8.2.17

balcas

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Guerras dos Balcãs

 

 

 

Agosto de 1992 no bar do White’s. Peter Carrington fizera as apresentações. “Lord King: British Airways. José Cutileiro: ele e eu destruímos a Jugoslávia juntos”. King mediu-nos de sobrolho carregado e respondeu: “Tiveram alguma ajuda.” Muitos anos antes, outro inglês inventara fórmula lapidar, evidente nos tumultos e confrontações do nosso tempo naquela parte do mundo que Lord Carrington fora mandatado pelas Comunidades Europeias a resolver (encarregando-me a mim da Bósnia). Escrevera Churchill: os Balcãs produzem mais História do que aquela que são capazes de consumir. A ocasião mais célebre, assassinato em Sarajevo do herdeiro do Império Austro-Húngaro por estudante sérvio em Junho de 1914 levara à primeira guerra mundial – a Grande Guerra.

 

Em 1991 Mitterrand dissera a próximos seus que, se as Comunidades Europeias não existissem, as tensões com a Alemanha teriam sido ingeríveis – mas a gestão foi mais questão de maneiras do que de equilíbrio de interesses. A Alemanha impôs reconhecimento prematuro da Croácia aos franceses e aos outros parceiros (em 1945, a Croácia rendera-se aos aliados uma semana depois de Berlim), tirando força à Conferência Carrington. Depois disso, porém, salvo alguma ajuda dada aos kosovares (inimigos dos sérvios meus amigos são) portou-se outra vez com decência rara em grandes países.

 

Depois da morte de Tito em 1981 a Federação Jugoslava era construção frágil. Dominada por ele que, saído do lado vencedor da guerra, soltando-se do jugo de Estaline e sendo ajudado em troca pelas potências ocidentais declarou ter inventado regime novo, uma espécie de ‘terceira via’. Na realidade, era como se meretriz num bordel tivesse decidido sair, estabelecer-se por contra própria e chamar à nova empresa colégio de freiras. Sobreviveu à morte do fundador mas, dez anos depois, não resistiu ao fim da Guerra Fria. As guerras que se seguiram, na Croácia, na Bósnia, no Kosovo atingiram cumes de crueldade semelhantes aos das Guerras Balcânicas de 1912 e 13 – muito distantes da papelada moralista emitida por Nações Unidas e União Europeia. 

 

Já no século XX, à beira de extinção, Império Otomano e Império Austro-Húngaro digladiaram-se nos Balcãs; medram por lá memórias de ambos e uma Sérvia independente tão marcada pelas peripécias da História que o lugar mais sagrado do seu território é no Kosovo, onde a grande batalha patriótica – a Aljubarrota deles, também travada no século XIV – foi uma batalha perdida. E nhurros como touros enquerençados.

 

Consumidores de História a mais pairam constantemente, como abutres. Os Estados Unidos de Bill Clinton viram em Sarajevo governo muçulmano que lhes convinha ajudar, fizeram durar a guerra e os seus desastres mais três anos do que preciso, e inventaram depois paz que só presença militar estrangeira garante. Fortalecendo de caminho tradição criada no Afeganistão de ajudar e armar inimigos jurados do seu país e do Ocidente em geral.

 

Amiga queria saber dos Balcãs. Chegará?

 

 

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