24.2.16

 

 

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 All Souls College, Oxford

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ao correr da pena

 

 

 

E.P., que se pronunciava I Pi porque estávamos em Inglaterra e o homem era inglês, Edward Evan Evans-Pritchard no passaporte (os ingleses são anti-jacobinos saudáveis e nem cartões de identidade admitem), Professor de Antropologia Social e Fellow de All Souls na Universidade de Oxford, nesse tempo o mais conceituado oficial do seu ofício em todo o país, baptizado na fé dos pais, dos avós, dos bisavós e por aí acima até ao reinado de Henrique VIII que mandara Roma às urtigas e fundara a igreja anglicana, convertera-se ao catolicismo contra a maré, já homem crescido. Eu vinha de país católico, fora recomendado ao Instituto de Antropologia de Oxford por Ruy Cinatti (que, ao mesmo tempo, me persuadira a mim a ir para Oxford, pois eu ia matricular-me em University College, Londres. Deste fixei regulamento se se faltasse a exame: apresentar atestado de doença ou when appropriate certidão de óbito; o caso mais extremo de insolência funcionária de que me lembre), o Ruy era católico exigente, quase jansenista - “Eu com o Antigo Testamento entendia-me; depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló, estragou tudo!” – enquanto eu me dizia agnóstico mas, quem sabe, talvez fosse mesmo ateu. Pérolas a porco. Sem nunca termos falado dessas coisas, I Pi sabia.

 

Um dia, no pub, a tomar half-a-bitter, disse-me: “Sabe, para se ser católico (to be a Roman catholic) é preciso ser-se muito estúpido ou então muito inteligente”. Deixando-me na ‘no man’s land’ intermédia que me cabia, pediu-me para o ajudar com livro de memórias que lhe mandara pelo correio Hortense Powdermaker, antropóloga americana do seu tempo, que também fora aluna de Malinowski (Malinowski era polaco, de nacionalidade alemã em 1914, fazia trabalho de campo em ilhas no Pacífico do Império Britânico, e fora lá internado durante os quatro anos da guerra, depois ensinara na London School of Economics, deixando-nos uma obra prima “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Conhecia a sua arte de alto a baixo: “A antropologia ensina o administrador a tirar terra ao indígena seguindo os costumes do indígena”.) I Pi ia ser operado às cataratas. “O que é que quer que eu veja?” “Procure-me no índice”. Encontrei várias entradas, li-lhas, gostou do que ouviu, disse que Hortense era boa rapariga e acrescentou pormenores salazes da relação dela com Malinowski. Em coscuvilhice, intriga, ofensas e maledicência, pior do que um departamento universitário nem as cúpulas de um partido político (“enquanto há morte há esperança”) nem as/os prima-donas de uma companhia de ópera. Henry Kissinger acha que essa intensidade desmedida é devida à pequenez do que está em jogo.

 

À leitora que tenha chegado aqui acrescento: se de médico e de louco todos temos um pouco, agora de comentador também. Somos mais do que as coisas a comentar e declaro uma trégua. A Inglaterra sai ou entra? Qual dos Costas tem razão? Obama é mesmo um banana? Deixo palpites para outro dia e fico-me pelas caturrices de I Pi.

 

 

 

link do postPor VF, às 10:20  comentar

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