17.5.17

 

 

portugal bandeira

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Portugal: bom ou mau ?

 

 

Quando, há mais de 40 anos, o PREC (Processo Revolucionário Em Curso) acabou e, depois de eleições, deixámos de ter governos provisórios e passámos a ter governos constitucionais, chegando o primeiro destes em 1976, ocorreu-me que o país mais parecido com Portugal depois do 25 de Abril era Portugal antes do 25 de Abril. Na altura, esta constatação irritou amigas de esquerda, cheias de sangue progressivo na guelra, que acharam ser eu um reacionário não recuperável – como o puto de Les Mains Sales, depois de quadro sabichão do PC lhe ter comido a pequena – por não me ter dado conta de quanto a luz do dia era diferente passada a noite negra do fascismo. E irritou também amigas de direita que se agastavam com tudo, desde ter sido mudado o nome da ponte sobre o Tejo até haver cada vez menos educação em escolas, cafés e transportes públicos, sem que eu, esquerdista inveterado, parecesse dar por isso ou, se dava, sem me incomodar. (Falso: lembro-me numa esplanada de Lisboa ter dito a rapaz que nos atendia de mau modo que poderia ser eu a servi-lo às segundas, quartas e sextas, e ele a servir-me a mim às terças, quintas e sábados, mas cada um no seu lugar, sem falta de respeito pelo outro. Olhou para mim com boi para palácio e eu concluí que é inútil tentar postular igualdade quando esta não exista).

 

O que se ache de Portugal, vai muito da disposição com que se esteja e da experiência que se tenha tido. Em 1879, Eça rematou O Crime do Padre Amaro, evocando “pátria para sempre passada, memória quase perdida” – depois de descrição lúgubre da nova pátria, no Largo do Loreto, acabada assim. “Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de tabernas, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime”.

 

Em 1900, ano em que morreu, ocorreu-lhe falar de Portugal de outra maneira. No fim de A Ilustre Casa de Ramires um dos personagens diz a outros quem Gonçalo Mendes Ramires lhe lembra. “A franqueza, a doçura, a bondade … Os fogachos e entusiasmos que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência… A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos quase pueris… A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique que sanará todas as dificuldades… Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa (…) Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

 

- Portugal.

 

(Um bocadinho como aquele que não admitia que não se fosse socialista antes dos 40 anos ou que se fosse depois).

 

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