16.3.16

 

 

Montaigne

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

All you need is love

 

 

 

E é – diga o que disser o seu administrador de fortuna ou de massa falida, gestor de conta, cabo de esquadra onde tenha de se apresentar todas as semanas até chegar a sua vez na bicha infinda de acesso ao banco dos réus nos nossos tribunais; oncologista recomendado pela mulher de um primo que se deu bem com ele e que ele há quase três anos deu por curada (enquanto o da Caixa indicado pelo médico de família não deu conta do recado e a deixou, leitora, depois de cirurgia e de radioterapia e de quimioterapia – tudo minuciosamente relatado a parentes, amigos e estranhos em estalagens do Minho - sem conforto nem esperança); centro de encontros na net fornecendo aplicação que deteta o homem – ou a mulher - ideal cinco léguas em redondo, tão rigorosa que indica probabilidades de alma gémea de 1% a 100% (está programada para incluir LGBT e, pagando emolumentos dobrados, apenas heterossexuais de qualquer sexo - de maneira que pais e mães convencionais, com aversão a riscos a possam oferecer a filhas e filhos adolescentes) ou, no caso de gente mais à antiga mas moderna bastante para ter sido primeiro convencida por e depois se ter desimaginado de Freud ou de Jung ou de Lacan, bruxo num rés-do-chão à Rua da Boavista especializado na reconquista de entes queridos cujos corações se hajam tresmalhado no vasto mundo, garantindo resultados mesmo a quem as frequências da dor já tenham ensinado a desejos deixar de ser contente (sem aldrabices: ou sucesso ou devolução dos honorários já pagos). All you need is love.

 

Mais do que as duas outras coisas da cantiga – la salud y la platilla – melhor dito, é a única das três coisas da cantiga, que faz milagres comparáveis aos relatados no Antigo e no Novo Testamento, que só Deus conseguiu. (Ateu como eu não deveria escrever isto mas não encontrei melhor figura de retórica para referir the love that you need e explicações verosímeis e cabais conciliando tais estados de graça e as minhas luzes metafísicas, ler-se-iam como folhetos explicativos dentro de embalagens de remédios ou como o small print de contratos propostos por instituições financeiras. Com gentes de outras fés a questão é a mesma. Para um cristão, quem não acredite no Deus de Abraão, Isaac e Jacob não acredita em Deus, ponto final. Montaigne achava que nem sempre: quem, nascido em terras distantes, educado noutras crenças, longe do cristianismo – ou por este não existir ainda ou por estar tão longe dessas terras que nada dele lá fosse conhecido ou suspeitado – acreditasse nos deuses que Deus lhe dera poderia salvar-se. É simpático mas lógicos formais demoliram há muito a verosimilhança do argumento, conhecido no ramo por “falácia de Montaigne”).

 

Salud não faz milagres. Platilla pode fazer cópias que enganam, mas é batota. Amor, sim mas cada um sabe de si. Ignazio Silone escreve no começo de um dos seus livros: estas são algumas das melhores histórias que conheço mas não são as melhores. As melhores, guardo-as para mim.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:30  comentar

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