25.5.16

 

 

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 Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva

 

 

 

 

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Canários na mina

 

 

 

 

A Palma de Ouro do Festival de Cannes foi atribuída ao realizador inglês Ken Loach pelo filme “I, Daniel Blake”. Também este ano, o prémio Pritzker (espécie de Nobel da arquitectura, criado por família multi-milionária de Chicago, já recebido duas vezes por portugueses: Siza Vieira e Souto de Moura) foi atribuído ao chileno Alexandro Aravena. As duas atribuições têm uma coisa em comum: ao contrário do que costuma acontecer ambas recompensam mais as preocupações sociais dos contemplados do que as suas contribuições arte pela arte, por assim dizer, aos misteres respectivos. Loach conta história desventurosa de um desempregado; Aravena tem projectado para acolher o melhor possível na cidade migrantes pobres do campo. O filme e as construções não ficarão necessariamente entre as mais altas obras-primas do cinema ou da arquitectura.

 

Mas foram premiados, neste ano da graça de 2016, por júris diferentes de artistas, em diferentes continentes, de competência incontestável, porque, às vezes, artistas percebem o futuro melhor que economistas, antropólogos, historiadores, cientistas políticos (longe vá o agoiro…), matemáticos, banqueiros, sindicalistas, mulheres-a- dias, leitoras de sinas ou leitoras de genomas, tal como os cães começam a uivar por pressentirem terramotos antes dos humanos os sentirem ou os canários postos em minas para assim darem o alarme, morrem asfixiados antes dos humanos cheirarem o gás e, com sorte, poderem escapar a tempo das explosões.

 

Como cães em tremores de terra e canários ao fundo de minas, os prémios dos júris de Cannes e de Chicago lembram-nos uma coisa enorme. Desde que o colapso da União Soviética e a emergência dos bilionários chineses passaram certidão de óbito ao comunismo como remédio para os males sociais deste Mundo, o capitalismo tomou o freio nos dentes. Zelo excessivo e mal orientado está a cavar fosso cada vez mais largo entre grupo muito pequeno e muito rico por um lado, e vastas classes baixas e médias com perspectivas de prosperidade cada vez mais ténues e incertas, por outro lado. Coisa de que já sabíamos mas contra a qual, nas sociedades do Sul da Europa, incluindo a nossa, aparecem agora a lutar estudantes e sindicalistas convencidos da bondade do remédio que falhou. O fosso alarga-se. Entretanto em França, na Áustria, na Hungria, nos Países Baixos, a pouco e pouco na Alemanha, a inacção da gente de bem deixa germinar os fascismos do futuro próximo. E nos Estados Unidos, amigo judeu alemão que morreu há dias e lá tinha arribado com Franklin Roosevelt presidente horrorizava-se de ver bruto ignaro como Trump convencer tanta gente a pô-lo na Casa Branca. Uma broncalina do camandro – ou então uma Bernardette do caboz.

 

 

NB – Em Portugal não há extrema-direita porque a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva em 1987 foi mata-borrão que apanhou tudo. E não há extrema-esquerda porque Mário Soares, ao dissolver a Assembleia da República em 1985, lhe tirou o caldo de cultura.

 

 

 

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