidade de sentimentos que o brasileiro nutre para connosco, arrisca-se a cometer grossa asneira e a nada entender desta terra e desta gente.

 

Na verdade, nada mais ilusório do que partir do princípio de que a matriz lusíada, por si só, será suficiente para preservar os laços da tão apregoada comunidade luso-brasileira.

 

[...]

 

O embaixador limitou-se a ouvir-me e apenas citou, como prova do contrário, dois exemplos: o caso do Estado de São Pauloe a proliferação de clubes Eça de Queirós disseminados por todo o Brasil. «Veja só o imenso capital de simpatia que isso representa para connosco se o soubermos aproveitar com um mínimo de in­teligência.»

 

Levantou-se — já não sei que horas eram... e quantos cafés ha­víamos ingurgitado — e com um sorriso paternal, pousando-me a mão no ombro: «Deixe lá, homem, não se preocupe, não seja tão pessimista, ainda há por aí muito caturra que gosta de nós.»

 

 

Marcello Duarte Mathias

in Os Dias e Os Anos

© D. Quixote 2010

 

 

1.Carlos Castelo Branco, mais conhecido por Castelinho, ao tempo influente editorialista do Jornal do Brasil.

 

2. Nessa altura, o Estado de São Paulo um dos jornais mais prestigiados, inseria em substi­tuição das partes censuradas, consoante a maior ou menor extensão das mesmas, extrac­tos de Os Lusíadas, assinalando assim os cortes de que era objecto.

 

 

Foto: Francisco Silva Fernandes

 

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17.8.14

 

Duas fotografias do álbum do Brasil, de finais do século XIX. O álbum pertenceu a meu tio-avô António Guilherme de Barros Pereira de Carvalho (1893-1939) e chegou-me do Brasil setenta anos depois da sua morte pela mão generosa de Maria Amália Fragelli, que o conservou depois do desaparecimento da única descendente directa de António Guilherme, Stella Maria Pereira de Carvalho

 

           

 

 Brasil, finais do séc. XIX

 

 

 

 

Aninhas, finais do séc XIX

 

 

A menina encostada ao mastro pode ser Ana Maria Barros da Costa Morais, prima de António Guilherme e de Guilherme Júnior, meu avô materno, cujo retrato se encontra na página anterior do álbum e aqui.

 

 

 

 

 

 

Leia mais sobre O álbum do Brasil

 

 

 

Outras fotografias do álbum do Brasil nos posts

 

dispersed relatives

 

A Écloga e a Epopeia (2)

 

Criança (1896)

 

Casa da Mogada (2) 

 

Criança (c.1890)

 

 

 

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29.12.13

 

 

 

Lisboa, 1909

 

 

A propósito de post recente no blog Restos de Colecção sobre o Banco Burnay aqui, uma foto de Henry Burnay encontrada no espólio de Venâncio Augusto Deslandes, que vemos à direita, de chapéu alto. A fotografia data de 1909, ano da morte de ambos.

 

 

Mais sobre Henry Burnay em Associação dos Amigos da Torre do Tombo aqui

Mais sobre Venâncio Augusto Deslandes neste blog aqui e aqui

 

 

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23.12.13

 

 

Fatias de família (Alto Alentejo)

 

 

Pão                                 500 gramas

Açúcar                           500 gramas

Ovos                              4

Pau de canela              q.b.

Canela em pó              q.b.

Vinho                            1/2 decilitro

 

 

 

Corta-se o pão em fatias e aloura-se um pouco no forno. Dispõem-se numa travessa funda e regam-se com o vinho açucarado a ferver e temperado com o pau de canela.

 

Quando estiverem molezinhas retiram-se as fatias do molho e escorrem-se. Põe-se ao lume, numa caçarola, o resto do açúcar e um pouco de água até ganhar ponto. Depois vão-se mergulhando as fatias nos ovos batidos, uma a uma, e fritando na calda do açúcar. Estando todas cozinhadas, regam-se com o resto da calda e polvilham-se com canela.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português. Porto: Livr. Tavares Martins, 1962, p. 633

 

 

 

 

 

 

 

 

As 1001 receitas deste livro foram coligidas e experimentadas ao longo de muitos anos por Maria Adelina e Joaquim Monteiro Grillo — o poeta Tomaz Kim — e meus pais, Margarida e Vasco Futscher Pereira. A edição, em 1962, deveu-se a Maria Adelina — Nita Monteiro Grillo — cuja dedicação ao projecto o levou a bom porto.

 

 

É recordado como o melhor livro de Cozinha Portuguesa no blog Prosimetron aqui e aqui.

 

 

 

 

 

 

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9.12.13

 

 

Ultimamente tenho abrandado o ritmo de posts, às vezes por falta de tempo para dedicar ao blog e outras vezes por falta de material e de inspiração. Gostaria de ter chegado aos 500 nestes cinco anos mas o meu espólio familiar tem naturalmente limites e, de momento, não tenho novas colecções em mãos. As minhas leituras também se têm prestado menos, nos últimos tempos, à composição de vinhetas politico-literarias.

 

Serendipity:

 

Estava eu nesta dificuldade quando José Cutileiro me telefona a propor — muito cerimoniosamente, o que ainda me faz sorrir — alojar a sua crónica “Bloco-Notas” no Retrovisor. Nesta blogosfera recheada de espaços tão apetecíveis, anuncia-me que, of all places, gostava de estrear-se neste cantinho. Terá sido o chamamento de gente como Cinatti, O’Neill, Nemésio ou Garrett?

 

Preciso de explicar que José Cutileiro é o meu Perfect Reader, o leitor ideal, o leitor a que aspira todo aquele que escreve, o leitor exigente que leu o que escrevemos de fio a pavio, percebeu tudo e gostou do que viu. Neste caso, não só gostou como se deu ao trabalho de redigir e publicar na revista do MNE uma resenha elogiosa de Retrovisor, um Álbum de Família, ultrapassando largamente tudo o que eu poderia esperar em termos de reconhecimento de um trabalho tão circunscrito. Nem sequer nos conhecíamos pessoalmente em 2009, foi o meu irmão que lhe deu o livro.

 

Desta feita, o meu leitor ideal dá-me a enorme alegria de vir arejar este "cabinet de curiosités", que andava muito precisado, e abrir-lhe as portas a novos leitores, a quem dou desde já as boas vindas. 

 

 

Stay tuned, o Bloco-Notas de José Cutileiro começa a 11 de Dezembro. Sai à quarta-feira.

 


6.12.13

 

 

 

Anonyme; Cabinet de curiosités; (fin XVIIe siècle)

Huile sur toile; Florence; Opificio delle Pietre Dure. aqui

 

 

Tenho celebrado um ou outro aniversário do blog com um breve balanço e queria tê-lo feito neste quinto aniversário, mas atrasei-me. Quero antes de mais agradecer os comentários deixados no post de 15 de Novembro. As palavras de incentivo de tão ilustres colegas da blogosfera animam-me particularmente. Assinalei a data com um cartoon que divide a blogosfera entre “histórias sobre ninharias que alguém cozinhou, tricotou ou coseu”, “auto-promoção” e “teorias da conspiração”. Está bem visto, em versão mais soft seria o facebook, os blogs pessoais e os blogs políticos.

 

Em poucas palavras, para quem me visita pela primeira vez, este blog divide-se entre histórias do meu álbum de família (fotos, recordações e curiosidades do espólio familiar), histórias dos álbuns dos outros (fotografias e curiosidades dos espólios de outras famílias) e, last but not least, textos bastante variados de Autores, sobretudo excertos de obras de história, jornalismo, ensaio e alguma literatura. 

 

Os textos que eu própria escrevo (em minoria) tratam normalmente de espólios familiares, álbuns e recordações, enquanto as citações de Autor e os textos doutras pessoas surgem geralmente a propósito da actualidade e/ou do calendário. Quanto às imagens tenho procurado apresentar um máximo de material inédito, inicialmente com base no meu arquivo familiar e, progressivamente, a partir de colecções particulares que parentes e amigos têm posto generosamente à minha disposição.

 

O blog recebe actualmente em média 50 visitas por dia e poucos comentários (cerca de 300 até hoje em 480 posts). O propósito continua a ser o mesmo: partilhar a minha exploração da fotografia vernacular e reflexões de Autores favoritos, além de contribuir, mesmo que modestamente, para o universo dos conteúdos em português, com imagens, perfis e textos algo esquecidos*.

 

Queridos Leitores e visitantes em geral, continuarei a esforçar-me por merecer a vossa visita. 

 

 

 

 

* Notas:

 

Cabinet de curiosités 1 in English 

 

Neste contexto veja o blog Restos de Colecção aqui e o projecto Conteúdos em Português aqui  

 

Neste blog, um texto sobre a Fotografia Vernacular aqui , um perfil  aqui e um texto de Autor ilustrado com uma foto aqui

 

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20.7.13

 

 

 

Vidal e Hugo Navarro de Andrade Belmarço (c. 1900)

 

 

outra foto dos irmãos aqui

 

interessante apontamento sobre Vidal Belmarço no blog Promontório da Memória aqui

 

Casa Belmarço aqui

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16.7.13

 

 

 

Maria Luísa Navarro de Andrade Belmarço com as filhas Carmita e Stella

Faro c. 1905

 

 

 

 

 

 


14.7.13

 

Manuel de Jesus Belmarço c. 1890 

 

 

 

O jornal Público noticiou há dias que a Casa Belmarço em Faro, adquirida em tempos pela Câmara da cidade para ali instalar o Tribunal da Relação, foi posta à venda pelo Estado. A casa foi mandada construir por meu bisavô sob projecto do arquitecto Norte Júnior e inaugurada em 1912.

 

Manuel de Jesus Belmarço (1857-1918)  fez fortuna no Brasil como negociante de cereais e café. Casou com Maria Luísa Navarro de Andrade e tiveram quatro filhos, três dos quais nasceram no Brasil. Viveu com a família em S. Paulo e após regressar a Portugal, em 1899, construiu uma casa em Lisboa, na Avenida da Liberdade, e esta em Faro, a cidade onde nascera. O filho mais velho, Vidal Alberto Belmarço (1891-1961) e a mulher, Amélia Salter de Sousa Belmarço (1886-1964) viveram nesta casa até ao fim da vida.

 

 

 

 

                                     

 

 a notícia recente aqui

in English read here

 

a Casa Belmarço na Wikipedia aqui

Arquitecto Manuel Josquim Norte Júnior aqui 

 

 

 

 

 

 Trapiche Belmarço e sua ponte de madeira, na cidade de Santos aqui

© Museu do Porto de Santos - Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp)

 

 

Fotos antigas do Porto de Santos na Fundação Arquivo e Memória de Santos  aqui

 

 

 

 

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14.6.13

 

Margarida Futscher Pereira
verso

 

 

 

 

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6.6.13

 

 

 

Stella Freitas da Costa

 Antonio Guijarro 1958

 

verso



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3.6.13

 

 

 

 

 

 

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26.5.13

 

 

 

 

 

 

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24.5.13

 

 

 

 

 

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16.5.13

 

 

 

 

 

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5.5.13

 

 

 

 

 

Postal de minha Mãe para sua irmã Stella, de um conjunto oferecido por meu primo Miguel Freitas da Costa, a quem muito agradeço.

Outro postal de Margarida para Stella aqui


Uma foto de Stella e Miguel em 1947 aqui


Todos os postais para Stella na tag "postal"

 

 

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6.12.12

 

 

 

António Joaquim Tavares Ferro (1895-1956) 

 

 

A RTP2 exibe no próximo domingo um documentário sobre António Ferro, da autoria de Paulo Seabra, projecto que tive o gosto de acompanhar desde o princípio. O Paulo sabe que eu estimo António Ferro e o trabalho das equipas de que se rodeou no SPN e no SNI, e que gostava de ver mais valorizado o seu legado [1].

 

Sou suspeita, já que António Ferro era “muito lá de casa” [2ou melhor dizendo muito lá de casa de meus avós maternos, com quem vivi vários anos. E sem nunca o ter conhecido pessoalmente, nem a sua mulher, Fernanda de Castro [3], tenho a sensação de os conhecer desde sempre de casa de meus avós, que os recordavam com grande amizade e admiração. Com gratidão também: em poucas palavras, estes meus avós tinham sido ricos e perdido tudo em 1929; meu avô Guilherme Pereira de Carvalho [4], quase a chegar aos 40 anos e com três filhos pequenos, empregara-se pela primeira vez na vida a vender automóveis. Três anos depois foi convidado por António Ferro a integrar o SPN como seu secretário pessoal. Era o trabalho ideal para o seu feitio, a garantia de um salário ao fim do mês e, last but not least, a promessa de uma existência infinitamente mais “rica” do que tudo aquilo com que os meus avós pudessem ter sonhado desde o seu revés de fortuna.

 

Lembro-me de minha avó descrever uma viagem de navio à Argentina, por ocasião de um congresso de escritores, depois de se ter convencido de que "nunca mais faria uma viagem", e da satisfação com que recordava o convívio com intelectuais e artistas estrangeiros que passaram por Portugal nesses anos. Guardava dessa época uma vasta colecção de autógrafos em pequenos álbuns encadernados, especialmente concebidos para o efeito.

 

Ultimamente, novas descobertas proporcionadas pela exaustiva recolha documental e iconográfica realizada por Paulo Seabra para o documentário aprofundaram o meu interesse por António Ferro. Resta-nos agora esperar por uma biografia moderna digna deste homem carismático, que imagino, no auge da «política do espírito», a reinventar o Império assim à maneira dum produtor do cinema clássico de Hollywood.

 

 

 

ESTÉTICA PROPAGANDA UTOPIA no Portugal de António Ferro

 

RTP2 | DOMINGOS  9 e 16 de DEZEMBRO de 2012 | 21h

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas: 

IMAGEM: Fototeca Palácio Foz (actualmente, na Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo) s/data, encontrada aqui e que lembra esta aqui

 

1. A loja A Vida Portuguesa, a vitória de um movimento cívico pela reabertura do Museu de Arte Popular, em 2010, e diversos blogs contribuíram de forma importante para o reconhecimento da produção do SNI. Mais neste blog aqui e na tag "arte popular"

 

2. Uma expressão favorita de João Bénard da Costa e título de um dos seus livros. Leia mais aqui.

 

3. Fernanda de Castro aqui  e numa fotografia de Cecil Beaton  aqui

 

4. Guilherme Pereira de Carvalho aqui e os meus dois avós nos anos 20 aqui

 

5. Fundação António Quadros aqui e aqui

 

6. A poesia dos simples: arte popular e nação no Estado Novo, de Vera Marques Alves aqui 

 

 

 

 

 


31.10.12

 

 


 

Papelaria Progresso, Rua do Ouro, Lisboa. 

Arquitectura: Francisco Conceição Silva

Fotografias sem data. Estúdio Mário Novais*


 

 Papelaria Progresso, Rua do Ouro, Lisboa.

 

 

Papelaria Progresso, Rua da Vitória, Lisboa, anos 60

Fotografia sem data. Estúdio Mário Novais*

 

 

Ao recordar o Liceu Francês, onde cheguei em 1961, ­vêm-me sempre à memória outros lugares que na Lisboa sombria e provinciana do princípio da década de sessenta, pelos mesmos motivos estéticos e afectivos, me transmitiam um bem estar imediato: a Papelaria Progresso, na Rua do Ouro, e o Café Monumental, na Avenida Fontes Pereira de Melo, onde minha mãe me levava, hoje desaparecidos, eram como o Charles Lepierre, espaços de grande qualidade, novos em folha, cuidadosamente pensados e desenhados para servir. O seu "look" inspirava-me confiança no futuro.




* fotografias gentilmente cedidas por José Inácio Vieira Gagean.  


Mais neste blog sobre a Papelaria Progresso aqui e na tag "design"


Sobre o Monumental veja aqui e aqui e neste blog aqui


Sobre Lisboa nessa época leia aqui



esta foto aqui

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13.10.12

 

 
30 de Junho de 1955 - Distribuição de prémios do LFCL, no Teatro S. LuÍs em Lisboa
 
Cristina, com 7 anos, recebe os 2 prémios ganhos no Liceu Charles Lepierre - em Lisboa
Ano escolar 1954-55 (1ª Classe) mista francês-português
 
 
 

 

 

Nesse mês de Junho de 1955, Cristina já transitara para o Lycée du Sacré Coeur de Kalina, Léopoldville, hoje Kinshasa, na RDC. Frequentara o Liceu Francês de Lisboa apenas durante o primeiro trimestre do ano escolar, antes da partida para o Congo.

 

Sobre a minha chegada e o regresso de Cristina ao Lycée Français Charles Lepierre no início da década de sessenta, vindas de uma escola americana, falei no meu livro, e em posts neste blog (aqui e aqui). No entanto, dentro da mesma família cada um vive as coisas à sua maneira e segue o seu próprio destino. Para Cristina, França e a língua francesa seriam muito mais do que um percurso educativo. França tornou-se o país onde viveria metade da sua vida adulta — e muitos dos seus momentos mais felizes — o país onde as suas filhas nasceram, o seu porto de abrigo, como aconteceu a tantos portugueses, em particular os da sua geração. Mesmo depois da experiência marcante dos Estados Unidos, França tornou-se o seu país de eleição. E mais de trinta anos após ter concluído o liceu francês em Lisboa (na parte francesa - baccalauréat d'études secondaires) e partido para Toulouse, estudar economia graças a uma bolsa de estudo francesa, escreveu a Robert Bréchon*, responsável pela atribuição da bolsa em 1965, para lhe exprimir a sua gratidão. 

 

 

 

 

1987

Visita de Estado a Portugal do presidente francês François Mitterrand

Cristina toma notas para em seguida reproduzir o discurso em português** 

 

 

Os netos de Cristina, nascidos em Portugal, frequentam hoje em França uma escola do ensino público francês. Falam francês um com o outro — como Cristina e eu falávamos inglês nos Estados Unidos*** — o que me anima a pensar que nunca esquecerão a língua, porque adquirida muito cedo na vida, e ligada aos afectos, o que tem bom prognóstico.

 

 

 

 Notas:

* Robert Bréchon aqui

** veja álbuns de intérpretes de conferência aqui 

*** Mais aqui

 

 

História do Liceu aqui

 

 

 


20.8.12

 

 

  

Portugal, c. 1915

 

Foto: Ricardo Santos & Filho - Évora

 

 

Mais uma fotografia curiosa de meu tio-avô paterno António Correia Caldeira Coelho (1888-1977). Que festa terá sido esta? Ele é o homem de bigode e chapéu de aba redonda, sentado no centro do grupo. A fotografia é colada sobre cartolinaiVeja uma fotografia dele em 1907, aqui, e em 1910, aqui

 

 

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21.2.12

 

 

 


Gonçalo Luiz Maravilhas Caldeira Coelho
 Foto/Bilhete-Postal : Furtado & Reis, Lisboa 1928

 

 

 

 

 

Fotografia publicada no livro "Retrovisor, Um Álbum de Família" aqui 

 



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5.1.12

 

 

 

 

 

A Tuna Académica da Universidade de Coimbra em 1910-1911

(digressão por Ciudad Rodrigo, Salamanca, Valladolid e Zamora)
 

Foto: J.M. dos Santos, Coimbra.

 

 
 
 
 
 
 
 
Esta fotografia vem da minha família paterna, mais precisamente da família materna de meu pai. António Correia Caldeira Coelho (1888-1977) - irmão da minha avó Rosita - está sentado na terceira fila. É o terceiro a contar da direita. Formou-se em Direito em Coimbra, em 1913, e na sua juventude participou em iniciativas recreativas e culturais, como atestam fotografias e documentos que as suas irmãs conservaram e assim me chegaram às mãos. Não creio que tocasse um instrumento musical. Na margem inferior direita da fotografia é identificado como 'Delegado'.
Leia aqui um artigo que me esclareceu sobre as digressões da Tuna Académica da Universidade de Coimbra por terras de Espanha:
 
Fundada em 1888, surge da popularidade da actividade musical entre os escolares na 2ª metade do Século XIX, que com a extinção da orquestra do teatro académico e com a passagem da Estudantina de Santiago de Compostela por Coimbra sentiram a necessidade de criar um agrupamento musical semelhante não só para retribuir a visita aos estudantes espanhóis mas também para levar Coimbra representada musicalmente a outros centros de Portugal.
 

 

 

 

Outra fotografia de António Caldeira Coelho, uns anos antes, aqui. 

 

 

Tuna Académica da Universidade de Coimbra aqui

 

 

 

 

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25.12.11

 

 

 

 

cartão de Boas Festas

de uma série, pintado por Vasco Luís Futscher Pereira (1922-1984)

 

Edição Papelaria Progresso, Lisboa, 1965

 

 

 

Mais sobre a Papelaria Progresso aqui e aqui

 

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4.12.11

 

 

 

Guilherme Pereira de Carvalho e Hugo Belmarço 

 

 

 

 

Verso:

Bilhete postal: Photographia Vasques, Lisboa


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1.12.11

 

 

 
 
José Alvellos, Maria José e Hugo Belmarço
 
foto A.Linares- Alhambra,64 Granada
 
 
 
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13.8.11

 

 

 

 

Portugal, 1923

 

 


21.5.11

 

 

 

 

Copacabana, Rio de Janeiro, Anos 70 

 

 

A resenha de Clóvis Brigagão (aqui) fez-me recordar o Brasil, precisamente no ano de 1976, quando lá fui a primeira vez. A beleza do Rio de Janeiro e ouvir falar português naquele país do novo mundo causaram-me grande impressão, assim como me emocionou contemplar, dali, Portugal e a Europa.

O meu álbum de família, como muitos daqui, passa pelo Brasil; Santos e S. Salvador, onde alguns dos meus bisavós prosperaram nos negócios, a Bahia, onde nasceu meu avô materno, o Rio de Janeiro da infância de minha avó paterna:  país irmão, "terra de exílio", "porto seguro", às vezes as duas coisas, e outras mais, em tantos momentos da nossa história.


 

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30.4.11

 

 


Gaby Photo, Léopoldville, 1954*


  

 

Comemoro hoje o segundo aniversário da publicação de "Retrovisor, um Álbum de Família" com a resenha de Clóvis Brigagão, amigo de longa data, que acompanhou de perto o meu projecto e, pelo caminho, me deu bons conselhos. O texto não chegou a sair no jornal mas aqui não podia faltar, passe a imodéstia. 
 

 

 

RETROVISOR – Um Álbum de Família

Vera  Futscher  Pereira

Lisboa,  Rui Costa Pinto Edições, 2009

 

 

 

Nessa encantadora e elegante obra de arte literária, Vera Futscher Pereira revela-nos o âmago de um álbum familiar. Ali estão as origens remotas da família e de seus negócios, alguns deles exercidos em Salvador da Bahia e no Rio de Janeiro, de um Brasil ainda bucólico. Ali estão também os caminhos pacientemente construídos no presente e, finalmente, a oferta generosa do futuro à nova prole.  Mais além do legado fotobiográfico, o que apreciamos é a tecedura criativa, muito bem elaborada, através de uma trama 'a descoberto' ... Retrovisor é totalmente aberto às aventuras e desventuras que o leitor, intruso?, quer saborear a cada página.  

À sua arte se junta, sem descontinuidade, o delicado e sensível ofício, tenaz e reluzente, que adquire sentido como ato de amor declarado a tecer, fio a fio, palavra a palavra, o retrato privado da família Futscher Pereira: a lusofonia cosmopolita. Essa ilustrada fotografia familiar ganha sabor e notável dimensão ao incorporar na narrativa o rico contexto histórico com variados comentários do desenrolar sociológico, político, cultural e, porque não, psicológico desses dois tempos, o privado e o público. É pura prosa poética, sob a bela e brilhante composição gráfica, que a autora presenteia ao público, sem pieguice ou maneirismos.

Ao lado da estória da vida dos avós, dos parentes próximos, principalmente dos pais, Vasco e Margarida, de si mesma e dos dois irmãos Cristina e Bernardo, a navegar pelo mundo afora, a autora abre suas páginas aos acontecimentos do dia-a-dia – através de textos tanto seus como de vários comentaristas. Cabe aqui um parêntese sobre o significado dos textos. Primeiro os da própria escritora, alinhavados com graça e sensibilidade, como « ... a tentativa de reagrupar pessoas e lugares dispersos pelas rupturas da vida - e pela própria passagem do tempo ». Narra, de forma concisamente confortável, como andavam as coisas da família, da política portuguesa e do mundo, dos movimentos culturais, artísticos e literários, criados pela geração nascida nos anos 20 do século passado, mas que ainda ressoa aqui e agora, a desvendar as várias circunstâncias que percorrem as páginas, sem perder o fio da meada, num português refinado e claro. Anoto outras contribuições textuais: notas, telegramas, cartas e registros diplomáticos do embaixador Vasco Futscher Pereira, sempre impecáveis, em múltiplos sentidos e em especial notas, artigos e recortes de jornais sobre seu tempo como Embaixador em Brasília (75-77). Os poemas extraídos dos dois livros de Margarida Futscher Pereira: Lugar Comum e Bens Adquiridos, portuguesmente poéticos, como este: « temos que trilhar/piso difícil/para aprender/a saudade sem mácula» (p. 165). O artigo de Bernardo Futscher Pereira publicado em O Jornal (21/05/1982) “Reagan e Brejnev Trocam Galhardetes”, análise política intocável sobre a pressão da opinião pública nos estertores da Guerra Fria. Além de vários outros textos sempre muito bem contextualizados, destaco os diretos, firmes e literariamente muito bem escritos, de Maria Filomena Mónica de seu livro A Evolução dos Costumes em Portugal, 1961-1991.       

Como forma de ilustração da estória familiar, que une geração e vida cultural – onde o mundo entra e participa dessa saga - a autora concebe, com gracioso apuro, uma obra que frui livre, a extrair toda a riqueza e vantagens literárias e estéticas de seu Retrovisor. Além de ser obra de leitura muito cativante e prazerosa, ela é recomendada para os estudos de sociologia e antropologia familiar, para cursos de artes gráficas, letras e jornalismo e até mesmo para os que gostam, estudam e pesquisam épocas e interações das relações humanas. Do abrir ao fechar as páginas de Retrovisor, o espelho recompõe todas as figurações, os textos, as imagens e, principalmente, as pessoas que de forma comovente, humana e precisa, Vera Futscher Pereira consagra em suas essencialidades.

 

 

Clóvis Brigagão

cientista político e escritor, brasileiro, viveu em Lisboa entre 1975-1979.

 


*Foto de capa de "Retrovisor" (Cristina, 1954)
 



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