1.2.17

 

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José Cutileiro

 

Casa Branca, Nau Preta, felicidade na Austrália…

 

 

Coitada da Casa Branca. Álvaro de Campos faria troça dela mas ninguém ligava, sobretudo porque pouquíssima gente lia o estimável engenheiro ou sabia que ele era heterónimo do tradutor-correspondente Fernando Pessoa, namorado de Ofélia Queiroz, freguês do tinto do Martinho da Arcada e, dessa gente, alguma poderia perguntar-se se seria a Casa Branca de Washington (construída por escravos, incendiada pela tropa inglesa em 1812; as voltas que o Mundo dá…) ou quiçá a que dera o nome a entroncamento ferroviário da linha do Sul e Sueste, depois de Pinhal Novo, já no Alentejo, saída de ramal que ia a Évora e deitava a Reguengos de Monsaraz, enquanto as carruagens do comboio principal continuavam para Sul passando por Beja e acabando no Algarve de aquém mar.

 

Na Casa Branca do começo do Alentejo estive quando era pequeno, indo às vezes, no Verão, comprar bilhas de água à plataforma da estação; na de Washington, D.C. só uma. Jantei lá em 1999 quando o Tratado de Washington – fundamento legal da O.T.A.N. – celebrou 50 anos e, havendo a O.T.A.N acudido à Bósnia-Herzegovina depois do acordo de Dayton de 1995 em que os americanos meteram paz pelas goelas abaixo de sérvios, croatas e muçulmanos, que a engoliram com a pressa enjoada de quem bebe óleo de rícino (tal como Jacinto, em Paris, a preparar-se para Tormes) já a maioria dos proponentes da extinção da Aliança Atlântica tinham metido a viola no saco. Que nos sirva de lição que sem as sangrentas desavenças balcânicas – e com a Rússia tentando ajeitar-se mal aos instintos democráticos do bom Boris Nicolaevitch em vez de se submeter contente aos instintos autocráticos do pérfido Vladimir Vladimirovich - talvez os proponentes entusiásticos da paz perpétua Kantiana, crentes no fim da História, houvessem levado a sua avante e agora nem O.T.A.N tivéssemos.

 

Mas temo-la e, com sorte, irá resistir aos tumultos do 45° presidente dos Estados Unidos a quem a mudança da possidoneira dourada em estilo Luís XVI da penthouse de Trump Tower, na 5ª Avenida de Manhattan, instalada a seu mando e gosto, para o n° 1600 de Pennsylvania Avenue, Washington, deverá ter feito enorme confusão. Vindo daquele pastiche despropositado de monarquia absoluta, bem calhado com a sua maneira de ser - quer no pastiche quer no absolutismo - talvez nalgum pesadelo haja perguntado a si próprio se passara de cavalo para burro. Comparada com os palácios de Buckingham e do Eliseu para não falar do Kremlin, a Casa Branca quase faz ternura de tão provinciana e despretensiosa, assim uma espécie de solar de senhor local, homem de palavra – mulher ainda não houve - respeitado pelos criados, estimado na vizinhança, e seguro de ser quem é. Quando Jack Kennedy convidou duas dúzias de prémios Nobel disse-lhes que debaixo daquele tecto nunca estivera tanto talento, com a possível excepção das noites em que Thomas Jefferson lá jantara sozinho. Agora são outros tempos. Coitada da Casa Branca.

 

 

 

 

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