10.2.16

 

 

 

1974 Largo do Carmo.jpg

25 de Abril de 1974: Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Outro 25 de Abril?

 

 

 

Na manhã do dia 25 de Abril do Ano da Graça de 1974 durante o qual nasceram meninas que caminham agora para balzaquianas – o livro de Balzac que inspirou o adjectivo chama-se A Mulher de Trinta Anos (1842) mas progressos da ciência, desde a pílula ao botox, e aligeiramento dos costumes coevo, do corpete às maminhas ao léu, da ‘menoridade’ perante pais e maridos à liberdade de género e de preferência sexual, foram juntando decénios ao protótipo que estará hoje entre os sessenta e os setenta anos – eu tinha ido cedo da minha casa de Belsize Park para o meu gabinete na London School of Economics onde às oito e meia recebi telefonema da Teresa. O João Monjardino, nosso vizinho em Hampstead, telefonara porque o irmão Carlos, banqueiro em Paris, lhe telefonara dizendo que tinha havido um golpe militar em Portugal. (Tudo telefones fixos; não tínhamos outros na altura). “Da direita ou da esquerda?”, perguntei. A essa hora nenhum dos citados acima parecera saber ao certo mas depressa se percebeu - antes das chegadas do estrangeiro de Álvaro Cunhal e de Mário Soares – e há fotografias do Tareco, marido da Sophia e pai do Miguel, arengando a multidão de cima de uma guarita, diante do quartel do Carmo em Lisboa.

 

A Pátria viveu depois ano e meio de Montanha Russa (às vezes com toque de Montanha Americana diria gente de humor barato, ao qual procuro resistir mas o sentimento estava lá: amigo do peito que já morreu achava que se deveria ter erguido na Outra Banda estátua de Frank Carlucci que pudesse emparelhar com a do Cristo Rei). A 25 de Novembro de 1975 a Montanha Russa parou de repente e nos anos menos sacudidos que se seguiram havia de vez em quando quem se exaltasse: “Se isto continua assim, qualquer dia apanhamos com outro 25 de Abril!”. Aí, o António Alçada Baptista, outro amigo que já lá vai, perdia a paciência. “Outro 25 de Abril? Para isso era preciso outro Estado Novo, outro Império Colonial, outras décadas de reviralho, outra tropa farta de comissões de serviço… Nunca mais.” E recordava muitas tentativas falhadas da oposição portuguesa perante população desconfiada de mudança que parecia aceitar tudo do regime e achar, como lavrador alentejano que conheci no tempo antigo: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há.”

 

Alguém se lembrou de nos oferecer outra volta na Montanha Russa. Talvez dure mais do que os seus inimigos vaticinam. As quatro décadas sem ela acabaram porque em Outubro passado os portugueses não deram votos que chegassem a liberais mascarados de sociais-democratas. Talvez já estejam arrependidos mas, entretanto, também mascarados de sociais-democratas, vieram comunistas que preferem autoridade e mando do Estado a liberdade e iniciativa de cada um. Será que afinal calam fundo em gente que prefira o conforto preguiçoso de estar bem com a lei que há ao trabalho arriscado de tentar ir mudando a lei? Haverão os portugueses de ser sempre os mesmos por não haver outros?

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo