22.3.17

Philips 1964

 gravador Philips, 1964

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

As coisas são o que são. 

 O que é ser? O que são coisas?

 

Quando perguntei ao Tio Zé Peidinho, pastor reformado (de gado, não de almas) como é que achava que o mundo tinha começado, analfabeto com melhor cabeça que muitos doutores que eu conheci – nesse tempo, doutores eram pelo menos licenciados em matérias estudadas em universidades e não técnicos enfeitados com o título no afã de serem promovidos a portugueses de primeira pelo tratamento que lhes passava a dar o comércio - respondeu: “Há de ter começado como tudo: de pequenino”.

 

O Tio Zé Peidinho tinha 82 anos, era muita idade nesse tempo, eu 32, e estávamos à conversa numa manhã de sol, só com barulhos de campo e de sinos da igreja da Vila às horas, meias e quartos de hora, porque escribas, acocorados ou não, precisam de saber às quantas o mundo anda. Pontualidade mais rigorosa só chegou com máquinas que exigiam disciplina no trabalho, começando no Noroeste da Europa com o que se chamou a revolução industrial. No lugar onde o Tio Zé Peidinho e eu estávamos tal revolução nunca tinha realmente chegado mas produtos e subprodutos seus tinham já feito mudar muita coisa: antes da fábrica de cartão construída na margem do Guadiana, antecipada com desconfiança (“Como se eu acreditasse que aquela merda serve para fazer papel” rosnou o secretário do tribunal da sua cadeira de lona na esplanada do Café Central à passagem lenta de um reboque carregado de maquinaria) mas que, pela primeira vez na história local, deu trabalho a operários entra o ano, sai o ano (até albufeira da barragem de Alqueva a ter deliberadamente submergido) encontravam-se na freguesia sinais claros de dependência do mundo exterior. Em casinhoto no sopé da colina havia há décadas uma bomba fabricada - e assinada - em Inglaterra para levar água do rio à cisterna intramuros lá em cima.

 

Registei a nossa conversa no gravador Philips e perguntei-lhe se queria ouvir. Ouviu atento e depois disse: “Olha que mánicazinha tã esperta!” Concordei, os dois embevecidos com aquela maravilha do progresso. Pouco tempo depois, em St.Antony’s College, Oxford, eu e um economista de turbante chamado Montek Sing que de lá foi para o Banco Mundial, ficávamos fascinados com grande fotocopiadora xerox na administração do colégio que além de nos fazer ouvir espécie de deglutição mecânica própria de tais engenhos, chispava luzes verdes. Talvez Montek e eu, o Punjab e o Alentejo, estivéssemos menos longe do campo original da espécie do que ingleses, americanos, alemães, judeus e outros que também viviam no Colégio e não me lembro de encontrar na contemplação da copiadora.

 

Remanso que acabou. Exponenciações da lei de Moore aceleram inexoravelmente o mundo digital. Física quântica tem aplicações práticas inesperadas e surpreendentes. O resto da natureza sofre ainda mais do que nós. Políticos desorientados querem diminuir trocas comerciais e produzir mais armamentos. Estamos a ficar analfabetos e não somos tão espertos como o Tio Zé Peidinho.

link do postPor VF, às 09:00  comentar

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