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Cem anos depois

 

 

 

Ernst Jünger, autor de diários de guerra célebres na Alemanha e também em França – traduzidos na Bibliothèque de La Pléiade (Tomo I: 1914-1918; Tomo II: 1939-1945), sendo o primeiro considerado por muitos o mais belo livro de guerra e o segundo, onde o autor, já homem feito, hostil aos nazis, deixou para trás a excitação do combate e o horror das trincheiras para ser oficial durante a ocupação alemã de Paris, relata com a mesma franqueza a extrema dificuldade de conservar “a sua integridade num mundo onde verdade e moralidade já não têm qualquer expressão visível” – quando lhe haviam perguntado, nos anos de l’entre deux guerres, qual a impressão mais forte que lhe ficara da Grande Guerra, respondera “A pena de a termos perdido”.

 

Lembrei-me dessa resposta com as comemorações do centenário da batalha de Verdun que durou onze meses, matou oitocentos mil soldados sob as bandeiras alemã e francesa vindos de muitas pátrias - no caso da França bem para lá da Europa e da cristandade – e foi ganha sob a égide do Marechal Pétain que ficou herói nacional – quase à altura de Joana d’Arc no altar patriótico que cada francesa ou francês traz dentro da cabeça – até a Alemanha atacar de novo, 20 anos depois de humilhada pela paz de Versailles, tendo Pétain, guindado a Presidente da República, negociado rendição que deixou a Alemanha a ocupar o país e o governo francês, subalterno, sediado em Vichy. De Gaulle, de cujo filho mais velho Pétain fora padrinho, fugiu para Londres, de lá exortou à rebelião pela BBC, organizou a Resistência e foi condenado à morte à revelia. (Os comunistas só passaram a resistir aos nazis depois de Hitler invadir a Rússia em 1941). Com a vitória Aliada em 1945, De Gaulle, entretanto Presidente, amnistiou Pétain que de Leão de Verdun passara a traidor condenado à morte e acabou a vida preso da Ilha de Yeu. François Mitterand, Presidente socialista eleito em 1981, mandava pôr-lhe flores na campa nos aniversários da sua morte.

 

No Domingo, diante do ossuário monumental que guarda milhares de ossadas desconhecidas franco-alemãs, inaugurado em1932 (condenar o horror da Grande Guerra não impediu os chefes de se meterem noutra), François Hollande e Angela Merkel lembraram erros e crimes passados e avisaram de nuvens negras no futuro. De facto, novos fascismos e racismos de sempre atraem muita gente. Na Europa, fronteiras voltam: só a que separa Chéquia e Eslováquia não foi traçada a sangue. A guerra é tao antiga quanto o homem; a paz é uma invenção recente, disse jurista inglês a meio do século XIX.

 

Felizmente há a Bomba (nuclear) para moderar ímpetos mas quanto mais amigos animarem à toa redes sociais e mais jornais com pés e cabeça forem desaparecendo de bancas e écrans, maiores serão as probabilidades de gente que não sabe nada e julga saber tudo ser posta no poder em eleições livres e limpas e o usar muito mal. O puto coreano já é grande susto; meia dúzia de graúdos democráticos serão o fim da picada.

 

 

 

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