15.2.17

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Dores de cotovelo

 

 

Quando eu era novo, dor de cotovelo queria dizer dor de corno mas de maneira bem-educada. Se noivo ou namorado (ou noiva ou namorada) de repente suspeitava ou confirmava suspeita de traição da bem-amada (ou do bem-amado) o incómodo moral e físico que tal provocava: um sei bem quê que nasce sei bem onde, vem sei bem como e doe sei bem porquê (viro do avesso farrapo de Camões, em vez de procurar palavras minhas, porque o tempo não está para extravagâncias e, se não pouparmos em tudo, os guardas alemães e holandeses, gabarolas do superavit, que há meia dúzia de anos nos obrigam a fingirmos que somos como eles mais ainda se darão ao gosto de nos atormentar. Há quase um século e quase ao fundo do Hemisfério Sul, apanhado em apuros quejandos, o chileno Pablo Neruda escreveu “De outro, será de otro, como antes de mis besos/ Su voz, su cuerpo claro, sus ojos infinitos.” Pablito, chamavam lhe as criadas de casa dos pais, não estava obrigado por critérios de Maastricht e, antes de se meter a compor Odes compridas e apatetadas ao camarada Estaline, tinha talento a rodos. “Ya no la quiero es cierto pero talvez la quiero/Es tan corto el amor y es tan largo el olvido.”

 

Dores de cotovelo. Não sei se o termo ainda se usa no português falado pela gente nova: não vivo cá e o meu neto é holandês. Sem ser por mal, dou por mim agora a passar mais tempo com gente velha e aí descobri rudimentos de nova forma de correcção política. Parece que, para velhas e velhos se sentirem ainda integrados, se lhes deva falar – e falar deles – como se faz com as crianças, mas adaptando. “Ai, está a mirrar tão bem! Um dia destes está mais baixo que a avó.” “Então já lhe caíram mais dentinhos?” “Desde o Natal anda a esquecer-se de quase dez palavras por dia”, etc.  Adiante – se é esta a palavra indicada – e voltemos ao cotovelo.

 

Alentejano arguto, há muito amigo do coração – e, ao contrário de tantos conterrâneos seus, despachado, viajado e poliglota – embrenhado agora em vida de Cristo bem narrada por erudito sábio, encontra paralelos entre a Jerusalém que os romanos acabariam por arrasar e onde Jesus foi executado (para aclamação dos seus compatriotas que preferiram salvar Barrabás a salvá-lo a ele) e os sobressaltos violentas do nosso tempo, a chocarem fascismos. (Cesário Verde percebera: “A dor humana busca amplos horizontes/E tem maré de fel como um sinistro mar”). Segundo o meu amigo, e eu estou de acordo com ele, quando nós eramos novos – eu sou mais velho uma década e picos mas nessa altura a diferença parecia muito mais pequena do que parece agora: daí a dez anos o mais novo seria como o mais velho. A vida abria-se diante nós, estrada direita até onde a vista alcançasse. Agora, daqui a dez anos o mais novo será como nada que se já conheça hoje. Fecha-se diante de nós um cotovelo que, até lá chegarmos, não percebemos para onde se irá abrir.

 

Uma broncalina do camandro, diria o meu chorado António Garcia. Ou então: uma Bernardette do caboz.  

 

 

 

 

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