26.7.17

 

 

hortensias 2

 

 

José Cutileiro

 

 

Hortênsias dos Açores – à falta de um Bey em Tunis

 

 

 

Todas as terças feiras, há mais do que três anos, eu começo a manhã com uma aposta contra mim próprio: quero ter o bloco-notas pronto ao fim do dia para o mandar à Vera a tempo de ela poder encontrar boneco que o ilustre e poder despachar os dois juntos para o éter – éter onde depois a leitora os irá buscar, já capturados pela máquina moderna, de bolso ou de mesa, que a leitora, segundo a hora e o lugar, prefira pôr ao seu serviço. Entre bens e males de mundo, bens e males da Pátria e bens e males de mim próprio, em teoria a escolha à minha frente é vasta mas – lembrando Hyppolite, qui regardait le ciel par le trou de la serrure e, quando lhe explicaram que podia olhar para o céu de outra maneira, respondeu vous appelez ça l’azur, ce grand ciel bleu? Mon azur à moi est plus compliqué!, ou pelo menos assim me lembro do poeta belga Géo Norge – mas, dizia, o momento de começar, como o de Husain Bolt a sair dos tacos, às vezes precisa de concentração que o ar desse dia não me dá. Estava eu hoje por bandas assim quando abri e-mail da Vera a perguntar-me se eu queria que ela aprovasse um comentário. No Assunto vinha: comentário de “desconhecido” no blog.

 

Não era um desconhecido; era uma conhecida que começava: José continuas a não te lembrar de mim na nossa infância… Vou dizer à Vera para aprovar o comentário de maneira que eu não precise de o transcrever aqui na íntegra. Em resumo, a minha amiga na infância lembra-se de coisas de que eu não me lembro e eu lembro-me de coisas de que ela não se lembra. Julguei, mal, que ela tinha vindo uma tarde de visita com a mãe à quinta onde nós vivíamos na Ilha Terceira. (Nessa altura era costume senhoras, cujas vidas eram em casa, fazerem visitas umas às outras). Afinal tinham lá passado as duas cinco semanas, vindas do Faial. Dou a mão à palmatória (depois de décadas de pedagogia branda, as novas gerações usarão ainda esta figura de retórica?). E a minha amiga julga, acho que também mal, que eu a retratava em figurinhas que amassava em terra e depressa se desfaziam ou se quebravam. Por mim, julgo que haverá de ter sido o mano João. É certo que em menino – tive a sorte de ser um dos filhos dos homens que foram meninos – também pus a mão na massa. Cópia do Desterrado de Soares dos Reis em plasticina com meio palmo de altura foi fotografada por Mário Novais e elogiada por Diogo de Macedo, crítico de arte abalizado, já estávamos de volta ao Continente. Mas, quanto a feitos de escultura, fiquei-me por aí, donde infiro que a minha amiga deve ter trocado os manos na memória dela – tanto mais que conta no comentário que eu (isto é, o João) já crescido esculpi algumas Teresinhas e até lhe dei (o João deu) uma delas.

 

Não sei do retrato dela com hortênsias que havia em casa da mãe e pedi à Vera que encontrasse fotografia de muitas hortênsias açorianas para ilustração desta página de bloco. Entretanto perdi a aposta comigo próprio: já é quarta-feira.

 

link do postPor VF, às 10:29  comentar

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