1.11.17

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 Miguel de Unamuno

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Hommage to Catatonia

 

 

 

George Orwell publicou um livro célebre sobre a guerra civil espanhola – a Guerra de Espanha de 1936-1939, tantas vezes lembrada ultimamente – a que chamou Homenagem à Catalunha, Hommage to Catalonia no original inglês. Na manhã de 31de Outubro em que este bloco escrevo, quando a tragicomédia das últimas semanas que parecia opor Madrid e Barcelona, ameaçando aqui e além caminhar para tragédia mesmo, se começou de repente a desfazer em farsa, em opera buffa, levando toda a gente, salvo os independentistas mais aguerridos, a dar grande suspiro de alívio, Orwell nosso contemporâneo deveria começar a escrever livro sobre a dita tragicomédia, a que chamasse Hommage to Catatonia – Homenagem à Catatonia.

 

Mas deixemos o manicómio e suspiremos de alívio. Quando o homem que, por iniciativa própria, decidira declarar e incarnar a Republica independente da Catalunha, e apoiado por almas igualmente determinadas, dar a cara contra Madrid, a União Europeia, Washington, por fim contra mundo (salvo a Ossécia do Sul, pequeno fantoche caucasiano manobrado pelo Kremlin, porque Putin não perde um oportunidade para tentar prejudicar ou irritar a Europa, e, não sei porque razões mas hão de ser frescas, a Gâmbia), a cara dada, depois de circular na televisão como se estivesse no seu posto – mas era manha; tinha filmada noutro dia – foi às escondidas por terra até Marselha, com alguns dos seus ministros, e lá apanhara avião de linha para Bruxelas onde agora está e haverá de falar aos seus. Saída de sendeiro, diz-se em casos destes.

 

É claro que foi infinitamente melhor assim. Se a confrontação continuasse e a certa altura houvesse sangue, teria havido depois mais sangue, e todos os ódios passados subjacentes viriam a seguir ao de cima. Tal tem acontecido em outras partes do mundo - e em Espanha muitas das feridas não têm ainda um século. Graças a políticos como Adolfo Suarez e Filipe Gonzalez, ao rei D. Juan Carlos, e, sobretudo, ao povo espanhol – castelhano, catalão, basco, galego, andaluz, todos – a construção democrática é sólida. Como se está a ver agora.

 

E foi um longo caminho. É célebre a troca de palavras entre Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca e o general fascista que numa sessão solene em 1936, governava Franco de Burgos (e os Republicanos de Madrid), gritou: “Muera la inteligência! Viva la muerte!”. Unamuno respondeu: “Este es el templo de la inteligência y yo soy su sumo sacerdote. Venceréis (…) pero no convenceréis”. Etc. Menos conhecido é que na mesma sessão um lente atacara violentamente a Catalunha e o País Basco que considerou “cánceres en el cuerpo de la nacion. El fascismo, que es el sanador de Espanã, sabrá cómo esterminarlas, cortando en la carne viva, como un decidido cirurjano libre de falsos sentimentalismos”.

 

Não foi há tanto tempo assim: eu, por exemplo, já era nascido. Percebem-se melhor os independentistas antigos e, ao mesmo tempo, assusta a insensatez crassa dos independentistas modernos.

 

 

 

 

 

 

 

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