21.6.17

 

Statue_of_Liberty,_NY

Estátua da Liberdade, Nova Iorque

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

100 milhões de emigrantes

 

 

 

Na União Europeia, cada reformado, como eu, é sustentado pelo trabalho de 4 pessoas activas. Prevê-se que em 2050, no mesmo grupo de países, cada reformado seja sustentado pelo trabalho de duas pessoas activas. Expressão daquilo a que se chama a crise demográfica europeia. Por outras palavras, por muito que se racionalizem os métodos de produção incluindo robots e inteligência artificial - ajudas que seriam preciosas se robots pagassem impostos e consumissem bens e serviços; mas nem os pagam nem consomem – precisamos na Europa de muito mais mão de obra do que a que temos. As empresas que no mundo moderno fazem o que nas ruas do Portugal tradicional costumavam fazer as ciganas, isto é, prever o futuro, estimam que, em meados do século XXI, precisaremos de mais cem milhões de emigrantes dos que já cá temos, senão estará o caldo entornado. (A menos que, entretanto, se haja decidido que velhas e velhos, chegados a certa idade, sejam postos de parte por meios não violentos, com se faz com animais domésticos. Julga-se improvável tão cedo mas o progresso nos nossos dias é veloz como o pensamento).

 

Ora os europeus, por mais cristãos que sejam, não parecem às vezes amar a Deus sobre todas as coisas e, muito menos ainda, amar o próximo como a si mesmos. Sobretudo se esse próximo (chamemos-lhe retoricamente assim) não for nem cristão nem branco, o que é o caso de muitos emigrantes que cá arribam – ou morrem no Mediterrâneo em tentativa dispendiosa e vã de cá chegarem. Vai haver mais agora porque é Verão.

 

Vivendo em lugares confortáveis, dando-nos com gente bem educada, lendo jornais com correccão política suficiente mas não ridiculamente exagerada (como na América) com anos de boa educação formal a defenderem-nos, sem termos de pensar nisso, das nuvens por Juno contadas às crianças e explicadas ao povo, agora espalhadas pelo uso ganancioso e nocivo de algoritmos, a maior parte do tempo não percebemos bem em que mundo vivemos nem os seus riscos – e espantamo-nos quando a realidade nos dói. Uma noite destas, inglês das classes trabalhadoras atropelou deliberadamente fieis muçulmanos, que disse odiar, à saída de mesquita em Londres, naquilo que, da Senhora May à BBC, chamaram um incidente, só depois corrigindo para terrorismo. E homem de letras português meu amigo, lamentou o fogo por má construção, também em Londres, que matou “aquela pretalhada toda”.

 

Mais 100 milhões de emigrantes até 2050? Não creio. Nos Estados Unidos, apesar do alarido de Trump contra o Islão, é diferente. Todo o país, salvo Comanches & Cia, é emigrante. Em Princeton, o António Tabucchi e a Zé perguntaram-me o que eu achava de pedido de desculpa aos negros por causa da escravatura, causa querida de Susan Sontag, em casa de quem tinham estado em Nova Iorque. Respondi que, a haver desculpas a pedir, não seria aos descendentes dos africanos trazidos de África para a América como escravos, mas aos descendentes dos africanos deixados em África.

 

 

 

 

 

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