30.11.16

 

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Adeus Gutenberg

 

 

 

 

Sempre houve ricos e pobres, suspirava a avó Berta, católica apostólica romana (padre afilhado de missa do avô almoçava às vezes lá em casa), quando eu a vinha atanazar com horrores de injustiça social de cortar o coração que controleiro do PC ou entusiasta do MUD Juvenil ou sensibilidade própria agredida no liceu - educação primária caseira dera-me ilusões idílicas sobre o mundo – me houvesse trazido à atenção.

 

Era um mundo ainda em ordem. Contava ela que antes de começar a Guerra de 14 governava bem a casa com cinco tostões por dia e já no meu tempo de neto lia todos os dias às criadas o folhetim que saía na última página do Notícias de Évora, cuja complicada e ramificada intriga levava sempre mais do que um ano a fiar. Lembro-me do nome de um - A Toutinegra do Moinho - escrito por francês de nome afidalgado, salvo se fosse estratagema comercial para abrir ainda mais o apetite às leitoras porque, desde o Clube de Golf do Porto ao mais proletário sindicato do barlavento algarvio, passando pela feira da Malveira e pelo Grémio Literário, temos entusiasmo parolo por tudo quanto venha de fora. Numa das minhas voltas a Lisboa fui à loja de electrodomésticos do bairro e disse ao homem que queria um esquentador Junker. “Leve antes um Vaillant” respondeu-me ele. “Os Junkers já são feitos cá”.

 

Feito cá, feito lá; autores, jornais; tudo isto começa a soar um pouco anacrónico. Há dias o meu amigo Tom Friedman dizia no New York Times que a vida se complicara – e modernizara muito mais a ritmo inédito – em 2007, um ano antes da falência de Lehman Brothers e da magna crise que ainda está connosco quando progressos enormes em diversas áreas técnicas modernas cavaram mais – palavras minhas - a separação entre o mundo que nos criou e o mundo que crie quem nasceu depois da mudança de século. Em 2007 Steve Jobs lançou o primeiro IPhone, Facebook abriu-se a quem quer que tivesse endereço e-mail, invadindo o mundo, Twitter arrancou mesmo, os primórdios de cloud computing apareceram, Kindle pôs no mercado o livro electrónico, IBM produziu o computador cognitivo Watson que faz diagnósticos precisos e sugere tratamentos correctos, etc., etc.

 

E para além de tudo isto uma certa hierarquia de conhecimentos e a vigilância do respeito deles, garantidas pela invenção de Gutenberg e graças a ela largamente difundidas e validadas durante 5 séculos, tem vido a ser sacudida, às vezes mesmo obliterada, quando computadores e internet se oferecem à difusão equivalente de mentiras e verdades. O centro não aguenta as diabruras da periferia; mais: muita gente deixou de saber onde é o centro. Sentimentos de desenraizamento e desconfiança pululam; buscam-se valores seguros na família, na tribo, na nação, na pátria a qualquer preço moral: Brexit, Trump, Duterte nas Filipinas porque, contam o Pecado Original e outras mitologias, somos naturalmente maus. E como reza provérbio islandês: “Não há homem que não goste do cheiro dos seus próprios peidos”.

 

 

 

link do postPor VF, às 11:36  comentar

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