9.3.16

 

alentejo 4

 

 

 

 

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Alentejo

 

 

 

Robert Lowell dava aula no colégio de All Souls em Oxford. Um estudante quis saber o que é que ele pensava de literatura “engagée”. Que era uniformemente má. O estudante insistiu: “E o livro de Norman Mailer sobre o Vietname?” “O livro de Norman Mailer sobre o Vietname não é sobre o Vietname é sobre Norman Mailer”.

 

Isto à laia de introito ao Alentejo prometido de Henrique Raposo, que é mais sobre Henrique Raposo do que sobre o Alentejo, sem por isso perder qualidade. Li-o com gosto e curiosidade e fico à espera de investigação sistemática e pormenorizada sobre temas nele aflorados – passado de violência e suicídio, por exemplo – para ficarmos a saber melhor o que por lá houve e haja ainda. O que Raposo publicou é estimulante mas é pouco e impressionístico.

 

Sobre suicídio, tinha-me telefonado faz já algum tempo porque há quase meio século publiquei monografia sobre outra parte do Alentejo e oficiais do mesmo ofício gostam de comparar notas. Não pude ser-lhe de grande utilidade: sim, também havia suicídios por onde eu tinha andado – as mulheres normalmente atiravam-se a poços com as saias atadas para não flutuarem; os homens davam tiro de caçadeira na boca, o gatilho puxado pelo dedo grande do pé – e disso já ele sabia. Só agora, lendo o livro, percebi porque é que o fenómeno do suicídio lhe fez tanta impressão e não ma tinha feito a mim. Henrique Raposo tem objecção moral ao suicídio e eu não. Além disso, nado e criado nos arredores de Lisboa, foi tentar perceber a terra donde vinham os seus pais a partir de instituições e valores morais muito marcadas pelas do Norte de Portugal. Para muitos alentejanos, o suicídio, por mal que possa fazer a gente próxima do suicida e por distúrbio na comunidade que cause, não constitui ofensa a Deus porque Deus não existe. E as razões da sua prevalência em terras transtaganas - as estatísticas parecem inequívocas, embora se deva lembrar que, em lugares onde o suicídio seja grande pecado e socialmente muito mal visto, certidões do óbito possam não o mencionar – terão, julgo eu, fundamento histórico simples.

 

Enquanto a cristianização do Norte de Portugal coube ao clero secular de dioceses e paróquias, a cristianização do Alentejo foi sobretudo feita por Ordens religiosas. Se a densidade populacional era mais baixa no Sul do país do que no Norte, a densidade de pessoal religioso era muito mais baixa ainda e, com a extinção das ordens religiosas do Liberalismo, a situação piorou. No começo da República, as coisas não se passaram muito mal: mais padres no Alentejo do que no Norte do país aceitaram ser pagos pelo Estado. Mas em 1960, menos de metade das paróquias tinham pároco no Alentejo: “país de missão”, chamava-lhe a Igreja. Não creio que, entretanto, tenha mudado muito.

 

 

NB Alentejo prometido é interessante e bem escrito. Mesmo que o não fosse, a agressão alentejana a autor e livro por pimpões e pimponas ofendidas, no século XXI e na Europa Ocidental, deixa este alentejano de boca aberta.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:30  comentar

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