3.2.16

 

 

 

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Luís Sttau Monteiro  1926-1993 

 

 

 

 

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Austeridade

 

 

 

Better nouveau-riche than no rich at all, como eles diziam em Palm Beach. Diziam e hão de dizer ainda, que a espécie por lá não está em vias de extinção. Por cá a história é outra: o primeiro de que me lembro a declarar-se nouveau pauvre foi o Luís Sttau Monteiro no tempo do Almanaque, há um ror de anos - estavam as guerras coloniais a começar.

 

Era um percursor até porque, no geral, havia pouco dinheiro (o Luís um dia, irritado com Joaquim Figueiredo Magalhães, o excelente editor libertino que dirigia a revista, disse-me “Se este gajo continuar a chatear-me despeço-me e o dinheiro que ganho aqui vou prá praia e poupo-o” - Deus tenha as almas dos dois em descanso); a primavera marcelista trouxe algum; o 25 de Abril, reavivando medo salutar da União Soviética, fez os nossos aliados ocidentais abrirem os cordões à bolsa e trouxe mais; pré-adesão e adesão às Comunidades Europeias vieram cobrir o bolo de cerejas. O forrobodó continuou até a aldrabice das ‘subprimes’ e a falência de Lehmann Brothers inaugurarem a grande a crise de 2008 por mor da qual Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, a cujas portas batemos quando reparámos que os cofres estavam vazios, resolveram, por inspiração alemã aceite por todos os governos da União, aplicar-nos o remédio da austeridade.

 

Sempre achei essa receita péssima mas nunca se deve subestimar um povo. Talvez não sejamos descendentes dos que foram à Índia e sejamos, sim, descendentes dos que cá ficaram: pouco importa. No começo do quarto quartel do século XX, em meia dúzia de meses absorvemos mais de meio milhão de refugiados das antigas colónias, sem que houvesse mortos nem feridos, sem gerar uma extrema direita raivosa e com aumento do PIB. Feito colectivo notável, capacidade de encaixe a revelar o estoicismo brando que austeridade e troika trouxeram outra vez para a ribalta nos últimos anos - e estava a fazer-nos sair da crise. Estava. A ânsia de mostrar diferença junta-se a preconceitos ignorantes e à convicção ingénua de que os outros europeus nos querem ajudar.

 

Entretanto, as pessoas que em Portugal consideramos da classe média (sem as quais não há economia que cresça nem cultura que não embote) passaram quatro anos a ver os proventos mirrarem e, pelo andar da carruagem, vão passar assim mais alguns, em vez de recuperarem o gosto do cheirinho a desafogo. Mostraram até agora compostura exemplar mas governo novo, com sangue na guelra, convicto de que o mundo há de querer tratar-nos bem (porque carga de água? Já não há quem se lembre do Syrisa?), excitado por bandarilhas de fogo cravadas pela esquerda apressada que diz apoiá-lo, poderá meter-nos por atalhos inviáveis, esgotar a paciência de quem nos pudesse ajudar e atirar a retoma para as calendas gregas.

 

E nouveaux pauvres cada vez há mais. O que é que se diria deles em Palm Beach? Que seriam melhores do que quê? Do que os pobres sem lembrança de melhores dias que houve sempre? Fraco consolo.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:25  comentar

De Pedro a 8 de Fevereiro de 2016 às 15:58
Mais um Português contagiado pelo vírus do complexo de inferioridade em relação ao norte da Europa, incapaz de perceber como o Euro beneficiou enormemente aquela zona do continente.

De Pedro a 8 de Fevereiro de 2016 às 16:42
E de lamentar o facto de conseguir colocar as coisas exactamente ao contrário do que são: quem pensa que "o mundo" ou a Europa nos quer tratar bem é precisamente a direita, e daí a sua eterna subserviência a quem, os bem informados, sabem que nos querem "tratar mal" ou nos são, no mínimo, indiferentes (Europa).

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