20.1.16

 

 

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 O Nascimento de Vénus - Sandro Botticelli (c. 1485)

 

 

 

 

 

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Depois da Cissiparidade

 

 

 

 

Quando os humanos apareceram sobre a face da Terra a sexualidade já vigorava há muito. O primeiro homo sapiens não surgiu porque homo, menos sapiens e mais amacacado que nós, se tivesse dividido em duas (ou dois). Nasceu como se nasce agora, menino ou menina (em lugares decentes onde se cuida dos outros – algumas florescências da civilização ocidental – estabeleceram-se ultimamente arranjos que burocracias formalizam para não desamparar gays, lésbicas, bis e transsexuais no seu trânsito mortal mas a norma estatística de menina e menino é geral à nascença, desde abismos misóginos da Arábia Saudita a expoentes exaltados de correção política sueca).

 

O jeito que famílias, tribos, polis, derem ao que venha a seguir varia segundo as culturas. Ser culto é ser de um sítio; sítios não faltam e muitos sítios estão a mudar a ritmo cada vez mais acelerado, às vezes confusamente. Mas uma coisa é certa: desde tempo imemorial, em todas as tradições conhecidas, os homens estão na mó de cima e as mulheres na mó de baixo. Há quem pense que houve dantes, aqui e além, sociedades matriarcais mas trata-se da fantasia de inventores de lendas antigas - ou de ingenuidade feminista de hoje. O que houve e há ainda são sociedades matrilineares nas quais estatuto e riqueza passam de uma geração para a geração seguinte só por linha feminina: tal não significa que sejam as mulheres a mandarem e que as mães passem o poder às filhas. Quem manda é sempre o homem, que recebeu a herança do irmão da mãe e a passará por sua vez ao filho da irmã.

 

Outro indicador do longo caminho a percorrer pela emancipação feminina é a mitologia. Desde as últimas décadas do século XIX, europeus e norte-americanos meteram-se a estudar os costumes de tribos chamadas primitivas, gentes sem Deus revelado nem escrita própria, que algumas nem sabiam do resto do mundo, portadoras de religiões e sistemas simbólicos muitas vezes de grande sofisticação. Destes, os muitos que se estudaram arrumam o mundo natural e o sobrenatural de maneiras diferentes mas separando sempre o Bem do Mal. Ora - salvo numa obscura tribo do Uganda - o Homem, como o dia e a mão direita, está sempre do lado do Bem e a Mulher, como a noite e a mão esquerda, sempre do lado do Mal.

 

Ciência, técnica, a força ganha pelo mental sobre o físico, as Grandes Guerras, a pílula anticoncepcional substituíram em sociedades modernas o que se considerava dantes a ordem natural das coisas. Mulheres governam países, chefiam empresas, deitam-se com quem lhes dá na real gana. Nos meus anos de ensino nunca dei porque houvesse maneira masculina ou feminina de pensar. Há, nos dois sexos, quem pense mal e há quem pense bem. Ponto final.

 

Alentejano destribalizado julga que algo terá ficado do tempo que passou. Quadra-se de maneira diferente ao conhecer um homem ou uma mulher e só encontra razões para isso no fundo da pré-história: o homem, poderia um dia ter de o matar; a mulher, poderia ter de lhe fazer um filho.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:45  comentar

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