22.6.16

 

 

 

Philippe Wojazer Reuters.jpg© Philippe Wojazer/Reuters

 

 

 

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Europa sem ingleses ? Não, obrigado

 

 

 

Desde o Tratado de Windsor - e da batalha de Aljubarrota – Portugal e a Inglaterra têm tido relações privilegiadas que resistiram ao ultimato inglês de 1890 e a pressão alemã durante a II Guerra Mundial para que a nossa neutralidade nos impedisse de aceitar a instalação de base militar inglesa (e, depois, americana) na Ilha Terceira dos Açores.

 

Potências marítimas, confrontadas por poderes continentais, demo-nos bem assim quando a Europa passou a ser o centro do mundo e também agora, que a União Europeia já não o é. Na quinta-feira (eleições e referendos são às quintas-feiras no Reino Unido), os ingleses - a escoceses e irlandeses do Norte o problema não se põe -, em inusitada manifestação colectiva de falta de bom senso, poderão optar por sair da União. Não acredito que o façam mas, se o fizerem, Portugal deveria começar a pensar em sair também.

 

Temos recebido muito da União, como tínhamos recebido muito das Comunidades Europeias que a precederam. Sem a Inglaterra, porém, a União será um animal político muito diferente do que é agora, contrário ao nosso interesse.

 

Com o Tratado de Roma de 1957, França, Alemanha, Itália e Benelux criaram a Comunidade Económica Europeia. O Reino Unido - isto é, a Inglaterra - não se quis então juntar aos seis fundadores. Poucos anos depois passou a querê-lo mas De Gaulle opôs-se. O alargamento a Reino Unido, Irlanda e Dinamarca fez-se em 1973; quando Portugal aderiu em 1986, já a Inglaterra era um dos ‘Quatro Grandes’. A chamada Construção Europeia fora possível porque, a seguir a seis anos de guerra, os europeus, sobretudo a Alemanha, estavam de rastos e URSS (potência atómica desde 1949) e EUA partilhavam o domínio do mundo em Guerra Fria. Os EUA protegiam a Europa Ocidental: defendiam-nos da Rússia - e defendiam-nos também uns dos outros. Sem uma Rússia que nos aterrorizava e uma Alemanha de rastos não se teria chegado à União Europeia.

 

A URSS colapsou e a Rússia revanchista de Putin não mete medo que se lhe compare. O terror soviético animava forças centrípetas vitais para a Europa; sem ele medram forças centrífugas de nacionalismo (patriotismo é amor aos nossos; nacionalismo é ódio aos outros, Romain Gary). Entretanto, a Alemanha levantou-se do chão, reunificou-se, fez do Eixo Franco-Alemão a trela com que Berlim puxa Paris, ajeitou os Tratados e, sem Inglaterra a bater-se por liberdade económica, defesa forte a Leste e Sul e bom senso em geral, acabaria obtendo em paz – mais por erros dos outros do que por desígnio próprio – o que lhe escapara nas guerras lançadas em 1914 e 1939: domínio incontestado da Europa.

 

Não há país mais longe do fascismo do que a Alemanha de hoje mas há vigências antigas. A saga da austeridade atasca a economia do Continente, afunda o Sul, divide Norte e Sul, com os alemães convencidos de estarem a fazer bem, por bem. Querem livrar-nos dos nossos Demónios e não entendem que a gente queira livrá-los dos Demónios deles. Assim não.

 

 

 

 

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