25.11.15

 

 

 

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Chocalhos

 

 

 

A UNESCO, organização educacional, científica e cultural das Nações Unidas, a que muitos países pertencem, alguns, como nós, por inércia, outros devido a diligência burocrática própria de regimes que sistematicamente violam direitos humanos e julgam que a organização lhes confere respeitabilidade (falta-lhes a lucidez de Groucho Marx: “Eu teria vergonha de pertencer a um clube que me aceitasse como membro”) vai distinguir Portugal no universo do Património Cultural Imaterial da Humanidade - mais uma vez, pois já o tinha feito quanto ao Fado, ao Cante Alentejano e à Dieta Mediterrânica, neste caso sendo a distinção partilhada com Espanha, Marrocos, França, Itália, Grécia e, salvo erro, Tunísia.

 

Agora são os Chocalhos de Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo, distrito de Évora, a subir ao pódio (dizem-me que também ainda há artesãos vivendo de fazer chocalhos na Ilha Terceira dos Açores e em Trás-os-Montes mas foi a ‘comunidade representativa’ das Alcáçovas que meteram à liça e Alcáçovas será o nome que a distinção contemplará). À minha pergunta “Porquê Imaterial?” a resposta veio em duas partes. Primeira, que a UNESCO estabelece a terminologia para os seus programas, prémios e distinções e, a pedido, esclarece termos menos claros a quem, prima facie, não os entenda. Segunda, que é o som dos chocalhos que passa a Património Imaterial por pertencer ao que os antropólogos chamam “paisagens sonoras”, as quais vão mudando, esperando a UNESCO, presumo eu, que a entrada no Património da Humanidade ajude a suspender o desaparecimento progressivo do rumor chocalhal das calçadas da província portuguesa. Palpita-me que seja esforço vão – assim como os que são feitos quando o Estado decide usar dinheiro do contribuinte para salvar empresas cuja vocação é a falência. As Alcáçovas trazem-me outra memória: a mulher de Évora mais bonita do seu tempo (e de todos os tempos entre o seu tempo e o nosso de hoje) que lá viveu pequena, tão inteligente e tão direita que por esse dom e essa virtude mais vezes é lembrada do que pela beleza ímpar. Ainda hoje faz falta.

 

Na UNESCO confirmei uma certeza política e ganhei outra. No Verão de 1974 fiz parte da delegação portuguesa no nosso regresso à organização depois do 25 de Abril em reunião geral que durou várias semanas. Coube-me cobrir sessão noturna em que discursaram representante da Albânia e chefe estudantil do Chile, fugido dos algozes de Pinochet. O albanês demoliu primeiro o Capitalismo, depois o Comunismo Soviético e, quando estava quase a convencer-nos, rendeu elogio abjeto ao camarada Enver Hoxha. Entusiasta, o estudante gabou o paraíso que o país perdera com o fim brutal de Allende e do seu governo.

 

Saí para a noite de Paris confirmado no que pensava dos horrores da Albânia mas convicto de que, se o regime de Allende houvesse durado, o Chile teria passado por muitas e penosas baralhadas.

 

Vem a propósito lembrar isso quando cá se celebra – ou devia celebrar-se – o 25 de Novembro.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:45  comentar

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